Lady Bird – Lady Bird: É Hora de Voar

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O final da adolescência é uma fase de autodescobertas e de muitas escolhas. É quando começamos a perceber melhor o que nos faz sentido, o que não faz, porque somos como somos e para onde queremos ir. Lady Bird trata dessa fase, das descobertas, de uma certa revolta e da aceitação pela qual passa uma adolescente. É um bom filme, mas sou franca em dizer que eu esperava mais. Primeiro, porque muitos apontam esse filme como um candidato sério a algumas indicações do Oscar e, inclusive, como possível vencedor em uma ou mais categoria. E, depois, pelas indicações que ele recebeu no Globo de Ouro e por ter sido premiado nesse domingo. A verdade é que a expectativa, que era considerável, não se realizou totalmente.

A HISTÓRIA: Começa com uma frase de Joan Didion: “Qualquer um que fale sobre o hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”. Em uma cama, Marion McPherson (Laurie Metcalf) está deitada ao lado da filha, Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan). Elas estão deixando uma cama de hotel, mas Marion faz questão de fazer a cama. A filha diz que ela não precisa fazer aquilo, mas Marion diz que é sempre bom fazer as coisas bem feitas. A mãe pergunta se a filha está pronta para voltar para casa, e Lady Bird diz que sim. Na volta para casa, de carro, mãe e filha ouvem o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Mas a paz entre mãe e filha logo vai terminar, quando uma simples discussão sobre ligar o rádio termina com um desfecho surpreendente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Bird): Algumas pessoas não estão satisfeitas com o lugar de onde elas vieram. E nem com a vida que elas tem. Elas sonham em viver em um lugar distante, onde podem “voltar a ser feliz”. A grande questão é que, geralmente, esta idealização de um local diferente não passa disso mesmo, de uma idealização. Com pouco fundo prático ou ligado à realidade.

Lady Bird nos fala um pouco sobre isso. Sobre a vida que uma pessoa leva, sobre as suas expectativas e desejos, assim como trata da autodescoberta e das relações familiares e com a rede de amigos que nos cerca. Essa produção é bastante honesta e “moderniza” alguns filmes sobre adolescentes que já vimos antes, mas realmente Lady Bird é um filme brilhante?

Eu vi muita gente falando sobre esta produção. Muitos citando ela como uma forte candidata ao Oscar. Como sempre, evitei de ler críticas sobre o filme antes de assisti-lo, mas foi impossível ignorar a ótima aprovação da crítica sobre Lady Bird e como o filme está bem nas “bolsas de apostas” do Oscar. Por isso, devo admitir, assisti ao segundo filme dirigido pela atriz Greta Gerwig com muita expectativa.

Estava esperando uma interpretação irretocável de Saoirse Ronan e um roteiro igualmente inesquecível. E ainda que a atriz esteja muito bem, eu não acho que ela teve um desempenho para ganhar muitos prêmios – especialmente se pensarmos na safra deste ano e em outros desempenhos de atrizes protagonistas. Mas ok, resolveram fazer de Lady Bird o “filme da vez”, e isso acontece de tempos em tempos em Hollywood. Alguns críticos e formadores de opinião resolveram amar esta produção e ela virou um fenômeno.

Sim, Lady Bird tem os seus méritos. Para começar, como eu disse antes, ele ajuda a explicar a juventude do início dos anos 2000 que está na fase de se formar no ensino médio e que tem várias dúvidas sobre o que fazer da vida na faculdade. A busca pela própria identidade, que passa pelas relações familiares, de amigos, os encontros e desencontros da escola e a expectativa da “primeira vez” fazem parte deste contexto e são abordados nesse filme.

Como pano de fundo, vemos a questão social de uma cidade comum americana no início dos anos 2000, quando o pai de uma família perde o emprego e a esposa dele deve dobrar o turno de trabalho para conseguir sustentar a família. Lady Bird tem muitas críticas para fazer contra a mãe, que realmente tem dificuldades de demonstrar carinho e de expressar para a filha o que sente, mas ela também não percebe o quanto a mãe se esforça para manter todos unidos, a casa funcionando e, apesar das dificuldades, ainda ajudar as pessoas.

