Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – Três Anúncios para Um Crime

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Quando um crime brutal e absurdo acontece, as pessoas mais próximas exigem e querem justiça. Mas de que justiça, exatamente, estamos falando? Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, parece repassar todos os filmes sobre familiares que buscam vingança e produções que trataram sobre a algumas vezes questionável polícia de algumas partes dos Estados Unidos.

Não deixa de ser um tanto irônico que este filme seja estrelado por Frances McDormand, a ótima atriz que fez história por viver justamente uma policial do interior no ótimo e já um tanto distante Fargo, de 1996. Essa nova produção é um filme bem escrito, com atuações condizentes e com um e outro questionamento que é muito bem-vindo nos dias de hoje em que tantas pessoas continuam acreditando que a vingança pode ser uma boa solução para a dor.

A HISTÓRIA: Três outdoors que há muito tempo não vêem a um anúncio novo. Grande parte de cada uma das publicidades, de décadas atrás, já desapareceu. Ninguém dá bola para aqueles outdoors porque ninguém dá bola para aquela estrada. Mas é por ela que Mildred (Frances McDormand) passa todos os dias. Em um destes dias, ela olha para aqueles outdoors de uma maneira diferente. E aí ela tem a grande ideia. Após dar uma ré, Mildred vê que os responsáveis pelos outdoors são da Companhia de Publicidade de Ebbing. E é para lá que ela vai. Mildred gasta as economias que tem para reservar por um ano aqueles outdoors e paga o primeiro mês adiantado. Tudo para denunciar o descaso da polícia local com a morte brutal de sua filha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Three Billboards Outside Ebbing, Missouri): Eis um filme no estilo “gente como a gente”. Afinal, quem nunca se colocou no lugar de alguém que perdeu uma pessoa próxima de forma brutal e que ficou indignado com a falta de uma resposta por parte das autoridades? Todos nós podemos entender essa indignação. Porque por mais que a pessoa “aceite” o que aconteceu com o passar do tempo, o desejo por um “mínimo de justiça” faz parte do desejo de qualquer pessoa.

Então sim, dá para entender a personagem principal desse filme e colocar-se no lugar dela. A indignação de Mildred com a falta de respostas a faz colocar o dedo na ferida da polícia local. E esse é outro ponto marcante do filme dirigido e escrito por Martin McDonagh. Ele sabe explorar muito bem algumas questões que estão arraigadas nos recônditos mais profundos da “alma americana”. Three Billboards se debruça sobre o “cowboy” típico do interior, questiona a ineficiência da polícia nesses locais e alguns comportamentos que ainda não foram expurgados daquela sociedade, como o preconceito racial.

Mas a boa sacada do filme não termina por aí. Three Billboards surfa a onda da indignação cívica muito bem. Esta produção tem a cara do nosso tempo. Afinal, a protagonista corajosa dessa produção, motivada por toda a sua indignação, resolve fazer algo a respeito. Primeiro, ela usa da sua inteligência. Sabe que a “propaganda é a alma do negócio” e que, muitas vezes, a polícia se incomoda mais com a imagem que ela tem do que com o número de casos resolvidos. Depois, claro, ela acaba radicalizando um pouco demais, e ultrapassando a fronteira do bom senso.

Mas, para fazer isso, ela tem um grande incentivo: o ótimo personagem do policial Dixon (Sam Rockwell). Ele incorpora, até um certo ponto de forma um tanto caricatural, todos os defeitos de um policial do interior americano metido a macho e a problemático. E o pior é que sabemos que existem policiais assim, e não apenas por aquelas altitudes. São homens com problemas sérios que utilizam uma farda para poder dar vazão para toda a sua insatisfação com a vida e com os outros. Tudo o que eles tem reprimido, a sua raiva e indignação, acaba sendo utilizada através de sua “autoridade” para colocar terror na cidade.

Esse personagem, que só não fica realmente caricatural por causa do talento de Rockwell e do ótimo texto de McDonagh, só coloca gasolina na até então pequena fogueira criada pela protagonista de Three Billboards. Enquanto o sujeito que tem o seu nome colocado no último outdoor, o chefe de polícia Willoughby (Woody Harrelson) mantém a cabeça no lugar e tem sensibilidade, inteligência e bom humor para lidar com a situação com elegância, Dixon mete os pés pelas mãos – especialmente quando Willoughby faz a sua “saída” magistral do cenário motivado por outras razões que não a publicidade indignada de Mildred.

Daí outra sacada interessante de McDonagh. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A protagonista desta produção descobriu algo que os mais atentos já perceberam nos dias de hoje: mais importante do que a ética e a consciência, para muitos, nos dias de reinado das redes sociais, o que interessa é a reputação, o que os outros pensam ou dizem sobre você. Claro que essa interpretação da realidade está distorcida e é equivocada, mas quantos, realmente, tem coragem e condições de pensar por conta própria?

Assim, para as pessoas daquela cidade do interior dos Estados Unidos, onde Mildred denuncia a ineficiência do chefe de polícia e de sua equipe em três outdoors, o que realmente importa é como ela colocou em dúvida toda a reputação da “encarnação” da segurança da cidade. Ora, ela não deveria ter feito isso com um cara “gente fina” como Willoughby, especialmente quando ele estava tão doente. Então as pessoas se compadecem do chefe de polícia, mas não da mulher que tem poucos amigos e que não adula ninguém e que apenas deseja uma resposta para a morte da filha?

Sim, é bem esse “senso de justiça” que vemos em muitas ruas e cidades mundo afora. As pessoas gostam de ter dois pesos e duas medidas, mesmo não admitindo isso. De que outra forma a figura de Willoughby pode ser considerada mais importante que Mildred na cidade de Ebbing, no Missouri, ou em qualquer outra parte? Com uma certa facilidade as pessoas “escolhem i, lado” e conseguem classificar umas pessoas como sendo melhores que outras. Mas quem, realmente, se importa em conhecer a história, os sentimentos e o que pensa a tal pessoa que eles gostam de atacar?

Vivemos em tempos complicados, em que muitas pessoas gostam de fazer esse tipo de classificação e de acabar com alguém apenas porque aquela pessoa não se enquadra no seu “modelo ideal”. Dessa forma, Three Billboards coloca o dedo em mais essa ferida exposta, em como a nossa sociedade – e não apenas a “do interior”, onde estão os “caipiras”, os “retrógrados” e outros tipos de classificação utilizadas para atacar e estigmatizar determinados grupos que não são homogêneos – acaba excluindo e julgando uma mulher “divorciada”, que não conseguiu “segurar o seu marido” e que criou os filhos sem o pulso firme que deveria.

Esse é o tipo de julgamento que se faz de uma pessoa como Mildred. Como ela não tem a preocupação de ser a pessoa que agrada a todos, muito pelo contrário, quase toda a cidade fica contra ela quando ela cobra uma atitude da polícia local. A forma com que ela faz isso e chama a atenção da imprensa para o caso da filha é genial, mas rapidamente todos se voltam contra ela por causa da condição de saúde de Willoughby.

Tudo teria acontecido com uma relativa “calma” e controle se Mildred não tivesse uma figura como Dixon e como o ex-marido dela, o também policial Charlie (John Hawkes), do lado oposto de sua busca por justiça. Dixon é um policial racista e violento que, quando não está ameaçando os outros, está na delegacia lendo gibi, comendo salgadinhos e fazendo nada. Ele tem uma mãe “típica” (interpretada por Sandy Martin) que lhe ajuda a ter as ideias mais imbecis e reprováveis possíveis.

