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Selma – Selma: Uma Luta pela Igualdade

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Filme necessário e um dos melhores de 2014. Ainda bem que ele pode ganhar um pouco de visibilidade com o Oscar 2015, ainda que seja um dos menos comentados e badalados da premiação este ano. Selma, que baita filme! Há tempos eu queria assistir a uma produção decente sobre Martin Luther King Jr. e este título, finalmente, cumpre este papel. Para você que quer ouvir discursos inspiradores, sentir uma luta legítima ser desenvolvida com vigor na sua frente, mesmo que em uma obra de cinema, esta é uma ótima oportunidade. Inspirador.

A HISTÓRIA: Martin Luther King Jr. (o ótimo David Oyelowo) se prepara para um discurso de agradecimento. Mas após algumas frases, ele diz para a mulher, Coretta Scott King (Carmen Ejogo) que aquilo não está certo. Ele não se sente bem com a roupa que está usando. Sua cabeça está em outro lugar, nos homens, mulheres, jovens e crianças ainda marginalizados por serem negros. Coretta olha para o marido, eles tem um momento de paz, antes de Luther King Jr. receber o Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Em seu discurso, Luther King fala que aceita aquela honra em nome de todos que morreram por serem negros e pelos 20 milhões de homens e mulheres negras que lutam por sua dignidade. Enquanto o discurso dele é ouvido, vemos cenas de um grupo de meninas negras descendo a escadaria de uma Igreja. Este filme conta os bastidores da luta de Luther King e dos negros pelo direito de votar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Selma): Ah, como faz toda a diferença do mundo um ótimo roteiro conduzindo a narrativa. Paul Webb faz um trabalho excepcional com o texto de Selma, sabendo ponderar diversos elementos narrativos nesta história, o que lhe garante ritmo, paixão e muitos elementos históricos.

Para começar, impossível fazer um filme decente sobre Martin Luther King Jr. sem utilizar os seus discursos inspirados. Provavelmente ele foi um dos grandes oradores de todos os tempos. E isso sem acrescentar o famoso e histórico discurso em Washington. Não. Este filme mostra os acontecimentos após a famosa Marcha sobre Washington, quando Luther King proferiu um dos discursos mais lembrados de todos os tempos, conhecido sob o título “Eu tenho um sonho” no dia 28 de agosto de 1963.

Inclusive, no início do filme, quando Luther King é agraciado com o Nobel da Paz, o orador que o apresenta lembra que aquele homem tinha um sonho. Pois bem, Selma fala de outro acontecimento marcante não apenas na vida deste homem genial por ter sido um ferrenho defensor dos direitos humanos, da paz e de igualdade racial. Esta produção aborda as marchas de Selma até Montgomery, cidades no Alabama, durante alguns meses de 1965.

O movimento com base em Selma foi fortemente reprimido pelas forças policiais sob o comando do governador George Wallace (Tim Roth). Houve muita pancadaria e mortes, tudo com cobertura da imprensa, inclusive das TVs. Aqueles eventos foram decisivos para que a opinião pública dos Estados Unidos mudasse e ficasse a favor, pelo menos em sua maioria, da igualdade dos direitos civis.

É emocionante acompanhar o movimento daquele grupo liderado por Luther King. Mas antes, vemos um exemplo prático, com a tentativa Annie Lee Cooper (Oprah Winfrey) em se registrar no cartório eleitoral para poder votar, sobre a problemática que precisava ser combatida. A lei, a Constituição dos Estados Unidos, previa o voto dos negros. Mas Estados como o do Alabama orientavam os responsáveis por fazer o registro dos votantes a não aceitar negros. Isso é mostrado sem firulas logo no início do filme.

Outro momento inteligente da produção, visto logo nos primeiros minutos, é mostrar o desconforto de Luther King em estar tão “alinhado” para receber o Nobel, em seguida ouvir parte do discurso dele enquanto acompanhamos um grupo de meninas inocentes caminhando para a morte em mais um atentado violento contra negros. Claramente o roteirista e a diretora Ava DuVernay quiseram mostrar que apesar do Nobel e dos discursos inspirados, nem Luther King conseguia frear desta forma a violência contra os seus irmãos.