Desta forma, o roteiro escrito por Gerwig pode fazer muitos adolescentes pensarem de forma um pouco mais ampla – e menos egoísta. Sim, é verdade que Marion muitas vezes é dura demais com Lady Bird. Mas, no fim das contas, o que Marion quer é dar responsabilidade e ensinar valores que ela considera importante para a filha. É verdade que, às vezes, no processo, ela pode fazer mais mal do que bem para Lady Bird – especialmente quando diz para a garota que ela não vai conseguir passar nas faculdades que ela quer ir.

Olhando de forma ligeira para isso, podemos pensar que Marion tem a necessidade de sempre estar “diminuindo” a filha. Como uma forma de compensar as próprias frustrações. Mas uma outra forma de olhar para isso é observar como Marion não quer, no fundo, que a filha vá para longe dela. Apesar de não saber demonstrar os seus sentimentos e de não ser carinhosa, Marion ama a filha da mesma forma com que ama Miguel (Jordan Rodrigues), o filho mais velho.

Algo interessante desse filme é que ele mostra com bastante franqueza a realidade dos jovens americanos de 15 anos atrás. A protagonista, que alimenta o sonho de sair da cidade natal, da qual ela não gosta, para lançar-se em uma cidade maior, passa por experiências marcantes do último ano do ensino médio do qual os americanos gostam tanto de falar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela acaba se lançando em uma aula de teatro, onde se apaixona pelo jovem Danny O’Neill (Lucas Hedges). Ela vai se frustrar com ele ao descobrir que o garoto é gay. Na sequência, ela se lança na direção de outro jovem, o “artístico” e “descolado” Kyle Scheible (Timothée Chalamet). Como aconteceu antes com Danny, que frustrou as expectativas da jovem, Kyle também a decepciona. E tudo passa – percebemos isso realmente com a passagem do tempo – pelas expectativas que ela nutria sobre uma “primeira vez especial” e sobre romances perfeitos.

Lady Bird mostra, desta forma, os primeiros contatos da protagonista com a frustração e com a realização de um grande desejo – materializado no fato dela conseguir passar em uma universidade que ela queria e, especialmente, sair da cidade natal. Mas quando ela finalmente atinge este “plano ideal”, ela percebe que sair de casa não era realmente o problema. O que ela precisava era começar a olhar para a vida de forma mais franca, sem filtros e distorções. Reconhecer melhor de onde ela vinha e o que formava a sua própria identidade.

Esse é sempre um processo interessante. Lady Bird trata de forma interessante estas questões, ainda que grande parte da história gire em torno das “estripulias” de uma adolescente meio revoltada, meio sonhadora. Sim, os personagens são bem desenvolvidos e há uma ou outra sequência interessante no filme. Mas, no geral, achei ele bastante previsível, um tanto cheio de lugares-comum e de ideias requentadas. Verdade que eu estava esperando um grande filme pela frente, e talvez por causa da minha grande expectativa eu tenha achado ele um tanto frustrante.

Não quero colocar a culpa em outras fontes, mas talvez por ter visto a filmes tão bons nessa safra pré-Oscar – especialmente as produções habilitadas para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, eu tenha esperado mais de uma produção considerada forte concorrente no ano. Para o meu gosto, produções de outros países que eu citei recentemente aqui no blog, como First They Killed My Father, The Divine Order, Loveless e On Body and Soul tiveram um impacto maior e um frescor de novidade muito maior do que Lady Bird.

Enfim, gosto é gosto. Por isso vou respeitar a todas as pessoas que discordarem de mim. Mas para os meus critérios de avaliação, Lady Bird é um filme com pouca criatividade e inovação. Fora a cena do carro, que está na parte inicial da produção, o restante desse filme não tem realmente um grande impacto ou surpresa. Sim, um filme não precisa ter isso para ser bom. Mas mesmo a parte “filosófica” e que faz pensar em Lady Bird me parece um tanto rasa.