Da sua parte, Willoughby parece ser o único sujeito centrado da história. Não por acaso ele tem tantos “fãs”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Claro que ele fica incomodado com a provocação de Mildred, mas, mais que isso, ele está incomodado por não ter como avançar na investigação da morte de Angela Hayes (Kathryn Newton). Ele encara por um bom tempo a luta contra um câncer agressivo, até que resolve terminar com a própria história por sua própria conta. Aí sim Dixon entra em parafuso e desperta uma reação de Mildred tão maluca quanto.

Dessa forma, e de maneira muito sutil, McDonagh mostra que a ciranda da violência nunca tem fim. E que pessoas boas acabam pagando caro apenas por entrar no caminho de pessoas cheias de raiva. Ainda que Mildred e Dixon pareçam tão diferentes, a violência que eles acabam alimentando e a busca por extravasar a própria insatisfação com as suas vidas e realidades os torna igualmente agentes do caos. McDonagh revela, para os mais atentos, como a violência apenas gera mais violência e que, no final, não importa quem seja punido, porque o que foi perdido nunca será recuperado.

Então volto a perguntar: será a vingança e a busca pela justiça sem medidas realmente o melhor caminho? Mildred até começou essa história cheia de razão, mas será que ela terminou da mesma forma? (SPOILER – não leia… bem você já sabe). O final desse filme não é conclusivo. E há, basicamente, duas formas de cada um “terminar” essa história. Ou Mildred e Dixon acabam perseguindo o suspeito que sabemos que não foi culpado pela morte de Angela e o matam porque, afinal, ele parece ter estuprado alguma menina em algum momento, como Dixon comentou, ou eles chegam até o endereço do alvo e simplesmente o deixam em paz. Voltam para a casa após uma viagem de busca, de redenção e de perdão.

A escolha pelo que acontece após a última cena terminar é de cada espectador. Da minha parte, acredito na segunda versão. Acho que Mildred e Dixon já gastaram boa parte da raiva que tinham e, depois de terem feito o que fizeram, de terem sentido a dor como sentiram e de provocarem o caos que causaram, eles estão em outro momento. Estão na fase de redenção, resignação e de perdão um do outro e dos demais. O processo de cura, me parece, para os dois, apenas começou, mas acho que eles vão seguir adiante. Sim, eu tenho uma tendência de pensar sempre positivo.

Mas mesmo que o final não tenha sido esse, mas aquela primeira opção… Three Billboards já serviu ao seu propósito de nos fazer pensar. Afinal, matar uma pessoa apenas por achar que ela fez algo errado com alguém em algum momento é realmente “buscar justiça” e/ou vingança? Se a resposta for sim, é porque no fundo o que as pessoas querem é cair na barbárie também. Matar alguém para dar vazão para a própria raiva e insatisfação. Isso, para mim, nunca será nem uma sombra de justiça. Será apenas a queda civilizatória, mais uma vez, na barbárie.

Three Billboards trata de tudo isso de forma magistral, com ação, emoção, humor, um belo roteiro, direção e atores inspirados. Sim, outros filmes, inclusive dos irmãos Coen, já trataram daquele mesmo cenário e de alguns desses mesmos personagens. Mas acho que o filme de McDonagh consegue avançar com um passo a mais em relação à maioria das produções do gênero. E isso não é pouca coisa. Para a nossa sorte.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: É fácil de perceber quando um filme é bem escrito. Quando ele tem dois “lados” muito bem delineados na história e quando esses dois lados provocam empatia e compreensão. Não é difícil entender a indignação, a revolta e o desespero que movem a protagonista de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, assim como não é difícil de entender os argumentos do seu “rival” inicial na trama, o chefe de polícia Willoughby. Quem nunca se colocou no lugar de uma mãe que perdeu um filho de forma brutal e que percebe que o crime não será resolvido? E quem não consegue compreender que existem limites para a lei e para a busca da justiça? Three Billboards apresenta estas duas realidades muito bem.

Apesar do filme ser tão cheio de qualidades, impossível não pensar em diversas outras produções, inclusive algumas dos irmãos Coen, que já pisaram exatamente aquelas terras. O interior dos Estados Unidos, com todas as suas particularidades, preconceitos e conflitos, volta e meia é bem explorado pelos realizadores de Hollywood. Sendo assim, apesar de ser muito bem escrito e realizado, esse Three Billboards não é, exatamente, inovador.

Mas, ainda que esta produção não “inventa a roda”, ela traz uma brisa nova para um gênero que já conhecemos. Então, o primeiro que merece o nosso aplauso é o diretor e roteirista Martin McDonagh. O trabalho dele é um dos principais trunfos dessa produção. Seja pelo texto inteligente, que equilibra diversos elementos muito bem, seja pela direção que privilegia o trabalho dos atores e que explora muito bem a paisagem interiorana.

Curioso que este é apenas o quarto filme dirigido por McDonagh. Ele estreou na direção com o curta Six Shooter, em 2004. Depois, estreou em longas com o interessante In Bruges, em 2008, comentado por aqui. E o terceiro filme dirigido por ele foi Seven Psychopaths. Como ele mistura uma pegada Tarantino, com uns toques de Soderbergh e dos irmãos Coen, acredito que ele apenas está começando a despontar. Deve nos surpreender muito ainda daqui para a frente.

Falando nos destaques dessa produção, impossível pensar esse filme sem a estrela de Frances McDormand. Essa atriz, tão valente e interessante na escolha de seus papéis, faz uma entrega incrível em Three Billboards. Aos 60 anos de idade, McDormand tem a chance de ganhar com Three Billboards o seu segundo Oscar.

Curioso que o primeiro foi ganho justamente por Fargo, um filme que tem muita relação com essa nova produção. É como se a policial de Fargo evoluísse para a versão de mulher mais empoderada, realista e anarquista de Three Billboards. Inclusive, sou franca, me deu vontade de rever Fargo… afinal, se passaram 21 anos desde aquela experiência de assistir a um dos filmes que fizeram a fama de McDormand e dos irmãos Coen. Por essa evolução da figura feminina e da atriz, sou franca em dizer, estou na torcida por Frances McDormand nesse Oscar. E, claro, pelo excelente trabalho dela nesse Three Billboards. Ela realmente é a alma do filme.

Ainda que Frances McDormand esteja perfeita em Three Billboards, ela não é o único nome de destaque da produção. Dois atores também estão ótimos e mostram como amadureceram com o passar do tempo. Destaco, claro, Sam Rockwell como o aloprado e bastante representativo Dixon, e Woody Harrelson como Willoughby. Eles interpretam dois perfis muito diferentes de policiais, mas que se completam, no fim das contas. Bonito como Willoughby acredita em Dixon de uma maneira que o próprio aprendiz de policial não acredita. Essa crença mostra como qualquer pessoa, por mais “torta” ou “errada” que seja, pode mudar de atitude se receber a confiança e a aposta necessária.

Os três atores roubam a cena cada vez que aparecem. Estão muito bem, realmente. Mas tem outros atores em papéis secundários que também fazem um bom trabalho. Destaque, nesse sentido, para Caleb Landry Jones como Red Welby, o gerente da empresa de publicidade que aceita a encomenda de Mildred; Kerry Condon em quase uma ponta como Pamela, secretária de Red; Lucas Hedges como Robbie, filho de Mildred que encara a indignação da cidade com o que a mãe fez na escola; Darrel Britt-Gibson como Jerome, um negro que já sentiu na pele a ignorância de Dixon e que ajuda Mildred com os outdoors; Zeljko Ivanek como o sargento que é o braço direito de Willoughby; Amanda Warren como Denise, amiga e colega de Mildred e uma de suas poucas aliadas; Abbie Cornish como a linda Anne, esposa de Willoughby; Sandy Martin muito bem como a mãe de Dixon; e Peter Dinklage como James, um amigo de Mildred que quer ser mais que um amigo.

