Blade Runner 2049

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Um futuro bastante sombrio. Em todos os sentidos. Um mundo pós-catástrofe em que uma nova geração de replicantes é ainda mais obediente e facilmente “escravizada”. Grande parte da Humanidade não vive mais na Terra, e quem ficou para trás vive buscando manter o status quo e a separação entre humanos e não-humanos. Blade Runner 2049 avança na história do clássico original e faz um grande favor para todos nós, fãs de cinema: avança preservando a essência do original e agregando novas e interessantes informações. É um alívio e ao mesmo tempo um deleite ver uma “continuação” de um clássico que não nos decepciona. Pelo contrário. Baita filme. Gigante mesmo.

A HISTÓRIA: Começa com uma grande introdução. Nela, sabemos que após o colapso mundial de 2020, surgiu uma nova geração de replicantes. Estes novos modelos são muito mais “obedientes” que os anteriores. A corporação Wallace assume a frente da nova tecnologia e consegue, com os novos modelos, colocar fim na fome mundial, entre outras conquistas. Os modelos antigos de replicantes, agora, são caçados pelos novos que, a exemplo dos caçadores da geração anterior, também são chamados de Blade Runner’s. Corta. Um olho ocupa toda a tela. Em seguida, um veículo se desloca no céu sobre campos gigantes. Estamos na Califórnia em 1949. E começamos a assistir a mais uma caçada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blade Runner 2049): Antes de mais nada, deixa eu dizer: que filme fantástico! Como é bom assistir à sequência de um grande filme que consegue, com toda a dificuldade que esta tarefa significa, manter o grande nível. Isso não é nada fácil, e a história do cinema está aí para nos comprovar. Normalmente um grande filme, quando ganha uma sequência, tem o seu legado jogado por terra. Para a nossa sorte, dos amantes do cinema, não é isso que acontece com Blade Runner.

Devo dizer que é difícil ir no cinema e assistir a Blade Runner 2049 e não ficar arrepiado e/ou emocionado. Não, eu não cheguei a chorar. Mas sim, por dentro, fiquei muito emocionada. Porque, ainda que faz um tempo que eu assistir ao Blade Runner de 1982, algumas das cenas marcantes daquele filme – e a essência da sua história – continuam bem vivas na minha memória. Então eu vi a este novo filme, brilhantemente conduzido por Denis Villeneuve, entendendo todos os paralelos e toda a homenagem que o diretor fez para o original. E, ainda assim, apesar de todas as referências que o diretor faz para a produção de Ridley Scott (outro gênio do cinema), Villeneuve também consegue deixar a sua marca.

Amigos e amigas, isso não é nada fácil. Tão difícil quanto manter o grande nível de um clássico é você homenageá-lo na medida certa e conseguir, também, deixar o seu próprio estilo na nova obra. E isso é o que esse grande diretor Villeneuve consegue com Blade Runner 2049. Bem, como vocês podem ver, realmente eu gostei muito do filme. hahahahahaha. Porque estou primeiro me derretendo em elogios e nas sensações que eu tive ao assistir a este filme antes de falar propriamente do que eu vi na telona de um cinema praticamente lotado.

Então, após rasgar bastante a seda para Blade Runner 2049, vamos falar sobre a produção. Afinal, é para isso que estamos, não é mesmo? 😉 Primeiro de tudo, achei brilhante a introdução e o cartão-de-visitas do filme. Logo percebemos toda a proposta visual do novo Blade Runner – proposta esta que foi fundamental na primeira produção e que é tão importante quanto nesta nova. O futuro que temos pela frente, exatamente 30 anos depois do que se passa no primeiro filme – que é ambientado em 2019 -, é um futuro pós-apocalíptico.

Ou seja, ainda que moderno, com muitas luzes e publicidades “invasivas” nas grandes cidades, este futuro é ainda mais sombrio e desolado que o que vimos anteriormente. E faz sentido, convenhamos. Qualquer história pós-apocalíptica costuma mostrar os lugares que sucumbiram na mesma medida em que apresenta parte de cidades “reconstruídas”/reordenadas. Então a parte visual de Blade Runner 2049, algo fundamental para a história, é apresentada com muita coerência e de forma muito, muito interessante.

O diretor Villeneuve, juntamente com o grande diretor de fotografia Roger Deakins, mostram toda a sua experiência neste grande desafio de apresentar um filme que busque ser tão marcante quanto o original de Ridley Scott. E, volto a dizer, para a nossa sorte, eles conseguem. O visual de Blade Runner 2049 é fantástico. Convence pelos detalhes e evita o exagero. O que vemos em cena é coerente com a história, com o tempo que passou e com os fatos que aconteceram nos 30 anos que separam uma narrativa da outra.

Mas, como vocês sabem, e eu repito isso um bocado por aqui no blog, tão importante quanto as qualidades técnicas de um filme – e, na verdade, mais importante que isso – é o roteiro da produção. Então vamos falar sobre a história de Blade Runner 2049. Os roteiristas Hampton Fancher e Michael Green, que trabalharam sobre uma história de Hampton Fancher, inspirado nos personagens de Philip K. Dick, foram “tradicionalistas”. Ou seja, eles não fugiram do óbvio – e, ainda assim, conseguiram nos apresentar uma produção bastante instigante e cheia de grandes momentos.

Por que eu digo que eles não fugiram do óbvio? Porque esta nova produção segue um bocado a fórmula do Blade Runner de 1982. Novamente nós temos um policial como protagonista. E a investigação que ele empreende é o que vai determinar o ritmo da história. Mas para filmes como este, agradecemos o caminho tradicional. Porque ele funciona muito, muito bem. Então, mais uma vez, nós temos um policial – desta vez o policial K interpretado por Ryan Gosling – que se depara com uma série de informações inesperadas quando ele vai cumprir mais uma missão normal.

Como o filme explica de forma sucinta naquela introdução que eu comentei acima, o policial K, que faz parte da nova geração de replicantes, tem como uma de suas missões “caçar” e eliminar/aposentar os modelos antigos de replicantes, os “revolucionários” (e por isso “falhos”) Nexus 8. O filme começa quando K vai executar uma destas missões. Ele encontra, em uma fazenda de proteínas, o “renegado” Sapper Morton (Dave Bautista), que sobreviveu à guerra travada em Calantha (um outro planeta em que replicantes guerreiam contra replicantes).

Sapper sabe que não vai sobreviver ao confronto com K, mas ele resiste o quanto pode. E, naquele momento, temos a primeira “pílula” de filosofia da produção – como bem manda o figurino de Blade Runner. Sapper comenta que K está matando os seus semelhantes porque ele acredita que só pode fazer aquilo. E ele só acredita no que lhe ordenam porque ele nunca viu a um milagre. Esta é uma ótima introdução. Porque, evidentemente, o que o filme nos propõe é a, justamente, nos falar deste milagre.

Blade Runner 2049, assim, nos apresenta logo de cara a sua essência. Ele é sim uma evolução do clássico Blade Runner. Uma continuação. Os fatos que vemos agora estão totalmente ligados – e são dependentes – do filme anterior. Então, meus caros, nem preciso dizer que é essencial você ter visto o primeiro filme para realmente entender o que se passa neste segundo filme, não é mesmo?

A impressão que eu tive no cinema, onde algumas pessoas saíram antes do fim do filme – seja de forma definitiva, seja volta e meia para comprar pipoca e afins – é que nem todos tiveram o cuidado de saber onde estavam “se metendo”. Ora, você não deveria ir no cinema sem ao menos saber que a produção que você vai assistir é uma continuidade de outra, não é verdade? Quanto desperdício de tempo e de entendimento… Certamente aquelas pessoas poderiam estar se deliciando com o filme tanto quanto eu – mas não. Enfim. Minha recomendação é que você realmente assistia a continuações depois de ter assistido à primeira (ou segunda, ou terceira, etc.) parte e que antecedem o que você está vendo.

Dito isso, voltemos para Blade Runner 2049. Algo que eu achei brilhante no filme é que Villeneuve não cede à ânsia da geração “filmes de HQ” e não acelera com a história. Muito pelo contrário. A exemplo do Blade Runner original, Villeneuve apresenta a sua nova história com um ritmo cadenciado e preciso, sem pressa e sem exageros. Tudo é apresentado com esmero, com cuidado, em uma narrativa que lembra mais os filmes europeus do que a profusão de efeitos especiais da era “Hollywood-HQs”. Francamente? Não poderia ser diferente.

Caso Villeneuve tivesse exagerado na dose dos efeitos especiais e apresentado uma narrativa acelerada, não teríamos algumas das melhores qualidades do Blade Runner original – e da sua “segunda parte”. Então o roteiro de Fancher e de Green e a condução segura de Villeneuve preservam o essencial do primeiro filme, que é focar em uma boa construção de um protagonista carismático e abrir frente para alguns questionamentos filosóficos. Verdade que o Blade Runner original era mais filosófico sobre a essência do que é ser humano e do que é “verdade”, sobre o que foi criado e o que foi gerado, mas neste novo filme temos novamente estas questões pela frente.

Então, a exemplo da produção de 1982, novamente é um policial – um Blade Runner – que nos conduz pela história. No original, Deckard (interpretado por Harrison Ford naquela primeira produção e agora) tem a missão de caçar um grupo de replicantes rebeldes e eliminá-los. Nesta sua busca, ele questiona a separação entre humanos e replicantes – que não são androides, como bem explica este vídeo do Sr. Elegante – e a própria sociedade em que esta divisão é baseada.

Pois bem, em Blade Runner 2049 várias questões similares são apresentadas. Para começar, um tema que me pareceu “gritar” no filme é o perigo de uma grande corporação como a Wallace dominar a sociedade. Assunto fundamental, eu diria, não apenas para o nosso tempo, mas para a possibilidade de futuro que temos. Hoje, cada vez mais grandes corporações se juntam/se compram e viram conglomerados gigantes que ameaçam “dominar o mundo”. E isso é algo muito presente em Blade Runner 2049.

A questão do papel de cada um – humanos e replicantes – também é novamente colocada em cena. Realmente uma civilização pode se sentir feliz e com a “consciência tranquila” sabendo que está novamente escravizando milhões de seres? Em Blade Runner 2049, a exemplo de Blade Runner, aparentemente está “tudo bem” porque os replicantes, no fim das contas, “não são humanos”. Então, como eles foram “criados” e não foram “gerados”, eles podem ser usados e descartados. Mas é isso mesmo?