Enfim, por tudo isso, achei esse filme abaixo das minhas expectativas. E só dou a nota abaixo para ele porque eu admito que ele faz um bom trabalho em dialogar com pais e filhos de uma geração mais nova – exatamente essa que nasceu nos anos 2000. Para eles, possivelmente, esse filme terá um efeito maior – até porque a maioria desses pais e filhos não assistiu a tantos filmes até o momento para perceber o quanto Lady Bird repete fórmulas. A contribuição desse filme para essa nova geração, a mensagem positiva da produção para o entendimento entre as pessoas diferentes de uma família, a aceitação de um indivíduo sobre as suas origens e as belas atuações que vemos em Lady Bird é o que me fazem dar a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém mais observador e que aparece com frequência aqui no blog deve ter notado que eu dei notas mais baixas do que o meu “normal” aqui nas últimas duas críticas. A verdade é que o comentário de um leitor aqui no blog, feito há pouco tempo, me fez repensar nas notas que eu ando conferindo para os filmes. E ainda que cada um tenha o seu critério de avaliação e de “pontuação”, e que esse critério deve ser respeitado, admito que o comentário me fez pensar que eu talvez andasse “muito generosa”.

Comentado isso, afirmo que a partir de agora eu tentarei ser mais “dura” e criteriosa com as notas altas. Realmente darei a nota máxima ou uma nota bastante alta para os filmes que me arrebatarem, que eu achar que são “imperdíveis”. Para os demais, tentarei ser um pouco mais justa na avaliação – especialmente na pontuação.

Sob esta ótica, provavelmente 50% das notas do blog deveriam ser rebaixadas. Mas vou pedir perdão para vocês porque eu não farei isso. Por pura falta de tempo. Se eu não tenho tido tempo nem de responder aos recados de vocês, quanto mais para rever com justiça todas as minhas avaliações aqui no blog. Conto com a generosidade dos leitores para entenderem notas possivelmente mais altas que eu dei anteriormente para filmes que não mereciam avaliação tão boa. A partir de agora, prometo, tentarei ser mais justa e criteriosa. 😉

Voltando a falar sobre Lady Bird, pois. Acho que um dos fatores que me fez não gostar taaanto assim desta produção – ao menos gostei menos do que a maioria dos críticos – foi o fato de que o nome dela me remeteu a outro filme. E, este sim, que eu achei muito mais potente e interessante. Me refiro a Lady Macbeth, produção que eu considero uma das melhores que eu vi em 2017. Enquanto, para o meu gosto, Lady Macbeth se mostra um filme potente e surpreendente, como eu comentei antes por aqui Lady Bird me pareceu um tanto requentado demais, com pouca novidade para mostrar.

Sem dúvida alguma o nome forte desta produção é o de Saoirse Ronan. A atriz soube encarnar muito bem o papel da protagonista. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente cheia de questionamentos e com uma certa “crise de identidade”. A atriz não se parece em nada com outros papéis que já desempenhou. Além dela, os destaques desta produção são Laurie Metcalf, que interpreta a mãe da protagonista, Marion; Tracy Letts em uma interpretação sensível como Larry, pai de Lady Bird; Lucas Hedges mais uma vez fazendo um belo trabalho, desta vez como Danny; e Beanie Feldstein como Julie Steffans, melhor amiga da protagonista. Estas são as pessoas que realmente brilham em cena e convencem.

Além deles, outros atores também fazem um bom trabalho, ainda que com menos destaque. Vale citar, neste grupo, Timothée Chalamet como Kyle, segundo “affair” de Lady Bird; Lois Smith como a Irmã Sarah Joan, que é bastante compreensiva com as suas alunas na escola católica; Stephen Henderson como o Padre Leviatch, coordenador do teatro e que sofre com uma certa “crise” na vida; Odeya Rush como Jenna Walton, a garota popular do colégio de quem Lady Bird se aproxima lá pelas tantas; Jordan Rodrigues como Miguel, irmão mais velho da protagonista; Marielle Scott como Shelly Yuhan, namorada de Miguel e que acaba sendo “adotada”/abrigada pelos McPherson; Jake McDorman como Mr. Bruno, um dos professores “gatos” da escola; e Daniel Zovatto como Jonah Ruiz, namorado de Jenna.

