Lady Bird – Lady Bird: É Hora de Voar

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O final da adolescência é uma fase de autodescobertas e de muitas escolhas. É quando começamos a perceber melhor o que nos faz sentido, o que não faz, porque somos como somos e para onde queremos ir. Lady Bird trata dessa fase, das descobertas, de uma certa revolta e da aceitação pela qual passa uma adolescente. É um bom filme, mas sou franca em dizer que eu esperava mais. Primeiro, porque muitos apontam esse filme como um candidato sério a algumas indicações do Oscar e, inclusive, como possível vencedor em uma ou mais categoria. E, depois, pelas indicações que ele recebeu no Globo de Ouro e por ter sido premiado nesse domingo. A verdade é que a expectativa, que era considerável, não se realizou totalmente.

A HISTÓRIA: Começa com uma frase de Joan Didion: “Qualquer um que fale sobre o hedonismo da Califórnia nunca passou um Natal em Sacramento”. Em uma cama, Marion McPherson (Laurie Metcalf) está deitada ao lado da filha, Christine “Lady Bird” (Saoirse Ronan). Elas estão deixando uma cama de hotel, mas Marion faz questão de fazer a cama. A filha diz que ela não precisa fazer aquilo, mas Marion diz que é sempre bom fazer as coisas bem feitas. A mãe pergunta se a filha está pronta para voltar para casa, e Lady Bird diz que sim. Na volta para casa, de carro, mãe e filha ouvem o final de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Mas a paz entre mãe e filha logo vai terminar, quando uma simples discussão sobre ligar o rádio termina com um desfecho surpreendente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Bird): Algumas pessoas não estão satisfeitas com o lugar de onde elas vieram. E nem com a vida que elas tem. Elas sonham em viver em um lugar distante, onde podem “voltar a ser feliz”. A grande questão é que, geralmente, esta idealização de um local diferente não passa disso mesmo, de uma idealização. Com pouco fundo prático ou ligado à realidade.

Lady Bird nos fala um pouco sobre isso. Sobre a vida que uma pessoa leva, sobre as suas expectativas e desejos, assim como trata da autodescoberta e das relações familiares e com a rede de amigos que nos cerca. Essa produção é bastante honesta e “moderniza” alguns filmes sobre adolescentes que já vimos antes, mas realmente Lady Bird é um filme brilhante?

Eu vi muita gente falando sobre esta produção. Muitos citando ela como uma forte candidata ao Oscar. Como sempre, evitei de ler críticas sobre o filme antes de assisti-lo, mas foi impossível ignorar a ótima aprovação da crítica sobre Lady Bird e como o filme está bem nas “bolsas de apostas” do Oscar. Por isso, devo admitir, assisti ao segundo filme dirigido pela atriz Greta Gerwig com muita expectativa.

Estava esperando uma interpretação irretocável de Saoirse Ronan e um roteiro igualmente inesquecível. E ainda que a atriz esteja muito bem, eu não acho que ela teve um desempenho para ganhar muitos prêmios – especialmente se pensarmos na safra deste ano e em outros desempenhos de atrizes protagonistas. Mas ok, resolveram fazer de Lady Bird o “filme da vez”, e isso acontece de tempos em tempos em Hollywood. Alguns críticos e formadores de opinião resolveram amar esta produção e ela virou um fenômeno.

Sim, Lady Bird tem os seus méritos. Para começar, como eu disse antes, ele ajuda a explicar a juventude do início dos anos 2000 que está na fase de se formar no ensino médio e que tem várias dúvidas sobre o que fazer da vida na faculdade. A busca pela própria identidade, que passa pelas relações familiares, de amigos, os encontros e desencontros da escola e a expectativa da “primeira vez” fazem parte deste contexto e são abordados nesse filme.

Como pano de fundo, vemos a questão social de uma cidade comum americana no início dos anos 2000, quando o pai de uma família perde o emprego e a esposa dele deve dobrar o turno de trabalho para conseguir sustentar a família. Lady Bird tem muitas críticas para fazer contra a mãe, que realmente tem dificuldades de demonstrar carinho e de expressar para a filha o que sente, mas ela também não percebe o quanto a mãe se esforça para manter todos unidos, a casa funcionando e, apesar das dificuldades, ainda ajudar as pessoas.

Desta forma, o roteiro escrito por Gerwig pode fazer muitos adolescentes pensarem de forma um pouco mais ampla – e menos egoísta. Sim, é verdade que Marion muitas vezes é dura demais com Lady Bird. Mas, no fim das contas, o que Marion quer é dar responsabilidade e ensinar valores que ela considera importante para a filha. É verdade que, às vezes, no processo, ela pode fazer mais mal do que bem para Lady Bird – especialmente quando diz para a garota que ela não vai conseguir passar nas faculdades que ela quer ir.

Olhando de forma ligeira para isso, podemos pensar que Marion tem a necessidade de sempre estar “diminuindo” a filha. Como uma forma de compensar as próprias frustrações. Mas uma outra forma de olhar para isso é observar como Marion não quer, no fundo, que a filha vá para longe dela. Apesar de não saber demonstrar os seus sentimentos e de não ser carinhosa, Marion ama a filha da mesma forma com que ama Miguel (Jordan Rodrigues), o filho mais velho.

Algo interessante desse filme é que ele mostra com bastante franqueza a realidade dos jovens americanos de 15 anos atrás. A protagonista, que alimenta o sonho de sair da cidade natal, da qual ela não gosta, para lançar-se em uma cidade maior, passa por experiências marcantes do último ano do ensino médio do qual os americanos gostam tanto de falar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela acaba se lançando em uma aula de teatro, onde se apaixona pelo jovem Danny O’Neill (Lucas Hedges). Ela vai se frustrar com ele ao descobrir que o garoto é gay. Na sequência, ela se lança na direção de outro jovem, o “artístico” e “descolado” Kyle Scheible (Timothée Chalamet). Como aconteceu antes com Danny, que frustrou as expectativas da jovem, Kyle também a decepciona. E tudo passa – percebemos isso realmente com a passagem do tempo – pelas expectativas que ela nutria sobre uma “primeira vez especial” e sobre romances perfeitos.

