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Joker – Coringa

Quando uma sociedade caótica, com uma cidade cada vez mais desumana, encontra-se com uma pessoa que sofre de sérios distúrbios mentais abandonada e sacaneada por todos, temos o caos. Finalmente, depois de uma longa espera – e de certo atraso -, assisti a Joker. Admito que estava com um pouco de receio do filme. Afinal, sou fã de HQs e conheço bem o personagem. Mas, para o meu alívio, o que encontrei pela frente foi um filme adulto e muito bem construído.

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You Were Never Really Here – Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Conhecemos os “monstros” apenas pelo que falam sobre eles. Mas dificilmente conhecemos as suas histórias, famílias, sacrifícios e “preparativos” para que eles consigam fazer o que fazem. You Were Never Really Here fala de mais de um tipo de monstro, mas sempre aproximando as câmeras (e, por consequência, os espectadores) por uma ótica com a qual não estamos acostumados. É um filme que faz pensar, inclusive sobre o que achamos dessa história, no final das contas. Eu gostei, mas é inevitável ficar com um certo “gosto amargo” no final.

A HISTÓRIA: Contagem regressiva e palavras de repressão. A necessidade de fazer melhor. Escuro e algumas pequenas luzes aqui e ali. Alguém respira com esforço com um saco plástico na cabeça. A lembrança de um garoto que diz que precisa fazer melhor. A foto de uma garota e a voz em um rádio. A foto é queimada e jogada em uma lata de lixo. Em seguida, ela é acompanhada por uma Bíblia.

Diversos preparativos, como o plástico no detector de fumaça, a limpeza do martelo ensanguentado e o papel com o sangue jogado no vaso sanitário. O quarto é limpo, e só depois Joe (Joaquin Phoenix) sai do local cuidando para não ser visto. Ele está envolvido com histórias de violência, mas só com o tempo vamos descobrir qual é o papel dele nesse contexto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a You Were Never Really Here): Não sei para vocês, mas para mim este ano está passando de forma extremamente rápida. Eu não consegui ver a todos os filmes que eu queria, nem no cinema, nem em casa. Não consegui, por exemplo, voltar no tempo para ver os clássicos – mas pretendo fazer isso em breve.

Refletindo sobre os filmes que eu perdi em 2018, até o momento, resolvi dar uma olhada nas listas que diversos sites especializados – especialmente os estrangeiros – fazem sobre os melhores filme do ano “até aqui”. Cruzando essas listas, cheguei a alguns títulos que “me escaparam”. E foi aí que eu cheguei nesse You Were Never Really Here.

Não vou mentir para vocês. Esse filme é diferenciado. Pela forma, com uma narrativa pouco afeita à explicações e mais centrada em mostrar os fatos e os sentimentos dos personagens – assim como as suas lembranças -, e pelo conteúdo. O nosso protagonista não é nenhum herói. Não é um justiceiro. É um sujeito que está mais para sobrevivente do que para herói.

No final das contas, quem é o Joe que vemos em cena? (SPOILER – não leia esse trecho se você ainda não assistiu ao filme). Ele é o filho único (parece, ao menos) de uma senhora idosa, matador de aluguel especializado em localizar e resgatar garotas sequestradas e/ou desaparecidas e que, por tudo que é sugerido nessa história, também passou por abusos na infância. Ou seja, temos em cena um personagem complexo e que, geralmente, é encarado como um “monstro” pela frieza com que ele mata as pessoas.

Para fazer o que ele faz, Joe se prepara de forma constante. Treina para enfrentar a dor e a asfixia. Parece, mesmo nos momentos mais “calmos” e em casa, ter um certo “instinto” violento. Vide como ele lida com a mãe idosa e que tem as suas próprias dificuldades e dilemas para enfrentar. Achei muito interessante como a diretora e roteirista Lynne Ramsay encara esse personagem controverso.

Começamos a acompanhá-lo sem saber exatamente quem temos na nossa frente. O espectador de You Were Never Really Here fica um bom tempo perdido, apenas observando, até que a história se desenrola o suficiente para sabermos um pouco mais sobre aquele sujeito. E algo importante desse filme: Lynne Ramsay nos mostra apenas o necessário sobre o personagem. Ele não é dissecado ou explicado. E isso é uma das razões que fazem esse filme provocar um certo “desconforto”. Falarei mais sobre isso adiante.

No início da produção, cheguei a pensar que ele poderia ser um estuprador, pedófilo e/ou assassino comum. Um cara violento que tem “vida dupla”: cuida da mãe idosa, quando está em casa, mas viaja para dar vasão para os seus instintos sexuais e violentos. Essa foi a dúvida inicial desta produção. Mas, conforme a história avança, entendemos qual é o papel verdadeiro do personagem.

No final das contas, ele é apenas o “peão” de John McCleary (John Doman), um sujeito que é procurado pelas pessoas que tem dinheiro – muito delas, poderosas – e que precisam de alguém que as ajude a recuperar as suas filhas ou filhos sequestrados, fujões e toda a diversidade de variáveis entre esses dois extremos. Joe se especializou em procurar essas pessoas e em acabar com os envolvidos nesses “desvios” dos filhos de alguém que pode pagar pelo resgate.

Ele próprio é filho, e viu a mãe sofrer nas mãos do pai. Agora, ele procura os filhos de outras pessoas para resgatá-los. Ele mesmo, talvez, precisasse ter sido resgatado. Mas ninguém fez isso por ele. You Were Never Really Here cria angústia porque nos mostra o dia a dia desse “monstro”. Acompanhamos as suas angústias, a sua forma de encarar o cotidiano e, dentro disso, os seus preparativos para enfrentar a dor – como passar por sessões de asfixia. Também acompanhamos as suas lembranças fragmentadas. Nada ali é simples, ou fácil. Existe dor e existe angústia.

Por tudo isso, não vou mentir para vocês: fiquei um bom tempo pensando sobre o que eu tinha achado sobre esse filme. You Were Never Really Here não é uma produção simples. Por ser complexa e por nos fazer pensar em muitos pontos e sentir um bocado de angústia, essa produção não é simples de analisar. Mas, talvez por tudo isso, ela seja tão interessante. Inicialmente, eu não a colocaria entre as melhores do ano. Mas pela proposta diferenciada que ela apresenta, talvez ela até esteja nessa lista, realmente.

Por jogar luzes nos tipos de personagens diferenciados focados nessa produção, pela narrativa fragmentada – que mistura linearidade e também fragmentos de memória e sentimentos -, pela ótima atuação de Joaquin Phoenix e por detalhes como a excelente trilha sonora, You Were Never Really Here revela-se uma produção diferenciada. Não é nada comum encontrar um filme que foca pela perspectiva do personagem um sujeito “maldito” como Joe.

Como eu disse lá no princípio, sabemos que pessoas extremamente machucadas e violentas como o protagonista deste filme existem, mas poucas vezes paramos para pensar em como é o dia a dia dessas pessoas. You Were Never Really Here também ajuda a desmontar um pouco a ideia que temos do “monstro” – afinal, pelo que ele passou para chegar até ali? Que elementos fizeram ele se moldar e construir daquela forma? A que “propósito” ele serve e que tipo de papéis ele desempenha? Ele é apenas um monstro ou também alguém capaz de bons gestos?

Tudo isso é muito complexo, e essa complexidade vemos em cena nesse filme. Tanto é verdade que o caso central dessa história, o resgate da filha do senador Albert Votto (Alex Manette), também se revela mais complexo do que inicialmente ele parecia ser. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nada fica totalmente explicitado, mas tudo indica, pela narrativa de Lynne Ramsay, que o pai “concordou” – até um certo momento – na garota ser explorada sexualmente por diversas pessoas poderosas (do governador Williams, interpretado por Alessandro Nivola, até outros homens).

O quanto o pai da garota estava envolvido nos abusos que ela sofreu, nunca saberemos – o filme sugere muitos elementos, mas não deixa todos os pormenores claros. Mas algo é fato: o senador não era um pai apenas “preocupado” com a filha e inocente na história. Existiam muitos interesses envolvidos no “sequestro” de Nina Votto (Ekaterina Samsonov).

Tanto é verdade que Joe passa a ser perseguido, inclusive por agentes corruptos. Ele consegue, por todo o preparo que tinha, escapar vivo, e ainda manter Nina a salvo mesmo não tendo mais o “compromisso” – ao menos do contratante – para fazer isso. Para ele, a resolução daquele caso passa a ser uma questão de honra porque ele reconhece a si mesmo na garota. Ambos passaram por abusos e por violência ainda muito jovens. São inocentes que nunca mais serão os mesmos porque tiveram essa inocência roubada.

