Ant-Man and the Wasp – Homem-Formiga e a Vespa

 

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O filme mais família do Universo Marvel. Pelo menos, analisando as produções deste universo que eu já vi. Ant-Man and the Wasp é um filme divertidinho, com belas cenas de ação e efeitos especiais e uma narrativa que valoriza a família. Do início ao fim. Alguma surpresa? Se você já assistiu a pelo menos um filme do gênero, nenhuma. O roteiro é um bocado previsível e tem alguns “repetecos” narrativos, mas também apresenta alguns bons momentos. O mais fraco entre os filmes recentes da Marvel, mas se você é fã dos personagens ou desse gêmero, isso pouco vai importar.

A HISTÓRIA: Começa com uma narrativa feita pelo Dr. Hank Pym (Michael Douglas). Ele comenta que, às vezes, pensa na noite em que ele e a esposa, Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer) tiveram que deixar a filha. Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) era uma criança, e viu os pais saírem mais uma vez para uma “viagem de negócios inesperada”. Hank e Janet tem pena de deixar a filha, mas eles tem uma missão a cumprir como Ant-Man e Wasp. Desta vez, eles agem para desarmar um míssil que pode ser mortífero para centenas de pessoas.

O problema é que o casal, mesmo em tamanho diminuto, não consegue chegar no local correto para desarmar o míssil. A única saída é que um deles utilize o regulador para diminuir até o nível subatômico e, desta forma, acessar o núcleo do míssil. Janet é mais rápida que Hank e entra no “mundo subatômico”, de onde ela não conseguirá sair mais. Mas quando Scott Lang (Paul Rudd) conseguiu ir e voltar desse mundo subatômico, Dr. Hank Pym volta a acreditar que pode ser possível resgatar a mulher desse local. Para isso, ele vai construir um túnel subquântico que atrairá o interesse de muitas outras pessoas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ant-Man and the Wasp): Eis um filme sobre o qual eu não tenho muito o que falar. Ou, melhor dizendo, eis um filme sobre o qual não precisamos falar muito. Lembro bem de ler as HQs dos Vingadores e dos Heróis Marvel. Em meio a tantos heróis interessantes, o Homem-Formiga e a Vespa apareciam sempre como uma espécie de “personagens de apoio”.

Eles nunca me chamaram muito a atenção, para ser franca. E, novamente, nesse filme dedicado a eles, eu tive a mesma impressão. Ok, eles são graciosos, bonitinhos e tem uma história de fundo focada na família e no valor dos laços familiares bacaninha, mas é só isso. Em um ano em que vimos Black Panther, fica difícil a comparação. Claro, o personagem do Pantera Negra, especialmente pela forma com que ele foi desenvolvido no cinema, se apresenta muito mais completo em termos de temas subjacentes do que Ant-Man and the Wasp.

Importante observar isso antes de assistir a essa produção. Porque Black Panther – e, antes, Logan – elevaram tanto o nível dos roteiros dos filmes da Marvel, que é preciso reajustar as expectativas para assistir a esse Ant-Man and the Wasp. Admito que eu fui para o cinema assistir a esse filme sem grandes expectativas. Fui “desarmada” e para receber bem o que viesse. Achei, assim, o filme bacaninha, com um roteiro previsível e com algumas sequências interessantes. Os atores estão bem, mas a história em si é bastante fraquinha.

Vejamos. Tudo se resume à busca do Dr. Hank e de sua filha, Hope, pela figura materna desaparecida décadas antes. Contra essa busca deles estão os interesses de um mercenário, Sonny Burch (Walton Goggins), e do FBI e da polícia – que tem o Dr. Hank e Hope como foragidos. Para ajudar pai e filha a encontrarem a esposa/mãe desaparecida, entra em cena Scott Lang/Homem-Formiga. Antigo “discípulo” do Dr. Hank, Scott se sente em dívida com eles.

