El Ciudadano Ilustre – The Distinguished Citizen – O Cidadão Ilustre

Quando alguém escreve, mergulha em todos os aspectos de sua vida e daquilo que quer contar. Nossa bagagem sempre está presente, mesmo quando não nos damos conta dela. El Ciudadano Ilustre, a exemplo do recentemente comentado por aqui Paterson, trata de literatura e da vivência do artista. Mas diferente do filme de Jim Jarmusch, El Ciudadano Ilustre tem mais pimenta e humor, além de uma certo “realismo fantástico” que lembra bem parte da literatura latino-americana.

A HISTÓRIA: O mestre de cerimônias apresenta as credenciais e uma rápida biografia do escritor Daniel Mantovani (Oscar Martínez). Apesar de ter vivido grande parte de sua vida na Europa, o argentino Mantovani espera na ante-sala para receber o Prêmio Nobel da Literatura. Quando ele é chamado ao palco, faz um discurso comentando como, ao receber o prêmio, ele percebe que a sua carreira terminou. Afinal, ele está sendo o artista mais “cômodo” para jurados, especialistas, acadêmicos e reis, e esta, na opinião de Montovani, não deve ser o papel de um escritor.

Cinco anos depois, o escritor argentino segue recebendo prêmios e com uma agenda cheia de eventos. Em alguns ele comparece, outros eventos ele simplesmente recusa. Um destes convites é feito pela prefeitura de Salas, cidade em que ele nasceu e que lhe serve de inspiração para as suas obras. No primeiro capítulo deste filme, Montovani recebe o convite para voltar para Salas. Inicialmente ele recusa, mas depois volta atrás e decide retornar para a cidade natal para receber o título de “cidadão ilustre” da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a El Ciudadano Ilustre): Como é bom voltar para o bom e velho cinema argentino! Porque sim, é muito difícil ver a um filme do país vizinho e não gostar do que assistimos. El Ciudadano Ilustre segue esta linha de satisfação quase sempre garantida, apresentando um filme inteligente, interessante, literário e bastante humano.

Esta produção foi a indicação deste ano da Argentina para o Oscar. Uma bela escolha, ainda que o filme fuja do padrão hollywoodiano. O roteiro de Andrés Duprat mergulha no fazer literário tendo como protagonista um escritor que lembra muito a outros nomes da literatura latino-americana, especialmente aqueles da escola do “realismo mágico”. Como assistir a El Ciudadano Ilustre e não lembrar de “Cien Años de Soledad” do grande Gabriel García Márquez?

Claro que há muitas outras referências, como os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, entre outros. Também me lembrei muito de José Saramago, o português que ganhou um Nobel da Literatura, a exemplo do protagonista deste filme, e que não achou, exatamente, que este foi um grande “presente”. E aí está uma das principais qualidades do roteiro de Duprat, a sua fina ironia.

Logo nos primeiros minutos do filme percebemos que Duprat nos mostra, através de seu Daniel Mantovani, que a noção de sucesso é bastante relativa. Para o protagonista de El Ciudadano Ilustre, os títulos que ele recebe, inclusive o Nobel, não querem dizer nada – ou querem dizer muito pouco. Ele continua “solitário”, incomodado com o que vê ao seu redor e, principalmente, com questões mal resolvidas com a sua cidade natal Salas e algumas pessoas que ele deixou por lá.

Como acontece na vida real, o escritor deste filme também se inspira muito na realidade, nas memórias que tem e preserva de sua cidade natal e a sua gente e, principalmente, na releitura que ele faz desta mesma realidade. Como ele escreve ficção, utiliza alguns elementos da realidade para dar asas para a própria criatividade e deixar fluir a literatura que lhe torna famoso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma muito inteligente, Duprat nos faz acreditar que Mantovani decide aceitar o convite da prefeitura de Salas para ir para a cidade receber o título de cidadão ilustre do município.