Feita esta introdução, muito bem planejada, mergulhamos na tentativa de negociação de Luther King com o presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) para que a questão do voto fosse respeitada no país como política clara do Estado. No diálogo, Luther King não conseguiu nada, porque Johnson preferia adiar a decisão sem um prazo para resolver o assunto como forma de se preservar politicamente. Daí começa a ação, já que Luther King resolve reforçar em Selma o movimento que pedia igualdade nas urnas.

A partir daí, o filme não alivia. Ele mostra as articulações para a primeira manifestação em Selma e a forte repressão policial. As cenas de brutalidade policial são desconcertantes. Depois seguem outros atos e a primeira morte, do jovem Jimmie Lee Jackson (Keith Stanfield), morto friamente com um tiro por um policial após ele, a mãe, Viola Lee Jackson (Charity Jordan) e o avô, Cage Lee (Henry G. Sanders) serem perseguidos e covardemente agredidos.

As cenas são impactantes e muito bem filmadas por Ava DuVernay. O interessante do roteiro é que ele foca sempre Luther King, mostrando as reflexões dele, as angústias e a preocupação com as pessoas que poderiam se ferir. Para ajudar, há o texto fantástico e irretocável dos discursos dele, que motivaram as pessoas na época e dificilmente não mexem com quem assiste ao filme hoje em dia. Aliado a isso, ajuda na narrativa os registros feitos pelo FBI na época, quando Luther King e as demais pessoas ao redor dele eram monitoradas e vigiadas.

Os registros do FBI, em especial, dão um toque muito interessante para o filme. Revelam um hábito antigo daquele país de monitorar as pessoas que eles consideravam relevantes para o sistema, especialmente se apresentavam “algum risco”. Especialmente interessante, ainda na parte inicial do filme, um diálogo entre o presidente Lyndon B. Johnson e o chefe do FBI J. Edgar Hoover (Dylan Baker). Inicialmente Hoover sugere que o “problema” Luther King poderia ser resolvido facilmente dando um “fim” na ameaça.

Como Johnson resiste a ideia de eliminar Luther King, a sugestão seguinte de Hoover é de desestabilizar o líder negro ao dinamitar o casamento dele com Coretta que, segundo o FBI, já estaria balançado – e de fato estava. Apesar das ameaças que recebia e da ausência do marido, assim como o risco eminente de morte dele, Coretta se manteve firme ao lado de Luther King. Este apoio é bem mostrado e valorizado no filme.

Com bem explica este texto da Wikipédia, as marchas saindo de Selma foram três. Antes da primeira, houve aquela caminhada pelas ruas de Selma de noite e que acabou sendo conhecido como “domingo sangrento”. Foi quando ocorreu a morte de Jimmie Lee Jackson, em fevereiro de 1965.

A primeira marcha propriamente dita, como bem retrata o filme, ocorrida no início de março, não contou com Martin Luther King Jr. e terminou no confronto na ponte Edmund Pettus. As redes de TV transmitiram o ataque policial e lançaram um movimento de apoio a Marcha de Selma.

A segunda tentativa de fazer o mesmo trajeto teve um apelo muito maior, inclusive com apoio de muitos brancos. Pessoas de diversas parte do país, incluindo Luther King, viajaram até Selma para fazer o mesmo trajeto novamente. Nesta segunda tentativa, eles caminharam até parte do trajeto e retrocederam. No filme, está certo o retrato de muitas pessoas surpresas com a decisão. Mas o roteirista quis sugerir que Luther King deu a ordem para voltar porque teria tido uma “inspiração divina”. Ele até pode ter tido uma, mas ele também tinha uma razão prática.

Antes da marcha acontecer o juiz Frank Minis Johnson (Martin Sheen) havia proibido a manifestação pacífica antes que outras audiências sobre a causa fossem feitas. Luther King já havia avisado aos companheiros que o apoiavam de que eles iriam retroceder. Mas a grande massa realmente não sabia disso previamente, por isso muitos ficaram confusos e perdidos. Mas todos acabaram seguindo o líder Luther King.

Após aquele evento, contudo, quatro membros da Ku-Klux-Kland atacaram três ministros brancos que haviam ido até Selma para apoiar o movimento. Um deles, James Reeb (Jeremy Strong), foi o mais agredido e morreu. Claro que o filme encurta as duas mortes – nenhuma das vítimas morreu na hora, mas após serem atendidas nos hospitais. Essa informação, contudo, não faz falta para a narrativa.