Esse é o filme. Junto com essa narrativa, com dinâmica previsível, temos o lado “fofinho” da história que é a relação de Scott com a filha Cassie (Abby Ryder Fortson). A relação entre pai e filha, no núcleo do Homem-Formiga, e de pais e filha, no núcleo da Vespa, fazem desta produção algo tão família. Ah sim, e outra ameaça importante para os “heróis” vem de uma menina que sofre justamente com o que? Com a falta da família! Estou me referindo a Ava (chamada também de Ghost/Fantasma), interpretada por Hannah John-Kamen.

O roteiro de Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari busca, desta forma, equilibrar os elementos conhecidos das HQs para agradar a todas as faixas etárias de público. Mas vejo Ant-Man and the Wasp agradando, em especial, aos mais jovens, já que este filme abre mão das cenas mais violentas e da “complexidade” dos personagens e narrativa de Black Panther e Logan para centrar-se mais na parte “divertida” e familiar dos personagens.

O roteiro feito a 10 mãos segue uma narrativa linear e com um contínuo “rouba” e “recupera” do laboratório do Dr. Hank e da peça que faltava para o invento dele e de Hope funcionar. No fim das contas, como previsto, eles conseguem terminar com o experimento e a história tem um final feliz.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos conseguem se sair bem, até Scott em sua incansável quebra-de-braços com o FBI e a polícia. Mas é importante assistir ao filme até depois dos créditos, para assistir a uma cena final que nos remete a Avengers: Infinity War. A família Van Dyne desaparece após a vitória de Thanos, e aí fica a pergunta de quem irá resgatar Ant-Man do “mundo subatômico”.

Entre as qualidades de Ant-Man and the Wasp está o bom trabalho dos atores principais, os efeitos especiais e algumas sequências realmente engraçadas – ainda que estas últimas possam ser contatas nos dedos. Por incrível que pareça, a melhor sequência do filme não conta nem com Paul Rudd e nem com Evangeline Lilly em cena. Para mim, o grande momento de Ant-Man and the Wasp é quando o amigo de Scott, Luis (Michael Peña) é obrigado a toma uma injeção da verdade e acaba contando a história da amizade dele com Scott.

Luis não para de falar e volta para o momento em que os dois se conheceram. Ele conta tudo rápido até chegar ao “esconderijo” atual do amigo. Achei essa sequência genial e o ponto forte da produção. Apesar de todos do elenco estarem bem, achei que faltou um pouco de “química” entre Rudd e Lilly. Não vi neles toda aquela sintonia que esperamos de personagens que vão trabalhar como casal.

A grande surpresa da produção foi mesmo ver nomes do quilate de Michael Douglas e Michelle Pfeiffer em um filme baseado em HQ. Uma grata surpresa. No mais, nada de novo. Você verá tudo que já viu – e algumas vezes melhor – em outras produções do gênero. Mas vale assistir, é claro. Assim como valia assistir a muitos filmes da Sessão da Tarde. 😉

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ant-Man and the Wasp é um filme “divertidinho” da Marvel. Ele não tem o humor ácido de Deadpool e nem a profundidade dos personagens de Logan, Black Panther e alguns filmes do X-Men, mas ele tem a pegada de humor e de ação que marcam os filmes da grife. Como eu disse, nada que você já não tenha visto antes. Mas até por isso vale conferi-lo.

Afinal, quem é fã das HQs e de seus personagens, sabe que nem sempre todos os personagens são relevantes. Alguns nasceram para ser protagonista, como Homem de Ferro e Wolverine, enquanto outros nasceram para ser coadjuvantes – a exemplo do Homem-Formiga e da Vespa. Mas todos, mesmo os coadjuvantes, merecem ter as suas histórias contadas, e é isso que esse Ant-Man and the Wasp nos demonstra.

Essa produção é uma bela deixa para vermos ótimos atores em cena. Tiro o meu chapéu, em especial, para Michael Douglas e Michelle Pfeiffer – ainda que ela faça quase uma ponta nesta produção. Douglas rouba a cena cada vez que aparece. Paul Rudd manda bem. Ele tem carisma e humaniza muito bem o personagem. Evangeline Lilly… tenho um problema ao vê-la em cena porque sempre me lembro de Lost – quando a atriz viveu a sua grande fase. Ela está bem em Ant-Man and the Wasp, mas acho, sinceramente, que ela não tem toda aquela química desejada com Rudd. Mas faz parte. De qualquer forma, foi bom vê-la novamente em cena.