Interessante que Blade Runner 2049, ao mesmo tempo que preserva a essência do clássico de 1982, também subverte uma questão importante da produção de Scott. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No Blade Ranner de 1982 – na versão final do diretor, atenção! -, descobrimos que Deckard é um replicante apenas no final. Até então, segundo a história, eramos levados a crer que ele era humano – e, por isso, estava “tranquilo” em caçar o que era diferente dele. No final, contudo, temos aquela reviravolta brilhante do roteiro de Hampton Fancher e de David Webb Peoples.

Pois bem, vejam que genial… em Blade Runner 2049 nós temos claro que o protagonista é um replicante desde o início. Não há dúvidas quanto a isso – percebam, ele acaba sendo o “inverso” do Deckard de Blade Runner, quando acreditamos que o protagonista é humano desde o princípio. Conforme Blade Runner 2049 se desenrola, contudo, tudo parece nos levar a crer que o replicante K não foi criado e sim gerado. Mas como ele é filho de dois replicantes – Deckard e Rachael (interpretada, no original, por Sean Young), o que ele ser gerado e não criado o torna?

Brilhante, não? Afinal, o que torna os replicantes diferentes dos humanos, na essência, é que eles são criados. Como aquele vídeo do Sr. Elegante bem nos lembra, os replicantes não são androides e não são clones. Ou seja, eles tem pele, carne, osso e órgãos como um humano. A diferença deles para nós é que eles são incapazes de sentir – ao menos era isso que acreditava e o que o Blade Runner de 1982 questiona – e que eles são criados e não gerados. Mas aí surge o Blade Runner 2049 com o seu “milagre”: um replicante que foi gerado.

Novamente, pois, temos o questionamento sobre uma civilização que é construída sobre a separação de duas espécies e sobre a supremacia de uma sobre a outra. Consequentemente, claro, temos o debate sobre a humanidade querendo fazer o papel de Deus. A partir do momento que avançamos tanto o nosso conhecimento científico ao ponto de podermos criar seres inteligentes e capazes até de sentir, o que fazemos com tudo isso? Viramos um Deus que escraviza e que subjuga ou um Deus que acolhe e que dá oportunidades para todos?

Os questionamentos do Blade Runner de 1982 seguem atuais e ganham novas perspectivas com o filme Blade Runner 2049. A escravidão é um dos fatos mais lamentáveis da história da humanidade. Mas esses filmes futuristas mostram que pouco aprendemos com o passado. Não importa se estamos falando de semelhantes ou de diferentes, já deveríamos ter aprendido que não podemos subjugar ninguém. Sobre estas questões, assim como o que nos faz humanos, é sobre o que os dois Blade Runner tratam.

A exemplo da produção de 1982, o novo filme também trata de uma investigação policial que, no fundo, é uma desculpa para uma jornada de autoconhecimento. O protagonista deste novo filme, muito bem interpretado por Ryan Gosling – que já é um dos grandes nomes de sua geração -, novamente acaba se descobrindo em um processo de saber quem ele é de verdade. E as respostas que ele alcança – incluindo aí uma bela reviravolta na história – são maravilhosas. Afinal, o que é uma lembrança de verdade? Afinal, o que é sentir de verdade? Todas estas questões filosóficas são levantadas pelo filme – e respondidas com esmero.

Todos nós somos “programados” a sentir e a pensar. Podemos ser “programados” a sentir ódio ou amor. Um replicante também, segundo os dois Blade Runner, pode ser programado a sentir estas e outras coisas – como nós, diga-se. Então o que nos diferenciaria, de verdade? Em Blade Runner 2049 uma pergunta fundamental que K faz é se as lembranças que ele tem de infância são reais ou foram criadas. E é assim que ela acaba conhecendo a Dra. Ana Stelline (Carla Juri) – a grande “surpresa” da produção.

Sim, a memória que ele tem da infância é real. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, você já sabe). Nós nos emocionamos quando algo é real. A Dra. Ana se emociona ao ver a memória de K, e ele afirma que sabe que aquilo é real. O que vamos descobrir depois é que aquela memória é real, mas não é dele. Mas na reta final da produção, K se questiona – e ele não precisa verbalizar isso – se era real o que ele sentia por Joi (Ana de Armas) e o que, afinal, é real para ele. Sim, o sentimento dele por Joi era real, assim como é real a neve que ele sente cair sobre o seu corpo no final.

Então, se os replicantes sentem/vivem da mesma forma com que os humanos, que direito esta segunda civilização tem de subjugar a primeira? Estas são questões levantadas pelos dois filmes e que continuam atuais, muito atuais. Também achei importantíssima a forma com que Blade Runner 2049 questiona uma sociedade em que uma grande corporação manda mais do que as autoridades – com bastante facilidade Luv (Sylvia Hoeks) mata quem estiver pela frente, seja humano, seja replicante. Daí nos perguntamos: em que tipo de sociedade com grandes corporações vigiando a quase tudo e todos nós mesmos estamos nos metendo?

Além de tudo isso, este filme sabe valorizar muito bem a construção da narrativa. Sabemos por onde a história vai e, mesmo assim, o roteiro nos reserva algumas surpresas interessantes. Também é importante que Blade Runner 2049 sabe valorizar muito bem o “grande encontro” tão esperado entre K e Deckard. Esse encontro demora para acontecer, e isso é positivo.

Quando finalmente chegamos no “face to face”, é quase impossível não se emocionar. É maravilhoso! Além disso, o filme sabe render muitas homenagens bacanas. Primeiramente, para o próprio Blade Runner de Scott. E, depois, para vários elementos da cultura humana que marcaram época e que são devidamente reverenciados neste filme – como Elvis e Frank Sinatra, entre outros.

Enfim, não importa sob que ótica olhemos para este filme. Se analisamos a sua história e a forma com que ela está ligada de forma umbilical com o Blade Runner de 1982; ou se analisamos a construção visual, a direção detalhista e dinâmica de Villeneuve; a construção dos personagens e da narrativa; o gostinho de “quero mais” e a expectativa que o filme deixa para uma continuação… enfim, qualquer aspecto do filme, tanto técnico quanto narrativo, funciona com perfeição.

Quando eu sai do cinema, fiquei pensando sobre que nota eu daria para a produção – depois de ficar um tanto “perplexa” e “maravilhada” com o que eu tinha visto. Pensei, pensei muito, e me questionei se não seria um “exagero” dar a nota máxima para Blade Runner 2049. Afinal, este filme é uma continuação de um dos grandes clássicos de todos os tempos. Mas daí refleti sobre tudo que eu comentei acima, de como este novo filme faz jus e homenageia de maneira perfeita o anterior… de como ele continua bem a história. Pensei em todas as qualidades citadas e conclui: sim, ele merece a nota abaixo. Com louvor. Dificilmente eu assisti a um filme mais de uma vez. Mas acho que vou colocar Blade Runner 2049 nesta seleta lista. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse é um filme que, facilmente, rende um texto gigantesco. Como vocês viram acima. 😉 E isso porque eu nem vou esgotar o assunto de Blade Runner 2049 aqui neste texto. Decidi apenas focar nos pontos principais – do contrário, realmente este texto ficaria gigante demais. E, sou franca, tenho me policiado um pouco nisso. Não quero me estender demais…

Esta semana a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de 92 países que estão concorrendo a uma vaga na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira da premiação que será entregue em 2018. Ou seja, já comecei a ir atrás destas produções para começar, logo mais, a sequência de críticas aqui no blog com vistas ao Oscar 2018. Mas aí que veio a surpresa de assistir a Blade Runner 2049… e, claro, é ainda cedo para fazer apostas para o próximo Oscar, mas eu desconfio que este filme será lembrado.

Sendo assim, meus caros, começo com este maravilhoso Blade Runner 2049 a seção “Oscar 2018” aqui do blog. 😉 Estamos muito longe ainda da premiação da Academia. Então não dá para saber quais são todos os favoritos e se Blade Runner 2049 terá fôlego de chegar com força até o Oscar. Mas, da minha parte, acho sim que seria uma grande falha da Academia se eles não indicassem este filme em algumas categorias. Para começar, pelas óbvias, técnicas. Acho que Blade Runner 2049 tem boas chances de concorrer como Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Diretor e, quem sabe, podendo concorrer até 10 produções, como Melhor Filme. Ou seja, não seria difícil o filme receber a partir de seis ou oito indicações – podendo superar este número.

Tudo vai depender do lobby que será feito para esta produção e sobre a capacidade de Blade Runner 2049 chegar com força no próximo Oscar. Poderiam rolar algumas indicações para elenco? Certamente. A conferir.

Bem, sobre as qualidades técnicas do filme, já dei uma prévia acima ao citar as categorias para as quais esta produção pode se credenciar no Oscar. Para começar, a direção de fotografia de Roger Deakins é algo espetacular. Ele faz um trabalho primoroso, assim como Denis Villeneuve ao valorizar cada elemento que ele tinha em cena. Assisti Blade Runner 2049 em um cinema 3D. Este recurso foi bem usado, ainda que ele apareça mais para ajudar na profundidade das cenas e de forma pontual em alguns detalhes – mas não é algo realmente exuberante. A parte bela fica realmente com a construção visual da produção. Ou seja, precisamos tirar o chapéu para Deakins e para o design de produção de Dennis Gassner. Brilhante o trabalho dos dois.

Desta parte técnica e visual do filme, vale ainda comentar o ótimo trabalho de David Doran, Bence Erdelyi, Lydia Fry, Paul Inglis, Tibor Lázár, Gergely Rieger, Stefan Speth e Zsolt Tarnok na direção de arte; o de Alessandra Querzola com a decoração de set; o de Renée April nos figurinos; o trabalho dos 109 profissionais do departamento de arte; os 38 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; e o trabalho excepcional do impressionante número de 381 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais da produção.

Um outro aspecto que eu achei maravilhoso no filme é a trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch e de Hans Zimmer. Francamente? Acho que ela também poderia ser indicada ao Oscar. Ainda que eu acho que, por ser mais “experimental” e quase cirúrgica, a trilha sonora de Blade Runner 2049 tenha uma certa “dificuldade” de cair no gosto da Academia ao ponto de ser indicada. Mas não seria surpreendente se o fosse.

Este filme é todo feito com esmero. Dá para perceber isso. Cada aspecto visual foi bem pensado e planejado, assim como cada elemento que compõe a produção – da trilha sonora até a escolha do elenco feita à dedo. Também é muito bacana ver que Hampton Fancher, responsável pelo ousado roteiro da primeira produção, voltou a assumir este papel de liderança neste novo filme. Importante.

