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Bombshell – O Escândalo

Os jornalistas sabem que tem um teto de vidro gigante para sustentar todos os dias. A pressão e o “monitoramento” de todos os passos e declarações é proporcional à exposição que o profissional tem. Bombshell trata dos bastidores de uma das emissoras de TV mais importantes dos Estados Unidos e o tipo de relação viciada e criminosa que existia naquele espaço. O escândalo originado das denúncias narradas por esse filme trouxe à tona um debate importante para quem é da área e para as mulheres em geral.

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The Beguiled – O Estranho Que Nós Amamos

Uma época de conflitos, de incertezas, o exato momento em que uma nação está se perguntando que tipo de futuro ela quer para si. The Beguiled nos transporta para o meio da Guerra Civil americana para nos fazer pensar em questões como a perda da inocência e o tipo de limite que uma pessoa aceita transpassar – e ensina outras a fazer o mesmo. Mais um filme belo, com direção de fotografia irretocável, e que leva a assinatura da diretora Sofia Copolla. Mais uma vez ela nos faz pensar que a beleza estética nem sempre encontra sintonia com a beleza “interior”. Um filme bonito, com interpretações competentes e que surpreende pelas mensagens intrínsecas e desconfortáveis.

A HISTÓRIA: Em meio a muitas árvores, ouvimos alguém cantarolando. Logo percebemos que se trata de uma garota. Vemos a natureza, ouvimos a voz da menina e passos antes de identificar alguém. Em um longo e belo caminho rodeado de árvores, a névoa ocupa parte do cenário que logo vai dar espaço para Amy (Oona Laurence). A menina está colhendo cogumelos na floresta, tranquilamente, até que ela encontra um “ianque”. O cabo McBurney (Colin Farrell) se apresenta e pede ajuda para Amy. A menina o ajuda a chegar até a escola onde ela e mais quatro meninas estão sob os cuidados de Miss Martha (Nicole Kidman) e Edwina (Kirsten Dunst). A chegada dele vai mudar a rotina do lugar definitivamente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Beguiled): Eu gosto de filmes de época. Eles nos apresentam um tempo que não vivemos mas que, de alguma forma, segue influenciando os nossos dias. Nesta produção, voltamos para o ano de 1864, três anos após o início da Guerra Civil nos Estados Unidos, como o roteiro de Sofia Coppola, baseado no roteiro de Albert Maltz e de Irene Kamp e que tem o livro de Thomas Cullinan como fonte de inspiração, bem sinaliza logo no início da produção.

A diretora e roteirista, mais uma vez, demonstra como têm talento para nos apresentar histórias envolventes e particularmente belas. Sofia Coppola parece, a cada filme, construir uma carreira que agrada aos olhos na mesma medida em que questiona o que o conceito de belo esconde. The Beguiled faz isso. Ao mesmo tempo em que temos um visual fantástico a cada minuto da produção, com cenas cuidadosamente “pintadas” pela diretora, somos apresentados para uma história que pode parecer simples, na aparência, mas que guarda alguns questionamentos interessantes.

Antes de falar da história propriamente dita, vamos comentar os pontos fortes da produção. The Beguiled se destaca, como outros filmes de Sofia Coppola, pela direção de fotografia. A diretora, que sempre demonstra ter bom gosto, conseguiu com o diretor de fotografia Philippe Le Sourd encontrar o tom perfeito para retratar aquela época e para agradar aos mais exigentes críticos do elemento estético de um filme.

Algumas cenas, como quando as mulheres/garotas do filme estão rezando ou quando elas vão fazer uma apresentação de música, são uma verdadeira obra de arte. Aquelas sequências fazem o espectador habituado com museus a pensar em quadros de grandes pintores. Realmente o visual do filme é o seu elemento de destaque. Depois, temos os figurinos de época maravilhosos assinados por Stacey Battat. Quando assistimos a um filme do gênero, a expectativa é sempre de encontrarmos figurinos impecáveis, e isso é o que encontramos em The Beguiled.

Além destes elementos, devo destacar o competente trabalho feito com o elenco. Todos que aparecem em cena – e o núcleo da produção é reduzido – estão bem, mas eu destaco as interpretações de Nicole Kidman como a diretora do colégio, Miss Martha; de Elle Fanning como Alicia, uma das estudantes mais velhas e a mais “atiradinha”; Oona Laurence carismática e convincente como Amy, a menina que encontra o soldado inimigo; e até Colin Farrell, que já nos apresentou algumas interpretações questionáveis, nesta produção consegue se sair muito bem.

Estes são os pontos positivos da produção. O roteiro de Sofia Coppola, baseado na adaptação anterior da obra de Cullinan e que foi estrelada por Clint Eastwood no filme homônimo de 1971, também é um dos pontos fortes. Claro que não temos nenhuma grande surpresa na narrativa, e o filme gasta um tempo considerável naquele repetitivo jogo de “sedução” entre o único homem do pedaço e o seu pequeno “harém”. Honestamente, o filme poderia até ter uns 10 minutos a menos – mas se agradece, de qualquer forma, por ele ter 1 hora e 33 minutos de duração e não duas horas.

Digo isso porque esta história realmente deve ser mais curta – até para que ela não se torne chata e excessivamente repetitiva. Afinal, não temos “grandes” acontecimentos em cena. Resumindo, um soldado inimigo é resgatado por uma garota e levado para a escola dela para ser tratado por “misericórdia”. As duas mulheres adultas, as três adolescentes/pré-adolescentes e as duas crianças que vivem naquela escola de forma isolada enquanto o país se fragmenta por causa de uma guerra civil ficam mexidas com aquela presença masculina imprevista.

Como em outras produções de Sofia Coppola, aqui novamente nós temos o tema do amadurecimento e da perda da inocência. Interessante como The Beguiled aborda a quebra da rotina e da paz com a chegada de um elemento inusitado. Na vida mesma, sem pensar especialmente na Guerra Civil americana, volta e meia somos testados por acontecimentos imprevistos. E como respondemos a estes testes é o que faz uma grande diferença. Isso está presente nesta produção também.

Mas voltemos um pouquinho para falar da história específica de The Beguiled – antes de falarmos da “filosofia” por trás desta produção. Ainda que a escola que é o centro da produção estivesse um tanto isolada e “protegida” da disputa entre os soldados do Sul e do Norte, as sete mulheres/garotas que ali viviam não estavam realmente alheias ao que acontecia. Cada uma delas tinha um “partido” na questão – o do Sul, claro, onde elas tinham sido criadas e de onde elas vinham – e, além disso, havia uma certa “tensão” no ar.