Desde que ele decide aceitar o convite, mergulhamos junto com ele em uma cidade do interior cheia de particularidades. Como tantas e tantas cidades do interior do Brasil, da Argentina e, tenho quase certeza, de qualquer parte do mundo. Quem nunca foi para o “interiorzão” e não viu vários detalhes que Mantovani vai encontrando pelo caminho, desde o ar-condicionado do hotel que só poderá ser usado após um pedido “expresso” do hóspede para a recepção até uma certa falta de oportunidades e do que fazer para uma parte considerável da população.

Personagens curiosos vão aparecendo conforme Mantovani vai se deslocando pela cidade. Muitos deles fascinados por um “cidadão ilustre” que colocou o pequeno “pueblo” no mapa mundial. Mas claro que há sempre o outro lado da moeda, como o prefeito que quer aparecer bem na foto com o escritor que ganhou o Nobel e o artista da cidade que não é premiado em um concurso e que empreende uma guerra particular contra o mais novo “desafeto”. Também há a jovem inteligente que vê no famoso escritor a desculpa perfeita para sair da pequena cidade e buscar uma vida longe dali.

O desenvolvimento da história é linear e bastante lógico, além de saboroso. Duprat tem um texto saboroso, que explora muito bem o contraste entre o escritor famoso e que tem uma grande vivência internacional e reflexiva e o povo simples da cidade em que ele nasceu. Mantovani não tem nada a ver com aquelas pessoas, aparentemente e olhando de forma geral, assim como quase nenhum de nós tem realmente a ver com o nosso lugar de origem – ainda que não podemos, ao mesmo tempo, ser explicados sem esta informação.

Ainda que o filme seja focado no protagonista, acabamos sabendo menos dele do que de Salas. Sim. Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn sabem conduzir a história de Andrés Duprat com maestria, destacando os locais e personagens de Salas mais do que o escritor ilustre que nos leva por aqueles caminhos. Enquanto a história se desenvolve, acabamos sabendo um pouco sobre ele. Por exemplo, que ele não retorna para Salas há 40 anos – como a mãe dele morreu naquele período, calculamos que a última vez que ele esteve lá foi para o enterro dela.

No vídeo de homenagem que fazem para ele na cidade, acabamos sabendo que o pai dele morreu 10 anos depois da mãe, mas Mantovani não foi para lá naquela ocasião. Ainda que ele frequenta a cidade há tanto tempo, ele deixou lá pessoas que lembram bem dele, como o antigo amigo Antonio (Dady Brieva) e a ex-namorada Irene (Andrea Frigerio) que, agora, está casada com Antonio. Na Espanha, onde mora, Mantovani vive de forma confortável, mas mora sozinho. Em uma conversa com Antonio ficamos sabendo que ele não se casou e que não teve filhos.

Mas se não conhecemos em detalhes a vida pessoas de Mantovani, sabemos sobre os seus valores e formas de pensar e agir, acabamos aprendendo conforme a história se desenvolve. Ele é um sujeito que respeita a todos, mas que não se deixa corromper e nem levar por favores ou promessas bobas. Ele também acha a fama e os prêmios uma bobagem, ou efeitos de um trabalho bem feito. Nada mais, nada menos. Ele não tem muita paciência com pessoas “sem noção” e não tem muitas “papas na língua”. Fala o que pensa e gosta de ter a liberdade para isso.

Para mim, o genial mesmo do filme foi o seu final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No início, como eu comentei, Mantovani não aceita diversos convites, inclusive o feito pelo município de Salas. Depois, a história parece dar uma “virada” e ele vai para lá. No final, aparentemente, ele é morto por Roque (Nicolás de Tracy), e nos últimos minutos da produção parece que vamos ver ele ser velado. E aí vem a grande e inteligente reviravolta: Mantovani está lançando o seu último livro, justamente a história que acabamos de ver.

Um dos jornalistas da coletiva de imprensa pergunta se o livro, que tem Mantovani como protagonista pela primeira vez em suas obras, é baseado em fatos reais. O escritor diz que isso pouco importa e mostra uma marca no peito, brincando que ela pode ter diversas origens. Achei brilhante! Belo final e que deixa a “moral da história” a gosto do espectador.