Além desses atores, que sempre valem serem acompanhados, um coadjuvante que rouba a cena é Michael Peña. Para mim, ele tem algumas da principais cenas e falas da produção – como disse antes, o momento alto do filme é quando ele está em cena, e sem contracenar com nenhum dos protagonistas. Ele está muito bem.

Entre os coadjuvantes, vale citar também o bom trabalho de Walton Goggins como Sonny Burch, um dos “vilões” da produção; de Bobby Cannavale como Paxton, novo marido da ex-mulher de Scott; Judy Greer como Maggie, a ex-mulher de Scott, mulher interessante que não perde a oportunidade para marcar posição; T.I. como Dave, um dos funcionários de Luis e Scott; David Dastmalchian como Kurt, outro funcionário da dupla; Hannah John-Kamen como Ava/Ghost, a garota que busca desesperadamente para uma solução para a sua morte iminente; Abby Ryder Fortson ótima como Cassie, filha de Scott; Divian Ladwa como Uzman, o homem do “soro da verdade” e funcionário de Sonny; Laurence Fishburne como Dr. Bill Foster, ex-colega de Dr. Hank Pym e protetor de Ava; e Randall Park como Jimmy Woo, o sujeito do FBI que tenta flagrar Scott em suas “estripulias”, mas que nunca consegue pegá-lo no flagra.

Como sempre, um detalhe muito interessante é vermos Stan Lee em uma das cenas da produção – no melhor estilo das aparições Alfred Hitchcock. Desta vez, ele aparece como um motorista que acaba tendo o seu carro miniaturizado. A fala dele é divertida, brincando com os “velhos tempos”. Eu babo e tiro o meu chapéu para Stan Lee. Grande sujeito!

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e visuais da produção, assim como a maquiagem. Essa é a velha magia dos filmes da Marvel – e volta a funcionar em Ant-Man and the Wasp. Além disso, vale citar a direção de fotografia de Dante Spinotti e a edição de Dan Lebental e Craig Wood; assim como a trilha sonora de Christophe Beck; o design de produção de Shepherd Frankel; a direção de arte de Rachel Block, Michael E. Goldman, Kiel Gookin, Calla Klessig, Jay Pelissier, Domenic Silvestri e Clint Wallace; a decoração de set de Gene Serdena e Christopher J. Wood; e os figurinos de Louise Frogley.

Ant-Man and the Wasp estreou no dia 25 de junho de 2018 em uma première em Los Angeles. Depois, no dia 4 de julho, o filme estreou em 12 países, incluindo Dinamarca e Espanha. No Brasil o filme estreou no dia seguinte, dia 5 de julho.

Esse é nada menos que o vigésimo filme da Marvel dentro do “Marvel Cinematic Universe”. Uau! Para uma fã antiga de quadrinhos, eu jamais poderia imaginar que a Marvel chegaria tão longe. Acho bacana, especialmente pelo incentivo que isso dá para as HQs continuarem em evidência. Leiam quadrinhos! Garanto que é algo maravilhoso! 😉

E pensando aqui, que já são 20 filmes “made in” Marvel, certamente tenho que concluir que uma boa parte deles eu não assisti. Então não posso me considerar uma “especialista” da grife – ao menos nos cinemas. Um dos filmes que eu percebi agora que eu perdi foi o Ant-Man que lançou os personagens no cinema. Puff!!

Agora, uma curiosidade sobre essa produção. Nos quadrinhos, Ghost nunca lutou contra Ant-Man. Ou seja, eis uma “licença poética” desta produção.

Esse filme é dirigido por Peyton Reed. Nem lembrei de citar o nome dele antes porque, francamente, acho que ele faz um trabalho mediano e dentro do esperado – nada além disso.

Para quem é super fã do universo Marvel e tem certinho na mente a evolução dos personagens, vale citar: Ant-Man and the Wasp é ambientado no “capítulo oito da fase três do Universo Cinematográfico Marvel”.