Lady Bird mostra, desta forma, os primeiros contatos da protagonista com a frustração e com a realização de um grande desejo – materializado no fato dela conseguir passar em uma universidade que ela queria e, especialmente, sair da cidade natal. Mas quando ela finalmente atinge este “plano ideal”, ela percebe que sair de casa não era realmente o problema. O que ela precisava era começar a olhar para a vida de forma mais franca, sem filtros e distorções. Reconhecer melhor de onde ela vinha e o que formava a sua própria identidade.

Esse é sempre um processo interessante. Lady Bird trata de forma interessante estas questões, ainda que grande parte da história gire em torno das “estripulias” de uma adolescente meio revoltada, meio sonhadora. Sim, os personagens são bem desenvolvidos e há uma ou outra sequência interessante no filme. Mas, no geral, achei ele bastante previsível, um tanto cheio de lugares-comum e de ideias requentadas. Verdade que eu estava esperando um grande filme pela frente, e talvez por causa da minha grande expectativa eu tenha achado ele um tanto frustrante.

Não quero colocar a culpa em outras fontes, mas talvez por ter visto a filmes tão bons nessa safra pré-Oscar – especialmente as produções habilitadas para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, eu tenha esperado mais de uma produção considerada forte concorrente no ano. Para o meu gosto, produções de outros países que eu citei recentemente aqui no blog, como First They Killed My Father, The Divine Order, Loveless e On Body and Soul tiveram um impacto maior e um frescor de novidade muito maior do que Lady Bird.

Enfim, gosto é gosto. Por isso vou respeitar a todas as pessoas que discordarem de mim. Mas para os meus critérios de avaliação, Lady Bird é um filme com pouca criatividade e inovação. Fora a cena do carro, que está na parte inicial da produção, o restante desse filme não tem realmente um grande impacto ou surpresa. Sim, um filme não precisa ter isso para ser bom. Mas mesmo a parte “filosófica” e que faz pensar em Lady Bird me parece um tanto rasa.

Enfim, por tudo isso, achei esse filme abaixo das minhas expectativas. E só dou a nota abaixo para ele porque eu admito que ele faz um bom trabalho em dialogar com pais e filhos de uma geração mais nova – exatamente essa que nasceu nos anos 2000. Para eles, possivelmente, esse filme terá um efeito maior – até porque a maioria desses pais e filhos não assistiu a tantos filmes até o momento para perceber o quanto Lady Bird repete fórmulas. A contribuição desse filme para essa nova geração, a mensagem positiva da produção para o entendimento entre as pessoas diferentes de uma família, a aceitação de um indivíduo sobre as suas origens e as belas atuações que vemos em Lady Bird é o que me fazem dar a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém mais observador e que aparece com frequência aqui no blog deve ter notado que eu dei notas mais baixas do que o meu “normal” aqui nas últimas duas críticas. A verdade é que o comentário de um leitor aqui no blog, feito há pouco tempo, me fez repensar nas notas que eu ando conferindo para os filmes. E ainda que cada um tenha o seu critério de avaliação e de “pontuação”, e que esse critério deve ser respeitado, admito que o comentário me fez pensar que eu talvez andasse “muito generosa”.

Comentado isso, afirmo que a partir de agora eu tentarei ser mais “dura” e criteriosa com as notas altas. Realmente darei a nota máxima ou uma nota bastante alta para os filmes que me arrebatarem, que eu achar que são “imperdíveis”. Para os demais, tentarei ser um pouco mais justa na avaliação – especialmente na pontuação.

Sob esta ótica, provavelmente 50% das notas do blog deveriam ser rebaixadas. Mas vou pedir perdão para vocês porque eu não farei isso. Por pura falta de tempo. Se eu não tenho tido tempo nem de responder aos recados de vocês, quanto mais para rever com justiça todas as minhas avaliações aqui no blog. Conto com a generosidade dos leitores para entenderem notas possivelmente mais altas que eu dei anteriormente para filmes que não mereciam avaliação tão boa. A partir de agora, prometo, tentarei ser mais justa e criteriosa. 😉

Voltando a falar sobre Lady Bird, pois. Acho que um dos fatores que me fez não gostar taaanto assim desta produção – ao menos gostei menos do que a maioria dos críticos – foi o fato de que o nome dela me remeteu a outro filme. E, este sim, que eu achei muito mais potente e interessante. Me refiro a Lady Macbeth, produção que eu considero uma das melhores que eu vi em 2017. Enquanto, para o meu gosto, Lady Macbeth se mostra um filme potente e surpreendente, como eu comentei antes por aqui Lady Bird me pareceu um tanto requentado demais, com pouca novidade para mostrar.

Sem dúvida alguma o nome forte desta produção é o de Saoirse Ronan. A atriz soube encarnar muito bem o papel da protagonista. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente cheia de questionamentos e com uma certa “crise de identidade”. A atriz não se parece em nada com outros papéis que já desempenhou. Além dela, os destaques desta produção são Laurie Metcalf, que interpreta a mãe da protagonista, Marion; Tracy Letts em uma interpretação sensível como Larry, pai de Lady Bird; Lucas Hedges mais uma vez fazendo um belo trabalho, desta vez como Danny; e Beanie Feldstein como Julie Steffans, melhor amiga da protagonista. Estas são as pessoas que realmente brilham em cena e convencem.

