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Atomic Blonde – Atômica

Jogos e intrigas de espionagem e contraespionagem. Já vimos um bocado disso no cinema. Mas da forma com que isso é apresentado em Atomic Blonde… nunca! Este é um filme com uma pegada intensa, com muitas cenas de violência e de pancadaria e um arcabouço interessante de qualidades. Para começar, uma ótima direção. Depois, uma trilha sonora das melhores que eu já escutei em um filme e um elenco bastante interessante. Destaque, evidentemente, para a estrela Charlize Theron. Com Atomic Blonde ela se credenciou para seguir em uma trajetória de filmes de ação e de mulheres no comando, sem dúvidas. Belo filme.

A HISTÓRIA: Em uma gravação, o presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan afirma que o Oriente e o Ocidente desconfiam um do outro. Na sequência, ele pede para que o Muro de Berlim seja derrubado. De fato, o Muro cairia em novembro de 1989. Mas este filme conta uma outra história. Relacionada sim com a guerra fria e com a disputa entre Estados Unidos, Inglaterra e Rússia, mas que corre por trás da “Cortina de Ferro”. Um homem corre desesperado por ruas e vielas. Quando ele acha que está livre, ele é violentamente atropelado. Mais de uma vez. James Gasciogne (Sam Hargrave) encara o inimigo, o russo Yuri Bakhtin (Jóhannes Haukur Jóhannesson), antes de levar o tiro fatal. O relógio que o russo pega do espião inglês passa a mover as ações que esta narrativa nos conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atomic Blonde): Como é bom, de tempos em tempos, assistir a um filme com “pegada”, não é mesmo? Atomic Blonde tem muito disso. Começando pela direção de David Leitch. Esse dublê, que entende muito bem sobre as técnicas da pancadaria, e que tem um trabalho um pouco mais longo – 19 títulos – como ator, realmente está estreando na direção com este filme.

Antes, Leitch havia ajudado na direção de John Wick, mas sem que o seu nome fosse creditado, e dirigido o curta Deadpool: No Good Deed. E isso foi tudo. A direção para valer de um longa veio com este Atomic Blonde. Para mim, Leitch está mais que credenciado como diretor, especialmente de filmes de ação. Ele sabe tirar o melhor de cada cena e, principalmente, valorizar e apresentar algo fresco nas intermináveis e viscerais cenas de luta.

Diversas sequências deste tipo impressionam neste filme. Mas destaco, em especial, a sequência em que a protagonista Lorraine Broughton (Charlize Theron) encara um bando de policiais no apartamento que era de James Gasciogne, e as cenas em que ela enfrenta um bando de russos em uma missão quase suicida para proteger Spyglass (Eddie Marsan). Nós já vimos a muitas cenas de pancadaria e de luta no cinema, mas como estas sequências… é coisa rara. O experiente dublê David Leitch, agora na direção, consegue nos apresentar sequências realmente inesquecíveis. E isso não é algo simples ou fácil de se ver.

Esta é uma das grandes qualidades do filme. A direção de David Leitch e as sequências de ação que ele nos apresenta. Realmente são cenas estonteantes e que impressionam. A segunda grande qualidade de Atomic Blonde é a atriz Charlize Theron. Maravilhosa, ela está conseguindo se reinventar a cada papel, praticamente. E aqui, novamente, ela mostra porque é um dos grandes nomes da sua geração. Charlize Theron tem um desempenho impecável e irretocável. Ela apanha bastante, mas também consegue ser a “loira fatal” que um filme como este se propõe a apresentar.

Não importa se ela está em uma cena quente, falando francamente em um interrogatório ou sozinha em uma banheira cheia de gelo. Cada vez que ela aparece em cena ela nos convence de seu personagem e de seu papel. Ela está estonteante, mesmo cheia de hematomas. Enfim, mais um grande desempenho desta atriz – que, se o Oscar não fosse ainda tão careta, mereceria uma indicação por causa de Atomic Blonde. Também ajuda muito na valorização da personagem como a “femme fatale” clássica dos filmes de espionagem a direção de Leitch e os figurinos maravilhosos de Cindy Evans.

