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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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Los Amantes Pasajeros – I’m So Excited! – Os Amantes Passageiros

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O mundo é gay. E as pessoas aguardam apenas um momento de incerteza para transar, e muito. Essas são duas premissas do novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, Los Amantes Pasajeros. Entendo o desejo do diretor de perder um pouco o controle vez ou outra, mas este filme, que começa até engraçado, lá pelas tantas perde a direção de maneira impressionante. Esqueça a fase mais filosófica e interessante do diretor. Em Los Amantes Pasajeros Almodóvar volta a trilhar o caminho iniciado no anterior La Piel Que Habito, no qual o principal interesse do realizador é assumir o exagero como ideia fundamental de seu trabalho.

A HISTÓRIA: Equipamentos são retirados após o embarque dos passageiros em um avião da companhia aérea Península. Uma das últimas etapas é a retirada das proteções dos pneus dos trens de pouso, feita por León (Antonio Banderas). Ao ver a Jessica (Penélope Cruz), León se entusiasma. E é correspondido. Distraída, Jessica atropela a um operário (Coté Soler). Este incidente interrompe as tarefas de León, o que vai prejudicar o voo pilotado por Benito Morón (Hugo Silva) e Álex Acero (Antonio de la Torre), e exigir jogo de cintura da equipe formada por Fajas (Carlos Areces), Joserra (Javier Cámara) e Ulloa (Rául Arévalo) para controlar os poucos passageiros que acabam não sendo sedados no avião.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Los Amantes Pasajeros): Gosto muito do estilo Almodóvar de fazer cinema. Especialmente porque ele deu um novo vigor para um cinema que tinha pouca relevância há algumas década, que era o cinema espanhol.

Depois de alguns experimentos nos anos 1970, Almodóvar chegou na década seguinte com filmes como Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, Entre Tinieblas e o divertidíssimo Qué He Hecho Yo para Merecer Esto!! O cinema dele era exagerado, mas carregado de sentido, de significados, da cultura espanhola e de uma carregada crítica ao puritanismo, a hipocrisia e aos valores antigos que pareciam não fazer mais sentido em uma sociedade que tentava ser mais moderna e libertária.

No final dos anos 1990, com Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella, Almodóvar deixa para trás o desejo de chocar com sexo e comédia carregada de costumes para fazer um cinema mais denso, psicológico, quase filosófico. Com estes filmes, ele chega ao auge da carreira, ganhando fãs internacionalmente que ele nunca tinha imaginado um dia conseguir. Paralelo a isso, ele também melhorou com a técnica da direção e da narrativa. Tornou-se um diretor e um roteirista melhor.

Muito bem, isso até este Los Amantes Pasajeros. Certo que suas produções anteriores, Los Abrazos Rotos (comentada aqui no blog) e La Piel que Habito (o qual comentei neste texto) não falavam tanto dos dilemas humanos quanto os brilhantes Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella mas, cada um deles, tinha peso dramático e envolvia o espectador a sua maneira. Além de roçar com exageros interessantes, que revisitavam partes “perdidas” da filmografia do diretor.

Los Amantes Pasajeros retoma a parte mais sexual de Almodóvar, mas sem muito sentido. Na verdade, o filme inicia como uma grande brincadeira. Os espanhóis tem um pouco essa filosofia de “cachorros de rua”. Até recentemente, antes da conquista da última Copa do Mundo, a Seleção espanhola era sempre vista como aquela que lutava, brigava, mas sempre morria na praia. E em muitas outras esferas, que não apenas a do futebol, eles são vistos como incapazes de grandes feitos – e essa leitura eu faço por ter morado na Espanha por alguns anos e ter visto esta estranha e constante divisão dos espanhóis entre serem arrogantes e terem este complexo de inferioridade mal resolvido.

Então imaginar uma situação como a vivida em Los Amantes Pasajeros com a filosofia do “cachorro de rua” espanhola é divertido. Um avião com risco de não conseguir pousar é um problema para qualquer tripulação e passageiros, mas nem todos lidariam com esta situação de forma tão displicente e típica quanto os espanhóis. Certo, a ideia até que não é ruim. Mas o desenvolvimento dela que acaba sendo o problema.

Quem já assistiu a muitos filmes, certamente viu a alguns clássicos que tem o ambiente claustrofóbico de um avião como cenário principal. A referência máxima de comédia sobre uma situação complicada é o filme Airplane!, simplesmente genial. Então quando Los Amantes Pasajeros começa a ganhar corpo e percebemos que aquele avião com três comissários de bordo gays tem problemas, é inevitável não relembrar do descontrole de Airplane! O que é ruim para a nova produção do diretor espanhol.

