First Man – O Primeiro Homem

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O ser humano é capaz de feitos incríveis. Quase inacreditáveis. Uma história marcante sobre o potencial da Humanidade em surpreender e superar todas as perspectivas é contada com esmero em First Man. Por que o filme é brilhante? Além da parte técnica, perfeita, First Man mergulha sem pudores na vida real de um herói dos Estados Unidos – e, por que não dizer, da humanidade? – sem que este mergulho seja carregado de maquiagem. Não, muito pelo contrário. Vemos como nunca, até então, o quanto foi dura a conquista do espaço e o preço alto que muitos pagaram por isso. Simplesmente incrível.

A HISTÓRIA: Um voo turbulento. Tudo sacode, tudo treme, o horizonte não parece seguro. Dentro da cabine da aeronave, o piloto Neil Armstrong (Ryan Gosling) procura manter a calma mesmo frente a um cenário complicado. A nave acaba subindo, até 140 mil pés, e depois começa a descer. O voo é angustiante, mas o avião sobe até “ricochetear” na atmosfera.

Lá em cima, Armstrong tem uma visão fantástica, algo restrito a poucos. Inicialmente, ele não parece ter controle da aeronave, mas depois ele consegue esse controle e começa a descer. Esta é a história de Neil e de um feito incrível da humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Man): Eu não vou mentir para vocês. Fiquei extasiada ao assistir a First Man. De verdade, o filme me tocou, me envolveu e me deixou um bocado de tempo impactada. Assisti ele há algumas semanas, no cinema, e após desovar a outra crítica, finalmente chego a First Man.

Certamente vocês, como eu, já assistiram a diversos filmes “baseados em uma história real”. Existem muitos exemplos por aí. Uns melhores que outros. Não é fácil fazer um filme do estilo, claro. Muitos caem na armadilha do “filme-homenagem”, ou seja, naquela produção que acaba elogiando mais os personagens reais do que realmente procurando contar a história com a complexidade que qualquer  história real apresenta.

Porque a gente pode até tentar fazer tudo da maneira simples e tentar simplificar a problemática da vida, mas muitas vezes o que acontece em diferentes etapas da nossa trajetória não é tão simples quanto a gente gostaria. A vida é complicada, algumas vezes. Então por que muitos filmes baseados em histórias reais procuram simplificar ao máximo essas histórias?

First Man não faz isso. E talvez essa seja a base de toda a qualidade que o filme apresenta. Porque, como digo e gosto de repetir, um filme para ser bom, realmente bom, deve ter um ótimo roteiro. Encontramos exatamente isso no trabalho de Josh Singer, baseado no livro de James R. Hansen. First Man não é apenas envolvente e bem construído em sua narrativa, mas ele mergulha em um personagem central para mostrar a sua complexidade e sutilezas.

Ao redor desse personagem principal, que é como se fosse o sol em uma constelação, temos a vários personagens “satélites” que ajudam a explicar o protagonista. O sistema todo se mantêm em equilíbrio e trabalha em conjunto de uma forma muito precisa e interessante. Mas não é apenas o roteiro que explica o impacto e a força de First Man. Outro elemento fundamental, e acredito que um verdadeiro diferencial deste filme, seja a direção do talentoso Damien Chazelle.

O jovem diretor de 33 anos – ele terá 34 quando o Oscar 2019 for anunciado -, que anteriormente já nos mostrou o seu talento em Whiplash (comentado por aqui) e La La Land (com crítica neste link), apresenta em seu terceiro longa como diretor um passo à mais em direção ao seu amadurecimento enquanto realizador. Para mim, First Man é o seu melhor filme até o momento.

Não é nada simples mostrar toda a angústia, o desafio e o risco que pilotos de aeronaves e, depois, astronautas como Neil Armstrong na muito longínqua década de 1960. A direção de Chazelle mergulha naquela época e em cada detalhe da vida de Armstrong e das demais pessoas envolvidas diretamente na corrida espacial norte-americana. O resultado disso é que o espectador se sente literalmente imerso naquele realidade para vivenciar um dos grandes momentos da humanidade.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma quedinha gigantesca – e aí está uma antítese irônica – pelo poder de superação da raça humana. Não apenas por termos nos adaptado por tanto tempo, como espécie, e seguirmos fazendo isso, mas para nos aventurarmos por searas que nem mesmo os homens de ficção poderiam imaginar há mais de um século.

Dentro da história do nosso universo e mesmo da Terra, somos a espécie com menos “importância” em termos de longevidade. Mas de tempos em tempos alguns homens e mulheres buscam superar a nossa condição humana e nos levar para novas fronteiras do conhecimento e do saber. First Man conta uma destas histórias, com uma franqueza de roteiro e uma potência de direção que não é muito comum de encontrarmos no cinema de Hollywood.

Esse meu “fraco” pelas histórias de superação e pela capacidade humana de chegar a lugares pouco antes considerados impossíveis me fez cair como um patinho nessa história. Levada pelas mãos por uma competente e envolvente direção de Chazelle, me emocionei e fiquei realmente impactada com a história de Armstrong, de sua família e de seus colegas. De todas aquelas pessoas que se sacrificaram tanto para que a humanidade chegasse aonde ela nunca tinha chegado até então.