Uma outra qualidade marcante desta produção e que arrebatou o meu coração foi a trilha sonora cheia de rock e de intensidade. A trilha sonora desta produção, pipocada aqui e ali, é de Tyler Bates. Mas o que realmente aquece a alma de alguém que gosta de rock como eu é a seleção musical que contempla, entre outros, New Order, David Bowie, Public Enemy, George Michael, After the Fire, The Clash, Siouxsie and the Banshees, Depeche Mode, Queen e David Bowie, entre outros – a lista completa da trilha sonora vocês podem encontrar por aqui.

Outra qualidade importante do filme é que ele tem um bom ritmo e uma ótima pegada. Em poucos momentos temos uma “baixa” na adrenalina. Ainda assim, devo comentar, esta produção acaba sendo um tanto “repetitiva”. Afinal, nós temos uma premissa que fica clara logo no início: um espião russo conseguiu, matando um espião inglês, um relógio em que estão listados todos os espiões ingleses e americanos na ativa. Essas informações sigilosas, se caírem nas mãos erradas, colocam em risco toda a espionagem destas grandes potências.

Conhecida por suas habilidades apuradas, a espiã inglesa Lorraine Broughton é convocada para recuperar esta lista e, se possível, identificar o agente duplo que está criando muitas dores de cabeça para os ingleses ao trabalhar na surdina para os russos. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos The Coldest City da dupla Antony Johnston e Sam Hart, é envolvente, mas acaba não conseguindo evitar um certo desenvolvimento previsível para a história. Verdade que a direção visceral e atenta aos detalhes de David Leitch consegue dar um ritmo veloz para a produção de tal maneira que quase não conseguimos parar para pensar nisso, em como a história vai por caminhos previsíveis.

Ainda que boa parte do roteiro já é esperado – como aquele velho jogo de “gato e rato” entre Lorraine, o espião inglês David Percival (James McAvoy) e os russos -, as reviravoltas que a história dá, especialmente na reta final, é o que torna o filme realmente interessante. Digamos que o final, que muitas vezes atrapalha algumas produções, no caso de Atomic Blonde, redime o filme de suas partes mais “previsíveis”. (SPOILER – não leia os próximos parágrafos se você ainda não assistiu ao filme).

Sim, é verdade que era um bocado previsível aquela permanente desconfiança entre os diferentes espiões que aparecem em cena. Os russos, claro, eram sempre os “inimigos” em comum. Depois, tínhamos três espiões que ficavam, aparentemente, o tempo todo se “medindo” e desconfiados uns com os outros: Lorraine, David e a francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella). Mas, especialmente para o que interessava nesta história, que era descobrir o “agente duplo”, era um tanto óbvio que esta descoberta estaria entre Lorraine ou David – ou, para não ir muito longe, e ainda ser plausível, alguns dos “figurões” da espionagem inglesa ou americana, como era o caso de Emmett Kurzfeld (John Goodman), Eric Gray (Toby Jones), os dois que interrogam Lorraine sobre o que aconteceu em Berlim, e o Chefe C (James Faulkner), que acompanha tudo por perto.

O interessante do roteiro é que a desconfiança sobre se Lorraine e David eram o agente duplo, permanece quase até o final. Ficamos com a “pulga atrás da orelha” também porque, segundo o que o roteiro de Johnstad sugere, grande parte do filme é narrado por Lorraine. Como ela está sendo interrogada após os fatos de Berlim e ficamos sabendo do que aconteceu lá a partir do depoimento dela, parte do que vemos poderia ser mentira, certo? Mas não. O filme não chega a este requinte.

Ainda assim, é interessante o “twist” final. Aparentemente Lorraine mente para Emmett, Eric e C dizendo que o agente duplo era David quando, na verdade, ela era esse agente duplo. Bem na reta final, quando ela se encontra com o chefão russo, Aleksander Bremovych (Roland Moller), parece que temos a confirmação de tudo isso. Mas aí ele decide matá-la, e descobrimos que David encontrou no tal relógio a informação que Lorraine não era uma agente dupla, mas tripla. 😉 Assumindo uma identidade inglesa, ela fornecia (e colhia) informações estratégicas para os russos mas, no fim das contas, trabalhava mesmo para os americanos. Essa reviravolta final foi especialmente bacana.