O filme acerta ao mostrar como o presidente Lyndon Johnson chama o governador George Wallace para conversar, mas este se mostra irredutível e não aceita dar espaço para as manifestações e mudar as regras em seu Estado. Depois da morte do manifestante branco, a opinião pública cai de pau no assunto e Johnson de fato encaminha um projeto de lei no Congresso que, depois, se tornaria a Lei dos Direitos ao Voto.

Para fechar o resgate histórico, Luther King e diversas outras pessoas lideraram a terceira e última marcha de Selma até Montgomery, esta sim pacífica e que terminou com o discurso Stars from Freedom do líder negro. Linda toda a sequência final que, inclusive, resgatou cenas verídicas da época. Para finalizar, como é feito com muitos filmes baseados em fatos reais, ficamos sabendo sobre o que aconteceu com alguns dos principais personagens desta produção depois que o discurso de Luther King termina.

Haveria mais uma morte relacionada ao movimento, desta vez de uma mulher branca, e outros fatos ocorreriam na vida daquelas pessoas retratadas no filme. Luther King sobreviveu aos conflitos e à perseguição em Selma, mas ele seria morto, três anos depois, em Memphis. Este filme é uma homenagem muito justa a ele, um homem admirável.

Bem conduzido, bem escrito e com ótimos atores envolvidos no projeto – inclusive em papéis bem secundários -, Selma é um filme marcante e necessário, como comentei lá encima. Para mim, ele foi mais envolvente e impactante que o premiado 12 Years a Slave, que ganhou três Oscar’s, incluindo o de Melhor Filme, em 2014.

Verdade que 12 Years a Slave trazia uma história menos conhecida à tona mas, ainda assim, Selma me pareceu mais interessante especialmente pelos discursos de Luther King. Pena que dois anos seguidos de filmes sobre igualdade e justiça para os negros não emplaca na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Uma pena.

Mas antes de finalizar, queria citar uma parte que me tocou especialmente neste filme. Perto do final, e com a iminência de que Luther King poderia ser morto a qualquer momento – o que tornaria a situação ainda mais complicada -, o emissário do presidente dos Estados Unidos, John Doar (Alessandro Nivola), sugere para que o líder do movimento negro se preserve e não se exponha mais na última marcha.

Luther King, com uma lucidez absurda, comenta que ele não é diferente dos demais, que ele também quer viver muito e ser feliz. Ele diz que poderia se focar no que ele queria, mas que não faria isso porque ele deveria fazer o que Deus queria. Impressionante quando uma pessoa percebe que tem um propósito maior e que ela pode fazer a diferença, mesmo que isso significar a sua morte. Existe exemplo maior de bravura e de honra? Não foi daquela vez que ele morreu, mas ao seguir lutando pelos direitos das pessoas, mais tarde, o fim trágico chegaria.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante como todos os atores estão bem neste filme. O destaque, evidentemente, é o protagonista. David Oyelowo encarna Martin Luther King Jr. e passa muita emoção, seriedade e compromisso com a causa que o líder negro defendia. Ele emociona, juntamente com o roteiro perfeito de Paul Webb. A diretora Ava DuVernay acerta também na escolha de cada ângulo e das dinâmicas com os atores.

O elenco de Selma está recheado de presenças ilustres, inclusive e especialmente em papéis bem secundários. No elenco principal, dos atores que aparecem mais, há nomes menos conhecidos do grande público, como Carmen Ejogo como Coretta Scott King, mulher de Martin Luther King Jr.; André Holland como Andrew Young e Colman Domingo como Ralph Abernathy, os dois braços direitos do protagonista. Fazem parte do grupo que acompanha Luther King os atores Ruben Santiago-Hudson como Bayard Rustin; Omar J. Dorsey como James Orange; Common como James Bevel; E. Roger Mitchell como Frederick Reese; e Wendell Pierce como o reverendo Hosea Williams.