Além deles, outros atores também fazem um bom trabalho, ainda que com menos destaque. Vale citar, neste grupo, Timothée Chalamet como Kyle, segundo “affair” de Lady Bird; Lois Smith como a Irmã Sarah Joan, que é bastante compreensiva com as suas alunas na escola católica; Stephen Henderson como o Padre Leviatch, coordenador do teatro e que sofre com uma certa “crise” na vida; Odeya Rush como Jenna Walton, a garota popular do colégio de quem Lady Bird se aproxima lá pelas tantas; Jordan Rodrigues como Miguel, irmão mais velho da protagonista; Marielle Scott como Shelly Yuhan, namorada de Miguel e que acaba sendo “adotada”/abrigada pelos McPherson; Jake McDorman como Mr. Bruno, um dos professores “gatos” da escola; e Daniel Zovatto como Jonah Ruiz, namorado de Jenna.

Gostei da direção segura de Greta Gerwig. Ela faz um trabalho sempre próximo dos atores e parece, por ser uma atriz bastante experiente, deixá-los bastante à vontade para que eles consigam exprimir tudo que ela deseja para os personagens que criou. O roteiro dela é bom, mas poderia ser melhor. Ela opta por uma narrativa linear, por uma cena na parte inicial de impacto, para “chocar” um pouco o espectador, mas depois acaba se rendendo a uma narrativa um tanto previsível. Desenvolve bem os personagens centrais, ainda que o filme sendo totalmente contado sob a ótica de Lady Bird acaba limitando um pouco a narrativa. Neste sentido, gostei mais, por exemplo, da narrativa fragmenta e com múltiplos olhares de Wonder.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a direção de fotografia “naturalista” de Sam Levy; a edição precisa de Nick Houy; os figurinos de April Napier; o design de produção de Chris Jones; a decoração de set de Traci Spadorcia; e a trilha sonora praticamente ausente de Jon Brion.

Lady Bird estreou no dia 1º de setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou de uma maratona de 17 festivais, um na sequência do outro. Nessa trajetória, o filme ganhou 55 prêmios e foi indicado a outros 126. Realmente são números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia e para Melhor Atriz em Musical e Comédia para Saoirse Ronan.

O filme também apareceu na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI; a atriz Laurie Metcalf ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante 20 vezes; a atriz Saoirse Ronan venceu como Melhor Atriz oito vezes – sem contar o Globo de Ouro; Greta Gerwig recebeu três prêmios como Melhor Diretora; o filme ganhou cinco vezes o prêmio de Melhor Roteiro; e a produção foi reconhecida como Melhor Filme em quatro ocasiões  (descontado, novamente, o Globo de Ouro). Uma bela coleção de prêmios, não é mesmo?

Eu gosto muito de Greta Gerwig como atriz. Mas pelo burburinho que ela está provocando com Lady Bird, desconfio que ela vai “se jogar” mais na função de diretora e roteirista. Importante ponderar, contudo, que Lady Bird não é a sua estreia na direção. Ela debutou em 2008 com o filme Nights and Weekends, escrito e estrelado por ela. Mas sim, Lady Bird é apenas o seu segundo filme como realizadora. Agora sim, provocando efeito.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. As atrizes Saoirse Ronan e Greta Gerwig se conheceram no Festival de Cinema de Toronto de 2015, quando Saoirse estava promovendo Brooklyn e Greta estava divulgando Maggie’s Plan. Saoirse leu o roteiro de Lady Bird e imediatamente se sentiu conectada com a protagonista. As duas então discutiram o roteiro no quarto de hotel de Saoirse, quando Greta disse que tinha achado a sua “Lady Bird”.

De acordo com Gerwig, a primeira versão do roteiro desse filme tinha 350 páginas. Se o filme tivesse sido rodado a partir desse original, ele teria seis horas de duração.

Lady Bird quebrou o recorde de críticas positivas de Toy Story 2. A animação registrou 163 comentários positivos no site Rotten Tomatoes antes de registrar a primeira crítica negativa. Lady Bird registrou 196 críticas positivas antes de aparecer o primeiro comentário negativo. Mesmo não tendo mais 100% de críticas positivas, ele registra esse percentual de aprovação entre os “melhores críticos” do site. Algo impressionante e que ajuda a explicar o “burburinho” pro trás desse filme.

Interessante como a diretora e roteirista faz algumas “homenagens” com esse filme. Christine, o nome de batismo de Lady Bird, era o nome da mãe de Greta Gerwig. Além disso, a mãe da protagonista da história, trabalha como enfermeira, mesma profissão da mãe da diretora.

Este foi o último filme feito pela atriz Lois Smith.

A história ocorre entre os anos de 2002 e 2003.

Como a história desse filme sugere, Lady Bird foi realmente rodado nas cidades de Sacramento, na Califórnia; South Pasadena e Los Angeles, no mesmo Estado; e em Nova York – onde a protagonista começa a amadurecer.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Bird fez US$ 34,1 milhões apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado muito bom para um filme com “tintas” de independente.

Assistindo a esse filme, não tive como não lembrar da canção clássica da Legião Urbana. “(…) você me diz que seus pais não te entendem/ mas você não entende seus pais/ você culpa seus pais por isso, isso é absurdo/ são crianças como você/ o que você vai ser quando você crescer?”. Sim, mesmo os “revoltados” sempre percebem, mais cedo ou mais tarde, que tudo que eles gostariam eram do amor, do afeto e da “aceitação” dos seus pais. Mas todos nós somos falhos, e cada um tenta dar o melhor de sim. O quanto antes percebemos isso, melhor.

Lady Bird é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante a impressionante aprovação de 99% e a nota média tão impressionante quanto, para os padrões do site, de 8,8.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o processo de amadurecimento e de autodescoberta sobre o qual todos passam. Lady Bird é focado na protagonista que se autodenominou desta forma. Um filme com uma boa pegada humana, sensível, sobre as origens de uma pessoa e a aceitação dela sobre as suas origens, assim como os seus desejos de mudar. Mas, francamente? Apesar de ter uma boa pegada e belas interpretações, especialmente de Saoirse Ronan, Lady Bird não nos apresenta nenhuma ideia nova.