Além dos elementos já comentados, algo incrível nesse filme é como ele resgata com perfeição os anos 1960. Em cada detalhe, desde as casas e ruas comuns da época até os bastidores da Nasa. Impressionante vislumbrar como os americanos estavam distantes do sonho de chegar à lua mas, apesar de todos os prognósticos contra, eles avançaram arriscando pessoas e recursos para ganhar a queda de braço com os russos. Uma história realmente impressionante e que merecia ser contada.

Agora, além de tudo isso, precisamos falar sobre a humanidade que está neste filme, além da narrativa científica fascinante. Como comentei antes, um dos grandes méritos de First Man é que ele não se preocupa em homenagear as pessoas, simplesmente. Armstrong é mostrado da forma mais crua possível. Ele era um sujeito sério, quieto, preocupado com o seu “dever” e, ao mesmo tempo, angustiado com a perda da filha Karen (Lucy Stafford).

Apesar de ter uma história fascinante e de ser muito talentoso, Armstrong era um sujeito que não conseguia, exatamente, lidar com tudo que estava acontecendo. Ele tinha muita pressão no trabalho e, em casa, se cobrava sozinho pela morte da filha – ou, se ele não se cobrava, tinha dificuldade de aceitar.

Então ele amava a esposa, Janet, magistralmente interpretada por Claire Foy, e conseguia dar atenção para os dois filhos, Rick (interpretado por Gavin Warren e por Luke Winters) e Mark (Connor Blodgett), mas ele nem sempre conseguia fazer tudo isso ao mesmo tempo. Então ele era um profissional super competente e um sujeito esforçado em casa, mas não era perfeito. Como ninguém é, na verdade. First Man apresentar isso com tanta franqueza é algo realmente precioso.

Enfim, o que mais eu posso dizer para vocês? Apenas que esse filme me conquistou do início ao fim. Por sua técnica apurada; pela direção mais que competente de Chazelle; pelo roteiro sensível, envolvente e bastante humano de Singer; pelo ótimo trabalho de Gosling e Foy, em interpretações envolventes e muito convincentes; enfim, pelo conjunto da obra do filme.

Além de tudo isso, First Man passa, a meu ver, mensagens realmente poderosas e importantes. Primeiro, que a humanidade é sim capaz de feitos incríveis. Mas por mais que o homem chegue à lugares inacreditáveis e veja cenas estonteantes, como a que vemos nesse filme quando Armstrong e Buzz Aldrin (Corey Stoll) pisam na Lua – como não ficar completamente extasiada(o) com aquelas cenas? -, e por mais que estas conquistas sejam importantes para o indivíduo e para o coletivo, o que importa, no final, é o que nos une e o que não termina. Sim, o amor.

Para mim, esta foi a mensagem mais forte de First Man. E o que fez eu realmente amar esse filme. A vida é feita de muitos sacrifícios. Alguns conseguem fazer feitos incríveis para a humanidade, como Armstrong e Aldrin. Outros, conseguem realizar pequenos grandes feitos sobre os quais ninguém nunca vai ouvir falar. Mas, no final das contas, o que importa é honrar e homenagear quem a gente ama. E voltar para casa, ah, como isso é incrível! Sentir que você tem um lugar para retornar. Estas são algumas de várias reflexões e sentimentos que esta pequena joia rara nos apresenta.

Se para você estes valores que eu citei antes são importantes, se você se interessa por grandes momentos da nossa história e por pessoas “simples” mas geniais que tornaram eles possíveis, simplesmente não perca esse filme. Ele vale pela técnica e pelo sentimento. Pelo cuidado que apresenta em cada detalhe. Para mim, um dos grandes filmes do ano – e, possivelmente, dos últimos anos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não tinha nascido quando o homem foi à lua. Vi as imagens depois, é claro, assim como soube das teorias da conspiração e da descrença de muitas pessoas sobre o que aconteceu. Algo que eu acho incrível em First Man é que o filme mostra toda a precariedade daqueles anos, assim como a coragem e a inovação que foram necessárias para que a Nasa saísse de uma corrida espacial em posição de desvantagem e conseguisse passar à frente dos russos.

A história é contada sempre pelos vitoriosos, é claro. Mas com o passar do tempo e através de trabalhos como First Man a gente consegue ter uma visão menos idealizada dos fatos. Vemos os “heróis” como eles são, feitos de carne e osso, de sonhos e de frustrações. Tão bom encontrar pela frente um filme que verdadeiramente procurou nos remeter aos anos 1960 e àquela aventura que nos levou para o espaço. Uma reconstituição perfeita e fascinante. Algo que só o cinema é capaz de fazer.

Apenas por mostrar o desafio da Nasa de explorar o espaço e chegar à lua, uma forma de ultrapassar os “inimigos” russos, First Man já vale o ingresso. Mas o filme não é só isso. Acima de tudo, First Man é um filme muito humano. Primeiro, ao mostrar o cotidiano de “heróis” como Neil Armstrong, assim como as suas famílias.