Além deles, vale citar o trabalho de outros coadjuvantes: Jerry Winsett como Geoffrey, o “dentista gordo” que faz questão de dizer que é aliado de Willoughby; Kathryn Newton em uma super ponta como Angela Hayes; John Hawkes como o odioso Charlie, ex-marido violento e cretino de Mildred; Samara Weaving como Penelope, a namorada de 20 e poucos anos de Charlie; Clarke Peters como Abercrombie, o novo chefe de polícia que acaba colocando a casa em ordem; e Brendan Sexton III como o sujeito esquisito e ameaçador que vira o suspeito nº 1 de Dixon.

Entre os elementos técnicos desse filme, sem dúvida alguma o destaque vai para o roteiro e a direção competentes de Martin McDonagh. Depois, vale citar a boa direção de fotografia de Ben Davis; a trilha sonora de Carter Burwell; a ótima edição de John Gregory; o design de produção de Inbal Weinberg; a direção de arte de Jesse Rosenthal; a decoração de set de Merissa Lombardo; os figurinos de Melissa Toth; e a maquiagem de Susan Buffington, Leo Corey Castellano, Cydney Cornell, Jorie Mars Malan, Lindsay McAllister e Meghan Reilly.

Three Billboards estreou em setembro de 2017 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 31 festivais. Uma verdadeira maratona. Em sua trajetória, até agora, o filme colecionou 68 prêmios, sendo quatro deles no Globo de Ouro, e foi indicado ainda a outros 152 prêmios. Números impressionantes. No Globo de Ouro, o filme concorreu a seis prêmios, e ganhou os de Melhor Filme – Drama; Melhor Roteiro; Melhor Atriz para Frances McDormand; e Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell.

Um pequeno comentário sobre algumas cenas na reta final dessa produção. (SPOILER – realmente não leia se você ainda não assistiu ao filme). O diretor McDonagh deixa algumas imagens que podem nos fazer pensar na reta final de Three Billboards. Deixo claro aqui que são apenas suposições minhas, ok? Vocês não precisam concordar com elas. Tudo começa na ligação de Dixon para Mildred dizendo que o cara que ele tinha como suspeito não era o culpado. A impressão que eu tive é que Dixon estava prestes a estourar os próprios miolos quando Mildred deu a ideia deles viajarem no dia seguinte. E a mãe dele, afinal, estava viva ou morta? Pergunta que ficou sem resposta. A forma com que Mildred se despede do filho também dá a entender que ela pretende matar o cara que eles vão encontrar. Mas… por outro lado, ela diz que ela e Dixon devem decidir sobre o que farão no caminho. Sacadas interessantes do diretor, de deixar as motivações e a realidade dos dois personagens mais em aberto.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. No início, a atriz Frances McDormand estava relutante em aceitar o papel de Mildred, mas ela acabou sendo convencida pelo seu marido, o diretor Joel Coen. Segundo a atriz, quando ela recebeu o convite para fazer Mildred, ela tinha 58 anos de idade. Daí ela pensou: “Mas mulheres do estrato socioeconômico de Mildred não esperam até os 38 anos para ter o primeiro filho”. Ela estava relutante, portanto, por causa da idade que ela tinha e para que a personagem não parecesse “forçada”. Mas aí o marido dela disse “Cale-se e faça o filme!”. Por causa dela ter ouvido o conselho, a atriz já coleciona 16 prêmios por seu desempenho como Mildred e tem sérias chances de ganhar o Oscar.

O diretor Martin McDonagh escreveu o papel de Mildred tendo a atriz Frances McDormand na cabeça. Realmente, o papel parece cair como uma luva para a atriz, que honra também a personagem. Um casamento perfeito.

Esta produção foi rodada em uma pequena cidade que fica nas montanhas do Estado da Carolina do Norte. O nome da cidade é Sylva. Muitos moradores locais aproveitavam os intervalos para tirar fotos e pedir autógrafo do ator Woody Harrelson, que atendia a todos de forma muito simpática – inclusive tocando uma guitarra de forma improvisada em uma pequena loja para alegria do povão local.

O filme que a mãe de Dixon está assistindo na TV, com Donald Sutherland, é Don’t Look Now, que foi comentado aqui no blog nesse texto. Essa mesma produção foi “homenageada” por McDonagh em In Bruges. Realmente, o filme dirigido por Nicolas Roeg é um verdadeiro clássico dos filmes de suspense/ação. Merece ser visto e revisto – fiquei com vontade de revê-lo, aliás.

A bandana que Mildred usa no filme é uma homenagem a outra grande produção, The Deer Hunter – de quem McDonagh e Sam Rockwell são grandes fãs.

McDonagh se inspirou a escrever o roteiro de Three Billboards após ver alguns cartazes sobre um crime não solucionado em uma viagem que fez na região do Alabama.

Three Billboards arrecadou pouco mais de US$ 30,6 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 11,7 milhões nos outros países em que já estreou. Ou seja, até o momento, fez pouco mais de US$ 42,3 milhões. Uma boa bilheteria, mas nada extraordinário também.

Esse filme é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido – esse último, o país natal de Martin McDonagh. Por ser um filme dos Estados Unidos, também, Three Billboards atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e que pedia produções desse país por aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 textos positivos e 19 negativos para Three Billboards, o que garante para o filme uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6. Tanto a nota do IMDb quanto a do Rottent Tomatoes estão excelentes para o nível de exigência dos dois sites. O que demonstra como Three Billboards caiu no gosto popular e da crítica.

CONCLUSÃO: Quantos filmes em que um personagem foi buscar a justiça pelas próprias mãos você já assistiu? Será, realmente, que é esse tipo de filme que ainda faz sentido para a gente? Three Billboards Outside Ebbing, Missouri parece desarmar algumas bombas e mostrar que, apesar da indignação e da raiva serem combustíveis que podem ser bem utilizados, em algumas situações, é o perdão e a busca da compreensão do outro que realmente podem fazer a diferença. Um filme inteligente, com belas interpretações e com um final em aberto que deixa o desfecho ao gosto do freguês. Produção importante que caminha por trilhas já conhecidas mas que desvirtua alguns conceitos para fazer o público pensar.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, é um dos filmes favoritos para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Pelas indicações que já recebeu, em diferentes premiações, esse filme tem grandes chances de ser indicado em pelo cinco categorias das principais do Oscar 2018: Melhor Filme; Melhor Diretor, para Martin McDonagh; Melhor Atriz, para Frances McDormand; Melhor Ator Coadjuvante, para Sam Rockwell; e Melhor Roteiro Original.

Além destas categorias, o filme poderá concorrer ainda em outras mais “técnicas”, como Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora. Ou seja, se o filme tiver um bom lobby, ele pode concorrer em até sete categorias. Mas em quantas ele realmente tem chances de ganhar? Essa pergunta já é um pouco mais difícil, porque tudo vai depender do potencial vencedor que cada um dos principais concorrentes desse filme terá na reta final da disputa.

Sem dúvida alguma os adversários a serem batidos são The Shape of Water, Dunkirk, Get Out e Lady Bird, com destaque para o primeiro e o último, que parecem estar crescendo nessa reta final para o Oscar. As maiores chances de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, parecem estar nas categorias Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e, correndo um pouco atrás nestas outras duas, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Só espero que o filme não saia da premiação de mãos abanando, porque ele merecia ao menos algum reconhecimento.

Entre os filmes que eu já vi, sem dúvida prefiro Three Billboards Ouside Ebbing, Missouri do que o “badalado” pela crítica Lady Bird. Ainda preciso ver The Shape of Water, mas entre os filmes que eu já assisti, eu não me incomodaria de I, Tonya ou Get Out surpreenderem, junto com esse Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Para o meu gosto, estes foram os melhores filmes que eu vi nessa temporada do Oscar.