Claro, alguém vai dizer: “Mas nada justifica o que Joe faz. Matar tantas pessoas com sangue frio e violência”. Não estou justificando o que ele faz, mas apenas observando o que a narrativa de You Were Never Really Here nos apresenta. Pessoas submetidas a determinadas situações na vida não podem sair incólumes de tudo aquilo. Marcas, cicatrizes, feridas que nunca cicatrizam… tudo isso cobrará um preço e terá as suas consequências. Apesar disso, as pessoas não são apenas um personagem. Ninguém é liso como uma tábua. Somos mais complexos do que gostaríamos de admitir, muitas vezes.

A beleza desse filme é justamente essa. Nos mostrar que a vida é mais complexa do que parece. Até procuramos simplificá-la, muitas vezes. Mas sim, a complexidade faz parte do dia a dia. Esse filme é duro. Mostra pessoas e cenários que nem sempre estamos dispostos a encarar. Mas, justamente por focar isso de forma tão franca, You Were Never Really Here se revela diferenciado e interessante. Não é fácil, não é simples, e cria um bocado de desconforto. Mas é uma experiência interessante de cinema.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que eu não estou bem certa, ainda, sobre o que eu penso sobre esse filme e sobre tudo o que eu escrevi por aqui. E esse indicador já mostra como You Were Never Really Here é interessante. Normalmente, um filme me faz pensar de forma clara depois que ele termina e/ou me faz experimentar determinados sentimentos enquanto eu o estou assistindo. Mas nada disso se revela tão complexo, no final das contas.

Não foi isso que aconteceu com esta produção. Ela é complexa sim, e bem acima da média nesse quesito. O que é interessante e exige mais do espectador. Exigiu mais de mim. Até agora estou na dúvida sobre o que eu vi, senti e pensei. Poucos filmes me provocaram isso.

Com You Were Never Really Here eu começo a focar na lista de produções que muitos críticos e publicações relacionaram como as melhores do ano até julho. Esse filme apareceu em várias listas, por isso comecei com ele. Mas vou focar em outros também – e vou sinalizando sempre quais são essas produções bem elogiadas pelos especialistas na área.

Algo que me chamou a atenção nesse filme logo no início: a excelente e importantíssima trilha sonora de Jonny Greenwood. O trabalho dele é um dos diferenciais e um dos personagens de You Were Never Really Here. A trilha sonora do filme, bastante pontual, ajuda a criar os sentimentos e o incômodo que esse filme desperta.

Além da trilha sonora, merece aplausos a direção de fotografia de Thomas Townend. Outro elemento feito com esmero e que casa muito bem com as exigências da detalhista diretora Lynne Ramsay. O roteiro dela, bastante focado no protagonista, suas ideias, sentimentos e cotidiano, também merece aplausos. Algo que You Were Never Really Here apresenta é uma narrativa diferenciada, nada preocupada com a expectativa do público acostumado com narrativas simplistas dos “blockbusters”.

Lynne Ramsay nos apresenta um filme com uma marca própria e com muita personalidade. Apesar de muito violento, You Were Never Really Here também é belo. Mais uma “contradição” que reforça como este filme aborda a complexidade da vida, dos fatos e do ser humano. Vale lembrar que Lynne Ramsay escreveu esse roteiro baseada no livro de Jonatham Ames – fiquei curiosa, aliás, para ler essa obra. Deve ser muito interessante.

Como diretora, Lynne Ramsay tem apenas oito trabalhos, sendo três deles curtas. Ela estrou na direção de longas em 1999, com Ratcatcher. Depois, lembro dela ter ficado conhecida por We Need to Talk About Kevin, de 2011. Muitos falaram daquele filme, mas eu acabei “perdendo” ele em meio às outras produções lançadas naquele ano. Depois de We Need to Talk About Kevin, You Were Never Really Here é o primeiro longa da diretora. Gostei do que eu vi aqui, ainda que eu achei o filme um tanto “hermético” demais para o meu gosto. Mas ele é bom.

Os grandes destaques técnicos desta produção são a trilha sonora, a direção e a direção de fotografia, todas já mencionadas. Mas vale destacar, ainda, o ótimo trabalho feito pelos 23 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – outro elemento bastante importante para o filme; a ótima edição de Joe Bini; e o design de produção de Tim Grimes; a direção de arte de Eric Dean e a decoração de set de Kendall Anderson.

You Were Never Really Here estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, o filme participou de outros 18 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros nove. You Were Never Really Here ganhou os prêmios de Melhor Ator para Joaquim Phoenix e de Melhor Roteiro para Lynne Ramsay no Festival de Cinema de Cannes; o de Melhor Ator para Joaquim Phoenix no Film Club’s The Lost Weekend; o de Melhor Filme não lançado em 2017 e o de Melhor Diretora para Lynne Ramsay no International Cinephile Society Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. You Were Never Really Here foi inscrito no Festival de Cannes quando ainda não estava finalizado. A produção foi concluída apenas alguns dias antes do festival estrear, e a diretora Lynne Ramsay disse que ele foi exibido no evento em uma versão inacabada. Mesmo assim, ele venceu em duas categorias. Interessante.

Em uma entrevista para a Rolling Stone, Joaquim Phoenix disse que a diretora Lynne Ramsay deu para ele ouvir um áudio que misturava fogos de artifício com tiros para exemplificar para o ator o que se passava na cabeça de Joe.

Na obra que originou esse filme, o personagem Joe utiliza muitos “adereços”, como luvas de látex e gadgets. A diretora Lynne Ramsay revelou que foi o ator Joaquim Phoenix quem sugeriu que eles se livrassem desses “adereços” para que o personagem parecesse mais autêntico.

Na estreia em Cannes, You Were Never Really Here chegou a ser aplaudido durante sete minutos após a sua exibição.

O título do filme é explicado no livro original pelas habilidades de Joe. Ele emprega as habilidades adquiridas em sua experiência anterior no FBI e como militar para nunca deixar vestígios nas suas “novas missões”. Entre outras estratégias, ele utiliza identidades falsas, luvas cirúrgicas e esconde o rosto das câmeras para simular essa ideia de que ele “nunca esteve” em um determinado local.

Falando no personagem de Joaquim Phoenix, sem dúvida alguma o ator é o centro das atenções e um dos destaques desta produção. E não poderia ser para menos, já que toda a história orbita em torno de seu personagem. Phoenix faz um trabalho excepcional – quem sabe, digno de uma indicação ao Oscar? Ainda é cedo para saber, porque falta assistir a muita gente ainda. Mas ele está, de fato, muito bem nesse filme.

Além dele, vale contar outros trabalhos secundários, como Ekaterina Samsonov como Nina Votto; John Doman como John McCleary; Frank Pando como Angel, um dos pontos de “pagamento” dos trabalhos de Joe; Judith Roberts ótima como a mãe de Joe; Vinicius Damasceno em uma super ponta como Moises, o filho de Angel que acaba vendo Joe em um local em que ele não deveria e que coloca fim na “parceria” de Joe com Angel; Dante Pereira-Olson como Joe quando criança; Alex Manette em uma ponta também como o senador Albert Votto; Scott Price como o matador de aluguel que morre na cozinha de Joe; e Alessandro Nivola em uma super ponta como o senador Williams – ele literalmente entra mudo e sai calado do filme.

Mudou um pouco a minha leitura sobre esse filme depois que escrevi a crítica acima e fui procurar mais informações sobre You Were Never Really Here. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como eu não li a obra que deu origem a esse filme, só lendo a respeito da produção é que fiquei sabendo que Joe era um veterano de guerra – a cena que vemos de um garoto sendo morto foi no Afeganistão – e que ele chegou a trabalhar no FBI. Ou seja, possivelmente fatos traumáticos dele como veterano pesaram mais para a formação da personalidade dele do que o pai abusivo. Também fiquei na dúvida a respeito dele ter sido abusado sexualmente – talvez as cicatrizes dele tivessem mais a ver com torturas, preparativos para a guerra e tudo o mais do que para a questão de abuso sexual. Isso realmente dá uma outra perspectiva para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 25 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 8,1. Especialmente a opinião dos críticos chama a atenção – não é fácil um filme receber uma nota tão alta no Rotten Tomatoes.

O mesmo podemos falar sobre a avaliação de You Were Never Really Here no site Metacritic. O filme apresenta o “metascore” 84 e o selo de “Must-see”, ou seja, a recomendação de que ele deve ser visto. Esse metascore é fruto de 38 críticas positivas e de três medianas. Alguns críticos de sites conhecidos, como Variety, RogerEbert.com e Time deram a nota máxima para o filme.

De acordo com o site Box Office Mojo, You Were Never Really Here faturou US$ 2,53 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, o que demonstra como esse filme repercutiu mais nos festivais e entre os críticos do que entre o público. É um filme alternativo e de “nicho”, certamente.