Isoladas, sem poder voltarem para as suas famílias – ao menos as estudantes, porque Miss Martha era dona daquela propriedade -, as garotas aguardavam o fim do conflito e a vitória do Sul para poderem retomar as suas vidas. Enquanto isso, elas tentavam manter a rotina o mais “normal” possível enquanto rezavam para não serem descobertas por soldados sem escrúpulos. The Beguiled mostra muito bem o “espírito” do povo do Sul dos EUA naqueles dias… pessoas muito religiosas mas que, ao mesmo tempo, defendiam algo absurdo como a escravidão.

E aí entramos nas questões que The Beguiled trata em suas entrelinhas e que nos provocam um sério desconforto quando a produção termina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acho que a questão mais importante levantada pelo roteiro de Sofia Coppola e que me fez pensar logo na saída do cinema foi sobre que educação Miss Martha estava dando para aquelas garotas. Chama muito a atenção que a ideia dos cogumelos venenosos tenha vindo de uma das garotas mais “inocentes” do grupo, Marie (Addison Riecke).

Curioso que aquelas meninas aprendiam francês, assim como bons modos, sabiam se virar na costura e na horta, rezavam, estudavam e trabalhavam todos os dias e que, ao serem confrontadas com um perigo, tivessem na saída do assassinato a sua opção mais “coerente”. Como elas chegaram nisso? Como hoje tantas pessoas encontram na violência e na morte de outras pessoas a saída para os seus próprios conflitos e medos? Talvez estas sejam as questões mais relevantes deste filme.

De forma sutil, mas muito dura, Sofia Coppola nos faz questionar as “boas pessoas” que existiam naquela época e hoje em dia. Afinal, ninguém poderia falar uma palavra conta aquelas sete mulheres/garotas da escola sulista americana. Assim como muitos hoje vestem a camisa de “gente do/de bem” mas, quando têm uma oportunidade, caem no caminho fácil de pensar em si próprios primeiro. Sim, é verdade que o cabo McBurney perde o controle e parece uma figura ameaçadora. Mas será mesmo que elas não poderiam ter esperado um pouco mais e lidado com o problema de outra forma?

Alguns filmes, como o interessantíssimo Hacksaw Ridge (comentado aqui), nos mostram com muita propriedade, e tendo uma história real como base, que é sempre possível escolher “não matar”. Mesmo que a sua vida esteja em risco, você pode escolher este caminho. Por isso mesmo chama muito a atenção – e cria um grande desconforto – a forma “natural” com que aquele grupo de garotas do Sul dos Estados Unidos resolvem acabar com uma vida que, antes, elas tinham decidido “salvar”.

The Beguiled nos joga na cara o conceito de “coisificação” das pessoas. Elas interessam enquanto podem nos ser “úteis”. Quando isso não é mais assim, elas podem ser descartadas. Isso lhes soa atual? Sim, realmente é. O cabo McBurney era uma atração para aquelas mulheres e garotas. Para as adultas, especialmente Miss Martha e Edwina, ele poderia se converter em um “bom partido”. Claramente existe tensão e atração sexual entre os três, em um tipo de “triângulo amoroso” bastante sugerido durante a produção.

Além de Miss Martha e Edwina, a outra peça mais próxima da conquista amorosa é Alicia. A adolescente, bastante ousada para a época, sabe mexer com o “soldado inimigo” e flerta com ele sempre que tem uma oportunidade. As outras meninas, mais jovens, também ficam ouriçadas e/ou interessadas, mas nada que chegue ao ponto de criar uma “tensão sexual” com o único homem do pedaço. Então McBurney é interessante para aquele grupo, até que ele passa a ficar violento e fora do controle e aí ele já passa a ser descartável. Era essa a sociedade que o povo do Sul estava realmente defendendo naquela guerra?

Como pessoas que se dizem religiosas, que rezam todos os dias e que defendem a misericórdia podem orquestrar e executar um plano de assassinato de forma tão “natural”? O comportamento das garotas no jantar derradeiro e a calma com que elas lidam com a situação no dia seguinte fazem pensar. No fim das contas, o Sul perde a guerra. Mas até hoje o que eles defendiam e o que vemos no filme persiste em diversas partes – não apenas nos Estados do Sul daquele país.

Nem todos conseguem ser coerentes, mas a busca por um pouco mais de coerência poderia ser um bom objetivo a ser perseguido, não? Este filme, tão belo e com ótimas interpretações, nos deixa um gosto amargo e um tom de certa perplexidade no final. Causa desconforto. E que bom que é assim. Sofia Coppola nos mostra, mais uma vez, que as aparências enganam e que mais do que bons modos, deveríamos aprender a ser boas pessoas. Do tipo que realmente defende a misericórdia e o perdão e não do tipo que vê no assassinato de alguém uma saída para uma situação de medo ou perigo. Sempre existe uma alternativa, inclusive para o status quo. Basta querer encontrá-la e pagar o preço por isso.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Beguiled têm um apelo estético fortíssimo. Antes, na crítica, eu já comentei as suas principais qualidades: a maravilhosa, belíssima direção de fotografia de Philippe Le Sourd e os figurinos igualmente maravilhosos de Stacey Battat. Mas há outros elementos que fazem toda a diferença para a produção. Destaco, neste sentido, o design de produção perfeito e lindo de Anne Ross; a direção de arte igualmente perfeita de Jennifer Dehghan; e a decoração de set de Amy Beth Silver. Esse trio faz um trabalho impecável, assim como os anteriormente citados.

Vale também comentar a bela trilha sonora de Laura Karpman e de Phoenix, e a competente edição de Sarah Flack. Notaram, aliás, a “supremacia” feminina. Interessante. 😉

Importante para a produção o trabalho do time de oito profissionais responsáveis pela maquiagem do elenco. Para algumas atrizes, essa maquiagem foi fundamental – assim como para Colin Farrell e as feridas de seu personagem. Vale também falar do importante trabalho da dupla Joseph Oberle e Wilson Tang nos efeitos visuais – que ajudaram a nos situar na época da Guerra Civil americana – assim como o departamento editorial que trabalhou com diversas restaurações digitais.

Os destaques do elenco, para mim, volto a comentar, foram Nicole Kidman – há tempos eu não via a atriz tão bem em um papel no cinema -, Elle Fanning e Colin Farrell. E olha que eu acho ele, muitas vezes, “canastrão”. Mas neste filme ele está muito bem – como há tempos eu não via também. Outra figura muito interessante foi Oona Laurence. Ainda que estes sejam os destaques, não dá para negar que fazem um bom trabalho Kirsten Dunst – me surpreendeu um pouco como ela “envelheceu” -, Addison Riecke, Angourie Rice (que interpreta Jane) e Emma Howard (que interpreta Emily). Elas fecham a lista das “sete” mulheres/garotas que vivem na casa e que abrigam o soldado inimigo.

