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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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Julieta

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Depois que a gente piscar, será Natal. Pois sim. Entramos na reta final de 2016 e, por isso, decidi começar a olhar para o Oscar 2017. Se vocês acham que eu estou me adiantando, saibam que logo é Natal e, na sequência, faltará pouco tempo para assistir a todos os filmes indicados à maior premiação de cinema do mundo. Então vamos começar os trabalhos. Decidi iniciar com Julieta, o mais novo filme do espanhol Pedro Almodóvar. Ele vai representar a Espanha na busca por uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Julieta não é o melhor e nem o pior filme de Almodóvar. O diretor perdeu um pouco do esmero visto anteriormente e parece um pouco cansado.

A HISTÓRIA: Roupa vermelha que parece uma cortina. Respiração. Julieta (Emma Suárez) coloca a escultura sobre a mesa e a embrulha. Ela está preparando a mudança. Em uma gaveta, procura um envelope. Em seguida ela o joga fora. Toca o interfone. Ela deixa Lorenzo (Darío Grandinetti) subir. Ele pergunta como ela está, e Julieta diz que está confusa porque não sabe que livros ela vai levar. Ele diz que eles estão indo para Portugal e que ela pode retornar para Madri quando quiser.

Julieta responde que não gostaria de voltar para a cidade se ela puder evitar. Em uma esquina da cidade, ela se encontra com Bea (Michelle Jenner), uma grande amiga de sua filha, Antía (Blanca Parés). Bea fala de um encontro que teve com Antía no Lago Colmo. Na conversa, Julieta diz que segue em Madri e que continuará ali. Os seus planos acabam de mudar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Julieta): Sempre gostei do Almodóvar. Primeiro, porque gosto de admirar e acompanhar diretores que passam a carreira destilando uma certa assinatura, forjando um estilo próprio. Almodóvar, a exemplo de outros diretores, é um exemplo destes. Além disso, gosto do estilo latino do diretor. Ele levou parte do espírito, dos valores e do estilo da Espanha para o mundo. Como neta de espanhóis, impossível não me interessar pelo cinema daquele país.

Dito isso, reafirmo o que eu comentei antes: Julieta não é o melhor e nem é o pior filme de Almodóvar. Esta produção não está à altura de Hable con Ella (principalmente) e Todo Sobre Mi Madre, mas também ela se revela muito, mas muito melhor que o horripilante Los Amantes Pasajeros (comentado aqui) ou do que o estranho La Piel Que Habito (com crítica neste link). Algo que me chamou a atenção neste filme, logo no início, foi o exagero de diversos elementos.

Para começar, a trilha sonora. Admito que o trabalho do veterano Alberto Iglesias me irritou um pouco desta vez. Ok que Almodóvar quis reforçar a todo momento que este filme tinha elementos de suspense, mas achei a dose exagerada demais. O que acaba jogando contra a história.

Além disso, achei o roteiro escrito por Pedro Almodóvar e inspirado em histórias curtas de Alice Munro também um bocado “over” em diversos momentos. Sim, o diretor espanhol gosta de explorar os exageros e o “drama” dos espanhóis, mas acho que desta vez ele apostou em saídas um bocado simplificadas e exageradas. O roteiro, em si, segue aquela narrativa já tradicional no cinema: começa com a história em um momento de ruptura para, depois, a protagonista, através de um diário que está escrevendo para a sua filha, nos contar o que a levou até aquela situação.

Então partimos do presente para uma longa narrativa de “volta ao passado” que conta parte da história de Julieta e de sua filha única, Antía. O melodrama mostra as suas cartas cedo, logo no início do longo flashback com o suicídio do estranho senhor que se sentou na mesma cabine que Julieta no trem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). História um tanto forçada, um tanto estranha, como diversos outros momentos da produção – destaco, neste sentido, a primeira noite de Julieta e de Xoan (Daniel Grao), também no trem; a “hora da verdade” entre o casal antes do acidente fatal do pescador; e a reação de Antía em diversos momentos.