Por um bom tempo eu fiquei tentada a dar uma nota 10 para este filme. Mas aí fiquei analisando um pouco melhor, e achei alguns pequenos defeitos na produção – nada que lhe tire os méritos, mas algo que talvez me impeça de dar um 10 para ela. Além do filme ficar um pouco arrastado e previsível naquele jogo de gato-e-rato de Lorraine com David, achei que o roteiro perdeu a chance de tornar o mistério mais interessante ao focar em poucos personagens. Também não vi muito sentido em ter ficado em Berlim apenas um espião do lado ocidental importante – David. Não parece muito lógico isso – especialmente porque a cidade estava apinhada de russos ainda.

Além disso, acho que a personagem de Delphine foi um tanto desnecessária naquele contexto. Verdade que a atriz é boa e ela dá uma “apimentada” na estadia de Lorraine em Berlim, mas para a história ela pouco serve de ponto de intriga ou de dúvida sobre “quem é o agente duplo”. Lembrando que o agente duplo era inglês – e ela, francesa. Então sim, acho que faltou incluir mais um ou dois espiões franceses e/ou americanos na história para que o roteiro ficasse melhor e para que tivéssemos mais dúvidas do que iria acontecer.

Mas fora isso, este filme é perfeito em seu estilo e na forma com que a história se desenrola. As cenas de ação, de luta e de perseguição são impecáveis, uma verdadeira aula de direção, de interpretação e de edição. Um filme envolvente, com uma trilha sonora magnífica e com bastante pegada e adrenalina. Apenas para o roteiro faltou pouco para ser perfeito. Mas nada que estrague a experiência e o prazer de ver uma Charlize Theron arrasadora.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Charlize Theron combina, definitivamente, com o papel de estrela de filmes de ação. A atriz tem talento, já demonstrado em filme com diversos perfis, mas tem fibra, carisma e entrega suficiente para estrelar, especificamente, filmes como Atomic Blonde. Gostei muito do papel dela e acredito que, pelo estilo do filme, poderemos ter alguma continuação no futuro. Seria interessante.

Ainda que eu tenha um ou dois poréns com o roteiro deste filme – como já comentei antes -, acho que a história acerta ao se ambientar nos bastidores de um acontecimento histórico importante, como foi a Queda do Muro do Berlim. Apesar de bem documentado, aquele fato realmente dá margem para alguns filmes como este, que tem um certo tom de “teoria da conspiração”. 😉

Atomic Blonde estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema Fantasia, no Canadá, em julho; e no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em agosto.

Em sua trajetória, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram todos entregues pelo Golden Trailer Awards: Best Summer 2017 Blockbuster, Best Motion/Title Graphics e Melhor Edição de Som.

Atomic Blonde teria custado US$ 30 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 51 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 43 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 94 milhões – está no lucro, pois. Merecido!

Agora, aquelas curiosidades bacanas sobre o filme. Durante as filmagens de Atomic Blonde a atriz Charlize Theron rachou dois dentes. Para fazer o papel da protagonista, Theron contou com oito treinadores que a ajudaram a dar conta do recado de um papel tão vigoroso e com desempenho físico tão intenso.

Antes das filmagens desta produção começarem, o ator James McAvoy quebrou a mão no set de Split (comentado por aqui). Daí que ele teve que aguentar todas as cenas de ação de Atomic Blonde com a mão ferida.

Ainda que a cena de luta no apartamento de Gasciogne parece ter sido toda rodada na sequência, sem interrupção – a cena inteira dura 10 minutos -, na verdade aquela sequência é fruto de uma edição perfeita de quase 40 filmagens que foram feitas separadamente. A maior parte do trabalho, e não apenas nesta sequência, teve que contar com o apoio de efeitos especiais para “preencher” pequenos furos nas sequências.

Interessante que a atriz Charlize Theron, além de estrela desta produção, é uma das produtoras do filme. Segundo as notas sobre a produção, a atriz passou mais de cinco anos trabalhando para fazer este projeto sair do papel. Bacana!