Agora, levando em conta as bolsas de apostas e o meu gosto, eu diria que Three Billboards é o filme que está despontando como o meu favorito. Pelo andar da carruagem, apenas o filme do Guillermo del Toro pode desbancar a minha preferência pela produção de McDonagh. Estou curiosa para assistir a The Shape of Water e, em menor grau, aos outros filmes cotados para o Oscar. Veremos se algum deles vai mudar a minha preferência. 😉

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Lady Bird – Lady Bird: É Hora de Voar

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O final da adolescência é uma fase de autodescobertas e de muitas escolhas. É quando começamos a perceber melhor o que nos faz sentido, o que não faz, porque somos como somos e para onde queremos ir. Lady Bird trata dessa fase, das descobertas, de uma certa revolta e da aceitação pela qual passa uma adolescente. É um bom filme, mas sou franca em dizer que eu esperava mais. Primeiro, porque muitos apontam esse filme como um candidato sério a algumas indicações do Oscar e, inclusive, como possível vencedor em uma ou mais categoria. E, depois, pelas indicações que ele recebeu no Globo de Ouro e por ter sido premiado nesse domingo. A verdade é que a expectativa, que era considerável, não se realizou totalmente.

A HISTÓRIA: Começa com uma frase de Joan Didion: “Qualquer um que fale sobre o hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”. Em uma cama, Marion McPherson (Laurie Metcalf) está deitada ao lado da filha, Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan). Elas estão deixando uma cama de hotel, mas Marion faz questão de fazer a cama. A filha diz que ela não precisa fazer aquilo, mas Marion diz que é sempre bom fazer as coisas bem feitas. A mãe pergunta se a filha está pronta para voltar para casa, e Lady Bird diz que sim. Na volta para casa, de carro, mãe e filha ouvem o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Mas a paz entre mãe e filha logo vai terminar, quando uma simples discussão sobre ligar o rádio termina com um desfecho surpreendente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Bird): Algumas pessoas não estão satisfeitas com o lugar de onde elas vieram. E nem com a vida que elas tem. Elas sonham em viver em um lugar distante, onde podem “voltar a ser feliz”. A grande questão é que, geralmente, esta idealização de um local diferente não passa disso mesmo, de uma idealização. Com pouco fundo prático ou ligado à realidade.

Lady Bird nos fala um pouco sobre isso. Sobre a vida que uma pessoa leva, sobre as suas expectativas e desejos, assim como trata da autodescoberta e das relações familiares e com a rede de amigos que nos cerca. Essa produção é bastante honesta e “moderniza” alguns filmes sobre adolescentes que já vimos antes, mas realmente Lady Bird é um filme brilhante?

Eu vi muita gente falando sobre esta produção. Muitos citando ela como uma forte candidata ao Oscar. Como sempre, evitei de ler críticas sobre o filme antes de assisti-lo, mas foi impossível ignorar a ótima aprovação da crítica sobre Lady Bird e como o filme está bem nas “bolsas de apostas” do Oscar. Por isso, devo admitir, assisti ao segundo filme dirigido pela atriz Greta Gerwig com muita expectativa.

Estava esperando uma interpretação irretocável de Saoirse Ronan e um roteiro igualmente inesquecível. E ainda que a atriz esteja muito bem, eu não acho que ela teve um desempenho para ganhar muitos prêmios – especialmente se pensarmos na safra deste ano e em outros desempenhos de atrizes protagonistas. Mas ok, resolveram fazer de Lady Bird o “filme da vez”, e isso acontece de tempos em tempos em Hollywood. Alguns críticos e formadores de opinião resolveram amar esta produção e ela virou um fenômeno.

Sim, Lady Bird tem os seus méritos. Para começar, como eu disse antes, ele ajuda a explicar a juventude do início dos anos 2000 que está na fase de se formar no ensino médio e que tem várias dúvidas sobre o que fazer da vida na faculdade. A busca pela própria identidade, que passa pelas relações familiares, de amigos, os encontros e desencontros da escola e a expectativa da “primeira vez” fazem parte deste contexto e são abordados nesse filme.

Como pano de fundo, vemos a questão social de uma cidade comum americana no início dos anos 2000, quando o pai de uma família perde o emprego e a esposa dele deve dobrar o turno de trabalho para conseguir sustentar a família. Lady Bird tem muitas críticas para fazer contra a mãe, que realmente tem dificuldades de demonstrar carinho e de expressar para a filha o que sente, mas ela também não percebe o quanto a mãe se esforça para manter todos unidos, a casa funcionando e, apesar das dificuldades, ainda ajudar as pessoas.

Desta forma, o roteiro escrito por Gerwig pode fazer muitos adolescentes pensarem de forma um pouco mais ampla – e menos egoísta. Sim, é verdade que Marion muitas vezes é dura demais com Lady Bird. Mas, no fim das contas, o que Marion quer é dar responsabilidade e ensinar valores que ela considera importante para a filha. É verdade que, às vezes, no processo, ela pode fazer mais mal do que bem para Lady Bird – especialmente quando diz para a garota que ela não vai conseguir passar nas faculdades que ela quer ir.

Olhando de forma ligeira para isso, podemos pensar que Marion tem a necessidade de sempre estar “diminuindo” a filha. Como uma forma de compensar as próprias frustrações. Mas uma outra forma de olhar para isso é observar como Marion não quer, no fundo, que a filha vá para longe dela. Apesar de não saber demonstrar os seus sentimentos e de não ser carinhosa, Marion ama a filha da mesma forma com que ama Miguel (Jordan Rodrigues), o filho mais velho.

Algo interessante desse filme é que ele mostra com bastante franqueza a realidade dos jovens americanos de 15 anos atrás. A protagonista, que alimenta o sonho de sair da cidade natal, da qual ela não gosta, para lançar-se em uma cidade maior, passa por experiências marcantes do último ano do ensino médio do qual os americanos gostam tanto de falar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela acaba se lançando em uma aula de teatro, onde se apaixona pelo jovem Danny O’Neill (Lucas Hedges). Ela vai se frustrar com ele ao descobrir que o garoto é gay. Na sequência, ela se lança na direção de outro jovem, o “artístico” e “descolado” Kyle Scheible (Timothée Chalamet). Como aconteceu antes com Danny, que frustrou as expectativas da jovem, Kyle também a decepciona. E tudo passa – percebemos isso realmente com a passagem do tempo – pelas expectativas que ela nutria sobre uma “primeira vez especial” e sobre romances perfeitos.

Lady Bird mostra, desta forma, os primeiros contatos da protagonista com a frustração e com a realização de um grande desejo – materializado no fato dela conseguir passar em uma universidade que ela queria e, especialmente, sair da cidade natal. Mas quando ela finalmente atinge este “plano ideal”, ela percebe que sair de casa não era realmente o problema. O que ela precisava era começar a olhar para a vida de forma mais franca, sem filtros e distorções. Reconhecer melhor de onde ela vinha e o que formava a sua própria identidade.

Esse é sempre um processo interessante. Lady Bird trata de forma interessante estas questões, ainda que grande parte da história gire em torno das “estripulias” de uma adolescente meio revoltada, meio sonhadora. Sim, os personagens são bem desenvolvidos e há uma ou outra sequência interessante no filme. Mas, no geral, achei ele bastante previsível, um tanto cheio de lugares-comum e de ideias requentadas. Verdade que eu estava esperando um grande filme pela frente, e talvez por causa da minha grande expectativa eu tenha achado ele um tanto frustrante.