Harrison Ford é Harrison Ford. Ele é um dos atores mais carismáticos e com uma trajetória das mais incríveis da história do cinema. Mas, guardadas as devidas proporções, Ryan Gosling consegue ser tão carismático quanto Ford ao protagonizar, como este grande ator, um Blade Runner. Villeneuve, claro, ajuda muito Gosling neste processo – assim como Scott ajudou, na sua época, Ford. Enfim, quem assistiu ao clássico não sofre muito com um novo protagonista. Muito pelo contrário. Gosling consegue com louvor despertar um real interesse pelo seu personagem.

Este filme tem alguns belos atores em seu elenco. Claro que a história orbita totalmente ao redor do personagem de Gosling. Ele é o protagonista e a pessoa que dita a narrativa. Mas outros atores também fazem um belo trabalho sempre que aparecem em cena. Neste sentido, claro, impossível não elogiar o excelente trabalho de Harrison Ford – que aparece menos do que gostaríamos, mas está maravilhoso. Tem uma presença maior e estão muito bem a ótima Robin Wright como a chefe de polícia Joshi; Ana de Armas encantadora como Joi, namorada virtual de K; Sylvia Hoeks como a vilã perfeita como Luv; Jared Leto enigmático como o mega empresário Niander Wallace; e Mackenzie Davis ótima como Mariette, uma garota de programa que se revela mais do que isso no final.

Além destes atores, que tem uma relevância maior na história, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Dave Bautista como Sapper Morton; Lennie James (conhecido por The Walking Dead) como Mister Cotton, explorador de crianças no orfanato; Barkhad Abdi como Doc Badger, contrabandista que ajuda o protagonista a identificar a origem do cavalo de madeira; Tómas Lemarquis que recebe K e o ajuda no início da investigação sobre a “replicante que foi mãe”; Edward James Olmos novamente como Gaff; e Hiam Abbass como Freysa.

Honestamente, eu espero que surja uma sequência de Blade Runner 2049 logo. Afinal, esta nova produção terminou com um gostinho de quero mais e levantando uma lebre super interessante de ser explorada em um novo filme. Torço para que a dupla Fancher e Villeneuve voltem a trabalhar juntas… e logo. 😉

Por falar no Villeneuve. Este diretor canadense tem 16 produções no currículo, entre curtas e longas e, para mim, é um dos diretores mais interessantes do mercado atualmente. Eu não assisti a todos os filmes dele, mas gostei de tudo que eu vi até agora. Aqui no blog eu tenho comentados, de Villeneuve, os filmes Prisoners, Enemy e Arrival. Todos acima, bem acima da média. E agora ele nos entrega este brilhante Blade Runner 2049… realmente precisamos ficar de olho em Villeneuve e no que ele nos apresenta.

Vou aproveitar que acabo de falar do diretor para começar a minha lista de curiosidades sobre esta produção com um comentário de Villeneuve. Ele falou sobre a enorme pressão que ele estava sentindo para fazer Blade Runner 2049: “Eu sei que cada fã (do filme original) vai entrar no cinema com bastão de beisebol. Estou ciente disso, e respeito isso. Estou bem com isso porque isso é arte. E a arte é um risco, e eu tenho que correr riscos. Este será o maior risco da minha vida, mas eu estou bem com isso. Para mim, é muito emocionante… é tão inspirador! Estou muito inspirado. Sonho em fazer ficção científica desde os 10 anos de idade e eu disse ‘não’ para muitas sequências (de filmes). Mas eu não podia dizer ‘não’ para Blade Runner 2049. Eu amo demais o filme e então eu disse ‘Tudo bem, vou fazer este filme e dar tudo de mim ao fazê-lo”. Como não admirá-lo?

A primeira escolha de Villeneuve para o personagem de Wallace foi David Bowie. Mas o artista faleceu antes do início das filmagens. Realmente teria sido incrível Bowie como Wallace…

A cena que dá início para a produção, do confronto de K com Sapper Morton, é uma filmagem praticamente exata de uma sequência escrita e com storyboard feito para o Blade Runner original mas que nunca foi rodada.

Inicialmente, Villeneuve resistiu à ideia de fazer uma sequência para Blade Runner porque ele achou que poderia “estragar” a visão que as pessoas tinham do original. Mas quando ele leu o roteiro que, segundo Villeneuve e Harrison Ford, foi um dos melhores que eles já leram, o diretor resolveu embarcar no projeto. Antes mesmo do diretor aceitar o desafio, Harrison Ford já tinha se comprometido com o filme – assim como Ridley Scott, que é um dos produtores executivos da produção.

Existem três curtas planejados para “preencher” a lacuna temporal entre o primeiro Blade Runner e o segundo filme, Blade Runner 2049. O primeiro curta, comentado neste post, é Black Out 2022 – aliás, interessante ver aquele link porque ele traz uma cronologia importante dos fatos entre 2019 e 2049. O segundo curta, 2036: Nexus Dawn, e o terceiro, 2048: Nowhere to Run, completam a trilogia com fatos importantes da história. O primeiro dos curtas é dirigido por Shinichirô Watanabe, e o segundo e o terceiro, por Luke Scott.

O papel do novo Blade Runner, K, foi escrito tendo o ator Ryan Gosling em mente. E ele foi sempre a primeira e única opção do diretor Villeneuve.

Blade Runner teve várias versões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas na última lançada é que fica claro que Deckard é um replicante. Nas demais, a dúvida sobre ele ser humano ou um replicante fica no ar – e depende de cada espectador chegar a uma resposta. O diretor Denis Villeneuve disse que ele tentou deixar esta questão sobre Deckard no ar também no novo filme. “Eu amo o mistério. Adoro sombras. Adoro dúvidas. Gostaria apenas de dizer para os fãs que cuidamos deste mistério”, comentou o diretor.

Falando nas diferentes versões de Blade Runner, Villeneuve disse que ele sempre foi marcado pela primeira versão – aquela da qual Ridley Scott não gosta – e, depois, ficou impressionado também com o “Final Cut” (a versão final de Scott). Então ele desenvolveu o seu próprio filme se inspirando nestas duas versões de Blade Runner.

Para fazer o papel do cego Niander Wallace, o ator Jared Leto utilizou lentes de contato opacas que, de fato, faziam com que ele não enxergasse nada.

Agora, uma curiosidade pessoal sobre esta produção. Eu fui para o cinema crente que Blade Runner 2049 tinha poucos minutos além de duas horas. Vi mal a duração… e por mais que eu achei a produção um pouco longa, enquanto estava no cinema – não parei para ver a hora em momento algum -, eu não senti que o filme tem realmente as 2h43 que ele tem. Curioso, não? Sim, enquanto estamos assistindo a esta produção, achamos ela um pouco longa… mas, ela acaba passando mais rápida do que o tempo que ela realmente tem.

Faço uma pausa aqui para publicar esta crítica e depois volto para mais curiosidades sobre a produção… 😉

Voltando… 😉 Olhem que curioso… Joi sugere para K, que pode estar descobrindo uma nova origem para si mesmo, o nome de Joe. Joe vem de Joseph. O personagem Josef K é o protagonista de um dos romances de Kafka, onde este protagonista é acusado de um crime. Mas nunca fica claro, exatamente, qual seria este crime que ele teria cometido. Essa pode ser uma metáfora para a própria vida do K de Blade Runner 2049. Afinal, ele tem toda a sua existência questionada e não sabe muito bem como isso acontece.

A data escrita no cavalo, e uma peça importante da história, 6.10.21, marca quatro anos no futuro em relação à data de estreia de Blade Runner 2049 – que teve a estreia mundial em 6 do 10 de 2017. 😉

Ridley Scott pensou em, inicialmente, dirigir Blade Runner 2049. Mas como Alien: Covenant acabou ocupando grande tempo do diretor e simultaneamente, Scott resolveu atuar apenas como produtor executivo e consultor criativo do novo Blade Runner.

Falando sobre uma possível continuação deste filme, achei uma declaração interessante de Ridley Scott. Segundo o diretor do primeiro Blade Runner e produtor deste segundo filme, Harrison Ford vai retomar mais uma vez o personagem de Deckard. “Conversamos por um longo tempo sobre como poderia ser esta continuação, e surgiu uma história de três atos muito forte. Tudo faz sentido em como estas histórias se relacionam com a primeira”, comentou. Ou seja, provavelmente teremos ainda uma terceira parte – e Blade Runner seria, assim, uma trilogia. Estou na expectativa já. 😉

Blade Runner 2049 estreou no dia 4 de outubro no Festival de Cinema de Zurique e em dois países, a França e a Bélgica. No Brasil e em outros países ele estreou no dia 5 de outubro e, nos Estados Unidos, apenas no dia 6.

Esta produção foi rodada em diferentes locais da Hungria e teve algumas cenas rodadas na Espanha e na Islândia – estes dois últimos países foram utilizados apenas para cenas aéreas.

Um dos filmes mais aguardados do ano, Blade Runner 2049 também pode fazer uma bela trajetória de prêmios. Para começar a sua coleção, ele já abocanhou dois: Melhor Teaser no Golden Trailer Awards e “Most Anticipated of 2017” segundo o Indiewire Critic’s Poll.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Canadá.

Blade Runner 2049 recebeu a nota 8,6 dos usuários do site IMDb – uma nota excepcional para os padrões do site, devo dizer – e ganhou 212 críticas positivas e 27 negativas segundo os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Esse nível de aprovação acaba sendo de 89% no Rotten Tomatoes, com uma nota média de 8,2.

Não tenho dúvidas que Blade Runner 2049 será uma das maiores bilheterias do ano. Dá para sentirmos isso com o resultado do filme no seu final de semana de estreia: ele entrou em cartaz no dia 6 de outubro nos Estados Unidos e faturou, até o domingo, dia 8, US$ 31,52 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 50,2 milhões. Ou seja, em poucos dias, faturou US$ 81,7 milhões. O custo de Blade Runner foi de US$ 150 milhões. Ou seja, pelo andar da carruagem, facilmente ele vai obter um belo lucro. Sem contar que esta produção tem grandes chances de levar as pessoas para uma segunda vez no cinema – será o meu caso. Então a trajetória dele será de belo lucro por semanas.

CONCLUSÃO: Blade Runner, o original, marcou época, inspirou vários outros filmes e se tornou um dos grandes filmes do gênero. Como outras produções, pensar em um filme que seja a continuidade de algo tão bom sempre dá medo. Mas aí vem o diretor Denis Villeneuve, um dos grandes de sua geração, e nos apresenta algo coerente, interessante, marcante. Claro, não é revolucionário como o original. E, cá entre nós, para este gênero, acho improvável que algo revolucionário ainda surja. Mas um filme não precisa ser revolucionário para ser ótimo. E este é o caso de Blade Runner 2049. Agora, para você saber exatamente tudo que este filme agrega, importante ter visto o primeiro Blade Runner. Esta continuação está à altura do original, mas com alguns elementos que fazem os fãs delirarem. Um grande deleite. Marcante e, para mim, inesquecível.

