Nieve Negra – Black Snow – Neve Negra


Um filme que parece ser de outra latitude e que requenta uma história que já assistimos antes. Nieve Negra chama a atenção por ser estrelado por Ricardo Darín, um dos grandes atores da história do cinema argentino, mas deixa a desejar. A produção tem uma narrativa bastante previsível e, quando resolve “surpreender”, revela muitas incongruências e situações um bocado sem sentido.

A HISTÓRIA: Neblina e neve em um local com muito gelo. Um menino caminha entre as árvores e sobre a neve com uma arma até que se vira ao escutar o próprio nome. Corta. Em um avião, Marcos (Leonardo Sbaraglia) acaricia o cabelo da esposa, Laura (Laia Costa). Eles estão viajando da Europa para a Argentina, terra natal dele, para resolver as pendências após a morte do pai de Marcos. Logo que chegam em casa, Marcos atende o telefone e fala com Sepia (Federico Luppi). Marcos pergunta porque a casa está toda desarrumada, e Sepia diz que foi o irmão dele, Salvador (Ricardo Darín). Sepia diz que Marcos deve pegar uma carta que o pai dele deixou e que deveria falar com o irmão sobre a oferta dos canadenses. Marcos tenta escapar, mas acaba indo para a propriedade da família e encontrando Salvador.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nieve Negra): Os primeiros minutos desta produção são um bom cartão de visitas da proposta do diretor Martin Hodara, que escreveu o roteiro de Nieve Negra junto com Leonel D’Agostino. Aquela sequência inicial de Juan (Iván Luengo) caminhando com uma arma entre algumas árvores de um bosque e sobre a neve se parece com tantas outras de filmes europeus. Digo que é um bom cartão de visitas porque o restante da história também caminha por semelhanças como esta.

Os europeus são mestres em contar histórias de dramas familiares com boas doses de suspense e de tensão. Também não são raras as histórias de adultério ou de outro tipo de relação amorosa que acaba “estragando tudo”. Nieve Negra caminha por essa seara, contando um drama familiar com uma tragédia no meio e alguns “temperos” que vamos descobrir apenas no final.

Francamente, por mais que Hodara e D’Agostino se “esforcem” para surpreender o espectador, eu não achei as “sacadas” do filme realmente surpreendentes. (SPOILER – não leia se você não viu o filme ainda). Não sei vocês, mas não demorou muito tempo para que eu desconfiasse de Marcos como o verdadeiro “assassino” de Juan. Talvez por causa das reações de Salvador, que parecia ser um sujeito que carregava uma culpa há muito tempo que não lhe pertencia – algo que se confirma no final.

Mas nem precisei chegar na derradeira “cena revelação” do crime para matar a charada. Estava na cara que Salvador não era o culpado… e se não era ele, sobrava apenas o outro irmão, Marcos. A justificativa para o crime me pareceu bastante forçada. Mas mais forçada que esta justificativa foi mesmo a reta final da produção. Vejamos algumas incongruências que realmente me incomodaram.

(SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, vamos falar sobre a essência da história. Marcos matou Juan, de forma proposital e covarde, pelas costas. Muito tempo depois, ele volta para a cidade natal e para a propriedade onde o crime aconteceu e faz de conta que não teve nada a ver com aquilo. Ele repete a história “oficial” de que quem atirou em Juan foi Salvador. Ora, se ele matou o irmão mais novo e tanto tempo depois ele ainda coloca a culpa em Salvador, de duas uma: ou ele “perdeu a memória” e realmente não lembra do que aconteceu (bem difícil de acreditar, não?) ou ele é um grande cínico que lembra de tudo e que atua como um grande “ator” enganando a todos.

Honestamente, acho muito difícil ele ter feito uma lavagem cerebral tão grande que não lembra de como Juan realmente foi morto e da relação que ele tinha com a própria irmã. E se, como parece mais lógico, ele está apenas fingindo e mentindo e, no fundo, sabe exatamente o que aconteceu no passado, que maluquice é aquela que Laura faz no final? Se ele lembra do que aconteceu, claro que ele vai reconhecer o bilhete que ele próprio escreveu e vai saber que Laura cortou um pedaço dele e que ela descobriu a verdade. O que explicaria ela se arriscar desta forma? Não faz o mínimo sentido.

Outra forma de encarar aquele final é pensar que Laura, desconfiando que o marido estava mentindo e “fazendo de conta”, resolveu mostrar para ele que ela sabia a verdade, mas que ia fingir como ele para que os dois ficassem juntos. Ainda que esta seja a alternativa que faça mais sentido, acho a saída para a encruzilhada da trama muito estranha. Primeiro que uma mulher com o mínimo de crítica pensaria que deveria fugir de uma relação com um sujeito que tem tanto sangue frio quanto Marcos – que matou o irmão pelas costas e que tinha uma relação amorosa com a própria irmã. Que tipo de sujeito é esse? E uma mulher em sã consciência vai querer se relacionar com um cara assim? Difícil de acreditar.

