Sunshine Cleaning


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Imagine uma família de gente ferrada, o que nos Estados Unidos se popularizou como “losers”. A cada novo acontecimento, parece que as coisas se complicam, mas isso não deixa nenhum deles deprimido ou derrotado. Pelo contrário. As dificuldades acabam sendo encaradas com criatividade, ousadia e com um bocado de tropeços que parecem unir ainda mais as pessoas dessa família. Sunshine Cleaning, novo filme dos produtores do sucesso do cinema independente Litte Miss Sunshine, repete um bocado a fórmula do título anterior. Mas quem se importa? Descontadas as repetições de algumas idéias, Sunshine Cleaning acaba se mostrando mais denso e mais “dark” que seu predecessor. E ainda que ele lembre bastante a Little Miss Sunshine, quero deixar claro que não se trata de nenhuma continuação ou algo do gênero.

A HISTÓRIA: Rose Lorkowski (Amy Adams) é uma mãe solteira que ganha a vida limpando casas. Ela olha para garotas da sua idade curtindo festas e vivendo em grandes propriedades com piscina e pergunta a si mesma o que ela fez de errado para ter uma vida tão diferente. Sua irmã mais nova, Norah (Emily Blunt) vive com o pai, Joe (Alan Arkin) e trabalha como garçonete – mas odeia o que faz. Quando o filho de Rose, Oscar (Jason Spevack), tem mais um problema de comportamento na escola pública em que estuda, Rose resolve tirá-lo de lá. Para pagar as contas de uma escola particular ela convoca a irmã, que recentemente perdeu o emprego, para que as duas comecem a trabalhar no ramo de limpar propriedades onde pessoas foram encontradas mortas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sunshine Cleaning): Logo mais vou listar todas as características que fazem Sunshine Cleaning se parecer com Litte Miss Sunshine (que chamarei pelas iniciais LMS). Mas antes, quero comentar sobre seus diferenciais. Para começar, Sunshine Cleaning vai muito mais fundo no tema da morte. No aspecto em que o trabalho das irmãs Rose e Norah é visto por elas com certa “vergonha” e receio no início, o filme me lembrou um pouco a Okuribito. Mas pouco, claro, porque a produção japonesa que ganhou o Oscar de 2009 como melhor filme estrangeiro é muito mais profunda e poética que Sunshine Cleaning. Ainda assim, a produção com roteiro de Megan Holley se debruça sobre o tema da perda de pessoas que amamos de maneira interessante.

Demora, contudo, para que o tema da morte ganhe protagonismo no filme. Inicialmente, esta história parece tratar das relações de uma família bem diferente dos padrões tradicionais. E da maneira com que cada um dos adultos desta família enfrenta as dificuldades para conseguir dinheiro para pagar as contas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diferente de LMS, os protagonistas desta história fogem do padrão de avô, pai, mãe e filhos. Joe, o patriarca da família, é viúvo. Rose é mãe solteira, nunca se casou, e vive uma relação adúltera há muito tempo com o ex-namorado, Marc (Steve Zahn). Norah é solteira e ainda vive com o pai. Em momento algum o filme mostra uma “família feliz” tradicional – o único casal que aparece em cena, Marc e Heather (Amy Redford), vive uma relação abalada pela infidelidade.

Outra característica que distancia Sunshine Cleaning de LMS é que o filme tem um roteiro bem mais “pesado” que a produção de 2006. (SPOILER – você já sabe). Para dar a largada, o filme começa com um suicídio. Pouco depois, as imagens mostram a vida dura e frustrada das irmãs Rose e Norah. A diferença principal entre elas é que Rose se sente responsável pela irmã e, claro, pelo filho. A personagem de Amy Adams literalmente faz o que é necessário para que ela e Oscar vivam razoavelmente bem – endividados, mas pelo menos com comida no prato. Norah, por outro lado, tenta fazer as pazes com o passado e descobrir o que ela vai fazer da vida. Busca fazer o certo, como quando se aproxima de Lynn (Mary Lynn Rajskub) para contar-lhe sobre a morte da mãe. Na trajetória destas irmãs e do pai delas, vemos cenas de adultério, ralação, alguns cenários de morte, decepções amorosas e financeiras. Sem dúvida um roteiro muito mais denso do que o de LMS.