O roteirista Pedro Almodóvar faz comédia nos mínimos detalhes. A companhia aérea da produção chamar-se Península, por exemplo, faz alusão à empresa Iberia – que, inclusive, faz “presença” no filme com um avião que decola antes da aeronave onde a maior parte da história se passa. Os primeiros minutos da produção, com Antonio Banderas e Penélope Cruz fazendo pontas com acentuados sotaques andaluzes, também é uma cereja no bolo – os dois, como vocês sabem, foram descobertos e lançados no cinema por Almodóvar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em seguida, somos apresentados a figuras muito típicas do imaginário espanhol – a mulher “vidente”, Bruna (Lola Dueñas); o “matador de aluguel” Infante (José María Yazpik); o “don juan de meia idade” Ricardo Galán (Guillermo Toledo); o “executivo ladrão” Sr. Más (José Luis Torrijo) e a “celebridade” que conhece os homens mais poderosos do país, Norma Boss (Cecilia Roth). Almodóvar junta todos eles na classe executiva de um avião que tem o risco de não conseguir pousar por causa da trapalhada que acontece no início da produção.

Para enfrentar o problema, estes passageiros e mais os tripulantes, incluindo o trio de comissários gays e os pilotos “de cabeça aberta”, entram em uma sequência de “buscas pelo essencial” de suas vidas. Daí surgem as ligações telefônicas em que todos escutam tudo, e que passam pela escolha de Almodóvar em mostrar as mulheres da vida de Galán, assim como a tentativa de Norma em ameaçar um ministro para defender a própria vida e a retomada de um contato importante na vida de Sr. Más.

Para mim, o filme começa a perder a graça quando sai do avião e segue Alba (Paz Vega, irreconhecível) e Ruth (Blanca Suárez). Uma história paralela que não agrega praticamente nada para a trama e que faz o filme perder o ritmo. Dispensável, pois. A única justificativa para aquelas sequências foi o diretor colocar duas belas mulheres – especialmente Blanca – em cena.

Além de fazerem contato com as últimas pessoas com quem gostariam de falar na vida – afinal, existe a dúvida se aquele voo pode ser o último de suas existências -, os personagens principais da trama enchem a cara de álcool e sexo. No melhor estilo “o que você faria se este fosse o seu último voo”, cada um revela a sua personalidade sem filtros e sem censura. E isso é tudo.

O filme é cheio de baboseira mas, se visto com um pouco de distanciamento, se revela uma sátira à Espanha contemporânea. Algo que marca o cinema de Almodóvar – aqui, pelo menos, ele não se perdeu. O problema apresentado no filme é provocado pelos próprios espanhóis – com aquela trapalhada inicial protagonizada pelos personagens de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Fazendo um paralelo, é o mesmo que dizer que a bolha imobiliária, a grande causadora da crise atual na Espanha, foi causada pela ambição e pela falta de critério dos próprios espanhóis – se não de todos, pelo menos do sistema financeiro, que no filme é criticado pelo exemplo do Sr. Más. Aliás, no jornal que o personagem lê, é possível ver vários escândalos envolvendo “cajas” e bancos do país – o que de fato aconteceu.

Como as pessoas agiram para enfrentar a crise atual, e que segue persistente, no país de Almodóvar? Houve o 15M, é claro – que envolveu passeatas e “acampadas” para protestar contra as políticas de cortes do governo e contra a crise. Mas, no dia a dia das pessoas, houve também muita gente enfrentando os problemas com álcool, drogas, sexo e musicais. Alguns quiseram manter as aparências, como Norma Boss, enquanto tantos outros, talvez a maioria, permaneceu “anestesiado” – como a maior parte dos passageiros do voo comanda por Almodóvar.

Fazendo esse exercício de paralelo dramático/artístico com a realidade espanhola, até que o filme não parece tão idiota assim. Mas enquanto eu estava assistindo à produção, o pensamento predominante era: “Almodóvar, meu caro, aonde você vai com esta história burlesca?”. Não achei que ele fosse chegar a parte alguma, mas torcia para o filme não ter mais de duas horas. E, uma das poucas qualidades desta produção, além de uma ou outra parte realmente engraçada, é que ela dura menos de uma hora e meia. Gracias! Agora, nos resta esperar a um Almodóvar um pouco mais inspirado e menos tresloucado da próxima vez.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que assisto a uma comédia, fica evidente para mim que o humor é algo muito, muito pessoal. Até mais do que outras escolhas que fazemos na vida – como o time de futebol para o qual torcemos, nossa religião ou forma de amar. Muitas vezes o meu senso de humor não coincide com o de vários leitores deste blog. Sabendo disso, sou obrigada a comentar que o “ponto alto” desta produção, que é a encenação da música I’m So Excited, de The Pointer Sisters, não me fez gostar mais do filme. Pelo contrário. Achei muito sem graça.