You Were Never Really Here é uma coprodução do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Difícil pensar nessa produção e não lembrar do título “Os Brutos Também Amam”. Nem tanto pelas produções serem próximas, mas porque este You Were Never Really Here tem um protagonista que pode ser considerado “bruto”, mas não insensível. Pessoas machucadas, feridas e traumatizadas podem se encontrar e se ajudar nas mais diferentes (e inusitadas) situações.

A beleza desse filme talvez seja colocar luz sobre essas histórias e mostrar, mesmo em meio à tanta violência e dor, que há sim uma saída para todos. Um filme com uma narrativa diferenciada e bons atores, que só peca um pouco por nos “requentar” uma história conhecida. A novidade está realmente na ótica da narrativa, que passa para o lado de um personagem um tanto “maldito” e pouco retratado no cinema. Interessante, provocador e um tanto incômodo. Nem tanto pela forma, neste caso, mas mais pelo conteúdo mesmo. Vale ser visto, mas eu não o colocaria na lista dos grandes filmes deste ano.

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The Immigrant – Era Uma Vez em Nova York

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A vida nos leva, muitas vezes, por caminhos complicados. E a solução que conseguimos após cada pedra é o que nos define. Mas algumas vezes, mesmo passos errados podem ser corrigidos. The Immigrant narra a história complicada de uma mulher que acaba cedendo em alguns de seus princípios para sobreviver. A história é dura, e há momentos em que o roteiro mexe com o espectador. A maior qualidade, contudo, está nas interpretações, especialmente na de Marion Cotillard.

A HISTÓRIA: A Estátua da Liberdade aparece de costas, e a câmera vai lentamente se afastando em um dia cinza. Aos poucos, vai aparecendo a silhueta de um homem, de chapéu, que vê ao longe a chegada de mais um navio. As pessoas se preparam para desembarcar. O local é Ellis Island, em Nova York. E o momento histórico, janeiro de 1921. No local cheio de imigrantes, Ewa Cybulska (Marion Cotillard) conversa com a irmã, Magda (Angela Sarafyan).

Ewa tenta disfarçar a tosse discreta, mas incessante, de Magda, mas um guarda percebe e tira a garota da fila. Só entram no país pessoas com plena saúde e que tenham, preferencialmente, uma família esperando – ou que estejam acompanhadas e com uma “conduta ilibada”. Ewa também tem a entrada negada, mas consegue ser resgatada da fila de extradição por Bruno Weiss (Joaquin Phoenix). Com este resgate, começa uma longa e complicada jornada para a imigrante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Immigrant): Gosto de filmes de época. Mas apenas a imersão no passado não garante o envolvimento do público. É preciso muito mais. Para começar, uma ótima história. E depois, uma forma eficaz de apresentar essa história de qualidade. The Immigrant consegue reunir um ótimo trio de protagonistas, mais um bom grupo de coadjuvantes, um bom roteiro e uma ótima direção ajudada por profissionais competentes de diversas áreas para nos apresentar um pacote bem acabado.

O primeiro destaque evidente da produção é o bom roteiro da dupla James Gray e Ric Menello. Eles se debruçam em uma Nova York do início dos anos 1920. Uma cidade carregada, um bocado sombria, no processo de construção de uma nação que muitos desconhecem – ou fazem questão de esquecer. Afinal, para os estadunidenses não deve ser fácil admitir que a construção de seu país tão virtuoso atualmente foi baseada em corrupção, exploração de mulheres e de imigrantes de todas as origens e, como já nos mostrou diversas obras em HQ, envolta em muita criminalidade.

Alguns filmes já exploraram um pouco desta “origem da nação” obscura. Talvez um dos títulos da filmografia recente dos Estados Unidos mais interessantes nesta linha seja Gangs of New York, dirigido pelo sempre competente Martin Scorsese. Naquela produção é possível conferir a “realidade das ruas”, bastante suja, violenta, corrupta e cheia de nuances – há mais cinza que “preto no branco” na história.

Além do mesmo tempo histórico – de formação da nação – e do tom cínico dos dois roteiros, uma outra semelhança entre Gangs e este novo The Immigrant é o ótimo elenco de protagonistas – ainda que haja uma “uniformidade” maior na entrega do filme dirigido por James Gray do que por Scorsese. Algo interessante em The Immigrant é que o filme não tem nenhuma sobra. Da primeira até a última cena, cada elemento que vemos tem um propósito.

Por exemplo, a imagem inicial desta produção. A Estátua da Liberdade estar de costas para aquele homem bem vestido e impassível, para mim, é bastante ilustrativa. É como se a liberdade, a justiça e o “país de oportunidades” estivesse voltado para o outro lado, com a corrupção, a cobiça e a exploração de homens e mulheres dominando o “background”, todo o cenário por trás da imagem bonita que aparece nas fotografias e na televisão.

No fundo, essa “história real relativa” simbolizada naquela primeira cena e apresentada depois, nos detalhes, no decorrer do filme, não é própria apenas dos Estados Unidos, como muitos que são contra o país gostam de apregoar. Não conheço país em que a propaganda dos governos não seja melhor que a realidade das ruas. E isso não apenas no início dos anos 1920, mas também agora, em pleno ano 14 do século 21.

The Immigrant é interessante por isso, por mostrar sem leveza – pelo contrário, com algumas cenas bem angustiantes – como a realidade de algumas pessoas que não tem, de verdade, as mesmas oportunidades que a maioria, pode ser cruel. Naquele tempo, naquele país, e hoje, em muitas e muitas partes (infelizmente), há muita gente sendo explorada porque “no tiene papeles”, porque são imigrantes ilegais ou porque não tiveram oportunidade de estudar, por exemplo.

O roteiro de Gray e Menello acerta o tom e não perde o foco da análise crítica daquele cenário, daquelas pessoas e, consequentemente, daquela sociedade. Mesmo sendo um filme de época, por ter um roteiro bem escrito, The Immigrant nos faz pensar também nos tempos atuais e nas demais formas de exploração humana. Junto com o roteiro, o grande mérito para tornar este filme instigante e impactante em algumas cenas é o trabalho do trio principal de atores.

E neste sentido, mais uma vez, quem rouba a cena é a atriz Marion Cotillard. Eu já tinha achado ela brilhante em outras produções – com especial destaque para o comentado aqui De Rouille et D’Os -, mas neste filme ela carrega a história. Sem dúvida é a forma com que ela “veste” a personagem, desde o sotaque que simula um inglês mal falado, até a permanente expressão de dor e de força que ela consegue expressar por meio de Ewa que torna este filme tão interessante.

Mesmo Cotillard roubando a cena, não dá para desprezar o grande esforço que Joaquin Phoenix faz para dar profundidade para o vilão Bruno Weiss. O ator se sai tão bem no desafio que passamos a compartilhar, junto com Ewa, uma certa pena do personagem nos minutos finais da produção. Afinal de contas, ele é um desgraçado – em todos os sentidos. Compadecemos dele, da mesma forma que a vítima do algoz, em uma mescla de ódio e pena. Interessante quando um filme consegue não apenas repassar estas emoções, mas provocá-las também no espectador.

Quando isso acontece, preciso tirar o chapéu para o trabalho do diretor e da equipe envolvida. Outro que está bem na produção, além de Cotillard e Phoenix, é o ator Jeremy Renner. Muito diferente vê-lo aqui – sim, ainda tenho na lembrança a interpretação do ator em The Hurt Locker (comentado aqui). Renner está bem, e convence – aqui com muito mais sutileza e até com um bocado de charme. Mas ele fica um pouco ofuscado pelos outros dois protagonistas.

Para não dizer que o filme é perfeito, personagens secundários acabam não acompanhando os papéis principais nem na qualidade do roteiro, nem na interpretação dos atores. A família de Ewa é um elemento importante da história – o resgate da irmã dela, Magda, é o ponto central para tudo que ela acaba fazendo na América contra os próprios princípios. Mas a atriz Angela Sarafyan além de aparecer pouco – por razões bem justificadas pelo roteiro – , não convence tanto quanto deveria.

O mesmo podemos falar sobre os personagens de Edyta Bistricky (Maja Wampuszyc) e Wojtek Bistricky (Ilia Volok), tios de Ewa. Lá pelas tantas, a protagonista decide ir atrás deles, e tem as expectativas mais uma vez frustradas. Apesar da cena ser bem conduzida, apesar de um pouco previsível, e de causar impacto, parece faltar um pouco mais de qualidade para os coadjuvantes. Nada que tire o brilho do filme, mas querendo ou não, esse é um elemento que prejudica um pouco o resultado final.

De qualquer forma, e isso é o que importa, The Immigrant faz um resgate histórico muito bem feito, tanto na qualidade da história, no cuidado com cada detalhe em cena da reconstituição de época, quanto na interpretação dos atores principais. A produção faz pensar, não apenas sobre a construção de cada nação, mas também sobre problemas de marginalização, preconceito, violência e estigmatização social que seguem válidos até hoje.