O foco da produção são as garotas e o soldado que aparece em cena para mudar a rotina delas. Mas existem algumas outras figuras que fazem rápidas passagens na história e que merecem ser citadas, como Wayne Pére como o capitão confederado que passa pela escola; e Matt Story e Eric Ian como dois soldados confederados que também passam por ali.

The Beguiled estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Até agosto, a produção participou ainda de outros 10 festivais em diferentes países. Nesta trajetória o filme conseguiu conquistar quatro prêmios e foi indicado a outros 10. Os prêmios que a produção recebeu foram o de Melhor Diretora para Sofia Coppola no Festival de Cinema de Cannes; e Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Elenco no INOCA (International Online Cinema Awards). O prêmio para Sofia Coppola em Cannes teve um gosto especial porque foi a primeira vez em 50 anos que uma mulher ganhou como Melhor Direção – e na história da premiação, esta foi apenas a segunda vez que uma diretora conquistou esta honraria.

Talvez alguém que tenha gostado muito do filme possa se perguntar porque eu não dei uma nota maior para The Beguiled. Eu explico. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que o roteiro seja bem escrito, que o filme tenha boas interpretações e que o visual da produção seja ótimo, achei um tanto forçada a barra quando McBurney “perde a cabeça” e a consequente “solução” que seis das sete mulheres dão para o caso. Também um tanto estranha a forma com que ele se acidenta e um pouco arrastada a história em alguns momentos. Muitos antes do filme mudar de tom radicalmente, o espectador já espera que algo ruim vá acontecer – e isso não ajuda, exatamente, a produção a se sair melhor. Isso faz com que o filme, mesmo que seja bom, não seja inesquecível ou realmente marcante. Ele é bom, apenas isso.

Agora, aquelas rápidas curiosidades sobre a produção. A diretora Sofia Coppola pediu para a atriz Kirsten Dunst perder peso para o seu papel, mas a atriz se recusou dizendo que desprezava este tipo de preparo e que ela tinha acabado de sair de uma dieta feita para o filme Woodshock. Talvez tenha sido isso que me surpreendeu um pouco na atriz. Muitas vezes não sabemos que as atrizes que acompanhamos são colocadas em “regimes” para aparecer em cena… e como estou acostumada a ver Kirsten Dunst mais magra, talvez este tenha sido um ponto na presença dela em cena que me surpreendeu. Seria interessante vermos os atores mais em suas formas costumeiras, não?

Quando escreveu o roteiro de The Beguiled, Sofia Coppola tinha já a atriz Nicole Kidman para o papel principal. E após trabalhar com ela, Coppola disse que realmente a atriz é única, sendo capaz de apresentar cinco sentimentos diferentes em uma sequência. Ela tem razão. Nicole Kidman está em grande forma nesta produção. Para a nossa sorte. 🙂

Eu assisti a alguns trechos do The Beguiled de 1971 e algo me chamou a atenção: como uma personagem do filme original – e fiquei sabendo depois, da obra de Thomas Cullinan também – foi cortado da versão de Sofia Coppola. Essa personagem é Hallie, uma escrava negra que tem um papel importante nas obras originais. Segundo Sofia Coppola, ela decidiu cortar a personagem da sua versão porque ela considera o tema da escravidão muito sério e ela não queria tratá-lo de forma “suave”, por isso ela resolveu focar a história nas demais personagens da escola que estavam isoladas “do mundo”.

The Beguiled foi rodado em apenas 26 dias na Louisiana, em locais como a Madwood Plantation, em Napoleonville.

Este é o segundo filme de Elle Fanning com Sofia Coppola e a quarta produção que a atriz Kirsten Dunst faz com a diretora.

Colin Farrell e Clint Eastwood, atores que interpretaram o personagem do soldado ianque, fazem aniversário no mesmo dia, 31 de maio.

De acordo com Sofia Coppola, esta produção não é uma refilmagem do The Beguiled de 1971 e sim uma adaptação do romance de Thomas Cullinan.

Este é o primeiro filme de Sofia Coppola que não é produzido ou coproduzido pelo pai dela, Francis Ford Coppola. Ou seja, ela está desmamando. 😉

Esta versão de The Beguiled, assim como a de 1971, foram filmadas em Louisiana. Ainda assim, a produção de Sofia Coppola afirma que a história se passa na Virginia – e o romance que originou os dois filmes se passa no Mississippi.

The Beguiled teria custado US$ 10,5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos e até o dia 10 de agosto, quase US$ 10,6 milhões. Nos outros mercados que o filme já estreou ele fez outros Us$ 5,3 milhões. Ou seja, está caminhando para cobrir os seus custos e começar a dar lucro.

Se você, como eu, ficou interessado(a) em refrescar um pouco a memória sobre a Guerra Civil americana, vale dar uma olhadela neste resumo do site História do Mundo e também neste link da Wikipédia que explica a origem do termo “ianque” – que é citado no filme em mais de uma ocasião para identificar o personagem de Farrell.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 181 críticas positivas e 49 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,1. Especialmente a nota do Rotten Tomatoes chama a atenção – é bastante boa para o padrão do site.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ele atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e pela qual vocês pediam críticas deste país.

Volta e meio eu comento sobre os títulos dos filmes. A versão para o Brasil, a mesma da produção homônima de 1971, é para acabar… achei o título horrível. Nada a ver, mas tudo bem. O título original, The Beguiled, poderia ser traduzido para algo como “O Seduzido”. Também não é o melhor dos títulos, mas pelo menos achei melhor do que a versão para o Brasil.

CONCLUSÃO: A diretora Sofia Copolla segue em sua jornada de nos fazer questionar o que é belo e o que é puro. Os seus filmes, a exemplo deste The Beguiled, nos apresenta uma fotografia maravilhosa. Um deleite para os olhos. Mas o que se esconde além das aparências? Em The Beguiled descobrimos que uma escola de moças estudiosas e religiosas pode esconder bons princípios que não resistem à tentação ou a uma simples ameaça do “status quo”. Aquela escola representa muitos outros grupos e coletivos e, porque não dizer, a própria sociedade. Um filme muito bem acabado, tecnicamente, e que ainda surpreende por apresentar uma história com tanto desconforto e questionamentos sob “a pele”. Vale assistir, ainda que não seja o filme que vai mudar a sua vida. 😉

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Lion – Lion: Uma Jornada para Casa

A força do encontro com as próprias origens. Um drama real que acontece a cada ano com milhares de crianças – ou seria milhões no mundo inteiro? – e que é tratada com suavidade neste Lion. Mesmo quando nos deparamos com uma história triste, é possível encontrar muitas lições nela, assim como a manifestação pura de amor. Tudo isso faz parte deste filme que, apesar de ser bacana, é o mais fraco da temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Diversas paisagens que mesclam terra e mar. No final de uma sequência delas, o filme explica que esta produção é baseada em uma história real. Logo vemos a Saroo (Sunny Pawar) maravilhado com um grupo gigantesco de borboletas. No alto de uma montanha, o irmão mais velho dele, Guddu (Abhishek Bharate), chama o irmão. Eles tem uma missão a cumprir.