Esse é o segundo filme da grife Marvel que estreia em 2018 tendo o ator protagonista como um dos roteiristas. O anterior foi Deadpool 2, onde Ryan Reynolds aparece nesses créditos – como Paul Rudd em Ant-Man and the Wasp.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Ant-Man and the Wasp, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 224 críticas positivas e 34 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,9. Por sua vez, o site Metacritic apresenta um “metascore” 70 para o filme, fruto de 38 avaliações positivas e 13 medianas. Ou seja, o filme caiu no gosto de público e de crítica.

De acordo com o site IMDB, Ant-Man and the Wasp teria custado cerca de US$ 162 milhões – uma pequena fortuna, não? E conforme o site Box Office Mojo, o filme faturou US$ 164,6 milhões apenas nos Estados Unidos e outros US$ 188,9 milhões nos outros mercados em que o filme já estreou. Ou seja, no total, até o dia 22 de julho, o filme teria faturado cerca de US$ 353,5 milhões. Está no caminho de começar a dar lucro. E deve seguir nessa levada.

Ant-Man and the Wasp é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem “Sessão da Tarde”. Ant-Man and the Wasp nos entrega o básico do que é previsto para um filme de super-heróis. Ou seja, equilíbrio entre ação, drama, romance e comédia, diversas sequências ótimas de conflito e efeitos especiais, um bom grupo de atores e nada mais. A diferença desta produção para outras recentes da Marvel é que este filme foca na família e nas amizades, deixando para lá outros assuntos mais complexos – tratados em filmes como Black Panther e Avengers: Infinity War. Se você assiste a todos os filmes da Marvel, esse será apenas mais um no seu currículo. Se você está começando a ver a esse tipo de filmes, comece com algum outro – como Black Panther. Há filmes melhores do gênero. Mas para completar uma figurinha do álbum, esse filme é ok.

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Lion – Lion: Uma Jornada para Casa

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A força do encontro com as próprias origens. Um drama real que acontece a cada ano com milhares de crianças – ou seria milhões no mundo inteiro? – e que é tratada com suavidade neste Lion. Mesmo quando nos deparamos com uma história triste, é possível encontrar muitas lições nela, assim como a manifestação pura de amor. Tudo isso faz parte deste filme que, apesar de ser bacana, é o mais fraco da temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Diversas paisagens que mesclam terra e mar. No final de uma sequência delas, o filme explica que esta produção é baseada em uma história real. Logo vemos a Saroo (Sunny Pawar) maravilhado com um grupo gigantesco de borboletas. No alto de uma montanha, o irmão mais velho dele, Guddu (Abhishek Bharate), chama o irmão. Eles tem uma missão a cumprir.

Os garotos sobem em um trem carregado de carvão e roubam o máximo que eles conseguem carregar. Guardas chamam a atenção deles, e um dos guardas corre ao lado do trem pedindo para eles pularem. Os garotos se divertem quando o trem passa em um túnel. Estamos em Khandwa, na Índia, no ano de 1986. Com o carvão que os garotos roubaram, eles conseguem dois pacotes com leite, que levam para casa, para a mãe deles, Kamla (Priyanka Bose). Este filme conta a história de Saroo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lion): Nesses dias eu estava me perguntando onde estavam os tão conhecidos produtores da The Weinstein Company. Pois bem, resposta imediata nos créditos deste Lion. Isso explica, aliás, como este filme chegou tão longe, indicado a nada menos que seis estatuetas do Oscar.

Para quem não se lembra ou não liga os “nomes às pessoas”, os irmãos Weinstein são dois dos produtores mais fortes e “de peso” de Hollywood. Mais que investir em filmes, eles são craques no lobby de suas produções. Lobby é aquela campanha massiva que inclui favores e presentes para os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood valorizarem uma produção.