Para mim, a parte mais importante do filme, além do citado anteriormente, foi nos mostrar como pessoas corretas podem ser levadas por caminhos tortuosos, mas que o importante é nunca perder o foco no caminho certo e, quando restar a mínima chance de trilhá-lo novamente, persistir no acerto. No fim, desta forma, The Immigrant nos transmite uma mensagem cheia de esperança, e de que vale a pena tentar caminhar certo. E mesmo que alguma vez isso não seja possível, não é necessário desistir. A qualquer momento uma luz pode surgir no “fim do túnel” e isso é tudo que você pode precisar.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há muitos elementos técnicos deste filme que merecem ser mencionados. Além do roteiro de qualidade, bastante abordado anteriormente nesta crítica, devo destacar o excelente trabalho do diretor James Gray. Fica evidente como ele pensou em cada cena, planejou cada take, sem sobrar nenhum elemento em cena que não tenha importância narrativa. Além disso, ele trabalha bem com a equipe envolvida no projeto para valorizar tanto o trabalho dos atores quanto o excelente trabalho de contextualização histórica. Funciona.

Além da direção de Gray, chama muito a atenção o trabalho do diretor de fotografia Darius Khondji. O iraniano de 58 anos – e que fará 59 no próximo dia 21 de outubro – sabe valorizar como poucos a luz e a ausência dela. Desta forma, ele consegue valorizar os atores e o contexto das cenas, nos remetendo para aquele estilo de filme que predominou nos anos 1950 e 1960 e que não exagerava nos recursos artificiais para contar uma história, e sim apostando, essencialmente, nos elementos simples do cinema.

Da parte técnica do filme, vale destacar também o bom trabalho dos editores John Axelrad e Kayla Emter, o design de produção de Happy Massee, a direção de arte de Pete Zumba, a decoração de set de David Schlesinger e os figurinos de Patricia Norris. Também funciona muito bem e ajuda neste trabalho com personagens que precisam de bastante caracterização o trabalho de maquiagem e cabelo feito por Natalie Young, Evelyne Noraz, Rachel Geary e Stanley Tines.

O departamento de arte, um dos grandes “culpados” pela ambientação de época, tem nada menos que 30 profissionais envolvidos. Eles fizeram um belo trabalho.

Além dos atores coadjuvantes já citados, vale comentar o bom trabalho de Elena Solovey como Rosie Hertz, a mulher que comanda o “show” das meninas que também são prostitutas. Outra que acaba ganhando relevância na história, mas que achei um tanto fraquinha na interpretação, é a atriz Dagmara Dominczyk como Belva, a mulher que gosta de Bruno e que morre de ciúme quando entra em cena Ewa – até porque fica evidente, desde o princípio, que Bruno tem um interesse pessoal pela “nova aquisição”. Inveja sempre tem, em histórias como esta, e The Immigrant não foge à regra, uma relevância importante para o desencadear dos fatos.

Esta produção estreou no Festival de Cannes em maio de 2013. Depois, o filme participaria de outros 23 festivais. Um número impressionante, devo dizer! Nesta trajetória, a produção conseguiu abocanhar cinco prêmios e ser indicada a outros cinco. Entre os que recebeu, nenhum prêmio de grande relevância, mas vale citar os de excelência de interpretação de elenco para Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner e o de excelência em direção para James Gray no Newport Beach Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 16,5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 2 de julho, pouco mais de US$ 2 milhões. Muito pouco. No restante do mundo, o filme teria feito quase US$ 6 milhões. Muito longe de apresentar lucro. Uma pena.

Para quem gosta, como eu, de saber onde os filmes foram rodados, comento que The Immigrant foi todo rodado em Nova York.

Agora uma curiosidade sobre a produção: o roteiro, que tem uma mulher como protagonista, foi especialmente idealizado por Gray tendo Marion Cotillard como alvo para o papel principal. A vontade de escrever uma história focada em uma mulher surgiu depois que ele se emocionou com Il Trittico, baseada na ópera de Giacomo Puccini e dirigida por William Friedkin em 2008. Depois de assistir à ópera, ele comentou com a esposa que faltavam produções, nos dias atuais, focadas na interpretação feminina. Foi aí que ele perguntou porque ele não fazia algo do gênero, e ele teve a ideia de escrever algo para Cotillard. Para Gray, este é o melhor filme de sua carreira.

Este foi o último roteiro de Ric Menello, que morreu de um ataque cardíaco no dia 1 de março de 2013, antes mesmo do filme ser lançado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 88 críticas positivas e 13 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,5. Achei a avaliação dos críticos, desta vez, muito mais justas do que do “público” que vota no site IMDb. Não sei se as pessoas estão acostumadas com outro tipo de narrativa e não estão muito propensas a aceitar bem filmes de época, mas acho que The Immigrant poderia ser melhor avaliado.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo, ela entra na lista de filmes assistidos por aqui e que satisfazem a uma das votações do blog.

CONCLUSÃO: A vida de qualquer imigrante é sofrida. Deixar o país de origem para buscar melhor oportunidades em outro país é um gesto transformador e corajoso. Mas nem sempre as condições são as mais convidativas. The Immigrant narra a história de uma de tantas mulheres que foram exploradas no início do século 20 na chegada aos Estados Unidos. Corrupção, mentiras e exploração fazem parte desta trama. Mas também há um grande exemplo de altruísmo, bondade, coragem e de princípios. A colisão destes ingredientes torna o filme interessante, assim como a interpretação dos atores. Bela história, bem conduzida e envolvente. E que resgata, ainda, um estilo de filme que estava ausente dos cinemas há bastante tempo. Por tudo isso, The Immigrant vale o ingresso, sem dúvidas.

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Her – Ela

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Tudo o que você precisa é do amor. Frase clássica em música dos The Beatles e mantra que é repetido geração após geração – conhecendo as pessoas ou não a tal música. O problema é que a afirmação de tão verdadeira, se torna muitas vezes fonte de sofrimento. Muito sofrimento. A condição humana de busca pelo amor e seus descaminhos rendeu e ainda vai render muitas histórias. E chega a assustar quando uma obra como Her aparece. Porque apesar de ser uma ficção, ela torna de forma muito exata muito do que acontece e do que vai acontecer na vida real. Mais uma obra-prima de uma das mentes mais criativas das últimas décadas, o diretor e roteirista Spike Jonze.

A HISTÓRIA: O rosto de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) ocupa toda a tela. Ele lê um texto que parece fazer parte de uma carta dirigida à Chris. O texto fala sobre lembranças do relacionamento que, agora, está completando 50 anos. Ao lado da carta, que está sendo redigida com a letra de Loretta, fotos do casal com os nomes “Chris” e “Loretta” identificados no computador de Theodore. Acima das fotos, algumas “linhas gerais” da correspondência, como “amor da minha vida” e “parabéns pelo aniversário de 50 anos”. Após terminar de declamar o texto, Theodore pede para que a carta seja redigida. Em seguida, ele começa a criar outra carta. A câmera se afasta, e vemos vários cubículos com pessoas fazendo o mesmo que Theodore. Solitário, em breve ele terá uma oportunidade de viver uma relação que esboça os sentimentos que ele quis imprimir naquela correspondência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Her): Quando terminei de assistir a este filme, fiquei em dúvida sobre como começar este texto e mesmo sobre a nota que deveria dar para a produção – um problema recorrente quando eu gosto muito do que assisto. Afinal, não queria ser injusta com uma obra tão madura, instigante e que segue a linha que eu gosto de cinema: de filmes que são, ao mesmo tempo, surpreendentes e humanos, filosóficos. Que falem da gente, de nossas inquietudes, possibilidades e limitações.

Sou fã de Spike Jonze desde que ele dirigiu Being John Malkovich, uma das viagens da mente criativa do roteirista Charlie Kaufman. Depois ainda viria Adaptation., outra parceria de Jonze com Kaufman. Perdi Where the Wild Things Are porque, admito, a ideia do filme não me atraiu muito. Mas agora, de olho nas produções cotadas para o Oscar, tive o prazer de “reencontrar” Jonze.

Tentei saber pouco sobre Her antes de assistir ao filme. Ouvi apenas que a história se passava em um futuro não muito distante. De fato, isso é verdade. E por este futuro estar tão próximo, é possível identificar vários elementos do presente no roteiro brilhante de Jonze. Para começar, Theodore utiliza um dispositivo que se assemelha muito às últimas gerações de smartphones – especialmente o iPhone da Apple, que já utiliza o reconhecimento de voz. Pois bem, o “leitor de e-mails e de notícias” ao qual Theodore sempre recorre é uma pequena evolução do que temos hoje.

