The Square – The Square: A Arte da Discórdia

Qual é o valor da arte hoje em dia? Em um mundo em que a desigualdade parece não ter fim, gastar com arte parece algo ético? O que a arte nos questiona, conseguimos levar para a nossa vida cotidiana ou a reflexão dura apenas alguns segundos, minutos, dias, mas não consegue sair do plano das ideias? The Square é um filme interessante, que nos desafia a pensar sobre o nosso contexto, sobre as sociedades que construímos e sobre as escolhas que fazemos. Trata de arte, é verdade, mas trata, sobretudo, de gente.

A HISTÓRIA: Som de festa. Um zumbido. Som de um sapato no piso. A secretária de Christian (Claes Bang) pergunta se ele precisa de algo, porque chegou a hora da próxima entrevista. Ele pede dois minutos para se preparar. Pouco depois, ele está pronto para falar com a jornalista Anne (Elisabeth Moss). A entrevista demora um pouco, porque as anotações dela caem, mas logo ela recomeça e pergunta para ele qual é o maior desafio para se gerenciar um museu. Christian diz que odeia dizer isso, mas que provavelmente é o dinheiro.

Ele diz que o museu, por ser de arte moderna e contemporânea, tem uma competição feroz, já que existem muitos compradores cheios de dinheiro no mundo que gastam mais em uma tarde do que eles em um ano. E assim começa essa produção, que mostra não apenas o que acontece dentro de um museu, mas em seu entorno, focando em aspectos que a arte moderna e contemporânea gosta de focar, ainda que nem sempre ela chegue em todos que deveria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Eu não sabia muito bem o que esperar desse filme. Sim, eu já tinha ouvido falar que ele tratava sobre a arte, mas qual seria exatamente a proposta desta produção, só vendo mesmo. E aí que esse filme me surpreendeu por tratar os bastidores da arte sem firulas e por aproveitar o tema para abrir um pouco mais a discussão sobre a sociedade que cada um de nós ajuda a construir.

Logo no começo do filme dirigido e com roteiro de Ruben Östlund somos apresentados ao protagonista dessa produção. Curador-chefe de um museu de arte moderna e contemporânea, Christian é um sujeito interessante – e que representa vários homens da sua geração. Bem educado, com uma vida boa e com “poder” no meio artístico, ele tem o olhar crítico necessário para estar na posição em que ele está. Mas será que esse olhar crítico se sustenta a longo prazo e/ou em qualquer situação?

Algo interessante nesse filme, e que eu notei logo de cara, é que ele trata de situações bastante plausíveis. Em alguns momentos, inclusive, parece que The Square se desenvolve quase como um documentário. Me refiro às diferentes cenas das ruas de Estocolmo, à garota que pede dinheiro ou comida em um 7-Eleven do Centro, e tantas outras sequências que parecem povoar o cotidiano não apenas daquela cidade, mas de qualquer outra.

O início do filme, que se debruça sobre os bastidores de uma nova exposição que está sendo preparada para estrear no museu, também parece bastante “a vida como ela é”. Christian está em meio a uma série de entrevistas para falar sobre o museu e sobre o seu esforço de seguir existindo em um mundo em que a disputa por recursos é cada vez maior – e quem, hoje em dia, realmente é filantropo e generoso para doar dinheiro para a arte?

Assim, The Square já começa desmistificando um pouco a ideia romântica que muitos tem sobre o mundo da arte. De que ele é formado apenas por pessoas criativas, muito ligadas em tudo que os cerca e críticas do cotidiano. Ainda que tudo isso seja verdade, esse meio também vive em uma busca constante por dinheiro e por recursos. Colocar uma nova exposição de pé não é algo fácil ou simples, como The Square revela muito bem.

Várias pessoas são envolvidas no processo, e há uma “briga” grande por parte de cada museu para que a sua proposta seja ouvida e reverberada na imprensa – porque, assim, eles conseguem não apenas público, mas também possíveis apoiadores/patrocinadores. E aí esse filme entra em uma outra esfera que, particularmente, me pareceu especialmente interessante: em um mundo com excesso de informação e de pautas que chamam a atenção e são de interesse público, como se fazer notar com uma exposição de arte?

Francamente, a arte deveria chamar a atenção naturalmente. Pelo menos é isso que eu penso. Porque a arte, não importa em que época da nossa história, ajudou a nos contar mais sobre o que somos, sobre o que sonhamos, e ampliou as nossas fronteiras da imaginação e da compreensão. Então a arte, por si só, deveria interessar a todos – inclusive aos jornais.

Mas não. Parece que a cada dia mais pessoas estão achando a arte desinteressante – ou essa é apenas uma impressão minha? Nesse sentido, The Square joga algumas perguntas importantes no ventilador. Como, por exemplo, a quem a arte interessa? Quem se importa com a arte? Será que ela pode ser tão importante ou interessante para um mendigo quanto para uma pessoa que tem uma ótima condição de vida?

Pior que, para quem já frequentou alguns museus, sabe que arte parece ser realmente restrita a alguns perfis de pessoas. Quantos museus, por exemplo, estariam dispostos a abrir as portas para quem não pode pagar pela entrada e/ou para moradores de rua? Bem, muitos museus tem os seus dias de gratuidade. Em teoria, nesses dias, qualquer pessoa poderia entrar – inclusive alguém sem dinheiro algum. Mas você, que já foi em alguns museus, já viu em algum deles um mendigo? Eu, nunca.