Às vezes esse lobby premia filmes realmente bons, mas nem sempre é assim. Os irmãos Harvey e Bob Weinstein fizeram Quentin Tarantino ser conhecido e emplacaram The Artist, dois bons exemplos. Mas eles também conquistaram, a custo de muito lobby, um Oscar de Melhor Filme para o mediano Shakespeare in Love. Eis um mal exemplo. Enfim, há algum tempo eles não “ditam” as regras do Oscar, e eu estava achando a ausência deles até ver o gigante crédito da companhia neles neste Lion.

Não me entendam mal. Este não é um filme ruim. Ele apenas é mediano. Se não fosse a força dos Weinstein por trás da produção, dificilmente este filme apareceria no Oscar. Descontado Lion na premiação deste ano, realmente falamos de uma safra excepcional na premiação. Lion é o ponto fora da curva nesta boa safra.

O filme, com narrativa linear, conta a história do indiano Saroo, um garoto como qualquer outro da sua idade nos anos 1980. A família dele era pobre, a mãe dos garotos, aparentemente sozinha, cuidava de três filhos, sendo dois deles pequenos – Saroo era o do meio -, tendo como a sua principal fonte de renda o trabalho pesado com pedras. Saroo, a exemplo de tantas crianças da Índia, não tem uma lei para as proteger – ou se existe lei, ela não é cumprida, porque estas crianças trabalham desde cedo.

Lion mostra um pouco da realidade do garoto até que ele se perde do irmão mais velho, Guddu, com quem ele estava sempre grudado. Com sono, Saroo não é capaz de ajudar o irmão em um trabalho noturno. Guddu pede para ele ficar no banco da estação de trem, mas o garoto acaba entrando em um vagão que é fechado e que não para em diversas estações até, finalmente, aceitar passageiros em Calcutá.

O menino, que parece ter cerca de seis anos, está a 1,6 mil quilômetros de casa. Ele cita o lugar em que ele mora, mas não fala bengalês, apenas híndi, e ninguém sabe do lugar do qual ele está falando. Saroo acaba tendo sorte e escapa de duas ciladas, pelo menos, passando a morar na rua e a se virar para conseguir comida. Em um certo dia, ele chama a atenção de um rapaz que com em um café (Riddhi Sen) e que o leva para a polícia.

Lá ele é “fichado”, ganha uma identificação como uma criança perdida, e é levado para um orfanato. Na sequência, ele é atendido pela Mrs. Sood (Deepti Naval), que publica um anúncio no jornal da cidade mas que, claro, não é visto pela família dele – não apenas porque a mãe do garoto é analfabeta e pobre, mas porque eles estão muito distantes de Calcutá.

Sem resposta da família do garoto, ele tem a sorte de ser adotado pelo casal australiano Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham). Uma das primeiras reflexões que Lion provoca é sobre o improvável da história de Saroo. Infelizmente ele é uma exceção naquela realidade da Índia – e de tantos países em que a pobreza e a desigualdade social não são artigos raros.

Impossível não pensar que para cada Saroo que tem sorte e que “dá certo” na vida porque tem as oportunidades para isso, existem tantas e tantas outras crianças que se dão muito mal e não tem a mesma oportunidade. Sem dúvida alguma é de cortar o coração, e toda a parte que mostra Saroo na sua fase de infância é o que Lion tem de melhor.

Na fase seguinte, há um grande trabalho que vale o investimento de tempo do espectador: o da atriz Nicole Kidman. Ela está ótima no papel da mãe adotiva de Saroo e tem, sem dúvida alguma, os melhores momentos de interpretação do filme – talvez esse seja o melhor trabalho dela deste The Hours. E isso não é pouca coisa. Nicole Kidman merece a sua indicação para o Oscar deste ano. Ela é o ponto forte do filme junto com os atores mirins da produção.

Adotado pelo casal, Saroo se desenvolve bem e tem as melhores oportunidades de estudar e de fazer esportes. Ele tem uma boa vida na Austrália. A história avança 20 anos, quando Saroo sai da casa dos pais para morar sozinho em Melbourne. É lá, interagindo com outros estudantes, que ele começa a questionar as suas origens e o seu passado. Começa a relembrar da mãe, do irmão, e da vida que tinha na Índia.