Depois, por demonstrar como pessoas geniais, mas suscetíveis como qualquer outra a morrer em um acidente aéreo ou no espaço, podem ser capazes de vislumbrar algo tão magnífico como o espaço e pousar na lua. Ainda que eu e você nunca vamos fazer isso, mas pensar que outros como nós já fizeram e ver as imagens de First Man já nos bastam. É a humanidade mostrando que pode liderar feitos incríveis, se assim o desejar.

A direção impecável de Damien Chazelle é um dos principais trunfos de First Man. Ele coloca o espectador sempre em primeiro plano, para que sintamos tudo que o protagonista sente. Algo impressionante, especialmente nas cenas das missões nas quais ele participa. Consequentemente, outros aspectos fundamentais desse filme são a direção de fotografia de Linus Sandgren e os efeitos especiais e os efeitos visuais realizados por dezenas de profissionais. Visualmente, o filme é inesquecível.

Outros aspectos técnicos que merecem aplauso são a Direção de Arte, feita por dezenas de profissionais; a Edição e a Mixagem de Som, também de responsabilidade de dezenas de profissionais; a edição brilhante de Tom Cross; o design de produção de Nathan Crowley; a direção de arte de Rory Bruen, Chris Giammalvo, Justin O’Neal Miller, Benjamin Nowicki, Erik Osusky, Eric Sundahl e Thomas Valentine; os figurinos de Mary Zophres; a decoração de set de Randi Hokett e Kathy Lucas; e a trilha sonora de Justin Hurwitz.

Do elenco, os principais elogios vão para Ryan Gosling, que faz um trabalho bastante sóbrio, coerente e com alguns toques emotivos ao interpretar Neil Armstrong; e para Claire Foy como a esposa de Armstrong, Janet. Eu não acompanhei muito a atriz até o momento, mas ouvi sempre falar muito bem dela. Percebi o porquê ao vê-la nesse filme. Ela realmente está ótima, assim como Gosling – um dos grandes atores da sua geração. Os dois estão perfeitos, sem tirar ou por.

Além de Gosling e de Foy, merecem ser mencionados, pelo trabalho competente que apresentam, Jason Clarke como Ed White; Kyle Chandler como Deke Slayton; Corey Stoll em quase uma ponta como Buzz Aldrin – ele aparece menos que White e Slayton; Patrick Fugit como Elliott See; Christopher Abbott como Dave Scott; e Ciarán Hinds como Bob Gilruth. Todos “homens da Nasa”.

Também está bem, em um papel secundário, Olivia Hamilton como Pat White, esposa de Ed White. Além deles, vale citar o trabalho dos atores mirins, que interpretam aos filhos do casal Neil e Janet Armstrong: Gavin Warren e Luke Winters, nas duas versões de Rick Armstrong; Connor Blodgett como Mark Armstrong e Lucy Stafford como Karen Armstrong.

First Man estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de outros oito festivais de cinema. Nesta trajetória, e até o momento, First Man recebeu três prêmios e foi indicado a outros dois.

Os prêmios que First Man recebeu foram: Melhor Diretor do Ano para Damien Chazelle, Melhor Compositor do Ano para Justin Hurwitz e Melhor Editor do Ano para Tom Cross, todos conferidos pelo Hollywood Film Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Algumas das vozes que ouvimos no filme são gravações reais do programa espacial norte-americano. Por exemplo, quando a Apollo 11 aterrissa na lua, a resposta de Houston é a original. Ouvimos, naquele momento, a voz do astronauta Charles Duke, que foi o responsável pela comunicação com a Apollo 11 durante o pouso.

Para esta produção, Chazelle fez questão de treinar os atores na Nasa e de enviar para eles vídeos que estão no YouTube com cada pessoa que eles iriam personificar. Com isso, ele esperava que cada ator reproduzisse o jeito de falar e os “tiques” de linguagem de seus personagens. Ele também indicou uma série de livros e de filmes que eles deveriam assistir.

A famosa frase de Armstrong ao pisar na lua é objeto de controvérsias. O que ouvimos no filme é o que foi possível ouvir na Terra no áudio da Nasa: “Esse é um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Mais tarde, Armstrong disse que queria ter dito “Esse é um pequeno passo para um homem”, e que ele achava que tinha dito isso, de fato, mas nunca foi possível extrair isso da gravação daquele momento. Então o filme reproduz o que foi documentado.

A intenção de Chazelle com First Man foi “abordar a história como um thriller, fazendo o público sentir os perigos enfrentados pela equipe de astronautas”. Ele, de fato, conseguiu esse intento. Com louvores.

Ryan Gosling sofreu uma lesão durante uma das várias cenas que ele filmou em uma nave espacial. Chegando em casa, e após reclamar de forma “bizarra” e exagerada sobre ladrões de donuts, a companheira do ator, Eva Mendes, sugeriu que ele procurasse um hospital. Foi aí que eles descobriram que ele tinha sofrido uma concussão. Um perigo.