Os garotos sobem em um trem carregado de carvão e roubam o máximo que eles conseguem carregar. Guardas chamam a atenção deles, e um dos guardas corre ao lado do trem pedindo para eles pularem. Os garotos se divertem quando o trem passa em um túnel. Estamos em Khandwa, na Índia, no ano de 1986. Com o carvão que os garotos roubaram, eles conseguem dois pacotes com leite, que levam para casa, para a mãe deles, Kamla (Priyanka Bose). Este filme conta a história de Saroo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lion): Nesses dias eu estava me perguntando onde estavam os tão conhecidos produtores da The Weinstein Company. Pois bem, resposta imediata nos créditos deste Lion. Isso explica, aliás, como este filme chegou tão longe, indicado a nada menos que seis estatuetas do Oscar.

Para quem não se lembra ou não liga os “nomes às pessoas”, os irmãos Weinstein são dois dos produtores mais fortes e “de peso” de Hollywood. Mais que investir em filmes, eles são craques no lobby de suas produções. Lobby é aquela campanha massiva que inclui favores e presentes para os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood valorizarem uma produção.

Às vezes esse lobby premia filmes realmente bons, mas nem sempre é assim. Os irmãos Harvey e Bob Weinstein fizeram Quentin Tarantino ser conhecido e emplacaram The Artist, dois bons exemplos. Mas eles também conquistaram, a custo de muito lobby, um Oscar de Melhor Filme para o mediano Shakespeare in Love. Eis um mal exemplo. Enfim, há algum tempo eles não “ditam” as regras do Oscar, e eu estava achando a ausência deles até ver o gigante crédito da companhia neles neste Lion.

Não me entendam mal. Este não é um filme ruim. Ele apenas é mediano. Se não fosse a força dos Weinstein por trás da produção, dificilmente este filme apareceria no Oscar. Descontado Lion na premiação deste ano, realmente falamos de uma safra excepcional na premiação. Lion é o ponto fora da curva nesta boa safra.

O filme, com narrativa linear, conta a história do indiano Saroo, um garoto como qualquer outro da sua idade nos anos 1980. A família dele era pobre, a mãe dos garotos, aparentemente sozinha, cuidava de três filhos, sendo dois deles pequenos – Saroo era o do meio -, tendo como a sua principal fonte de renda o trabalho pesado com pedras. Saroo, a exemplo de tantas crianças da Índia, não tem uma lei para as proteger – ou se existe lei, ela não é cumprida, porque estas crianças trabalham desde cedo.

Lion mostra um pouco da realidade do garoto até que ele se perde do irmão mais velho, Guddu, com quem ele estava sempre grudado. Com sono, Saroo não é capaz de ajudar o irmão em um trabalho noturno. Guddu pede para ele ficar no banco da estação de trem, mas o garoto acaba entrando em um vagão que é fechado e que não para em diversas estações até, finalmente, aceitar passageiros em Calcutá.

O menino, que parece ter cerca de seis anos, está a 1,6 mil quilômetros de casa. Ele cita o lugar em que ele mora, mas não fala bengalês, apenas híndi, e ninguém sabe do lugar do qual ele está falando. Saroo acaba tendo sorte e escapa de duas ciladas, pelo menos, passando a morar na rua e a se virar para conseguir comida. Em um certo dia, ele chama a atenção de um rapaz que com em um café (Riddhi Sen) e que o leva para a polícia.

Lá ele é “fichado”, ganha uma identificação como uma criança perdida, e é levado para um orfanato. Na sequência, ele é atendido pela Mrs. Sood (Deepti Naval), que publica um anúncio no jornal da cidade mas que, claro, não é visto pela família dele – não apenas porque a mãe do garoto é analfabeta e pobre, mas porque eles estão muito distantes de Calcutá.

Sem resposta da família do garoto, ele tem a sorte de ser adotado pelo casal australiano Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham). Uma das primeiras reflexões que Lion provoca é sobre o improvável da história de Saroo. Infelizmente ele é uma exceção naquela realidade da Índia – e de tantos países em que a pobreza e a desigualdade social não são artigos raros.

Impossível não pensar que para cada Saroo que tem sorte e que “dá certo” na vida porque tem as oportunidades para isso, existem tantas e tantas outras crianças que se dão muito mal e não tem a mesma oportunidade. Sem dúvida alguma é de cortar o coração, e toda a parte que mostra Saroo na sua fase de infância é o que Lion tem de melhor.

Na fase seguinte, há um grande trabalho que vale o investimento de tempo do espectador: o da atriz Nicole Kidman. Ela está ótima no papel da mãe adotiva de Saroo e tem, sem dúvida alguma, os melhores momentos de interpretação do filme – talvez esse seja o melhor trabalho dela deste The Hours. E isso não é pouca coisa. Nicole Kidman merece a sua indicação para o Oscar deste ano. Ela é o ponto forte do filme junto com os atores mirins da produção.

Adotado pelo casal, Saroo se desenvolve bem e tem as melhores oportunidades de estudar e de fazer esportes. Ele tem uma boa vida na Austrália. A história avança 20 anos, quando Saroo sai da casa dos pais para morar sozinho em Melbourne. É lá, interagindo com outros estudantes, que ele começa a questionar as suas origens e o seu passado. Começa a relembrar da mãe, do irmão, e da vida que tinha na Índia.

Esta é uma parte que eu acho mal explicada no roteiro regular de Luke Davies, baseado no livro escrito por Saroo Brierley. Afinal, Saroo ficou 20 anos morando com os novos pais na Austrália e nunca questionou as suas origens, procurou saber mais sobre a família e até buscá-la antes? Verdade que o indivíduo, quando vai morar sozinho, passa a ter outro tipo de “busca de si mesmo” mas, ainda assim, é um pouco estranho esse salto todo na vida do garoto sem nenhuma contextualização sobre as memórias dele antes, não?

Eu achei que o filme deixou esse buraco grande na história e que isso compromete a produção. Ok que eles quisessem saltar bastante tempo na trajetória de Saroo e mostrá-lo já adulto (interpretado então por Dev Patel). Mas então nesta fase adulta ele poderia ter comentado algo sobre como ele lidou com as suas lembranças e a saudade que tinha da família original, não? Para o meu gosto, o roteiro de Luke Davies é o ponto fraco de Lion.