Quem já assistiu a um bocado de filmes viu, antes, outras produções com essa mesma proposta. Se você for sem expectativa alguma ver a essa produção, talvez ache ela melhor. Como eu esperava algo muito bom, achei Lady Bird apenas mediano. Sim, há bons diálogos e personagens bem desenvolvidas, mas não vi nada assim de tão fantástico nessa produção. Para mim, a experiência foi um tanto frustrante. Mas espero que para você que me lê, sinceramente, ela seja melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Então, minha gente, esse filme realmente caiu no gosto da crítica. Só não sei até que ponto ele caiu no gosto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, pelo andar da carruagem e avaliando não apenas os prêmios que o filme já recebeu mas as bolsas de apostas para o Oscar 2018, tudo indica que Lady Bird será bem indicado na premiação deste ano.

Não será uma surpresa se essa produção concorrer nas categoria de Melhor Filme, Melhor Diretora (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf) e Melhor Roteiro Original. Ou seja, tudo indica que Lady Bird será indicado a cinco estatueta. Quantas ele deve ganhar? As chances maiores, me parece, são para Laurie Metcalf como Melhor Atriz Coadjuvante. O filme também será páreo duro e tem boas chances em Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz para Saoirse Ronan. Isso, ao menos, avaliando a opinião dos críticos e bolsas de apostas.

Da minha parte, pelo meu gosto pessoal, eu não daria o prêmio de Melhor Roteiro Original. Eu preciso ver a outros filmes que estão forte na disputa pelos prêmios, como The Shape of Water; The Post; Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; Call Me By Your Name; The Florida Project; Darkest Hour; All the Money in the World e I, Tonya, mas desde já eu acredito que eu não votaria em Saoirse ou Laurie para ganhar as suas respectivas estatuetas. Mas, como eu não voto no Oscar, 😉 vejamos o que virá por aí.

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Fences – Um Limite Entre Nós

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A vida é o que ela faz com a gente e o que a gente faz com a nossa vida também. Algumas condições nos são dadas e outros fatos acontecem sem que tenhamos possibilidade de escolher. A forma com que lidamos com isso tem muito a dizer sobre nós. Mas além dos fatos da vida que acontecem com a gente, tem tudo aquilo que decidimos por nossa conta e que acaba moldando muito do que virá de resposta da vida pra gente. Fences é um filme que trata disso e de muito mais. Inicialmente, ele parece ter uma história simples, mas ele é tudo menos isso.

A HISTÓRIA: Dois amigos que passam os dias recolhendo o lixo da cidade estão conversando na boleia do caminhão. Troy Maxson (Denzel Washington) fala para o colega Jim Bono (Stephen Henderson) sobre a conversa que teve com o Sr. Rand. Ele questionou o chefe de porquê apenas os brancos dirigem os caminhões de lixo enquanto apenas os negros recolhem os dejetos na cidade. Pediram então para ele falar com o sindicato dos trabalhadores na semana seguinte.

Enquanto Jim pergunta se ele não tem risco de ser demitido, Troy diz que perguntou sobre isso para que todos tenham direito de dirigir, tanto brancos quanto negros. Depois eles recebem o salário deles, porque é sexta-feira, e no caminho da casa de Troy o amigo Jim pergunta sobre a aproximação dele de Alberta. Questiona se o amigo não está flertando com ela, e Troy nega, dizendo que nunca mais flertou com mulher alguma desde que casou com Rose (Viola Davis). Chegando em casa, ele continua a contar as suas histórias, e é lá que ele lidar com conflitos com Rose e com os dois filhos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fences): Que grande filme do Sr. Denzel Washington. A exemplo do grande Clint Eastwood, Denzel costuma acertar a mão quando pega um filme para estrelar e dirigir. E ainda que Eastwood tenha parado de contracenar e siga apenas dirigindo, antes ele fez com maestria as duas funções – a exemplo do que Denzel faz aqui.

Este é um filme que vai crescendo aos poucos, sem pressa, como um cozido que precisa de muito tempo para soltar todos os seus sabores na panela. Fences começa de forma “desprensiosa”, com um grande, grande diálogo entre Troy, seu amigo Jim e, depois, alguma interferência de Rose, até que outros elementos entram em cena. Naquele começo, muito bem escrito, dirigido e interpretado, conhecemos a uma das principais característica do protagonista: ele é um contador de história.

Na verdade, ele adora falar. Ele parece falar sem parar. Denzel interpreta a um personagem que, no início do filme, parece uma matraca. Troy ama contar histórias e, fica evidente logo no início, ele gosta de ser o centro das atenções. Ou gosta, pelo menos, de ter a palavra final. Afinal, ele é o dono da casa – e, se possível, o dono do pedaço.

Mas pouco a pouco é que vamos entendendo todas as camadas de Fences. O roteiro de August Wilson, baseado em seu próprio livro Fences, nos conta a história difícil de um homem negro comum dos Estados Unidos dos anos 1950. Conforme vamos conhecendo a história de Troy, parece que ele tem uma vida “desgraçada”, no sentido de que o dinheiro dele é sempre contado.

Tanto que se não fosse a indenização que ele ganhou por cuidar do irmão Gabriel (Mykelti Williamson), um veterano ferido na guerra, ele não teria condições de comprar a casa em que ele mora com Rose e o filho Cory (Jovan Adepo). A condição limitada de Troy começa a ficar evidente logo no início do filme, quando o filho mais velho dele, de outro casamento, Lyons (Russell Hornsby), vai pedir US$ 10 emprestados para o pai.