Entre os moradores de Selma que acabam sendo importantes para o movimento, inclusive por alguns se tornarem vítimas dos absurdos policiais, destaque para Keith Stanfield como Jimmie Lee Jackson; Henry G. Sanders como Cager Lee; Charity Jordan como Viola Lee Jackson; Stephan James como John Lewis e Trai Byers como James Forman, dois estudantes que lideram o movimento negro em Selma e que divergem em diversos pontos das ações nas cidades. Em uma ponta também merece menção Nigel Thatch como Malcolm X.

Comentado os nomes menos conhecidos, vamos aos famosos que entraram no filme para fazer papéis pequenos. Começo com Oprah Winfrey, também produtora do filme, como Annie Lee Cooper, que diversas vezes tinha tentado, em vão, fazer um registro como eleitora e que, no primeiro ato público em Selma, é agredida por policiais. Tom Wilkinson está ótimo como o presidente Lyndonn B. Johnson, assim como Tim Roth que, mesmo aparecendo menos que Wilkinson, tem pelo menos uma cena inesquecível de diálogo com o veterano ator inglês.

Giovanni Ribisi interpreta a Lee White, braço direito do presidente; Dylan Baker se sai bem em um papel pequeno como J. Edgar Hoover, do FBI; Jeremy Strong também faz uma boa participação como James Reeb, primeira vítima branca do movimento; Alessandro Nivola aparece para intermediar as negociações entre o presidente de Luther King; Cuba Gooding Jr. como Fred Gray; e Martin Sheen faz uma super ponta – inclusive não creditada – como o juiz Frank Johnson.

Da parte técnica do filme, destaque para a ótima direção de fotografia de Bradford Young; para a edição de Spencer Averick; para a direção de arte de Kim Jennings; para os figurinos de Ruth E. Carter; e para a trilha sonora, incluindo a excelente canção Glory, interpretada por John Legend e Common.

Selma estreou no Festival AFI em novembro de 2014. Em fevereiro ele está confirmado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o momento, o filme ganhou 27 prêmios e foi indicado a outros 71, incluindo dois Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Canção para Glory, composta por John Legend e Common; e para o prêmio Freedom of Expression Award entregue pela National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados de Georgia e Alabama, nos Estados Unidos. Foram rodadas cenas em cidades como Selma, Montgomery, Marietta, Conyers e Atalanta.

Agora, a seção de curiosidades sobre esta produção. Antes de Ava DuVernay assumir o projeto, Lee Daniels estava escalado como diretor. David Oyelowo lutou durante sete anos para conseguir o papel principal, porque Daniels inicialmente achou que ele não seria o melhor nome para interpretar Luther King. Mas DuVernay apostou nele.

Tim Roth cresceu durante a era de luta dos direitos civis nos Estados Unidos. Ele disse que lembra do governador George Wallace, guardando na memória que ele ficava espantado com as besteiras que saia da boca do político, que ele considerava um “monstro” – e a quem, ironicamente, ele interpretaria agora.

Entre os diretores interessados no roteiro de Selma estavam Steven Spielberg, Stephen Frears, Paul Higgs, Spike Lee e Michael Mann, além do já citado Lee Daniels.

O esquecimento do Oscar de indicar Ava DuVernay como Melhor Diretora e David Oyelowo como Melhor Ator provocou protesto de cinéfilos e pessoas dos bastidores de Hollywood. Os esquecimentos foram creditados à falta de diversidade racial em Hollywood e ao fato do estúdio Paramount não ter conseguido enviar cópias do filme a tempo para todos os membros da Academia conferirem o filme.

Ainda que não tenha recebido o crédito como coautora do roteiro, a diretora Ava DuVerney afirmou que fez alterações em 90% do texto de Paul Webb, incluindo ter dado uma nova versão para os discursos de Luther King – isso foi necessário porque outro estúdio tem os direitos dos originais.

Selma teria custado cerca de US$ 20 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 39,5 milhões. Ainda falta muito para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Selma. Uma avaliação boa mas que, na minha opinião, poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 99% e uma nota média de 8,7.