Não quero colocar a culpa em outras fontes, mas talvez por ter visto a filmes tão bons nessa safra pré-Oscar – especialmente as produções habilitadas para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, eu tenha esperado mais de uma produção considerada forte concorrente no ano. Para o meu gosto, produções de outros países que eu citei recentemente aqui no blog, como First They Killed My Father, The Divine Order, Loveless e On Body and Soul tiveram um impacto maior e um frescor de novidade muito maior do que Lady Bird.

Enfim, gosto é gosto. Por isso vou respeitar a todas as pessoas que discordarem de mim. Mas para os meus critérios de avaliação, Lady Bird é um filme com pouca criatividade e inovação. Fora a cena do carro, que está na parte inicial da produção, o restante desse filme não tem realmente um grande impacto ou surpresa. Sim, um filme não precisa ter isso para ser bom. Mas mesmo a parte “filosófica” e que faz pensar em Lady Bird me parece um tanto rasa.

Enfim, por tudo isso, achei esse filme abaixo das minhas expectativas. E só dou a nota abaixo para ele porque eu admito que ele faz um bom trabalho em dialogar com pais e filhos de uma geração mais nova – exatamente essa que nasceu nos anos 2000. Para eles, possivelmente, esse filme terá um efeito maior – até porque a maioria desses pais e filhos não assistiu a tantos filmes até o momento para perceber o quanto Lady Bird repete fórmulas. A contribuição desse filme para essa nova geração, a mensagem positiva da produção para o entendimento entre as pessoas diferentes de uma família, a aceitação de um indivíduo sobre as suas origens e as belas atuações que vemos em Lady Bird é o que me fazem dar a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém mais observador e que aparece com frequência aqui no blog deve ter notado que eu dei notas mais baixas do que o meu “normal” aqui nas últimas duas críticas. A verdade é que o comentário de um leitor aqui no blog, feito há pouco tempo, me fez repensar nas notas que eu ando conferindo para os filmes. E ainda que cada um tenha o seu critério de avaliação e de “pontuação”, e que esse critério deve ser respeitado, admito que o comentário me fez pensar que eu talvez andasse “muito generosa”.

Comentado isso, afirmo que a partir de agora eu tentarei ser mais “dura” e criteriosa com as notas altas. Realmente darei a nota máxima ou uma nota bastante alta para os filmes que me arrebatarem, que eu achar que são “imperdíveis”. Para os demais, tentarei ser um pouco mais justa na avaliação – especialmente na pontuação.

Sob esta ótica, provavelmente 50% das notas do blog deveriam ser rebaixadas. Mas vou pedir perdão para vocês porque eu não farei isso. Por pura falta de tempo. Se eu não tenho tido tempo nem de responder aos recados de vocês, quanto mais para rever com justiça todas as minhas avaliações aqui no blog. Conto com a generosidade dos leitores para entenderem notas possivelmente mais altas que eu dei anteriormente para filmes que não mereciam avaliação tão boa. A partir de agora, prometo, tentarei ser mais justa e criteriosa. 😉

Voltando a falar sobre Lady Bird, pois. Acho que um dos fatores que me fez não gostar taaanto assim desta produção – ao menos gostei menos do que a maioria dos críticos – foi o fato de que o nome dela me remeteu a outro filme. E, este sim, que eu achei muito mais potente e interessante. Me refiro a Lady Macbeth, produção que eu considero uma das melhores que eu vi em 2017. Enquanto, para o meu gosto, Lady Macbeth se mostra um filme potente e surpreendente, como eu comentei antes por aqui Lady Bird me pareceu um tanto requentado demais, com pouca novidade para mostrar.

Sem dúvida alguma o nome forte desta produção é o de Saoirse Ronan. A atriz soube encarnar muito bem o papel da protagonista. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente cheia de questionamentos e com uma certa “crise de identidade”. A atriz não se parece em nada com outros papéis que já desempenhou. Além dela, os destaques desta produção são Laurie Metcalf, que interpreta a mãe da protagonista, Marion; Tracy Letts em uma interpretação sensível como Larry, pai de Lady Bird; Lucas Hedges mais uma vez fazendo um belo trabalho, desta vez como Danny; e Beanie Feldstein como Julie Steffans, melhor amiga da protagonista. Estas são as pessoas que realmente brilham em cena e convencem.

Além deles, outros atores também fazem um bom trabalho, ainda que com menos destaque. Vale citar, neste grupo, Timothée Chalamet como Kyle, segundo “affair” de Lady Bird; Lois Smith como a Irmã Sarah Joan, que é bastante compreensiva com as suas alunas na escola católica; Stephen Henderson como o Padre Leviatch, coordenador do teatro e que sofre com uma certa “crise” na vida; Odeya Rush como Jenna Walton, a garota popular do colégio de quem Lady Bird se aproxima lá pelas tantas; Jordan Rodrigues como Miguel, irmão mais velho da protagonista; Marielle Scott como Shelly Yuhan, namorada de Miguel e que acaba sendo “adotada”/abrigada pelos McPherson; Jake McDorman como Mr. Bruno, um dos professores “gatos” da escola; e Daniel Zovatto como Jonah Ruiz, namorado de Jenna.

Gostei da direção segura de Greta Gerwig. Ela faz um trabalho sempre próximo dos atores e parece, por ser uma atriz bastante experiente, deixá-los bastante à vontade para que eles consigam exprimir tudo que ela deseja para os personagens que criou. O roteiro dela é bom, mas poderia ser melhor. Ela opta por uma narrativa linear, por uma cena na parte inicial de impacto, para “chocar” um pouco o espectador, mas depois acaba se rendendo a uma narrativa um tanto previsível. Desenvolve bem os personagens centrais, ainda que o filme sendo totalmente contado sob a ótica de Lady Bird acaba limitando um pouco a narrativa. Neste sentido, gostei mais, por exemplo, da narrativa fragmenta e com múltiplos olhares de Wonder.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia “naturalista” de Sam Levy; a edição precisa de Nick Houy; os figurinos de April Napier; o design de produção de Chris Jones; a decoração de set de Traci Spadorcia; e a trilha sonora praticamente ausente de Jon Brion.

Lady Bird estreou no dia 1º de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou de uma maratona de 17 festivais, um na sequência do outro. Nessa trajetória, o filme ganhou 55 prêmios e foi indicado a outros 126. Realmente são números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e para Melhor Atriz em Musical e Comédia para Saoirse Ronan.

O filme também apareceu na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI; a atriz Laurie Metcalf ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante 20 vezes; a atriz Saoirse Ronan venceu como Melhor Atriz oito vezes – sem contar o Globo de Ouro; Greta Gerwig recebeu três prêmios como Melhor Diretora; o filme ganhou cinco vezes o prêmio de Melhor Roteiro; e a produção foi reconhecida como Melhor Filme em quatro ocasiões  (descontado, novamente, o Globo de Ouro). Uma bela coleção de prêmios, não é mesmo?

Eu gosto muito de Greta Gerwig como atriz. Mas pelo burburinho que ela está provocando com Lady Bird, desconfio que ela vai “se jogar” mais na função de diretora e roteirista. Importante ponderar, contudo, que Lady Bird não é a sua estreia na direção. Ela debutou em 2008 com o filme Nights and Weekends, escrito e estrelado por ela. Mas sim, Lady Bird é apenas o seu segundo filme como realizadora. Agora sim, provocando efeito.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. As atrizes Saoirse Ronan e Greta Gerwig se conheceram no Festival de Cinema de Toronto de 2015, quando Saoirse estava promovendo Brooklyn e Greta estava divulgando Maggie’s Plan. Saoirse leu o roteiro de Lady Bird e imediatamente se sentiu conectada com a protagonista. As duas então discutiram o roteiro no quarto de hotel de Saoirse, quando Greta disse que tinha achado a sua “Lady Bird”.