Então será mesmo que os diferentes cenários artísticos – museus, galerias, cinemas, teatros, etc. – são democráticos e abertos para todos? Ou será que eles, com certa “naturalidade”, selecionam quem deve ou não frequentar os seus ambientes e a sua arte? Apesar de não ser vista por todos, a arte trata sobre todos. Todas as manifestações artísticas que vemos nesse filme – todas muito interessantes, aliás -, acabam falando sobre conceitos universais e sobre questões que competem a toda a sociedade (inclusive a marginalizada).

Uma das exposições, que mostra montes de “cinzas” e a frase “você não tem nada”, aborda a insignificância e a finitude do indivíduo – e o fato de que nada do que ele acredita ter de posses realmente seja algo. Outra intervenção artística, feita por Oleg (Terry Notary), em um jantar chique – para mim, o ponto alto da produção -, trata com bastante impacto a questão do “bicho humano” e a sociedade machista em que vivemos – na qual, muitas vezes, parte considerável dos homens parece não ter saído do tempo das cavernas.

Além destas exposições, temos aquela que movimenta a produção – além da vida pessoal do protagonista, é claro. A exposição The Square de Lola Arias, que dá nome a esse filme, trata sobre uma sociedade em que a confiança ou a desconfiança sobre os outros dita as nossas escolhas cotidianas – e, mais que isso, a nossa vida.

Em paralelo a todo o trabalho envolvendo a montagem e a divulgação dessa exposição, temos a vida real acontecendo, com o protagonista Christian tendo a sua própria tolerância e confiança/desconfiança do outro testada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ao tentar ajudar uma garota desesperada, ele é enganado e roubado. E como ele reage a isso que lhe aconteceu? Esse é o ponto central da história.

Primeiro, Christian “acompanha” a trajetória do celular que foi roubado. Depois, em meio a vinho e um jantar, ele dá ouvidos para Michael (Christopher Laesso), que sugere que ele entregue uma carta ameaçadora para cada morador do prédio onde o celular dele foi parar. Até aí, o gesto dele parece ter sido inocente. Afinal, o criminoso pode ou não dar bola para a carta que ele escreveu. O problema é que nem toda cultura ou toda família funciona da mesma forma.

Então sim, Christian consegue os seus pertences de volta. Mas ele também consegue uma bela dor de cabeça com um garoto (Elijandro Edouard) ficando realmente indignado com a acusação que ele fez. Diferente de Christian, que provavelmente ignoraria uma carta daquela sendo deixada em sua porta, a família do garoto passou a desconfiar dele e a castigar. Claro que tudo isso se resolveria de uma maneira simples – se eles falassem com a vizinhança, por exemplo, facilmente eles saberiam que a acusação tinha sido generalizada.

Esse ponto do filme parece um tanto exagerado, não é mesmo? De fato ele é, um pouco. Porque vejamos a maior parte das pessoas… quem hoje em dia cumprimenta os vizinhos ou tem uma boa relação com eles? Sim, no Brasil ainda temos isso. Agora imagine um país da Europa onde os imigrantes são cada vez mais recebidos com receio e/ou indiferença… muitas pessoas realmente não se enturmam ou acabam se refugiando apenas dentro de casa – para evitar problemas maiores.

Nada fica totalmente claro em The Square, mas me parece que esse era o caso do garoto e de sua família. Parece que eles eram imigrantes – talvez até muçulmanos -, que não eram bem “inseridos” em sua comunidade e que, por isso, acabaram levando a acusação como algo tão grave.

Esse é um ponto não óbvio e importante do filme. Mostrar como hoje existem tantas pessoas marginalizadas nas nossas cidades – seja porque não tem dinheiro, seja porque vieram de outros países, atrás de uma oportunidade melhor de vida, e não falam direito o idioma ou encontram uma oportunidade de trabalho.

O problema é que nem eles se adaptam bem ao novo local, por causa do idioma e da cultura, e nem as pessoas locais conseguem perceber que a forma deles de pensar e de agir é diferente – e que todos nós, por isso mesmo, deveríamos ter mais cuidado e empatia no trato. Em resumo, mais consideração pelo ser humano, suas semelhanças e diferenças. Mas quem disse que isso é o que vemos acontecer?

Voltando para a questão da divulgação da nova exposição do museu. Esse é um ponto que me pareceu especialmente interessante. Christian, muito envolvido com as suas questões pessoais – além do resgate dos pertences roubados, a relação nova e um tanto conturbada com a jornalista Anne (Elisabeth Moss) e o retorno das filhas para casa (Lise Stephenson Engström e Lilianne Mardon) -, acaba sendo um bocado displicente com a divulgação da exposição The Square.

O resultado é que a agência de relações públicas e de marketing contratada para divulgar o evento acaba apostando na ideia maluca de dois “jovens talentos” (Daniel Hallberg e Martin Sööder) que conhecem bem a dinâmica das redes sociais e que vem com uma ideia literalmente “bombástica” para “causar” na internet. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do filme.

Realmente muitas pessoas hoje em dia – vide inclusive políticos no Brasil – perdem a noção do ridículo ou do que pode ser aconselhável e se lançam com ideias malucas e/ou cretinas na internet para conseguirem a tão desejada exposição na mídia. Mas a que preço eles fazem isso? No caso do exemplo dado por The Square, os publicitários conseguiram “viralizar” o vídeo e chamar a atenção para a exposição, mas de uma forma totalmente errada.

Afinal, sim, a exposição queria chamar a atenção para a falta de cuidado e de afeto das pessoas com os outros de forma geral. Mostrar que o que deveria ser considerado básico no trato humano não acontece, muitas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas daí a explodir uma garotinha loira se passando como mendiga é um pouco demais, não? Afinal, estamos falando de uma era em que extremistas realmente se explodem para matar “infiéis” e na qual esses mesmos grupos utilizam crianças como “bala de canhão”… então mostrar uma criança explodindo para falar de uma exposição parece banalizar demais a violência que já acontece na vida real, não?