Gostei da direção segura de Greta Gerwig. Ela faz um trabalho sempre próximo dos atores e parece, por ser uma atriz bastante experiente, deixá-los bastante à vontade para que eles consigam exprimir tudo que ela deseja para os personagens que criou. O roteiro dela é bom, mas poderia ser melhor. Ela opta por uma narrativa linear, por uma cena na parte inicial de impacto, para “chocar” um pouco o espectador, mas depois acaba se rendendo a uma narrativa um tanto previsível. Desenvolve bem os personagens centrais, ainda que o filme sendo totalmente contado sob a ótica de Lady Bird acaba limitando um pouco a narrativa. Neste sentido, gostei mais, por exemplo, da narrativa fragmenta e com múltiplos olhares de Wonder.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia “naturalista” de Sam Levy; a edição precisa de Nick Houy; os figurinos de April Napier; o design de produção de Chris Jones; a decoração de set de Traci Spadorcia; e a trilha sonora praticamente ausente de Jon Brion.

Lady Bird estreou no dia 1º de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou de uma maratona de 17 festivais, um na sequência do outro. Nessa trajetória, o filme ganhou 55 prêmios e foi indicado a outros 126. Realmente são números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e para Melhor Atriz em Musical e Comédia para Saoirse Ronan.

O filme também apareceu na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI; a atriz Laurie Metcalf ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante 20 vezes; a atriz Saoirse Ronan venceu como Melhor Atriz oito vezes – sem contar o Globo de Ouro; Greta Gerwig recebeu três prêmios como Melhor Diretora; o filme ganhou cinco vezes o prêmio de Melhor Roteiro; e a produção foi reconhecida como Melhor Filme em quatro ocasiões  (descontado, novamente, o Globo de Ouro). Uma bela coleção de prêmios, não é mesmo?

Eu gosto muito de Greta Gerwig como atriz. Mas pelo burburinho que ela está provocando com Lady Bird, desconfio que ela vai “se jogar” mais na função de diretora e roteirista. Importante ponderar, contudo, que Lady Bird não é a sua estreia na direção. Ela debutou em 2008 com o filme Nights and Weekends, escrito e estrelado por ela. Mas sim, Lady Bird é apenas o seu segundo filme como realizadora. Agora sim, provocando efeito.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. As atrizes Saoirse Ronan e Greta Gerwig se conheceram no Festival de Cinema de Toronto de 2015, quando Saoirse estava promovendo Brooklyn e Greta estava divulgando Maggie’s Plan. Saoirse leu o roteiro de Lady Bird e imediatamente se sentiu conectada com a protagonista. As duas então discutiram o roteiro no quarto de hotel de Saoirse, quando Greta disse que tinha achado a sua “Lady Bird”.

De acordo com Gerwig, a primeira versão do roteiro desse filme tinha 350 páginas. Se o filme tivesse sido rodado a partir desse original, ele teria seis horas de duração.

Lady Bird quebrou o recorde de críticas positivas de Toy Story 2. A animação registrou 163 comentários positivos no site Rotten Tomatoes antes de registrar a primeira crítica negativa. Lady Bird registrou 196 críticas positivas antes de aparecer o primeiro comentário negativo. Mesmo não tendo mais 100% de críticas positivas, ele registra esse percentual de aprovação entre os “melhores críticos” do site. Algo impressionante e que ajuda a explicar o “burburinho” pro trás desse filme.

Interessante como a diretora e roteirista faz algumas “homenagens” com esse filme. Christine, o nome de batismo de Lady Bird, era o nome da mãe de Greta Gerwig. Além disso, a mãe da protagonista da história, trabalha como enfermeira, mesma profissão da mãe da diretora.

Este foi o último filme feito pela atriz Lois Smith.

A história ocorre entre os anos de 2002 e 2003.

Como a história desse filme sugere, Lady Bird foi realmente rodado nas cidades de Sacramento, na Califórnia; South Pasadena e Los Angeles, no mesmo Estado; e em Nova York – onde a protagonista começa a amadurecer.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Bird fez US$ 34,1 milhões apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado muito bom para um filme com “tintas” de independente.

Assistindo a esse filme, não tive como não lembrar da canção clássica da Legião Urbana. “(…) você me diz que seus pais não te entendem/ mas você não entende seus pais/ você culpa seus pais por isso, isso é absurdo/ são crianças como você/ o que você vai ser quando você crescer?”. Sim, mesmo os “revoltados” sempre percebem, mais cedo ou mais tarde, que tudo que eles gostariam eram do amor, do afeto e da “aceitação” dos seus pais. Mas todos nós somos falhos, e cada um tenta dar o melhor de sim. O quanto antes percebemos isso, melhor.