De acordo com Gerwig, a primeira versão do roteiro desse filme tinha 350 páginas. Se o filme tivesse sido rodado a partir desse original, ele teria seis horas de duração.

Lady Bird quebrou o recorde de críticas positivas de Toy Story 2. A animação registrou 163 comentários positivos no site Rotten Tomatoes antes de registrar a primeira crítica negativa. Lady Bird registrou 196 críticas positivas antes de aparecer o primeiro comentário negativo. Mesmo não tendo mais 100% de críticas positivas, ele registra esse percentual de aprovação entre os “melhores críticos” do site. Algo impressionante e que ajuda a explicar o “burburinho” pro trás desse filme.

Interessante como a diretora e roteirista faz algumas “homenagens” com esse filme. Christine, o nome de batismo de Lady Bird, era o nome da mãe de Greta Gerwig. Além disso, a mãe da protagonista da história, trabalha como enfermeira, mesma profissão da mãe da diretora.

Este foi o último filme feito pela atriz Lois Smith.

A história ocorre entre os anos de 2002 e 2003.

Como a história desse filme sugere, Lady Bird foi realmente rodado nas cidades de Sacramento, na Califórnia; South Pasadena e Los Angeles, no mesmo Estado; e em Nova York – onde a protagonista começa a amadurecer.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Bird fez US$ 34,1 milhões apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado muito bom para um filme com “tintas” de independente.

Assistindo a esse filme, não tive como não lembrar da canção clássica da Legião Urbana. “(…) você me diz que seus pais não te entendem/ mas você não entende seus pais/ você culpa seus pais por isso, isso é absurdo/ são crianças como você/ o que você vai ser quando você crescer?”. Sim, mesmo os “revoltados” sempre percebem, mais cedo ou mais tarde, que tudo que eles gostariam eram do amor, do afeto e da “aceitação” dos seus pais. Mas todos nós somos falhos, e cada um tenta dar o melhor de sim. O quanto antes percebemos isso, melhor.

Lady Bird é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante a impressionante aprovação de 99% e a nota média tão impressionante quanto, para os padrões do site, de 8,8.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o processo de amadurecimento e de autodescoberta sobre o qual todos passam. Lady Bird é focado na protagonista que se autodenominou desta forma. Um filme com uma boa pegada humana, sensível, sobre as origens de uma pessoa e a aceitação dela sobre as suas origens, assim como os seus desejos de mudar. Mas, francamente? Apesar de ter uma boa pegada e belas interpretações, especialmente de Saoirse Ronan, Lady Bird não nos apresenta nenhuma ideia nova.

Quem já assistiu a um bocado de filmes viu, antes, outras produções com essa mesma proposta. Se você for sem expectativa alguma ver a essa produção, talvez ache ela melhor. Como eu esperava algo muito bom, achei Lady Bird apenas mediano. Sim, há bons diálogos e personagens bem desenvolvidas, mas não vi nada assim de tão fantástico nessa produção. Para mim, a experiência foi um tanto frustrante. Mas espero que para você que me lê, sinceramente, ela seja melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Então, minha gente, esse filme realmente caiu no gosto da crítica. Só não sei até que ponto ele caiu no gosto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, pelo andar da carruagem e avaliando não apenas os prêmios que o filme já recebeu mas as bolsas de apostas para o Oscar 2018, tudo indica que Lady Bird será bem indicado na premiação deste ano.

Não será uma surpresa se essa produção concorrer nas categoria de Melhor Filme, Melhor Diretora (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf) e Melhor Roteiro Original. Ou seja, tudo indica que Lady Bird será indicado a cinco estatueta. Quantas ele deve ganhar? As chances maiores, me parece, são para Laurie Metcalf como Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também será páreo duro e tem boas chances em Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Saoirse Ronan. Isso, ao menos, avaliando a opinião dos críticos e bolsas de apostas.

Da minha parte, pelo meu gosto pessoal, eu não daria o prêmio de Melhor Roteiro Original. Eu preciso ver a outros filmes que estão forte na disputa pelos prêmios, como The Shape of Water; The Post; Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; Call Me By Your Name; The Florida Project; Darkest Hour; All the Money in the World e I, Tonya, mas desde já eu acredito que eu não votaria em Saoirse ou Laurie para ganhar as suas respectivas estatuetas. Mas, como eu não voto no Oscar, 😉 vejamos o que virá por aí.

Manchester by the Sea – Manchester à Beira-Mar

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Tem pessoas que apenas querem ser um “ninguém”. E elas tem uma boa razão para isso. Determinados fatos da vida podem fazer com que você apenas queira esquecer o máximo possível quem você é e de onde você veio. Mas uma hora ou outra a fatura é cobrada. Manchester by the Sea conta a história de pequenas e grandes tragédias particulares. Se a história não é 100% original, a forma com que ela é contada sim traz novidade. Temos aqui um raro exemplo de um filme sensível, duro e legítimo. Muito bem polido nas aparências, mas bastante áspero em seu interior.

A HISTÓRIA: Começa mostrando as águas e a cidade de Manchester, nos Estados Unidos. É neste cenário que surge o barco Claudia Marie, pilotado por Joe Chandler (Kyle Chandler) e com o irmão Lee (Casey Affleck) e o filho Patrick (Ben O’Brien) conversando na popa da embarcação. Lee conta para o sobrinho como ele tem uma visão diferente de mundo do irmão, e pergunta para ele quem ele levaria para uma ilha.

O garoto responde que o pai, e corre em direção a ele. Em outro ambiente, Lee tira a neve do caminho e ajuda a um dos moradores a resolver um problema de vedação da pia. Ele está longe de Manchester, mas logo terá que voltar para a cidade porque o irmão dele está no hospital.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Manchester by the Sea): Este ano temos uma safra interessante de filmes concorrendo ao Oscar. Ainda que o favoritíssimo deste ano seja um musical, por definição uma produção cheia de “fantasia” e de uma realidade um tanto “embelezada”, boa parte das histórias tem uma grande dose de reflexão sobre a dura realidade da vida.

Este é o caso de Manchester by the Sea, um filme que vai crescendo conforme a história avança e nós entendemos melhor ao protagonista e o seu contexto. O destaque da produção, sem dúvida, é o seu roteiro, ainda que o conjunto de elementos que compõem o filme também apresentem qualidade e uma boa alquimia entre si. Os atores estão bem, e a trilha sonora é um ponto fundamental, assim como a direção de fotografia.

Mas voltemos para a história, que é o mais interessante desta produção. De forma inteligente o roteiro do diretor Kenneth Lonergan mostra parte do contexto de proximidade entre Lee e o sobrinho Patrick quando este último ainda era apenas um menino. Após uma breve introdução sobre aquele contexto familiar construído na cidade de Manchester, vemos Lee em outra realidade completamente diferente.

O personagem se parece com tantos outros de classe média baixa dos Estados Unidos – e de vários outros países. Um sujeito que mora sozinho, que trabalha duro, ganha pouco, engole sapos e finaliza os dias bebendo uma cerveja para conseguir encarar melhor tudo isso.

Para muitos, este é o americano médio que foi ignorado por muito tempo pelo governo e por todos e que, nas últimas eleições nos EUA, foi o grande responsável por eleger Donald Trump como presidente. Então este filme ajuda a contar um pouco sobre o contexto destas pessoas que, não apenas nos EUA, mas em qualquer parte do mundo realmente são pouco “visíveis”. Como outros grupos que acabaram sendo tema de outros filmes desta temporada – como os “excluídos”, “desprezados” ou marginalizados de Fences (comentado aqui) ou de Moonlight (crítica neste link).