Da minha parte, acho sim que tudo o que vimos foi uma criação de Mantovani e que ele, de fato, não foi até Salas. Se observarmos bem quando ele “recebe o tiro”, o projétil teria acertado o escritor pelas costas e do lado direito dele. Pois bem, quando ele mostra a “marca” na coletiva de imprensa, ela está do lado esquerdo e na frente do corpo. Ou seja, mesmo que a bala tivesse atravessado da parte de trás para a parte da frente, não estaria deste lado, correto? Um elemento que acho que ajuda a mostrar que o que vimos foi o último livro dele “filmado”. Boa sacada.

Mas como acontece com tantas outras obras, saber o que realmente o escritor quis dizer ou o que tem a ver com a realidade e o que não tem a ver pouco importa. A experiência de deliciar-se com a obra, com a criatividade e com a narrativa do artista é o que interessa. Neste sentido, El Ciudadano Ilustre nos apresenta um filme interessante, bem equilibrado entre o drama e a comédia um tanto ácida.

Uma produção bem escrita e que tem algumas críticas interessantes sobre as pessoas que são consideradas “ilustres” em certa comunidade. Afinal, quem é admirado e quem tem o poder? Às vezes os talentos reconhecidos são os que caem no gosto de grupos, realmente, e outras vezes estas pessoas também sabem provocar e desempenhar o papel esperado de um artista. Por outro lado, quem “manda” é quem tem dinheiro e, muitas vezes, quem aterroriza os demais pela violência. Como bem explora a última obra do protagonista deste filme. Em resumo, um filme que faz pensar e que diverte.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A principal qualidade desta produção é o roteiro de Andrés Duprat, sem dúvida. Ele faz um filme com história linear que apresenta uma bela surpresa e que mistura realidade e ficção de forma estratégica e interessante. Um filme sobre literatura que não apenas mergulha no território de inspiração do escritor como também mostra um pouco de seu processo criativo e uma certa crítica para o “mainstream” da área.

Mesmo sendo o ponto forte do filme, admito que tem partes do roteiro que me pareceram um pouco lugar-comum demais. Em especial a personagem de Julia (Belén Chavanne). Para a “virada” do filme a história dela serve como uma luva, mas dentro do contexto da história e do personagem principal, ela acaba parecendo um tanto forçada. Talvez se a atriz fosse um pouco mais atraente, convenceria mais.

A direção de Gastón Duprat e de Mariano Cohn é boa. Valoriza tanto as particularidades da cidade de Salas quanto o padrão de vida do protagonista e, claro, o trabalho de cada ator. Do elenco, sem dúvida alguma o destaque é Oscar Martínez. Os outros atores se esforçam, mas estão alguns degraus abaixo do protagonista em termos de talento. Alguns são, visivelmente, amadores. Isso acaba prejudicando um pouco o filme porque eles realmente parecem um tanto deslocados em algumas cenas.

Além de Martínez, estão bem na produção Dady Brieva, Andrea Frigerio e, mesmo que aparecendo menos, Nora Navas como Nuria, secretária de Mantovani. Além deles, vale citar o bom trabalho de Manuel Vicente como o prefeito Cacho; Belén Chavanne em um papel muito previsível como Julia; Marcelo D’Andrea como o “inimigo” egocêntrico Florencio Romero, artista local que não “engole” Mantovani; e Julián Larquier Tellarini como o recepcionista do hotel em que o escritor fica hospedado.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Mariano Cohn e de Gastón Duprat; a trilha sonora de Toni M. Mir; e os figurinos de Laura Donari.

El Ciudadano Ilustre foi rodado nas cidades de Barcelona, na Espanha, e nas cidades argentinas de Buenos Aires (chegada do protagonista no país de origem), Cañuelas e Navarro, estas duas últimas próximas de Buenos Aires e que se passaram pela ficcional Salas.