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E o Oscar 2014 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

86th Oscars®, Governors Ball Preview

Boa noite minha gente!

Pelo sétimo sexto ano consecutivo vou acompanhar a entrega das estatuetas douradas do Oscar com vocês.

A expectativa é boa para este ano porque a disputa está bem acirrada em diversas categorias da maior premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Tenho certeza que em algumas categorias o prêmio será decidido por poucos votos.

O canal E! Entertainment começou a transmissão do tapete vermelho ao vivo às 19h30min, no horário de Brasília, mas o clima começou a esquentar agora, perto das 21h. Uma das figuras interessantes da noite e que acaba de chegar é o ator Jared Leto, todo de branco, com uma gravata borboleta vermelha e os cabelos longos soltos. Para o repórter ele comentou que gosta de roupas antigas. Leto é o favorito da noite na categoria Melhor Ator Coadjuvante por seu trabalho em Dallas Buyers Club.

Das pessoas que já chegaram, outra que chamou a atenção pela roupa foi a atriz Lupita Nyong’o, indicada como Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em 12 Years a Slave. Ela surgiu com um vestido azul claro Prada interessantíssimo e foi bem comentada. O canal TNT também está transmitindo direto do tapete vermelho.

O ótimo ator inglês Benedict Cumberbatch, que não foi indicado a nada este ano mas que participa de quatro produções indicadas (a saber: 12 Years a Slave, August: Osage County, The Hobbit: A Desolation of Smaug e Star Trek Into Darkness), destacou o trabalho de equipe feita em 12 Years. A produção é uma das favoritas na categoria Melhor Filme. Logo veremos se ela terá força de desbancar The Wolf of Wall Street, Gravity e American Hustle.

A favorita da noite segundo muitas bolsas de apostas na categoria Melhor Atriz, Cate Blanchett, aparece belíssima. Ela comenta que achou fascinante interpretar a personagem trágica e complexa de Blue Jasmine. Linda. Vestida para brilhar com uma roupa de Giorgio Armani – sob medida para ganhar a estatueta. Acredito que apenas Sandra Bullock e Amy Adams poderiam surpreender e tirar o prêmio dela – mas meu voto, na verdade, iria para Meryl Streep.

Segundo a votação feita aqui no blog, quase 40% dos leitores aqui do blog acreditam que Gravity saíra da noite de hoje com o maior número de estatuetas da premiação. Em seguida aparecem 12 Years a Slave (com 17,5% dos votos) e Her (com 15% dos votos). Concordo com a maioria. Gravity deve sair com vários prêmios técnicos e ganhar dos demais concorrentes no número de estatuetas. Mas acho que os prêmios principais (Melhor Filme, Diretor, Atriz e Ator) serão partilhados por três ou até quatro filmes.

Outro vestido totalmente de branco a aparecer foi Matthew McConaughey. Mas a gravata borboleta dele é preta, diferente do parceiro de cena, Jared Leto, com gravata do mesmo tipo vermelha. Ele apareceu lindo ao lado da esposa, a brasileira Camila Alves, e da mãe dele. Em seguida, mostraram Jennifer Lawrence de vestido vermelho fazendo o que? Caindo, é claro. hehehehehe. Acho que esta é a atriz mais atrapalhada de Hollywood – e uma das mais talentosas de sua geração.

lupitaarrival1Na revisão feita pelos comentaristas do E! Entertainment destacaram muito Charlize Theron com um vestido preto que valorizou um belíssimo colar. De fato, a atriz é uma diva, uma das mais bonitas da noite. Elogiaram também Amy Adams em um Gucci azul – mas eu, francamente, não achei que o vestido caiu tão bem nela, ainda mais se comparada com Charlize Theron. Mas não há dúvidas, até o momento, que Lupita Nyong’o é o destaque da noite.

Comparado com outros anos, estou achando esse tapete vermelho um tanto morno. Os atores estão bem treinados. Exemplo: Chiwetel Ejiofor aparece entrevista após entrevista comentando que conhecia o autor Solomon Northup, que narrou a própria história no livro 12 Years a Slave, e que só se entregou ao projeto depois de refletir muito sobre ele. Também tenho a impressão que não há muita novidade no visual dos astros e estrelas. Veremos se a premiação consegue nos surpreender um pouco mais.

Voltando para os comentários de moda, destacaram bastante o vestido vermelho de Jennifer Lawrence, mesmo dizendo que ela foi ousada em investir nesta cor (que daria azar para quem quer ser premiado) e também o vestido preto de Julia Roberts. Anne Hathaway, que normalmente é um dos destaques nas premiações, escolheu um belíssimo Gucci para o Oscar 2014. Muito interessante o vestido preto e prateado que ela escolheu.

Faltando menos de meia hora para a premiação começar, Jonah Hill e Bradley Cooper emocionadíssimos no tapete vermelho. Os dois tem razões para comemorar, já que conseguiram ser indicados na categoria Melhor Ator Coadjuvante. No TNT, Lupita Nyong’o comenta que fez aniversário na véspera e que foi ótimo ver 12 Years a Slave ser bem premiado no Spirit Awards.

Ana Maria Bahiana, a quem admiro e sempre acompanho, comentando no Twitter que o Matthew McConaughey pulou o cordão de segurança e foi cumprimentar o público, apertando a mão de vários fãs. Mais uma razão para ele ganhar a estatueta hoje à noite. Outras mais? Além da humildade e simpatia, o ótimo trabalho em Dallas Buyers Club e a ótima fase na carreira.

Sandra Bullock está linda em um vestido azul. A atriz destacou que Gravity mudou a sua vida, tornado ela um pouco menos complexa. Na revisão das 24 horas que antecederam a festa do Oscar, o canal TNT mostrou como havia chovido horrores em Los Angeles e destacou o trabalho de centenas de pessoas na preparação do Oscar – achei curiosa, em especial, a determinação de cada assento no Dolby Theater, com cada astro e estrela identificado com um cartaz com suas respectivas fotos. Só faltava um “Wanted” no material. 🙂

Faltando menos de cinco minutos para a cerimônia começar, Kevin Spacey fala do sucesso da série House of Cards. A segunda temporada veio arrasadora. Para quem ainda não assistiu, eu recomendo. Em poucos minutos vamos saber como vai se sair a anfitrião do prêmio Ellen DeGeneres e qual será a característica do Oscar deste ano – se ele vai seguir a maioria das apostas ou trará muitas surpresas para os fãs de cinema.

Pontualmente as 22h30min no horário de Brasília começou a cerimônia do Oscar. Ellen DeGeneres foi bem aplaudida e começou brincando que os últimos dias foram muito difíceis porque estava chovendo. 🙂 Ela comenta que retornou para a premiação depois de sete anos, e que muitas coisas mudaram no período… Cate Blanchett, Meryl Streep, Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese haviam sido indicados anteriormente. 🙂 Mas ela também destaca as estreantes da noite, como June Squibb, Lupita Nyong’o e Barkhad Abdi. Começou muito bem.

DeGeneres também destacou a presença dos verdadeiros Capitão Phillips e Philomena, e brincou com a Liza Minnelli dizendo que estava presente um de seus melhores imitadores. Nada como ter uma apresentação como um ótimo texto! Isso faz toda a diferença. O Oscar acertou este ano. Mas ela não escapou da tradicional piada com Meryl Streep que foi indicada 18 vezes ao Oscar.

Em seguida, ela foi rápida tirando sarro de Jennifer Lawrence, brincando que não iria lembrar sobre o que aconteceu no ano passado… que ela caiu quando foi receber o Oscar. Comentou que não iria mostrar o vídeo relembrando a cena, mas que ela poderia relembrar isso ao pensar na queda que teve ao sair do carro na noite de hoje. hehehehe.

dallasbuyersclub5Na primeira entrega da noite, Anne Hathaway foi ao palco para apresentar os candidatos na categoria Melhor Ator Coadjuvante. O favorito, sem dúvida, é Jared Leto. Após o clipe de cada trabalho, muitas palmas da plateia. Os mais aplaudidos, me pareceu, foram Barkhad Abdi, Jonah Hill e Jared Leto. E o Oscar foi para… Jared Leto de Dallas Buyers Club!! Uhuuulll. Bacana ver este ator, que mudou tanto desde que estrelou um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Requiem for a Dream, receber esta honraria.

No microfone, ele comentou sobre uma adolescente que foi mãe solteira e que deixou de estudar para educar bem os filhos. Ele estava homenageando a própria mãe. Um fofo! E seguiu dizendo que os sonhadores do mundo, inclusive os da Ucrânia e da Venezuela, que eles estão sendo observados e lembrados pelas pessoas naquele local. Discurso emocionado e também político. Para finalizar, dedicou o prêmio para todas as pessoas que morreram de Aids e que algum dia se sentiram injustiçadas pelo que são ou fazem. Palmas!

Na sequência, surge Jim Carrey. Ele brinca sobre como deve ser difícil a tarefa de ser sempre indicado, e comenta que está feliz porque um de seus heróis, Bruce Dern, foi lembrado no Oscar deste ano. Na plateia, Bono Vox e o U2, banda que vai se apresentar na noite. Carrey estava ali para apresentar um vídeo com os heróis de filmes de animação.

Kerry Washington apareceu em seguida, gravidíssima, para chamar o rapper Pharrell Williams para apresentar a canção Happy, presente no filme Despicable Me 2. Essa foi a primeira apresentação musical da noite, e ela foi aplaudida por boa parte da plateia de pé. Agora, cá entre nós, achei a participação de Jim Carrey um tanto que dispensável. Seria o primeiro “enche linguiça” da noite?

thegreatgatsby7A bela Naomi Watts surge após os comerciais ao lado de Samuel L. Jackson para apresentar os indicados na categoria Melhor Figurino. E o Oscar foi para… Catherine Martin por The Great Gatsby. Ela homenageou o marido, Baz Luhrmann por ele ser um visiónario. Em seguida, os atores apresentaram apresentaram os indicados em Melhor Maquiagem e Penteado. E a estatueta foi para… Dallas Buyers Club. Matthew McConaughey e a esposa bateram palmas de pé. As premiadas agradeceram McCounaughey e Leto por eles terem deixado elas modificarem eles e fazerem o trabalho dos sonhos, além de dedicar a estatueta para as vítimas da Aids.

