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Bridge of Spies – Ponte dos Espiões

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“Não importa o que as outras pessoas pensam, você sabe o que você fez”. Esta frase de Bridge of Spies representa em boa parte o que este filme quer nos dizer. Lutar pela justiça e pelo que é certo não é algo para todos, mas quem buscou isto sempre serve de inspiração. Justamente porque, infelizmente, justiça e bondade não fazem parte da sociedade – nem antes e nem agora. Bridge of Spies nos leva para a Guerra Fria para contar uma história de espiões nos bastidores.

A HISTÓRIA: Começa em 1957, no “auge da Guerra Fria”. Os Estados Unidos e a União Soviética se estudam com muita cautela e diversos espiões. A contraespionagem está comendo solta, com espiões buscando informações de um país para o outro e sendo caçados. O texto de abertura também comenta que o filme é baseado em fatos reais. Em um quarto, Rudolf Abel (Mark Rylance) olha no espelho e confere como está se saindo com o seu auto-retrato. Toca o telefone. Ele atende, mas não fala nada. Quando ele sai de casa, é seguido por agentes da CIA. Discretamente, enquanto pinta o quadro de uma ponte, ele se abaixa e recolhe uma moeda que guarda uma mensagem. Ele é preso, não admite espionagem, e acaba sendo defendido por um grande advogado, James B. Donovan (Tom Hanks).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Bridge of Spies): Filmes de época sempre são fascinantes. Ao menos para mim. E não importa a época. Acho estas produções fascinantes por nos mostrarem momentos da história que não existem mais. Sempre acho que temos o que aprender com eles.

Dito isso, evidente que por ser ambientado no final dos anos 1950 e por ter um grande diretor como Steven Spielberg no comando, Bridge of Spies é uma produção impecável enquanto reconstrução de época. É um verdadeiro deleite, especialmente na cenas iniciais – algumas delas parecem um verdadeiro quadro -, ver como os realizadores deste filme se esmeraram em nos transportar para aquela época e estilo de vida.

Quanto ao roteiro, não deixa de ser curioso assistir a um filme de espiões que tenha pouca ação. Bridge of Spies é muito mais um filme de bastidores da espionagem, com o embate ficando mais no plano das ideias. Por isso mesmo é tão importante que cada linha escrita pelos irmãos Ethan Coen e Joel Coen, junto com Matt Charman, convença. E isso, de fato, acontece.

Para mim é impossível não assistir a este filme e, em especial, à interpretação do sempre ótimo Tom Hanks e não lembrar de grandes atores que vestiram antes as roupas de homens honrados em busca de justiça no cinema. Hanks, para mim, nesta produção, lembra tanto um pouco de James Stewart em Anatomy of a Murder quanto um pouco de Gregory Peck em To Kill a Mockingbird. Na parte inicial da produção, quando está chovendo e Donovan caminha na rua sentindo que está sendo seguido, também me lembrei da cena clássica de Singin’ in the Rain.

Passada estas reminiscências e lembranças que Bridge of Spies despertaram em mim, voltemos ao filme. Como eu disse, ele é uma bela reconstrução de época. E conta uma história ordinária mas, ao mesmo tempo, cheia de significados. Vejamos. Bridge of Spies nos lembra de um tempo em que as pessoas viviam com medo, a exemplo do filho de Donovan que pensa em guardar água e tomar outras atitudes preventivas frente à iminência de uma guerra.

Há pouco mais de 50 anos os Estados Unidos e certamente o povo da União Soviética viviam com este medo constante – alguns mais que outros, evidentemente. Naquele contexto, Donovan é retirado de seus casos normais para ajudar em uma questão muito impopular, que era a defesa de um espião russo preso nos Estados Unidos. E daí vem o primeiro grande ensinamento do filme: não importa o clamor popular ou a sede de justiça da maioria. Toda pessoa merece ter defesa e um julgamento justo.

Donovan sabe que o seu trabalho é impopular, mas ele está preocupado em dar a melhor defesa possível para Abel. Os dois tem claro que há muitas pessoas dos dois lados com a mesma função: espionagem. Se você quer que o seu espião seja bem tratado, em caso de captura, deve tratar bem o espião inimigo, não é mesmo? Esta é a lógica dos dois e, no final dos anos 1950, para a sorte de todos, parecia ser a lógica dos dois regimes em questão. Pena que estes acordos de cavalheiros tenham terminado na era do terrorismo. Agora a racionalidade perdeu todo o terreno para o terror sem argumentação ou negociação.

Inteligente, Donovan procura o juiz Byers (Dakin Matthews) para buscar, mais uma vez, a melhor saída para o seu cliente. Estava em jogo, naquele momento, a pena de morte para ele. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma muito acertada e coerente, Donovan argumentou que era mais inteligente para os Estados Unidos manter o possível espião russo vivo para uma possível troca futura com outro espião americano do que matá-lo e tirar essa possibilidade de negociação do país. Interessante como esta decisão do juiz é contestada pelo público que, como se faz hoje em dia, infelizmente, pediu pela cabeça do condenado – como se esse tipo de “olho por olho” levasse a algum lugar.

No fim das contas Donovan estava certo. Logo no início da produção somos apresentados aos soldados escolhidos pela CIA para voarem com os aviões U-2 e fotografarem os terrenos do inimigo. Um dos pilotos, Francis Gary Powers (Austin Stowell), é atingido enquanto voava e não consegue destruir o avião e a si mesmo antes de cair. Capturado, ele acaba sendo um alvo prioritário de troca para o governo dos Estados Unidos. E é aí que o palpite de Donovan se mostra certeiro.

O filme, claramente, tem dois momentos muito diferentes. Uma fase ambientada nos Estados Unidos, que mostra todo o contexto histórico de temor mas de segurança no país naquela época, e a outra que mostra o mesmo contexto histórico e de mudança radical na Alemanha. Bridge of Spies conta o momento exato em que o Muro de Berlim foi erguido e o que aconteceu logo depois. Donovan descobriria in loco a diferença entre o temor que teve em casa, inclusive com tiros sendo disparados em sua residência, e o que lhe acompanharia durante toda a missão de negociações em Berlim Oriental.

A trilha sonora é fundamental para dar dinâmica e emoção para o filme. Isso acontece, em especial, quando o roteiro não consegue tudo isso sozinho. É o caso de Bridge of Spies. Ainda que seja bem construído, este filme carece de um pouco mais de emoção no desenrolar da história. Sem contar que há diversos trechos do filme que são um pouco forçados – a exemplo das cenas de cativeiro de Powers e a forma com que se dá a prisão de Frederic Pryor (Will Rogers).

O roteiro funciona bem, especialmente quando foram escritas as linhas dos argumentos de Donovan. Tom Hanks e as falas dele, sempre bem construídas, sem dúvida alguma são o ponto forte do roteiro. Além disso, destaco no filme a reconstrução de época, a direção de Spielberg – correta, mas nada inovadora -, e as interpretações de Hanks e de Rylance, muito equilibradas e coerentes. Uma grande produção, sem dúvida. E ainda que valem ser contadas todas as histórias de pessoas comuns que com atos de bravura ajudaram na defesa da justiça e da paz, achei a história de Bridge of Spies um pouco ordinária demais. Ainda assim, ela é válida e tem uma boa mensagem. Vale por isso.

Ah sim, e falando em “moral da história”. Além daquele ponto citado anteriormente, sem dúvida alguma uma outra mensagem deste filme é aquela que advém da frase que abre este post. Não importa a opinião pública, das massas, ou mesmo das pessoas próximas de você. Muitos não entendem o que você faz, fez ou pelo que passou. Mas se você agiu de forma honrada e correta, é isso o que importa. Aja desta forma porque é o certo, não porque alguém vai lhe dar uma medalha ou valorizar o que você fez. Como eu disse antes, o filme vale por isso. Porque não há nenhuma inovação de roteiro, de narrativa ou uma interpretação arrebatadora para tirar a produção da média.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Serei franca com vocês. Eu perdi esse filme quando ele estreou nos cinemas brasileiros e só assisti ele agora por causa do Oscar. Por si mesmo, Bridge of Spies não tinha me convencido a vê-lo até então. Gosto do Spielberg e do Hanks, é claro. Mas a história não tinha me atraído até agora. Foi bom ter conferido ele, para estar mais preparada no dia da entrega do Oscar, mas definitivamente este não é um filme que entraria para a minha lista dos melhores do ano passado.

Steven Spielberg, como todos sabem, é um sujeito que entende muito bem do seu ofício de fazer filmes. Ele sabe aonde colocar a câmera em cada segundo para conseguir o melhor efeito dramático para a história. Em Bridge of Spies ele faz isso o tempo todo e, ainda, nos presenteia com algumas cenas que são uma verdadeira pintura. Além do quadro no início do filme, quando vemos Abel caminhando pelas ruas em 1957, destaco as cenas perto do final com Donovan na ponte. Verdadeiras pinturas.

Como eu disse antes, as interpretações de Hanks e de Rylance se destacam nesta produção. Mas não dá para ignorar o elenco de apoio com grandes nomes do cinema – ainda que, serei franca, não achei que ninguém tenha um grande destaque de interpretação. Alan Alda interpreta a Thomas Watters Jr., um dos sócios majoritários da firma na qual Donovan trabalha; Amy Ryan faz a esposa do protagonista, Mary Donovan; Michael Gaston interpreta ao agente Williams, da CIA, que convoca os pilotos para a missão com os novos U-2; Jon Curry interpreta o agente Somner, encarregado da missão de troca entre Abel e Powers; Sebastian Koch interpreta ao advogado alemão Wolfgang Vogel; Jesse Plemons praticamente em uma ponta como o militar recrutado pela CIA e colega de Powers, Joe Murphy; Mikhail Gorevoy como Ivan Schischkin, apontado como diretor da KGB e que negocia na Alemanha com Donovan; e Burghart Klaussner interpreta a Harald Ott em uma ponta como o representante do governo da Alemanha Oriental. Vale citar ainda os atores que interpretam aos filhos de Donovan: Jillian Lebling, Noah Schnapp e Eve Hewson.

Quase ia me esquecendo de outra “moral da história” importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Estados Unidos e União Soviética estavam interessados apenas em seus espiões. Mas Donovan insistiu que fizesse parte da troca o jovem e um tanto estúpido estudante Frederic Pryor que estava sendo usado como argumento de pressão pelos alemães. Como Donovan disse, “toda pessoa interessa”. Ele insistiu com isso para que o jovem tivesse um futuro e pudesse voltar para o seu país. As negociações envolvendo ele é o que acabaram sendo o elemento tenso da produção. Mas aí está mais uma boa mensagem: toda pessoa interessa. Todos deveriam ter o direito de viver e de ter oportunidades na vida. Eis algo pelo qual vale batalhar.

