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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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Truman

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O nosso coração sempre sabe de quem gostar, em quem confiar. Pelo menos quando falamos de amizade e de relações a longo prazo. Truman fala sobre amor, amizade, reencontros e decisões que não são fáceis de encarar. Um filme sensível, singelo, despretensioso e com dois dos maiores atores do cinema em língua espanhola dos últimos tempos como protagonistas e fazendo um dueto incrível. Procure não saber muito do filme antes de assisti-lo. Só assim vais aproveitar ao máximo tudo o que os realizadores de Truman prepararam pelo caminho.

A HISTÓRIA: Uma rua de um bairro residencial com casas cobertas de neve. Chega um táxi. Dentro da casa, Tomás (Javier Cámara) toma uma bebida quente, confere que as crianças estão dormindo e vai até a cama dar um beijo na mulher. Depois, ele termina de se arrumar para encarar o frio novamente. Desta vez, ele se prepara para viajar. Com atenção, contempla no caminho as paisagens cheias de neve e geladas. Com o passaporte espanhol na mão, Tomás voa para o seu país de origem. Em Madri, ele fica hospedado em um hotel, muito próximo da casa de Julián (Ricardo Darín), motivo de sua viagem de retorno, de reencontros e de novas descobertas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truman): Caros leitores, realmente só leiam este texto depois de terem assistido ao filme. Repito isso pela enésima vez e sendo até chata porque, sem dúvida, uma das forças de Truman é o roteiro fantástico escrito por Cesc Gay e Tomàs Aragay. E o texto deles só tem o impacto desejado se a história for descoberta assistindo ao filme e não antes.

Dito isso, impossível não comentar: que filme é esse, minha gente? Estrelado por dois atores magistrais, fantásticos, que repassam para quem vê esta produção a emoção adequada do primeiro até o último minuto. Não há excessos em Truman. O roteiro de Gay e Aragay é justo em cada palavra e em cada silêncio, e Cámara e Darín são soberbos ao viver as emoções de seus personagens em cada momento, especialmente nos olhares e momentos de silêncio.

Vou admitir, logo aqui no início, que chorei um bocado neste filme. Pelo menos em dois momentos as lágrimas caíram sem vergonha. Na verdade, acho difícil alguém assistir a Truman e não se emocionar, inclusive chorando em um ou mais momentos. Mas sei também que cada um vivencia o cinema e as suas histórias de uma maneira, é claro. Isso sempre foi assim e sempre será. Possivelmente esse filme faça pessoas que já tem uma certa trajetória de vida entender na plenitude o que Gay e Aragay quiseram dizer. Imagino eu adolescente assistindo a Truman e não tendo a mesma leitura que a Alessandra de agora, possivelmente com metade da vida já vivida e tendo presenciado tantas histórias de dores e mortes pelo caminho.

Porque este filme tem muito a ver com a passagem do tempo, com uma vida bem vivida e com o enfrentamento do fim inevitável. E tudo isso fica mais claro conforme vivemos, presenciamos despedidas e encaramos a nossa própria fragilidade. Mas Truman não é apenas isso, mas uma reflexão comovente sobre as relações que realmente são importantes e sobre a aceitação dos limites que cada um de nós tem.

No início desta produção, cheguei a me perguntar sobre a natureza da relação entre os protagonistas, entre Tomás e Julián. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Naquele primeiro contato entre eles, os segundos em que ficaram se olhando e não falaram nada, mil sentimentos passaram na nossa frente. Tomás poderia ter tido uma relação amorosa com Julián e depois ter casado e tido filhos? Mas não demora muito para essa possibilidade desvanecer e ficar claro que eles são apenas grandes amigos. Ou melhor, são um o melhor amigo do outro.

Pouco a pouco o roteiro também vai deixando claro a razão da viagem de Tomás. Ele voltou para Madri para tentar convencer o amigo a não desistir da vida. Depois que eles se encontram, Julián primeiro vai consultar o veterinário (Alex Brendemühl) que cuida de Truman para saber como ele pode ajudar o cão a ter uma adaptação melhor sem ele. Na sequência, todas as dúvidas são respondidas quando Julián vai em mais uma consulta com o seu médico (Pedro Casablanc). Depois de batalhar bastante contra um câncer agressivo, agora a doença retornou com mais força e ele está cansado.

Quando Tomás viaja para visitar o amigo, ele ainda tem a esperança de que Julián pode mudar de ideia. Que ele pode decidir por continuar lutando contra a doença. Mas Julián é muito claro, ao falar com o médico, de que ele está cansado e que quer viver o resto do tempo que ele tem com dignidade e não definhando em uma cama de hospital. Tomás é sutil nas tentativas, como quando ele vai com o amigo para uma livraria. Só que nada surte efeito porque Julián está tranquilo, em paz com a decisão que tomou.