Na sequência, Harrison Ford apresentou três dos indicados a Melhor Filme da noite. Na sequência: American Hustle, Dallas Buyers Club e The Wolf of Wall Street. Destes três, gostei mais dos últimos dois. Até o momento, quem se saiu bem foi Dallas Buyers Club.

O ator Channing Tatum veio em seguida para apresentar os universitários que ganharam o concurso de curtas promovido pela Academia. Bacana eles darem esse espaço para os novos realizadores – afinal, eles são o futuro do cinema dos Estados Unidos.

Após a propaganda, Kim Novak e Matthew McConaughey aparecem para apresentar os candidatos na categoria Melhor Curta de Animação. E o Oscar foi para… Mr. Hublot. Bacana. Vi imagens da produção e achei elas muito interessantes. Acho que vale ir atrás. Laurent Witz e Alexandre Espigares subiram ao palco para agradecer pela estatueta que, segundo um deles, é um sonho americano. Ele estavam muito, muito nervosos. Bacana ver gente que luta tanto ser premiada. Cool.

Na sequência, McCounaguey e Kovak apresentaram os candidatos a Melhor Animação. E o Oscar foi para… Frozen. Bacana ver uma diretora subir ao palco: Jennifer Lee, que fez este filme da Disney junto com Chris Buck. Discurso rápido e bacaninha.

A duplamente premiada com estatuetas do Oscar Sally Field surgiu após uma rápida brincadeira de Ellen DeGeneres para apresentar um vídeo sobre os heróis do “dia-a-dia”. No vídeo, entre outros, filmes como Milk, Erin Brockovich, Captain Phillips, Ali, Schindler’s List, Argo, Norma Rae, Philadelphia, Ben-Hur, 12 Years a Slave, Dallas Buyers Club e Lawrence of Arabia.

Emma Watson surge com Joseph Gordon-Levitt para apresentar a categoria Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… Gravity. Prêmio esperadíssimo e muito cantado. O trabalho feito nesta produção é impecável, de fato. Um dos pontos fortes do filme – se não o maior, junto com edição de som.

No palco, surge o galã Zac Efron para apresentar a próxima atração musical da noite: Karen O canta The Moon Song, do belíssimo filme Her. Esta produção, sem dúvida, a minha favorita deste ano – mas, como ocorreu em outros anos, a minha escolha não tem chances reais na categoria principal. Bela e sensível apresentação de Karen O.

Depois dos comerciais, Kate Hudson e Jason Sudeikis apresentam Melhor Curta de Ficção. E o Oscar foi para… Helium. Bacana ver gente apaixonada falar de cinema. Depois, entregaram o Oscar de Melhor Curta Documentário, que foi para… The Lady in Number 6: Music Saved My Life. O curta conta a história de uma sobrevivente do Holocausto que, infelizmente, faleceu uma semana antes do Oscar ser entregue com 110 anos. Os realizadores disseram que a personagem real que os inspirou lhes ajudou a terem mais esperança. Bacana.

20feetfromstardom1Depois de uma piada um tanto sem grança sobre fome e pedir uma pizza de Ellen DeGeneres, subiu ao palco o ator Bradley Cooper. Ele apresentou os indicados na categoria Melhor Documentário. Ele disse que os concorrentes deste ano talvez fossem dos melhores dos últimos anos. Concordo com ele. Este ano está ótimo. E o Oscar foi para… 20 Feet from Stardom. Uau! Ele era um dos mais cotados nas bolsas de apostas. Belo filme, um resgate interessante sobre a história das backing vocals. Mas cá entre nós, acho outras produções melhores… Dirty Wars e The Square merecem ser vistas. Nos agradecimentos, Darlene Love, uma das cantoras destacadas no filme, deu um pequeno show e foi bem aplaudida depois.

Kevin Spacey surgiu na sequência brincando que estava feliz por estar ali, ao invés de em Washington – por causa de House of Cards. Ele comentou os prêmios especiais e honorários deste ano e apresentou um vídeo sobre eles: Steve Martin, Angela Lansbury, Piero Tosi e Angelina Jolie. Grandes nomes, que contribuíram de diferentes formas para o cinema e a sociedade. Legal.

lagrandebelezza2Depois do intervalo, Ewan McGregor e Viola Davis apresentaram os indicados na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ela me surpreendeu pela magreza. Este ano, alguns filmes muito bons. E o Oscar foi para… La Grande Bellezza. Era o favorito segundo a bolsa de apostas. Torcia por ele, ainda que eu estivesse dividida entre este filme, Jagten e The Broken Circle Breakdown. Para quem não assistiu a todos eles, recomendo fortemente assisti-los. O diretor Paolo Sorrentino agradeceu a seus ídolos. Entre outros, Diego Maradona.

Na sequência, o diretor e roteirista Tyler Perry apresenta outros três indicados a Melhor Filme deste ano: Gravity, Her e Nebraska. Brad Pitt surge para chamar a terceira apresentação musical da noite: U2 com a música Ordinary Love do filme Mandela: Long Walk to Freedom. Apresentação gostosa, como tdas que Bono e Cia. costumam fazer. A banda foi bem aplaudida pela plateia, com Jared Leto e quase todos os outros aplaudindo eles de pé.

Na volta dos comerciais, Ellen DeGeneres com nova roupa, desta vez toda de branco, em uma das melhores tiradas da noite: ela chama Meryl Streep e mais uma pancada de atores para bater um “selfie coletivo” e bater recorde de retweets. Na sequência, subiram ao palco Michael B. Jordan e Kristen Bell para homenagear os premiados nas categorias científica e técnica – que fazem parte do Oscar, mas que sempre são vistas em uma lembrança de resumo de vídeo.

Charlize Theron e Chris Hemsworth, sem dúvida o casal mais bonito de apresentadores até então, vieram em seguida para apresentar os indicados na categoria Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Esperadíssimo. Um dos prêmios mais cantados da noite. Na sequência, os indicados em Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Merecido, ainda que o trabalho feito em All Is Lost também merecia uma estatueta – seria interessante um raríssimo empate, neste caso.

E agora, a reta final da premiação com as principais categorias se acumulando. Christoph Waltz apresentou as cinco indicadas desta noite na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. E o Oscar foi para… Lupita Nyong’o de 12 Years a Slave. Que bacana! Premio merecidíssimo, porque ela está absurdamente perfeita em 12 Years a Slave. O nome mais falado da noite no quesito moda também se firma como vencedora da premiação.

E a primeira palavra dela: Yes! Em seguida, ela agradece a Academia, mas lembra que tanta felicidade na vida dela significa infelicidade na vida de tantas outras pessoas – mais um discurso consciente. Ela agradeceu ainda o diretor Steve McQueen e os colegas de cena, Chiwetel Ejiofor e Michael Fassbender. O discurso dela, o ponto alto da noite até agora, emocionando muita gente da plateia – de Brad Pitt até Kevin Spacey. Senti cheiro de Melhor Filme indo para 12 Years a Slave…

Na volta do intervalo, a sequência da piada sobre o povo que passa fome durante a apresentação do Oscar. Ellen DeGeneres recebe um entregador de pizza que distribuiu pedaços para vários astros e estrelas – de Meryl Streep e Julia Roberts até Harrison Ford e Jared Leto. Baita sacada, destas para entrar na história da premiação.

GRAVITYNa sequência, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, apresentou o projeto do Museu do Cinema que eles pretendem inaugurar até o final de 2017. Projeto de sonho. Amy Adams e Bill Murray surgiram, então, para apresentar os concorrentes na categoria Melhor Fotografia. E o Oscar foi para… Gravity. Mais um prêmio técnico que esta produção leva, como era previsto. Ainda que nesta categoria ele poderia ter perdido para outros títulos, especialmente Nebraska e The Grandmaster. Emmanuel Lubezki agradeu ao mestre Alfonso Cuarón, para a equipe e, em especial, para Sandra Bullock.

Depois, vieram os indicados em Melhor Edição. E o Oscar foi para… Gravity. Sem dúvida um excelente trabalho de Mark Sanger e Alfonso Cuarón, ainda que esta categoria estava bem disputada este ano. Algo me diz que Cuarón vai receber, ainda, outro Oscar nesta noite, desta vez como Melhor Diretor. Logo saberemos… Em edição outros fortes concorrentes eram American Hustle e Captain Phillips.

Na sequência, Whoopi Goldberg faz uma homenagem para The Wizard of Oz, filme de 1939. No palco, Pink canta enquanto cenas projetam momentos marcantes da produção. Bela lembrança e muito bem executada pela cantora que estava em um vestido vermelho decotado e cintilante – bem ao gosto dos sapatinhos de Judy Garland. Ela também foi aplaudida de pé – a plateia está animada hoje.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres vestida de fada madrinha. Jennifer Garner e Benedict Cumberbatch apresentam a categoria Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… The Great Gatsby. Catherine Martin e Karen Murphy subiram ao palco para receber o prêmio. Depois, Chris Evans surgiu para apresentar um vídeo que relembrou grandes personagens do cinema.

Outro comercial e, na sequência, a homenagem aos falecidos no último ano. Para começar, James Gandolfino, seguido de vários nomes, entre outros Carmen Zapata, Hal Needham, Richard Shepherd, Jim Kelly, Les Blank, Paul Walker, Elmore Leonard, Eduardo Coutinho, Peter O’Toole, Richard Griffiths, Roger Ebert, Shirley Temple Clark, Joan Fontaine, Juanita Moore, Harold Ramis, Eleanor Parker, Ray Dolby, Julie Harris, Maximilian Schell, Gilbert Taylor, Esther Williams, chegando até Philip Seymour Hoffman.

Grandes perdas. E bacana, muito bacana terem incluído o grande Eduardo Coutinho entre os lembrados. Bette Midler fechou a homenagem cantando. E muito, aos 69 anos, com voz e aparência de tirar o chapéu. A plateia bateu palmas de pé, mais uma vez. Justo, muito justo.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres novamente de preto. Ela brinca que eles estão batendo recorde no Twitter – e Meryl Streep se emociona com a cena. Goldie Hawn apresenta os últimos três indicados a Melhor Filme: Philomena, Captain Phillips e 12 Years a Slave. Destes, sem dúvida o único com chances reais é o filme de Steve McQueen.