O filme, que é uma coprodução da Argentina e da Espanha, recebeu 13 prêmios e foi indicado a outros 17. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Roteiro Original conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina; para o de Melhor Filme Iberoamericano conferido pelo Prêmio Goya; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de Haifa; para de Melhor Roteiro e para o conferido pela Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica no Festival de Cinema de Havana; para dois de Melhor Roteiro e dois de Melhor Filme (Silver Spike e Golden Spike) no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; para os de Melhor Filme do Vittorio Veneto Film Festival Award e de Melhor Ator para Oscar Martínez no Festival de Cinema de Veneza; e para o prêmio Open Horizons dado pela audiência do Festival de Cinema de Thessaloniki.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas para o filmes e… só. Ou seja, El Ciudadano Ilustre conquistou uma rara aprovação de 100% no Rotten Tomatoes, somando uma nota média de 7,2 no site. Belo desempenho.

Para quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre o realismo mágico na literatura, este texto pode ser uma boa introdução. E conhecer a obra destes e de outros escritores desta escola, claro, vale muito a pena. 😉

Ah, vale falar um pouco sobre os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat. Os dois são argentinos, nascidos em “pueblos” que fazem parte da província de Buenos Aires. O primeiro tem 41 anos e é natural de Villa Ballester, e o segundo tem 47 anos e nasceu em Bahía Blanca. Os dois fazem parceria na direção desde o início da carreira de cada um, no ano 2000, com o documentário Enciclopedia. Antes de El Ciudadano Ilustre eles dirigiram Yo Presidente, em 2006; El Artista, no mesmo ano; e El Hombre de al Lado, em 2009. Fiquei curiosa para ver alguns destes filmes anteriores.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e provocador, que questiona alguns lugares-comum sobre a noção de sucesso e de verdade. El Ciudadano Ilustre é mais um bom exemplar de cinema argentino, com uma história envolvente, interessante, rica em detalhes, muito bem contada e com um grande protagonista. Impossível não lembrar de grandes escritores e o seu ofício, assim como de personagens tão típicos de qualquer parte do mundo e que sempre servem de referência para quem vive de contar histórias. Um filme gostoso e que passa rápido, diferente de Paterson, que também trata de literatura e de inspiração artística. Eis uma boa pedida.

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Pa Negre – Black Bread – Pão Negro

Uma Espanha para sentir-se envergonhado. Onde as pessoas andam com medo. Um país de poderosos e onde os mais “fortes”, claramente, subjugam os mais “fracos”. Onde se ensina preconceitos na escola. Pa Negre trata desta Espanha de uma forma romântica e ao mesmo tempo contundente. Sob a ótica – adivinhem? – de um menino. Certo, este é um recurso bastante conhecido e batido. Quase caindo de maduro. Mas não parece deslocado nesta produção dirigida por Agustí Villaronga. Escolhido pela Academia de Cinema espanhola para representar o país no próximo Oscar, Pa Negre é uma produção interessante – e que deve mexer, em especial, com os sentimentos de quem ainda vive os resquícios e ecos daquele tempo, para o bem, e para o mal.

A HISTÓRIA: Um homem puxa um cavalo e caminha à frente dele em um bosque. A roda da carroça puxada pelo animal fica presa em umas pedras. Quando tenta soltá-las, o homem escuta um barulho entre as folhas secas. Assustado, ele busca a fonte do ruído, mas não encontra ninguém. Ele pega um canivete, mas acaba sendo atacado por alguém encapuzado, por trás. Dentro da carroça, o filho dele vê o pai ser morto. Depois, o encapuzado puxa a carroça, mata o cavalo e faz eles caírem de um penhasco. Outro menino corre, após ouvir o barulho, e vê o cavalo estraçalhado. Em seguida, encontra o menino que estava dentro da carroça, e o reconhece: é Culet (Miquel Borràs). O menino, todo ferido e com os olhos arregalados, repete o nome de Pitorliua. O menino, Andreu (Francesc Colomer) então corre para avisar a mãe do menino ferido. Em seguida, aparece o pai do garoto, Farriol (Roger Casamajor). A partir daquelas mortes, Andreu vai conhecendo a verdade sobre a própria história, da família e das pessoas que o cercam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Pa Negre): A sequência inicial de Pa Negre é a mais contundente da história. E dá a ideia de que veremos um filme assim, direto, duro, sem “papas na língua”. Mas pouco a pouco vamos vendo que não é bem assim. O filme suaviza, ainda que nunca perca a direção.