Os filhos de Neil Armstrong, Mark e Eric, disseram que First Man faz o retrato mais preciso possível dos pais deles, Neil e Janet.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 305 textos positivos e 41 negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 8,1. Para mim, chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – bastante alta para o padrão do site. O site Metacritic apresenta o “metascore” 84 para First Man, assim como o selo “Metacritic Must-see”. O metascore para o filme é fruto de 54 críticas positivas e de duas críticas medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, First Man teria custado US$ 59 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 42 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 45 milhões. Ou seja, no total, o filme faturou cerca de US$ 87 milhões. Ele mal está se pagando, portanto. Uma pena, porque eu acho que ele merecia mais.

Pensando já no Oscar 2019 – iniciei esta “corrida” pela premiação com a crítica de A Star Is Born, que vocês podem acessar por aqui, mas logo vou me “debruçar” nos candidatos da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, acredito que First Man pode emplacar diversas indicações.

Por baixo, penso que ele pode emplacar em até 10 categorias. Não em surpreenderia se ele fosse indicado a Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Filme. Sim, ele pode chegar a tudo isso, da mesma forma com que pode ser indicado a um número bem menor ou praticamente ser esnobado pela Academia. Veremos, logo mais.

Sobre as chances dele ganhar um ou mais destes prêmios, prefiro esperar para ver quem são os concorrentes dele para depois opinar.

First Man é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Para conseguir feitos incríveis, é preciso uma dose considerável de sacrifício. Mas o que se conquista não é pensando em uma pessoa, mas em todos que vieram antes e em todos que já se foram. First Man é um dos filmes focados em uma história real mais interessantes que eu já vi. Especialmente porque ele foge do estilo “homenagem” e apresenta os personagens de forma bastante franca e direta.

A humanidade chegou muito longe, e a cada ano vai conquistando novas fronteiras do saber e se superando. First Man nos mostra o caminho árduo e pouco narrado de uma destas trajetórias. Com ótimo roteiro, interpretações inspiradas e uma direção incrível, é uma destas produções que deveria ser vista por todos. Para mim, um dos melhores filmes do ano e forte candidato ao Oscar 2019.

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The Post – The Post: A Guerra Secreta

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Ah, o jornalismo! O jornalismo de verdade, aquele que procura informar a sociedade sobre questões relevantes. O jornalismo que é capaz de mudar o curso da História quando conta o que os poderosos – e outros que nem são tão poderosos, mas acreditam ser – querem esconder. The Post nos conta uma história das boas sobre o papel do jornalismo no curso da História de um país.

Esse jornalismo, infelizmente, anda cada vez mais raro, muito também porque as pessoas deixaram de o financiar – e não existe jornalismo sem pessoas que paguem por ele. Um filme importante para os dias de hoje, mas que apenas mostra tudo o que estamos perdendo, e cada vez mais, com o fim do bom jornalismo.

A HISTÓRIA: Começa na Província de Hau Nghia, no Vietnã, em 1966. Barulho de helicópteros, soldados colocando capacetes e preparando armas, e em meio àquele cenário, Dan Ellsberg (Matthew Rhys) também recebe a sua arma. Um soldado pergunta quem ele é, e outro responde que ele trabalha para Lansdale na embaixada e que ele está ali apenas observando. Ele se prepara como os demais e avança com o pelotão.

À noite, eles são atacados, e muitos morrem ou são feridos. Ellsberg escreve o seu relatório a respeito. Na volta, ele fala para o secretário de Estado Robert McNamara (Bruce Greenwood) que as coisas não estão melhores ou piores no Vietnã. Estão iguais. McNamara fica inconformado com isso, mas quando fala com a imprensa, ele mente. Ellsberg decide fazer algo a esse respeito.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Post): Sim, essa história é importante. Sim, é sempre válido contar boas histórias no cinema, até para que as novas gerações as conheçam. The Post conta um dos belos capítulos da história do jornalismo americano e mundial. Quando alguns jornais enfrentaram o interesse do governo de Richard Nixon de continuar abafando as mentiras envolvendo o Vietnã.

The Post é importante especialmente agora, quando alguns discursos muito equivocados nos Estados Unidos, no Brasil e em outras partes querem justificar mentiras e meia verdades contadas por administrações pública. Não existe “segurança nacional” ou a justificativa que for para que um governo minta para os seu povo. Afinal, os governantes estão lá para governar para todos e não para mentir e enganar a opinião pública.

Também é especialmente relevante essa história voltar a ganhar o holofote em um filme de Hollywood nessa época da nossa História em que, parece, cada vez menos pessoas estão interessadas em gastar dinheiro com o jornalismo. Conforme os hábitos das pessoas estão migrando para serviços de streaming e para um consumo limitado ao que se compartilha nas redes sociais – sendo uma parte considerável dessa informação enganosa e não checada por profissionais preparados para isso, como é o caso do jornalismo -, vale nos questionarmos sobre o que irá acontecer com as sociedades sem o bom e velho jornalismo.