John Travolta surge com a música de Pulp Fiction – antes, Harrison Ford apareceu com a trilha de Indiana Jones – para apresentar a última música concorrente da noite: Let It Go, do filme Frozen, apresentada por Idina Menzel. Ainda que bem vestida, para mim foi a atração mais entediante do Oscar. Alguém tem que baixar a adrenalina, não é mesmo? 🙂 Ela me pareceu um tanto alterada… fiquei com medo dela ter um troço no final, mas a plateia levantou novamente. Ai, ai…

Na sequência, Jamie Foxx e Jessica Biel apresentaram os concorrentes da categoria Trilha Sonora Original. Antes, Foxx fez várias gracinhas. E o Oscar foi para… Steven Price por Gravity. Esta categoria estava recheada de excelentes trabalhos. Mais uma vez eu teria ficado em dúvida se daria o Oscar para Gravity ou Her. E daí veio a estatueta para Melhor Canção Original. E ele foi para… Let It Go, de Frozen. Aaaaahhhh, que pena que o U2 não levou essa!

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres passa o chapéu entre os astros para pagar a pizza. A apresentadora embolsa o dinheiro dado por Kevin Spacey e o bastão labial de Lupita. Depois surgem Penélope Cruz e Robert De Niro para apresentarem os indicados na categoria Melhor Roteiro Adaptado. E o Oscar foi para… John Ridley, de 12 Years a Slave. Muito bacana! Mais um sinal de que o filme tem grandes chances de ganhar como Melhor Filme.

her7Depois, o esperado Melhor Roteiro Original. Minha torcida total para Her. E o Oscar foi para… Spike Jonze por Her. Yeesssss. Ufa! Salvou a noite para mim. 🙂 Baita texto o dele. E Jonze foi aplaudido de pé. Ele brinca que tem 42 segundos para falar, por isso ele corre para agradecer aos amigos e familiares. Grande figura e muito merecido!

Depois de mais um intervalo – perdi a conta de quantos tivemos! -, sobem ao palco Angelina Jolie e Sidney Poitier. Os dois, aplaudidíssimos. Jolie começou a fala dela agradecendo ao grande Poitier – antes, ela andou muito devagar para acompanhá-lo. Ele respirou fundo para conseguir seguir com a fala. Os dois apresentaram os indicados na categoria Melhor Diretor.

Emocionante ouvir o Poitier pedindo para os realizadores seguirem com o ótimo trabalho. E o Oscar foi para… Alfonso Cuarón, de Gravity. Grande diretor, e que fez um trabalho exemplar em Gravity. Ainda assim, admito que eu estava torcendo também por Scorsese. Cuarón repete as palavras de Sandra Bullock e diz que o filme foi uma experiência transformadora. Ele dividiu o prêmio com o filho e co-roteirista e com Sandra Bullock. Citou também George Clooney e várias outras pessoas que ajudaram o filme a sair – bacana ele citar Guillermo del Toro.

Na volta seguinte, DeGeneres brinca com Matthew McConaughey sobre ele ter perdido tudo dançando. E sobe ao palco Daniel Day-Lewis para apresentar as indicadas na categoria Melhor Atriz. E o Oscar foi para… Cate Blanchett, de Blue Jasmine. Estatueta cantadíssima, mas ainda assim tinha gente – inclusive eu – esperando por uma possível zebra. Ela subiu ao palco e foi aplaudida de pé. Diz que foi uma honra especial receber o prêmio da mão de Day-Lewis. Generosa, ela cita todas as demais candidatas. Agora, mais que antes, admito que ela mereceu o prêmio – especialmente pela postura que ela teve e tem. E o mais bacana de tudo, ela citar no final a Companhia de Teatro de Sydney. Muito legal!

Caminhando mais firme desta vez, Jennifer Lawrence aparece no palco para apresentar os cinco indicados na categoria Melhor Ator. E o Oscar foi para… Matthew McConaughey, de Dallas Buyers Club. Uau! Que maravilha! Esse ator está na melhor fase da vida. Era o momento de ganhar a estatueta. Foi bem aplaudido e começou agradecendo os votantes da Academia. Em seguida, agradeceu o diretor de Dallas Buyers Club, Jared Leto e Jennifer Garner.

Ele disse que precisa de três coisas todos os dias. Agradeceu a Deus, que dá todas as oportunidades da vida dele, e que a gratidão é recíproca. Depois, falou da família, que é quem ele busca sempre, e citou especialmente a mãe e a esposa. E finalmente ele fala do herói dele, que ele busca sempre, e este herói é ele no futuro. Comentou que ele vai semrpe buscar este herói, ainda que ele nunca se torne um. Discurso interessante e corajoso. Sem ser McConaughey, acho que o Leonardo DiCaprio merecia o prêmio.

DF-02238.CR2Finalizando a noite, Will Smith relembrou os nove indicados deste ano como Melhor Filme. E o Oscar foi para… 12 Years a Slave. Dei o favorito. Sem zebras este ano. Muita celebração na plateia. Brad Pitt foi o primeiro a falar, como produtor do filme. Ele iniciou dizendo que foi um privilégio ter trabalhado no filme, e chamou Steve McQueen para discursar. O diretor agradeceu a Academia e seguiu uma lista de nomes, muitos que foram fundamentais para o filme ser concretizado. Ao agradecer a mãe, mostraram ela no fundo da sala – apesar de estar lá, ela teve a chance de ver o filme levando a estatueta e pulando muito no palco.

E assim se foi mais um Oscar. Neste ano, sem surpresas. Todos os favoritos levaram a sua estatueta. E algumas produções bem indicadas, como American Hustle e The Wolf of Wall Street, saíram de mãos vazias. Francamente? Gostei do resultado final. Claro que gostaria de ver The Wolf com algum Oscar, mas também não dá para dizer que foram feitas injustiças.

Grande vencedor da noite: Gravity com sete estatuetas. Tiveram destaque também 12 Years a Slave, com três estatuetas, e Dallas Buyers Club com três Oscar’s. Para quem não assistiu a premiação, a TNT reexibe a entrega do Oscar nesta segunda-feira, dia 3 de março, pouco depois das 11h. E agora é esperar pela premiação do próximo ano, com a garantia de que ele nos trará muitos filmes bons, a exemplo deste ano. Abraços e até lá!

ADENDO (04/03): Pessoal, para quem não leu o post com as apostas, quando foram divulgados todos os indicados deste ano no Oscar, facilito aqui o link. Mais que ver o que eu acertei ou errei – até porque, na época, faltava ver muitos filmes ainda, o que fui fazendo aos poucos -, acho interessante dar uma olhada por lá porque ali as críticas de todos os filmes que eu assisti até agora estão facilitadas com links nos respectivos nomes. Boa leitura!

Dallas Buyers Club – Clube de Compras Dallas

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Faltam heróis no nosso tempo. E talvez essa constatação seja tão verdadeira porque as pessoas acham que para ser herói é preciso ter um bocado de santidade ou mesmo uma capacidade rara entre os mortais. Algum “superpoder” quem sabe? E a verdade é que para ser um herói basta agir como tal ao menos uma vez na vida. Mas a história do indivíduo, até ali, pode ter sido recheada de tropeços e de atos covardes – por que não? Dallas Buyers Club nos conta uma destas histórias surpreendentes. Porque a redenção pode ser conquistada por caminhos bem tortos.

A HISTÓRIA: Um cavaleiro de rodeio desfila com a bandeira dos Estados Unidos. Assistindo a mais uma competição de rodeio, Ron Woodroof (Matthew McConaughey) se diverte com duas mulheres. Enquanto ele “manda ver” forte em uma delas, presencia simultaneamente a queda de um cavaleiro, que é acertado pelo boi. Ron para, e parece ouvir um zunido forte. Corta. Sobre um jornal que nos informa a data, 25 de julho de 1985, Ron organiza mais uma roda de apostas. Enquanto arrecada US$ 20 de cada homem interessado em ganhar dinheiro, ele critica o ator Rock Hudson, que está em um hospital de Paris com Aids segundo os jornais. Para Ron, todas as pessoas que tem a doença são uns “chupadores de pau” que merecem se ferrar. Ele fica com o dinheiro, US$ 640, e pede para o amigo T.J. (Kevin Rankin) segurar os oito segundos necessários sobre a montaria. Ele não consegue, e Ron tenta fugir. Mal sabe ele que em breve as tentativas de fuga vão terminar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Dallas Buyers Club): Estou certa que muita gente vai achar o “fim da picada” o texto que inicia este post. Afinal, como eu posso considerar um herói um sujeito como Ron Woodroof? Oras, meus caros, temos que nos desfazer daquela ideia de que para ser herói é preciso ser quase perfeito. Ou ter algum superpoder. Para fazer diferença de verdade e salvar, inclusive, a vida de uma ou mais pessoas, basta ter a oportunidade e agarrá-la com unhas e dentes.

O protagonista deste filme é um escroque. Um sujeito que deve despertar desprezo, no início. Afinal, ele é preconceituoso – especialmente a respeito de homossexuais – e, aparentemente, leva uma vida de exageros e sem nenhum propósito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Até que ele tem o choque de descobrir que tem o HIV. Inicialmente, ele fica enfurecido. Afinal, como o médico Dr. Sevard (Denis O’Hare) pode estar dizendo uma barbaridade destas? Para Ron, só tem HIV e desenvolve a Aids quem é homossexual. E ele é muito “macho”, como todos os homens que circulam em rodeios e vivem desprezando quem não coça o saco e cospe no chão. E junto com o diagnóstico “absurdo” da Aids, ele recebe o prognóstico de que deve viver apenas mais 30 dias.

Não demora muito para ele despertar da própria ignorância. Ron primeiro mergulha na rotina que ele conhece bem: muita bebida e cocaína. Acompanhado de T.J., ele também se diverte com duas mulheres – mas sem transar desta vez. Na sequência, ele pesquisa tudo o que pode na biblioteca de Dallas, uma das maiores cidades do Texas – repleta de caras como ele. Descobre, assim, que o HIV é transmitido de diversas maneiras – além do sexo, por drogas injetáveis, por exemplo. Ao ver que uma das principais formas de contágio é o sexo sem proteção, ele lembra de uma garota com quem transou sem qualquer proteção há algum tempo. E ela tinha, no braço, diversas “picadas” de drogas injetáveis.

Bingo! Sozinho ele se dá conta que o Dr. Sevard não estava falando besteira. Daí ele decide procurar ajuda. Volta para o hospital e, ao não encontrar o Dr. Sevard, cede em falar com a Dra. Eve Saks (Jennifer Garner). Mesmo que ela acompanhou o caso dele desde o princípio, Ron claramente tem dificuldades em confiar em uma médica. Machista por excelência. Quando a encontra, diz que quer o AZT. Ron pesquisou a respeito e viu que esta droga tinha começado a ser testada pela companhia Avinex para o tratamento de doentes da Aids.