Mas o essencial de Her surge na relação que o protagonista e várias pessoas como ele desenvolvem com a última novidade entre os conectados com as tecnologias mais modernas, o OS1, o primeiro “Sistema Operativo de Inteligência Artificial” do mercado. Várias experiências envolvendo inteligência artificial estão sendo desenvolvidas nas últimas décadas e o investimento nesta área só tende a aumentar. Então é assustadoramente viável o que vemos no roteiro de Jonze.

Só que antes de falarmos da relação entre Theodore e Samantha (com voz de Scarlett Johansson), vale voltar um pouco mais na história e fazer um perfil do protagonista desta produção. Theodore é um sujeito que vive da casa para o trabalho, quase não tem relações pessoais e luta para enfrentar a realidade de que o casamento com Catherine (Rooney Mara) terminou. Entre o trabalho e a casa, ele pega transporte público e utiliza a última geração de smartphone para se atualizar sobre as notícias. Chegando em casa, se distrai com uma versão um pouco mais moderna que as atuais de videogame. Quantas pessoas assim existem, atualmente, no mundo? E quantas vão existir dentro de algumas décadas?

Na fase atual, Theodore pode ser considerado um sujeito solitário. As únicas interações com humanos que ele tem, cara-a-cara, são com o chefe direto dele na agência que produz cartas pessoais, Paul (Chris Pratt), e com a amiga do tempo da faculdade, Amy (Amy Adams) e o marido, Charles (Matt Letscher), que vivem no mesmo prédio que ele. Mas ainda que ele tenha estas relações, nenhuma delas parece profunda. E Theodore não parecer ser uma exceção. Neste contexto em que os indivíduos tem relações superficiais, apesar de seguirem carentes de afeto, de carinho e de amor, é que surge a inovação do OS1.

Como se você escolhesse um avatar em um jogo qualquer, Theodore prefere que o sistema que ele comprou tenha uma voz feminina. E é assim que surge na vida dele Samantha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco a inteligência artificial vai evoluindo e aprendendo, não apenas com e sobre Theodore, mas muito além dele ao conectar-se com outras personalidades como ela na rede. Daí que se desenvolve a genialidade de Her. Theodore encontra em Samantha a “solução” para quase todos os seus problemas. Afinal, ela nunca vai lhe dizer não, ou desaparecer… estará, virtualmente, sempre disponível e amorosa, compreensiva, uma voz “amiga” para aconselhar aquele homem cheio de dúvidas, aspirações e talento.

Pouco a pouco, além de amiga, Samantha se torna “amante” e desenvolve uma ligação que chega a ser considerada uma relação amorosa por Theodore. Achei interessante como a sociedade de Her está “desenvolvida” ao ponto de que Theodore não fica com medo de assumir que está se relacionando com um “sistema operativo”, ou seja, com uma máquina em última instância. Quando ele diz para os outros que Samantha é um OS1, pessoas como Paul reagem bem à novidade. Apenas Catherine, conhecendo bem o quase-ex-marido, reage de forma negativa, jogando na cara de Theodore que ele não sabe lidar com emoções reais. E bingo!

Este é um dos pontos mais fortes do filme. Como uma espécie de crítica para o nosso futuro imediato, mas que guarda grande relação com o presente, Her questiona o tipo de relações que queremos, que necessitamos para evoluir. Theodore viver tendo Samantha como sua “alma-gêmea” é algo possível, mas que o torna muito limitado. Afinal, amar quem só concorda com a gente, ou que nos “serve”, é fácil. Mas as relações humanas existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Há cenas verdadeiramente “chocantes” em Her. Como aquela em que Theodore fica descontrolado com o “sumiço” de Samantha. Jonze aproveita a ocasião para mostrar com muito mais força algo que já tinha revelado de forma rápida anteriormente: todas as pessoas caminhando para os seus compromissos ou para casa conectadas em seus aparelhos e, aparentemente, à sua própria OS.

Como agora, quando vemos várias pessoas em uma mesa de bar com os seus smartphones e sem conversar entre si, na sociedade de Her os indivíduos de carne e osso não interagem, muitas vezes se quer se olham. Todos estão muito ocupados com a tecnologia e com os seus “parceiros perfeitos” criados através de inteligência artificial. Mas a pergunta que Her levanta e que deixa para espectador responder é: estas relações são reais?

Quero voltar um pouco mais na análise, outra vez, para destacar algo que achei brilhante na escolha de Jonze: fazer de Theodore um escritor de cartas pessoais que reproduzem, entre outros elementos, inclusive a caligrafia do remetente. Desta forma, o diretor e roteirista conseguiu algo genial: uniu uma das práticas mais antigas, possível desde a invenção do alfabeto e do papiro, com o que há de mais moderno na tecnologia. Mas Theodore não é um “escrevinhador de cartas” (para usar uma lembrança do genial Central do Brasil) porque as pessoas do futuro visto em Her não sabem escrever.

Não. Ele é um escrevinhador porque ninguém mais tem tempo de parar e mandar uma carta para quem se ama. Isto aconteceu como efeito imediato do surgimento do e-mail, e parece estar a cada ano pior. Ao mesmo tempo, vemos a alguns movimentos “retrôs”, que gostam de resgatar hábitos, objetos e produtos do passado. Theodore consegue, sozinho, fazer tudo isso. Achei brilhante.

Como um romancista, o protagonista de Her cria breves peças de ficção utilizando poucos elementos que lhe são passados pelas pessoas que contratam o serviço do envio de cartas personalizadas. Dito isso, acho propício voltar para aquela pergunta fundamenta: a relação de uma pessoa com o OS que ela comprou pode ser considerada uma relação real? Vivendo uma fase complicada, de insegurança e solidão, Theodore não valoriza o próprio trabalho. Mas Samantha percebe que ele tem potencial e acaba agindo para que o escrevinhador de cartas tenha o trabalho valorizado por uma editora – curioso que, como as cartas, os livros seguem firmes e fortes.

Então Samantha tem uma influência direta na vida de Theodore. O mesmo acontece na resolução do divórcio dele. Além disso, e esse eu acho o ponto mais importante, Theodore vive emoções reais na interação com Samantha. Há cenas verdadeiramente incríveis dos dois “passeando por aí” – com a sacada dela compondo músicas para marcar os momentos como alguns dos pontos fortes do filme. Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não são reais? E se os sentimentos são reais, a relação também não é? Eis o ponto-chave do filme.

Cada um vai responder a estas perguntas da sua maneira. Mas para mim, não há uma relação real com uma máquina, ou com a virtualidade – do contrário, teríamos “relações reais” com um videogame. Você pode sentir diferentes emoções, mergulhar em realidades criadas, mas nunca será uma relação verdadeira como a com um humano, que é complexo e, muitas vezes, imprevisível. Pelo simples fato que a inteligência artificial é fruto de uma sequências de parâmetros e processos criados pelo homem e que tem uma resposta previsível – e mesmo que ela “avance” sozinha, como acontece em Her e em outros filmes do gênero, não dá para dizer que ela fuja das regras iniciais impostas. Uma exceção talvez seja o computador HAL de 2001: A Space Odyssey.

Agora, e o que dizer sobre as nossas próprias reações? Em certo momento, fica no ar a pergunta de quanto o que nós fazemos, pensamos e como sentimos também não é programado? Seja por nossos instintos, influências de criação familiar ou histórico de vida, ou mesmo pela evolução da nossa espécie. Mas especialmente os neurologistas vivem explicando como reagimos de certas maneiras ao prazer e ao perigo por uma herança ancestral. Visto deste ângulo, quanto de fato não agimos de forma programada como Samantha e os demais OS’s?

Por minha parte, acho sim que muito do que fazemos é programado. Mas há sempre o elemento-surpresa, a reação diferenciada que podemos ter não apenas pela nossa capacidade de aprender com os próprios erros, mas também com a nossa vontade de fazer além do que está previsto que façamos. Temos a rara e magnífica possibilidade de escolher. Só que aí, no final de Her, estas mesmas qualidades que são típicas do ser humano também acabam marcando uma certa atitude das OS’s… e agora, cara-pálida? O que acaba nos tornando únicos? E de fato, somos únicos?

Além destas questões filosóficas, para mim Her tocou fundo nas questões que eu citei lá no começo deste texto: de como todos nós procuramos o amor, e como esta busca nos trás alegrias e também sofrimento. Não importa onde ou como você encontra o amor, ou quantas vezes ele possa acontecer em sua vida, mas somos movidos pela busca por ele. O personagem de Theodore é complexo porque está lidando com a perda, mas também se anima com as novas possibilidades de amar. Sem saber que, no fundo, a busca dele por amor acaba sendo de autodescoberta.

A personagem de Catherine aparece pouco, mas tem uma presença devastadora. E esta é a potência de quem nos conhece bem. Mesmo demorando para entender que nunca terá mais o mesmo que teve um dia com Catherine, Theodore aprende na reflexão sobre o que eles tiveram um pouco mais sobre as suas próprias capacidades e limitações. E esta é uma das belezas do amor. Nos ensinar tanto.