Outra questão que eu acho que Davies não trabalha bem é sobre a “crise existencial” pela qual passa o protagonista desta história. Ok que ele estava dividido entre a necessidade de procurar a família original e a preocupação de não chatear os pais adotivos, mas isso não é exatamente bem explorado pela produção.

Lion acaba desacelerando justamente em uma parte vital, quando o rapaz começa a questionar a vida confortável que ele leva na Austrália e recorda o contraste das experiências que ele teve na Índia. A história acaba se repetindo naquela indecisão dele de realmente buscar as origens, o que não ajuda na narrativa.

O filme não teria perdido nada, pelo contrário, se tivesse cortado um pouco aquela investigação “by Google Earth” e explorado melhor as relações pessoais dele ou partido logo para a procura dele de suas origens. Francamente eu achei que ele não encontraria ninguém quando voltasse para casa, mas ele ainda tem a sorte de rever a mãe.

Lion nos faz pensar, desta forma, em dois elementos fundamentais: a importância de cada um de nós entender com profundidade de onde veio, porque nossas origens acabam moldando muito o que somos; e o quanto a desigualdade de oportunidades é algo injusto e cruel. Saroo acaba tendo uma qualidade de vida e uma série de oportunidades que ele jamais teria se tivesse ficado na Índia. Mas onde ele seria mais feliz? Nunca saberemos.

Mas independente disso, toda criança deveria ser protegida e ter as mesmas oportunidades na vida. Depois o que cada um faria de sua trajetória, seria algo que competiria a cada indivíduo. O cruel e injusto do mundo é que muitas crianças simplesmente não tem oportunidade de se desenvolver e de ter oportunidades na vida. Lion mostra isso de forma muito contundente, ainda que o filme poderia ser melhor planejado e ter um roteiro mais inteligente na segunda parte da produção.

Antes eu comentei sobre o ótimo trabalho de Nicole Kidman. Para mim, ela tem alguns dos melhores diálogos da produção. Particularmente, estou totalmente de acordo com ela de que já existem pessoas suficientes no mundo. O que muitos casais poderiam fazer, a exemplo do que os Brierley desta história fizeram, é adotar algumas das crianças que não tem estrutura familiar e que não terão oportunidades na vida para realmente dar para elas uma outra realidade.

Esta é uma outra boa reflexão que Lion nos propicia, pensar sobre que realidade temos, qual queremos ter e de que forma podemos contribuir para esta mudança. Este é um filme bacana, necessário, pena que não tem a qualidade narrativa que ele poderia ter.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O destaque desta produção são os garotos Sunny Pawar e Abhishek Bharate. Eles se saem muito bem em seus papéis, ainda que o roteiro de Luke Davies não ajude muito os dois ao tentar levar a narrativa um pouco para o “sentimentalismo”. Existe uma linha tênue entre retratar uma história difícil e explorá-la. Lion acaba caindo mais para o segundo lado do que para o primeiro. Mas sempre que os garotos aparecem em cena, o filme ganha.

Na parte da fase adulta do protagonista, quem brilha é Nicole Kidman. Ela nos dá uma lição de amor e de dedicação pela forma igualitária com que ela trata os dois filhos adotivos. Saroo é um exemplo de filho, aparentemente, mas o segundo garoto que o casal adota, Mantosh (Divian Ladwa, vivido por Keshav Jadhav na infância), claramente tem problemas de comportamento. Isso não importa para Sue, que ama e aceita os filhos como eles são e da mesma forma.

Dev Patel está bem em seu papel, mas não faz nada extraordinário – para mim, o personagem de Saroo perde em força quando ele o interpreta, comparando com o trabalho de Sunny Pawar. Nesta fase da história estão bem também David Wenham como o pai dos garotos e Rooney Mara como Lucy, namorada de Saroo. Rooney Mara está novamente encantadora, e convincente, mas o roteiro não lhe ajuda muito. Uma pena.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Khushi Solanki em uma super ponta como Shekila quando criança; Tannishtha Chatterjee como Noor, uma mulher que ajuda Saroo quando criança com segundas intenções; Nawazuddin Siddiqui como Rawa, aparentemente um traficante de pessoas; Koushik Sen como o policial que atende Saroo; Pallavi Sharda como Prama, amiga de Saroo que o incentiva a procurar as suas origens; Sachin Joab como Bharat, também amigo de Saroo; Arka Das como Sami, jovem que faz parte do mesmo grupo; e Rohini Kargaiya como Shekila adulta.

Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho de uma série de pessoas. Ainda que, francamente, todos cumpram bem a sua função, apenas o diretor de fotografia Greig Fraser é o que merece uma menção especial. Os demais fazem apenas um trabalho ok. Ainda assim, vale citá-los: Volker Bertelman e Dustin O’Halloran assinam a trilha sonora; Alexandre de Franceschi faz a edição; Chris Kennedy assina o design de produção; Nicki Gardiner e Seema Kashyap assinam a decoração de set; Cappi Ireland, os figurinos; e Erica Brien o departamento de arte.

Sobre os irmãos Weinstein e o seu trabalho forte com o lobby em Hollywood, vale dar uma olhadela nesta matéria da revista Exame.

Lion estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros 18 festivais pelo mundo. Em sua trajetória até agora, Lion conquistou 26 prêmios e foi indicado a outros 72, incluindo seis indicações ao Oscar 2017.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel no Bafta Awards; para o de Melhor Diretor Estreante para Garth Davis dado pelo Directors Guild of America; oito prêmios como Melhor Filme – a maioria dada pelas audiências de festivais; dois prêmios de Melhor Roteiro Adaptado; quatro prêmios de Melhor Ator Coadjuvante ou de Melhor Ator para Dev Patel; quatro prêmios para Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman; um prêmios de Melhor Fotografia e um prêmio de Melhor Ator para Sunny Pawar.

Lion teria custado US$ 12 milhões, um orçamento até baixo para a complexidade da produção. O filme faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 30,4 milhões e, nos demais países em que já estreou, outros US$ 14,1 milhões. Até o momento a produção faturou pouco mais de US$ 44,5 milhões, ou seja, está trilhando o caminho do lucro – até porque ele custou relativamente pouco para os padrões de Hollywood.

Como a história mesmo conta, Lion foi totalmente rodado na Índia e na Austrália. Entre as cidades em que a produção passou estão a de Kolkata, em West Bengal, na Índia, e as de Hobart, Melbourne, Bruny Island, Cape Hauy e Recherche Bay, todas na Austrália.