Selma é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos homens mais fantásticos de todos os tempos, Martin Luther King, em um momento decisivo não apenas de sua trajetória mas, e principalmente, dos Estados Unidos. Se em Lincoln assistimos a um homem corajoso mudando parte da história, aqui vemos a outro liderando um movimento fundamental para consolidar aquela mudança. Interessante assistir a Selma em 2015, ano em que um negro segue como presidente dos Estados Unidos e batalha para tornar aquele país ainda mais justo. Filme envolvente do início ao fim, com um ótimo roteiro, direção e um ator liderando todo o processo para quem precisamos tirar o chapéu. Vale muito o ingresso.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Indicado apenas em duas categorias, sendo apenas uma realmente relevante, infelizmente as chances de Selma são praticamente zero no Oscar. Quer dizer, ela pode até levar em Melhor Canção. Mas quem realmente se importa com esta categoria? As pessoas que vencem, evidentemente, e quem tem o nome lembrado em uma indicação. Mas é só.

Selma também concorre como Melhor Filme. Mas por ele ter sido indicado apenas a esta categoria e a Melhor Canção, chances zero para o filme. Uma pena. Acho que ele deveria estar competindo lado a lado com Boyhood e The Imitation Game. Para mim, os melhores filmes da lista até o momento.

Da minha parte, meu voto ficaria ainda para Boyhood, mas Selma seria a minha segunda escolha. E não ficaria chateada se ele ganhasse. Depois viria The Imitation Game. E todos os demais… bem, acho inferiores. Assim de simples. Só falta Whiplash para fechar esta minha avaliação. Veremos se ele muda algo. 🙂

Mas para resumir a avaliação sobre Selma, infelizmente o filme corre totalmente por fora. Acho que ele deveria ter sido lembrado em pelo menos outras duas categorias: Melhor Roteiro Original e Melhor Ator para o brilhante David Oyelowo. Não foi desta vez. Lástima.

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The Paperboy – Obsessão

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Um elenco com vários nomes de destaque em Hollywood, um roteiro fraco a maior parte do tempo e bastante violento. The Paperboy é um destes filmes que você não sabe muito bem a que veio. Nem para que. O roteiro tem alguns momentos totalmente absurdos, e a história parece não engrenar nunca. Ainda assim, abriga algumas cenas de impacto, e uma e outra reflexão interessante. Não é um totalmente desastre, mas está longe de ser bom.

A HISTÓRIA: Uma mulher ajeita o cabelo enquanto o diretor pede para ser avisado quando a equipe estiver gravando. Começam as gravações e ele comenta que muitas pessoas se perguntaram o que realmente teria acontecido. Ele afirma que muitas perguntas surgiram logo depois que o livro foi publicado, e agradece a Anita Chester (Macy Gray) pela ajuda a tornar o assunto mais claro. Ela deve saber o necessário, já que o livro foi dedicado a ela.

Anita afirma que tudo o que está no livro é verdade, e começa a contar a história conforme ela lembra do que aconteceu. Ela diz que tudo aconteceu em 1969, durante o verão em Moat County, na Flórida. Um policial foi morto, e Hillary Van Wetter (John Cusack) foi preso pelo crime. O assunto acaba entrando no cotidiano da família para a qual Anita trabalhava como empregada porque o irmão de Jack (Zac Efron), o jornalista Ward Jansen (Matthew McConaughey) desconfia da versão oficial e viaja para a cidade para tentar descobrir detalhes sobre o que aconteceu.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a The Paperboy): A primeira impressão que eu tive com este filme foi que Macy Gray, ótima cantora, estava forçando na interpretação da personagem Anita. E esta impressão só vai se confirmando conforme a trama avança. Nem sempre uma artista do meio musical consegue se sair bem no meio cinematográfico. Há bons exemplos, como Norah Jones em My Blueberry Nights (comentado aqui no blog).

Não podemos falar o mesmo sobre Macy Gray. Ela faz um trabalho exagerado, um tanto preguiçoso. Um dos pontos que incomoda neste filme. Mas ele não é o único. Depois da aparição de Macy Gray, voltamos até agosto de 1969, quando o xerife Thurmond Call (Danny Hanemann) é morto. Rapidamente percebemos que o diretor Lee Daniels tem estilo e vai levar esse filme sob rédeas curtas. Funcionam bem as cenas em preto e branco, e elas criam uma boa expectativa no espectador de que verá uma produção diferenciada. Ledo engano.