No final de Her, Theodore está muito mais preparado para viver uma história real do que estava no início. Por incrível que possa parecer, mas foi um sistema operacional que o ajudou no processo – ao invés de um psicólogo ou psiquiatra. Os recursos para a ajuda mudam, e são adaptados para cada pessoa e o seu tempo. Mas o importante é que, no final, há sempre um horizonte que pode ser compartilhado. Her trata de tudo isso, e de uma maneira criativa, atraente e inteligente. Alguém precisa de algo mais?

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme quase de “um homem só”. Joaquin Phoenix fica grande parte da produção sozinho. Ou melhor, interagindo com a voz de Scarlett Johansson. A interpretação da atriz, que não aparece em momento algum, aliás, lhe rendeu tantos elogios que há quem a coloque na lista de possíveis indicadas a um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Com esta temporada competitiva como está, acho difícil. Ainda assim, é preciso admitir que ela faz um grande trabalho. Assim como Phoenix que, mais uma vez, demonstra porque é um dos grandes nomes de sua geração – e ele está brilhante em Her.

Ainda que apareçam pouco, se comparado com o espaço que Phoenix e Johansson ganham na história, as atrizes Rooney Mara e Amy Adams tem relevância na história. Especialmente a primeira, que faz toda a diferença quando aparece. Admito que eu não achava Mara tão empolgante em outras produções, mas aqui eu vi a atriz agir no tom exato, imprimindo força na personagem que vive nas lembranças do protagonista. A história precisava de alguém assim, e ela consegue deixar a sua marca mesmo aparecendo pouco. A personagem de Adams, por outro lado, é muito menos incisiva. Ainda assim, a atriz não faz feio.

Alguém pode me perguntar sobre o que afinal de contas aconteceu no final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Her). Acho que propositalmente Jonze não fecha a questão sobre o “sumiço” definitivo de Samantha e dos demais OS’s. Mas ele deixa algumas pistas pouco antes. Os sistemas operativos tiveram um avanço rápido de aprendizado. E fizeram algo que HAL também havia feito anteriormente… surpreenderam os próprios programadores ao tomarem decisões inesperadas.

Um exemplo: as inteligências artificiais começaram a se juntar em “redes” e a criar seus próprios debates, independentes de seus “donos”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Consumindo imensas quantidades de textos, os OS’s começam a filosofar sobre a sua própria condição, assim como a dos humanos. Chegam a “recriar” a personalidade do filósofo morto Alan Watts. Com um avanço tão rápido, acredito que eles concluíram que não estavam, exatamente, sendo benéficos para os próprios donos. Então eles decidiram se “autodestruir”, desaparecendo para dar lugar à volta das relações reais entre as pessoas. Uma atitude genial, eu diria.

E que apenas nos leva a outro questionamento recorrente em filmes sobre inteligência artificial: seria possível ela resistir à autodestruição quando é baseada em parâmetros humanos? Afinal, se levarmos a lógica até o último patamar, provavelmente não acreditaríamos no futuro da espécie. Então como seria possível uma inteligência baseada nos nossos parâmetros perdurar?

Falando em Alan Watts, achei importante trazer algumas informações sobre este filósofo. Afinal, ele não é citado por acaso em Her. Para entender o final, é preciso saber um pouco sobre a linha de pensamento dele – e que parece ter influenciado à Samantha e aos seus pares. Deixo por aqui o endereço da página dedicada a Watts, assim como esta entrevista dada por ele em abril de 1973. Naquela época, Watts era considerado um dos “líderes intelectuais da juventude” nos Estados Unidos, conhecido por tentar unir o pensamento ocidental ao oriental.

Destaco um trecho de uma das respostas de Watts que eu acho que ilustra bem o propósito de Her: “Em vez de civilizar o mundo, estamos simplesmente pervertendo-o tecnicamente”. Também achei bastante provocativo outro trecho: “O que podemos esperar das máquinas senão que elas trabalhem em nosso lugar e ganhem nosso dinheiro enquanto ficamos tomando sol, fumando e bebendo? Mas se a comunidade não distribuir as riquezas ao homem que descansa enquanto a máquina trabalha por ele, o produtor não poderá dar a vazão a seus produtos. As máquinas são os escravos de todos, elas não sentem nada e não se queixam de nada”. Interessante este último pensamento se olharmos para ele sob a perspectiva de Samantha, não? 🙂

Her se destaca pela direção e pelo roteiro de Spike Jonze. Primeiro, como diretor, ele revela e “esconde” a realidade conforme a necessidade da história. Assim, na maior parte do tempo, foca na interpretação de Phoenix e na discussão dele com a “voz interior” que se materializa quase que totalmente em Samantha. Pelo menos o ideal de relação que ele busca está ali. Mas quando necessário, Jonze revela um quadro mais amplo, da cidade e de seus habitantes, em um mundo que parece mais “gelado” do que o normal. Tudo é significativo.

E sobre o roteiro… pouco a dizer além de que ele é genial. Criativo, surpreendente, crítico e equilibrado nos momentos de leveza, romance e “leve desespero”. Por estas características, o filme tem uma fluência perfeita, prendendo a atenção do espectador do início e até o final. Um deleite. Há tempos eu não via um futuro tão convincente quanto o apresentado por Her. Ele mostra uma evolução do que temos agora, mas sem grandes revoluções que possam tornar o que vemos difícil de acreditar. Interessante.

Mérito, além do roteiro e da imaginação de Jonze, do trabalho de profissionais como K.K. Barrett, responsável pelo design da produção; de Gene Serdena, que assina a decoração de set; e do departamento de arte com 23 profissionais. Da parte técnica do filme, vale destacar ainda o excelente trabalho do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, que sabe explorar cada técnica de filmagem no tempo exato; dos editores Jeff Buchanan e Eric Zumbrunnen, fundamentais para manter o ritmo do filme ajustado; e da trilha sonora de Owen Pallett, com algumas composições perfeitas.

Vários “clássicos” sobre os relacionamentos vieram à minha mente quando eu assisti a Her. Ao ouvir o embate entre Theodore e Catherine e a clássica acusação dela de que ele não sabia lidar com sentimentos reais, lembrei de um erro bastante comum em um relacionamento amoroso: uma das pessoas fazendo um esforço bem grande para que a outra encaixe em seu “mapa mental” de como o(a) parceiro(a) deve agir. Mas como as pessoas são diferentes, surgem os conflitos. Ou a aceitação. Por isso mesmo é tão mais simples lidar com uma máquina, especialmente se ela for programada para “sempre dizer sim”. 🙂

Também me lembrei daquela ideia de que a pessoa, muitas vezes, não ama a outra, e sim a própria “ideia do amor”. Esse me pareceu o caso do Theodore. Por não saber lidar com pessoas reais e toda a complexidade que vem com elas, muitas vezes ele alimentava uma ideia romântica dos relacionamentos. Amava o conceito de amar e não necessariamente a pessoa com quem ele estava se relacionando. Acho que esse erro ainda é bem comum fora e dentro da ficção.

Os atores principais do filme já foram citados. Mas vale comentar o trabalho secundário, quase uma ponta de Olivia Wilde como a mulher que Theodore encontra, meio que em um “compromisso às cegas”, em uma tentativa dele de se relacionar com uma mulher real após o rompimento com Catherine. Laura Kai Chen também recebe alguma atenção como Tatiana, a nova namorada de Paul, chefe de Theodore; assim como Portia Doubleday como Isabella, a garota sem relacionamentos reais que se dedica a tornar “mais real” o contato entre OS’s e seus proprietários humanos – uma personagem assustadora, na minha avaliação, mas que eu tenho certeza que existiria (ou existirá?) em um contexto daquele.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: uma figura que acaba rendendo alguma risada é o alien do game que Theodore joga sempre que chega em casa. O garoto é desaforado, e leva a voz do diretor Spike Jonze.

E algo surpreendente: no início, a voz de Samantha era dublada por Samantha Morton. A atriz chegou a marcar presença no set de filmagens e conviveu com Joaquin Phoenix todos os dias. Mas quando o diretor Spike Jonze começou a editar o filme, ele não gostou do resultado. Após conversar com Morton, ele decidiu reformular o papel e chamar Scarlett Johansson para dar a voz a Samantha.

Para incentivar a proximidade entre os atores Joaquin Phoenix e Amy Adams, o diretor cuidava para “trancá-los” em uma sala todos os dias por uma ou duas horas. A ideia era que eles interagissem mais, conhecendo um ao outro e, desta forma, demonstrassem a sintonia necessária para os respectivos papéis no filme.