Como qualquer pessoa desesperada – ou você faria diferente se não tivesse o remédio à venda nas farmácias ou com distribuição gratuita nos hospitais/postos de saúde? -, Ron diz que tem dinheiro e que pode pagar pelo AZT. Daí começamos a mergulhar, junto com o protagonista de Dallas Buyers Club, na lógica angustiante que cerca a indústria farmacêutica e da saúde. Acredito que a maioria sabe que os novos remédios são testados por um longo tempo antes de começarem a serem vendidos e/ou distribuídos. Agora, uma coisa é saber disso, outra bem diferente é ver a angústia de quem precisa de um tratamento e nem é encaixado nos grupos de testes. E mesmo que for encaixado, sabe que pode estar recebendo o placebo (sem efeito prático) e não o medicamente propriamente dito.

Matthew McConaughey dá um show desde o princípio. Ele convence como poucos quando recebe o diagnóstico dos doutores, mas vai mantendo aquela postura e fascinando o espectador conforme a história se desenrola. Não é apenas possível acreditar na interpretação dele. Algumas vezes, ele parece ser o próprio personagem. Incrível. E há quem vá lembrar de Tom Hanks no clássico sobre a Aids Philadelphia. De fato, os dois atores emagreceram muito e surpreenderam a todos pela magreza e entrega aos respectivos papéis. Só que as comparações terminam por aí.

Antes de seguir falando do filme, quero comentar mais sobre McConaughey. O papel dele em Dallas Buyers Club é muito, mas muito mais complicado que o de Hanks em Philadelphia. Para começar, porque o Andrew Beckett de Hanks era um sujeito sensível, “boa gente”, advogado gay que acaba sendo injustiçado porque tem uma doença contagiosa e sem cura, enquanto Ron Woodroof é um sujeito grotesco, preconceituoso, machista, que vive entre o trabalho como eletricista e a gandaia de mulheres, bebidas, cocaína, sexo e rodeios. Beckett era o modelo de personagem que emociona pela delicadeza e cria unanimidade por ser uma vítima. Woodroof começa como anti-herói, avança como oportunista e nos dá algumas boas lições sem ser uma aposta óbvia de “boa gente”.

Enquanto o personagem de Philadelphia começava e terminava a trajetória como exemplo, o protagonista de Dallas Buyers Club talvez termine de contar a própria luta dividindo opiniões. Da minha parte, prefiro o realismo e a complexidade do personagem de McCounaughey – ainda que as duas histórias tenham sido baseadas em fatos reais. Mas voltemos ao filme…

Evidentemente que Ron não consegue comprar AZT. Medicamento de uso controlado e que estava sendo testado, ele tinha uma chegada restrita às pessoas – entrava no grupo de tratamento apenas os pacientes que não estivessem com grandes chances de morrer em pouco tempo, como aparentemente era o caso de Ron. Só que a partir daí que Dallas Buyers Club começa a ficar interessante – e o que diferencia esta produção de outras sobre o tema da Aids.

Pensamos que apenas no Brasil existe o famoso “jeitinho” para quase tudo. Que somos os reis do suborno, da corrupção, e por aí vai. Mas não são poucos os filmes feitos nos Estados Unidos que mostram que existe “jeitinho” para quase tudo em praticamente todas as partes. Nesta produção que começa em meados dos anos 1980, fala mais alto quem tem dinheiro. E é desta forma que ele consegue o AZT com um enfermeiro do hospital que aprecia muito o dinheiro “por baixo dos panos”. Sem qualquer orientação, Ron toma o medicamento sem mudar a rotina – ou seja, em superdoses engolidas entre uma carreira e outra de cocaína e muitas bebidas.

Até o dia em que o hospital começa a trancar o medicamento e Ron fica sem a compra ilegal. A saída dada pelo enfermeiro é o nome de um médico que tem o AZT no México. Depois de passar mal – e ele esta prestes a completar um mês do diagnóstico – ele é atendido no hospital e conhece a Rayon (Jared Leto em um dos melhores desempenhos de sua carreira). Ron só dá patadas nele. Mas pouco a pouco ele também começa a sofrer preconceito – afinal, os “amigos” e conhecidos dele ficam sabendo que Ron está doente e, como ele, pensam que isso aconteceu porque ele é um “maldito gay”. A ignorância impera.

Chegando no México – por puro milagre -, Ron encontra o Dr. Vass (Griffin Dunne), que lhe dá dicas valiosas de como sobreviver. Para começar, ele deve mudar radicalmente os hábitos de vida. Obcecado por continuar vivo – e quem não estaria? -, Ron abraça a causa. E ao mesmo tempo que procura viver o máximo possível, ele vê naquelas restrições aos medicamentos para tratar a Aids nos EUA como uma grande oportunidade de fazer dinheiro. Eis mais um ponto fundamental para o roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack ser tão interessante.

Afinal, os elementos fundamentais nesta produção – e parece que em praticamente todos os lugares – são a vida e o dinheiro. Muitas pessoas que se descobriram estarem condenadas pela Aids não tinham acesso a tratamento. E sempre que algo é restrito, surge um mercado ilegal para tentar suprir aquela demanda. Foi assim com o álcool, quando foi instituída a Lei Seca nos EUA, e será assim sempre que a lógica da demanda não for atendida – este assunto renderia um longo debate.

Dr. Vass explica como a cocaína e o AZT estavam deixando Ron mais suscetível às doenças. Ou seja, ao invés de ajudá-lo, o AZT estava complicando ainda mais a situação do protagonista. E isto, evidentemente, não acontecia apenas com ele. Com efeitos colaterais devastadores, o AZT no início – e mesmo depois – acabava com muitas pessoas que estavam tentando um tratamento para a Aids. Segundo o Dr. Vass, o AZT só era bom para quem estava vendendo o medicamento – e aí entra outra parte importante do filme, a indústria farmacêutica e a FDA (US Food and Drug Administration), responsável por aprovar alimentos e medicamentos para a comercialização nos EUA.

Dallas Buyers Club ganha muitos pontos em discutir as relações discutíveis entre a poderosa indústria farmacêutica e os braços governamentais que definem o que pode ou não ser utilizado pelo povo para combater doenças. O poder e os interesses da indústria farmacêutica já tinham sido explorados pelo ótimo The Constant Gardener. Mas aqui entra em cena outro elemento que é a “caça às bruxas” que o FDA faz não apenas contra Ron, mas contra qualquer indivíduo que tentasse distribuir medicamentos não aprovados no país.

O argumento deles pode parecer óbvio: não é possível permitir a venda de medicamentos por pessoas não autorizadas, especialmente se estes remédios não tiverem a sua eficácia comprovada. Certo. Mas e como outros países permitem outros medicamentos, para os mesmos fins, afirmando que eles são eficazes? A verdade é que a Medicina está em permanente evolução e o que é válido hoje, para alguns, pode ser visto como prejudicial pelos mesmos tempos depois. Na época, e o filme sugere isso, as Indústrias Avinex pareciam bem próximas da FDA – e quem não nos garante que não houvesse suborno para deixar apenas aquele medicamento como permitido?

Quando encontra o médico Vass, Ron descobre que no lugar do AZT será muito mais eficaz a adoção de um coquetel de vitaminas, do zinco mineral, de aloe e ácidos graxos essenciais (chamados popularmente de ômegas) para fortalecer o sistema imunológico. Junto com esta receita, ele recebe o DDC, um antiviral ao estilo do AZT, mas muito menos tóxico. Quando procura a Dra. Eve no hospital, o próprio Ron tinha perguntado sobre o DDC, que estava sendo usado na França. Mais um exemplo que nem sempre o departamento responsável por nos dizer o que é mais saudável e permitido – no caso o FDA – está jogando a nosso favor. E isso ficará comprovado depois.

A partir daí que Ron começa a virar um homem de negócios. Ele passa a importar para os EUA medicamentos similares ao AZT, mas melhores que ele, e se inicia uma batalha no melhor estilo do jogo “gato-e-rato” com a FDA. Sem dúvida estes bastidores do início do tratamento da Aids nos EUA e em outros países é uma das melhores sacadas do roteiro de Dallas Buyers Club. Eu desconhecia completamente esta saga e seus desdobramento e, por isso, o filme me surpreendeu positivamente.

Além disso, claro, há todo o lado humano da produção. Algo que os roteiristas não esqueceram. Não existe um milagre para Ron. Homem inteligente, apesar de escroto, ele percebe que pode ser favorecido pelos contatos de Rayon. Os dois se aproximam e começam quase uma sociedade – ainda que a parte de Rayon nunca tenha passado dos 20%. Proibido de vender os medicamentos nos EUA, Ron forma um dos vários clubes para o tratamento da Aids que surgiram naqueles tempos. A ideia é genial.

Vejamos: se eu não posso vender um remédio para você, vou criar um clube no qual você me paga uma mensalidade. Por participar deste grupo, entre outras coisas, você recebe o medicamento para tratar a Aids – o que não configura uma venda direta. Ainda assim, a FDA persegue Ron porque ele está importante medicamentos proibidos. Evidente. E daí chegamos na solução derradeira para a história – e o que transformou Ron em um herói porque ele, como outros, abriu o precedente para quem quisesse buscar outro tipo de tratamento menos tóxico.

Daí que volto para a questão humana do filme. Ron não vira um herói clássico, daqueles que se sacrifica por alguém ou por uma causa. Pelo menos não de forma clara e/ou despretensiosa. Não. Inicialmente, ele está pensando apenas em sobreviver. Depois, em ganhar dinheiro – vendo que poderia faturar alto com aqueles medicamentos menos tóxicos e proibidos. Só que pouco a pouco ele vai convivendo com diferentes tipos de pessoa e percebe algo que apenas a vida é capaz de ensinar, com o tempo: de que somos todos iguais.

Não importa a cor da pele, com quem você se deita – ou se você não faz isso, suas preferências, crenças ou formato do corpo. No fim das contas, somos feitos de pele, osso, células e mortalidade. Aos poucos Ron vai percebendo isso e consegue ver além do dinheiro. Ele se preocupa para valer com Rayon. E através dele, com muitas outras pessoas com quem ele nem mesmo convive. Para chegar neste ponto, ele não precisou trilhar uma vida de quase santidade. Tudo que ele precisou foi romper os próprios preconceitos e repensar o que ele acreditava saber. Transformou-se em uma pessoa menos presa às coisas materiais e se ligou muito mais ao semelhante dele – seja esta pessoa o Rayon ou a Dra. Eve.