Certo que Daniels faz um bom trabalho na direção. As cenas em preto em branco são ótimas. E o estilo do restante do filme, com um trabalho fundamental do diretor de fotografia Roberto Schaefer, também é interessante. Mas o problema deste filme é mesmo o roteiro, escrito por Daniels e Peter Dexter. Este último, autor do livro que inspirou o filme.

Há sequências verdadeiramente desnecessárias nesta produção. Que não apenas não agregam informações para a história, como também beiram ao absurdo. Exemplos? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sequência em que Anita vai limpar o quarto de Jack e eles acabam “trocando” de papéis e a segunda visita dos irmãos Jansen, junto com Charlotte Bless (Nicole Kidman), para ver a Hillary. Na primeira, totalmente dispensável aquela brincadeira de Anita com Jack, que acaba não tendo graça alguma, e, na segunda, bastante sem propósito a obsessão de Hillary sobre quem tem calças. No fim das contas, duas sequências que não agregam nada ao filme.

Mas há pelo menos uma outra sequência mais absurda que estas. Aquela que mostra Jack nadando na praia e, depois, sendo “atacado” por águas-marinhas. A solução para ajudá-lo, incluindo a execução da cena, é simplesmente ridícula. E beira o absurdo. Por estas cenas, o filme chega a deixar o espectador perplexo. Pelo lado negativo. A sensação que fica é que estamos perdendo o nosso precioso tempo vendo a um filme sem pé nem cabeça.

Para tornar a balança um pouco mais justa, contudo, há sequências em The Paperboy potentes. Há tanto a provocativa cena em que Hillary faz Charlotte masturbar-se na frente de Jack, Ward e do colega jornalista Yardley Acheman (David Oyelowo), quanto, e principalmente, a sequência em que Jack encontra o irmão sodomizado e quase morto. A reta final da produção, ainda que em parte prevista, também impressiona pela brutalidade. Aliás, este filme faz o estilo “sem papas na língua”. O problema é que ele é muito desigual e demora demais para chegar a alguma cena interessante.

Na maior parte do tempo, The Paperboy parece um filme arrastado, cansado, como se o roteiro e a equipe estivessem de fato sofrendo com aquele verão extremamente quente nos Estados Unidos. Seguindo a narrativa de Anita, esta produção parece ser a história do “primeiro amor” de um belo garoto, Jack, que ainda não sabe o que vai fazer da vida. Após os fatos que acontecem neste filme, ele aprende a duras penas um pouco mais sobre perder a quem se ama, reencontra a própria mãe, que há muito tempo não via, e acaba definindo os rumos que vai seguir.

Pena que apesar de ser centrado neste personagem, o roteiro aprofunde pouco na personalidade dele. A maior parte do tempo o esforçado Zac Efron fica babando para a bonita, mas não tão bela quanto deveria ser Charlotte Bless. Apesar da história dele parecer o centro deste filme, o enredo principal orbita sobre a culpabilidade ou a inocência de Hillary. Como pano de fundo, a divisão da sociedade norte-americana, mesmo no final dos anos 1960, sobre o tema racial.

Desde o princípio do roteiro fica evidente que os conflitos entre brancos e negros é um elemento importante desta história. Ainda que o homem que tem a culpa questionada seja branco. Mas existe o personagem do jornalista Yardley deslocado, sem contar a “descartável” Anita e o clima que os circunda. Outro preconceito surge lá pelas tantas: o que circunda os homossexuais. Pessoas como Ward que, aparentemente, devem esconder a sua vida privada e caminhar “nas penumbras” para encontrar o que lhe interessa. Mas estes assuntos são apenas citados na produção. Em nenhum momento ganham verdadeira relevância.

Uma questão que o filme levanta, contudo, verdadeiramente é interessante: como alguns defensores dos direitos civis fizeram besteira para defender os seus pontos de vista. Ainda que esta seja uma ficção, impossível não acreditar que houve histórias como a revelada em The Paperboy. Jornalistas como Yardley que ficaram famosos por escrever reportagens e livros sustentando histórias que não foram bem apuradas ou que, simplesmente, foram adulteradas para defender a teorias de acusados injustamente – e que, no fim das contas, eram culpados por seus crimes.