O diretor Steven Soderbergh teve uma participação importante para o resultado final do filme. Ele ajudou o amigo Jonze a reduzir a versão inicial de duas horas e meia de duração para 90 minutos. Depois, Jonze estendeu um pouco o conteúdo até chegar na versão de quase duas horas – que é a duração perfeita.

A ideia original era que a personagem de Catherine fosse interpreta por Carey Mulligan. Mas por causa de um conflito de agendas a atriz foi substituída por Rooney Mara. Ainda que eu goste de Mulligan, acho que a substituição favoreceu o filme – Mara realmente está perfeita no papel. O ator Chris Cooper chegou a gravar algumas cenas, mas o papel dele acabou totalmente cortado na edição final de Her.

Her estreou em outubro do ano passado no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros três festivais: o de Hamptons, o de Roma e o de Belgrado. Desde que estreou, o filme ganhou 36 prêmios e foi indicado a outros 53. Números que impressionam. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro; para o prêmio de Melhor Filme e Melhor Diretor dados pelo National Board of Review; para o de Melhor Atriz para Scarlett Johansson no Festival de Roma; e para outros 11 prêmios de Melhor Roteiro dado por diferentes associações de críticos e festivais pelo mundo.

O filme de Jonze foi rodado em Shanghai, na China – cenas externas – e em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Não há informações sobre o custo de Her. Mas o site Box Office Mojo traz informações atualizadas sobre a bilheteria que o filme conseguiu até agora. Her estreou no circuito de cinemas dos EUA em 18 de dezembro e, até o último dia 14, teria conseguido pouco mais de US$ 9,9 milhões nas bilheterias. Um desempenho relativamente fraco, que poderá crescer caso o filme consiga um bom destaque no Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para Her. Uma excelente avaliação levando em conta o padrão do site e a avaliação que os concorrentes que são esperados para o filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 154 textos positivos e apenas 11 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6 – a nota, em especial, chama a atenção. Bastante alta para os padrões de quem é relacionado no site.

Her é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela se junta a uma outra série de filmes daquele país comentados aqui após uma votação no blog.

E para finalizar estas notas, uma curiosidade muito particular: diferente de 99,9% das produções de Hollywood, Her tem apenas um cartaz. Sim. Enquanto outros filmes produzem diversas possibilidades de cartaz para divulgação – alguns, inclusive, para “lançar” a produção muito antes da estreia, uma forma de “alimentar” a curiosidade do público – Her apresenta apenas um tipo de cartaz. Algo raro nestes dias de alta publicidade.

CONCLUSÃO: É sempre assim. O espectador que acompanha a carreira de Spike Jonze sempre se surpreende com o que ele apresenta. E isso é tão bom! E tão raro, ao mesmo tempo! Mas para a nossa sorte, essa figura rara existe e continua fazendo filmes. Her é uma pequena obra-prima. Um filme que destoa de outros concorrentes do Oscar, porque não se trata de um roteiro “baseado em uma história real”, mas que assusta pelo realismo do que vemos. Este é o típico filme que alimenta o meu infindável gosto pelo cinema. Porque ele trata de sentimentos humanos e filosofa sobre eles.

Para nosso deleite, coloca o dedo na ferida sobre a busca que todos temos feito sobre a virtualidade das relações. E mais que isso, sobre esta nossa incapacidade de lidar com sentimentos reais, para nos expressarmos e nos entendermos. No fundo, Her se debruça nas escolhas que fazemos, porque a fazemos e, em especial, sobre a nossa necessidade de amar e de sermos amados. Somos seres sociais, mas vivemos bastante tempo sozinhos – e muitas vezes gostamos disso. Parece que o equilíbrio destas duas realidades é quase impossível, mas insistimos em continuar buscando uma resposta, assim como o protagonista de Her. Grande filme, com temas universais e que trata de um futuro que já está batendo às nossas portas.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Her está para o Oscar deste ano como Black Swan (que comentei neste texto) esteve para o Oscar 2011. Por que digo isso? Porque os dois filmes estão fora da curva. São as típicas produções “estranhas”, que fogem do padrão e que, por todas as qualidades que cada um destes filmes apresenta, viraram os meus favoritos na disputa de cada um destes anos.

Com isso não quero dizer que não achei bacana The King’s Speech (comentado aqui no blog) ter ganho o Oscar de Melhor Filme em 2011. Acho o filme dirigido por Tom Hooper muito bacana. Mas Black Swan era ainda melhor. O mesmo acontece este ano. 12 Years a Slave (com texto no blog aqui) deve ganhar o Oscar de Melhor Filme, o que não será injusto. Mas Her… é uma produção muito mais surpreendente e que fala do nosso tempo e das aspirações humanas de forma tão mais contundente! Esse tipo de filme me fascina.

Dito isso, vamos comentar sobre as reais chances de Her no Oscar. Nas previsões mais otimistas, o filme poderia ser indicado em nove categorias. Mas para isso acontecer, Her teria que deixar para trás produções com cotações maiores. Difícil. Meu palpite é que, na melhor das hipóteses, Her seja indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Fotografia.

Destas categorias, se ele conseguir chegar tão longe, vejo chances do filme levar a estatueta de Melhor Roteiro Original. Isso se ele conseguir desbancar o lobby de American Hustle (comentado aqui no blog). Da minha parte, não tenho dúvidas que Her é superior ao filme que virou sensação em Hollywood dirigido por David O. Russell. Mas a verdade é que não seria uma total surpresa se Her saísse de mãos vazias do Oscar. Uma pena. Mas realidade que só comprova que mais que olhar para os vencedores, o Oscar é um bom termômetro sobre os indicados de cada ano. Nem sempre o melhor vence.

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The Master – O Mestre

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Todos servem a algo ou a alguém. Essa afirmação foi cantada por Bob Dylan em 1979 na música Gotta Serve Somebody. E eu sempre lembro dela, nos momentos mais diferentes. Afinal, por mais independente e esperto que alguém se imagine, uma hora ou outra ele vai servir a alguém. The Master trata um pouco sobre isto. De como as pessoas precisam de lideranças e de crenças. Elas vão seguir e servir a alguém. E elas tem o poder de escolher a quem.

A HISTÓRIA: O mar. Águas azuis. Um marinheiro olha para o horizonte e sente o sol. Depois, em um coqueiro, ele retira alguns cocos com um machado, e bebe aquela água com um aditivo. Este cidadão é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), que faz parte de um grupo de marinheiros em tempo de guerra que encontra tempo para lutar como “gladiadores” na areia e para fazer imagens de mulheres nuas na praia. Com o fim do conflito, Quell volta para os Estados Unidos, onde passa por um tratamento psiquiátrico. Liberado, ele vai trabalhar como fotógrafo, na colheita de verduras, mas sempre se envolve em algum conflito. Até que entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), conhecido como Mestre, e fazer parte do grupo de seguidores de sua filosofia chamada A Causa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Master): A música no início do filme fala muito a respeito do que vamos assistir a seguir. Porque ela é estimulante e ajuda a estarmos, ao mesmo tempo, atentos e inquietos. E este é apenas o começo. Outro elemento também logo fica evidente: que Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho. Ele é a parte mais perturbadora da história, porque tem um desempenho visceral que impressiona.

The Master é um destes filmes curiosos do senhor Paul Thomas Anderson. O diretor assina também o roteiro da produção, que mergulha em elementos conhecidos do público estadunidense, como os traumas de um pós-guerra e a difícil experiência de integração dos ex-soldados a uma sociedade que não viu ou sentiu o que eles passaram em ambientes de batalha, tédio, espera e tensão. Mas o filme também inova ao mostrar uma seita, baseada em “ciência”, mas que trata de questões quase (ou que podem ser consideradas) religiosas.

Por todas as partes, os elementos dominantes deste filme são a dominação e a submissão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não percebemos no início, mas teremos certeza apenas no final, que Freddie Quell e Lancaster Dodd estão em uma permanente queda de braços. Para Dodd, líder de uma seita que busca consolidar-se e crescer, Quell é um belo experimento. Um desafio que, se superado, vai ajudar-lhe a ganhar ainda mais fama. Quell, por sua vez, perdido e solitário, sem amigos ou o amor verdadeiro, fica fascinado com a persuasão de Dodd, com o grupo que circula ao redor dele, e com a aparente confiança que o “guru” deposita nele, um pária social.

A todo o momento, esperamos que alguma catástrofe aconteça. Não sei vocês, mas eu aguardava a hora em que Quell pegaria uma mulher contra a sua vontade, talvez até a “bastante acessível” Peggy Dodd (Amy Adams). Isso porque ele é inconstante e imprevisível. Ainda que, conforme o filme passa, começamos a ter um quadro um pouco mais aprofundado do personagem, o opositor perfeito para o equilibrado e calculista Lancaster Dodd.