Eu sei a resposta para isso. E ela não é nada boa. Há 21 anos eu escolhi essa profissão. Fiz o curso de Jornalismo e logo comecei a trabalhar na área. Hoje, sem vontade de ir para os grandes centros do Brasil – São Paulo ou Rio de Janeiro -, eu vejo cada vez menos oportunidades para os profissionais da minha área fazerem o que eles tanto quiseram. Ou seja, jornalismo. Anunciantes e leitores estão cada vez menos dispostos a investir no jornalismo de qualidade, e o que vemos são os jornais “se vendendo” para qualquer um que lhes ajude a manter as rotativas em funcionamento.

Onde eu moro, existem jornais que são capazes de demitir um jornalista ético e competente porque ele desagradou a um grande anunciante com uma matéria 100% correta que feriu os interesses dessa companhia. Nesse cenário, não existe jornalismo de qualidade, apenas enganação para leitores desavisados. Atualmente, percebo que poucos jornais resistem às pressões do mercado e dos anunciantes e realmente fazem o seu dever de casa.

Em The Post, os jornais foram ameaçados simplesmente pela administração central do país. E o que você faz diante disso? Jogos de poderes existiam na época e existem hoje em dia. Os jornalistas e empresas de jornalismo de verdade não perdem o foco de seus papéis e enfrentam o interesse que for – econômico ou político – para cumprir esse papel. Por isso, para uma jornalista como eu, é especialmente emocionante assistir a um filme como esse. Um bom exemplo de história de quando o jornalismo realmente foi corajoso e cumpriu o seu papel.

Depois de fazer estes comentários, alguns bastante pessoais, vou analisar o filme propriamente dito. O roteiro de Liz Hannah e de Josh Singer é bem escrito e equilibra elementos históricos com algumas “pílulas” narrativas bem planejadas para tornar um filme aparentemente “chato” e “burocrático” em uma história com um bocado de tensão, altos e baixos e suspense. A narrativa é clássica e linear, além de bastante direta.

Partimos do momento em que o personagem de Ellsberg decide tomar a sua atitude corajosa de fazer cópias ilegais de documentos sigilosos, após ele fazer uma incursão e ver o caos no Vietnã in loco em 1966, para outro momento decisivo dessa história, quando o jornal The Washington Post está lutando para sobreviver enquanto o concorrente The New York Times começa a publicar reportagens devastadoras sobre como diversas administrações americanas mentiram sobre a Guerra do Vietnã.

Assim, grande parte da narrativa dessa produção se passa em Washington, em 1971. Essa eu achei a parte mais interessante do filme, na verdade. Os bastidores de um grande jornal. Hannah e Singer se debruçam, especialmente, sobre dois personagens: Kay Graham (Meryl Streep), herdeira do jornal familiar e desafiada por todos os lados por estar nessa posição no The Washington Post, e Ben Bradlee (Tom Hanks), o diretor de redação do jornal.

Como eu conhecia a história sobre a batalha dos jornais contra Nixon antes mesmo do escândalo de Watergate, o centro dessa história não me surpreendeu. O que eu realmente achei interessante e importante de ser contado foram os bastidores da notícia. Tanto a guerra que existe entre os grandes jornais, essa concorrência saudável que às vezes inclui uma certa “espionagem” dos melhores repórteres e coberturas exclusivas, quanto e principalmente a relação às vezes próxima demais de alguns jornalistas e donos de jornais com o poder.

Esses pontos realmente são interessantes nesse filme e importantes de serem debatidos nas faculdades de jornalismo. Afinal, qual deve ser a postura mais ética dos jornalistas e dos donos de jornais em relação aos anunciantes, patrocinadores e os donos do poder? O quanto determinadas “proximidades” e “amizades” podem ser aceitas e o quanto elas podem significar miopia na cobertura da imprensa e, consequentemente, a perda de sentido do trabalho jornalístico?

Eu conheci várias pessoas que achavam normal amizade com fontes diversas. Da minha parte, de quem nunca gostou de ter amizade nem com a chefia do jornal e nem com as fontes – justamente por questões éticas -, eu sempre me perguntava: e toda essa “amizade”, até que ponto ela é proveitosa para o leitor/consumidor da notícia? O quanto essas relações de proximidade limitam os jornalistas a fazer as perguntas incômodas, a ir atrás de uma fumaça que eles viram em algum momento de seu trabalho de eternos “fuçadores” de notícia?

Ao mesmo tempo que eu escrevo essas linhas, eu sei que a relação entre jornalista e fontes, especialmente as que estão nos governos, não pode ser sempre de confronto e de desconfiança. É preciso alguma trégua, algum “armistício”, até para que notícias positivas também sejam divulgadas.

Mas é um princípio do jornalista sempre desconfiar e sempre estar atento às denúncias e insatisfações da sociedade. Quando você está próximo(a) demais do poder, inclusive fascinado por ele, atrás de um furo ou de uma exclusiva, você não tem o distanciamento suficiente para enxergar isso. E The Post toca muito bem nesse ponto.