O filme acaba sendo bem dividido entre o momento presente de Julieta e a sua busca relativa pela “filha ausente” e o longo flashback. O ir e vir do tempo narrativo é constante, o que demonstra uma aposta confortável de Almodóvar por prender a atenção do espectador. Como é característico do diretor espanhol, ele sabe valorizar muito bem o trabalho dos atores. Para começar, Almodóvar escolhe com perfeição os seus talentos.

Desta forma é que vemos grandes trabalhos de Adriana Ugarte (Julieta na fase jovem), Emma Suárez, Inma Cuesta (que interpreta Ava, melhor amiga de Xoan e que acaba sendo uma boa amiga de Julieta no “pueblo”), Daniel Grao e Darío Grandinetti. A sempre ótima Michelle Jenner aparece pouco no filme, mas sempre que ela surge, demonstra talento e a estrela que ela tem.

Vale uma menção especial o bom trabalho de Rossy de Palma, uma antiga colaboradora do diretor. Ela é a “megera” da história mas interpreta, como ninguém, a típica mulher de “pueblo” da Espanha. Com ela, Almodóvar consegue, mais uma vez, repercutir o que a cultura de seu país tem de mais diferenciado. Além dela, possivelmente apenas Julieta e Ava, quando jovens, tem este mesmo mérito na produção. São os papéis mais legítimos, sem dúvida. Os demais tem uma certa simplificação para o gosto do grande público – não estamos nem perto da “Espanha profunda” de filmes como ¿Qué He Hecho Yo para Merecer Esto?

A verdade é que através deste filme Almodóvar parece demonstrar um pouco de “cansaço”. Ele não consegue ser tão original quanto na fase inicial da carreira e nem consegue ser tão preciso e universal como nos seus grandes filmes. Ele não está forjando cada cena e cada diálogo com esmero. Essa fase, parece, ter passado. Agora ele segue mostrando interesse pela cultura espanhola e pelos sentimentos e desejos mais profundos do ser humano, mas apresentando tudo isso de uma forma mais displicente e um tanto preguiçosa. Sinto que para ele é fundamental continuar fazendo filmes, mas que ele já não tem tanta paciência ou interesse de produzir obras-primas.

Então sim, Almodóvar segue sendo interessante. Ele cuida do visual e nos apresenta sempre uma câmera bem focada em ótimos atores, mas não temos mais o mesmo apelo visual e narrativa precisa e interessante de outrora. Em Julieta, temos uma história um tanto estranha de uma mãe que sente a ausência da filha e que a “busca” sem, na verdade, nunca ter a buscado realmente. Afinal, a história não mostra, em momento algum, Julieta indo pessoalmente atrás de Antía. Verdade que ela diz, em certo momento, que prestou queixa na polícia e contratou um investigador. Mas de fato uma mãe se contentaria com isso?

Pode até ser que sim. Mas aí quando ela sabe algo da filha, naquele encontro casual com Bea, não seria mais lógico ao invés dela ter dispensado o namorado e ter voltado para o mesmo prédio em que vivia com a filha ela ter ido no tal lago em que a amiga da filha a encontrou? Ela poderia ter se mudado para perto do lago e ir, pouco a pouco, buscado informações sobre a filha. Mas não… ela entra em um estranho processo de mergulho nas próprias lembranças e em uma crença um bocado irreal de que, depois de 12 anos sem contato com a filha, Antía entraria em contato com ela.

Também não custa voltarmos um pouco na história. Julieta diz que prestou queixa do “desaparecimento” da filha para a polícia e que contratou um detetive particular. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Agora, convenhamos. É difícil de acreditar que Antía tenha desaparecido do mapa sem nunca mais voltar para pegar as suas coisas, não? Ok que ela queria romper com a mãe, mas ela realmente teria desaparecido sem ter planejado isso antes (levando parte do que ela tinha junto) ou, caso não fizesse de forma planejada, não teria retornado para pegar as suas coisas em Madri? Difícil acreditar. Além disso, mesmo que ela tivesse saído sem nada e nem voltado, certamente ela usou algum cartão de banco ou “libreta” para tirar dinheiro. Neste caso, ela poderia ter sido rastreada.