Entre os atores desta produção, o destaque é realmente Charlize Theron. Ela está perfeita em um papel difícil – tanto pelo vigor físico e pelas ótimas cenas de ação quanto por todas a sequências em que os detalhes do gestual e da sua expressão são determinantes. Além dela, vale destacar o bom trabalho de alguns coadjuvantes, como Eddie Marsan como Spyglass; John Goodman como Emmett Kurzfeld; Toby Jones como Eric Gray; Roland Moller como Aleksander Bremovych; Bill Skarsgard como Merkel, alemão que ajuda a protagonista em momentos decisivos; e Til Schweiger em uma ponta interessante como o relojoeiro onde fatos cruciais aconteceram.

Outro nome importante da produção, James McAvoy está bem, mas nada além do já esperado do ator. Também valem ser citados, por fazerem um bom trabalho, mas nada perto de ser um grande destaque, os atores James Faulkner como C; Sofia Boutella como Delphine Lasalle; Sam Hargrave em uma micro ponta como James Gasciogne; e Jóhannes Haukur Jóhannesson também em uma micro ponta como Yuri Bakhtin.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma os elogios principais vão para a direção de David Leitch. Ele fez um trabalho excelente, especialmente nas cenas de ação – em outras partes, ele não se mostra tão original mas, ainda assim, sabe “beber” das melhores fontes. Então ele está de parabéns. Além dele, vale destacar a ótima direção de fotografia de Jonathan Sela; a maravilhosa e marcante trilha sonora de Tyler Bates; a edição muito difícil, cuidadosa e exemplar de Elísabet Ronaldsdóttir; o trabalho excelente do departamento de maquiagem com 11 profissionais; o competente efeitos especiais com 14 profissionais; e os efeitos visuais fundamentais que movimentaram 74 profissionais.

Além de tudo isso, vale citar o design de produção de David Scheunemann; a direção de arte de Zsuzsa Kismarty-Lechner, de Tibor Lázár e de Wolfgang Metschan; a decoração de set de Zsuzsa Mihalek e de Mark Rosinski; e os figurinos maravilhosos e já citados antes de Cindy Evans.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, Atomic Blonde teve cenas gravadas na cidade de Budapeste, na Hungria; em Berlim, na Alemanha; em Londres, no Reino Unido; e no Studio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Entre os pontos turísticos de Berlim que aparecem na produção estão o Gedächtniskirche e a Breitscheidplatz.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 61 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,4. Bem, como vocês viram, eu gostei mais do filme do que esta maioria. 😉

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Suécia e dos Estados Unidos. Como algumas votações feitas aqui no blog há tempos pediram filmes da Alemanha e dos Estados Unidos, esta crítica acaba fazendo parte da lista de filmes que atendem a pedidos aqui no blog. Fica o registro, pois.

CONCLUSÃO: Honestamente? Achei este um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas eu colocaria ele no Top 10 do gênero. Com uma direção muito bem feita, com uma protagonista com desempenho impecável, recheado de muita ação, violência e uma boa carga de humor, embalado por uma trilha sonora impecável e maravilhosa, Atomic Blonde é um filme envolvente e interessante. Só não é perfeito por um ou dois detalhes do roteiro. A história também acaba “cansando” um pouco por ser um tanto “repetitiva” e rasa, mas as reviravoltas do roteiro compensam um pouco estas pequenas falhas. Se você gosta de filmes de espionagem e não se importa (ou até gosta) de pancaria, este é o seu filme.

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Barfuss

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Um filme pode começar bem, muito bem. Um plano-sequência perfeitamente filmado e que capta os pés descalços de uma moça – o que, saberemos depois, simboliza sua necessidade por liberdade e revela a estranha realidade vivida por ela até então. Barfuss tem uma direção de fotografia belíssima e uma trilha sonora muito acertada, assim como um casal de protagonistas bastante carismáticos – e belos. Mas… existe um imenso mas nesta história, e ele se chama roteiro. Mas poderia ser confundido também com direção. A verdade é que estes dois últimos elementos tornam uma história que poderia ser inovadora e bacana em algo muito parecido a um videoclipe e/ou uma história romântica exagerada no tom. 