Sem perder tempo, Lonergan mostra um recorte da vida do protagonista e o retorno dele para a sua cidade-natal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele retorna por uma razão muito triste: a morte do irmão mais velho. Mas esta não é a parte mais dura da história, e o roteirista/diretor espera a hora certa de nos contar porque Lee saiu de Manchester e porque para ele é tão duro voltar para lá.

De forma muito honesta, esta produção nos mostra como há tragédias particulares que são impossíveis de serem superadas. As autoridades podem dizer que você está liberado, e a família mais próxima pode lhe dar todo o apoio do mundo, ainda assim não parece justo que os dias continuem correndo como se nada tivesse acontecido. É sobre isso e muito mais que Manchester by the Sea trata.

O filme tem a habilidade de nos contar de forma interessante e o mais natural/crível possível uma narrativa de perda, vidas retomadas e vidas aprisionadas. Outros filmes já fizeram isso, é verdade, mas não com o mesmo desafio narrativo e criativo desta produção. Então temos a perda de Joe logo no início da produção e o desafio de Lee encarar esta realidade e lidar com a burocracia decorrente de uma morte na família.

Lonergan escolhe o caminho já bastante explorado de narrativas paralelas. Enquanto Lee busca lidar com tudo que envolve a “destinação final” do corpo do irmão e com a nova e inesperada (ao menos para ele) responsabilidade de cuidar de Patrick, voltamos atrás na história para saber melhor sobre o contexto familiar de todas aquelas pessoas.

Desta forma, quando Lee é acompanhado pelo médico para ir reconhecer o irmão morto, voltamos para o momento em que Joe recebe o diagnóstico da doença que o mataria no futuro. Naquele momento já vemos uma certa tensão familiar, especialmente entre Lee e a cunhada, Elise (Gretchen Mol).

Esta relação conflituosa volta à tona após a morte de Joe, quando Patrick é procurado pela mãe e volta a se encontrar com ela após longo tempo separados – ela não apenas deixa o hospital quando o marido recebe o diagnóstico, mas depois acaba deixando ele e o filho definitivamente.

Algumas pessoas demonstram os seus sentimentos com facilidade, enquanto outros são mais restritos nestas manifestações. Mas isso não quer dizer que eles não estejam sentindo, e muito. Manchester by the Sea é um filme exemplar em explorar isso. Porque tanto Lee quanto Patrick parecem lidar “bem” com a perda um tanto “esperada” de Joe mas, no fim das contas, ninguém lida bem com perda alguma.

Cada um deles sofre à sua maneira. Patrick tenta manter a vida normalmente, em uma fase de descobertas, de muitas atividades, amigos e de indecisões entre duas namoradas. Lee está sendo o cara responsável por manter quase tudo em ordem – dentro do possível. Mas para ele é muito difícil ficar em uma cidade onde ele viveu uma história tão pesada.

Em nenhum momento ele quis voltar para Manchester, mas as circunstância fizeram ele retornar para a cidade. O ideal, para ele, era resolver o velório e o enterro do irmão e voltar para a vida que ele tinha até então, onde ninguém o conhecia e onde ele era “mais um” na cidade. Só que ao receber a responsabilidade por Patrick, ele chega a cogitar de ficar em Manchester.

Mas, pouco a pouco, ele se lembra porque deixou a cidade. Todos de lá olham para ele com alguma ideia pré-concebida e com sentimentos muito bem definidos. Enquanto alguns lançam olhar de pena, outros lançam olhares curiosos e muitos estão sempre o julgando ou condenando. A tragédia pessoal de Lee é como a de tantas outras pessoas. Fatos horríveis acontecem por desleixo ou por descuido. Por causa de um “momento de bobeira”.

A perda de Lee e de Randi (Michelle Wiliams) é incomensurável. Não dá para medir, não dá para entender em sua plenitude. Apenas quem vive uma situação daquela pode ter a dimensão exata do que ela significa. O casamento deles acabou depois da tragédia, e Lee teve que lidar com toda a culpa que todos jogaram sobre ele.

A cena mais forte do filme mostra como nem ele mesmo se perdoava. Talvez, com o tempo, ele tenha feito isso. Ou não. Pode apenas ter “tocado em frente” por inércia. Quando está tentando tocar a vida de volta em Manchester, por causa de Patrick, ele percebe que não conseguirá viver na cidade conforme não acha oportunidades de trabalho e, especialmente, quando reencontra Randi.

O tempo passou e, como sempre, o tempo é um grande professor e um grande remédio. O choque passou a ser algo do passado, assim como boa parte da dor e do julgamento, e Randi parece ter um certo arrependimento do que falou e do que fez com Lee. Outra cena marcante da produção é quando ela tenta conversar com ele, mas Lee não está preparado para ter qualquer contato com ela.

Há muita dor em jogo. E dá para entender tudo isso. Mesmo que você ou eu não tenhamos passado por algo assim, a competência de Kenneth Lonergan e dos atores principais desta produção fazem com que você consiga se lugar no lugar deles. Ou seja, esta é mais uma produção que nos faz não apenas pensar, mas sentir e também exercer a misericórdia e a empatia.

Com um pouco de boa vontade é possível sentir qualquer dor e sentimento do outro. Isso nos aproxima e nos torna mais humanos. Este é um dos filmes que nos ajuda neste processo. Apenas por isso, e por todas as qualidades da história e do trabalho dos atores, ele já vale ser visto.

Sem contar que eu acho bacana como o filme, mais do que tratar de perdas, trata de recomeços. Sempre é possível tocar a vida em frente, e cada um sabe a melhor maneira de fazer isso. Sem tantos julgamentos e fórmulas prontas, e essa reflexão sobre a nossa sociedade atual – cheia deles – também é muito importante. Um filme bem acabado e com algumas mensagens bacanas.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um elemento interessante neste filme é a trilha sonora de Lesley Barber. Bastante lírica, ela contraste com o tom árido da história. É como se o que vemos e o que ouvimos fosse complementar e mostrasse como a vida é feita de histórias duras e de beleza. De suavidade e de rispidez. Considero este “casamento” inusitado entre música e história um dos pontos acertados da produção.

Entre os diferenciais do filme, como comentei antes, está o grande roteiro do diretor Kenneth Lonergan. Se este é o ponto fraco de La La Land (comentado por aqui), é o ponto forte de Manchester by the Sea. De forma muito inteligente e milimetricamente calculada o roteirista e diretor constrói esta história de uma forma que faça ela ganhar em interesse e em força conforme ela se desenvolve. Utilizando dois tempos narrativos, Lonergan também se debruça sobre a história do protagonista e das pessoas que o cercam. Bem bacana.

Algo que eu acho interessante nesta produção é que ela foge de muitos lugares-comum. Se é verdade que este filme me lembra muito outro que assisti há tempos atrás – e do qual eu não consegui, nem por decreto, lembrar o nome -, ao mesmo tempo ele se mostra diferenciado pelas escolhas no desenvolvimento dos personagens.

Aliás, explicando um pouco a nota que eu dei para o filme, ainda que ele tenha um ótimo roteiro e atuações coerentes, achei ele muito parecido, ao menos na essência, com outros filmes que já assistimos sobre perdas e sobre o “julgamento social” de uma pequena comunidade. Então, apesar de bem acabado, este filme não é exatamente revolucionário ou mesmo muito inovador. Por isso da nota acima. Mas nada que desmereça a produção, claro. Ela tem muito mais méritos que falhas.