Esta é uma parte que eu acho mal explicada no roteiro regular de Luke Davies, baseado no livro escrito por Saroo Brierley. Afinal, Saroo ficou 20 anos morando com os novos pais na Austrália e nunca questionou as suas origens, procurou saber mais sobre a família e até buscá-la antes? Verdade que o indivíduo, quando vai morar sozinho, passa a ter outro tipo de “busca de si mesmo” mas, ainda assim, é um pouco estranho esse salto todo na vida do garoto sem nenhuma contextualização sobre as memórias dele antes, não?

Eu achei que o filme deixou esse buraco grande na história e que isso compromete a produção. Ok que eles quisessem saltar bastante tempo na trajetória de Saroo e mostrá-lo já adulto (interpretado então por Dev Patel). Mas então nesta fase adulta ele poderia ter comentado algo sobre como ele lidou com as suas lembranças e a saudade que tinha da família original, não? Para o meu gosto, o roteiro de Luke Davies é o ponto fraco de Lion.

Outra questão que eu acho que Davies não trabalha bem é sobre a “crise existencial” pela qual passa o protagonista desta história. Ok que ele estava dividido entre a necessidade de procurar a família original e a preocupação de não chatear os pais adotivos, mas isso não é exatamente bem explorado pela produção.

Lion acaba desacelerando justamente em uma parte vital, quando o rapaz começa a questionar a vida confortável que ele leva na Austrália e recorda o contraste das experiências que ele teve na Índia. A história acaba se repetindo naquela indecisão dele de realmente buscar as origens, o que não ajuda na narrativa.

O filme não teria perdido nada, pelo contrário, se tivesse cortado um pouco aquela investigação “by Google Earth” e explorado melhor as relações pessoais dele ou partido logo para a procura dele de suas origens. Francamente eu achei que ele não encontraria ninguém quando voltasse para casa, mas ele ainda tem a sorte de rever a mãe.

Lion nos faz pensar, desta forma, em dois elementos fundamentais: a importância de cada um de nós entender com profundidade de onde veio, porque nossas origens acabam moldando muito o que somos; e o quanto a desigualdade de oportunidades é algo injusto e cruel. Saroo acaba tendo uma qualidade de vida e uma série de oportunidades que ele jamais teria se tivesse ficado na Índia. Mas onde ele seria mais feliz? Nunca saberemos.

Mas independente disso, toda criança deveria ser protegida e ter as mesmas oportunidades na vida. Depois o que cada um faria de sua trajetória, seria algo que competiria a cada indivíduo. O cruel e injusto do mundo é que muitas crianças simplesmente não tem oportunidade de se desenvolver e de ter oportunidades na vida. Lion mostra isso de forma muito contundente, ainda que o filme poderia ser melhor planejado e ter um roteiro mais inteligente na segunda parte da produção.

Antes eu comentei sobre o ótimo trabalho de Nicole Kidman. Para mim, ela tem alguns dos melhores diálogos da produção. Particularmente, estou totalmente de acordo com ela de que já existem pessoas suficientes no mundo. O que muitos casais poderiam fazer, a exemplo do que os Brierley desta história fizeram, é adotar algumas das crianças que não tem estrutura familiar e que não terão oportunidades na vida para realmente dar para elas uma outra realidade.

Esta é uma outra boa reflexão que Lion nos propicia, pensar sobre que realidade temos, qual queremos ter e de que forma podemos contribuir para esta mudança. Este é um filme bacana, necessário, pena que não tem a qualidade narrativa que ele poderia ter.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O destaque desta produção são os garotos Sunny Pawar e Abhishek Bharate. Eles se saem muito bem em seus papéis, ainda que o roteiro de Luke Davies não ajude muito os dois ao tentar levar a narrativa um pouco para o “sentimentalismo”. Existe uma linha tênue entre retratar uma história difícil e explorá-la. Lion acaba caindo mais para o segundo lado do que para o primeiro. Mas sempre que os garotos aparecem em cena, o filme ganha.