Como tantas pessoas que já viveram um bocado de tempo, ele está tranquilo com o que fez da própria vida e tem por estilo não ter muitas “papas na língua”. Há vários exemplos dele sendo sincero com diversas pessoas no filme, em uma espécie de acerto de contas com todos que encontra. Ainda que ele tenha muita coragem, algo inerente para quem enfrenta algo tão duro quanto o fim da própria vida, ele é humano e também tem momentos de “covardia”. Como quando não consegue contar para o filho exatamente o que está passando.

Uma das belezas de Truman é que este filme é humano, demasiadamente humano. Por isso mesmo ele trata da vida e da morte, e de boa parte dos frutos destas duas realidades, como os afetos, os amores, o perdão, a raiva, a compreensão e a incompreensão. Tomás viaja sabendo que possivelmente esta será a última vez em que ele verá o seu grande amigo. Pensa que talvez consiga fazer alguma diferença, mas logo aceita que não e que o melhor é realmente respeitar a vontade de Julián. Isso é amor. Você respeitar a vontade da pessoa que você ama, mesmo não concordando com ela.

Julián, por sua vez, vive altos e baixos. Ao mesmo tempo que está seguro e sereno sobre a decisão que tomou e parece ter coragem de enfrentar o que virá, em alguns momentos ele revela fragilidade, insegurança e carência. Todos sentimentos previsíveis de quem está encarando o próprio fim. Altruísta, ele está preocupado com Truman, o seu grande companheiro de muitos anos. Quem já teve um cão ou outro animal de estimação com quem compartilhou vários anos de sua vida vai, com certeza, entender a preocupação pela que passa Julián.

Para mim, as peripécias de Julián para encontrar a “pessoa certa” para ficar com Truman revela todo o amor e sensibilidade do personagem. Não é porque ele vai morrer que ele deve entregar o seu “companheirão” para qualquer pessoa ou deixá-lo em qualquer lugar. Tomás acompanha o amigo em cada passo e é doloroso fazer isso. Mas, ao mesmo tempo, ele também acaba aceitando melhor a situação que está se apresentando. Os dois amigos, na verdade, estão em processo de aceitação. A despedida derradeira nunca é fácil, apesar disso.

Vale destacar também a diferença entre Tomás e Paula (Dolores Fonzi). Ela é a pessoa mais próxima de Julián e, por ser de sua família, não consegue aceitar que ele vai embora para sempre. Normalmente os familiares tem esse problema de aceitação. Eles querem que a pessoa lute e brigue até o final, e fica difícil aceitar qualquer outra alternativa. Para um amigo também não é fácil, não estou dizendo isso.

Mas o interessante é que Tomás e Paula encarnam duas personalidades diferentes e bem comuns em situações assim. Ele aceita a decisão do amigo, mesmo lhe doendo muito. Ela não, porque gostaria que ele lutasse até o final. Honestamente, entendo e consigo me colocar no lugar dos dois. Isso não é fácil, qualquer espectador mais sensível sente a dor de cada um dos personagens, porque esta história é de alta empatia. Mas apesar de toda a força de Paula, no fim, e isso Truman nos mostra muito bem, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Cada um sabe as alegrias e as dores por que passou como ninguém mais.

Então, até podemos argumentar, torcer mas, no fim das contas, cada um deveria saber a forma com que quer viver e acabar a própria trajetória. Aceitar nem sempre é fácil, mas obrigatoriamente fará parte do processo. Quanto antes conseguimos sair do campo do que queremos e passamos para o campo de aceitar, entender e respeitar o desejo de quem amamos, melhor. Por mais que a situação seja difícil e definitiva. Porque, no fim das contas, o que realmente fica e vale é o que vivemos juntos, o que demonstramos e como passamos o nosso tempo. Truman fala disso tudo com muita sinceridade e interpretações maravilhosas. Não é preciso nada mais.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sou uma apaixonada por filmes que nos fazem imergir em uma realidade, em uma história, especialmente quando o foco desta narrativa são pessoas e suas relações e sentimentos. Para mim, estes são filmes “humanistas”, porque tratam de pessoas e da própria humanidade. São, justamente, os que eu mais aprecio. Truman é um grande exemplar deste tipo de filme.

Além de dois atores soberbos, Truman tem um roteiro exemplar. O diretor Cesc Gay escreveu Truman junto com Tomàs Aragay e fez desta união um grande trabalho. Truman tem momentos de pura emoção e vários trechos de humor na medida – afinal a vida, mesmo perto da tragédia, não deixa de ser cômica. Como este filme trata de vida e de morte, não tinha como ele ignorar o drama e a comédia, a base de qualquer grande obra.

Enquanto a história se desenvolve, Julián vai prestando contas e fazendo tudo que ele acha necessário fazer antes de partir. Curioso que nós deveríamos fazer isso mais vezes também. Afinal, nunca sabemos quando será a nossa vez. Julián teve a “sorte” de fazer o que queria antes de partir porque sabia que a “sua hora” estava chegando. Mas e todas aquelas pessoas que partem repentinamente e que não podem fazer o mesmo? Seja mortas por acidente, crime ou por um ataque cardíaco fulminante? Ninguém está livre disso e, por mais que não gostemos de pensar na nossa mortalidade com muita frequência, deveríamos agir mais vezes como se “não tivéssemos amanhã”. Seria mais fácil encarar o fim quando ele realmente aparecesse.