Então é difícil de engolir a “fuga perfeita” de Antía como o filme de Almodóvar quer fazer o espectador crer. As reações de Julieta após o desaparecimento da filha e os de Antía após a morte do pai também me pareceram um tanto deslocados e propositalmente exagerados pelo diretor/roteirista. Descontados estes pontos, Julieta tem alguns pontos bem interessantes de “ironia” da vida. Vejamos.

Mas importante dizer que não deixa de ser irônico dois pontos importantes da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a dificuldade de Julieta aceitar e perdoar o pai que traia a mãe dela – aparentemente com Alzheimer – antes dela morrer. Oras, a própria Julieta não ficou com Xoan antes da mulher dele, que estaria em coma há cinco anos, morrer? Desta forma Almodóvar quer expressar a sua reflexão sobre a hipocrisia das pessoas – e, consequentemente, da sociedade. Julieta age no melhor estilo “façam o que eu digo e não façam o que eu faço”.

Outra ironia importante da produção é que Antía rompe o silêncio e envia uma carta para Julieta depois que ela própria perde um filho – e quase da mesma forma com que ela perdeu Xoan, ou seja, em uma morte na água. Ao sentir na própria pele a dor da perda de um filho, ela resolve procurar a mãe. Muitas vezes alguém só se dá conta de um erro ou de um sentimento quando passa pela mesma situação. Infelizmente nós temos menos empatia do que nós deveríamos no nosso dia a dia – e especialmente quando as relações em jogo são um tanto conturbadas.

Além destes pontos fundamentais de Julieta, há outros três “secundários” e que acabam sendo interessantes também. Primeiro, a figura de Marian, a típica mulher de “pueblo” (interior) que sabe de tudo e que não se contenta em apenas saber das coisas, mas também em falar “verdades” cruéis para as pessoas quando tem uma oportunidade – sem, exatamente, medir as consequências. Depois, o filme claramente trata de paixão/amor e de culpa, dois elementos tão importantes na cultura espanhola.

A culpa é considerada uma herança da cultura com forte presença católica, mas a verdade é que ela tem pouca justificativa na religião e bastante em uma cultura que leva tempo para se libertar de seus “pecados” e da interpretação que fez deles. Mas este elemento, a culpa, é algo importante nesta história. Julieta acaba nos mostrando, como outras produções já fizeram, os efeitos daninhos que a culpa pode ter para uma pessoa e para quem está em volta. Finalmente, o terceiro elemento pincelado por Almodóvar é a homossexualidade, desta vez apresentada nas entrelinhas da relação entre Bea e Antía – e apenas semi-revelada para Julieta perto do final.

Como outros filmes de Almodóvar, Julieta tem bastante tempero e diversos elementos que fazem pensar. Pena que o diretor já não se esmere tanto nos detalhes, especialmente no visual, na história e no ritmo cadenciado do filme. Julieta tem ótimos atores, tem algumas cenas muito interessantes e alguns elementos que lembram a boa fase do diretor, mas ele carece de uma história um pouco mais verossímil e de uma carga menos melodramática e exagerada.

Talvez se não tivesse forçado a barra na trilha sonora e em alguns elementos da história, teria funcionado melhor. De qualquer forma, Julieta segue sendo Almodóvar. E o diretor, geralmente, está acima da média. Além disso, não deixa de ser interessante a escolha dele para o final. Muita gente vai ficar frustrada por não ver o reencontro. Mas acho que esta foi a forma de Almodóvar nos dizer que o importante não é a resolução de um problema, mas o caminho que fazemos até que tudo esteja resolvido. Esse final não me frustrou, ainda que eu entenda quem tenha ficado “chateado”. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor faz algumas escolhas estranhas. Por exemplo, substituir Adriana Ugarte por Emma Suárez quando Antía ainda era uma adolescente. Para mim, teria feito muito mais sentido fazer esta substituição quando Antía tinha 18 anos e resolveu fazer o seu retiro espiritual. Verdade que o corte do cabelo e outros detalhes fazem o “esforço” de apresentar uma Julieta com Emma Suárez mais “jovem” quando a filha dela tem 18 anos mas, mesmo assim, achei a escolha estranha e equivocada.