Lady Bird é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante a impressionante aprovação de 99% e a nota média tão impressionante quanto, para os padrões do site, de 8,8.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o processo de amadurecimento e de autodescoberta sobre o qual todos passam. Lady Bird é focado na protagonista que se autodenominou desta forma. Um filme com uma boa pegada humana, sensível, sobre as origens de uma pessoa e a aceitação dela sobre as suas origens, assim como os seus desejos de mudar. Mas, francamente? Apesar de ter uma boa pegada e belas interpretações, especialmente de Saoirse Ronan, Lady Bird não nos apresenta nenhuma ideia nova.

Quem já assistiu a um bocado de filmes viu, antes, outras produções com essa mesma proposta. Se você for sem expectativa alguma ver a essa produção, talvez ache ela melhor. Como eu esperava algo muito bom, achei Lady Bird apenas mediano. Sim, há bons diálogos e personagens bem desenvolvidas, mas não vi nada assim de tão fantástico nessa produção. Para mim, a experiência foi um tanto frustrante. Mas espero que para você que me lê, sinceramente, ela seja melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Então, minha gente, esse filme realmente caiu no gosto da crítica. Só não sei até que ponto ele caiu no gosto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, pelo andar da carruagem e avaliando não apenas os prêmios que o filme já recebeu mas as bolsas de apostas para o Oscar 2018, tudo indica que Lady Bird será bem indicado na premiação deste ano.

Não será uma surpresa se essa produção concorrer nas categoria de Melhor Filme, Melhor Diretora (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf) e Melhor Roteiro Original. Ou seja, tudo indica que Lady Bird será indicado a cinco estatueta. Quantas ele deve ganhar? As chances maiores, me parece, são para Laurie Metcalf como Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também será páreo duro e tem boas chances em Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Saoirse Ronan. Isso, ao menos, avaliando a opinião dos críticos e bolsas de apostas.

Da minha parte, pelo meu gosto pessoal, eu não daria o prêmio de Melhor Roteiro Original. Eu preciso ver a outros filmes que estão forte na disputa pelos prêmios, como The Shape of Water; The Post; Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; Call Me By Your Name; The Florida Project; Darkest Hour; All the Money in the World e I, Tonya, mas desde já eu acredito que eu não votaria em Saoirse ou Laurie para ganhar as suas respectivas estatuetas. Mas, como eu não voto no Oscar, 😉 vejamos o que virá por aí.

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The Nice Guys – Dois Caras Legais

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Uma bela trilha sonora, figurinos, um clima que nos transporta novamente para os anos 1970 e dois atores que se divertem em um filme despretensioso. The Nice Guys não apenas é ambientado nos anos 1970 e resgata o espírito dos filmes daquela época, mas também e principalmente tira sarro dos filmes de detetive. Feito para rir, ele tem algumas sequências realmente interessantes, especialmente de ação e de ironia.

A HISTÓRIA: Vista da cidade e música bacaninha. Estamos em Los Angeles, Califórnia, em 1977. Um garoto chama o cão para dentro. Sorrateiramente ele entra no quarto dos pais e pega uma revista de mulher pelada sob a cama. Ele vê a atriz pornô Misty Mountains (Murielle Telio), termina de tomar um copo de leite na cozinha enquanto vemos a um carro caindo morro abaixo. O veículo atravessa a casa e cai no quintal do garoto, que vê a mesma Misty Mountain semi nua pouco antes dela morrer. Corta.

Uma turma de estudantes assiste a um vídeo de aula da natação que tira sarro de uma toalha gay. Uma das alunas desta turma é o novo alvo do detetive Jackson Healy (Russell Crowe). Ele dá uma dura no novo namorado dela, muito mais velho e que tem um carrão e grana para comprar maconha para os dois. Ele é contratado sempre para resolver casos como este. Mas uma cliente, Amelia Kuttner (Margaret Qualley) acaba aproximando Healy de outro detetive particular, Holland March (Ryan Gosling). Os dois, na verdade, acabam se envolvendo por causa de Amelia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Nice Guys): Logo no início deste filme quem tem um pouco mais de memória ou idade vai se sentir no clima de Dancing Days. A trilha sonora de The Nice Guys é um dos pontos altos do filme. Assim como a proposta dele de tirar sarro dos filmes de detetive e/ou investidores particulares dos anos 1970 – e de outros tempos depois.