No fim das contas, Graham e Bradlee assumiram a postura correta no caso das mentiras de diversas administrações sobre o Vietnã. Mas e antes, ao serem próximos dos Kennedy, eles não falharam? Provavelmente sim. Mas o importante, nesse filme e na vida real, é que aprendamos com os nossos erros. E, preferencialmente, com os erros dos outros também. The Post mostra como é possível evoluir e fazer a coisa certa apesar de todos os riscos que isso envolve.

O roteiro de The Post mostra muito bem os riscos que Graham, em especial, estava correndo com toda aquela história das denúncias envolvendo diversas administrações dos Estados Unidos. Endividado, o jornal poderia perder a oferta dos banqueiros que queriam investir na publicação quando ela resolveu abrir o capital. Ou seja, ela aderir à série de denúncias poderia prejudicar definitivamente o futuro da publicação.

Mas Graham viu que isso era o certo a se fazer – e, claro, não sejamos inocentes, ao publicar aquelas notícias o The Washington Post estava se credenciando como um dos grandes jornais do país. Ou seja, se desse errado a busca de recursos através dos banqueiros, o jornal poderia conseguir isso ao ganhar uma projeção nacional e o prestígio que a publicação não tinha até aquele momento.

Essas são as partes interessantes do filme e que valem algumas horas de debates sobre a realidade dos jornais e dos jornalistas nos cursos mundo afora. Agora, depois de comentar sobre as partes interessantes do filme, devo dizer que The Post me incomodou um pouquinho por seu tom “rocambolesco”. Por que eu digo isso? Porque The Post dá uma exagerada na história e tenta transformar a narrativa em uma produção ao estilo “espionagem” para prender a atenção dos espectadores. Mas podemos sentir o “cheiro” de que houve um pouco de exagero aqui e ali.

E realmente houve. Para começo de história, o filme sugere, mas depois faz questão de esquecer, o papel de protagonista naquela denúncia do The New York Times. Eles foram os primeiros a denunciar e o jornal que foi processado na Justiça pelo governo – o The Washington Post apenas seguiu no encalço do rival. Então por que, afinal de contas, essa produção não é sobre o jornal que protagonizou toda aquela denúncia? Bem, alguns elementos ajudam a explicar isso.

Primeiro, vivemos uma interessante – e mais do que justa – fase de histórias e filmes que enaltecem o protagonismo feminino. No caso do NYT, não tínhamos uma Kay Graham para mostrar o posicionamento de uma mulher forte, inteligente e independente no caso. Depois, o jornal dela realmente teria uma relevância grande logo a seguir: o protagonismo no caso das denúncias do caso Watergate – no qual os papéis se inverteriam, e o NYT teria que correr atrás do que o The Washington Post começou a fazer.

Enfim, esse filme peca um pouco pela previsibilidade, para quem, como eu, já conhecia a história, e peca um pouco pelo “exagero” em tornar o The Washington Post o protagonista do escândalo envolvendo os papéis do Pentágono. Mas, no geral, o filme é bem conduzido e bem narrado. E o grande destaque dele são os grandes atores em cena, especialmente a gigante Meryl Streep, que nos apresenta uma Kay Graham muito interessante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, o grande nome desse filme é o de Meryl Streep. Mais uma vez ela consegue se destacar. Tom Hanks também está bem, mas ela impressiona pelos detalhes da interpretação e por mergulhar tão bem na personagem. Além deles, Steven Spielberg faz um bom trabalho na direção, procurando sempre ampliar a visão do espectador em planos mais abertos quando possível. É como se ele estivesse sempre nos lembrando da necessidade de olhar os quadros de maneira mais ampla. Mas achei que tanto Hanks quanto Spielberg fazem um trabalho competente, mas também dentro do esperado. Nada além. Meryl Streep consegue fazer uma entrega um pouco acima da média.

Enquanto eu assistia a esse filme, eu lembrei muito de “ligações perigosas”. Assim mesmo, em letras minúsculas. Ou seja, não me lembrei do filme propriamente dito, mas dessa expressão que ajuda a explicar um bocado das relações entre jornalistas e as suas fontes. Os profissionais tem que ter atenção constante sobre o seu trabalho e buscarem sempre o caminho ético para não se perderem em algumas relações que podem descambar, às vezes, para o lado da promiscuidade. The Post mostra muito bem isso, especialmente na relação de Kay Graham com Robert McNamara e de Ben Bradlee e da esposa Tony Bradlee (Sarah Paulson) com os Kennedy.