Mas essa ideia cretina apresentada em The Square nos ajuda a refletir sobre algo que gostaram de falar bastante por aqui também na exposição com um homem nu e uma criança: a liberdade de expressão. Hoje em dia, na era em que as “massas” antes apenas receptoras de informação podem também dar a sua opinião sobre tudo, certas ideias não passam mais pelo crivo do “tribunal da internet”.

O povo pode até consumir em massa um determinado vídeo – e, como The Square bem revela, inclusive dar dinheiro para quem fez isso e para o Google como “participante” dos lucros -, mas nem por isso ele bate palma para o que viu. No caso do vídeo infeliz dos publicitários “brilhantes” que sabem tudo sobre internet, o tiro saiu pela culatra. A mensagem foi distorcida, foi exagerada, tudo para chocar e para viralizar, e a polêmica destruiu uma exposição que tinha um princípio interessante – e, por tabela, fez o protagonista dessa história perder o emprego.

Essas questões, assim como a desigualdade de oportunidades e de tratamentos conforme a classe social ou a origem das pessoas, são temas importantes nesse filme. Só me incomodou um pouco, devo admitir, que alguns personagens foram pouco desenvolvidos – como o de Anne, interpretado por uma Elisabeth Moss quase em participação especial -, e que algumas sequências foram pensadas mais do que para nos chocar do que para fazer sentido (como aquela do protagonista empurrando o garoto pela escada).

Além disso, achei a duração desse filme realmente longa. Para o que ele tinha que nos apresentar, tranquilamente ele poderia ter duas horas de duração ou até um pouco menos – mas The Square tem 2h22min! Também acho que algumas sequências da produção ficaram um tanto deslocadas, como toda aquela sequência de Christian no apartamento de Anne (que poderia ser bem mais curta e direta) ou o encontro do garoto indignado com o “emissário” de Christian, Michael. Um pouco menos de pretensão faria bem para esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os artistas são seres fabulosos. Eles pensam a realidade de uma forma que os “reles mortais”, tão ocupados em seus cotidianos de trabalho e demais afazeres, não são capazes de fazer. Além disso, eles tem a capacidade de ver o belo – ou o feio – de uma forma diferenciada, olhando além das aparências e sabendo provocar as audiências como poucos.

Ainda que tudo isso seja verdade, até que ponto um artista tem a liberdade para expressar a sua arte? Ele pode ter a liberdade completa, fazer o que realmente deseja sem ter que pensar em mais nada ou ninguém? Pergunto isso por causa de uma das sequências mais marcantes e fascinantes do filme, aquela em que Oleg faz a sua intervenção.

No início, achei impressionante o trabalho dele. De fato, aquela era uma alegoria sobre a nossa sociedade, na qual os que tem medo ou procuram escapar do “terror” apenas se tornam vítimas dele. Quem fica imóvel apenas para ver outro se tornar vítima, é quem sobrevive. Essa é um alegoria sobre diversos ambientes da nossa sociedade atual – inclusive o empresarial, não? E ainda que o trabalho do artista tenha sido impressionante, a sequência final dele, pegando aquela mulher pelos cabelos… realmente era necessária? Até que ponto o artista não estava extravasando a sua própria loucura? A liberdade de expressão tudo permite? Acho que não.

Acho sim que a liberdade de expressão deve ser defendida, desde que ela não afete os direitos básicos dos outros. Desde que a liberdade de expressão não fira leis e regras que foram estabelecidas pela sociedade. Não basta querer passar uma ideia. É preciso ter a responsabilidade de cuidar para que aquela ideia não provoque danos para pessoas inocentes e que não escolheram ser expostas a determinadas situações.

Entre os aspectos técnicos desse filme, gostei muito da trilha sonora, que geralmente utiliza o clássico para tornar as sequências mais “líricas”, e que tem Rasmus Thord como supervisor musical; assim como gostei da direção de fotografia de Fredrik Wenzel; da direção sempre atenta aos personagens e à cidade de Ruben Östlund; da edição de Jacob Secher Schulsinger e de Ruben Östlund; do design de produção de Josefin Asberg; e dos figurinos de Sofie Krunegard.

O grande nome desse filme é o de Claes Bang. Toda a produção está centrada no Christian que ele interpreta. Como o ator ganha uma evidência monumental nessa produção, outros nomes bem conhecidos, como Elisabeth Moss e Dominic West, aparecem em trabalhos bastante secundários. A verdade é que nenhum outro personagem, exceto o protagonista, tem o seu papel bem desenvolvido nessa produção. Esse é um dos pontos fracos do filme, aliás.

Além dos atores citados, vale destacar o trabalho de alguns outros coadjuvantes: Terry Notary rouba a cena como Oleg – sem dúvida um trabalho marcante e pelo qual esse filme ficará lembrado; Christopher Laesso está muito bem como Michael – ainda que, novamente, a exemplo dos demais, seu personagem seja pouco desenvolvido; Lise Stephenson Ergström e Lilianne Mardon estão ok como as filhas do protagonista; Marina Schiptjenko está bem como Elna, administradora do museu; Elijandro Edouard como o garoto indignado está bem, ainda que me pareceu um pouco exagerado; e Daniel Hallberg e Martin Sööder fazem muito bem os “jovens talentos” do meio de RP e publicitário – eles realmente se parecem com muitas figuras que encontramos hoje em dia em várias empresas.