Falando em desenvolvimento de personagens, verdade que Julieta é bem desenvolvida. Dentro do que a história permite. Mas acho que faltou mostrar um pouco mais de Antía, especialmente na fase pouco anterior ao retiro espiritual. Das duas fases de Julieta, sem dúvida alguma também preferi a fase dela jovem. Acho que Adriana Ugarte nos apresenta uma personagem melhor acabada e estruturada do que na fase de Emma Suárez.

Pedro Almodóvar faz um bom trabalho na direção, ainda que ele não esteja no mesmo nível de trabalhos anteriores como Hable con Ella e Todo Sobre Mi Madre. Mas, como eu comentei antes, ele segue valorizando o trabalho dos atores, colocando a câmera sempre próxima deles mas sem se esquecer também dos cenários e das paisagens que, para ele, são tão importantes para a história quanto os diálogos e as interpretações. Neste sentido, vale destacar também o trabalho do diretor de fotografia Jean-Claude Larrieu e do editor José Salcedo.

Como é característico dos filmes de Almodóvar, vale destacar ainda os figurinos, sempre muito bem escolhidos e parte fundamental da narrativa. Em Julieta quem faz este trabalho é Sonia Grande. Belo trabalho, muito coerente com a história e cada um dos personagens. Sem dúvida alguma ajuda a construir cada um deles e a história.

O filme é bastante centrado em Julieta, como o nome da produção mesmo sugere. Além dela, tem o pequeno grupo de atores que eu já destaquei anteriormente. Eles é que tem o maior destaque na história. Mas há outros atores com papéis secundários que vale citar porque eles tem um trabalho competente, apesar de pequeno. Vale citar Pilar Castro como Claudia, a mãe de Bea; Sara Jiménez está bem como Bea na adolescência; Susi Sánchez como Sara, mãe de Julieta; Mariam Bachir como Sanáa, empregada e amante do pai de Julieta; Joaquín Notario como Samuel, pai da protagonista; Ramón Aguirre como Inocencio, o porteiro do prédio em que Julieta vai morar em duas ocasiões; Priscilla Delgado e Jimena Solano como Antía quando ela era uma adolescente e uma criança de dois anos de idade, respectivamente.

Julieta estreou em abril deste ano na Espanha. No mês seguinte o filme participou do Festival de Cinema de Cannes e, depois, de outros 16 festivais em diferentes lugares do mundo – os últimos três a partir de 7, 8 e 9 de outubro, nestes dias, são os de Nova York, Busan e Hamptons. Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a um outro. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Diretor entregue pelo International Cinephile Society Awards.

Não sei, mas achei algumas escolhas de Almodóvar um tanto toscar. Vou citar apenas uma delas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Muito estranha e mal feita aquela sequência do atropelamento de Julieta. Realmente não me convenceu. Há outros momentos em que Emma Suárez também está bem inconstante. Mas aquela sequência para mim foi a mais tosca. O que apenas reforça o que eu comentei sobre Almodávar estar um pouco displicente. Paciência.

Adriana Ugarte, Michelle Jenner e Inma Cuesta. Isso que eu chamo de uma bela seleção de beldades e de aposta em jovens talentos que ajudam a rejuvenescer o cinema espanhol. Almodóvar, mais uma vez, acerta nas escolhas.