A HISTÓRIA: Leila (Johanna Wokalek) vive em uma instituição para doentes mentais. Tímida e assustada, ela se mantêm calada nas sessões coletivas coordenadas pela médica Blöchinger (Imogen Kogge). Por seu lado, Nick Keller (Til Schweiger) é o típico ovelha negra da família… demitido de todos os empregos nos últimos anos e parecendo sem rumo, ele é empurrado para a vaga de servente na instituição em que Leila está internada. Esta será a sua última oportunidade, deixa claro o assistente social (que lhe atende. Nick se sai muito mal no primeiro dia de trabalho, mas acaba salvando a vida de Leila, que a partir daí passa a seguir o rapaz recentemente demitido.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Barfuss): O melhor do filme, para mim, é a direção de fotografia de Christof Wahl. Todas as cenas estão embebidas em lentes em tom pastéis e/ou alaranjados, o que torna o filme, ao mesmo tempo, acolhedor e um pouco “envelhecido”. Alguns podem entender como uma “aura irreal” que acompanha a história do iníco até o final – o que eu acho bastante coerente com o roteiro um bocado flutuante. De qualquer forma, para os planos de câmera escolhidos pelo diretor, roteirista e ator Til Schweiger, a direção de fotografia funciona a perfeição.

Aliás, devo admitir que demorou para cair a minha ficha sobre os “cabeças” deste filme. Só agora, ao escrever esta crítica, que reparei que o protagonista bonitão é, também, o diretor e roteirista. Huuuummmmm… Til Schweiger ganhou uns pontos comigo quando eu me dei conta disso. E não porque ele tenha feito um roteiro bacanérrimo. Pelo contrário. O texto escrito por ele, ao lado de Jahn Preuss, Nika von Altenstadt e Stephen Zotnowski é o ponto fraco de Barfuss. E a direção, exceto algumas cenas bastante inspiradas, também não é nada primorosa. Na verdade, o tom “a la videoclipe” do filme é um dos pontos que mais me irritou. Achei a verve pop de Barfuss desnecessária e pobre. A premissa do filme merecia outra levada – e um roteiro poderia ser um pouquino melhor também. Mas a cada dia me convenço mais de que vários roteiristas trabalhando em um mesmo filme, em praticamente todos os casos, resulta em um filme estranho – algumas vezes mal costurado, outras vezes apenas pobre de espírito.

Barfuss é um destes filmes com grande potencial. Tecnicamente bem feito e com uma história que poderia render uma grande produção, ele acaba ficando menor do que o esperado. Fatores que me incomodaram (além dos já citados): algumas “caras e bocas” dos protagonistas, que parecem estar se preocupando mais com o efeito da beleza deles do que com a interpretação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um exemplo categórico é a sequencia em que Nick é preso. Os closes dele e de Leila, ambos estampando expressões forçadas, lembra um filme de quinta ou uma propaganda de algum produto qualquer. O roteiro, por sua vez, meio que “descamba” depois que Leila foge do hospício. Quem acreditaria, realmente, que Nick levaria a garota até o casamento do irmão, Viktor (Steffen Wink) com sua ex-namorada, Janine (Alexandra Neldel). Ainda que ele quisesse provocar “ciúme” ou qualquer coisa parecida na ex ou no irmão, para isso ele se valeria de uma garota que ele não conhece e que é desequilibrada? Difícel engolir, não?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas mais difícil de aceitar ainda é a “crise” que ele tem na frente de vários executivos e do padrasto, Heinrich Keller (Michael Mendl), e a declaração que ele faz de que os dias que passou com Leila foram os “melhores da sua vida”. Certo. Então ele viveu vários anos com a ex-namorada que agora se casou com Viktor, teve outras mulheres várias e, justamente com a “louquinha-que-não-usa-sapatos” ele vive os melhores dias de sua vida? Detalhe: em uma viagem com cenas muito bonitas, devo admitir, mas que também se mostra bastante desastrosa. Tudo bem de Leila, que nunca tinha tido um namorado e que por 19 anos ficou prisioneira da própria mãe, falar isso, que teve “os melhores dias” de sua vida ao lado de Nick. Mas ele dizer o mesmo? Ah, não, me desculpem românticos de plantão, mas não dá para engolir. E tudo isso fez o filme perder pontos comigo, porque eu acho que ele não precisa dessa “exagerada” no roteiro, nem de um tom pop-videoclípito permanente para convencer. Menos, como quase sempre, teria valido mais.