Como tantas outras produções em que um garoto centraliza as atenções do roteiro, em Pa Negre o espectador é convidado a ir descobrindo o que está acontecendo na mesma levada que o protagonista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco, Andreu percebe que vive em uma sociedade desigual, violenta e cheia de mentiras e fingimento. Parece que todos estão contaminados por aquela realidade de contrastes alimentados com a miséria alheia. A questão política é citada várias vezes, especialmente pelos pais de Andreu, mas a questão dos “comunistas” perde espaço para o preconceito contra os homossexuais. A “lenda” de Pitorliua é apenas um dos elementos que transpassa todo o filme e que toca neste ponto.

Importante saber de que época estamos falando. E mais para o final do filme, quando a câmera do diretor Villaronga percorre o cenário de uma prisão, está na parede a resposta para esta dúvida: 1944. Um ano considerado marcante para a Espanha. A Guerra Civil Espanhola tinha terminado, o general Franco estava no poder e a Europa estava mergulhada ainda na Segunda Guerra Mundial. Eram tempos de violência, extremismo e privações. Mas havia algo de errado além dos generais e daquele grupo de homens que tomavam decisões equivocadas. Havia hipocrisia, corrupção e violência no coração das sociedades – incluindo a espanhola.

O ano de 1944, como eu disse antes, foi marcante para aquela época. Como bem explica esta reportagem do jornal El País (em espanhol), aquele ano foi marcado pela Operação Reconquista de Espanha, que envolveu 4 mil homens motivados a derrubar o general Franco. A ideia deles era “invadir” o próprio país através da fronteira com a França e tirar do poder o ditador. A operação deu errado. Mas aqueles tempos “negros” – e justamente o ano de 1944, considerado do “fim da esperança” por esta operação, que deixou claro que não seria possível mudar o que estava posto – também serviram de pano de fundo para outro filme: El Laberinto de Fauno, dirigido e escrito por Guillermo del Toro – e, francamente, muito melhor que este Pa Negre.

O curioso é que mesmo falando tanto em política, Pa Negre não deixa claro quem são os “vermelhos” (rojos) e quem são os fascistas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quer dizer, há vários indícios e dicas, jogados aqui e ali. Mas acho que acabou sendo proposital, da parte do diretor e roteirista Agustí Villaronga, que se baseou na obra de Emili Teixidor, deixar os lados pouco definidos. A ideia que o filme nos dá, desta forma, é que era difícil distinguir entre uns e outros. E que nem sempre o discurso de “esquerdistas” como o pai de Andreu poderiam ser levados à sério. Afinal, no fim das contas, o que eles precisavam era sobreviver. E para conseguir isso, em épocas especialmente complicadas, muitas vezes os convictos se vêem obrigados a largar mão de seus ideais e convicções. E ao fazer isso, eles se tornam iguais, exatamente, àqueles que eles gostariam tanto de combater.

Como bem explica este texto interessante e completo de Paulo Roberto de Almeida no site Hispanista, “a crise econômica mundial e o período de recessão que atinge toda a Europa, trazendo desequilíbrios econômicos igualmente para a Espanha” tornam difícil “o prosseguimento da política reformista” no início da década de 1930. O resultado é que a direita ganha as novas eleições e, entre 1934 e 1935, “o governo instalado persegue uma política de anulação pura e simples das conquistas sociais e regionais alcançadas no período anterior”. De acordo com Almeida, citando Jackson, o que a Espanha viveu naqueles anos “não se tratava de uma simples guerra civil, no sentido em que as partes em luta se digladiavam por questões meramente locais ou se dividiam em função de querelas políticas nacionais. A Espanha dos anos trinta foi um grande laboratório político e militar de todas as rupturas ideológicas deste século, em particular a luta entre a democracia, o fascismo e o comunismo”.