Troy não para de dar lição de moral para o filho que quer ser músico e repete mais de uma vez que não tem dinheiro sobrando. Depois de longos minutos de discussão filosófica sobre as responsabilidades e os sonhos de um homem, Rose interfere na discussão e acaba emprestando o dinheiro para Lyons. Esta é apenas a primeira vez no filme em que a dura realidade da vida será contrastada com os desejos dos filhos de Troy.

Por estas e por outras razões que Fences é muito mais do que o conflito entre pai e filho que muitos citaram. Esta produção tem muito a ver, é verdade, com as visões conflitantes entre pais e filhos, que são de gerações diferentes, e também sobre as dificuldades de uma família para se manter unida. Tanto que é sobre este segundo ponto a analogia à cerca que Troy deve construir a pedido de Rose e para a qual ele pede ajuda de Cory.

No final das contas, e isso acaba sendo bastante ilustrativo sobre a história, Troy acaba terminando de construir a cerca sozinho e mais por uma questão de “honra” e de obrigação do que por achar necessário. Esta é uma analogia importante sobre a própria vida do protagonista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como ele fala para Rose em uma sequência fundamental da história, ele foi procurar fora de casa a alegria e a leveza que ele não encontrava na família que, para ele, virou basicamente uma grande obrigação.

Daí entramos em outra parte fundamental desta produção: como o que aconteceu com a gente pode moldar de forma decisiva a nossa vida. Isso tem a ver como que eu falei lá no início: que a nossa vida é um bocado do que ela fez com a gente. No caso de Troy, conforme a história vai se desenvolvendo, ficamos sabendo um pouco mais sobre as origens dele e sobre valores de família e de sobrevivência que acabaram moldando de forma definitiva o seu caráter.

Em uma sequência fundamental em que Troy fala de seu pai para Jim e Lyons, ficamos sabendo sobre a origem da compreensão que ele tem que os filhos não estão aí para serem amados, mas eles são uma grande responsabilidade para qualquer pai e mãe. Ele não recebeu amor em casa, muito pelo contrário. Foi abandonado pela mãe e foi agredido pelo pai em mais de uma ocasião – na última grande surra ele resolveu sair de casa, ainda muito jovem.

Sem dinheiro, Troy teve que perambular sozinho. Ao não conseguir emprego, virou bandido. Até que foi preso e, na cadeia, conheceu o grande amigo Jim. Ora, uma pessoa com esse histórico, não é difícil de entender que tenha uma postura de certa “dureza” no trato com a família. Ele ama Rose e é agradável com ela, assim como tenta cuidar do irmão Gabe, mas com os filhos ele é muito exigente.

Neste ponto o filme tem uma temática que é universal. Afinal, temos um pai que passou por muitas dificuldades – como muitos e muitos pais mundo afora – e que tem dificuldade de ver os filhos “brincando” com os seus próprios futuros. Para Troy é impossível entender o filho mais velho, que quer ser músico, e também o filho mais novo, que queria seguir a carreira de jogador de futebol americano.

No caso do filho músico, Troy não aceitava que ele viesse lhe pedir ajuda, já adulto, porque o protagonista não acreditava que a profissão de músico lhe daria qualquer futuro. E no caso de Cory, Troy também não via futuro na carreira dele como atleta profissional. E aí ele tinha uma mágoa própria para resolver porque, ele mesmo, Troy, apesar de ter talento no beisebol, nunca conseguiu decolar.

Novamente entra em cena a questão racial. Ela está na sequência inicial do filme e pincelada em diversas partes da história. Para Troy, os brancos nunca vão deixar os negros terem o espaço devido nos esportes. Por mais que Rose e Cory digam para Troy que as coisas mudaram e ainda estão mudando – e os dias de hoje mostram como isso acabou sendo verdade -, Troy não quer saber. O que interessa para ele é a experiência ruim que ele teve, e o resto não interessa.

Ele é uma figura dominante e, como Rose diz em certo momento tocante e especial do filme, ele sempre ocupou um grande espaço na casa. Mas se a vida de Troy era meio “desgraçada” e difícil, ele também acabou sendo o senhor de seu próprio destino ao fazer escolhas equivocadas. E aí entra o que eu comentei antes de que a vida é também o que fazemos dela, das escolhas que vamos tomando no caminho.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mim não deixou de ser chocante que um sujeito tão correto como Troy chegasse em um certo dia para Rose e dissesse que seria pai de uma criança feita fora do casamento. E detalhe: ele não estava nem um pouco arrependido. Daí vem aquela sequência em que ele fala que a vida dele era só obrigações e que ele foi buscar alegria e “leveza” fora de casa.

Nesta parte, achei fundamental o roteiro de Fences. Apesar daquela sociedade ser machista – e a de hoje ainda é -, e de Troy dizer com todas as letras que não tinha o porquê de se arrepender do que fez, Rose deixa bem clara a postura dela. Essa atitude de Rose, interpretada pela estupenda Viola Davis, também reflete o início da busca da mulher pela sua independência e por seus direitos.

Os homens sempre justificam as suas puladas de cerca e as suas mancadas, mas poucas vezes eles estão dispostos a perceber que o casamento é uma escolha de duas pessoas e uma certa “prisão” para ambos. Ora, ninguém se casa obrigado – até existem casos, hoje em dia, mas eles são minoria, ao menos nas sociedades ocidentais. Se ninguém casa obrigado, todos deveriam ter uma consciência maior de que o casamento é sacrifício, é abrir mão de certos espaços e que é preciso muita, muita paciência e comprometimento.

Se as pessoas não estão preparadas para isso, não deveriam nem entrar neste barco. Não deveriam se comprometer. Porque é fácil entrar no barco, exigir isso da outra pessoa e, quando o “peso” fica muito grande, simplesmente trair toda a confiança e o sacrifício da outra pessoa para satisfazer necessidades e desejos pessoais. Rose fala muito bem com Troy em mais de uma ocasião de como eles eram iguais no casamento, e de que ela também tinha desejos e necessidades, mas que ela soube lidar com eles em nome do casamento e do compromisso que eles tinham assumido.