Esta foi a estreia de Sunny Pawar no cinema. Torço para que ele consiga ter uma carreira legal. Talento não lhe falta. Falando em estreias, Lion também marca a estreia de Garth Davis entre os longas – antes ele tinha feito o documentário P.I.N.S., o curta Alice e alguns episódios das séries Love My Way e Top of the Lake.

Agora, aquelas curiosidades básicas da produção. A personagem de Rooney Mara não é baseada em uma pessoa específica, mas é a junção de diversas “amigas” do protagonista que o acompanharam em sua longa jornada em busca de seu lugar de origem.

Como a produção mesmo informa, na Índia, todos os anos, 80 mil crianças se perdem de seus país. E um número ainda mais impressionante e de cortar o coração: 11 milhões de crianças vivem nas ruas da Índia. Vocês leram bem? 11 milhões de crianças! Os produtores de Lion criaram a fundação #LionHeart para tentar ajudar estas crianças que vivem nas ruas.

A atriz Nicole Kidman foi escolhida a dedo pela verdadeira Sue Brierley. As duas conversaram sobre o papel em Sydney e imediatamente Nicole e Sue viram que elas tinham algo em comum: as duas amavam os seus filhos naturais e adotivos da mesma forma.

Nada menos que 4 mil meninos fizeram os testes para interpretar Saroo na infância.

O ator Dev Patel considera o roteiro de Lion o melhor que ele já leu.

Na Austrália o filme teve a melhor estreia de um filme independente da história. Entre todos os filmes do país que já estrearam naquele mercado, Lion teve a quinta melhor estreia de todos os tempos.

Esta é uma coprodução da Austrália, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Como tem os EUA no meio, Lion atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, o que é uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,3. Me parece, até pelos prêmios que este filme já recebeu, que os espectadores têm sido mais “sensíveis” para a produção do que os críticos. Desta vez, tenho que concordar mais com os críticos. A história de Lion é importante, mas não é muito bem contada e nem é surpreendente. Enfim, poderia ser melhor.

Achei forçado o material de divulgação do filme explorar tanto a imagem de Dev Patel. Por justiça, seria muito mais interessante termos cartazes que dessem destaque para os irmãos quando pequenos. Afinal, a parte mais interessante do filme está com eles. Mas entendo os produtores, preocupados com a bilheteria, por explorarem a imagem do conhecido Dev Patel e da “queridinha” Rooney Mara.

CONCLUSÃO: A mensagem deste filme é importante, e ele tem boas interpretações. Mas entre os indicados deste ano do Oscar este é, sem dúvida, o elo fraco da corrente. Primeiro porque o filme é um bocado arrastado e tem muitos altos e baixos. Depois, porque ele talvez teria funcionado melhor como documentário do que como uma produção dramática.

Falta para esta produção um pouco de conteúdo, de brilho e de emoção, apesar de Lion ter algumas mensagens muito bacanas, especialmente pela forma com que o filme defende a importância da família, da generosidade, da busca por si mesmo e do amor. Vale a pena assistir se você já viu a todos os outros indicados ao Oscar desta safra.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Parece incrível pensar que Lion foi indicado em seis categorias do Oscar. Ok, o filme é bom, mas ele não passa disso. Como eu comentei por aqui antes, a única explicação para este número de indicações é a força dos produtores Harvey e Bob Weinstein. Eles continuam tendo um lobby forte em Hollywood, pelo visto.

Lion concorre neste ano nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel (classificação estranha essa, mas não é inédita), Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Entre os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que Lion é o mais fraco concorrente. Sendo assim, claro que chance zero do filme ganhar nesta categoria. Também não vejo nenhuma chance do filme levar em Melhor Ator Coadjuvante – o prêmio deve ir para Mahershala Ali, de Moonlight – ou em Melhor Atriz Coadjuvante.

Apesar de Nicole Kidman ser, provavelmente, a indicação mais justa que o filme recebeu no Oscar 2017, a categoria em que ela concorre deve ser ganha por Viola Davis – que, a exemplo de Patel, poderia, perfeitamente, estar na categoria principal e não na de coadjuvante, já que ambos são os protagonistas nos seus respectivos filmes.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, Lion corre totalmente por fora. Não imagino ele tendo qualquer chance contra Moonlight, Fences, Arrival ou Hidden Figures. Todos os quatro são melhores do que ele.

Em Melhor Fotografia e em Melhor Trilha Sonora o favoritíssimo da noite é La La Land, apontado como o filme que será mais premiado na noite do Oscar. Quem corre por fora na primeira categoria é Arrival e Moonlight, enquanto na segunda existe uma mínima chance para Moonlight e Jackie. Ou seja, se o previsto acontecer, Lion sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Nesta temporada de grandes filmes concorrendo, não será uma injustiça.

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The Paperboy – Obsessão

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Um elenco com vários nomes de destaque em Hollywood, um roteiro fraco a maior parte do tempo e bastante violento. The Paperboy é um destes filmes que você não sabe muito bem a que veio. Nem para que. O roteiro tem alguns momentos totalmente absurdos, e a história parece não engrenar nunca. Ainda assim, abriga algumas cenas de impacto, e uma e outra reflexão interessante. Não é um totalmente desastre, mas está longe de ser bom.

A HISTÓRIA: Uma mulher ajeita o cabelo enquanto o diretor pede para ser avisado quando a equipe estiver gravando. Começam as gravações e ele comenta que muitas pessoas se perguntaram o que realmente teria acontecido. Ele afirma que muitas perguntas surgiram logo depois que o livro foi publicado, e agradece a Anita Chester (Macy Gray) pela ajuda a tornar o assunto mais claro. Ela deve saber o necessário, já que o livro foi dedicado a ela.

Anita afirma que tudo o que está no livro é verdade, e começa a contar a história conforme ela lembra do que aconteceu. Ela diz que tudo aconteceu em 1969, durante o verão em Moat County, na Flórida. Um policial foi morto, e Hillary Van Wetter (John Cusack) foi preso pelo crime. O assunto acaba entrando no cotidiano da família para a qual Anita trabalhava como empregada porque o irmão de Jack (Zac Efron), o jornalista Ward Jansen (Matthew McConaughey) desconfia da versão oficial e viaja para a cidade para tentar descobrir detalhes sobre o que aconteceu.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a The Paperboy): A primeira impressão que eu tive com este filme foi que Macy Gray, ótima cantora, estava forçando na interpretação da personagem Anita. E esta impressão só vai se confirmando conforme a trama avança. Nem sempre uma artista do meio musical consegue se sair bem no meio cinematográfico. Há bons exemplos, como Norah Jones em My Blueberry Nights (comentado aqui no blog).