Esse filme está cheio de atores interessantes em papéis menores. Temos alguns coadjuvantes muito bons em cenas, mas em papéis pouco desenvolvidos pelo roteiro de Liz Hannah e Josh Singer. Vale citar alguns desses nomes, pela ordem de importância no filme e de bom trabalho em cena: Bob Odenkirk como Ben Bagdikian, o repórter do The Washington Post que consegue localizar Ellsberg e conseguir com eles a papelada que o jornal tanto precisava; Tracy Letts como Fritz Beebe, braço direito de Graham; Bradley Whitford como Arthur Parsons, integrante do conselho do Post e que vive questionando a liderança de Graham; Bruce Greenwood como o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara; Matthew Rhys como Daniel Ellsberg, o “garganta profunda” desse caso; Alison Brie em uma super ponta como Lally Graham, filha de Kay; Jesse Plemons como Roger Clark, advogado que representa o The Washington Post; Carrie Con como Meg Greenfield, jornalista que faz parte da equipe que analisou a papelada do Pentágono; David Cross bem disfarçado como Howard Simons, editor do jornal que fez parte daquela força-tarefa; John Rue como Gene Patterson, outro editor que fez parte do grupo; Philip Casnoff como Chalmers Roberts, idem; Pat Healy como Phil Geyelin, idem.

O que chama a atenção dessa lista acima? Que fora alguns personagens, vários que eu citei vocês nem conseguiram identificar assistindo ao filme, não é mesmo? Esse eu achei um problema de The Post. O filme se preocupou em colocar todos os personagens em cena, até para os fãs que iriam procurar os nomes dos personagens reais que fizeram história, mas durante o desenrolar da produção os roteiristas não tiveram a preocupação de realmente apresentar e desenvolver aqueles personagens. O que eu acho um ponto falho.

Além dos atores citados, há vários outros que aparecem em cena. Muitos de interesse histórico, mas ainda menos desenvolvidos pelos roteiristas.

Entre os diferentes aspectos que compõem essa produção, fora a interpretação precisa e muito bem feita dos protagonistas, vale destacar o competente trabalho do diretor Steven Spielberg. Ele mostra a forma com que domina o seu ofício nos detalhes. Isso fica especialmente evidente na sequência em que Graham e Bradlee discutem com Beebe e Parsons, cada um em um telefone, sobre se o jornal vai embarcar na história dos papéis do Pentágono ou não. A forma com que aquela sequência foi filmada, planejada e editada é uma pequena aula de cinema.

Fazer um grande trabalho na direção em um filme de ação pode projetar um diretor, mas fazer um belo trabalho em um filme “intelectualizado” e pouco movimentado como esse, é só para quem conhece realmente o ofício. Tornar um filme como The Post atraente para os grandes públicos não é algo simples, mas Spielberg consegue isso utilizando todos os artifícios de planos e dinâmicas de câmera possíveis. Um belo trabalho, sem dúvida.

Falando nos aspectos técnicos de The Post, vale citar o belo trabalho do veterano John Williams na trilha sonora – ainda que, para o meu gosto, ele exagera na dose em alguns momentos; de Janusz Kaminski na direção de fotografia – ele utiliza uma fotografia um bocado escura, quase um preto e branco, parece que para marcar o realismo da história; a edição precisa e muito competente de Sarah Broshar e Michael Kahn; o design de produção de Rick Carter; a direção de arte de Kim Jennings e de Deborah Jensen; a decoração de set de Rena DeAngelo; e os figurinos precisos de outra veterana, Ann Roth.

Essa produção abre uma frente interessante de pesquisa sobre aquela época e alguns daqueles personagens. Andei lendo alguns textos a respeito, e deixo alguns aqui para vocês conferirem. Gostei, por exemplo, da ponderação de Helio Gurovitz sobre o filme e publicada no G1. Sobre a Katherine Graham real, vale dar uma conferida no material sobre ela na Wikipédia. E sobre a Guerra do Vietnã, gostei dessa matéria do site BBC Brasil, que tem algumas curiosidades do conflito, e dessa outra do site História do Mundo que dá uma boa resumida no conflito que durou impressionantes 16 anos.

The Post estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 22 de dezembro de 2017. Depois, no dia 4 de janeiro de 2018, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Esse foi o único festival em que o filme participou até o momento. No Brasil, o filme estreou no dia 1º de fevereiro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como o filme sugere, em todas as cenas em que o ex-presidente Richard Nixon aparece de costas na Casa Branca, a voz que ouvimos é realmente do ex-presidente americano. Achei um detalhe interessante e bacana do filme terem escolhido trechos de conversas dele.

Nas cenas em que os documentos do Pentágono aparecem no filme, realmente foram utilizadas as páginas originais – ou seja, os documentos que, de fato, resultaram no escândalo no governo Nixon e que foram copiadas por Daniel Ellsberg.

The Post é dedicado para Nora Ephron, que foi casada com Carl Bernstein, jornalista do The Washington Post que, com Bob Woodward, descobriu o escândalo de Watergate – aquele mesmo que derrubaria Nixon.

Sem nunca ter trabalhado antes com Spielberg, Meryl Streep ficou surpresa ao saber que o diretor não ensaiava as cenas com os seus atores. Tom Hanks sabia disso, mas não contou nada para a atriz para não “assustá-la”. Apesar de surpresa com essa forma de trabalhar de Spielberg, Meryl Streep trabalho nesse ritmo e surpreendeu o diretor, que volta e meia elogiava a forma com que a atriz tinha se transformado na personagem.