Por ser um filme de época, Bridge of Spies tem no trabalho técnico de diversos profissionais e departamentos um ponto crucial. Desta parte técnica, vale destacar a excelente trilha sonora do veterano e premiado Thomas Newman; a direção de fotografia do grande colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski; a edição de Michael Kahn; o design de produção de Adam Stockhausen; a direção de arte de Marco Bittner Rosser, Scott Dougan, Kim Jennings e Anja Müller; a decoração de set de Rena DeAngelo e Bernhard Henrich; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone; o departamento de arte com nada menos que 68 profissionais envolvidos e o departamento responsável pelos efeitos visuais com outros 108 profissionais envolvidos.

Estes dois últimos números de profissionais que eu citei são impressionantes, não é mesmo? Eles mostram como Hollywood é, realmente, uma indústria. Olhando para toda a equipe envolvida nesta produção, são centenas de pessoas que trabalharam para esta história ser contada. Geração de emprego e muito dinheiro envolvido. Por isso, imagino, o filme acabou sendo reconhecido nas indicações ao Oscar. Ele deve ter sido uma das produções que mais movimentou recursos e empregou gente entre os concorrentes. Como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre valoriza a indústria do cinema, isso é mais que compreensível.

Bridge of Spies estreou no Festival de Cinema de Nova York em outubro de 2015. Depois, o filme passaria ainda pelos festivais de Hamptons e de Mill Valley, todos nos Estados Unidos. Até o momento esta produção ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 66, incluindo a indicação em seis categorias do Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque por ter aparecido três vezes na lista dos melhores filmes do ano e por ter recebido sete prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Mark Rylance.

Esta produção, mesmo cheia de tantos detalhes e com tanta gente envolvida, gastou cerca de US$ 40 milhões – menos de um terço do orçamento de The Revenant, que teria custado US$ 135 milhões. Apenas nos Estados Unidos Bridge of Spies fez pouco mais de US$ 70,8 milhões nas bilheterias. Nos outros mercados em que ele estreou ele fez outros US$ 83,5 milhões. Ou seja, ele se pagou tranquilamente.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Bridge of Spies foi filmado na Polônia, na Alemanha e nos Estados Unidos, em cidades como Wroclaw, Berlim, Potsdam, Marysville e Nova York.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Bridge of Spies dá a entender que Donovan era um advogado de seguros e que ele se sente um tanto deslocado da função de negociador e de advogado de defesa. Mas o Donovan real tinha atuado como Conselheiro Geral para o OSS (Escritório de Serviços Estratégicos) dos Estados Unidos, órgão que depois originou a CIA. Ou seja, ele era bem conhecido da comunidade de inteligência e entendia do assunto.

O FBI investigava Rudolph Abel desde 1953, quando ele utilizou uma de suas moedas falsas que escondia mensagens criptografadas para comprar um jornal. O vendedor achou a moeda muito leve e, quando a derrubou no chão, descobriu do que se tratava. Na época, contudo, o FBI não conseguiu desvendar a criptografia da mensagem, o que acabou acontecendo apenas em 1957, quando Reino Häyhänen, um desertor do FBI, entregou a chave para decifrar o código. Em resumo: sim, era certo que Abel era um espião – e ele foi acompanhado por bastante tempo antes de ser preso. Essa história do “nickel oco” foi apresentada antes no filme The FBI Story, estrelado por James Stewart.

De acordo com Steven Spielberg, este filme poderia ter sido feito em 1965. Na época, estava certo que Gregory Peck interpretaria Donovan, Alec Guiness faria Abel e que o roteiro seria escrito por Stirling Silliphant. Mas como o mundo ainda vivia a Guerra Fria, a MGM acabou engavetando o projeto.

Muitas das cenas do filme foram rodadas nos lugares reais em que a história se passou. Mas as cenas em que o Muro de Berlim foi mostrado foram rodadas em Wroclaw, na Polônia, que hoje lembra muito mais a Berlim da época do que a atual cidade alemã.

O pai do diretor Steven Spielberg fez parte de uma missão de engenheiros que foi para a Rússia durante a Guerra Fria, logo após o avião de Powers ter sido abatido. Na época ele pode ver de perto o medo que as duas nações tinham uma da outra, com pessoas apontando para ele e para os outros engenheiros e dizendo “olha o que o seu país está fazendo para nós”, ao se referirem aos destroços do avião abatido.

Este é o primeiro filme de Spielberg desde The Color Purple que não tem a trilha sonora assinada por John Williams. O compositor ficou fora do projeto porque ficou doente em março de 2015 e, por isso, acabou sendo substituído por Thomas Newman.

Como eu imaginava, a banda U2 se inspirou nos aviões mostrados no filme, os U-2, para nomear-se. A filha de Bono Vox, líder da banda, está no elenco – Eve Hewson interpreta a filha mais velha de Donovan.

Mesmo não aparecendo nos créditos do filme, Bridge of Spies foi inspirado nos eventos contados no livro Abel, de Vin Arthey.

A ponte Glienicke, em Berlim, foi realmente usada na troca entre Abel e Powers e em várias outras trocas de espiões durante a Guerra Fria.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha e a Índia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e outras 21 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,8. Uma coincidência rara de avaliações e notas.

CONCLUSÃO: Como todo filme dirigido por Steven Spielberg, Bridge of Spies é um filme bem acabado, com uma trilha sonora perfeita e com uma condução impecável. Além disso, esta produção parece lembrar alguns grandes filmes da história. Mas ela não vai além disso. É um bom filme, mas um tanto “ordinário”. Com isso quero dizer que chega a ser surpreendente o quanto ele foi indicado ao Oscar – isso se não soubéssemos que esta premiação leva muito em conta, além de outros fatores, o lobby de produtores e figurões por trás dos filmes. Apesar de ter uma boa história e uma mensagem bacana, não é um filme para ficar na memória por muito tempo. Achei mediano apenas.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Bridge of Spies foi indicado em nada menos que seis categorias do Oscar. Ele concorre como Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Rylance), Melhor Roteiro Original, Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Sonora e Melhor Mixagem de Som.

Eleito como um dos melhores filmes do ano passado em importantes listas como da AFI e do National Board of Review, entendo porque ele chegou com esse peso no Oscar. Ainda que, volto a dizer, me dou ao direito de discordar que ele seja um dos melhores filmes de 2015. Bridge of Spies é uma bela produção, muito bem realizado e conduzido, mas não é arrebatador e nem ficará para a história.

Dito isso, voltemos ao Oscar. Não vejo chances dele ganhar como Melhor Filme e nem como Melhor Mixagem de Som. Estão na frente na concorrência pela primeira categoria The Revenant (comentado aqui) e Spotlight (com crítica neste link) e, na segunda, vejo grandes chances para Mad Max: Fury Road (com crítica aqui), Star Wars: The Force Awakens ou The Revenant.

Parece que Sylvester Stallone tem vantagem na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas, honestamente, meu voto iria para Christian Bale. Ainda assim, não seria uma zebra completa Mark Rylance ganhar, apesar de que vejo que ele corre por fora apesar dos prêmios que já recebeu por este papel em Bridge of Spies. A trilha sonora do filme é ótima, mas ele tem pela frente The Hateful Eight, premiado no Globo de Ouro, e o excelente trabalho de Carol. Preciso ainda ver aos outros filmes, mas entre Carol (comentado aqui) e Bridge of Spies, prefiro ainda a trilha sonora do primeiro.

Agora, analisemos Melhor Design de Produção. Parada dura aqui. Bridge of Spies, que tem um excelente design de produção, concorre com trabalhos bem diferentes como Mad Max: Fury Road e The Revenant. Pessoalmente, apesar de um filme de época exigir muito neste quesito, eu votaria na ousadia de Mad Max: Fury Road. Acho que a categoria será decidida entre ele e The Revenant. E, finalmente, temos a categoria Melhor Roteiro Original. Preciso assistir ainda aos outros concorrentes, mas sem dúvida alguma acho que Spotlight leva vantagem aqui.

Para resumir, não será nenhuma surpresa se Bridge of Spies sair da noite de entrega do Oscar de mãos abanando. Se for para receber alguma estatueta, eu diria que ele tem alguma chance em Melhor Ator Coadjuvante ou em Melhor Design de Produção. Ainda que, francamente, acho que estas chances são muito, muito pequenas.

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Unbroken – Invencível

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Diversos países, e não duvido que todo país do mundo, na verdade, tenha diversos heróis. Mas poucas nações sabem valorizar o heroísmo dos filhos de sua pátria como os Estados Unidos. Unbroken é mais um destes filmes que paga a história de um homem comum que acaba se transformando em herói pelo exemplo que ele vai dando, dia após dia, e contra todas as previsões e apostas. Um belo trabalho da atriz Angelina Jolie como diretora. O filme tem o espírito de produções que não vemos mais em Hollywood. Mesmo com estas qualidades, ele acaba se revelando longo demais, um pouco cansativo e, se você já tem uma bagagem no cinema, nada surpreendente e até com ideias repetidas.

A HISTÓRIA: Acima das nuvens, uma revoada de aviões se aproxima do alvo. Diversos homens em cada aeronave, e cada um deles em um posicionamento e com uma função bem definidos. Um destes homens é Louis Zamperini (Jack O’Connell), que após disparar com o bombardeiro, fica preocupado com o restante do grupo quando eles começam a sofrer a represália.

Em certo momento, ele começa a se lembrar de quando era uma criança, de tudo que os pais lhe ensinaram, do ambiente em que ele cresceu e, principalmente, que se não fosse pelo irmão mais velho, Pete (John D’Leo quando jovem, Alex Russell na vida adulta), provavelmente ele não teria sido alguém de destaque na vida. Pete incentivou Louis a correr, e o jovem atleta chegou até as Olimpíadas. Depois, na Segunda Guerra Mundial, ele passaria pelos maiores desafios imagináveis para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Unbroken): Como eu comentei anteriormente, se você tem uma certa bagagem assistindo à filmes, certamente não vai se surpreender com nada que Unbroken apresenta. Filmes anteriores já exploraram diversos pontos mostrados nesta produção. Assim sendo, ela não é surpreendente, mas também não pode ser considerada um filme ruim.

Verdade que achei ele longo demais, como comentei antes. Diversos momentos poderiam ter sido encurtados, especialmente no sofrimento dos amigos Louis, Phil (o ótimo Domhall Gleeson) e Mac (Finn Wittrock) no mar e nos embates quando Louis integra o grupo maior de americanos em campos de prisioneiros no Japão.

Também acaba sendo inevitável não lembrar de outras produções enquanto a história se desenvolve – o efeito surpresa, realmente, poucas vezes aparece nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Talvez o momento mais surpreendente seja o ataque que Louis, Phil e Mac sofrem no mar quando eles pedem socorro e acabam recebendo algumas rajadas de tiros.