Não podemos falar o mesmo sobre Macy Gray. Ela faz um trabalho exagerado, um tanto preguiçoso. Um dos pontos que incomoda neste filme. Mas ele não é o único. Depois da aparição de Macy Gray, voltamos até agosto de 1969, quando o xerife Thurmond Call (Danny Hanemann) é morto. Rapidamente percebemos que o diretor Lee Daniels tem estilo e vai levar esse filme sob rédeas curtas. Funcionam bem as cenas em preto e branco, e elas criam uma boa expectativa no espectador de que verá uma produção diferenciada. Ledo engano.

Certo que Daniels faz um bom trabalho na direção. As cenas em preto em branco são ótimas. E o estilo do restante do filme, com um trabalho fundamental do diretor de fotografia Roberto Schaefer, também é interessante. Mas o problema deste filme é mesmo o roteiro, escrito por Daniels e Peter Dexter. Este último, autor do livro que inspirou o filme.

Há sequências verdadeiramente desnecessárias nesta produção. Que não apenas não agregam informações para a história, como também beiram ao absurdo. Exemplos? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sequência em que Anita vai limpar o quarto de Jack e eles acabam “trocando” de papéis e a segunda visita dos irmãos Jansen, junto com Charlotte Bless (Nicole Kidman), para ver a Hillary. Na primeira, totalmente dispensável aquela brincadeira de Anita com Jack, que acaba não tendo graça alguma, e, na segunda, bastante sem propósito a obsessão de Hillary sobre quem tem calças. No fim das contas, duas sequências que não agregam nada ao filme.

Mas há pelo menos uma outra sequência mais absurda que estas. Aquela que mostra Jack nadando na praia e, depois, sendo “atacado” por águas-marinhas. A solução para ajudá-lo, incluindo a execução da cena, é simplesmente ridícula. E beira o absurdo. Por estas cenas, o filme chega a deixar o espectador perplexo. Pelo lado negativo. A sensação que fica é que estamos perdendo o nosso precioso tempo vendo a um filme sem pé nem cabeça.

Para tornar a balança um pouco mais justa, contudo, há sequências em The Paperboy potentes. Há tanto a provocativa cena em que Hillary faz Charlotte masturbar-se na frente de Jack, Ward e do colega jornalista Yardley Acheman (David Oyelowo), quanto, e principalmente, a sequência em que Jack encontra o irmão sodomizado e quase morto. A reta final da produção, ainda que em parte prevista, também impressiona pela brutalidade. Aliás, este filme faz o estilo “sem papas na língua”. O problema é que ele é muito desigual e demora demais para chegar a alguma cena interessante.

Na maior parte do tempo, The Paperboy parece um filme arrastado, cansado, como se o roteiro e a equipe estivessem de fato sofrendo com aquele verão extremamente quente nos Estados Unidos. Seguindo a narrativa de Anita, esta produção parece ser a história do “primeiro amor” de um belo garoto, Jack, que ainda não sabe o que vai fazer da vida. Após os fatos que acontecem neste filme, ele aprende a duras penas um pouco mais sobre perder a quem se ama, reencontra a própria mãe, que há muito tempo não via, e acaba definindo os rumos que vai seguir.

Pena que apesar de ser centrado neste personagem, o roteiro aprofunde pouco na personalidade dele. A maior parte do tempo o esforçado Zac Efron fica babando para a bonita, mas não tão bela quanto deveria ser Charlotte Bless. Apesar da história dele parecer o centro deste filme, o enredo principal orbita sobre a culpabilidade ou a inocência de Hillary. Como pano de fundo, a divisão da sociedade norte-americana, mesmo no final dos anos 1960, sobre o tema racial.

Desde o princípio do roteiro fica evidente que os conflitos entre brancos e negros é um elemento importante desta história. Ainda que o homem que tem a culpa questionada seja branco. Mas existe o personagem do jornalista Yardley deslocado, sem contar a “descartável” Anita e o clima que os circunda. Outro preconceito surge lá pelas tantas: o que circunda os homossexuais. Pessoas como Ward que, aparentemente, devem esconder a sua vida privada e caminhar “nas penumbras” para encontrar o que lhe interessa. Mas estes assuntos são apenas citados na produção. Em nenhum momento ganham verdadeira relevância.

Uma questão que o filme levanta, contudo, verdadeiramente é interessante: como alguns defensores dos direitos civis fizeram besteira para defender os seus pontos de vista. Ainda que esta seja uma ficção, impossível não acreditar que houve histórias como a revelada em The Paperboy. Jornalistas como Yardley que ficaram famosos por escrever reportagens e livros sustentando histórias que não foram bem apuradas ou que, simplesmente, foram adulteradas para defender a teorias de acusados injustamente – e que, no fim das contas, eram culpados por seus crimes.

No caso de Hillary, não fica claro que ele foi culpado pela morte do xerife Thurmond Call. Mas pela personalidade violenta que acompanhamos na reta final da produção, e pela aparente história combinada entre ele e o tio Tyree Van Wetter (Ned Bellamy) sobre o campo de golfe, existe uma dúvida bem consistente de que ele foi o culpado. A pressa de Ward e, especialmente, de Yardley em defender a teoria de que Hillary era inocente, ele acaba sendo solto. E o restante da história se desenvolve.

Até hoje acompanhamos muitas histórias de culpados que saem rapidamente da prisão e acabam cometendo uma ou mais atrocidades. Não tenho dúvidas de que a “justiça dos homens” é falha. E não faltam exemplos para confirmar esta afirmação. Desta forma, The Paperboy aborda um tema interessante, ainda que perca muito tempo com bobagens e com sequências que poderiam ser dispensadas. Mas os atores se esforçam em seus papéis, ainda que falte química e sintonia entre eles. A direção funciona, mas o roteiro é muito ruim. Uma pena.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se eu fosse avaliar este filme friamente, provavelmente daria uma nota ainda menor para ele. Mas como gostei da direção de Lee Daniels, resolvi melhorar um pouco a avaliação. Também vale dar a nota acima pelo esforço de Matthew McConaughey, que é o melhor em cena, e por Zac Efron fazer um bom trabalho – ele realmente é lindo e pode evoluir na carreira se estudar um pouco mais interpretação.

Por outro lado, e contrariando alguns textos que li por aí, não gostei da Nicole Kidman. Achei a interpretação dela um pouco “over”, exagerada, e algumas vezes até perdida. Não gostei. Assim como achei um desperdício o papel de John Cusack. Ele é um ator melhor que o que ele demonstra neste filme.