The Square estreou em première no dia 20 de maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 37 festivais em diversos países pelo mundo. Realmente um filme com uma longa trajetória de festivais. Interessante. Nessa sua trajetória, The Square ganhou 22 prêmios e foi indicado a outros 33 – sendo uma destas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e para o Prêmio Vulcain para Artista Técnico dado para Josefin Asberg no mesmo evento; para os prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Comédia Europeia, Melhor Diretor Europeu, Melhor Ator Europeu para Claes Bang, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Designer de Produção Europeu para Josefin Asberg no European Film Awards; para o Goya de Melhor Filme Europeu; e para oito prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por diferentes associações de críticos dos Estados Unidos e do Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre The Square. O ator Terry Notary interpretou, nesse filme, ao “homem macaco” Oleg. O artista russo Oleg Kulik ficou famoso por, ao ser convidado para participar da exposição coletiva internacional Interpol, em Estocolmo, fazer, na abertura, uma performance como um cão. Ele correu, pulou, rolou no chão e até mordeu alguns convidados VIPs nas pernas. Kulik disse que estava representando o povo russo “intimidado”, que estava sendo atacado e que, agora, estava revidando. Os convidados da exposição ficaram indignados ao ponto de chamar a polícia. No filme, há uma cena semelhante na capacidade de chocar, mas na qual o artista se passa por macaco.

Uma das perguntas da exposição The Square é interessante: você é do tipo de pessoa que confia ou que desconfia das pessoas? O restante da exposição e da tua experiência nela é definida por isso. Na vida real, também definimos a nossa vida a partir do momento que respondemos essa pergunta. E afinal de contas, por que chegamos ao ponto de tanta gente, ao menos na prática, mais desconfiar do que confiar nos outros?

O incidente em que Christian tem o celular roubado foi baseado na própria experiência de um amigo do diretor Ruben Östlund. Ele passou por algo bastante similar.

O diretor de The Square disse que ele nunca mais quer filmar uma cena que esteja em um filme apenas para ajudar a contar a história. Ele quer reunir diversas cenas interessantes que ajudem a explicar o comportamento humano.

Em uma cena, um homem com síndrome de Tourette tira a concentração de uma repórter que estava entrevistado o artista Julian. Östlund se inspirou em uma situação semelhante que aconteceu em um teatro da Suécia. E a verdade é que uma cena assim pode acontecer em qualquer parte. Como as pessoas lidam com essas diferenças extremas? Acho que isso e o descontrole de alguns participantes do jantar em que o homem macaco ataca, ajuda a demonstrar bem qual caminho as nossas sociedades cada vez mais sem paciência estão seguindo.

The Square faturou US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos. Não é um sucesso, para os padrões americanos, mas é um resultado melhor que o de Una Mujer Fantástica – que praticamente não foi visto no país do Tio Sam. Olhando por isso e pelos prêmios que conquistou em votações de críticos americanos, The Square parece levar vantagem na disputa pela estatueta dourada.

Esse filme é uma coprodução da Suécia, da Alemanha, da França e da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 112 críticas positivas e 25 negativas para o filme, o que lhe garante um aprovação de 82% e uma nota média de 7,3.

O diretor Ruben Östlund é realmente ousado. Prestes a completar 44 anos de idade em abril, esse sueco da cidade Styrsö tem 12 títulos no currículo como diretor, sendo seis deles curtas, um documentário e cinco longas. De sua filmografia, lembro de ter assistido a apenas um filme antes: De Ofrivilliga. Um filme bastante diferenciado e até mais controverso que esse The Square. A crítica sobre De Ofrivilliga vocês encontram por aqui. Realmente Östlund parece ser um sujeito que faz cinema para surpreender.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos bastidores de um museu de arte tinha tudo para ser chato, não é mesmo? Ou, talvez, “intelectual” demais para os padrões do grande público. E ainda que seja verdade que The Square é longo demais – facilmente ele poderia ter meia hora ou pouco mais de “corte” -, ele não se mostra enfadonho. Isso porque ainda que ele trate de arte e do valor que ela tem nos dias de hoje, assim como para quem ela é dirigida, esse filme trata de outros assuntos muito atuais, como a desigualdade de oportunidades, a marginalização social e os efeitos daninhos da busca por “causar” na internet – especialmente quando você é uma entidade com responsabilidades.

Para mim, aliás, essa parte sobre a noção do que é público e do que é privado e a questão do “tribunal” da opinião pública propiciado pela internet são alguns dos aspectos mais interessantes desse filme. Assim como a reflexão que uma pessoa ser bem educada, ter ótima posição social e tudo o mais não lhe torna realmente mais consciente sobre o mundo que ela não conhece. Um filme interessante e instigante. Só uma pena que ele seja longo demais e que peque um pouco por deixar alguns personagens um tanto “perdidos” na história e por se esforçar tanto em nos “chocar”/surpreender em algumas sequências. Mas, no geral, The Square é um bom filme.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Square é um forte candidato à estatueta dourada nesse ano. Especialmente sem o filme In the Fade, de Fatih Akin, na disputa. Segundo as bolsas de apostas do Oscar, ele é o segundo filme mais cotado nesse ano – ele fica atrás apenas de Una Mujer Fantástica (comentado aqui).

Difícil saber o que os votantes da Academia vão decidir. Mas eu, se tivesse que votar, certamente escolheria Una Mujer Fantástica. Primeiro, porque acho o filme mais impactante e comovente. Ambos tem boas sacadas, é verdade, mas acho que o filme chileno tem um desenvolvimento mais satisfatório da história e dos personagens.