Para quem gosta de saber os locais em que um filme foi rodado, vale citar as locações de Julieta: Redes, em La Coruña (casa de Xoan); Madri; Ares e Mugardos, em La Coruña; Mairena del Alcor, em Sevilla (casa dos pais de Julieta); Panticosa, em Huesca (sequência em que Julieta dirige para o retiro da filha); Algodor, em Toledo (estação do trem); Fanlo, na Comarca de Sobrarbe, em Huesca (local “remoto” no final do filme que mostra os Pirineus). Em Madri, vale citar alguns endereços: Calle del Marqués del Riscal e Calle Monte Esquinza (encontro de Bea com Julieta), Eva Duarte Park, na Calle Dr. Gómez Ulla (quadra de basquete), Calle Fernando VI (apartamento de Julieta) e Colegio Estudio, na Calle Jimena Menéndez Pidal (escola em que Julieta dá aula quando jovem).

Interessante que Julieta, na Espanha, recebeu o nome de Silencio. De fato, este é um elemento importante nesta produção. Muitos não se comunicam e esta falta de comunicação é fundamental para a história. Tanto que, e percebemos isso aos poucos, Julieta realmente não conhece a própria filha. Sem dúvida isso foi algo importante para explicar tudo o que aconteceu. O silêncio é bom, mas nas relações ele não ajuda muito.

Este é o 20º filme de Almodóvar. Grande diretor. Apesar dos deslizes, merece totalmente o nosso respeito e admiração.

O roteiro de Julieta foi escrito por Almodóvar tendo como material original que o inspirou as histórias Destino, Pronto e Silencio da escritora Alice Munro e que fizeram parte de uma coleção que ela lançou em 2004.

Todas as esculturas que no filme aparecem como sendo de Ava são, na verdade, do artista Miquel Navarro.

Uma curiosidade que vai além do filme – ainda que tenha relação com a divulgação dele: Pedro Almodóvar cancelou todas as entrevistas e a estreia oficial desta produção em Madri por causa da divulgação do Panama Papers. O nome do diretor e do seu irmão, Pedro Almodóvar, apareceram neste material sobre paraísos fiscais e empresas offshore.

O roteiro original do filme foi escrito em inglês e a ideia era rodar a história no Canadá. Mas Almodóvar não se sentiu cômodo, no final, em gravar uma produção em um idioma que ele realmente não dominava e em país em que ele não estava familiarizado. Por isso ele resolveu fazer o filme em espanhol e em seu país de origem. Acho que foi uma boa escolha, porque apesar dos probleminhas do roteiro, o filme convence por se passar na Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Julieta, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 55 críticas positivas e 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 7,6. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção. Elas são muito boas se levarmos em conta o padrão de ambos.

Esta é uma produção 100% da Espanha.

 

CONCLUSÃO: Pedro Almodóvar é um destes diretores com assinatura. Sobre isso, não há dúvida alguma. Mas já vimos filmes melhores dele. Com Julieta o diretor espanhol mostra que perdeu um pouco do rigor no estilo narrativo e também na força do roteiro. Ele cai algumas vezes no exagero e em saídas cômodas para os problemas da história, mas segue valorizando o trabalho dos atores e a reflexão sobre questões importantes para os indivíduos. Mais uma vez é um prazer ver Madri e um pouco da cultura espanhola, ainda que a apresentação não seja tão interessante como já foi um dia. De qualquer forma, é um bom filme, apesar de seus exageros e pontos difíceis de acreditar.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Como eu comentei lá no início, Julieta foi escolhido pela Espanha para representar o país no Oscar 2017. Com ele eu começo a ver filmes que estão cotados para diferentes categorias da maior premiação de Hollywood. Ainda que eu respeito Almodóvar e a sua filmografia, francamente eu não vejo Julieta com qualquer chance de chegar na lista dos cinco indicados a Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ele não tem qualidade para tanto. Só chegaria lá se estivéssemos em um ano com uma safra fraquíssima, o que eu acho difícil de ser o caso. Então, honestamente, eu não apostaria nele para chegar até perto de uma estatueta.

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La Teta Asustada – The Milk of Sorrow – A Teta Assustada

Viver com medo e, em certo momento, perder a pessoa que sempre foi a sua segurança no mundo. A aparição da morte, a única visita inevitável para qualquer pessoa que esteja viva, marca uma mudança radical na trajetória da protagonista de La Teta Asustada, a produção peruana que arrebatou este ano o principal prêmio do Festival de Berlim.