Para alívio de quem está incomodado com o politicamente correto exagerado dos nossos tempos, The Nice Guys apresenta um antídoto que, diferente de The Hangover (comentado aqui), não cai na piada simples e nem no exagero que pode provocar o efeito oposto. Não. The Nice Guys tem a ironia e a tiração de sarro dos protagonistas e do estilo de filme na medida certa. Não tem um humor boboca e nem recorre ao preconceito de qualquer categoria para fazer rir. Apenas isso já é um grande alívio.

Verdade que o filme utiliza o clima de suspense e de produções policiais como desculpa para existir. A história em si é meio boba, meio exagerada, centrada em uma grande investigação sobre uma jovem atriz que é meio sem pé nem cabeça. A própria definição da história também gira um pouco sobre o nonsense, mas é justamente aí que reside a graça deste filme. Sem disfarçar os roteiristas Shane Black e Anthony Bagarozzi deixam claro que os filmes de detetive são uma grande desculpa para entreter. Não vais tirar deles nenhuma grande mensagem ou lição. A diversão é o que conta.

E neste sentido de diversão este filme se sai muito, muito bem. The Nice Guys está para os filmes de detetive assim como Kick-Ass (comentado aqui) está para os filmes de super-heróis. O que eles tem em comum? Primeiro, ambos tiram sarro da essência dos filmes do gênero. Depois, ambos tem bastante estilo – que pode ser visto pela trilha sonora escolhida à dedo, ótimas edições e trabalho do elenco.

Terceiro ponto: os dois filmes não tratam as crianças como coadjuvantes, mas como protagonistas que não tem papas na língua e nem medo de tiroteio. Nesta tiração de sarro que os dois filmes fazem de seus respectivos gêneros também sobram sequências politicamente incorretas – mas nada que extrapole muito a sensibilidade das pessoas.

O diretor Shane Black fez um belo trabalho de pesquisa e realmente levou todo o espírito dos anos 1970 para este filme. O que é um verdadeiro deleite para os espectadores já que, convenhamos, os anos 1970 foram maravilhosos para o cinema. A exemplo do que Quentin Tarantino tinha feito, antes, com Jack Brown, aqui novamente é apresentado com talento por Black. A diferença é que The Nice Guys é bem mais engraçado e irônico com os seus protagonistas e com aquela época do que o respeitoso filme de Tarantino.

O roteiro de Black e Bagarozzi faz lembrar Tarantino em sua melhor forma na rapidez dos diálogos e pela “filosofia do cotidiano”. Além disso, o filme funciona bem, além dos elementos técnicos que ajudam a mergulhar o espectador no clima dos anos 1970, porque os dois protagonistas claramente se divertem muito ao participar desta produção. Fundamental para esta produção também é a jovem atriz Angourie Rice que vive a filha de March, Holly. Ela é a revelação da produção, com diálogos e atitudes ótimas e que dão muito humor para a produção.

O próprio título desta produção é uma ironia. Os protagonistas do filme são tudo, menos caras legais. Como acontece em muitos filmes, o roteiro de The Nice Guys trabalha para que gostemos deles, mas eles tem mais a ver com vilões do que com heróis. Ou podem ser vistos como clássicos anti-heróis bonachões que amamos odiar – ou que, muitas vezes, não chegamos a odiar.

Ambos são trapalhões, levam e dão bastante porrada e fazem quase tudo para conseguir o que querem – incluindo intimidar pessoas e matá-las no caminho para conseguirem o que querem. Quer dizer, Healy tem mais esta vertente de bater até matar, se necessário. Não há dúvidas de que Healy tem mais experiência que March e de que ele é o especialista da dupla em bater. March aparentemente é o mais esperto – mas ele tem uma quedinha por bebidas e mulheres que muitas vezes não o ajuda nas missões. A sorte dele é que Holly sempre está por perto, contrariando o próprio pai e, muitas vezes, se colocando em risco.