Agora, vamos falar sobre as várias características que fazem Sunshine Cleaning ser bem parecido com Little Miss Sunshine:

1) Um personagem fundamental do filme é uma criança “esquisita”, destas que parecem não se encaixar em turminha alguma da escola porque tem um comportamento fora dos padrões. Em LMS tínhamos a uma garotinha, brilhantemente interpretada por Abigail Breslin. Em Sunshine Cleaning o papel de “criança esquisita” é personificado por Jason Spevack, um garoto que faz muito bem o seu papel – a sequência em que ele fica sob os cuidados do vendedor de loja de produtos químicos Winston (Clifton Collins Jr.) e aquela outra em que ele tenta um contato “com os Céus” são dois momentos marcantes da história. A grande diferença entre os dois filmes é que em LMS a menina tinha um papel muito mais importante na história do que o desempenhado por Spevack em Sunshine Cleaning – ainda que ambos, indiretamente, desempenham o papel de estopim para as mudanças na vida dos personagens retratados;

2) A tal criança “esquisita” tem como principal aliado o avô – interpretado, nos dois filmes, por Alan Arkin. Até o fato do patriarca das famílias ter o mesmo intérprete torna ainda mais inevitável fazer a relação das duas produções. Mas, claro, os personagens vividos por Arkin são um bocado diferentes – e tem um final distinto também;

3) Nos dois filmes os personagens centrais da história estão tentando encontrar o seu lugar “ao sol” ou, de outra forma, tentando se encaixar em alguma parte da sociedade moderna – que vende a idéia de ser bastante variada e receptiva, mas que normalmente quer mesmo que seus padrões aceitáveis sejam repetidos e mantidos incólumes;

4) As duas produções utilizam a palavra Sunshine – sempre ligada a esperança e/ou ao afeto – no título.

Para o deleite de quem gosta de boas atuações, Amy Adams dá um show no papel da mãe solteira bastante alternativa que não sabe muito bem como lidar com seus problemas. Repetindo mantras de “auto-ajuda” colados no espelho, ela tenta ser sempre a “garota cheia de esperança” da história. Ao seu lado, como o contraponto da balança, ela tem a sorte de ter a Emily Blunt, sua parceira ideal de cena. Blunt desempenha o papel “dark” da história acertando em sua interpretação por pouco – até porque ela tem um risco muito maior de parecer exagerada do que Adams. Mas ela se sai bem. O curioso é que todas as pessoas da família Lorkowski são do tipo “underground”, o que reforça a idéia de LMS de que não é preciso seguir os padrões para ser feliz ou, no caso de Sunshine Cleaning, buscar um sentido um pouco maior para as vidas das pessoas que não são conhecidas como “os vencedores”.

Muito bonitos, em especial, os momentos em que as irmãs Rose e Norah conseguem quebrar um certo um certo “estado de ânimo” de suas vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No caso de Rose, essa quebra se dá com o momento em que ela diz basta para o caso sem futuro com Mac – depois que ela percebe que ela estava apenas tentando perdurar uma sensação de “estrela” do colegial que não existia mais. Esse “choque” com a realidade para ela se deu com seu encontro com ex-colegas de turma. Não importa o que ela fizesse, ela seria sempre vista como a garota “que no passado foi tudo e que hoje é uma coitada” – idéia com a qual ela não se conformava.

Norah, por sua vez, acaba encarando o suicídio da mãe de frente e parte, como em LMS, em uma viagem simbólica para descobrir o que era importante para sua vida. Ela rompe com aquela situação montada na família em que ela seria sempre a “menina dependente” de atenção e cuidados. Interessante. No fundo, ainda que mais denso, Sunshine Cleaning repete a fórmula de LMS em misturar humor satírico, drama e personagens “extravagantes” em uma história otimista sobre a coragem de viver e sobre a capacidade das pessoas em se descobrirem e se recriarem pelo caminho.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sunshine Cleaning deixa claro, logo no cartaz do filme, que os produtores de Little Miss Sunshine são os mesmos deste novo filme. Mas além deles, apenas o ator Alan Arkin aparece nas duas produções. O trabalho de direção, desta vez, fica por conta de Christine Jeffs, que faz um trabalho competente, sempre em busca do melhor ângulo para valorizar o trabalho dos atores. O principal aliado da diretora (há cinco anos sem filmar) neste novo filme é o diretor de fotografia John Toon, que utiliza cores de matiz alaranjada que acabam dando uma aura permanente de “realidade saturada” e/ou envelhecida para a história.

Mas a responsabilidade maior pelo filme parece ter caído mesmo no colo da roteirista Megan Holley. Ela acerta e se equivoca ao tentar reproduzir a fórmula de LMS. Claro que sempre é mais fácil seguir uma conhecida linha de sucesso. A sensação que temos, ao terminar de ver a Sunshine Cleaning, é que Holley consegue apenas em parte nos apresentar uma história emocionante e com conteúdo sem copiar demais ao colega Michael Arndt (que teve a seu favor o “ineditismo” do enfoque de LMS). O filme deve agradar especialmente as pessoas que não assistiram a LMS ou, no caso das que assistiram, aos que não se importam em ver muitas variações sobre os mesmos temas.