Mesmo sendo pouco surpreendente e um bocado longo demais, acho que Unbroken tem um bom roteiro. Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese e William Nicholson conseguiram adaptar a história de um homem comum que se superou em diversos momentos, surpreendeu e inspirou a muitos com o seu exemplo em uma produção com a cara de Hollywood. Dividida em diversos momentos da história do protagonista, o filme parte do clássico “momento decisivo” para fazer um retrocesso na biografia do retratado e recontá-la desde a sua infância.

Desta forma é que vemos como Louis se envolveu com o esporte e como, influenciado pelo irmão, ele levou a sério o desafio e tornou-se medalhista olímpico. A volta no tempo tem uma justificativa clara: mostrar como o protagonista encarnou ainda jovem o desejo de superação e de surpreender a todos que apostavam que ele seria “um nada”. Esse espírito seria fundamental no futuro, quando ele seria testado até o extremo pelos japoneses.

Então o filme mostra esse herói imperfeito – como qualquer modelo mortal – que dá uma guinada na vida e se destaca no esporte antes que os nazistas se revelassem inimigos que deveriam ser combatidos por boa parte do mundo, incluindo o país de Louis. Senti falta, contudo, já que estavam fazendo um apanhadão da vida dele, de vermos como ele chegou no Exército. Pequeno detalhe, verdade, mas que senti falta – certo, evidente que a convocação era obrigatória, mas acho que não custava mostrar o momento em que ele deu a entrada no Exército.

Depois de uma rápida repassada na infância e na juventude do protagonista, como se fosse o próprio Louis tendo na “iminência da morte” um filme dele próprio passando na cabeça, mergulhamos novamente no cenário de guerra. Primeiro nos céus, com os bombardeiros, depois no mar, quando eles sobrevivem de um choque na água da aeronave em outra missão e, por fim, em solo.

Para mim, foi inevitável não lembrar de outros filmes enquanto eu assistia a Unbroken. Para começar, a excelente direção de fotografia de Roger Deakins me fez lembrar de filmes de guerra e/ou drama de guerra feitos nos anos 1950 e 1960 como The Guns of Navarone, Paths of Glory e, principalmente, o clássico The Bridge on the River Kwai. Quando Louis começa a correr, impossível não lembrar um outro clássico, este bem mais “moderno”: Forrest Gump. Durante o estresse no mar, impossível não lembrar de Life of Pi. E para fechar a lista de lembranças, quando Louis está na fase Olimpíadas, recordei o clássico Chariots of Fire.

Se você, como eu, assistiu a estas produções, vai achar Unbroken um bocado previsível na fórmula e no conteúdo. Ainda assim, algo é preciso admitir: Angelina Jolie faz um bom trabalho na direção. Ela sabe explorar a adrenalina e o estresse dos momentos de batalha, fazendo a câmera tremer na medida certa sem tirar o foco sempre em algum ator. E nos momentos de embates mais “mano a mano”, especialmente entre Louis e o vilão Watanabe (o fraquinho Takamasa Ishihara), ela busca sempre a emoção dos intérpretes. Conhece o ofício, pois – ela teve um ótimo mestre, Clint Eastwood, de quem é amiga.

Então apesar de um bocado óbvio, o roteiro de Unbroken tem condução e focos bem definidos, é envolvente e sabe valorizar bem a progressão do heroísmo do protagonista. A direção de Jolie é coerente e competente, ainda que nada inventiva. Mas o destaque está mesmo no homem que inspirou este filme – ele sim, merece ter o próprio enredo contado e difundido. E também no ator que interpreta ele. Jack O’Connell convence e se entrega para o trabalho, o que faz todo o pacote negativo da produção ser minimizado.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Unbroken pré-estreou no dia 17 de novembro em Sydney e, no dia 25 daquele mês, entrou em cartaz nos Estados Unidos, no Canadá e na Espanha. A produção teria custado cerca de US$ 65 milhões para ser feita. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 108 milhões e, no restante dos mercados em que já estreou, cerca de US$ 21,8 milhões. Ou seja, ainda está tentando se pagar – na média, um filme só começa a dar lucro depois que arrecada o dobro do que custou, já que boa parte do custo adicional surge com a distribuição do filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, o que mostra que o público tem aprovado o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos: eles dedicaram 92 críticas positivas e 91 negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 50% e nota média de 6,1.

Hoje eu corri para entregar mais esta crítica para vocês. Mas faltou fazer outros comentários. Assim que possível, atualizarei o blog com eles. Até breve.

Agora sim, voltando. A minha leitura desta produção eu fiz antes. Mas claro que algo da história é importante acrescentar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fica clara, em Unbroken, a influência de Louis Zamperini para dezenas de soldados norte-americanos que eram prisioneiros dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. O embate pessoal dele com o algoz Watanabe simbolizava também o desejo daqueles soldados em ganhar a guerra, vencer o adversário, mostrar que eles eram mais resistentes que o oponente. No fim das contas, toda guerra é exatamente isso: uma queda de braços para ver que nação é mais forte, que sistema é mais viril. Vidas são sacrificadas no processo, mas no fim das contas um ou mais de um país recebe o prêmio e tem a sua(s) respectiva(s) economia vitaminada com a disputa que é coletiva, mas também entre indivíduos. Por tudo isso, é evidente, este filme também é ufanista e levanta a bandeira dos Estados Unidos. Neste sentido, dá para entender porque a produção chegou ao Oscar.

O nome forte desta produção, sem dúvida, é do ator Jack O’Connell. Ele faz um belo trabalho como o determinado Louis Zamperini. Além dele e dos atores já citados, vale destacar a participação de Garrett Hedlund como Fitzgerald, um dos soldados do campo de prisioneiros mantido por Watanabe – ele está em um papel menor do que estamos acostumados.

Da parte técnica do filme, além da ótima direção de fotografia de Deakins, vale destacar a trilha sonora marcante de Alexandre Desplat; a edição da dupla William Goldenberg e Tim Squyres; os figurinos de Louise Frogley; a equipe de 36 profissionais envolvidos com o departamento de arte; os 32 profissionais que trabalharam no departamento de som; os 13 profissionais que trabalharam nos efeitos especiais e as dezenas – me cansei de contar – profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem estes dois últimos grupos, em especial, o filme teria sido quase impossível de ser feito – e, sem dúvida, não teria a qualidade visual que conferimos na telona.

Apesar de ser uma produção 100% dos Estados Unidos, Unbroken foi totalmente rodado na Austrália – cenas em estúdio e externas também.

Até o momento, Unbroken ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 18, incluindo a indicação a três estatuetas do Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o CFCA Award como “intérprete mais promissor” para Jack O’Connell no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Chicago; para o prêmio de interpretação para Jack O’Connell no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Dublin; e para o prêmio de interpretação marcante para O’Connell no National Board Review. Em todas estas premiações o ator foi reconhecido também pelo trabalho em Starred Up. Unbroken também foi reconhecido por mais de um prêmio como um dos 10 melhores filmes de 2014.

O roteiro dos irmãos Coen, de LaGravenese e de Nicholson é baseado no livro de Laura Hillenbrand lançado em 2010 e que, antes, ficou conhecida pela obra Seabiscuit. Ela foi a primeira mulher a receber o prêmio inglês William Hill’s Sports.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: o Universal Studios comprou os direitos para a história de Louis Zamperini em 1957, mas foi apenas com a publicação do livro de Hillenbrand que o projeto tomou corpo para sair do plano apenas das intenções.

O ator Takamasa Ishihara manteve distância de Jack O’Connell para conseguir, nos momentos necessários, interpretar toda a frieza necessária para Watanabe praticar as suas crueldades contra o inimigo. Na cena mais tensa do filme, quando o protagonista levanta o vergalhão acima da cabeça, Ishihara chegou a vomitar no set como reação ao choque provocado pela cena.

A diretora Angelina Jolie não pode comparecer na pré-estreia do filme porque ela ficou enferma com uma varicela.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como Unbroken revela nos minutos finais, Louis Zamperini morreu no dia 2 de julho de 2014. Ou seja, ele faleceu antes do filme sobre a sua história estrear. Mas ele chegou a ver uma versão prévia do filme no notebook de Angelina Jolie quando ele estava internado no hospital.

Jolie e o diretor de fotografia Roger Deakins afirmaram que uma das grandes influências deles para Unbroken foi a produção The Hill, de 1965, dirigida por Sidney Lumet e protagonizada por Sean Connery.

Este é o terceiro trabalho de Angelina Jolie na direção. Ela estreou atrás das câmeras com o documentário A Place in Time, de 2007, e fez a primeira obra ficcional em 2011 com In the Land of Blood and Honey. Não assisti a nenhum dos dois. Agora, ela trabalha na pós-produção de By the Sea e já tem outro projeto no gatilho: Africa. Me parece que todas estas produções – ou quase todas – defendem questões bem ideológicas da atriz/diretora.

CONCLUSÃO: Uma das principais qualidades de Unbroken é que ele transporta o espectador para produções que eram frequentes nos anos 1950 e 1960. Filmes ufanistas, que procuravam valorizar a bandeira do país de origem – normalmente os Estados Unidos – e que tinham aquele saber de “homens viris e a suas bravuras”. Bem conduzido, com ritmo adequado, um protagonista que convence e uma direção de fotografia impecável, Unbroken é um filme que entrega o que promete. Mas para quem já assistiu a outros filmes do gênero, isso é pouco.

A história, como eu disse lá no início, acaba sendo longa demais – ela poderia ter sido encurtada meia hora, pelo menos. E apesar de ser incrível a resistência do personagem baseado em um homem real, não é exatamente surpreendente o que vai acontecendo no minuto seguinte por grande parte do filme. Isso, para o cinema, não é exatamente bom. Para resumir, um filme mediano, mas que tem as suas qualidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Interessante a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter lembrado diversas vezes de Unbroken nas indicações de sua premiação este ano. Porque o filme, por mais que tenha qualidades – e as tem, como dito antes -, poderia perfeitamente ter sido esquecido pela Academia. Os votantes da maior premiação do cinema dos Estados Unidos já fizeram isso antes com produções melhores.

Mas o filme de Angelina Jolie – ela seria a razão principal das indicações, já que é um dos nomes fortes de Hollywood? – conseguiu figurar em três categorias do Oscar 2015: Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Tudo bem que são apenas categorias técnicas. Ainda assim, sempre há uma forte concorrência nesta área. Mas Unbroken, é preciso dizer, chega com estas três indicações merecendo.

De fato, o trabalho da equipe de som – seja na mixagem, seja na edição – e do diretor de fotografia veterano Roger Deakins é o que a produção tem de melhor. Junto com a interpretação de Jack O’Connell, é claro. O filme pode sair vencedor em alguma destas categorias? Bem, ainda preciso assistir aos outros indicados, mas acho que a ele terá uma parada duríssima em Edição de Som, porque enfrenta a ficção científica Interstellar (esse gênero, tradicionalmente, vai muito bem nestas categorias) e a ótima edição de som de The Hobbit: The Battle of the Five Armies. Desconfio também que a edição de som de American Sniper deve ser muito boa… parada bem dura, pois.