No início do filme Healy ganha uma grana de Amelia para que ele afaste as pessoas que estão tentando localizá-la. Por causa disso ele conhece March. March, por sua vez, está atrás de Amelia não pelas razões que ela ou Healy imaginam, mas porque ele está investigando o sumiço da atriz pornô Misty Mountains – ele foi contratado por Mrs. Glenn (Lois Smith) para encontrar a sobrinha dela. Não demora muito, contudo, para os dois se aliarem para buscar Amelia. Outros personagens entram em cena para complicar a história – como bandidos que estão atrás de Amelia – e a resolução para a trama tem um ponto alto com a perseguição final do filme que acabou causando tudo isso.

Filme bem construído, com os detalhes técnicos funcionando muito bem, tem um roteiro também bem pensado e que funciona bem praticamente o tempo inteiro. Apenas algumas sequências sem muito pé nem cabeça – como Amelia que, em teoria, estava querendo se esconder, naquela festa cheia de pessoas do cinema, e aquele sonho alucinante de March no carro – poderiam ter sido cortadas ou construídas de outra forma. Elas acabam enfraquecendo um pouco a narrativa, mas sem comprometer tanto o resultado final.

Os roteiristas também exageraram um pouco na dose de colocar crianças falando sacanagem – isso vale, em especial, para a sequência de Holly com a atriz pornô na festa do diretor de cinema. Por outro lado são brilhantes a sequência envolvendo a recuperação do filme de Amelia e amigos no final e o próprio destino da jovem atriz – afinal, se na vida real acontecem sequências impressionantes para o bem, também acontecem fatos inacreditáveis negativos. Gostei de um filme mostrar a segunda situação, só para variar. 😉

Também é um belo acerto do filme ter uma certa reviravolta no final – quando parecia que a história já tinha terminado, ainda temos um “grand finale”. E ainda que a história seja apenas uma desculpa para muito humor e cenas de ação, no final é interessante uma certa reflexão sobre como os poderosos de Detroit poderiam chegar muito longe para defenderam os seus negócios e que os mocinhos tem um efeito limitado na vida real. No fim das contas, há uma grama de crítica neste filme focado em diversão. Bastante politicamente incorreto, mas sem cair na avacalhação ou na piada fácil, este filme vale a diversão. Com alguns descontos aqui e ali, é um bom divertimento.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei muito interessante a união entre o experiente Russell Crowe, que não vemos muito fazendo comédia, com o versátil e cada vez mais interessante Ryan Gosling. Crowe segue sendo o cara mais sério da produção, aquele que normalmente tem o controle da situação e está atento a cada detalhe, mas ele também se mete em encrenca e se atrapalha. É bom ver o ator saindo um pouco do lugar-comum e fazendo algo diferente. Ryan Gosling está ótimo, como normalmente o vemos. Sem dúvida alguma um dos melhores nomes da sua geração e uma figura que merece ser acompanhada de perto.

A jovem Angourie Rice, ao lado destas duas figuraças e com o roteiro de Shane Black e Anthony Bagarozzi para se divertir, acaba sendo a grande revelação deste filme. O estilo dela em The Nice Guys nos faz lembrar As Panteras. Uma garota destemida e pronta sempre para impedir os bandidos e para defender quem está sendo perseguido. Filha de atores, ela tem 13 produções no currículo. Ela estreou com o curta Hidden Clouds, de 2009, e fez o seu primeiro longa em 2013, a produção These Final Hours. Depois de The Nice Guys ela fez Jasper Jones, atualmente em fase de pós-produção, e está filmando Spider-Man: Homecoming. Vale acompanhá-la também.

Os detalhes técnicos deste filme fazem toda a diferença. Para começar, vale aplaudir a trilha sonora deliciosa e muito bem escolhida de David Buckley e John Ottman. Depois, funciona muito bem a direção de fotografia de Philippe Rousselot, a edição de Joel Negron, os ótimos figurinos de Kym Barrett, o design de produção de Richard Bridgland, a direção de arte de David Utley, a decoração de set de Danielle Berman, e o trabalho competente da equipe de maquiagem com 23 profissionais. Todos estes elementos são importantes para a história e para o resultado final da produção, assim como a edição de som e a mixagem de som e os efeitos visuais.