Mas as incongruências não param para aí. O que realmente me incomodou foi a sequência sem sentido no final. Primeiro, Marcos, sabendo que a mulher estava grávida, realmente cogitar deles ficarem dentro de um carro em uma tempestade de neve. Sem sentido. Por mais que o irmão tinha ameaçado ele, um sujeito com o mínimo de bom senso jamais ia buscar como saída aquela falta de solução que era ficar dentro do carro com aquela neve toda. Depois, muito difícil de acreditar que Laura acertaria Salvador atirando de dentro do rancho para fora – justamente ela que não tinha tanta experiência assim em lidar com uma arma.

Só que o roteiro de Hodara e D’Agostino consegue derrapar ainda mais. Depois que Marcos é levado para a delegacia, não faz sentido nenhum para a história que Laura fique naquela casa no meio do nada e sozinha em meio a uma temporada de tempestades de neve, não é mesmo? Não faz sentido algum. Faria muito mais sentido ela ir com Sepia para a cidade e ficar esperando Marcos na casa do pai dele ou mesmo ficar uma noite na casa de Sepia. A última alternativa seria ela ficar lá na propriedade em lugar ermo. Claro que eles optaram por esta alternativa nada lógica para que Laura descobrisse a verdade. Mas me pareceu uma forçada de barra grande demais para ser engolida.

Em resumo, os roteiristas poderiam ter trabalhado melhor a história e deixado ela sem tantos furos e derrapadas. Me incomoda quando um roteiro é desleixado, e isso me pareceu acontecer em Nieve Negra. A qualidade do filme é que escolheram um bom elenco para dividir a cena, com evidente destaque para o trio Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Os outros atores em cena fazem papéis menores. Eles estão bem, mas o roteiro realmente não os ajuda muito. Sem dúvida alguma há filmes argentinos muito melhores no mercado. Procure que vale a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As intenções de Martin Hodara em fazer este filme, tenho certeza, eram boas. Mas o diretor e roteirista precisa melhorar bastante a forma de contar histórias e, principalmente, buscar um pouco mais de características dentro da Argentina em lugar de “copiar” tanto o estilo europeu. Certamente vai lhe fazer bem. E o público também agradece. Afinal, se for para ver a um filme estilo europeu, melhor mesmo é assistirmos a uma produção destas legítima e direto da fonte.

Este é apenas o segundo filme dirigido por Martin Hodara. Antes ele dirigiu a dois curtas, em 1987 e 1991, em em 2007, La Señal. A maior experiência de Hodara é na função de assistente de direção ou segundo diretor – ele tem 12 trabalhos neste rol. Ou seja, ainda que tenha um bocado de experiência no cinema, parece que ele precisa aprimorar melhor o seu trabalho antes de apresentar algo realmente bom.

Nieve Negra estreou na Argentina no dia 19 de janeiro deste ano. Depois o filme estreou no Uruguai e, em março, participou do Festival de Cinema de Málaga, na Espanha. No Brasil ele estreou nesta semana, no dia 8 de junho.

Algumas cenas da produção foram rodadas em Andorra, onde havia a neve que os produtores não encontraram na Patagônia.

Este filme é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

Da parte técnica do filme, vale destacar a boa direção de fotografia de Arnau Valls Colomer; a edição de Alejandro Carrillo Penovi; o design de produção um tanto óbvio de Marcela Bazzano e Josep Rosell; e a trilha sonora de Zacarías M. de la Riva.

Como eu comentei antes, os nomes fortes desta produção são, na ordem de importância, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín e Laia Costa. Além deles, vale comentar o bom – e alguns momentos razoável – trabalho de Dolores Fonzi como Sabrina, irmã de Marcos e Salvador; Andrés Herrera como o pai dos três; Mikel Iglesias como Salvador na juventude; Iván Luengo como Juan; Federico Luppi como Sepia, advogado interessado nas vendas da propriedade, amigo do pai dos garotos e quem acaba ajudando Marcos; Biel Montoro como o Marcos adolescente; e Liah O’Prey como a Sabrina jovem. O elenco realmente é bastante restrito e diminuto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram três críticas positivas e duas negativas para a produção, o que garante para Nieve Negra uma aprovação de 60% e uma nota média 6. Francamente, estou com eles. Facilmente este filme poderia ter levado um 6 ou pouco mais que isso.

CONCLUSÃO: O bom e velho drama familiar com uma “tragédia” no meio e uma ou duas tentativas de surpreender o espectador. Nieve Negra tem bons atores, mas sofre com um roteiro fraco e com uma busca um tanto forçada por um estilo de filme tradicional na Europa mas que não parece combinar muito com a latitude latino-americana. Assista apenas se você não dispensa um filme estrelado pelo Ricardo Darín. Porque enquanto obra de cinema, existem muitas outras produções melhores no mercado.

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