Para muitos, Lee pode parecer um cara frio, vazio, e isso não deixa de ser verdade. Mas não é toda a verdade. A forma com que ele lidar com os fatos e esse “vazio” dele tem boas explicações e, apesar disso tudo, ele se importa muito com o sobrinho e sente uma aflição tremenda quando tem que enfrentar o passado novamente. Não é fácil, em um filme, construir uma história que trate destas nuances e que convença. Por isso mesmo Lonergan e os atores desta produção estão de parabéns, especialmente por não forçar a barra ou exagerar na história ou nas interpretações.

Da parte técnica do filme, além do roteiro muito bem construído, vale destacar a excelente trilha sonora de Lesley Barber, que contrasta com perfeição com a história e a complementa; a edição de Jennifer Lame; e a direção de fotografia de Jody Lee Lipes.

Manchester by the Sea estreou em janeiro de 2016 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 19 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme colecionou 97 prêmios e foi indicado a outros 211 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar. Números impressionantes, sem dúvida.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator para Casey Affleck no Globo de Ouro 2017; Melhor Filme segundo a National Board of Review; e para nada menos que outros 40 prêmios para Casey Affleck como Melhor Ator; 21 prêmios como Melhor Roteiro; nove prêmios para Michelle Williams como Melhor Atriz Coadjuvante; cinco prêmios para Lucas Hedges como “jovem talento” e similares.

Manchester by the Sea teria custado US$ 8,5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood. Bacana ver um filme com orçamento tão pequeno se sair tão bem em diversas premiações. Eu sempre torço pelo cinema independente. 😉 O filme é um grande sucesso nos Estados Unidos, onde fez US$ 42,5 milhões até o dia 2 de fevereiro deste ano. Em outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 1 milhão. Ou seja, não apenas repôs os gastos dos produtores, mas está garantindo um belo lucro para eles.

Esta produção foi rodada em diversas cidades do Estado de Massachusetts, como Manchester, Beverly, Lynn, Essex, Gloucester, Manchester-by-the-Sea, Salem, Cape Ann, Quincy e Rockport.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção e o cenário em que o filme se passa. A cidade onde a história é ambientada se chamava Manchester até que, em 1989, o morador Edward Corley fez uma campanha para que o nome mudasse para Manchester-by-the-Sea. O curioso é que o Legislativo aprovou a mudança naquele mesmo ano.

Interessante que este filme demorou muito para ser feito por uma série de razões. A ideia original tinha sido esboçada por John Krasinski, que falou para Matt Damon sobre este roteiro em que um trabalhador braçal acaba com a custódia do filho adolescente de seu irmão morto. Damon tinha pensado em estrear na direção com esta produção, mas acabou cedendo a história para Kenneth Lonergan que sofreu um longo martírio por causa do filme Margaret, estrelado por Damon. Em 2011 Margaret estreou de forma limitada e o processo movido pelo produtor do filme terminaria apenas em 2014. Foi só aí que Lonergan pensou em voltar a dirigir, e como Damon estava envolvido em outros projetos, ele passou Manchester para o amigo e diretor.

Quando Damon pulou fora do projeto, deixando a direção para Lonergan, ele pediu para o seu amigo de infância, Casey Affleck, protagonizar a história. Lonergan aparece como o único roteirista do filme porque ele acabou usando a premissa inicial de Krasinski e de Damon para fazer uma história bem ao seu gosto.

Este é o primeiro filme codistribuído por um serviço de streaming – neste caso, da Amazon – que consegue uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. Manchester by the Sea estreou nos cinemas também, claro, mas foi distribuído igualmente pelo serviço da Amazon. Vivemos novos tempos. O que é ótimo, porque assim o cinema sempre vai se renovar.

Manchester by the Sea é o terceiro filme escrito e dirigido por Lonergan – antes ele fez o mesmo com You Can Count on Me e com Margaret.

No melhor estilo Alfred Hitchcock, o diretor Kenneth Lonergan faz uma aparição também em Manchester by the Sea. Ele é o habitante anônimo da cidade que dá uma dura em Lee quando ele está discutindo com o sobrinho e ameaça ele de lhe dar uma porrada.

Falando no diretor de Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan tem no currículo apenas três filmes como diretor e nove como roteirista. Com as duas indicações por Manchester by the Sea – Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original – ele contabiliza quatro indicações ao Oscar. As anteriores foram por Melhor Roteiro Original por You Can Count on Me e por Gangs of New York.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Manchester by the Sea, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes escreveram 221 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9. Os dois níveis de aprovação são muito bons se levarmos em conta os padrões dos respectivos sites – especialmente a nota do Rotten Tomatoes é muito boa.

Esta produção está sempre focando os personagens Lee e Patrick, por isso mesmo é tão importante que os dois se saiam realmente bem. E eles fazem um trabalho muito bom, muito coerente e sem exageros. Realmente parecem pessoas “comuns” passando por aquelas situações. Além deles, alguns atores tem trabalho importante na história. A premiada Michelle Williams é uma das que menos aparece no filme, mas ela tem um bom desempenho quando é exigida.

Fazem um bom trabalho também em papéis secundários e/ou quase em pontas Kyle Chandler como Joe Chandler; Ruibo Qian como a Dra. Bethany, que faz o diagnóstico de Joe e o acompanha durante a doença; Gretchen Mol como Elise, mãe de Patrick; C.J. Wilson em um trabalho fundamental como George, amigo dos irmãos Joe e Lee; Tom Kemp como Stan Chandler, pai de Joe e Lee – ainda que a participação dele seja pequena; Tate Donovan como o técnico de hockey de Patrick; Kara Hayward como Silvie, uma das namoradas de Patrick; Anna Baryshnikov como Sandy, a outra namorada do adolescente; Heather Burns como Jill, mãe de Sandy; Jami Tennille como Janine, mulher de George; e Matthew Broderick em uma super ponta como Jeffrey, novo marido de Elise.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e na qual vocês pediram filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Um filme que trata de maneira muito franca sobre como a vida continua de maneira diferente para as pessoas que compartilharam uma tragédia. Manchester by the Sea revela a complexidade da vida, das famílias e dos amores. Nem todo mundo consegue recomeçar e, mesmo assim, toca em frente da melhor maneira que pode. Um dos pontos fortes do filme é o roteiro, que sabe construir a história com criatividade e bebendo fundo na fonte do realismo. Amargo, mas muito humano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Manchester by the Sea é um dos quatro grandes concorrentes deste ano no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A produção conseguiu emplacar seis indicações ao Oscar, e os realizadores devem ficar felizes com isso.

Afinal, este é um filme não muito óbvio e sem uma grande produção ou lobby por trás. Então emplacar seis indicações, incluindo aí a de Melhor Filme, é algo muito bacana. Além da categoria principal, Manchester by the Sea concorre nas categorias Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Melhor Diretor (Kenneth Lonergan) e Melhor Roteiro Original.

Analisando todas estas categorias e os seus respectivos concorrentes, acredito que Manchester by the Sea tenha a sua melhor chance em Melhor Roteiro Original. O filme pode emplacar também em Melhor Ator – apesar da minha torcida ser para Denzel Washington, não dá para ignorar os 41 prêmios recebidos por Casey Affleck antes do Oscar.

Na categoria principal, Melhor Filme, o favoritíssimo é La La Land (com Moonlight correndo por fora e Manchester by the Sea um pouco atrás). A categoria Melhor Ator Coadjuvante tem Mahershala Ali como favorito; assim como Viola Davis é a favorita em Melhor Atriz Coadjuvante e Damien Chazelle corre na frente em Melhor Diretor. Assim sendo, Manchester by the Sea pode levar em roteiro e em ator, na melhor das hipóteses. Este é o prognóstico mais “óbvio” mas, claro, surpresas sempre podem acontecer.