Além dos atores citados, vale comentar o trabalho de Scott Glenn como W.W. Jansen, pai de Jack e Ward; e Nealla Gordon como Ellen Guthrie, que trabalha com W.W. Jansen e acaba ficando noiva dele. Os demais fazem papéis muito secundários e que acabam não tendo muita relevância para a produção.

Da parte técnica do filme, Lee Daniels tem uma direção firme e mostra talento, ainda que não faça nada totalmente inovador – as técnicas utilizadas por ele podem ser vistas no trabalho de outros diretores. O roteiro é ruim, fraco, arrastado, com várias sequências dispensáveis. A direção de fotografia, por outro lado, é um dos pontos fortes da produção. Mérito de Roberto Schaefer, como comentei anteriormente.

Merecem aplausos também o design de produção de Daniel T. Dorrance, a direção de arte de Wright McFarland, a decoração de set de Tim Cohn e os figurinos de Caroline Eselin e a edição de Joe Klotz. Eles são os responsáveis por ambientar o filme de forma convincente em 1969. A maquiagem da equipe liderada por Robin Mathews, por outro lado, deixa um pouco a desejar. Me pareceu forçada em muitos momentos. A trilha sonora de Mario Grigorov funciona, tem alguns bons momentos, mas não achei digna de ser comprada, por exemplo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Nicole Kidman entrou no lugar da atriz Sofía Vergara, que faz Modern Family, que tinha sido confirmada como a protagonista do filme antes. E o diretor Pedro Almodóvar foi cotado diversas vezes para assumir este projeto, que seria o primeiro filme dele em inglês. Mas no fim das contas, Almodóvar desistiu do projeto – talvez ele tivesse feito algo melhor do material original. Nunca saberemos.

Outro nome cotado para esta produção foi o de Tobey Maguire. Mas o ator não conseguiu espaço na agenda, com outros projetos em andamento. Alex Pettyfer tinha sido escalado para o papel de Jack, mas acabou dando lugar para Efron.

E uma observação que eu faço do filme. O título original, The Paperboy, faz uma referência clara à Jack que, de fato, é um entregador de jornais no início da história. Depois, Hillary tira sarro de Ward e Yardley chamando eles também de “entregadores de jornais”. Os dois são jornalistas, mas isso pouco importa para o presidiário. E para quase não variar, a tradução do filme no Brasil mudou totalmente o sentido do título do original. Nestas situações, em que é difícil traduzir o título, sempre vou achar melhor deixar o título original, sem mudar o sentido dele.

The Paperboy estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, ele passaria por outros oito festivais, incluindo o do Rio de Janeiro, no início de outubro de 2013. Nesta trajetória, ele ganhou três prêmios e foi indicado a outros seis, além de ter sido indicado para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman.

Entre os que recebeu, destaque para o de Ator Favorito em Filmes Drama para Zac Efron no People’s Choice Awards; Ator do Ano para Matthew McConaughey (pelo conjunto de trabalhos dele recentes, incluindo ainda Magic Mike, Killer Joe e Bernie) pela Associação de Críticos de Cinema de Central Ohio e um Prêmio Especial Honorário para Matthew McConaughey (pelo mesmo conjunto de filmes citado anteriormente) entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Austin. Os prêmios recebidos, até achei justos, mas a indicação de Kidman achei exagerada.

The Paperboy teria custado cerca de US$ 12,5 milhões. Nos Estados Unidos, o filme acumula um resultado de pouco mais de US$ 693,2 mil até o início de outubro. E no restante dos mercados, ele soma outros US$ 660,5 mil. Ou seja, somados, os resultados ultrapassam um pouco US$ 1,35 milhão. Perspectiva de um fracasso importante se seguir este ritmo. E cá entre nós, não me surpreende.

Esta produção foi rodada em Los Angeles e na cidade de New Orleans.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,7 para The Paperboy. Coincido bastante com esta avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 78 textos negativos e 60 positivos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,1.

Como em outras vezes, quero citar uma parte da crítica do conceituado Peter Howell, da Toronto Star, que pode ser lida na íntegra aqui. Na opinião dele, The Paperboy é um “exagerado e pantanoso melodrama” que tem um elenco tipo A e um “material tipo Z”. hehehehe. Boa! Howell também considerou a cena da urinada a mais ridícula do filme, mas não a única, e que tudo na produção é exagerado – o que não é bom.

Outro crítico listado como um dos favoritos dos leitores do Rotten Tomatoes teve uma opinião bem diferente. Steven Rea, do Philadelphia Inquirer, deu três de quatro estrelas possíveis para The Paperboy. Você pode ler o texto na íntegra aqui. Rea destaca o trabalho de Matthew McConaughey e o de Macy Gray, que considera que está fantástica no filme. Na avaliação do crítico, Daniels busca com os seus filmes “choque e pavor”, e isso é algo positivo. “Mas eles também pretendem explorar os recantos mais obscuros da alma, os sonhos e desejos que circulam sobre as nossas cabeças, e isso é ainda melhor”, escreveu. Uma maneira diferente de analisar The Paperboy, a qual respeito – ainda que não concorde.

The Paperboy é o terceiro filme da carreira de Lee Daniels. Em 2009 ele impressionou a muita gente – e eu me incluo no grupo – com Precious (comentado aqui no blog). Antes, ele dirigiu a Shadowboxer, lançado em 2005. Depois de The Paperboy, ele dirigiu The Butler, estrelado por Forest Whitaker e que conta a história de um mordomo que trabalhou com vários presidentes dos Estados Unidos na Casa Branca. Pelo jeito, após Precious, ele não seguiu no mesmo ritmo. Anda apresentando trabalhos mais fracos.

Este filme, 100% made in USA, entra na lista de produções daquele país que estou comentando aqui no blog após uma votação feita entre vocês, caros leitores. Até a próxima!

CONCLUSÃO: Este filme é quase uma incógnita. Afinal, qual é o propósito de The Paperboy? Ele não conta apenas a história do primeiro amor de um jovem. Nem mesmo a história real por trás de um livro. Além do fascínio de um belo jovem por uma mulher vulgar e obstinada por um presidiário, este filme coloca no mesmo caldeirão a segregação racial do Sul dos Estados Unidos, direitos civis e pena de morte – e a consequente preocupação de alguns jornalistas em evitar injustiças.

Esta mistura levanta algumas questões interessantes, mas não a ponto de fazer o filme te convencer. Verdade que ele tem algumas cenas bem fortes, e algumas interpretações esforçadas. Ainda assim, falta alma para esta produção, assim como mais argumentos para convencer o espectador. O cinema poderia perfeitamente seguir adiante sem esta produção. Gaste seu tempo com ele apenas se você gosta muito dos atores, do diretor ou se já tiver assistido a tudo o mais de bom que está nos cinemas.