Em mixagem do som, os adversários a serem batidos são Interstellar, mais uma vez, American Sniper e, um elemento forte e adicional na queda-de-braços, o drama musical Whiplash – que, ainda não o assisti, mas presumo que tenha uma mixagem de som perfeita. Unbroken, para mim, corre por fora nas duas categorias. E o mesmo acontece em Melhor Fotografia. Ida tem um trabalho primoroso neste quesito. Além disso, há os super indicados do ano Birdman e The Grand Budapest Hotel para serem batidos – o segundo, deste já posso falar, tem realmente uma fotografia excelente. Enfim, a vida de Unbroken está bem complicada. Mas acho que o filme e seus realizadores devem ficar felizes já por terem sido lembrados no Oscar.

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True Grit – Bravura Indômita

Os irmãos Coen continuam com a vocação inabalável de desmontar mitos e lugares-comum que compõe a “alma” dos Estados Unidos. Desta vez, a dupla focou o seu talento para contar a história de um faroeste em que uma garota de 14 anos dá as cartas. True Grit levou os Coen novamente para os holofotes do Oscar, em um ano em que eles devem enfrentar uma concorrência feroz – cenário em que outras duas produções lideram a disputa na frente deles. Além de tornar uma garota nada usual como heroína da história, True Grit desmonta mitos da época das “terras selvagens” norte-americanas, mostrando dois tipos de “oficiais da lei” de maneira pouco dignas. De um lado, um Marshall alcóolatra e considerado mercenário por alguns. De outro, um Ranger arrogante, cheio de soberba e um bocado pavão. E para melhorar a situação, no melhor estilo de humor dos Coen, os dois tem as suas “bravuras” colocadas à prova por uma garota, o que acaba rendendo momentos de competição quase infantil.

A HISTÓRIA: Uma mulher narra a sua história. Conta como, aos 14 anos, mesmo contra as previsões de todos, ela conseguiu vingar a morte do pai. Pela sua versão, quando ela tinha esta idade, um covarde chamado Tom Chaney atirou no pai dela e o matou. Robou-lhe “a vida e o cavalo, e duas peças de ouro da Califórnia”. Chaney tinha sido contratado pelo pai da menina para ajudá-lo a buscar alguns cavalos comprados em Forth Smith. Na cidade, Chaney foi para o bar beber, jogou cartas e perdeu todo o dinheiro que tinha. Achou que estava sendo enganado e voltou para a pensão para apanhar um rifle, quando o pai de Mattie Ross (Hailee Steinfeld) tentou impedí-lo. Chaney então matou o homem e fugiu. Mattie critica que ninguém na cidade se interessou em capturá-lo ou perseguí-lo. Mas ela tomou a frente disso, na busca do corpo do pai, de conseguir reaver o dinheiro por ele gasto com os cavalos, e contratando um U.S. Marshall para perseguir a Chaney. Após receber três recomendações do xerife de Forth Smith, Mattie escolhe Rooster Cogburn (Jeff Bridges), considerado o mais “malvado, durão, impiedoso” Marshall das redondezas. Cogburn não teria “medo de nada, mas tem problema com a bebida”. Mattie não se importa com este último detalhe e o contrata, seguindo o Marshall na caçada do assassino de seu pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte dos textos à seguir contam momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a True Grit): “Os ímpios fogem sem que haja ninguém a perseguí-los” (Provérbios 28,1). Mais uma vez, e logo após A Serious Man, os irmãos Joel e Ethan Coen voltam a começar um filme citando a Bíblia. Pena que, desta vez, eles não completaram a frase. Após “Os ímpios fogem sem que haja ninguém a perseguí-los”, o provérbio continua: “mas os justos são ousados como um leão”.

As leituras possíveis sobre o uso de trechos tão sugestivos da Bíblia pelos diretores são variadas. Mas, para mim, desde a primeira vez que eles fizeram isso, há dois sentidos claros nestas citações. Primeiro, elas reforçam a análise crítica que os Coen fazem da sociedade dos Estados Unidos, considerada “puritana” por alguns, mas que, de fato, tem na Bíblia um alicerce histórico – para o bem, e para o mal. Porque o problema – antes que alguém me interprete mal, vou explicar – não está nunca na Palavra, mas na interpretação equivocada e, especialmente, no seu uso com fins que não passam pela essência do cristianismo. Mais que isso, convenhamos, não preciso explicar. Para bom entendedor… Voltando a primeira razão: ao citar a Bíblia, os Coen estão deixando ainda mais claro que o que veremos a seguir é uma reflexão crítica, irônica e, algumas vezes, um pouco cínica, sobre os efeitos e influências que a religião teve e continua tendo na sociedade da qual eles estão falando.

Depois, as citações bíblicas sempre parecem resumir a “alma” da história que vamos assistir. Aqui, ao comentar que os “maus” fogem quando não há pessoa que os persiga, os diretores deixam claro que True Grit é, além de outras coisas, uma crítica pesada a falta de justiça, ao sistema falho que existe nos Estados Unidos, no Brasil e em qualquer parte do mundo – em maior ou menor grau. A parte que faltou eles citarem, do provérbio, parece estar diluída no próprio filme: aqueles que estão do lado da justiça ganham coragem redobrada e vencem todos os perigos, como o leão em uma floresta.

Como é típico dos irmãos Coen, em True Grit o espectador é presenteado com um roteiro saboroso, cheio de referências a lugares e personagens da história estadunidense. Cá entre nós, algumas vezes, esse excesso de referências chega a cansar. Mas imagino que os estudiosos da história dos Estados Unidos devem saciar os seus desejos por referências com este tipo de roteiro. Diria que este tipo de texto tem seu lado positivo e negativo, por isso. O roteiro dos Coen também segue apostando em diálogos escritos com perfeição e esmero, na construção de frases em que não sobram palavras. Concisão e rapidez por um lado, excesso de referências de outro. Típico dos diretores e roteiristas.

Em True Grit, os Coen respeitam todos os preceitos de um faroeste, com ótimas cenas de perseguição, suspense e algo de adrenalina. Há pelo menos uma grande sequência, impecável e que relembra os grandes momentos do gênero. Mas se o filme fosse só isso, seria tudo, menos uma obra dos Coen. Para ter a assinatura deles, além das características do gênero reinventadas, é preciso adicionar outros elementos. Especialmente a crítica ácida e a ironia. Que desmontam “lendas” e tentam desmascarar “heróis”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Só com os Coen poderíamos ver um Marshall interpretado por Jeff Bridges cambaleante, caolho, durão, mercenário, corajoso, beberrão e partidarista. Para contrastar com esta figura, um Ranger interpretado de maneira hilária por Matt Damon. Ranger este bastante ineficaz e que, como tantos outros, tinha mais histórias do que feitos de bravura para contar.

Existe, neste filme, claro, espaço para os bandidos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas como é típico também, entre os Coen, a linha que separa mocinhos de bandidos parece bastante difusa. Nada é tão claro quanto algumas religiões gostariam. No lugar do preto e do branco, o cinza predomina nas intenções e nos atos dos personagens. Quem é mais mercenário? Quem é mais corajoso? Quem está defendendo uma boa causa? O bandido que rouba para sobreviver, porque só encontra ali uma alternativa? O Marshall ou o Ranger que perseguem recompensas porque o que eles ganham do governo é insuficiente para viver? Neste cenário, uma garota de 14 anos ensina para os adultos o que é bravura, inteligência e correção.

Para os Coen, não existe sociedade modelo. Em parte alguma. Mas eles não falam do Japão. Os diretores e roteiristas contemplam sempre o próprio quintal. Falam de terras inóspitas e geladas aqui, de terrenos “selvagens” de uma história vistas com orgulho (e muito desconhecimento) dali. Por isso mesmo, eles são grandes – e admirados pela Academia e pela indústria. Porque não se cansam de ousar, perseguindo com identidade própria uma reflexão sobre o passado e o presente da sociedade dos Estados Unidos. E mesmo quando falam de um tempo de terras inóspitas, como em True Grit, eles estão tratando de assuntos atuais. Que ninguém se engane que os Coen, com este último filme, não estão refletindo sobre corrupção, interesses escusos, falta de justiça, família e tantas outras questões muito pertinentes nos nossos dias – e que, ao olhar para trás, apenas entendemos melhor a origem de tudo isso.

Equilibrando ação, humor, crítica – com fina ironia, um bocadinho de drama e suspense, True Grit comprova, outra vez, a capacidade dos Coen de apresentar o seu próprio país, para o mundo, de uma forma diferenciada. E de promover, em próprio solo norte-americano, um incentivo para a revisão histórica e de valores. Apenas por isto, eles já merecem aplausos. Mas, além das intenções e resultados, o que importa mesmo, é que eles são ótimos cineastas. Ou, em outras palavras, sabem fazer filmes envolventes, com boas histórias e perfeitos na técnica. Aqui, mais uma vez, eles acertaram. E só não dou a nota máxima porque, apesar de todas as qualidades, achei que eles não foram muito além do que já vimos antes. Faltou um pouco mais de ousadia ou de reinvenção deles próprios. Mas, acredito, olhando para a filmografia da dupla, que isto em breve poderá acontecer novamente. Para a nossa sorte.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Deixei para falar dos aspectos técnicos do filme e de curiosidades por aqui mesmo. Há tanto para se falar de True Grit… mas tentarei ser “comedida” desta vez. Até porque tenho que me atracar a outros filmes antes do Oscar. 🙂

Mais uma vez, Jeff Bridges está digno de um reverência. O ator incorporou até a medula o personagem de Cogburn e merece, sem dúvidas, a segunda indicação seguida para o Oscar. Mas diferente do ano passado, dificilmente neste ele consiga levar a estatueta para casa. Contrapondo com ele, servindo muitas vezes como uma “consciência” adjunta do “herói”, a mais que reveladora Hailee Steinfeld. Seu desempenho aqui é tão bom que a Academia lhe indicou como coadjuvante. Tudo bem que ela teve um roteiro incrível para proferir em cena, mas sua interpretação é tão marcante que fiquei em dúvida na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante deste ano.

Além da dupla mais encantadora do filme – sim, Bridges e Steinfeld acabam sendo encantadores -, palmas também para a interpretação engraçadíssima de Matt Damon. Como os Coen haviam feito antes com George Clooney, aqui foi a vez deles “retocarem” e modificarem a imagem de Damon. Ele está perfeito. Além deles, merecem ser citados Josh Brolin como o bandido Tom Chaney, ainda que seu papel tenha sido bem diminuto; Barry Pepper, especialmente inspirado, como o chefe de quadrilha e “inimigo” histórico de Cogburn, Lucky Ned Pepper; e o cômico Bruce Green em quase uma ponta como o bandido “que faz vozes de bichos” Harold Parmalee.