Eis aqui um filme impressionante por sua singularidade. Ainda que trate de alguns temas universais, que poderiam ser vivenciados de maneira parecida em diferentes locais do mundo, La Teta Asustada conta uma história com forte carga de sua nação de origem, ou seja, com uma marcante identidade peruana.

Esta característica da produção, assim como o excepcional trabalho de sua diretora e atriz principal, fazem de La Teta Asustada um dos grandes filmes latinos deste ano.

A HISTÓRIA: Um canto triste, quase um lamento, conta a história de dor de Perpétua (Bárbara Lazón), mãe de Fausta (a maravilhosa Magaly Solier). A mulher, vítima de um dos vários ataques terroristas na cidade de Ayacucho, no Peru, foi estuprada durante a gestação da filha.

Segundo reza a lenda local, os filhos de atos de violência como aquele nascem com uma doença chamada de “teta assustada”. Com a morte da mãe, Fausta enfrenta o medo de sair de casa sozinha para trabalhar na residência de Aída (Susi Sánchez), uma mulher rica que vive na região central da cidade. Tudo o que a amedrontada protagonista deseja é conseguir dinheiro suficiente para enterrar a sua mãe.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Teta Asustada): Fiquei impressionada com este filme. Primeiro, pela força e beleza de sua história. Depois, pela seriedade com que cada ator envolvido neste projeto leva o seu papel.

O elenco, formado por poucos atores profissionais, traz para a tela ainda mais realismo para a história. Impressionante a força de algumas tradições e crendices em comunidades com pouca cultura e informação.

Também fiquei admirada com a forma delicada com que a diretora e roteirista Claudia Llosa trata assuntos importantes e sensíveis para diferentes realidades peruanas, como são o da violência, da insegurança pública e o da sexualidade.

Infelizmente, nós, brasileiros, sabemos muito pouco sobre os costumes, as tradições e a realidade de “nuestros hermanos” da América Latina. Peço desculpas às pessoas que podem visitar este blog e que se encaixam dentro do pacote de exceções desta regra mas, especialmente depois de morar na Espanha por alguns anos, é que me dei conta de como, no geral, a frase que abre este parágrafo é verdadeira.

Estando tão longe do Brasil é que comecei a me aproximar de equatorianos, bolivianos, chilenos, colombianos, peruanos, argentinos, uruguaios, enfim, de pessoas de distintas nacionalidades que formam este imenso e rico continente em que vivemos.

Foi na Espanha que passei a conhecer e entender as diferenças e semelhanças entre as distintas nacionalidades dos latinos. E, francamente, quanto mais eu conheço sobre as pessoas destes países, mais vontade tenho de saber mais a seu respeito.

La Teta Asustada pode servir como um pontapé inicial neste saudável processo de conhecer um pouco mais as culturas dos nossos irmãos latinos. O filme está carregado com algumas cores, paisagens, costumes, tradições e crenças peruanas.

Sua história foca a importância da família e o “nascimento” tardio de uma mulher feita que, ao perder a mãe, seu escudo em relação à realidade, deve aprender a seguir adiante. Fazer a escolha, como bem comenta o personagem de Noé (o ótimo Efraín Solís), entre continuar vivendo com medo ou não.

La Teta Asustada é, na verdade, uma bela história sobre a libertação de uma pessoa que viveu sempre assustada pela violência. Emocionante. E o melhor: sem pirotecnia, ou seja, sem fazer uso de recursos batidos para emocionar o espectador.

Tudo ocorre muito naturalmente neste filme. Tanto que ficamos surpresos e asustados com cada revelação sobre a vida de Fausta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas em uma comunidade pobre, aonde ainda predominam as crendices e falta informação sobre saúde pública e tudo o mais, alguém pode realmente acreditar que uma batata colocada na vagina é a melhor forma de evitar estupros.