Um grande achado do filme, sem dúvida, é a ironia de Holley com os estereótipos de “chefe de torcida” (cheerleading) e “capitão do time de futebol americano”. Um pouco que seguindo a idéia de “como seriam os superheróis quando eles se tornassem velhos?”, a roteirista brinca com o futuro de ídolos de uma geração que acabam chegando aos 30 e tantos anos sem se destacarem na sociedade em que vivem. O galã estudantil se casa com outra pessoa e acaba “perdurando” sua juventude ao manter um caso com a antiga chefe de torcida. Ambos sobrevivem em empregos comuns, sem desempenharem mais nenhum protagonismo social. Curiosa e divertida ironia e reflexão, especialmente para quem se sente “perseguido” por complexos ou “êxitos” de uma época tão distante como o colegial ou o primário.

Sunshine Cleaning foi filmado na cidade de Albuquerque, Novo México. Segundo as notas de produção do filme, esta cidade foi escolhida por abrigar um cenário propício para a história, algo que mesclava o clima árido do deserto com uma paisagem privilegiada. A diretora do filme também ressaltou o olhar cuidadoso de Toon com os atores, em uma busca permanente para que a câmera se tornasse “íntima” dos personagens.

O produtor Peter Saraf destacou, neste mesmo material de divulgação do filme, que em nenhum momento a câmera mostra os crimes que depois acabam sendo fonte de trabalho para as protagonistas. Saraf ressalta, ainda, que Sunshine Cleaning é um “maravilhosa metáfora sobre a limpeza no final da vida de alguém enquanto as suas próprias vidas são uma bagunça total”, e que as personagens acabam se dando conta, lá pelas tantas, que devem fazer uma limpeza também em suas próprias vidas.

As atrizes Amy Adams e Emily Blunt teriam passado alguns dias trabalhando em cenas de crime reais, como pesquisa para suas personagens.

Outros profissionais importantes na equipe técnica do filme são Michael Penn, responsável pela trilha sonora, e Heather Persons, que assina a edição de Sunshine Cleaning.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 103 críticas positivas e 38 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 73%. Um destes raríssimos exemplos de um empate técnico entre a opinião de público e críticos.

Depois de estrear no Festival de Sundance de 2008, Sunshine Cleaning passou por outros três festivais e dois mercados de distribuição de filmes antes de estrear de maneira limitada nos Estados Unidos em março deste ano. Até o momento, o filme não recebeu nenhum prêmio – ainda que tenha sido indicado em Sundance, mas perdeu na categoria de Grande Prêmio do Júri para Frozen River.

Nas bilheterias, o filme teve um desempenho um tanto fraco: conseguiu, até o dia 9 de julho deste ano, pouco mais de US$ 12 milhões. Achei pouco levando em conta que ele foi vendido como uma produção na linha de Little Miss Sunshine e por ter duas atrizes “vendáveis” como Amy Adams e Emily Blunt como protagonistas. Apenas para comparar, LMS conseguiu quase US$ 60 milhões apenas nos Estados Unidos.

Preste atenção especialmente nas cenas da “aventura” noturna sob o trilho de trem e na sequência em que, finalmente, a mãe das protagonistas aparece em cena.

Sunshine Cleaning só comprova o grande ano que Amy Adams teve em 2008. Além deste filme, ela estrelou Doubt e Miss Pettigrew Lives for a Day, ambos comentado aqui no blog. Este ano, logo mais, ela poderá ser vista em Julie & Julia, filme dirigido por Nora Ephron em que ela repete a dobradinha vista em Doubt com Meryl Streep.

CONCLUSÃO: Um filme denso sobre a bagunça que pode ser a vida de algumas pessoas e sobre as medidas que elas tomam para resolvê-la. Produzido pelas mesmas pessoas responsáveis por Little Miss Sunshine, este filme segue a mesma linha de colocar como protagonistas da trama pessoas comuns ou, para alguns, verdadeiros “losers”. Com atuações realmente muito boas, especialmente das atrizes Amy Adams e Emily Blunt, que encarnam personagens diferentes do que o público está acostumado a ver, Sunshine Cleaning segue a linha de “narrativa de envolvimento crescente”. De história bastante ordinárias partimos para reflexões um tanto filosóficas e profundas, como a de que a escolha do que fazemos para viver pode determinar bastante o nosso grau de sensibilidade com os nossos problemas (e dos demais) e dos mecanismos que desenvolvemos para a resolução dos mesmos. Mais sombrio que Litte Miss Sunshine, este filme deve ser visto como uma interessante tentativa de entretenimento um tanto denso e que privilegia personagens à margem na sociedade norte-americana.

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2 comentários em “Sunshine Cleaning

  1. Oi Bertrand!

    Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui. E me desculpa por demorar tanto para responder.

    Como esse ano foi agitado, só agora estou conseguindo colocar o blog em dia.

    Fico feliz que tenhas gostado do blog. Espero que, nestes meses todos que se passaram desde o teu comentário, tenhas voltado por aqui mais vezes.

    Obrigada, aliás, por tua visita e pelo teu comentário.

    Um grande abraço e até mais!

    Curtir

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