A produção também me agradou mais, me pareceu mais “humana” e com uma mensagem mais significativa que The Square. Mas, volto a dizer, esta é uma questão de gosto pessoal. Olhando tecnicamente para as duas produções, ambas tem muitos méritos, bons atores e um roteiros que tocam em temas contemporâneos. Então teremos que ver, mais que nada, qual é o gosto da Academia para premiar um ou outro – ou, quem sabe, o russo Loveless (com crítica neste link). Me parece que esses três são, realmente, os títulos que estão na disputa.

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Truth – Conspiração e Poder

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A busca da verdade é uma premissa fundamental do jornalismo. Mas afinal, o que é a verdade? Essa questão filosófica já rendeu muitas teorias e obras. Há quem diga que não existe a verdade, apenas versões da verdade. Alguns contra-argumentam que afirmar isto é uma forma de relativizar tudo. Independente da tua própria verdade, caro leitor, Truth nos apresenta mais um roteiro baseado em uma história real sobre uma investigação jornalística em busca da verdade. Desta vez, um grupo de jornalistas experientes tenta comprovar que o presidente dos Estados Unidos mentiu. Um bom filme, com grande elenco, mas ele poderia ser melhor.

A HISTÓRIA: Começa com a narrativa de jornalistas sobre a perspectiva para a reeleição de George W. Bush. A população estava bem dividida na fase da campanha. Corta. Em Washington, em outubro de 2004, a jornalista Mary Mapes (Cate Blanchett) está tricotando na sala de espera do advogado Dick Hibey (Andrew McFarlane). Quando eles começam a conversar, existe tensão no ar e Mapes fala sobre os seus 20 anos trabalhando como jornalista, atuação que lhe rendeu dois Emmy, a denúncia dos abusos em Abu Ghraib e uma prisão por proteger as suas fontes. Mas em breve ela terá que contar com a ajuda de Hibey para se defender de um outro caso, desta vez uma denúncia feita pela equipe dela envolvendo o presidente candidato à reeleição George W. Bush.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truth): Gosto de filmes com técnica e grande elenco. Como não gostar? Esta produção com roteiro e direção de James Vanderbilt baseada no livro de Mary Mapes apresenta logo no início estas duas qualidades. Recentemente assistimos ao premiado como Melhor Filme no Oscar 2016 Spotlight, outra história sobre uma investigação jornalística. E ainda que os dois filmes tratem dos bastidores da profissão, eles tem abordagens, qualidade e defeitos muito diferentes um do outro.

Como já falei de Spotlight neste texto, vamos nos concentrar em Truth. Como eu disse, logo nos primeiros minutos do filme somos apresentados a duas de suas principais qualidades: um grande elenco, com ótimos atores, e muita técnica. Para tornar a história sobre jornalismo e bastidores da política interessante, Vanderbilt utiliza algumas técnicas conhecidas no cinema.

Para começar, ele parte de um ponto quase perto do final da história como introdução para fisgar a atenção do espectador, colocando drama e suspense na trama, para então voltar seis meses no tempo em um longo flashback narrativo que será o núcleo deste filme. Começamos com a protagonista Mary Mapes claramente pressionada, mas ainda não sabemos de que forma. Só presumimos que ela está com um bom problema já que está procurando um ótimo advogado. Depois de demonstrar que é uma mulher forte e com opinião, ela diz que apenas fez o seu trabalho. Hibey pede para ela explicar melhor o seu trabalho como jornalista, e é assim que voltamos seis meses no tempo.

Mary Mapes é a produtora do conhecido programa 60 Minutes, um dos mais premiados e importantes programas da TV americana de todos os tempos. Ela trabalha com Dan Rather (Robert Redford), um dos nomes mais conhecidos e respeitados do jornalismo dos Estados Unidos. Quando a história volta no tempo, ela retrocede o suficiente para mostrar Mapes liderando um dos grandes furos do jornalismo dos anos 2000: a denúncia de abusos e torturas praticados por militares americanos em Abu Ghraib.

Depois deste golaço, Mary Mapes volta a focar em uma história que ela não tinha conseguido aprofundar quatro anos antes, no ano 2000. Vale ponderar, contudo, que estamos falando de abril de 2004, quando o então presidente George W. Bush estava tentando a reeleição – e as pesquisas mostravam uma disputa apertada. No ano 2000 a jornalista tinha recebido a dica de ligações entre os Bush e a família Bin Laden.

Assim como a sugestão de que Bush teria servido a Guarda Aérea Nacional do Texas por influência política e sem, de fato, servir do jeito que deveria – apenas para fugir da Guerra do Vietnã e para, claro, participar do “grupinho” de poderosos daquele tempo. No ano 2000 Mary não conseguiu comprovar estes fatos mas agora, em 2004, em plena campanha de reeleição de Bush, ela resolve voltar ao assunto.

Daí entra em cena outra técnica importante do cinema e bem utilizada por Vanderbilt: imprimir um tom de suspense e aventura na trama. Mary Mapes lista um grupo de pessoas que ela quer “convocar” para a missão de apurar este caso. Eles são apontados como se fossem agentes especiais de um filme de ação. A boa edição e a trilha sonora de Truth ajudam nesta tarefa de dar ritmo e suspense para a trama. Vanderbilt, sem dúvida, entende bem do seu ofício.

Desta forma que entram em cena outros atores importantes deste filme: Topher Grace como Mike Smith, jornalista “underground” e que claramente é contra as políticas “contaminadas” do sistema; e Elisabeth Moss como Lucy Scott, jornalista que ajuda a equipe a ir atrás das fontes que podem comprovar a história. Além deles, a esta altura, já tinham aparecidos outros dois nomes fundamentais do filme – além da protagonista, é claro: o sempre fantástico Robert Redford, um dos grandes atores de seu tempo, e Dennis Quaid como o tenente-coronel Roger Charles, um consultor para assuntos militares com grande experiência em investigações jornalísticas.