Perfeito. É isso. Ou a relação é igualitária e justa para os dois, ou o mais honesto seria ela não continuar. O que Troy faz é de uma covardia gigantesca, mas ele acaba pagando o preço por ela de uma maneira muito dura. Não da forma que ele imaginou ou escolheu, mas de uma forma natural e que cobrou um grande preço dele – especialmente o do isolamento e da solidão.

Se a vida do protagonista poderia ser lida como “desgraçada” antes dele pisar na bola, ela ficou ainda pior depois. Parte disso tinha a ver com o que ele carregava dentro de si desde a época da criação dele e de tudo que aconteceu depois e que o deixou mais “duro” com a vida, mas parte teve a ver com as escolhas equivocadas que ele mesmo fez quando começamos a acompanhar a sua história.

Como tantos outros pais, Troy acha que tem que exercer a sua autoridade e mandar nos filhos pela opressão, mostrando “quem manda” a partir do poder econômico. Ele faz isso com Cory, em especial. Sempre que pode, ele lembra o rapaz de quem paga as contas e, por isso, sobre quem manda no pedaço. Não importa os sonhos e os talentos que Cory tem. A palavra final é de Troy e está acabado.

Sem perceber – aparentemente -, Troy está seguindo a linha da crueldade do pai dele e da qual ele fugiu quando pode. Daí outra reflexão significativa do filme – acho até que ela é a principal lição da história. E esta reflexão surge no final, na conversa entre Rose e o filho Cory que volta da Marinha. Cory não entendia o pai e não sabia porque ele era tão cruel e repressor.

Pois bem, todos que um dia já tiveram conflitos com um pai ou uma mãe e tiveram dificuldade de entendê-los devem, primeiro, olhar para o passado deles. Entender pelo que eles passaram, especialmente na infância, e sobre a realidade e os valores que lhes moldaram em uma fase fundamental. Depois, devem se esforçar, por mais que o pai ou a mãe seja cruel e injusto, para saber que eles tentaram fazer o melhor possível dentro do que eles eram capazes.

Esta conclusão vem de um diálogo poderoso de Rose com Cory. Troy era um sujeito que buscou trilhar um caminho correto na vida mas que teve vários tropeços e que fez várias mancadas? Ele foi um pai que não deu carinho ou amor para os filhos e que não os incentivou a seguirem os seus sonhos? Pode ser, mas ele tentou fazer o melhor que ele pode dentro das limitações que ele tinha. E todos nós temos limitações. Devemos lembrar isso com maior frequência.

Nem sempre é fácil, mas é preciso que cada um de nós nos esforcemos para entender que todos somos imperfeitos. Ao buscarmos respostas no passado e entender que escolhas equivocadas fazem parte da trajetória da vida de qualquer um, fica mais fácil ter empatia e perdoar quem não age como nós desejaríamos. Até porque, e isso Fences deixa bem claro, todos se decepcionam ou se frustram com todos.

Se os filhos de Troy não eram o que ele desejava e não agiam como ele queria, o próprio Troy não fazia tudo que os filhos ou Rose desejava. Participar de uma família exige esse tipo de compreensão e de perdão. Tudo isso faz parte do nosso aprendizado como indivíduos e coletivos. Quem não está dispostos aos problemas deste aprendizado não está pronto para tirar o melhor desta vida. Fences é uma grande reflexão sobre tudo isso.

O filme vai de questões sociais como a desigualdade racial, algo intrínseco e ainda não resolvido nos Estados Unidos e em outros países, para aprofundar-se em questões pessoais e filosóficas mais específicas do indivíduo. Trata, assim, fortemente de família, de pais e filhos, de conflitos geracionais, da busca de sonhos e de como lidamos com as dificuldades e as frustrações.

Aborda acertos e erros e sobre a capacidade que cada um tem de evoluir ou não em sua própria história, recriando a si mesmo ou carregando os seus demônios por tempo demais. É um filme sobre a vida mesma, nossas qualidades e imperfeição. Desta forma, é mais um filme desta temporada sobre tudo o que nos torna humanos, demasiado humanos. Uma grande, grande história. Um dos melhores filmes da temporada.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu tentei não escrever demais sobre Fences, mas há tanto para falar sobre este filme… tentei ser sucinta, eu juro. 😉 Mas o roteiro de August Wilson realmente é muito rico, muito interessante. Ele começa com a verborragia de Troy no início e não para de ser intenso e cheio de histórias até o final. Não dá para piscar e nem bobear ou então o espectador perde um detalhe importante do filme.

Uma das qualidades que mais ficou evidente até agora através do burburinho sobre Fences são as interpretações de Denzel Washington e de Viola Davis. De fato, eles estão soberbos. Os dois. É um verdadeiro deleite observar cada detalhe da interpretação destes dois atores gigantes. E há muitos detalhes para serem observados. Para mim, Fences entra na lista das melhores interpretações de ambos – e isso não é pouco.

Ainda que os holofotes estejam em Denzel Washington e em Viola Davis, os demais atores que fazem parte deste filme – o grupo de intérpretes é pequeno – também estão muito bem. Ainda que eles não sejam indicados ou saiam vencedores em prêmios mundo afora, vale citar o trabalho competente de Stephen Henderson como o “fiel escudeiro” do protagonista, o seu melhor amigo Jim Bono; Jovan Adepo em uma interpretação forte e bem equilibrada como o filho do casal Cory; Russell Hornsby em uma participação sensível e interessante como o filho mais velho de Troy, o músico Lyons; e Mykelti Williamson em um trabalho difícil e bem equilibrado como Gabriel, irmão de Troy.