Na parte técnica do filme, inevitável falar da direção de fotografia. Claro que a história ajuda, e os cenários também, mas a técnica de Roger Deakins lhe rendeu, não por acaso, uma indicação ao Oscar. O trabalho dele se diferencia nos detalhes, como na captação de uma luz expressiva que entra no galpão em que Cogburn está dormindo, por exemplo, ou na fogueira que aquece o trio de personagens principais em uma noite fria. Bom o trabalho de Carter Burwell na trilha sonora, ainda que eu tenha achado ela um tanto “clássica” (alguns podem interpretar como previsível) demais. Mas envolvente, isso é preciso registrar. Bom o trabalho de pesquisa e de desenho dos figurinos, assinados por Mary Zophres, ainda que eu não ache que ela chegue ao ponto de ganhar um Oscar. Os demais elementos técnicos também acompanham a qualidade do projeto ainda que, como a própria direção dos Coen, eles não tenha apresentado realmente inventividade ou muita ousadia.

True Grit estreou com uma premiere em Nova York no dia 14 de dezembro. Além de concorrer a 10 estatuetas no Oscar, a produção participará do Festival de Berlim, que começa daqui a dois dias, em 10 de fevereiro.

Para quem ficou curioso/a para saber onde True Grit foi filmado, o último filme dos Coen foi rodado no Texas e no Novo México. Foi uma produção relativamente cara: custou US$ 38 milhões. Mas está indo bem, muito bem nas bilheterias dos Estados Unidos. Até o dia 30 de janeiro, ou seja, em pouco mais de um mês em cartaz nos cinemas, o filme acumulou US$ 148,3 milhões. Um resultado muito bom e que só tende a crescer em fevereiro, até pelo impulso que o Oscar deverá dar para a produção. E algo fundamental para este resultado: o trabalho massivo de marketing em torno do filme. Isso pode ser percebido pela publicidade nos sites, como o IMDb, e nos vários cartazes produzidos para promovê-lo.

O roteiro, sem dúvida um dos pontos fortes de True Grit, foi inspirado no livro homônimo de Charles Portis, publicado em 1968. Segundo este texto da Wikipédia, o livro foi adaptado para o cinema no ano seguinte, em uma produção estrelada por John Wayne. Fiquei curiosa para assistir, até para saber do grande contraste que deve separar a produção dos Coen daquela “clássica” com Wayne. Depois, segundo o mesmo texto, o ator veterano e conhecido pelos filmes de faroeste voltou a interpretar o destemido U.S. Marshall na produção Rooster Cogburn, de 1975.

Pelo que o link da Wikipédia conta, a história original de Portis já tinha “o achado” de ter uma garota de 14 anos como heroína. Mattie Ross, pelo livro dele, foi a responsável por promover uma caçada ao assassino de seu pai. No livro, Portis explora mais a relação de Chaney com a família Ross, deixando para Mattie classificá-lo como “lixo”, um sujeito que não é afeito ao trabalho na fazenda. Na obra fica mais claro que Chaney mata o pai de Mattie para roubar-lhe o dinheiro – US$ 150 que não haviam sido gastos para comprar os cavalos, assim como as duas peças de ouro. Depois do crime, ele foge para o Território Índio – que era razoavelmente “protegido” e/ou “inacessível” -, atualmente Oklahoma.

Achei o máximo que, no livro de Portis, Rooster Cogburn é descrito como um Marshall envelhecido, “caolho”, que está acima do peso, alcoólatra, mas que é rápido no gatilho. A justa descrição do que os Coen colocaram na tela.

E uma curiosidade sobre o True Grit de 1969: o filme rendeu um Oscar de Melhor Ator para John Wayne em 1970. Aquela foi a única estatueta ganha pelo ator em sua carreira.

Agora, uma curiosidade sobre a versão dos Coen de True Grit: por causa da lei que proíbe o trabalho infantil, os diretores não puderam filmar cenas com Hailee Steinfeld após a meia-noite. Como há muitas cenas noturnas, parte do trabalho foi gravado com ela antes da meia-noite e, nas cenas em que ela aparece de costas, a atriz foi substituída por dublês adultas.

Para os curiosos do tema armas: em True Grit, o personagem de Rooster Cogburn utilizada uma Colt Single Action Army, uma Winchester Model 1873 e um par de revólveres Colt Navy 1851. Mattie herda do pai uma Dragoon Colt. O Ranger La Bouef carrega uma Colt Single Action Army e uma carabina Sharps 1874. Tom Chaney usa um rifle Henry Modelo 1860, e Ned Pepper leva um revólver Remington 1875 e um rifle Winchester 1866 Yellow Boy.

Até o momento, True Grit foi indicado a 10 Oscar, recebeu outros 12 prêmios e foi indicado a mais 55. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz Coadjuvante para Hailee Steinfeld pelas associações de críticos de cinema de Austin, Chicago, Kansas City, Central Ohio, Toronto e pela Sociedade de Críticos de Cinema Online (além de um prêmio por “jovem desempenho em filme” entregue pelos críticos de Las Vegas); e os de melhor direção de fotografia dados pelas sociedades de críticos de Cinema de Boston, Central Ohio, Phoenix, e dos Críticos de Cinema Online.

Os usuários do site IMDb deram uma nota boa para a produção: 8,2. Mas poderia ser melhor. Os críticos do Rotten Tomatoes, mais uma vez, foram mais generosos: publicaram 200 críticas positivas e apenas 10 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 95% – e uma nota média de 8,3.

E um alerta importante: evite assistir ao trailer se você ainda não viu a True Grit. Porque no trailer eles praticamente acabam com todas as surpresas e dão uma palhinha dos momentos principais da história.

CONCLUSÃO: Um faroeste meio clássico, meio desconstruído. True Grit traz em seu dorso cenas de cavalgadas, aventuras, perseguição e o clássico “mocinho contra bandido”, ao mesmo tempo em que deixa claro que a separação entre uns e outros é muito tênue. No melhor estilo dos irmãos Ethan e Joel Coen, este filme esboça com fina ironia uma época em que a injustiça parecia imperar – exceto para aqueles que podiam pagar por ela. Voltando a temas abordados em filmes recentes da dupla, os Coen acrescentam mais uma colherzinha na crítica da sociedade em que eles vivem.

Tentando retirar máscaras e desmontar mitos. Revelando que ninguém pode ser catalogado facilmente e que os desejos de justiça e busca da verdade nem sempre são suficientes. Com interpretações inspiradas e o uso de recursos técnicos com perfeição, True Grit entra para a lista dos grandes filmes dos Coen. Para os que gostam de faroeste, então, é um prato cheio. Também pelo achado de colocar uma garota de 14 anos como grande heróina – mérito da obra original, do escritor Charles Portis, publicada em 1968. Os Coen desmontando o gênero inclusive por tirar a figura predominante do macho do holofote. Por estas e por outras, eles são geniais. Só que para não dizer que tudo é perfeito, os que acompanham a trajetória dos Coen talvez se cansem, nem que for um pouquinho, como eu, por eles seguirem a mesmíssima linha, sem muita invenção, há tanto tempo. Por um lado, isso é sinônimo de coerência. Mas por outro, talvez, esteja na hora deles ousarem um pouquinho mais.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: True Grit foi o segundo filme com o maior número de indicações ao Oscar deste ano. Só ficou atrás das 12 indicações de The King’s Speech. Pela minha análise, dificilmente teremos este ano um “grande ganhador”. O mais provável é que The Social Network, The King’s Speech e Inception fiquem meio que equilibrados no número de estatuetas. Mas então como ficaria True Grit? Um ano sem grandes ganhadores não significa, exatamente, que não teremos grandes perdedores.

Para começar, True Grit foi solenemente ignorado pelo Golden Globes. Claro que esta premiação não elimina as chances dele no Oscar, mas já servem como um bom termômetro. E quando digno ignorado no Globo de Ouro, não estou falando apenas da lista de vencedores, mas inclusive na de indicados. True Grit não disputou nada de nada.

Pela minha lista de palpites sobre o Oscar, ele também não aparece em parte alguma. Nem nas categorias técnicas. Mas dei os pitacos antes de ver ao filme. Agora, acho que ele talvez tenha alguma chance em duas categorias: Melhor Atriz Coadjuvante, para Hailee Steinfeld, e Melhor Direção de Fotografia. E só. Steinfeld tem a inglória tarefa de vencer a Melissa Leo, que está ótima em The Fighter. Mas, caso Steinfeld vença, será um prêmio muito merecido. E Roger Deakins deverá deixar para trás trabalhos estupendos, como as fotografias de Black Swan, The Social Network e The King’s Speech. Ambos tem a seu favor vários prêmios conquistados por associações de críticos. Mas não são os críticos, e sim as pessoas que fazem a indústria, quem decide sobre o Oscar. Cá entre nós, ainda que eles tenham méritos, não vejo nenhum dos dois levando o Oscar para casa.

Que chances, então, teria True Grit nas outras oito categorias que está disputando? Melhor Filme ele não leva – The King’s Speech e The Social Network, especialmente o segundo, dominam as bolsas de apostas. E com razão. Aliás, dei para True Grit a mesma nota que havia dado para The Social Network porque, para mim, os dois filmes são muito bons. Diferentes entre si, mas muito bons. Acima da média. Mas, para meu gosto, estão um pouco abaixo de The King’s Speech e Black Swan – meus favoritos, caso minha torcida valesse algo. 😉

Jeff Bridges não tem chance, este ano, com os concorrentes – especialmente Colin Firth. Não seria uma injustiça, caso ele ganhasse, mas seria uma grande surpresa – e zebra. Não acho que isso vá acontecer. A Direção de Arte do filme é boa, tem uma bela pesquisa, mas acho que não ganha de Inception, The King’s Speech ou Alice. Em Figurino o filme também corre por fora, atrás de Alice e The Tempest. Melhor Diretor, será muito difícil.

Ainda que a Academia goste muito dos Coen, mas este ano parece ser mesmo de David Fincher – ou de Tom Hooper, caso ocorra alguma zebra. Para ganhar como Melhor Edição de Som, True Grit tem a tarefa inglória de desbancar Inception ou, em segundo lugar, Unstoppable. O mesmo em Mixagem de Som – tendo, talvez em segundo lugar, após Inception, a rivalidade de The Social Network. Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, não vejo que os Coen vão conseguir bater o ótimo e, até certa medida, ousado texto de The Social Network. Além dele, que é o favorito, True Grit teria que desbancar o elogiado Winter’s Bone e 127 Hours. Difícil, bem difícil.