Aí está o grande elenco. As técnicas citadas, especialmente a boa edição e trilha sonora que reforçam o roteiro preocupado em uma história com ritmo, continuam até o final. Mas e a história propriamente dita? Neste ponto Truth se torna um filme interessante e também apresenta o seu principal problema. Enquanto Spotlight trata de uma longa investigação que será publicada no meio impresso, Truth aborda uma investigação bem feita, mas apressada, e que será vinculada pela TV. Essa diferença fundamental entre os meios define parte dos problemas que serão enfrentados por Mary Mapes e sua equipe.

Perguntar, perguntar e não parar de fazer perguntas é uma das premissas mais importantes do jornalismo. Mary Mapes e sua equipe acertam ao fazer as perguntas, mas erram em querer apressar as respostas. Com uma janela para divulgação da reportagem sobre as mentiras que teriam garantido a carreira militar do presidente dos Estados Unidos – um tema importante para qualquer país, mas ainda mais para os Estados Unidos, uma das nações mais poderosas do mundo e sempre envolvida nos principais conflitos mundiais – curta, Mapes e sua equipe aceitam as poucas respostas que eles conseguem como suficientes para comprovar o que eles tem certeza que é verdade.

Mas eis que surge um ponto fundamental para o jornalismo dar certo: a apuração tem que ser bem feita, bem cercada, sem furos ou fios soltos. Fazer bom jornalismo investigativo dá trabalho, e muito. Envolve tempo, energia, gente talentosa. Em Truth não faltaram energia e gente talentosa, mas faltou tempo. E por mais que Truth, importante ressaltar que inspirado no livro de Mary Mapes – ou seja, com um ponto de vista bem definido e claro -, tente mostrar o heroísmo dos jornalistas envolvidos naquela reportagem de 60 Minutes sobre a fraude de Bush, não dá para ignorar que eles colocaram no ar uma matéria sem amarrar bem as pontas.

Conforme o filme vai se desenvolvendo, percebemos a fragilidade das “provas” que os jornalistas tinham para comprovar que o presidente dos Estados Unidos tinha mentido sobre o seu heroísmo militar. Mary Mapes quer mostrar as relações de poder e de que forma os poderosos e ricos se protegem, inclusive interferindo nas Forças Armadas, mas ela não consegue fazer isso correndo. Boa parte da reportagem é baseada em documentos que são questionados pela tipografia – blogueiros dizem que os documentos que seriam dos anos 1970 tinham sido feitos bem depois e utilizando o Word – e não tem os testemunhos ou outras provas para corroborar estes documentos.

Essa é a fragilidade do trabalho que acaba derrubando Mary e toda a equipe. E ainda que a origem dos documentos acaba não sendo totalmente desmentida, há dúvida suficiente no ar para colocar o trabalho dos jornalistas sob suspeita. Um trabalho jornalístico bem feito deve ser à prova de contradições e de refutações. Esse não é o caso da história mostrada em Truth. Quando a equipe é ainda mais pressionada para achar a origem dos documentos e pressionam a fonte do tenente-coronel Bill Burkett (o competente Stacy Keach), a história que ele conta, meio que sem pé e nem cabeça, torna tudo ainda pior.

A verdade é que faltou mais tempo para a equipe de jornalistas que apurou o assunto. O ideal é que eles tivessem seguido no caso e não tivessem colocado no ar uma reportagem sem ela estar bem amarrada. Mas a pressão por dar o assunto antes, não apenas da concorrência, mas das eleições, fizeram eles se apressarem sem o devido cuidado na apuração de um assunto tão delicado. E depois que o assunto foi ao ar, a internet e a concorrência da CBS cuidou de desmontar a apuração deles.

Uma empresa de comunicação séria teria esperado mais tempo para colocar o assunto no ar, para começar. E depois que tivesse transmitido a informação, antes de fazer uma “caça às bruxas” da própria equipe para não perder verba do governo e publicitária, essa mesma empresa teria apoiado os seus jornalistas atrás da verdade. Ora, aqui entra em cena o grande problema deste filme: mais que mostrar o que aconteceu em 2004 antes, durante e depois daquela reportagem ser colocada no ar, revelando os bastidores de interesse do jornalismo, Truth deveria, de fato, buscar a verdade. Avançar na apuração do assunto.

Quem garantiu que Mary Mapes, Dan Rather, Mike Smith e Lucy Scott não seguissem investigando o assunto? Por que ninguém mais deu a oportunidade para eles apuraram de fato o que se escondia na história de George W. Bush. Aliás, nem foi a pior história sobre ele que colocaram em cena com aquela reportagem – no trabalho encabeçado por Mapes foi explorado apenas como Bush teria sido favorecido pelos poderosos do Texas e reconhecido na Força Aérea sem ter merecido. E, aparentemente, manipulou a situação para fugir do Vietnã. Mas a possível relação dele e de sua família com a família Bin Laden nem veio à tona.

Por que nenhum outro jornalista conseguiu comprovar aquelas questões envolvendo Bush e o favorecimento dele na Força Aérea? Ninguém realmente foi atrás do tema ou simplesmente aquela história não era verdadeira? Para mim esta é uma questão fundamental de Truth e acaba não sendo respondida pelo filme. Ele se limita a apenas contar o que aconteceu naquela investigação jornalística que acabou com a carreira de dois dos grandes nomes da imprensa americana e a explorar o ponto de vista de Mary Mapes e não avança na questão.

Se o que eles contaram sobre Bush era verdade, o trabalho jornalístico deles foi eclipsado pelos interesses comerciais da CBS e os interesses políticos de Bush e companhia. Se o que eles contaram era mentira, Truth é um grande filme sobre a falta de cuidado na apuração de um assunto de relevância para a sociedade.