No caso de Hillary, não fica claro que ele foi culpado pela morte do xerife Thurmond Call. Mas pela personalidade violenta que acompanhamos na reta final da produção, e pela aparente história combinada entre ele e o tio Tyree Van Wetter (Ned Bellamy) sobre o campo de golfe, existe uma dúvida bem consistente de que ele foi o culpado. A pressa de Ward e, especialmente, de Yardley em defender a teoria de que Hillary era inocente, ele acaba sendo solto. E o restante da história se desenvolve.

Até hoje acompanhamos muitas histórias de culpados que saem rapidamente da prisão e acabam cometendo uma ou mais atrocidades. Não tenho dúvidas de que a “justiça dos homens” é falha. E não faltam exemplos para confirmar esta afirmação. Desta forma, The Paperboy aborda um tema interessante, ainda que perca muito tempo com bobagens e com sequências que poderiam ser dispensadas. Mas os atores se esforçam em seus papéis, ainda que falte química e sintonia entre eles. A direção funciona, mas o roteiro é muito ruim. Uma pena.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se eu fosse avaliar este filme friamente, provavelmente daria uma nota ainda menor para ele. Mas como gostei da direção de Lee Daniels, resolvi melhorar um pouco a avaliação. Também vale dar a nota acima pelo esforço de Matthew McConaughey, que é o melhor em cena, e por Zac Efron fazer um bom trabalho – ele realmente é lindo e pode evoluir na carreira se estudar um pouco mais interpretação.

Por outro lado, e contrariando alguns textos que li por aí, não gostei da Nicole Kidman. Achei a interpretação dela um pouco “over”, exagerada, e algumas vezes até perdida. Não gostei. Assim como achei um desperdício o papel de John Cusack. Ele é um ator melhor que o que ele demonstra neste filme.

Além dos atores citados, vale comentar o trabalho de Scott Glenn como W.W. Jansen, pai de Jack e Ward; e Nealla Gordon como Ellen Guthrie, que trabalha com W.W. Jansen e acaba ficando noiva dele. Os demais fazem papéis muito secundários e que acabam não tendo muita relevância para a produção.

Da parte técnica do filme, Lee Daniels tem uma direção firme e mostra talento, ainda que não faça nada totalmente inovador – as técnicas utilizadas por ele podem ser vistas no trabalho de outros diretores. O roteiro é ruim, fraco, arrastado, com várias sequências dispensáveis. A direção de fotografia, por outro lado, é um dos pontos fortes da produção. Mérito de Roberto Schaefer, como comentei anteriormente.

Merecem aplausos também o design de produção de Daniel T. Dorrance, a direção de arte de Wright McFarland, a decoração de set de Tim Cohn e os figurinos de Caroline Eselin e a edição de Joe Klotz. Eles são os responsáveis por ambientar o filme de forma convincente em 1969. A maquiagem da equipe liderada por Robin Mathews, por outro lado, deixa um pouco a desejar. Me pareceu forçada em muitos momentos. A trilha sonora de Mario Grigorov funciona, tem alguns bons momentos, mas não achei digna de ser comprada, por exemplo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Nicole Kidman entrou no lugar da atriz Sofía Vergara, que faz Modern Family, que tinha sido confirmada como a protagonista do filme antes. E o diretor Pedro Almodóvar foi cotado diversas vezes para assumir este projeto, que seria o primeiro filme dele em inglês. Mas no fim das contas, Almodóvar desistiu do projeto – talvez ele tivesse feito algo melhor do material original. Nunca saberemos.

Outro nome cotado para esta produção foi o de Tobey Maguire. Mas o ator não conseguiu espaço na agenda, com outros projetos em andamento. Alex Pettyfer tinha sido escalado para o papel de Jack, mas acabou dando lugar para Efron.

E uma observação que eu faço do filme. O título original, The Paperboy, faz uma referência clara à Jack que, de fato, é um entregador de jornais no início da história. Depois, Hillary tira sarro de Ward e Yardley chamando eles também de “entregadores de jornais”. Os dois são jornalistas, mas isso pouco importa para o presidiário. E para quase não variar, a tradução do filme no Brasil mudou totalmente o sentido do título do original. Nestas situações, em que é difícil traduzir o título, sempre vou achar melhor deixar o título original, sem mudar o sentido dele.