Neste cenário, jogou um papel importante a Igreja Católica na Espanha, defendendo os princípios de família, propriedade e combatendo os “vermelhos”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não por acaso toda a repressão e “ojeriza” das pessoas, especialmente dos homens, com figuras como Pitorliua (Joan Carles Suau). O exemplo dele, que acaba percorrendo todo o filme para imprimir-lhe um pouco de “mistério”, revela também a hipocrisia daquela sociedade – e de tantas outras, inclusive nos dias atuais. Afinal, muitos homens “se divertiam” com Pitorliua. Mas eles jamais admitiriam isso.

E a poderosa família Manubens, que nesta produção “incorpora” todo o tradicionalismo da sociedade espanhola de “posses” da época, não poderia suportar aquele tipo de “afronta” aos bons costumes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pela perseguição e brutalidade sofrida por Pitorliua, pelo caminho equivocado que Farriol foi obrigado (será?) a percorrer, pelos ensinamentos absurdos das escolas representadas pela aula do professor Escolapis (Jordi Esteva) e por tantas mentiras escondidas pelo autoritarismo disfarçado em várias famílias do filme, aquela era uma Espanha para ter vergonha. E os ecos daquele tempo continuam ecoando por lá. Seja para que alguns destes erros não se repitam mais, seja para reforçar algumas ideias equivocadas em algumas “rincões” daquele país. Pa Negre, por toda a discussão que ele pode suscitar, merece aplausos. Nem tanto pela qualidade fenomenal da produção, que tem alguns erros aqui e ali, mas por resgatar aquelas histórias, seus panos de fundo, e retomar discussões muitas vezes deixadas de lado. Ter memória histórica é fundamental. E a Espanha sabe disso. Espero que, um dia, o Brasil e outros países também.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que Pa Negre tem de bom é o trabalho dos atores. Experientes, eles dão conta do recado e despertam a emoção devida. Vestem a camisa, convencem. Ainda que todos estejam bem, merecem destaque Nora Navas como Florència, mãe de Andreu; Roger Casamajor como o pai do garoto, Farriol; Laia Marull como Pauleta, mulher de Dionís (que é morto no início do filme e interpretado por Andrés Herrera); e Marina Comas como a menina Núria, que encanta e assusta o protagonista. O garoto que interpreta a Andreu, Francesc Colomer, também está bem. Ainda que ele irrite um pouco, em alguns momentos, pela visível falta de experiência e insegurança em certas cenas. Mas no geral, o menino está muito bem.

Na parte técnica do filme, fazem um bom trabalho o diretor de fotografia Antonio Riestra e o editor Raúl Román. A trilha sonora de José Manuel Pagán praticamente inexiste, mas quem ficou curioso para saber quem assinou a parte musical do filme, eis o seu responsável. Falando em som, achei ruim o trabalho feito neste filme. Tanto que ele acabou rendendo “retrabalho”, ou seja, a regravação de vários diálogos depois, na pós-produção.

Pa Negre foi todo rodado na Cataluña. Em localidades próximas de Barcelona, em Lleida e em Girona.

Esse filme pode ser considerado uma grande produção, porque custou aproximadamente 6 milhões de euros. Uma quantidade bem acima do padrão de gastos do cinema espanhol. Segundo o site IMDb, no entanto, o filme não foi muito bem nos cinemas da Espanha. Ele arrecadou pouco mais de 839 mil euros depois de dois meses de exibição nos cinemas.

Pa Negre estreou no dia 21 de setembro de 2010 no Festival de Cinema de San Sebastián. Depois ele passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, ele ganhou impressionantes 26 prêmios, e foi indicado a outros nove. A produção ganhou nada mais, nada menos que 13 prêmios no Gaudí Awards – entre outros, os de melhor filme falado em catalão, melhor diretor, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor ator coadjuvante, melhor atriz e melhor atriz coadjuvante. Ele ganhou também nove prêmios no Goya Awards, incluindo melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante e melhores nova atriz e novo ator.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Pa Negre. Uma boa nota, para os padrões do site. O Rotten Tomatoes apresenta apenas uma crítica para o filme. E positiva, assinada por Fernando F. Croce, do House Next Door. Mas essa falta de críticas e a quantidade de prêmios que o filme recebeu se restringirem, basicamente, à Espanha, revelam o quanto esta produção está longe de ser conhecida – pelo menos o suficiente para chegar com alguma força ao Oscar.