A mãe de Fausta foi violentada por terroristas, mas sua filha foi a maior vítima desta violência. Permanentemente assustada, com receio das pessoas, ela acaba aprendendo a duras penas que realmente é preciso ter o pé atrás com essa gente que faz promessas.

A violência praticada pelos terroristas contra sua mãe acaba se repetindo no ato de pessoas ricas como Aída, que se interessam pelos “coitados” como Fausta apenas para robar-lhes sua criatividade e explorá-los pelo trabalho.

Muitas pessoas podem achar que o filme é lento demais ou que, ao mostrar preparativos para casamentos como o da prima de Fausta, apenas “enchem a linguiça”. A verdade é que o cotidiano da família de Lúcido (Marino Ballón), tio da protagonista, é o elemento que dá a devida contextualização daquela realidade para o espectador.

Mesmo narrando uma história, aparentemente, singela, La Teta Asustada se debruça sobre questões importantes e traz, em seu dorso, um bocado da essência do povo peruano.

Francamente, vi nesta produção o mesmo espírito batalhador, um bocado sofrido (daí suas canções-lamentos) e carregado de esperança que encontrei nos peruanos que tive o prazer de conhecer na Espanha. A capacidade de Claudia Llosa em trazer parte da essência de seu povo para este filme é o que o torna tão especial e potente.

Cuidadoso em suas imagens, La Teta Asustada só cai um pouco no lugar-comum quando mostra, perto do final, o encontro da protagonista e de sua mãe com o mar.

Esta odisseia, de um lugar do interior até o mar, é um dos símbolos mais conhecidos/batidos para o sentimento de liberdade humana. Não deixa de ser bonito, claro, mas acho que enfraquece um pouco a originalidade da história. Mas apesar disto, para nossa sorte, ainda nos espera uma cena final depois desta sequência do mar. 😉

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Claudia Llosa já havia impressionado muitas pessoas com seu filme anterior, Madeinusa. Ao repetir a dobradinha com a atriz Magaly Solier, a diretora conseguiu ir ainda mais longe neste La Teta Asustada.

A verdade é que o filme não seria o mesmo se a protagonista fosse outra. Magaly Solier nos mantêm hipnotizados à sua frente desde o primeiro minuto em que ela aparece em cena. Impressionante.

Mas não é apenas ela a responsável pela qualidade do filme. Os outros atores centrais da história, especialmente Efraín Solís, Marino Ballón e Susi Sánchez, contribuem muito para que o interesse pela história não desvaneça pelo caminho.

Além da direção cuidadosa de Claudia Llosa, que mantêm sua câmera sempre próxima dos atores ao mesmo tempo em que enfoca os detalhes dos lugares, La Teta Asustada apresenta uma trilha sonora muito emotiva e carregada pela tradição peruana, mérito de Selma Mutal.

Merecem elogios também a direção de fotografia de Natasha Braier. Através de suas lentes, percebemos um tom “terral” onipresente, como que tornando o cenário ainda mais árido do que ele é na realidade.

Há meses eu queria assistir a este filme. Ele havia sido indicado por uma querida amiga espanhola, a Maite, que viveu um tempo em Lima, capital peruana e cidade aonde La Teta Asustada foi filmado.

Como outros filmes que foram indicados por pessoas que admiro muito, eu tinha receio de criar muitas expectativas com esta produção e, depois, me decepcionar. Mas isto não ocorreu – para minha alegria. 🙂 Obrigada, Maite, por essa grande indicação!

La Teta Asustada estreou no Festival de Berlim, em fevereiro deste ano. Co-produzido pelo Peru e pela Espanha, o filme saiu do principal prêmio de cinema alemão com duas estatuetas: o Urso de Ouro como melhor filme do ano e o prêmio da Fipresci (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica).

Até o final de 2009, La Teta Asustada será exibido em outros sete festivais. Em um deles, o Guadalajara Mexican Film Festival, promovido em março, o filme recebeu os prêmios de Melhor Filme e de Melhor Atriz para Magaly Solier.