Para resumir a ópera, True Grit pode ser um dos grandes perdedores deste Oscar. Não será surpresa se isso acontecer.

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A Serious Man – Um Homem Sério

Os irmãos Ethan e Joel Coen são mestres na missão de contar histórias. Quanto mais inusitadas, curiosas, melhor. O último filme lançado nos cinemas da dupla, A Serious Man, trata do “sentido da vida”, que é uma obsessão para muitas pessoas, de forma irônica e inteligente. O alvo deles é uma comunidade de judeus, mas a reflexão sobre a capacidade da religião em “confortar” ou trazer “respostas” para as pessoas poderia focar qualquer outro credo. Um filme muito interessante e que deve criar polêmica entre muita gente. Mas que sem dúvida merece estar na lista dos 10 indicados para Melhor Filme no Oscar deste ano.

A HISTÓRIA: Um homem chamado Level (Allen Lewis Rickman) chega em casa no meio de uma tempestade de neve e, mesmo tendo tido a carroça quebrada no caminho, se sente feliz. Ele conta para a esposa, Dora (Yelena Shmulenson), que um homem lhe ajudou com a carroça e, vejam a coincidência, esse homem conhecia a Dora. Mas a mulher teme que o “bom homem” que ajudou o marido seja, na verdade, um espírito do mal. Depois deste conto introdutório, a câmera mergulha na realidade de Danny (Aaron Wolff), um jovem que prefere escutar música durante as aulas, fumar maconha e, principalmente, a câmera se intromete na série de desastres que irão acertar o pai de Danny, o professor universitário Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg). Pai de família judeu, tudo o que Larry tenta – mesmo contra todos os acontecimentos – é se manter um homem sério.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Serious Man): Inicialmente, A Serious Man parece uma daquelas produções que castigam o seu protagonista até o final. Tudo parece ficar cada vez pior para o pobre Larry Gopnik. Ainda que o novo filme dos Coen possa ser lido de muitas maneiras, inclusive como uma “comédia de erros”, esta história é mais profunda e inteligente do que pode parecer em um primeiro momento.

Para começar, os Coen fazem uma reflexão surpreendente sobre a capacidade das religiões em dar conforto e “apaziguar” ânimos. Também em dar “sentido na vida” de muita gente. Achei especialmente curiosa a forma com que os diferentes rabinos procuram consolar o inconsolável protagonista. Tentando ser um “bom cordeiro”, ele se sente perdido quando tudo em que acreditava parece desmoronar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, seu casamento acaba “da noite para o dia”. Depois, ele tem a própria honestidade colocada em cheque em um intricado plano de suborno de um aluno imigrante que não sabe se expressar bem em inglês, o universitário Clive Park (David Kang). Para completar o quadro, ele questiona se deve ceder às tentações para ajudar o complicado Arthur (Richard Kind).

Todos os gestos de bondade de Larry, em resumo, parecem fadados a serem contestados, corrompidos. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). No final das contas, ele é um sério candidato a ser o vilão do casamento que deu errado. Na universidade, sua tão desejada promoção periga não sair do papel. Enfim, Larry pode estar enfrentando um “inferno astral”, como muitos chamam os momentos da vida em que tudo parece estar dando errado. O que um “homem sério” faz nestas situações? Busca respostas em sua fé. Mas, como lá pelas tantas o rabino Nachtner (George Wyner) parece deixar claro, no fundo não existem respostas, apenas perguntas. Ou, se existem respostas, elas são irrelevantes.

Porque, como Nachtner bem sentencia, “Não podemos saber tudo”. Mas temos essa idéia de tentar achar lógica por todos os lados, nas coisas mais curiosas como constelações no céu ou borras de café. E tão genial quanto a afirmação do rabino é a resposta de Larry: “Parece que você não sabe de nada!” E quem disse que os líderes, sejam eles religiosos, políticos ou do grupo que for, realmente sabem de algo? Nós acreditamos, no fundo, naquilo que realmente queremos. Para o bem, ou para o mal. Mas os diálogos entre Larry e Nachtner são o que há de melhor em A Serious Man.

O roteiro é dos mais inteligentes que assisti nos últimos tempos. Ele lembra os Coen em suas melhores comédias, além de ter algumas pitadas de diálogos nonsense, caóticos e hilários típicos de Quentin Tarantino. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Francamente, algumas vezes, o comportamento “manso” do protagonista chega a “dar nervoso”. Não sei vocês, mas eu esperava que ele estourasse a qualquer momento. No lugar disso – e Freud explica -, Larry tinha sonhos desconcertantes, nos quais ele era enfrentado por Sy ou virava alvo do vizinho estranho e caçador. Além de questionar o “sentido da vida”, a preocupação constante em acharmos respostas para tudo, e a importância da família e da religião, A Serious Man debate a própria leitura da sociedade do “homem sério”, daquele indivíduo que é respeitado e deve ter seus passos seguidos.

Para ironia extrema desta história, o homem que é considerado sério – e é homenageado como tal, lá pelas tantas – é Sy Ableman (Fred Melamed). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O mesmo homem que trai o seu amigo, Larry, e acaba com o seu casamento com a autoritária e egoísta Judith (Sari Lennick). Aliás, o egoísmo reina entre os personagens de A Serious Man. Ninguém parece ser capaz de se importar ou realmente se relacionar com o próximo. Dos filhos de Larry e Judith, Danny e Sarah (Jessica McManus) até os estudantes, professores, religiosos. Todos parecem estar preocupados, essencialmente, com seus próprios umbigos. Uma sociedade “correta” na embalagem, nos gestos, nas formas, mas nem perto disto no conteúdo. Mas todos ali são “homens e mulheres sérios”. 😉 Olé para os Coen!

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quando bem escritos, roteiros cheios de histórias paralelas e um tanto “nonsense” são bem interessantes. Este é o caso de A Serious Man. Os irmãos Coen atiram para várias direções e acertam quase todos os alvos. Ainda que o roteiro e a direção deles sejam precisos e eficientes, me incomodou certa desacelerada de ritmo no filme em certos momentos. Achei um pouco cansativos diálogos extensos e que não levavam a parte alguma, como aqueles de Larry e Arlen Finkle (Ari Hoptman), chefe da Comissão de Posse da universidade, por exemplo.

Simplesmente genial aquele conto inicial de A Serious Man. A história protagonizada por Velvel e Dora não tem relação direta com o restante do filme, mas nem por isso deixa de ser muito ilustrativa. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu A Serious Man). Estão em jogo ali conceitos como fé, crendices, generosidade, família, boatos, bondade e maldade. Idéias estas que, muito tempo depois, seriam colocadas à prova, mais uma vez, pela história de Larry Gopnik. No meio do filme também há “contos” paralelos que, algumas vezes, fazem o espectador perguntar “mas o que é isso?”. Este é o estilo dos Coen, que não perdem a oportunidade para explorar histórias paralelas saborosas e que, de quebra, fazem um painel do estilo de vida de várias pessoas nos Estados Unidos – e em outros países.

Mesmo não sendo a questão central do filme, é inevitável não refletir sobre a “crítica” que os Coen fazem dos judeus que vivem praticamente em um gueto nos Estados Unidos. Depois de se libertarem dos guetos em que muitos de seu povo foram obrigados a viver durante a Segunda Guerra Mundial, eles parecem insistir em se isolar voluntariamente. Pelo menos é isso que o filme dos Coen sugere, ao mostrar os alunos estudando em um colégio judeu, utilizando ônibus exclusivos para judeus, entre outras formas de se relacionar que excluem de suas intimidades pessoas que não sejam judias. Claro que este tipo de isolamento não é exclusivo dos judeus. Há pessoas que vivem em guetos por muitas razões – por serem imigrantes em um país no qual elas não se adaptam como deveriam, por serem homossexuais e se sentirem pouco incluídas entre os demais, e um vasto etcétera.

Merece uma menção à parte a relação de Larry com os vizinhos Sr. Brandt (Peter Breitmayer) e seu filho Mitch (Brent Braunschweig). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Questões como aquela, da divisa correta entre os terrenos e o limite em que um ou outro poderia “roçar o gramado” são as típicas razões de desentendimentos entre vizinhos. Um dos momentos mais engraçados do filme é quando pai e filho chegam de uma caçada e Larry tenta questionar o limite entre as propriedades. Hilário! Fica no ar também uma possível posição antisemita dos vizinhos de Larry – ainda que, pelo comportamento rude dos Brandt fica difícil saber se eles são assim naturalmente ou apenas contra os vizinhos judeus. O protagonista também fica completamente sem ação nas várias tentativas de Sy e Judith em convencê-lo a não ter opiniões próprias sobre o fim de seu casamento e a nova união entre eles.

Por tudo isso, Michael Stuhlbarg realmente dá um show no papel de Larry Gopnik. Suas reações contidas ou desesperadas são perfeitas no contexto de seu personagem. Um trabalho complexo e muito acertado. Ainda assim, é importante comentar que todos os demais atores trabalham muito bem, com um certo destaque para o irmão de Larry, o marginalizado (por ser doente e, ao mesmo tempo, ter um QI aparentemente acima da média) Arthur vivido pelo veterano Richard Kind e para o garoto Aaron Wolff que interpreta a Danny. Vale citar ainda o trabalho de Michael Tezla como o Dr. Sussman, protagonista de um conto emblemático durante o filme; Simon Helberg, mais conhecido por seu trabalho na série cult nerd The Big Bang Theory como o rabino Scott; e Adam Arkin como o advogado de divórcio de Larry.

Outros momentos impagáveis de A Serios Man envolvem o “bar mitzvah” de Danny e seu encontro com o mais sábio dos rabinos, o figuraça Marshak (Alan Mandell). Simplesmente impagável a citação de Jefferson (antes eu havia escrito Jackson, sabe-se lá de onde tirei essa idéia!) Airplane. Sem contar o final, que é genial e que deixará muitas pessoas desconcertadas tentando encontrar respostas… 😉

Curioso como este filme teve um custo relativamente baixo – especialmente para os padrões de Hollywood. A Serious Man teria custado US$ 7 milhões e arrecadado, até o dia 27 de dezembro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 9 milhões. Mesmo já dando lucro, esta não é ainda a bilheteria que dois ganhadores do Oscar, como são os irmãos Coen, mereciam ostentar. Mas como este é um “projeto menor” da dupla, até que ele não está se saindo tão mal.

A carreira de A Serious Man começou no Festival de Toronto em setembro de 2009. Depois daquele evento, o filme participou ainda de outros sete festivais, incluindo os de Roma, Londres, Viena, Mar del Plata e Estocolmo. Até o momento esta produção recebeu sete prêmios e foi indicada a outros 26. Entre os que levou para casa estão os de melhor roteiro entregue pelo National Board of Review e pela associação de críticos de Boston; o de melhor ator para Michael Stuhlbarg no Satellite Awards; e o de melhor direção de fotografia entregue pelo Círculo de Críticos de Cinema de San Francisco.