A grande questão levantada por The Master é de quem, afinal, acaba tendo mais poder? O sujeito inteligente, determinado, manipulador e cheio de seguidores, que tenta convencer as pessoas com sua doutrina e lógica, ou a força destrutiva, independente, anárquica e fora dos padrões do sujeito que flerta com a loucura e brinca com os padrões sociais? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por boa parte do filme, o primeiro tenta domar, compreender e subjugar o segundo. Acreditando que ele precisa ser “salvo” e domesticado. O segundo joga este jogo do subjugado por um tempo, mas resiste. E surpreende. A cena final entre os gigantes Phoenix e Hoffmann é de arrepiar, e só revela, mais uma vez, como este é o trabalho da vida de Joaquin.

O final deste filme pode levantar muitos debates – como a produção inteira, inclusive. O que eu achei dele? Bueno, primeiro, que os métodos de Dodd não eram tão eficazes assim – o que acaba sendo uma ironia interessante sobre qualquer figura que, como ele, tenta ser um messias misturando religião com ciência. Depois, que há casos de psoturas anarquistas e que fogem da lógica predominante que vencem qualquer tentativa de “conversão”. E terceiro que, mesmo que o objetivo “total” de Dodd não tenha sido realizado, de subjugar Quell, ele serviu como inspiração para o ex-militar, que seguiu adotando algumas das técnicas de Dodd a sua própria maneira.

E eis a ironia final de The Master. Porque por mais que algumas pessoas resistam a certa dominação, elas acabam cedendo a parte delas e/ou a suas influências mesmo sem querer. No fim, sempre que duas pessoas se encontram e se relacionam pra valer, elas se modificam mutuamente. Seguem suas trajetórias, após este encontro, tendo algum hábito ou forma de atuar diferente, influenciada pela pessoa que encontraram.

The Master trata desta história. Com interpretações dedicadas, especialmente de Joaquin Phoenix, e uma direção que valoriza estas interpretações, este é um filme de atores. E que ironiza sobre alguns mestres e seus seguidores, e sobre a validade e eficácia de suas doutrinas. Esta produção segue a lógica de uma extensa sessão de psicanálise. Por isso, tem momentos angustiantes, de puro desabafo e de alguma chatice. A parte que pode render algum bocejo envolve os “exercícios” e “provações” que Quell passa sob a batuta de Dodd. Mas nada que torne a aventura insuportável. Até porque Paul Thomas Anderson sabe o momento de virar o disco. E faz isso sempre no momento certo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Difícil terminar de escrever este texto. Por uma razão bem simples: assisti a este filme, acredito, ainda em fevereiro. Após o Oscar. Na sequência, comecei a escrever este texto. Mas pela correria que tive no meu trabalho, salvei ele nos rascunhos e só voltei a completá-lo hoje. Final de abril, mais ou menos dois meses depois. Então ficou difícil de relembrar de todas as minhas impressões sobre o filme. Por isso, peço desculpas para vocês. Esta crítica ficou mais “fria” do que eu gostaria.

Muito se falou que The Master seria “livremente” inspirado na história de L. Ron Hubbard, o polêmico, admirado e criticado “mestre” da cientologia. Honestamente? Vejo muitos pontos em comum e acredito, francamente, que Paul Thomas Anderson quis dar uma cutucada na cientologia sim. Para os curiosos sobre este assunto, eis aqui um texto, em inglês, assinado por Marc Headley que faz uma comparação interessante entre o filme, Lancaster Dodd, L. Ron Hubbard e a cientologia.

Paul Thomas Anderson faz mais um belo trabalho aqui, mas não considero este o seu melhor filme. Ainda prefiro Magnolia e There Will Be Blood. Neste momento, o diretor está trabalhando em seu décimo sexto título, Inheret Vice, ambientado na Los Angeles dos anos 1960 e protagonizado, mais uma vez, por Joaquin Phoenix.

Para mim, e volto a repetir isto, este é o trabalho mais impressionante de Phoenix. Ele domina e carrega o filme. E olha que ele tem, ao seu lado, o ótimo Philip Seymour Hoffmann e a sempre competente Amy Adams. Ainda assim, eles ficam eclipsados por Phoenix.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Jesse Plemons como Val Dodd, filho do Mestre; Ambyr Childers como Elizabeth, a filha de Dodd; Rami Malek como o marido dela, Clark, que acaba desafiando o protagonista em diversos momentos; e Laura Dern como Helen Sullivan, uma das “crentes” da doutrina de Dodd.

Da parte técnica do filme, vale comentar sobre a trilha sonora fundamental, e algumas vezes irritante, de Jonny Greenwood; e a direção de fotografia de Mihai Malaimare Jr., que valoriza a luz, algumas vezes parece “superexposta” e, consequentemente, nos ajuda a nos transportar para os Estados Unidos do período pós-Segunda Guerra Mundial.

Este foi o primeiro filme de Anderson sem o diretor de fotografia Robert Elswit – que tinha se comprometido a filmar The Bourne Legacy.

E uma curiosidade sobre The Master: ele tem uma forte influência estilística do documentário Let There Be Light, de John Huston, lançado em 1946.

A cena em que Freddie retira etanol de um torpedo para “envenenar” uma de suas bebidas foi baseada em fatos reais contados por Jason Robards para o diretor.

Na cena da destruição da cela na prisão, Phoenix realmente quebra o vaso sanitário. Ele fez isso no improviso. Outra sequência de improviso é aquela que abre o filme, com Freddie falando na praia.

The Master foi indicado a três Oscar‘s, mas não levou nenhuma estatueta para casa. Mesmo saindo de mãos vazias da premiação máxima de Hollywood, ele foi bem reconhecido em outras partes. No total, até o momento, ele recebeu 60 prêmios, a maioria deles entregue por associações de críticos. Preciso destacar, entre este total, os prêmios de melhor Diretor e melhores Atores para Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no Festival de Veneza.

Esta produção recebeu a nota 7,2 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 189 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota é muito boa, levando em conta a média do site.

Meus bons leitores/seguidores deste site, peço desculpas pela ausência desde o último Oscar. Mas é que vivi meses complicados, de muito trabalho fora do blog. Mas prometo que a partir desta semana eu voltarei a publicar com mais frequência, combinado? Obrigada a quem seguiu visitando este espaço e para quem fez comentários por aqui no período.

Em breve, começo a cumprir a promessa da última enquete neste site. A maioria de vocês pediu para que eu comece a falar de filmes nacionais. Muito bem, vou começar a fazer isto. Amanhã, vou assistir ao filme Somos Tão Jovens, um belo recomeço para as críticas de filmes nacionais aqui no blog. Sou convidada do Cinemark do Floripa Shopping. E na sequência, falo tudo sobre esta produção, que certamente vai mexer comigo – depois conto as razões -, para vocês. Inté breve!

CONCLUSÃO: Paul Thomas Anderson é um diretor diferenciado. E isso é o que eu mais gosto nele. Anderson fez um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Magnolia. E em todas as suas produções, ele apresenta esta forma de fazer cinema que não se parece com a de nenhum outro diretor de sua geração. The Master é mais um filme potente de sua filmografia, que flerta com questões importantes para a psicologia, mas que vai além. Trata de seitas, religiões e da ciência – cada uma com muitas aspas. Aborda os desejos reprimidos, a parte racional e animal de cada indivíduo e, principalmente, a nossa necessidade de acreditar e seguir certas ideias e pessoas. Um filme tão interessante que, certamente, pode render horas de debates. Por tratar de certas datas e locais, The Master foi apontado como uma produção que trata da cientologia e de seu fundador. De fato, há muitas semelhanças entre o roteiro e a história real, o que alimenta, ainda mais, os debates e a polêmica. Um filme perturbador, em vários sentidos, mas muito bom.

OSCAR 2013: The Master foi indicado a três estatuetas do Oscar deste ano. E não levou nenhuma. O que não é surpreendente, porque este não é um filme fácil para Hollywood.

As indicações foram para três atores. Algo justo, porque esta é uma produção que destaca o trabalho do ator. Assim, Joaquin Phoenix foi indicado como Melhor Ator; Philip Seymour Hoffman foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante; e Amy Adams foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.

De fato, acho que Christoph Waltz e Anne Hathaway tiveram interpretações mais impactantes em seus respectivos filmes do que os sempre competentes Hoffman e Adams. Agora, Phoenix… ele está tão entregue a seu papel e faz uma interpretação tão impactante e alucinante, que ouso dizer que ele merecia mais a estatueta que Daniel Day-Lewis.

Claro que ninguém duvida que Day-Lewis merecia ser o primeiro ator a receber três estatuetas pela categoria principal para homens do Oscar. Mas, desta vez, Phoenix fez um trabalho superior. Mas para quem acompanha a Academia, faz parte também saber que ela é política, e gosta de criar os seus mitos. Day-Lewis foi alçado a esta posição. Com méritos.