Na parte da fase adulta do protagonista, quem brilha é Nicole Kidman. Ela nos dá uma lição de amor e de dedicação pela forma igualitária com que ela trata os dois filhos adotivos. Saroo é um exemplo de filho, aparentemente, mas o segundo garoto que o casal adota, Mantosh (Divian Ladwa, vivido por Keshav Jadhav na infância), claramente tem problemas de comportamento. Isso não importa para Sue, que ama e aceita os filhos como eles são e da mesma forma.

Dev Patel está bem em seu papel, mas não faz nada extraordinário – para mim, o personagem de Saroo perde em força quando ele o interpreta, comparando com o trabalho de Sunny Pawar. Nesta fase da história estão bem também David Wenham como o pai dos garotos e Rooney Mara como Lucy, namorada de Saroo. Rooney Mara está novamente encantadora, e convincente, mas o roteiro não lhe ajuda muito. Uma pena.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Khushi Solanki em uma super ponta como Shekila quando criança; Tannishtha Chatterjee como Noor, uma mulher que ajuda Saroo quando criança com segundas intenções; Nawazuddin Siddiqui como Rawa, aparentemente um traficante de pessoas; Koushik Sen como o policial que atende Saroo; Pallavi Sharda como Prama, amiga de Saroo que o incentiva a procurar as suas origens; Sachin Joab como Bharat, também amigo de Saroo; Arka Das como Sami, jovem que faz parte do mesmo grupo; e Rohini Kargaiya como Shekila adulta.

Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho de uma série de pessoas. Ainda que, francamente, todos cumpram bem a sua função, apenas o diretor de fotografia Greig Fraser é o que merece uma menção especial. Os demais fazem apenas um trabalho ok. Ainda assim, vale citá-los: Volker Bertelman e Dustin O’Halloran assinam a trilha sonora; Alexandre de Franceschi faz a edição; Chris Kennedy assina o design de produção; Nicki Gardiner e Seema Kashyap assinam a decoração de set; Cappi Ireland, os figurinos; e Erica Brien o departamento de arte.

Sobre os irmãos Weinstein e o seu trabalho forte com o lobby em Hollywood, vale dar uma olhadela nesta matéria da revista Exame.

Lion estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros 18 festivais pelo mundo. Em sua trajetória até agora, Lion conquistou 26 prêmios e foi indicado a outros 72, incluindo seis indicações ao Oscar 2017.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel no Bafta Awards; para o de Melhor Diretor Estreante para Garth Davis dado pelo Directors Guild of America; oito prêmios como Melhor Filme – a maioria dada pelas audiências de festivais; dois prêmios de Melhor Roteiro Adaptado; quatro prêmios de Melhor Ator Coadjuvante ou de Melhor Ator para Dev Patel; quatro prêmios para Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman; um prêmios de Melhor Fotografia e um prêmio de Melhor Ator para Sunny Pawar.

Lion teria custado US$ 12 milhões, um orçamento até baixo para a complexidade da produção. O filme faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 30,4 milhões e, nos demais países em que já estreou, outros US$ 14,1 milhões. Até o momento a produção faturou pouco mais de US$ 44,5 milhões, ou seja, está trilhando o caminho do lucro – até porque ele custou relativamente pouco para os padrões de Hollywood.

Como a história mesmo conta, Lion foi totalmente rodado na Índia e na Austrália. Entre as cidades em que a produção passou estão a de Kolkata, em West Bengal, na Índia, e as de Hobart, Melbourne, Bruny Island, Cape Hauy e Recherche Bay, todas na Austrália.

Esta foi a estreia de Sunny Pawar no cinema. Torço para que ele consiga ter uma carreira legal. Talento não lhe falta. Falando em estreias, Lion também marca a estreia de Garth Davis entre os longas – antes ele tinha feito o documentário P.I.N.S., o curta Alice e alguns episódios das séries Love My Way e Top of the Lake.

Agora, aquelas curiosidades básicas da produção. A personagem de Rooney Mara não é baseada em uma pessoa específica, mas é a junção de diversas “amigas” do protagonista que o acompanharam em sua longa jornada em busca de seu lugar de origem.