Mas fora estes detalhes importantes, o filme é bacaninha. Tem um bom ritmo, belas cenas, um casal de protagonistas bastante simpático e um final, para não desmerecer o restante da história, absurdo e exagerado. (SPOILER – não leia, repito, se você ainda não assistiu ao filme). Em que país do mundo as pessoas fazem compras jogando direto no carrinho legumes e demais produtos que precisam ser pesados? Nenhum, né, meus amigos. Pois é… então Til Schweiger ou um dos outros roteiristas achou engraçada a piada do ovo mas, para mim, ela foi apenas idiota. Menos, meus amigos, menos…

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Agora, independente dos vários defeitos que eu apontei neste filme, algo é preciso admitir: os atores ganham o espectador pelo sorriso. Pelo menos eu, que sou apaixonada por sorrisos, fiquei encantada com Til Schweiger e Johanna Wokalek. 

Gostei de duas participações meio que “especiais” nesta produção – ou, em outras palavras, duas pontas de atores importantes no cenário de filmes alemães: Jürgen Vogel interpretando o “chefe” de Nick no manicômio; e Armin Rohde como Penner. Além deles, gostei da interpretação de Nadja Tiller como a mãe de Nick e de Viktor – ainda que, como a maioria dos personagens desta história, ela também se mostrou compreensiva demais, em um tom bastante irreal. Os rapazes devem gostar da provocadora Sarah Sommer, interpretada por Janine Kunze, uma atriz realmente muito bonita – mas “competitiva” demais nesta história.

Anteriormente eu comentei que Barfuss foi escrito por quatro pessoas, incluindo o diretor. Mas um dos roteiristas, Stephen Zotnowski foi quem teve a idéia original do filme – sobre a qual foi construído o roteiro.

Além da direção de fotografia inspirada, o filme se mostra interessante pela trilha sonora assinada por Max Berghaus, Stefan Hansen e Dirk Reichardt. O tom “modernete” do filme fica por conta de nomes como Dido, com sua “Don’t Leave Home”; Madrugada com “Electric”, e Leonard Cohen com a potente canção “Hallelujah”, interpretada por Ray Garvey.

Imagino que o galã e diretor Til Schweiger deve ter sonhado algumas noites com aquela “reviravolta” e correria automobilística protagonizada por ele… 😉

Na sua época – o filme foi lançado em 2005 -, Barfuss recebeu dois prêmios e foi indicado a outros três. Entre os que levou para casa estão um “Bambi” do Bambi Awards para Til Schweiger e o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Alexandra Neldel no austríaco Undine Awards.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. No Rotten Tomatoes existem apenas dois textos para “Barefoot” – título no mercado internacional -, ambos positivos. 

CONCLUSÃO: Um filme bastante absurdo sobre uma garota que ficou isolada do mundo por 19 anos e um rapaz que não se encaixa nos padrões sociais de homem bem-sucedido. Estes dois “patinhos feios” se encontram e vivem situações impossíveis na vida real, mas que rendem algumas cenas muito bonitas e alguma piada interessante. Exagerado no tom, Barfuss vale pelos intérpretes (que, na maior parte do tempo, estão bem), pela direção de fotografia e pela trilha sonora. Mas exageradamente no estilo videoclipe, deve ser visto como tal, ou seja, para passar o tempo com uma historinha bonitinha. Nada demais.

SUGESTÕES DE LEITORES: Ainda na minha “cruzada” por assistir bons filmes alemães, cheguei a Barfuss através da indicação do leitor Leandro Soares. Este filme foi melhor que o anterior, hein? Melhor que Mein Führer… mas ainda está abaixo dos outros títulos alemães que vi recentemente. Ainda assim, gostei de ter visto. Pelas características que eu citei acima. O próximo da lista – e prometo que não vou demorar muito para terminar com ela – será um filme mais antiguinho, de um dos grandes diretores do cinema alemão. Logo mais falo se o homem acertou a mão ou exagerou na dose. Devo assistir ainda, no máximo, nove títulos alemães, e daí vou partir para a lista de filmes que fui deixando para trás (incluindo outras sugestões de leitores). Vários abraços para quem está acompanhando esta saga alemã. 😉