Neste segundo caso, poderíamos falar de arrogância por parte de Mary Mapes e Dan Rather que, depois de serem reconhecidos por diferentes trabalhos, descuidaram de seguir fazendo bem o seu trabalho ao imaginar que eles estavam “sempre certos” – importante recordar que eles tinham acabado de marcar um golaço com Abu Ghraib. Também poderíamos tratar da pressão por resultados da TV e da pressão pelo tempo deste meio cada vez mais preocupado em “furar” a concorrência.

Agora, se seguirmos a premissa de Mapes de que eles estavam falando a verdade, este filme estraçalha os interesses envolvendo uma grande corporação de mídia. O presidente da CBS News Andrew Heyward (o competente Bruce Greenwood) encarna, nesta produção, tudo o que o jornalista investigativo odeia. Ele está interessado no negócio da TV, ou seja, em seus anunciantes e, neste caso específico, na verba que vem direta ou indiretamente do governo.

Quantas empresas de mídia todos os dias e enquanto você lê este texto não decidem o que elas publicam ou veiculam levando em conta, em primeiro lugar, os seus interesses comerciais e não o interesse público? Não por acaso muitas pessoas, especialistas na área ou não, questionam a capacidade da mídia em seguir relevante para os seus públicos. Acho que não preciso desenhar para explicar melhor que os interesses públicos colocados em segundo plano, atrás dos interesses comerciais, nunca vão garantir um jornalismo melhor e mais relevante, não é mesmo?

Por outro lado, e os executivos das empresas jornalísticas podem argumentar isso, o bom jornalismo não é feito sem recursos. E por isso a área comercial tem a sua relevância e continuará tendo. Verdade, o negócio da empresa jornalística precisa ser sustentado – e apenas o público consumidor não faz isso. Mas existem limites para a relação dos interesses comerciais e da informação. Quem está à frente de um negócio como este esse não deve nunca esquecer o papel social da mídia. Truth levanta este e outros temas e, apenas por isso, ele já merece ser visto. E, a exemplo de Spotlight, levado para as salas de aula de jornalismo para ser debatido.

Finalmente, este filme levanta, perto do final, outra questão fundamental: como a inclinação política de um jornalista pode influenciar o seu trabalho. Francamente, depois de quase 20 anos de jornalismo, sou da opinião que todo jornalista é influenciado por suas crenças – sejam religiosas, políticas ou do que for. Isso não quer dizer que a apuração dele seja “falsificada” ou “deturpada” por estas crenças, mas sem dúvida alguma a escolha de alguns temas e não de outros – quando o jornalista pode fazer a reportagem que acha importante – é influenciada pelo que ele acha importante retratar no mundo.

Mais do que o que a imprensa fala, é importante observar o que ela ignora. Neste sentido, um jornalista vai sempre buscar assuntos relevantes para a sociedade que ele próprio acredita – como, então, ter um jornalismo totalmente imparcial? A apuração da verdade será sempre criteriosa – ou deveria ser -, mas as escolhas dos temas é sim influenciada pelo que o jornalista acredita. Truth também aborda este tema de forma bem interessante.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como jornalista, acho interessante e importante que o cinema de Hollywood tenha voltado o seu olhar para a profissão. Até para que mais pessoas que não são da minha área possam voltar a refletir sobre a importância do trabalho dos bons jornalistas. Vocês já pensaram o quanto sabemos hoje da Operação Lava-Jato, por exemplo, que jamais saberíamos se não fosse a imprensa? Aliás, será que essa e outras operações existiriam e não seriam “enterradas” o mais rapidamente possível se não fosse o trabalho da imprensa em divulgá-las?

Sem contar as investigações jornalísticas que trouxeram tantos temas relevantes à tona e contra interesses poderosos. O jornalismo é fundamental para a sociedade e, por mais que uns acreditem que ele não é “tão necessário” na época da internet, me arrisco a dizer que ele continua e sempre continuará sendo importante para as sociedades em que ele é exercido de forma livre e independente.

Truth tem alguns momentos muito bons. Gostei, em especial, de três. Esses momentos podem – e deveriam – render muitas horas de debate nas faculdades de jornalismo. O primeiro deles é quando a CBS pressiona Dan Rather a praticamente “acabar” com o tenente-coronel Bill Burkett em uma entrevista que, claramente, está para culpar Burkett e isentar o canal de TV da responsabilidade pelos documentos envolvendo Bush. O segundo é quando o mesmo Rather é obrigado pela CBS a se desculpar em rede nacional. E o terceiro e último é quando o mesmo Rather se despede como apresentador âncora da emissora. O discurso dele é de arrepiar. Momentos fortes.

Cate Blanchett e Robert Redford estão ótimos nesta produção. Não é por acaso que eles são dois dos melhores atores de suas respectivas gerações. Redford mesmo… ele não precisa dizer quase nada para fazer um grande trabalho. Muito expressivo, ele é um dos atores que mais passa credibilidade quando está em cena. Uma escolha perfeita para outro nome que é sinônimo de credibilidade, Dan Rather.

O diretor James Vanderbilt faz um grande trabalho com Truth. Ele sabe usar todos os recursos do cinema moderno para prender a atenção do espectador e dar ritmo para a história. Seus enquadramentos são precisos, com um olhar diferenciado para diversos momentos da produção. Seu trabalho ponderado e preciso também sempre evidencia o bom trabalho dos atores – afinal, como não fazer isso com um elenco tão bom? Seria um desperdício. O roteiro dele também tem diversas qualidades, mas ele erra ao não avançar além do livro de Mary Mapes. Apenas por isso a produção não é perfeita.