The Paperboy estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, ele passaria por outros oito festivais, incluindo o do Rio de Janeiro, no início de outubro de 2013. Nesta trajetória, ele ganhou três prêmios e foi indicado a outros seis, além de ter sido indicado para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman.

Entre os que recebeu, destaque para o de Ator Favorito em Filmes Drama para Zac Efron no People’s Choice Awards; Ator do Ano para Matthew McConaughey (pelo conjunto de trabalhos dele recentes, incluindo ainda Magic Mike, Killer Joe e Bernie) pela Associação de Críticos de Cinema de Central Ohio e um Prêmio Especial Honorário para Matthew McConaughey (pelo mesmo conjunto de filmes citado anteriormente) entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Austin. Os prêmios recebidos, até achei justos, mas a indicação de Kidman achei exagerada.

The Paperboy teria custado cerca de US$ 12,5 milhões. Nos Estados Unidos, o filme acumula um resultado de pouco mais de US$ 693,2 mil até o início de outubro. E no restante dos mercados, ele soma outros US$ 660,5 mil. Ou seja, somados, os resultados ultrapassam um pouco US$ 1,35 milhão. Perspectiva de um fracasso importante se seguir este ritmo. E cá entre nós, não me surpreende.

Esta produção foi rodada em Los Angeles e na cidade de New Orleans.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,7 para The Paperboy. Coincido bastante com esta avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 78 textos negativos e 60 positivos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,1.

Como em outras vezes, quero citar uma parte da crítica do conceituado Peter Howell, da Toronto Star, que pode ser lida na íntegra aqui. Na opinião dele, The Paperboy é um “exagerado e pantanoso melodrama” que tem um elenco tipo A e um “material tipo Z”. hehehehe. Boa! Howell também considerou a cena da urinada a mais ridícula do filme, mas não a única, e que tudo na produção é exagerado – o que não é bom.

Outro crítico listado como um dos favoritos dos leitores do Rotten Tomatoes teve uma opinião bem diferente. Steven Rea, do Philadelphia Inquirer, deu três de quatro estrelas possíveis para The Paperboy. Você pode ler o texto na íntegra aqui. Rea destaca o trabalho de Matthew McConaughey e o de Macy Gray, que considera que está fantástica no filme. Na avaliação do crítico, Daniels busca com os seus filmes “choque e pavor”, e isso é algo positivo. “Mas eles também pretendem explorar os recantos mais obscuros da alma, os sonhos e desejos que circulam sobre as nossas cabeças, e isso é ainda melhor”, escreveu. Uma maneira diferente de analisar The Paperboy, a qual respeito – ainda que não concorde.

The Paperboy é o terceiro filme da carreira de Lee Daniels. Em 2009 ele impressionou a muita gente – e eu me incluo no grupo – com Precious (comentado aqui no blog). Antes, ele dirigiu a Shadowboxer, lançado em 2005. Depois de The Paperboy, ele dirigiu The Butler, estrelado por Forest Whitaker e que conta a história de um mordomo que trabalhou com vários presidentes dos Estados Unidos na Casa Branca. Pelo jeito, após Precious, ele não seguiu no mesmo ritmo. Anda apresentando trabalhos mais fracos.

Este filme, 100% made in USA, entra na lista de produções daquele país que estou comentando aqui no blog após uma votação feita entre vocês, caros leitores. Até a próxima!

CONCLUSÃO: Este filme é quase uma incógnita. Afinal, qual é o propósito de The Paperboy? Ele não conta apenas a história do primeiro amor de um jovem. Nem mesmo a história real por trás de um livro. Além do fascínio de um belo jovem por uma mulher vulgar e obstinada por um presidiário, este filme coloca no mesmo caldeirão a segregação racial do Sul dos Estados Unidos, direitos civis e pena de morte – e a consequente preocupação de alguns jornalistas em evitar injustiças.

Esta mistura levanta algumas questões interessantes, mas não a ponto de fazer o filme te convencer. Verdade que ele tem algumas cenas bem fortes, e algumas interpretações esforçadas. Ainda assim, falta alma para esta produção, assim como mais argumentos para convencer o espectador. O cinema poderia perfeitamente seguir adiante sem esta produção. Gaste seu tempo com ele apenas se você gosta muito dos atores, do diretor ou se já tiver assistido a tudo o mais de bom que está nos cinemas.