Neste texto de um portal de notícias do Peru encontrei mais informações sobre o “mal da Teta Assustada”. Esta crença, originada nas cidadezinhas da serra peruana, afirma que as mulheres que foram estupradas e maltratadas durante a sua gravidez carregam, no leite materno, o terror pelo ato que sofreram e, através da amamentação, este terror migraria para os filhos, que cresceriam com medo.

O material de divulgação do filme comenta que ele trata de assuntos universais como “a reconciliação e o perdão”, assim como aborda a “violência que se considera como a doença que a sociedade guarda no seu ventre, e que precisa ser enfrentada através do seu reconhecimento”.

Neste site encontrei um vídeo com a diretora do filme na ocasião em que ela recebeu os prêmios em Berlim. Nele, Claudia Llosa afirma, por exemplo, que demorou aproximadamente dois anos pesquisando o tema da “teta assustada” e que, pelo fato de não ter conhecido ninguém que tenha “padecido desta doença”, teve que criar, no filme, uma ideia do que seria isso.

Segundo este texto, que traz mais informações a respeito da “teta assustada”, Llosa teria se inspirado no depoimento de mulheres que foram vítimas de violência durante os 20 anos em que os conflitos armados ocorreram no Peru.

Busquei mais informações sobre os ataques terroristas em solo peruano e encontrei esta monografia de Luís Alfredo Alarcón Flores sobre o tema. A parte que interessa neste trabalho começa a partir do título “El procedimiento del Terrorismo”.

Neste trecho, o seu autor comenta sobre as ações de grupos como o Sendero Luminoso e o Movimiento Revolucionario Tupac Amaru que, a partir dos anos 1980, teriam provocado o terror em muitas partes do Peru.

O filme registra a nota 7,5 pela votação dos usuários do site IMDb. O Rotten Tomatoes abriga apenas duas críticas sobre o filme, ambas positivas.

La Teta Asustada foi co-produzido pela Espanha. Em seu discurso de agradecimento pelo Urso de Ouro em Berlim, a diretora Claudia Llosa dedicou o prêmio a seu país de origem, o Peru, mas também à Barcelona e à Espanha que, segundo ela, lhe adotaram há oito anos.

Filha do diretor de cinema Lucho Llosa, Claudia conseguiu rodar La Teta Asustada com a ajuda do World Cinema Fund, uma organização ligada ao Festival de Berlim.

Além do espanhol, o filme traz diálogos em quechua, idioma falado por muitas comunidades andinas.

CONCLUSÃO: Uma produção impactante que revela uma história pouco debatida em seu país de origem, o Peru. Filmada com atenção nos detalhes por Claudia Llosa, La Teta Asustada é destas produções que ficam perambulando pela nossa lembrança e imaginação por muito tempo.

Revelando uma parte curiosa de distintas realidades peruanas, este filme trata de família, costumes, tradições, crendices, desigualdades sociais e uma violência que, quanto mais silenciada, mais presente se torna.

Vale ser visto tanto por seu caráter único, muito ligado à realidade e ao passado dos nossos irmãos peruanos, quanto por seu caráter universal e simbolista – que nos mostra como é complicado, mas possível, enterrar o passado e seguir adiante.

ATUALIZAÇÃO (31/10) – PALPITE PARA O OSCAR 2010: La Teta Asustada apareceu na lista dos pré-candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010 divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

O filme peruano disputa com outras 64 produções uma das cinco vagas finais da cobiçada estatueta. Ainda preciso assistir aos demais concorrentes, mas francamenteu eu gostaria que La Teta Asustada surpreendesse a maioria dos críticos e ficasse entre os finalistas.

Acho difícil, para ser franca, porque parece que este ano há grandes produções na disputa. Mas de todos os filmes latinos que buscam um lugar ao sol no Oscar 2010, acho que a produção de Claudia Llosa é a que tem mais chance de chegar longe. Pessoalmente, estou na torcida!