Adoro assistir a Madrid como personagem de filmes – especialmente dos de Almodóvar. Mas achei bem forçada a entrada da cidade na história junto com as personagens Alba e Ruth. Ok que o diretor quisesse dar mais “profundidade” para os seus personagens. Mas, de fato, a entrada das duas mulheres no roteiro torna o filme mais interessante? Não achei.

Agora, nem tudo são problemas em Los Amantes Pasajeros. Javier Cámara está maravilhoso no papel de Joserra, o comissário que ganha protagonismo na história. Também foi muito bom rever Raúl Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva e Antonio de la Torre em cena. Eles são alguns dos atores mais importantes do cenário do cinema espanhol atual. Sem contar, claro, a sempre diva Cecilia Roth e a respeitada e competente Lola Dueñas.

Algo bacana nesta produção é o espaço que ela dá para os bonitões made in Espanha. Hugo Silva, claro. E, além dele, Miguel Ángel Silvestre como o Noivo que é um colírio para os comissários do avião – e para os espectadores.

Tecnicamente, mais uma vez, Almodóvar nos entrega um filme limpo e bem construído visualmente. Para isso, ele contou com a ajuda do diretor de fotografia José Luis Alcaine. A trilha sonora, um dos pontos fortes da produção, achei apenas “ok”, nada demais. E ela é assinada por Alberto Iglesias, antigo parceiro do diretor.

Inicialmente eu estava dando até uma nota menor para este filme. Um 5. Mas aí o paralelo com a atual situação da Espanha me fez melhorar um pouquinho a nota. Ainda assim, claro, ela está muito abaixo da média para os filmes do Almodóvar.

Falando em notas, vale citar os dois sites que eu normalmente comento por aqui. Os usuários do IMDb deram a nota 5,7 para esta produção. Para vocês terem uma ideia, esta é a menor nota para um filme de Almodóvar no site, exceto por Folle… Folle… Fólleme Tim!, primeiro e desconhecido longa do diretor lançado em 1978. Todas as outras produções lançadas por ele depois tem uma nota melhor que Los Amantes Pasajeros. Achei justo porque, afinal, este filme está beeeem abaixo do padrão do diretor ao qual estamos acostumados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 56 textos negativos e 52 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 48% e uma nota média de 5,7. Quase empatei na avaliação com eles – e só porque gosto muito do Almodóvar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: Los Amantes Pasajeros marcou a sétima parceria entre Banderas e Almodóvar e a quinta entre Penélope Cruz e o diretor. Mesmo com tantas presenças em filmes do diretor espanhol, esta foi a primeira vez que os dois contracenaram juntos em uma produção de Almodóvar.

Como normalmente faz em suas produções, Pedro Almodóvar dá uma pequena ponta para o irmão e produtor Agustín Almodóvar. Ele “interpreta”, neste filme, ao controlador da torre do aeroporto onde a produção acaba.

Los Amantes Pasajeros estreou no circuito comercial dos cinemas espanhóis em março deste ano. Depois, o filme passaria por cinco festivais, nenhum de ponta. O mais conhecido é o de Los Angeles. Nesta trajetória, a produção não foi indicada para nenhum prêmio – seria uma surpresa se tivesse acontecido diferente.

Para quem gosta de saber os locais em que o filme foi rodado, Los Amantes Pasajeros teve cenas gravadas em Madrid e em Ciudad Real.

De acordo com o site Box Office Mojo, este último filme de Almodóvar conseguiu, até o último dia 22 de agosto, quase US$ 1,3 milhão nas bilheterias dos Estados Unidos e pouco mais de US$ 10,3 milhões nas bilheterias dos demais mercados onde já estreou. Pouco, como se pode ver.

CONCLUSÃO: Gostei do começo despretensioso e irônico de Los Amantes Pasajeros. As pontas dos astros Antonio Banderas e Penélope Cruz foram muito bem planejadas e tem o tempo adequado para o filme. Depois, achei brilhante o desempenho de Javier Cámara e Lola Dueñas. Mas quando Los Amantes Pasajeros resolve colocar histórias paralelas para “aprofundar” a ação, em um filme nada profundo, e descamba para a orgia, me cansei.

Aparentemente Almodóvar se cansou de fazer filmes mais “existenciais”, naquela fase em que ele se tornou um cineasta premiado e reconhecido internacionalmente. Não acho que ele seja obrigado a seguir uma filmografia séria, até porque o passado dele é muito mais satírico, exagerado e polêmico e abandonar esta verve seria negar o próprio passado do diretor. Mas este novo filme dele, para mim, apenas tirou uma hora e meia do meu tempo, que poderia ter sido utilizado para assistir a um filme melhor, com um diretor e roteirista mais inspirado. Esta produção tem alguns momentos engraçados mas, no saldo geral, achei ela beeeeem dispensável – apesar da produção fazer uma sátira contemporânea da Espanha. Veja se gostar muito do diretor e se não tiver nada melhor para assistir.