Outro elemento que faz Truman entrar na minha lista de grandes filmes é que ele se passa em Madri. Como vocês sabem, o cinema é uma ótima forma de viajarmos no tempo e no espaço e a visitar e/ou revisitar lugares que não conhecemos ou aqueles que amamos e que não podemos vivenciar tanto quanto gostaríamos. Como eu vivi em Madri por três anos e voltei algumas vezes para lá desde então, sempre é um prazer ver a cidade na telona. Meu coração bateu forte ao ver o Café de Belén logo no início, um dos pontos queridos de quem vive naquela cidade.

Sou fã de carteirinha de Ricardo Darín (e quem não é?) e de Javier Cámara. Aqui eles fazem mais uma grande entrega. Palmas para Cesc Gay que conseguiu reunir estes dois monstros em uma mesma produção. Além deles e dos atores já citados, com destaque especial para Dolores Fonzi, que faz um grande trabalho também, vale comentar a atuação de outros atores muito bons em papéis secundários. Para começar, destaco Eduard Fernández, um competente ator espanhol, que faz uma ponta como Luis, amigo de Julián que foi traído por ele e com o qual ele se encontra em um restaurante; Oriol Pla como Nico, filho de Julián; José Luis Gómez, outro veterano ator espanhol, como o produtor de teatro que acaba dispensando Julián da peça que ele estava fazendo; Javier Gutiérrez como o assessor da funerária; Elvira Mínguez como Gloria, ex-mulher de Julián e mãe de Nico; e Lucie Desclozeaux como Sophie, namorada de Nico. Ah sim, e o cão que “interpreta” Truman se chama Troilo. 😉

O roteiro de Truman é, junto com a dupla de protagonistas, o ponto forte do filme. Assim como a direção de Cesc Gay que está sempre cuidando da câmara estar perto dos atores e enfocando as suas emoções, expressões e reações. Além disso, o diretor não se esquece de mostrar o ambiente e a atmosfera em que estas pessoas se movem e onde elas vivem. Elementos fundamentais quando estamos contando uma história de vida.

Da parte técnica do filme, além da direção e do roteiro, vale destacar a direção de fotografia de Andreu Rebés e a edição de Pablo Barbieri Carrera. Também funcionam bem o design de produção de Irene Montcada, a direção de arte de Jorien Sont e os figurinos de Anna Güell. A trilha sonora de Nico Cota e Toti Soler é pouco presente, mas é boa e casa bem com a história.

Truman estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, ele participou de outros oito festivais pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 21. Uma bela coleção – e merecida, diga-se. Entre os prêmios que recebeu, destaque para as seis categorias que abocanhou no Prêmio Gaudí, o principal do cinema catalão; para cinco estatuetas que recebeu no Prêmio Goya, o mais importante da Espanha; e para o SIGNIS Award – Special Mention no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: depois da estreia de Truman nos cinemas, o diretor Cesc Gay informou a imprensa que Troilo, o cão que dá vida a Truman no filme, morreu de causas naturais alguns meses depois das filmagens terem terminado. Em alguns eventos com tapete vermelho para divulgação do filme nos quais o ator Ricardo Darín participou ele levou uma das filhas de Troilo na apresentação da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 textos positivos para a produção. E isso é tudo. Este é um raro, muito raro exemplo de um filme que conseguiu 100% de aprovação dos críticos que deram a nota média de 7,7 para a produção. Tenho que admitir que estou com os críticos. Acho que isso ficou evidente com a nota acima, não é mesmo? Acho esse filme perfeito, simplesmente.

Truman é uma coprodução da Espanha com a Argentina. Ele teria custado cerca de 3,8 milhões de euros. Para comparação, Batman vs Superman: Dawn of Justice teria custado US$ 250 milhões. Não assisti ao filme, antes que alguém me questione, e francamente nem tenho a intenção de fazer isso. Não porque não gosto de filme de super-heróis ou baseados em HQ. Mas ouvi muitos comentários negativos dele e, francamente, não tenho tempo para perder com produções ruins. Além disso, desconfio que ele nem roce na humanidade deste Truman. E, volto a dizer, é deste tipo de filme que me interessa.

CONCLUSÃO: Para ser grande não é preciso ter ambições muito altas. Truman é um exemplo de que uma história aparentemente simples pode ter grande profundidade e emocionar por tudo aquilo que nos apresenta e também por tudo aquilo que nos faz resgatar de nós mesmos. Um filme exemplar na história e na forma com que ela é narrada, dando evidência para o trabalho excepcional de dois intérpretes gigantes. Vale mais que 10 filmes medianos de heróis em quadrinhos e sem metade do dinheiro gasto por um deles. Porque bom cinema não precisa de pirotecnia, ele precisa nos contar uma história convincente e, preferencialmente, envolvente e com empatia. Este é um belo exemplar deste tipo. Tendo a possibilidade de assistir a esta produção, não a desperdice.