Uma curiosidade sobre o filme: ele não deixa claro o ano exato em que a história se desenvolve. Isso porque o rabino Scott tem em seu escritório um calendário de 1967, mas duas seleções da gravadora Columbia House (mais precisamente Abraxas de Santana e Cosmo’s Factory do Creedence Clearwater Revival) foram lançadas em 1970. Então é impossível afirmar, ao certo, quando A Serious Man se passa.

Outra curiosidade sobre o filme (essa com SPOILERS): em A Serious Man os irmãos Coen utilizam o velho recurso de inserir referências no roteiro, mas desta vez elas são bíblicas. Segundo o site IMDb, Larry é um personagem ao estilo de Jó, que aparece na Bíblica como um homem “íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal”. Segundo o site IMDb, como acontece com Jó, Larry é um “homem bom a quem muitas coisas ruins acontecem sem nenhuma explicação”. A sequência em que Larry olha para a esposa do vizinho sobre uma cerca, quando ele está sobre o telhado de casa, remete a visão que o Rei David teve de Bathsheba. Quando Danny vê a aproximação de um tornado, a referência seria a ocasião em que Deus fala a Jó sobre a chegada de um redemoinho, quando Ele afirma que não dará nenhuma explicação para as coisas ruins que estão acontecendo com Jó. Bastante curioso. 🙂

A Serious Man agradou ao público e, especialmente, à crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para a produção, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 153 críticas positivas e apenas 23 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 87%.

A crítica Ann Hornaday, do The Washington Post, escreveu neste texto que A Serious Man é o filme mais “explicitamente autobiográfico” dos irmãos Coen e que pode ser encarado, por seus discípulos, como uma “destilação dos temas, preocupações e falhas que têm animado os melhores e os piores filmes de suas carreiras”. Para Hornaday, A Serious Man não chega a ter a qualidade de Fargo, mas se situaria entre esta obra-prima dos cineastas e Miller’s Crossing. A crítica ressalta que os cineastas voltaram para o subúrbio de Minneapolis onde cresceram para contar esta história de um professor de física que vê a sua vida de classe média se dissolver à sua frente.

Hornaday vê em A Serious Man uma homenagem carinhosa dos cineastas às suas raízes judaicas, sem descuidar do “humor sombrio” que os caracteriza. Ela ainda aponta como uma das deficiências do filme algumas risadas baratas que os cineastas costumam inserir em suas produções. Ainda assim, Hornaday considera este um dos melhores filmes dos Coen. A crítica ainda ressalta como os estudiosos dos cineastas terão, com o final de A Serious Man, material para “séculos” de análises e que os espectadores que buscam apoio ou consolo neste filme vão encontrar, na verdade, um “exemplo supremo da ética” destes cineastas mantida durante os últimos 25 anos: “Tanto quanto os Coen são capazes de dar, eles são capazes de tirar”. 😉

A crítica Carrie Rickey, do The Philadelphia Inquirer, por sua vez, destacou neste texto que A Serious Man é uma versão do Livro de Jó, da Bíblia, sob a ótica dos Coen. Ela considerou a comédia dos cineastas “inquietante, obscura e surrealista”, e considera que este novo filme segue a tradição de outras histórias centradas em um protagonista que é constantemente testado por uma figura satânica. Na opinião de Rickey, tanto para o protagonista de A Serious Man quanto para o público esta produção é um mistério. Segundo a crítica, não é fácil entender o que os Coen querem nos dizer e, ao mesmo tempo em que eles nos pedem para “abraçar o mistério”, eles não resistem em puxar o tapete sob os pés de seu público.

Christopher Orr, do The New Republic, também ressalta o tom autobiográfico de A Serious Man, comentando como eles retrataram uma comunidade judaica tão uniforme que os “goyim” que aparecem na história acabam se mostrando perigosamente exóticos – como o vizinho caçador. Achei interessante quando Orr comenta que o filme lembra o trabalho de Woody Allen ao revelar este contraste cultural – ainda que ele não escape do filtro escuro que caracteriza o trabalho dos Coen. O crítico considera o filme “muito engraçado”, especialmente quando a história explora os rituais da classe média suburbana judaica prestes a desmoronar.

“Há momentos de verdadeira ternura também. Mas o humor e a empatia tem problemas em florescer no solo de narrativa sombria dos Coen (…). Como Ethan explicou em uma entrevista, ‘Para nós, a diversão foi inventando novas formas de tormento para Larry’. Com o tempo, contudo, a diversão fica só para eles. O jogo acaba ficando evidente demais e, mesmo para toda a arte dos Coen, o acúmulo de insultos se torna mortal”, comentou Orr. Para o crítico, A Serios Man se soma aos dois filmes anteriores dos Coen em uma nova fase dos cineastas, uma etapa em suas carreiras mais sombria e impiedosa. Ainda assim, Orr considera este filme, se visto separadamente, como uma produção frustrante, onde caberia, para os diretores, a mesma pergunta que o protagonista faz para um dos rabinos em certo momento, quando ele não entende porque as perguntas são feitas se não existem respostas para elas.

O crítico Joe Morgenstern, do The Wall Stree Journal, questionou neste texto, como outros de seus colegas, sobre quais seriam as intenções dos irmãos Coen com esta história sombria. Para ele, o protagonista de A Serious Man é testado, a todo momento, e incentivado a sucumbir a erros graves aos “olhos de Deus”. Morgenstern ressalta o “prefácio maravilhosamente estranho” que aborda a dificuldade que as pessoas devem ter em saber o que fazer quando se encontram com o mal. “Tudo isso é misterioso, provocante e, ocasionalmente, muito engraçado. (…) Mas o mistério que me levou a fazer a pergunta anterior (sobre as intenções dos Coen) aparece como o tom dominante do filme”, comenta o crítico.

Ele ressalta ainda que os Coen continuam criando personagens que parecem caricaturas de histórias em quadrinhos mas que, em A Serious Man, eles não apresentam algum rasgo de humanidade que possa redimí-los. “Será que estamos destinados a abominar estas pessoas também, ou será que os realizadores são vítimas de sua técnica habitual?”, questiona Morgenstern, acrescentando que se é o caso da segunda hipótese, este foi um erro de cálculo dos Coen.

Por fim, cito este texto do crítico Kenneth Turan do Los Angeles Times. Ele comenta que A Serious Man é o filme mais pessoal dos Coen, a sua produção mais intensamente judaica, “uma perfeitamente graduada comédia de desespero que, contra algumas probabilidades, acaba sendo uma de suas mais universais também”. Para mim, Turan foi dos poucos que realmente captou o sentido da história “trágica” de Larry Gopnik. “Quanto mais real a dor (do protagonista) se torna, mais, de uma forma essencialmente judaica, o riso se torna a nossa única opção séria”, define o crítico.

Para mim, eis uma das mensagens do filme: existem tragédias na vida? Problemas, provações, percalços, como vocês quiserem chamar? Pois sim. Muitos. E o que faremos a respeito? Pois algumas vezes a melhor forma de lidar com isso é dando risada da própria desgraça. Se levarmos a vida a sério demais, simplesmente vamos ficar doentes (essa seria uma das ironias do filme?) e aturdidos sem respostas convincentes. A vida deveria ser levada com mais leveza, ainda que ela se apresente de forma tão dura tantas vezes. Talvez aí esteja a mensagem dos Coen – entre outras.

Gostei também quando Turan revela o quanto a história muito particular de Gopnik pode ser sentida na pele por um universo de pessoas. Afinal, quem nunca, como o protagonista de A Serious Man, não se lamentou por “apenas” tentar ser uma pessoa séria, tentar fazer o certo e, mesmo assim, tudo parecer ir contra você? Na dor, como alguém já disse antes, todos somos iguais. E a eterna busca de respostas tentam nos confortar, mas a verdade é que somos incapazes, devido ao nosso tamanho diminuto, em enxergar todo o quadro e ter uma visão completa de tudo que acontece. Por isso mesmo a reflexão da falta de respostas do filme. Para mim, mais do que uma crítica a religião ou a Deus, A Serious Man nos coloca no nosso devido lugar. Mostra que não adianta dominarmos a ciência, o conhecimento ou acharmos que estamos mais “conectados” ou “informados” do que nunca. No fim das contas, ainda sabemos pouco – ou nada – se comparados ao “Deus que tudo sabe, tudo vê”.

Outra leitura para A Serious Man é que nem tudo, meus caros, é um “desígnio de Deus”. Ou seja: quando Larry se pergunta o que tudo aquilo quer dizer, procurando saber o que Deus quer que ele aprenda com tantos problemas, talvez a melhor resposta seja que Deus tem pouco a ver com tudo aquilo. São as pessoas que o cercavam as responsáveis por tornar a sua vida um inferno. Pensando apenas nelas próprias e tentando extrair dele mais do que seria razoável, são elas a fonte e a resposta para suas perguntas. Nem sempre Deus tem a ver com tudo o que fazemos – afinal, não temos o chamado livre arbítrio? Se tudo fosse um desígnio divino, seríamos pouco mais que fantoches. Enfim, nestes dois parágrafos citei apenas algumas de várias leituras e questionamentos de A Serious Man. Um filme brilhante por sua forma de nos tirar da inércia, por fazer rir ao mesmo tempo que lança muitas perguntas no ar. São poucos os que conseguem tudo isso de forma “tão simples” quanto os Coen.

Uma curiosidade: A Serious Man é uma co-produção dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França.