Todos esses atores estão muito bem em seus papéis. Gostei, especialmente, por nenhum deles exagerar na dose. Certamente um trabalho decisivo e com olhar crítico do diretor Denzel Washington no comando de todas as cenas. Não era difícil algum destes atores sair do tom, mas isso não acontece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em um papel menor, mas encantador, está a atriz Saniyya Sidney, que interpreta Raynell, filha de Troy e adotada por Rose, na reta final da produção.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen. Acho que ela não apenas usa lentes que nos remetem para o tempo da história, os anos 1950, mas também usa tons mais escuros e “duros” e que ajudam a mostrar, desde o princípio, que esta não é uma história simples, ou “feliz”, mas é no melhor estilo “a vida como ela é”.

Interessantes que alguns personagens importante da história e bastante citados, como Alberta e o pai do protagonista, assim como a primeira mulher dele ou a esposa do filho mais velho, ou mesmo a esposa de Jim, Lucille, são apenas citados, mas nunca aparecem. Sem dúvida uma escolha dos realizadores para concentrar a história em poucos personagens e, desta forma, aprofundar o filme em suas histórias particulares e na relação dos personagens entre si.

Este é um filme com uma quantidade impressionante de diálogos. De conversas entre os personagens. Interessante como o diretor Denzel Washington se preocupou, neste momentos, em evitar a câmera estática. Ele está sempre procurando movimentar a câmera, muitas vezes ao redor dor atores, buscando um certo ritmo e dinâmica na produção para manter o interesse do espectador. Funciona. Neste sentido, ajuda bastante também a edição de Hughes Winborne que sabe, nos momentos certos, valorizar esta dinâmica das câmeras e, em outras partes, promover cortes para ajudar nesta dinâmica do filme.

Ajudam muito a ambientar o filme no clima correto da história o design de produção de David Gropman, a direção de arte da dupla Karen Gropman e Gregory A. Weimerskirch, a decoração de set de Rebecca Brown e, principalmente, os figurinos de Sharen Davis.

Fences estreou em circuito limitado nos Estados Unidos no dia 16 de dezembro de 2016. Ou seja, o filme entrou quase no último minuto para ser habilitado a concorrer ao Oscar 2017. Não à toa o burburinho da produção foi crescendo aos poucos e nas últimas semanas. Afinal, ele estreou realmente em circuito comercial nos Estados Unidos e no Canadá apenas no dia 25 de dezembro. Pouco a pouco, a partir de fevereiro de 2017 ele vai chegando nos outros mercados pelo mundo.

Esta produção teria custado US$ 24 milhões – uma parte importante deste dinheiro foi, provavelmente, para pagar os cachês dos grandes atores envolvidos na produção – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 42 milhões até ontem, dia 10 de janeiro. Ou seja, ele já está trilhando o caminho de lucrar. De qualquer forma, ele foi muito bem nos Estados Unidos, o que ajuda o filme em sua campanha pelo Oscar 2017.

Fences foi totalmente rodado na cidade de Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Fences, a história original, estreou na Broadway em 1987. Na época, a história ganhou os prêmios Tony (o Oscar do teatro) de Melhor Peça, Melhor Ator (para o grande James Earl Jones) e Melhor Atriz (para Mary Alice).

O resgate de Fences em 2010 fez a história ganhar um Tony como o Melhor Revival de uma peça, além dos prêmios de Melhor Ator (para Denzel Washington) e de Melhor Atriz (para Viola Davis). Eu não sabia que estes dois gigantes já tinham vivido esta história no teatro. Isso explica como eles se saíram tão bem em suas interpretações. Conhecem o texto como poucos. Na verdade, os cinco atores com papéis adultos na história reviveram os seus personagens interpretados no teatro em 2010 neste filme.

Escrito pelo dramaturgo August Wilson em 1983, Fences é a sexta das 10 peças dele do chamado “Ciclo de Pittsburght”. Como todas as demais peças deste ciclo, Fences explora a evolução da experiência afro-americana e examina as relações raciais, entre outros temas. A peça ganhou, além dos Tony’s citados, o prêmio Pulitzer em 1987.

Para muitos a classificação de Viola Davis como Atriz Coadjuvante para os prêmios foi incorreta, já que ela poderia (ou deveria) ser classificada como Melhor Atriz. Em uma entrevista para a Deadline o ator Denzel Washington disse que discordava desta crítica e que Viola Davis tinha a liberdade de escolher em que categoria ela deveria ser classificada, inclusive para melhorar as suas chances de vencer. Também acho que as classificações de atriz principal ou coadjuvante são relativas. E Fences não é o primeiro filme em que esta divisão é muito tênue.

O autor August Wilson insistiu para que um diretor afro-americano dirigisse a adaptação para o cinema. Curioso que quando a Paramount Studios adquiriu os direitos sobre Fences, em 1987, a ideia era que o ator Eddie Murphy, que buscava papéis mais “sérios” para a sua carreira, interpretasse a Cory. Só que naquele ano Murphy já tinha 10 anos a mais que o personagem e, conforme a adaptação para o cinema da peça foi atrasando, ficou impossível dele participar do projeto.

Esta é a primeira vez que August Wilson adapta uma de suas peças mais aclamadas. Mas apesar dele ter trabalhado muito tempo nesta adaptação, o roteiro do filme ainda estava incompleto quando ele morreu em 2005. Em janeiro de 2016 o Deadline Hollywood informou que o produtor Scott Rudin tinha contratado o premiado dramaturgo (vencedor de Tony e Pulitzer) Tony Kushner para terminar o roteiro de Wilson. Apesar do crédito não aparecer para ele como roteirista, ele foi creditado como um dos coprodutores.

Denzel Washington ficou confortável com o material original para ele interpretar o protagonista e dirigir o filme após ele ter interpretado o papel em 114 apresentações no Teatro Cort, na Broadway, em Nova York, no ano de 2010.

Denzel Washington havia dirigido Viola Davis em outro filme: Antwone Fisher, a estreia do ator na direção de uma produção. Viola Davis fez um papel secundário naquele filme, como Eva May.