Se isto não é uma redenção de arrepiar e uma história de um herói comum que, quando pôde, soube fazer a diferença, não sei o que pode ser. Para mim, que esperava muito menos deste filme, Dallas Buyers Club foi uma produção de encher os olhos e para inspirar. Fiquei muito na dúvida se deveria dar a nota máxima para este filme… inicialmente, daria. Mas como ainda tenho outras produções para ver para o Oscar, e acho que algo mais pode me parecer superior a este filme, darei a nota abaixo. Mas, dependendo, ela pode ser revista – para baixo ou para cima. De qualquer forma, recomendo Dallas Buyers Club. Grande história, ótimos atores e belo “conjunto da obra”.

NOTA: 9,9 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quem acompanha o blog com alguma frequência deve ter estranhado eu não ter falado da direção de Jean-Marc Vallée antes. Normalmente eu comento o trabalho do diretor logo no início. Desta vez, contudo, não fiz isso por uma razão muito simples: Vallée faz um bom trabalho, mas nada que seja marcante para o filme. Em outras palavras, o trabalho do diretor acaba um pouco eclipsado pelo ótimo roteiro da dupla Borten e Wallack e pelo trabalho do elenco.

Só que já era hora de falar de Vallée, que persegue um estilo “naturalista”, semi-documental para contar esta história. No mesmo estilo de Wendy and Lucy, Frozen River, Winter’s Bone e tantos outros filmes recentes que foram feitos nos EUA. Para o filme ser bom como ele é, Vallée executa bem o próprio trabalho. Mas diferente de outros diretores, ele não imprime a própria marca. Por isso não destaquei o trabalho dele antes.

O ator Matthew McCounaughey teve os melhores anos de sua carreira em 2012 e 2013. Nunca o vi tão bem quanto nos lançamentos destes dois anos, quando ele resolveu dar uma guinada na carreira e assumiu papéis com desafios bem maiores do que o que estávamos acostumados a ver ele fazendo. Assisti e comentei aqui no blog The Paperboy, Mud e Magic Mike, todos lançados em 2012. Agora, além de Dallas Buyers Club, falta assistir ao desempenho dele em The Wolf of Wall Street. De qualquer forma, agora ficou muito mais interessante de assisti-lo em cena. Na minha avaliação, ele está simplesmente soberbo em Dallas Buyers Club.

Evidente que um dos esforços que chamou a atenção neste filme foi o quanto Matthew McConaughey emagreceu para interpretar a Ron Woodroof. Segundo as notas de produção, o ator perdeu “47 pounds”, o equivalente a pouco mais de 21 quilos. Para comparar, quando fez o papel principal de Philadelphia, Tom Hanks teria emagrecido “26 pounds” (algo perto de 12 quilos). Outro que se dedicou muito em Dallas Buyers Club foi Jared Leto. O ator teria perdido “30 pounds” (pouco mais de 13,5 quilos) para fazer o papel de Rayon.

Aliás, como eu comentei antes, talvez este seja o papel da carreira de Leto até aqui. O ator está ótimo, ao ponto de eu demorar um bocado de tempo para reconhecê-lo. A impressão que tanto ele quanto McConaughey nos passa é que eles mergulharam com afinco na história e vivência dos personagens, a ponto de “desaparecerem” por trás das próprias interpretações. Os dois estão ótimos, mas com um destaque especial para McConaughey.

Falando nos atores, até Jennifer Garner, que normalmente acho meio “sem graça” nos filmes, está bem em Dallas Buyers Club. Mais um indicativo de que o diretor soube envolver bem a equipe que deu a cara para bater com esta produção. Agora, só achei que eles poderiam ter escolhidos atores um pouco mais diferentes para os papéis de T.J., amigo de Ron, e Tucker, policial e amigo também do protagonista. Digo isso porque cheguei a confundir algumas vezes Kevin Rankin e Steve Zahn com aqueles bigodes… 🙂

Quase todos os nomes relevantes para a história já foram citados. Mas vale comentar ainda o bom trabalho de Dallas Roberts como o advogado David Wayne, que é quem está sempre representando Ron contra a FDA; e Deneen Tyler como Denise, que muitas vezes vira o braço direito do protagonista na administração do clube.

Da parte técnica do filme, merece destaque a competente edição de Martin Pensa e Jean-Marc Vallée; o design de produção de John Paino; a decoração de set de Robert Covelman e a direção de arte de Javiera Varas. Estes três últimos elementos foram fundamentais para transportar o espectador para os anos 1980, ajudando a ambientar a história. Também gostei da maquiagem da equipe com sete profissionais liderados por Robin Mathews. Também gostei da muito pontual trilha sonora – quase uma intervenção sonora, hehehehehe – de Alexandra Stréliski.

De acordo com as notas da produção, Dallas Buyers Club sofreu com o baixo orçamento. O filme, rodado em 25 dias, não contou com iluminação especial e foi todo feito com uma câmera de mão que fazia takes com até 15 minutos de duração. Uau! Mais um motivo, ao saber disso, para admirar o trabalho de Jean-Marc Vallée. É preciso ser bom para conseguir fazer o que ele fez com tão pouco dinheiro.

Para cortar ainda mais os custos e reduzir o tempo de filmagens, o diretor abriu mão dos ensaios e trabalhou apenas com o material rodado naqueles 25 dias – os atores não tiveram que refazer qualquer cena ou gravar novos áudios na pós-produção.

Dallas Buyers Club passou por um longo processo para ser filmado. E só conseguiu sair do papel porque o ator Matthew McConaughey entrou como um dos produtores. Antes, outros nomes tentaram tirar o projeto da gaveta. Entre eles, a dupla Brad Pitt e Marc Forster e também Ryan Gosling e Craig Gillespie. Nos anos 1980, Dennis Hopper quis dirigir o filme, tendo Woody Harrelson como protagonista, mas eles não conseguiram a verba necessária para colocar o projeto de pé.

Agora, uma curiosidade interessante sobre a produção. Jared Leto quis levar tão a sério o personagem que no período de filmagens – naqueles 25 dias citados -, ele não saiu da “pele” de Rayon. Exemplo: certa vez ele chegou a sair para fazer compras caracterizado como o personagem – e não com a roupa que Rayon vai “visitar” o pai, com certeza.

Apesar da história toda ser desenvolvida, basicamente, em Dallas, esta produção foi totalmente rodada em Nova Orleans.

Falando no baixo orçamento da produção, Dallas Buyers Club teria custado cerca de US$ 5,5 milhões. Uma miséria para os padrões de Hollywood. Nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 16,4 milhões até ontem, dia 9 de janeiro.

Dallas Buyers Club estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme passaria por outros três festivais – incluindo o de San Sebastián. Até o momento, o filme conseguiu a admirável marca de 34 prêmios e de outras 28 indicações. Entre os prêmios que está buscando estão dois Globos de Ouro: o de Melhor Ator para Matthew McConaughey e o de Melhor Ator Coadjuvante para Jared Leto. Quem leva vantagem nos prêmios, até o momento, é o ator Jared Leto: ele recebeu 15 prêmios pelo trabalho como Rayon. Pouco atrás vem Matthew McCounaughey, que recebeu oito prêmios pelo trabalho como Ron Woodroof.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Dallas Buyers Club. Uma boa avaliação – apenas para comparar, o “mega” sucesso Gravity tem apenas três décimos a mais. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 160 textos positivos (!!) e apenas 13 negativos para Dallas Buyers Club, o que garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,7 para o filme.

Por ser uma produção 100% dos Estados Unidos, este filme entra na lista de produções avaliadas aqui no blog e que satisfazem uma votação feita aqui no blog – que escolheu os EUA como um dos países para render uma série de textos por aqui.

CONCLUSÃO: Vários filmes de Hollywood e de outras latitudes já trataram sobre o tema da Aids. E agora, que estamos cada vez mais próximos de uma cura definitiva para a doença, alguns podem achar que não é mais tempo de falar do assunto. Pois Dallas Buyers Club surpreende com uma história que ainda não foi contada. Revela, com um roteiro de tirar o chapéu, como funciona a máfia da poderosa indústria farmacêutica no mundo. E de como pessoas comuns tiveram que driblar diversos interesses e restrições para tentar um tratamento melhor do que inicialmente lhes prometiam. Mais que isso, Dallas Buyers Club nos ensina como a redenção pode ser buscada por qualquer um, e que não é preciso ser um santo para tomar atitudes heroicas.

Este filme consolida uma guinada na carreira importante do ator Matthew McConaughey. Ele está brilhante nesta produção – a ponto de poder ser comparado com Tom Hanks quando ele ganhou um Oscar por Philadelphia. Mas diferente de Hanks, McConaughey encara um papel controverso, de um sujeito que era um escroque e que acabou dando uma guinada corajosa na própria vida. Para mim, este filme foi uma surpresa. Uma produção bem redonda, com uma história pouco contada e belas interpretações. Não é um conto de fadas, mas tem muito a ver com a vida real das pessoas. Fascinante e uma das boas surpresas desta temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Tenho acompanhado a alguns dos melhores nomes da crítica nos EUA para saber sobre as bolsas de apostas para a maior premiação do cinema daquele país – e mundial – neste ano. E na lista de dois destes nomes, Anne Thompson e Peter Knegt, Dallas Buyers Club sempre aparece em várias categorias.

Francamente, acredito que o filme possa ser indicado a cinco prêmios: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição. Sendo otimista – até porque estou na torcida para que ele fique bem na disputa. Mas pessoas como Thompson e Knegt tem menos confiança em Dallas Buyers Club. Normalmente o filme aparece com chances reais de aparecer apenas nas listas de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante. Ele até está nos palpites para Melhor Filme, mas bem depois de outros candidatos. Logo veremos.

Dos filmes que vi até agora – e tenho muitos para ver ainda, inclusive alguns dos cotados mais fortes -, Dallas Buyers Club foi o que mais me surpreendeu (provavelmente junto com Captain Phillips). A história me pareceu mais interessante que outros favoritos como 12 Years a Slave e Gravity. Acho, desta forma, que ele deveria estar entre os 10 indicados como Melhor Filme no Oscar. E que Matthew McConaughey e Jared Leto devem ser indicados, ainda que este ano esteja muito disputado para atores – especialmente na categoria principal.

Também vejo como bastante justa a indicação do roteiro – ainda que esta categoria seja mais complicada de fazer um prognóstico porque são apenas cinco que chegam a ser indicados e ainda preciso assistir a vários outros com Roteiro Original. Edição seria um “plus” na lista de indicações. Reais chances de ganhar? Talvez em Melhor Ator Coadjuvante, já que McConaughey tem uma tarefa complicada ao concorrer com Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave) e Tom Hanks (Captain Phillips). Saberemos quem de fato chegará a uma indicação em menos de uma semana, no próximo dia 16.