Benjamin C. Bradlee e a esposa dele, Sally Quinn, foram vizinhos de Steven Spielberg em Long Island por muitos anos. Mas eles só se conheceram socialmente.

Falando nas relações pessoais entre os realizadores desse filme e os personagens retratados, Tom Hanks chegou a conhecer Bradlee e também Kay Graham – ela, na véspera de sua morte.

Steven Spielberg tinha pressa em lançar The Post, como uma espécie de resposta a onda de “notícias falsas” nos Estados Unidos. Entre o momento em que o roteiro foi concluído e o filme foi lançado, passaram-se apenas nove meses. As filmagens ocorreram entre maio e julho de 2017, e The Post foi finalizado por Spielberg em duas semanas – ele nunca finalizou um filme tão rápido. Tudo para que The Post estreasse logo que possível.

Spielberg exibiu The Post para os filhos de Katherine Graham, Lally Weymouth e Donald Graham, e para a viúva de Bradlee, Sally Quinn. Todos aprovaram a produção.

Esse é o terceiro filme com roteiro de Josh Singer que explora a importância do jornalismo. Os anteriores foram The Fifth Estate e Spotlight.

O Prêmio Pulitzer de Jornalismo de 1972 sobre os escândalos dos papéis do Pentágono foi dado apenas para o The New York Times – isso ajuda amostrar como The Post “exagera” um bocado sobre a participação do The Washington Post naquele capítulo.

The Post termina praticamente no ponto em que o clássico All The President’s Men começa. Por isso, para alguns, The Post pode ser considerado um “prequel” do outro filme – afinal, um termina com o vigia descobrindo os assaltantes no prédio Watergate, mesmo ponto em que o outro começa.

Até o momento, The Post ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 79 – incluindo a indicação em duas categorias do Oscar 2018. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e Melhor Atriz para Meryl Streep no prêmio do National Board of Review. Também vale citar o prêmio de Melhor Filme e o Gary Murray Award de melhor elenco dados pela North Texas Film Critics Association.

The Post é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e que pediam por filmes dos Estados Unidos.

Essa produção, que teria custado US$ 50 milhões, faturou US$ 63,5 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 24,7 milhões nos outros países em que estreou. No acumulado, ele faturou pouco mais de US$ 88,2 milhões – ou seja, ainda falta um pouquinho para começar a registrar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 261 textos positivos e 35 negativos para a produção, o que garante para The Post uma aprovação de 88% e uma nota média 8. A nota no Rotten Tomatoes, em especial, chama a atenção, porque está acima da média.

CONCLUSÃO: Essa história não é, exatamente, nova. Quem acompanha a história do jornalismo mundial e conhece alguns de seus principais capítulos, não será surpreendido por The Post. Mesmo assim, esse filme vale por reunir um grande elenco para contar um dos grandes episódios do bom jornalismo americano. Quem dera que mais histórias como essa pudessem ser contadas no futuro. Com uma boa narrativa e com atores mais que competentes em papéis-chave, The Post faz um resgate histórico importante, especialmente nos dias de hoje, em que a imprensa anda cada vez mais atacada por todos os lados.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente? Gostei desse filme, mas eu não acho que ele se aproxima da qualidade do vencedor do Oscar Spotlight (comentado por aqui), um filme melhor conduzido e com menos exageros narrativos. Em resumo, a exemplo de Darkest Hour (com crítica neste link), eu considero um exagero The Post ter sido indicado a Melhor Filme no Oscar 2018. Para mim, os dois filmes não tem qualidade para chegarem a tal posição.

No lugar deles, por exemplo, eu colocaria I, Tonya (comentado aqui) ou mesmo The Florida Project (com crítica neste link), filmes mais corajosos e “inovadores” na narrativa. Mais criativos. Mas, certamente, The Post e Darkest Hour tiveram boas campanhas e um bom lobby para chegarem a suas indicações na categoria principal do Oscar 2018.

Mas quais são as chances de The Post no Oscar, afinal de contas? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Filme e Melhor Atriz para Meryl Streep. A atriz, recordista em indicados no Oscar, mereceu mais essa chance de ganhar uma estatueta. Ela é o grande nome desta produção – que tem outros grandes nomes envolvidos no projeto, como Steven Spielberg e Tom Hanks. Meryl consegue, mais uma vez, roubar a cena.

Apesar disso, ela não tem chances de levar a estatueta nesse ano. A favoritíssima para levar o Oscar para casa é a atriz Frances McDormand, a estrela de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado aqui). A única pessoa que pode estragar a festa de McDormand é a atriz Sally Hawkins, de The Shape of Water. Mas se eu fosse apostar em alguém, seria em McDormand.

The Post tem chances remotas – para não dizer zero – de vencer como Melhor Filme. Vejo que, antes dele, estão na frente dessa disputa Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; The Shape of Water e Dunkirk, nessa ordem. Ou seja, com duas indicações importantes no Oscar, The Post tem grandes chances de sair da premiação de mãos vazias. Não será injusto, especialmente quando estamos buscando por filmes excelentes e/ou acima da média nessa premiação.