Como a produção mesmo informa, na Índia, todos os anos, 80 mil crianças se perdem de seus país. E um número ainda mais impressionante e de cortar o coração: 11 milhões de crianças vivem nas ruas da Índia. Vocês leram bem? 11 milhões de crianças! Os produtores de Lion criaram a fundação #LionHeart para tentar ajudar estas crianças que vivem nas ruas.

A atriz Nicole Kidman foi escolhida a dedo pela verdadeira Sue Brierley. As duas conversaram sobre o papel em Sydney e imediatamente Nicole e Sue viram que elas tinham algo em comum: as duas amavam os seus filhos naturais e adotivos da mesma forma.

Nada menos que 4 mil meninos fizeram os testes para interpretar Saroo na infância.

O ator Dev Patel considera o roteiro de Lion o melhor que ele já leu.

Na Austrália o filme teve a melhor estreia de um filme independente da história. Entre todos os filmes do país que já estrearam naquele mercado, Lion teve a quinta melhor estreia de todos os tempos.

Esta é uma coprodução da Austrália, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Como tem os EUA no meio, Lion atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, o que é uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,3. Me parece, até pelos prêmios que este filme já recebeu, que os espectadores têm sido mais “sensíveis” para a produção do que os críticos. Desta vez, tenho que concordar mais com os críticos. A história de Lion é importante, mas não é muito bem contada e nem é surpreendente. Enfim, poderia ser melhor.

Achei forçado o material de divulgação do filme explorar tanto a imagem de Dev Patel. Por justiça, seria muito mais interessante termos cartazes que dessem destaque para os irmãos quando pequenos. Afinal, a parte mais interessante do filme está com eles. Mas entendo os produtores, preocupados com a bilheteria, por explorarem a imagem do conhecido Dev Patel e da “queridinha” Rooney Mara.

CONCLUSÃO: A mensagem deste filme é importante, e ele tem boas interpretações. Mas entre os indicados deste ano do Oscar este é, sem dúvida, o elo fraco da corrente. Primeiro porque o filme é um bocado arrastado e tem muitos altos e baixos. Depois, porque ele talvez teria funcionado melhor como documentário do que como uma produção dramática.

Falta para esta produção um pouco de conteúdo, de brilho e de emoção, apesar de Lion ter algumas mensagens muito bacanas, especialmente pela forma com que o filme defende a importância da família, da generosidade, da busca por si mesmo e do amor. Vale a pena assistir se você já viu a todos os outros indicados ao Oscar desta safra.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Parece incrível pensar que Lion foi indicado em seis categorias do Oscar. Ok, o filme é bom, mas ele não passa disso. Como eu comentei por aqui antes, a única explicação para este número de indicações é a força dos produtores Harvey e Bob Weinstein. Eles continuam tendo um lobby forte em Hollywood, pelo visto.

Lion concorre neste ano nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel (classificação estranha essa, mas não é inédita), Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Entre os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que Lion é o mais fraco concorrente. Sendo assim, claro que chance zero do filme ganhar nesta categoria. Também não vejo nenhuma chance do filme levar em Melhor Ator Coadjuvante – o prêmio deve ir para Mahershala Ali, de Moonlight – ou em Melhor Atriz Coadjuvante.

Apesar de Nicole Kidman ser, provavelmente, a indicação mais justa que o filme recebeu no Oscar 2017, a categoria em que ela concorre deve ser ganha por Viola Davis – que, a exemplo de Patel, poderia, perfeitamente, estar na categoria principal e não na de coadjuvante, já que ambos são os protagonistas nos seus respectivos filmes.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, Lion corre totalmente por fora. Não imagino ele tendo qualquer chance contra Moonlight, Fences, Arrival ou Hidden Figures. Todos os quatro são melhores do que ele.

Em Melhor Fotografia e em Melhor Trilha Sonora o favoritíssimo da noite é La La Land, apontado como o filme que será mais premiado na noite do Oscar. Quem corre por fora na primeira categoria é Arrival e Moonlight, enquanto na segunda existe uma mínima chance para Moonlight e Jackie. Ou seja, se o previsto acontecer, Lion sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Nesta temporada de grandes filmes concorrendo, não será uma injustiça.