Da parte técnica do filme, há muitos elementos que funcionam muito bem e que ajudam Vanderbilt em seu trabalho. Para começar, ótima a edição de Richard Francis-Bruce. Muito boas também a trilha sonora de Brian Tyler, apesar dela exagerar um pouco no tom “heróico”; a direção de fotografia de Mandy Walker e os figurinos de Amanda Neale. Também ajudam a compor a época e os ambientes desta história o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Fiona Donovan; e a decoração de set de Glen W. Johnson.

Todos do elenco citados até agora fazem um belo trabalho. Estão centrados e coerentes com os seus respectivos papéis. Além deles, vale citar o trabalho de John Benjamin Hickey como Mark Wrolstad, marido de Mary Mapes; David Lyons como Josh Howard, diretor da TV que logo questiona toda a equipe; Dermot Mulroney como Lawrence Lanpher, um dos líderes da comissão contratada para investigar a reportagem liderada por Mapes; Rachael Blake como Betsy West, diretora da TV que também logo rói a corda e sugere que Mapes deixe de frequentar o local; Noni Hazlehurst como Nicki Burkett, mulher do tenente-coronel Bill Burkett e que tem uma das melhores sequências de diálogo do filme; e Philip Quast como Ben Barnes, uma peça importante da denúncia de Mapes.

Pequeno comentário antes de seguir com as últimas considerações sobre este filme: mais uma vez a tradução de um título de filme feito fora do Brasil é infeliz. Truth é um nome perfeito para esta história. Alguém deve ter achado que o título original ou apenas a tradução literal para Verdade não atrairia o grande público – tenho dúvidas sobre isso, especialmente porque o elenco desta produção é estelar. Mas Conspiração e Poder é para acabar, ou não? Poder ainda vá lá, porque o filme trata disso. Mas Conspiração? Não era para tanto. Questionaram a reportagem feita por Mapes e equipe, mas daí a considerarem eles conspiradores… ou a conspiração seria de outra parte? Juro que não entendi e achei infeliz a escolha.

Truth estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passou ainda por outros seis festivais mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou um prêmio e foi indicado a outros três. O único que recebeu, até agora, foi o prêmio para Cate Blanchett dado pelo Festival Internacional de Cinema de Palm Springs que reconheceu a atriz não apenas por este filme, mas também por Carol.

Não há informações sobre os custos de Truth, mas sim sobre a bilheteria do filme nos Estados Unidos até o dia 22 de fevereiro deste ano, quando o filme saiu de cartaz em seu país de origem. Entre o dia 16 de outubro de 2015 e o dia 22 de fevereiro de 2016 esta produção conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. Pouco, especialmente envolvendo o elenco estelar de Truth. Mas isso só comprova como histórias relevantes e interessantes nem sempre são vistas – geralmente não são – por um grande público. Uma pena.

Apesar da história ser totalmente ambientada nos Estados Unidos, Truth é uma coprodução dos Estados Unidos com a Austrália e teve diversas cenas rodadas em território australiano – incluindo cidades como Sydney e Penrith. Várias cenas foram rodadas também em Nova York e Los Angeles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 86 textos positivos e 53 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 62% e uma nota média de 6,2. Acho que apesar dos problemas deste filme, ele merecia uma avaliação melhor.

Procurando saber um pouco mais sobre Truth lendo as notas de produção do filme, descobri o porquê de parte do filme ter sido rodada na Austrália: isso foi feito para atender a um pedido de Cate Blanchett. A atriz queria ficar mais próxima da família durante as filmagens desta produção. Faz sentido, até pela proximidade de sua personagem com a família.

Esta é a estreia na direção de James Vanderbilt. Antes deste filme, ele havia feito o roteiro de outras oito produções, começando por Darkness Falls, de 2003, e passando por produções interessantes como Zodiac e por blockbusters como The Amazing Spider-Man e The Amazing Spider-Man 2.

Claro que Truth não poderia ter sido feito sem ter rendido posterior polêmica. A rede de TV CBS se recusou a passar os comerciais do filme porque argumentou que esta produção é um “desserviço” à verdade, ao público e aos jornalistas. Certo. Por sua vez, Dan Rather afirmou que Truth é uma representação muito fiel ao que aconteceu naquela época e envolvendo os fatos contados pela produção.

Ah sim, e eu já ia esquecendo de compartilhar um texto interessante na Wikipédia sobre este caso. Deram o nome de “controvérsia dos documentos Killian” – lembrando que Killian era o nome do tenente-coronel que teria questionado a colocação de Bush nos anos 1970. Vale dar uma conferida neste texto da Wikipédia e, claro, procurar mais fontes que abordem o assunto. Afinal, a verdade propriamente dita não encontramos neste Truth. 😉

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre uma grande reportagem que acabou mal – pelo menos para as pessoas que se envolveram no trabalho de contar aquela história. Bem narrado e, principalmente, com grandes atores, Truth nos faz refletir sobre o jornalismo e os jogos de poderes envolvendo empresas jornalísticas e o poder – leia-se políticos e principalmente o Estado. Evidentemente há muitos elementos que fazem o espectador pensar neste filme, e isso é positivo, mas Truth poderia ser ainda melhor se tivesse ido além da narrativa daqueles fatos.

Por que não avançar e tentar, de fato, comprovar se aquela teoria mostrada pelos protagonista da história era verdadeira? Faltou essa ousadia para a produção – algo que poderia ter sido feito já que se passaram alguns anos dos fatos. Apesar de desperdiçar a chance de avançar na história, este é um bom filme. Especialmente para levantar debates.