The Nice Guys é um filme centrado nos dois protagonistas e com destaque, entre os coadjuvantes, para a filha de March. Mas ele também tem vários coadjuvantes que ajudam a dar molho para a história. Além das atrizes já citadas, que estão muito bem como Amelia (a jovem Margaret Qualley) e Mrs. Glenn (Lois Smith), vale citar as ótimas participações de Matt Bomer como John Boy (o assassino profissional mais fera da história); Yaya DaCosta como Tally, secretária de Judith Kuttner (Kim Basinger em uma ponta de luxo); Keith David ótimo como Older Guy, um dos bandidos que procura Amelia; Beau Knapp também muito bem como Blueface (o outro bandido em busca da jovem atriz); e Daisy Tahan como Jessica, amiga de Holly e que acaba envolvida em uma das cenas de ação da história. Todos estão muito bem, ainda que muitos tenham poucos diálogos na história – mas a participação de todos é importante. Como ponta, vale ainda citar Lance Valentine Butler como o garoto da bicicleta. 😉

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre Shane Black. Fiquei surpresa com o trabalho dele – especialmente com o roteiro. Daí fiquei sabendo que ele é considerado um dos roteiristas pioneiros do gênero de ação como o conhecemos atualmente. Ele foi responsável, por exemplo, pelo roteiro de Lethal Weapon, filme de 1987 com Mel Gibson e Danny Glover que tem em comum, com este The Nice Guys, a ação e o humor. Ele não tem muitos roteiros no currículo – soma apenas 16 desde então. Mas tem um trabalho também como ator e, aparentemente, tem altos e baixos como roteirista – afinal, não dá para achar o roteiro de Last Action Hero com algo bom, não é mesmo?

The Nice Guys estreou no dia 15 de maio na Bélgica e no Festival de Cinema de Cannes. Até agora este foi o único festival em que ele participou. Dá para entender isso porque este é um filme essencialmente comercial.

Este filme teria custado cerca de US$ 50 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos e até o último dia 17, pouco mais de US$ 36 milhões. Com este ritmo e levando em conta os outros mercados em que o filme já estreou e vai estrear, provavelmente ele vai registrar um lucro satisfatório.

The Nice Guys é uma produção 100% dos Estados Unidos e foi rodada totalmente naquele país em cidades como Los Angeles, Covina e Atlanta.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Inicialmente The Nice Guys foi pensado para ser uma série de TV. Mas os realizadores mudaram de ideia porque o piloto parecia não estar levando a lugar nenhum. Bem, até daria para desenvolver uma série com a mesma filosofia do filme, mas realmente acho que ficou melhor em quase duas horas do que em diversas horas de uma série de TV.

Uma marca registrada do diretor Shane Black e que volta a ser utilizada neste filme é que uma das cenas finais da produção se passa na época de Natal. E a última curiosidade: a contagem de mortos neste filme chega a perto de 20.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Uma bela avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e apenas 21 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,6. Um belo nível de aprovação, sem dúvida. E merecido, cá entre nós.

Não sei vocês, mas com este sucesso de crítica e um bom resultado nas bilheterias, não acho difícil esse filme ter uma continuação. Até pela forma com que ele termina. Não me surpreenderei se isso acontecer. Só espero que uma segunda produção mantenha as qualidades desta primeira.

CONCLUSÃO: Este é o típico filme “arranje uma desculpa qualquer de enredo para fazermos um filme de ação”. The Nice Guys tem uma história um tanto forçada, tirada de uma cartola, mas que torna ainda mais evidente o conceito de que o que importa é o desenrolar da história e nem tanto a essência dela. Casa bem com os nossos dias de gente opinando sobre tudo nas redes sociais, não? Para quem gosta dos filmes dos anos 1970 – como não gostar deles? – esta produção faz uma bela homenagem para todo aquele estilo e aura. E para completar, temos os atores Ryan Gosling e Russell Crowe realmente se divertindo em seus papéis. Além disso, é bom ver um filme “politicamente incorreto” na medida para variar. Incorreto, mas com inteligência. Um belo achado para pura diversão.