Aliás, vamos falar deste gigante Denzel Washington. Para mim, e não é de hoje, um dos melhores atores de sua geração. Ele tem nada menos que 56 títulos no currículo como ator e quatro produções que ele dirigiu. Além de Antwone Fisher, de 2002, ele dirigiu The Great Debaters (comentado aqui) e, no ano passado, ao episódio The Sound of Silence da série de TV Grey’s Anatomy.

Não citei antes, mas um elemento interessante deste filme é a trilha sonora cheia de jazz de Marcelo Zarvos. Ela casa muito bem com a história e dá o tom certo para o filme.

Estava aqui pensando em um ponto importante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Fences). Apenas a sociedade dos anos 1950, os costumes e os valores da sociedade daquele época para explicar como Rose aceita criar a filha de Troy e aceita ele ficar na mesma casa mesmo depois dele ter continuado com a amante durante o tempo todo. Se fosse hoje, certamente, ao ver que o marido ia continuar com a amante, Rose provavelmente o teria feito sair de casa ou ela teria saído com o filho e pedido pagamento de pensão e divisão de bens, mandando ele cuidar da própria vida e de sua “felicidade” e “liberdade” que ele tanto buscou. Outros tempos, sem dúvidas.

Até o momento Fences ganhou 31 prêmios e foi indicado a outros 86. Números impressionantes para um filme que está há menos de um mês no circuito. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante para Viola Davis ganho no último domingo. Viola Davis ganhou outros 20 prêmios como Melhor Atriz Coadjuvante. O ator Denzel Washington também recebeu três prêmios como Melhor Ator; Fences ganhou como Melhor Roteiro duas vezes; e Fences integra a lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI.

Aliás, até o momento, aqui no blog eu comentei cinco dos 10 melhores filmes do ano segundo o Prêmio AFI. São eles: Zootopia (comentado aqui), Arrival (com crítica neste link); Hell or High Water (com crítica aqui); e Sully (comentado neste link). Falta assistir ainda La La Land, Manchester by the Sea, Moonlight, Silence e Hacksaw Ridge. Amanhã será a vez de assistir a La La Land. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 141 críticas positivas e sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média 8. Apesar do nível de aprovação ser bom para os dois sites, achei um tanto baixa a avaliação do público que votou no IMDb. Especialmente se levarmos em conta o nível de aprovação de outras produções fortes desta temporada pré-Oscar.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ele atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Fences é um destes filmes que explica o porquê do cinema ser uma arte tão incrível. Verdade que a origem da história veio de outro formato que, imagino, seja tão maravilhoso quanto, mas apenas um grande filme pode nos apresentar interpretações tão fantástica e nos fisgar pela razão e pela emoção de forma tão completa. Denzel Washington não é apenas um estupendo ator, mas também um diretor cuidadoso. Ele que nos transporta nesta história que é humana, demasiado humana.

Ao mesmo tempo que Fences nos apresenta agruras e detalhes de vidas que parecem ter uma data e local específicos, o filme fala de histórias muito próximas. Trata de relações que conhecemos bem porque aborda, realmente, o heroísmo e as fraquezas de pessoas comuns. Gente que, como nós, falha, mas tenta sempre fazer o melhor. Fences é universal porque trata com maestria sobre pessoas e famílias. Tudo isso com um texto incrível e interpretações irretocáveis. Imperdível.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Fences tem tudo para chegar bem na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Depois da campanha dos últimos anos, incluindo 2016, contra o esquecimento de realizadores e de atores negros na premiação, a expectativa é que este ano esteja em evidência apenas o talento dos envolvidos em cada filme e não a questão racial.

Ou seja, a expectativa é que filmes fortes desta temporada como Fences e Moonlight tenham o destaque eles merecem. Se isso de fato acontecer, Fences deve ser indicado em pelo menos quatro categorias, podendo emplacar em alguma outra mais técnica.

As indicações óbvias são para Melhor Filme, Melhor Ator para Denzel Washington, Melhor Atriz Coadjuvante para Viola Davis e Melhor Roteiro Adaptado. Ele ficar fora de algumas destas categorias seria estranho. A maior chance, parece, até pelas premiações entregues até o momento, parece estar com uma estatueta dourada indo para Viola Davis. Ela é a favorita da categoria.

Não seria uma surpresa se Denzel Washington ganhasse o prêmio de Melhor Ator. Até o momento o meu voto iria para ele – mas ainda preciso assistir aos seus principais concorrentes em Manchester by the Sea e La La Land. O filme também tem boas chances em Roteiro Adaptado, ainda que a categoria tenha na disputa fortes concorrentes como Moonlight e Arrival. Na categoria Melhor Filme ele corre muito por fora – o favoritíssimo é mesmo La La Land.

Para resumir, Fences deve ser indicado em quatro categorias, pelo menos, e tem real chance em uma, de Melhor Atriz Coadjuvante. Mas não seria uma surpresa levar também em Melhor Ator.

ADENDO (22/02): Faltando pouco mais de uma semana para Fences estrear nos cinemas do Brasil, atualizei o título deste post com o nome oficial da produção no país. Vamos combinar que “Cercas” teria sido bem melhor, não? Achei “Um Limite Entre Nós” bem, bem ruim. Mas ok, ignorem o nome do filme em português e o assistam. Ele merece.

PEQUENO ALERTA: Meus caros leitores aqui do blog, eu vou seguir com as publicações normais até o Oscar 2017, para seguir uma tradição aqui do blog. Mas passada a premiação, se eu não tiver conseguido uma boa adesão na campanha de apoio ao blog, eu vou dedicar mais tempo para outras atividades que me deem retorno financeiro e vou tornar as atualizações aqui mais escassas ou bem mais sucintas. Se você quer ajudar o blog a continuar como ele está agora ou até a ampliar a frequência de publicações, sugiro o apoio a este projeto:

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