Mesmo que o filme não trate deste tema, acho interessante falar sobre “os meninos roubados pelo franquismo”. Foram chamados assim os garotos que, durante a Guerra Civil Espanhola, foram levados das casas de suas famílias republicanas depois que suas mães foram mortas ou presas. Vale começar a leitura por este artigo da Wikipédia. Para quem quiser saber um pouco mais sobra a Guerra Civil Espanhola, também recomendo estes textos de Voltaire Schilling.

Ah sim, e um comentário importante sobre o final de Pa Negre (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): tenho certeza que muita gente ficará meio “indignada” com o desprezo com que o protagonista trata a própria mãe, na parte final. Mas eis que, neste momento, a história deixa claro a vergonha que algumas gerações futuras sentiram de seus próprios pais, do que eles foram capazes de fazer – mesmo que isso fosse em nome deles, dos filhos, e mesmo que fosse para sobreviver. No final, o diretor e o roteirista deixam claro a mensagem de que nada justifica atos hediondos. Mais tarde, no futuro, até é possível que Andreu desculpe a mãe e o pai. Mas certamente ele tentará ao máximo evitar os erros que eles cometeram. O irônico, contudo, é que a vida melhorada que ele tiver, no final das contas, ele deve justamente para as pessoas que ele desprezou um dia.

Pa Negre é uma co-produção da Espanha e da França.

CONCLUSÃO: Conhecer a história de um país é, também, destrinchar os comportamentos de sua gente. Aquilo que eles escondem, ou do que se orgulham. Pa Negre trata de um tempo difícil mas, mais que isso, do complicado que pode ser descobrir a verdade sobre a sua própria família – em uma clara alusão à própria nação. Bem dirigido, com um ritmo que busca acompanhar, com calma, os sentimentos e as descobertas do protagonista, mas sem “enrolações”, este filme mostra a maturidade do cinema de releitura histórica espanhol. O roteiro também se revela bastante equilibrado entre o drama – a essência da história -, algumas pitadas de comédia, romance (normalmente com certa sordidez) e memória histórica. O que incomoda um pouco, na parte técnica, é a dublagem dos atores feitas após as filmagens – algo que fica nítido em outras produções espanholas e brasileiras. Mas fora este pequeno detalhe, que realmente é pequeno, é um filme bom. Ele começa visceral, depois vai diminuindo a força, e não termina de uma maneira muito surpreendente. Ainda assim, mantêm a crítica do roteiro até o final, o que é um ponto positivo. Deve interessar a maioria do público, especialmente àqueles que gostam de conhecer um pouco a história de momentos de ruptura social de países como a Espanha.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Eis um filme com vários elementos que podem agradar aos jurados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Primeiro, Pan Negre tem um menino no centro da história. Depois, ele é bem filmado, tem um elenco competente de atores e trata de um momento histórico importante – para a Espanha e para o mundo. Pela história e pela qualidade técnica do filme (exceto pelo som, que apresenta várias falhas), ele se mostra um bom concorrente. Mas é preciso ver aos demais filmes que estão na disputa para mensurar se Pa Negre poderia chegar entre os cinco finalistas.

De fato, falta um pouco mais de ousadia e criatividade nesta produção. Diferente do que outro filme que se passa em 1944 na Espanha fez: El Laberinto del Fauno. Pa Negre é uma produção cheia de boas intenções. Bem produzida, mas lhe falta um pouco mais de “energia”, de encanto e/ou de invenção. Ele não deixa de ser um filme interessante, mas lhe falta um pouco mais de tempero para surpreender o espectador. Talvez, para os votantes da Academia, baste as qualidades deste filme. Para indicá-lo entre os cinco. Mas não vejo que ele tenha méritos suficientes para levar a estatueta. Não é conhecido e nem badalado o suficiente para isso. E francamente, acho que não terá forças nem para ficar entre os cinco finalistas.