Para os que gostam de acompanhar o trabalho técnico dos grandes filmes, essas pessoas “menos evidentes” que são fundamentais para que as histórias sejam contadas com qualidade, vale citar o trabalho em A Serious Man de Carter Burwell na trilha sonora; de Roger Deakins na direção de fotografia; a edição dos irmãos Coen, que assinam há tempos como Roderick Jaynes; o design de produção de Jess Gonchor; e a direção de arte de Deborah Jensen. Todos habituados a trabalhar com os roteiristas e diretores há vários anos.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais “endiabrados” da filmografia recente dos irmãos Ethan e Joel Coen. Deixando para trás a seriedade de produções como Burn After Reading e No Country for Old Men, a dupla de cineastas mergulha em uma história que ironiza o “sentido da vida”, o papel da religião e da família na sociedade atual. Focando um núcleo de judeus, A Serios Man pode cair no ataque fácil de pessoas desta etnia e religião que talvez se sintam ofendidas com a ironia dos Coen. Mas é importante dizer que eles utilizaram a sua própria biografia para escrever esta história. Outros grupos, especialmente os que levam muito a sério as suas religiões, também podem ficar incomodados com o filme. Mas por favor, não se levem tão a sério. Nem as suas crenças. Espero que A Serious Man seja visto como um filme instigante e que brinca com valores, mas sem a intenção de ofender ninguém. Bem dirigido, com um roteiro excelente e atores muito eficazes em seus papéis, A Serios Man é uma das boas surpresas da lista dos 10 indicados a melhor filme no Oscar deste ano. Com humor inteligente e vários níveis de reflexão, ele coleciona histórias curiosas e inusitadas. Algumas vezes, gasta tempo demais em “causos” paralelos menos interessantes, mas nem por isso perde a sua capacidade de surpreender. E siga a dica deixada pelos cineastas: não encontre explicações em cada linha do filme. Nem sempre elas existem.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: A Serious Man foi indicado em duas categorias na premiação anual da Academia. Ele concorre a Melhor Filme e a Melhor Roteiro Original. Uma pena Michael Stuhlbarg não ter conseguido uma vaga entre os concorrentes a Melhor Ator. Agora, mesmo tendo vários toques de genialidade e sendo um filme muito interessante, A Serious Man deve sair do Oscar 2010 de mãos vazias. Como Melhor Filme ele não tem chances. Certamente ele não tem força suficiente para desbancar Avatar ou The Hurt Locker. Como Melhor Roteiro Original ele tem um pouco mais de chances mas, ainda assim, dificilmente vai ganhar dos fortes concorrentes The Hurt Locker e Inglourious Basterds – para não citar Up. De qualquer forma, se fosse para citar em qual das duas categorias ele pode surpreender, seria na segunda, de roteiro. Mas, honestamente, ele não deve ganhar nada.

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Burn After Reading – Queime Depois de Ler

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Os irmãos cineastas Ethan e Joel Coen não são bem certos da cabeça. Isso eles já comprovaram em mais de um filme de suas carreiras e, novamente, reafirmam esta característica com Burn After Reading. Afinal, hoje em dia, não pode ser muito “certo da cabeça” quem faz um humor ácido, que trata de mortes e da violência como consequências lógicas de uma sociedade desumanizada e que gasta zilhões de dólares a cada ano com espionagem, segurança e formas variadas de controle social. Apenas eles – e alguns outros cineastas atualmente – podem fazer um filme que trate destes temas sem parecerem caricatos ou ridículos. Não. Pelo contrário. Burn After Reading apenas reforça a idéia das pessoas que admiram esta dupla pelo que ela explora visivelmente e, em especial, nas entrelinhas de seus filmes.

A HISTÓRIA: O consultor da CIA Osbourne Cox (John Malkovich) é afastado de seu trabalho e recomendado para um posto “menor” fora da instituição – mas, revoltado com a decisão de seu superior, Palmer Smith (David Rasche), ele resolve dizer adeus definitivamente ao trabalho. Em casa, ele comunica a nova realidade para a mulher, Katie (Tilda Swinton), que fica preocupada com as finanças domésticas. Ao mesmo tempo, farta do marido e querendo assumir o relacionamento com o amante, Harry Pfarrer (George Clooney), ela pensa em pedir o divórcio. Enquanto isso, Osbourne começa a trabalhar em um livro com tons autobiográficos que pretende revelar os bastidores do trabalho de um consultor da CIA. Aconselhada pelo advogado, Katie faz uma cópia dos arquivos do marido que, por acidente, acaba caindo nas mãos de Chad Feldheimer (Brad Pitt) e Linda Litzke (Frances McDormand), empregados de uma academia de ginástica que acabam enxergando no texto de Osbourne Cox uma oportunidade de conseguirem dinheiro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Burn After Reading): Os irmãos Coen são ótimos no que fazem. Não apenas na direção, com a escolha acertada de planos de câmera exatos e pelo talento de guiar os atores pelos caminhos corretos de suas interpretações, mas sobretudo pelo roteiro que eles costumam lapidar com cuidado em cada linha. Burn After Reading, como muitos filmes da dupla, nos apresenta personagens incríveis jogados em situações igualmente peculiares. Quem mais, hoje em dia, conseguiria justificar tantos palavrões falados por minuto por uma figura como John Malkovich do que os Coen? Ou quem conseguiria pensar em um personagem tão irritante e desastrado para o galã George Clooney do que eles? Difícil dizer quem é o melhor neste elenco de astros afinados que assume a pele de personagens cômicos e, ao mesmo tempo, realisticamente incômodos.

Vamos começar falando de John Malkovich e da neura que circula ao redor dos agentes da CIA. Mesmo mal sofrido pelo personagem de George Clooney, que faz parte dos “federais” – ou, mais precisamente, do “U.S. Marshals Service”, que tem um artigo bem esclarecedor sobre como essa agência funciona aqui. Os dois, Malkovich e Clooney, a sua maneira, interpretam personagens enlouquecidos pela segurança – deles próprios e de suas famílias, mais que nada. Poderíamos classificá-los praticamente como neuróticos. No caso de Osbourne Cox, ele está mais interessado na tranquilidade de sua aposentadoria do que em controlar os carros que passam em sua rua. Mais “pavio curto” que Harry Pfarrer, por outro lado, ele não mede as palavras para desqualificar quem ouse afrontá-lo. Poucas vezes vi um ator como John Malkovich proferir tantos palavrões em tão pouco tempo. hehehehehehehehehe. Perfeito em seu papel descontrolado, ele está para tirar o chapéu neste filme. Curioso perceber que, por mais “valentão” que ele possa ser, Osbourne encontra uma queda-de-braço singular na própria casa, na figura da ambiciosa e um tanto “fria” esposa.

E George Clooney… inicialmente fiquei um pouco nervosa com aquele jeito dele irritante. A cena em que Harry Pfarrer se exibe no jantar oferecido pelos Cox, cuspindo comida enquanto fala, é de rachar o bico. Só por esta cena o ator merece aplausos. Mas depois ainda virá mais… como nos outros filmes em que trabalhou com os Coen, Clooney se revela em Burn After Reading. Se fosse analisar apenas esta intepretação, eu diria que o ator francamente topa tudo, deixa o ego para trás e se coloca na pele do personagem. Pena que não é todos os dias que Clooney se entrega assim a um personagem – ou o problema esteja na falta de papéis desta natureza para ele… vai saber. De qualquer forma, além da cena do jantar, a sequência do pavor dele pela invasão de um homem na casa da amante e a mesma reação no parque ao saber da ligação entre Linda e Chad valem o salário milionário do ator – e o tempo que gastamos por vê-lo neste filme.

Mas além de Malkovich e Clooney, o filme conta com uma outra grande interpretação masculina: Brad Pitt como o desmiolado Chad. Dei muitas risada com ele, porque Pitt está simplesmente incrível e perfeito. Outro ator que deixou o ego de lado para interpretar este papel, e sem cair no erro que seria fácil de cometer em uma interpretação do gênero, que é o do estereótipo. Ele e os outros atores comprovam que existe uma diferença clara entre fazer uma comédia e/ou sátira sobre determinadas “idéias préconcebidas” das pessoas e a prática de simplesmente assumir estas idéias como realidade – ou vestir estereótipos. 

As mulheres desta história são as únicas, digamos, mais “plausíveis”. Pelo menos a ambiciosa personagem de Tilda Swinton. A interpretada por Frances McDormand também é um pouco exagerada, a exemplo dos homens da trama, mas nada que não possa ser visto como um exagero crítico. E Burn After Reading é bastante crítico, meus amigos. A sua maneira, os irmãos Coen abrem a artilharia contra a sociedade das aparências, do culto exagerado ao corpo – e não ao intelecto -, na mesma medida em que metralha instituições de “inteligência” como é o caso da CIA e dos U.S. Marshals. Na ótica divertida e exagerada de Joel e Ethan, o culto ao corpo chega ao extremo de justificar crimes e organizações de “inteligência” servem apenas para alimentar neuroses, manias de perseguição e o gasto de recursos e energias para apagar os incêndios que elas mesmas provocam. Não é todos os dias – e nem qualquer diretor – que nos apresentam questionamentos como estes. Palmas para os Coen!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além das estrelas do filme já citadas, que ocupam grande parte do interesse dos diretores, vale citar o papel secundário vivido pelo ótimo ator Richard Jenkins. Nesta história ele interpreta a Ted Treffon, o chefe apaixonado de Linda e supervisor de Chad na academia. Nesta história ele não tem o protagonismo de The Visitor, por isso ele acaba meio que “desaparecendo” atrás dos atores principais – ainda que ele tenha pelo menos um grande momento nesta história, quando confronta a Osbourne Cox.

Outros atores que participam em papéis secundários: Elizabeth Marvel como Sandy Pfarrer; J.K. Simmons como o superior de Palmer Smith na CIA; Olek Krupa como o russo Krapotkin; e J. R. Horne como o advogado contratado por Katie Cox para o divórcio.

Para quem gostou da fotografia do filme – que é bem feita, mas nada excepcional -, o responsável por ela é Emmanuel Lubezki. A trilha sonora leva a assinatura de Carter Burwell, e a edição, dos irmãos Coen. 

Burn After Reading recebeu a nota 7,3 dos usuários do site IMDb. Achei baixa. Merecia mais – prova disso é a nota que eu dei para o filme. 😉 Certo que não precisava tanto, mas acho que pelo menos um 8,5 ele merecia. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 161 avaliações positivas e 47 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 77%. Melhor que o IMDb.

Para constar: o filme é uma co-produção Estados Unidos, Inglaterra e França. 

Em sua trajetória, Burn After Reading concorreu a nove prêmios – incluindo dois Globos de Ouro -, mas não ganhou nenhum deles.

De bilheteria ele foi bem, obrigado. Mas não tão bem quanto algumas pessoas deveriam imaginar… afinal, esse foi o filme seguinte dos premiados com o Oscar imãos Coen. Mas ele se pagou, pelo menos. Burn After Reading teria custado aproximadamente US$37 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 60,3 milhões. 

hahahahahahhahahahahahahaha. Agora que reparei um detalhe de um dos cartazes do filme… “Intelligence is relative”. Melhor impossível, vai. Grande sacada – e com duplo sentido, como o filme pede.

CONCLUSÃO: Uma comédia bastante cínica e crítica dos irmãos Ethan e Joel Coen que não poupa ninguém em um raio de quilômetros que abrange agentes secretos da CIA e agências afim e enlouquecidos por academias de ginástica. Diretores, roteiristas e editores desta história lançada depois do quatro vezes premiado com o Oscar No Country for Old Men, os irmãos Coen volta a brincar com os estereótipos vigentes na sociedade sobre diferentes personagens para contar uma história de traição e de disputa, onde o sexo, o dinheiro e o jogo pelo poder dominam o cenário apesar das aparências de futilidade. Uma produção que garante algumas boas risadas ao mesmo tempo em que joga pitadas de ácido em alguns dos produtos mais importantes do atual Estados Unidos da América. Receitado para quem enxerga o que vê e um pouco mais.