First Man – O Primeiro Homem

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O ser humano é capaz de feitos incríveis. Quase inacreditáveis. Uma história marcante sobre o potencial da Humanidade em surpreender e superar todas as perspectivas é contada com esmero em First Man. Por que o filme é brilhante? Além da parte técnica, perfeita, First Man mergulha sem pudores na vida real de um herói dos Estados Unidos – e, por que não dizer, da humanidade? – sem que este mergulho seja carregado de maquiagem. Não, muito pelo contrário. Vemos como nunca, até então, o quanto foi dura a conquista do espaço e o preço alto que muitos pagaram por isso. Simplesmente incrível.

A HISTÓRIA: Um voo turbulento. Tudo sacode, tudo treme, o horizonte não parece seguro. Dentro da cabine da aeronave, o piloto Neil Armstrong (Ryan Gosling) procura manter a calma mesmo frente a um cenário complicado. A nave acaba subindo, até 140 mil pés, e depois começa a descer. O voo é angustiante, mas o avião sobe até “ricochetear” na atmosfera.

Lá em cima, Armstrong tem uma visão fantástica, algo restrito a poucos. Inicialmente, ele não parece ter controle da aeronave, mas depois ele consegue esse controle e começa a descer. Esta é a história de Neil e de um feito incrível da humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First Man): Eu não vou mentir para vocês. Fiquei extasiada ao assistir a First Man. De verdade, o filme me tocou, me envolveu e me deixou um bocado de tempo impactada. Assisti ele há algumas semanas, no cinema, e após desovar a outra crítica, finalmente chego a First Man.

Certamente vocês, como eu, já assistiram a diversos filmes “baseados em uma história real”. Existem muitos exemplos por aí. Uns melhores que outros. Não é fácil fazer um filme do estilo, claro. Muitos caem na armadilha do “filme-homenagem”, ou seja, naquela produção que acaba elogiando mais os personagens reais do que realmente procurando contar a história com a complexidade que qualquer  história real apresenta.

Porque a gente pode até tentar fazer tudo da maneira simples e tentar simplificar a problemática da vida, mas muitas vezes o que acontece em diferentes etapas da nossa trajetória não é tão simples quanto a gente gostaria. A vida é complicada, algumas vezes. Então por que muitos filmes baseados em histórias reais procuram simplificar ao máximo essas histórias?

First Man não faz isso. E talvez essa seja a base de toda a qualidade que o filme apresenta. Porque, como digo e gosto de repetir, um filme para ser bom, realmente bom, deve ter um ótimo roteiro. Encontramos exatamente isso no trabalho de Josh Singer, baseado no livro de James R. Hansen. First Man não é apenas envolvente e bem construído em sua narrativa, mas ele mergulha em um personagem central para mostrar a sua complexidade e sutilezas.

Ao redor desse personagem principal, que é como se fosse o sol em uma constelação, temos a vários personagens “satélites” que ajudam a explicar o protagonista. O sistema todo se mantêm em equilíbrio e trabalha em conjunto de uma forma muito precisa e interessante. Mas não é apenas o roteiro que explica o impacto e a força de First Man. Outro elemento fundamental, e acredito que um verdadeiro diferencial deste filme, seja a direção do talentoso Damien Chazelle.

O jovem diretor de 33 anos – ele terá 34 quando o Oscar 2019 for anunciado -, que anteriormente já nos mostrou o seu talento em Whiplash (comentado por aqui) e La La Land (com crítica neste link), apresenta em seu terceiro longa como diretor um passo à mais em direção ao seu amadurecimento enquanto realizador. Para mim, First Man é o seu melhor filme até o momento.

Não é nada simples mostrar toda a angústia, o desafio e o risco que pilotos de aeronaves e, depois, astronautas como Neil Armstrong na muito longínqua década de 1960. A direção de Chazelle mergulha naquela época e em cada detalhe da vida de Armstrong e das demais pessoas envolvidas diretamente na corrida espacial norte-americana. O resultado disso é que o espectador se sente literalmente imerso naquele realidade para vivenciar um dos grandes momentos da humanidade.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma quedinha gigantesca – e aí está uma antítese irônica – pelo poder de superação da raça humana. Não apenas por termos nos adaptado por tanto tempo, como espécie, e seguirmos fazendo isso, mas para nos aventurarmos por searas que nem mesmo os homens de ficção poderiam imaginar há mais de um século.

Dentro da história do nosso universo e mesmo da Terra, somos a espécie com menos “importância” em termos de longevidade. Mas de tempos em tempos alguns homens e mulheres buscam superar a nossa condição humana e nos levar para novas fronteiras do conhecimento e do saber. First Man conta uma destas histórias, com uma franqueza de roteiro e uma potência de direção que não é muito comum de encontrarmos no cinema de Hollywood.

Esse meu “fraco” pelas histórias de superação e pela capacidade humana de chegar a lugares pouco antes considerados impossíveis me fez cair como um patinho nessa história. Levada pelas mãos por uma competente e envolvente direção de Chazelle, me emocionei e fiquei realmente impactada com a história de Armstrong, de sua família e de seus colegas. De todas aquelas pessoas que se sacrificaram tanto para que a humanidade chegasse aonde ela nunca tinha chegado até então.

Além dos elementos já comentados, algo incrível nesse filme é como ele resgata com perfeição os anos 1960. Em cada detalhe, desde as casas e ruas comuns da época até os bastidores da Nasa. Impressionante vislumbrar como os americanos estavam distantes do sonho de chegar à lua mas, apesar de todos os prognósticos contra, eles avançaram arriscando pessoas e recursos para ganhar a queda de braço com os russos. Uma história realmente impressionante e que merecia ser contada.

Agora, além de tudo isso, precisamos falar sobre a humanidade que está neste filme, além da narrativa científica fascinante. Como comentei antes, um dos grandes méritos de First Man é que ele não se preocupa em homenagear as pessoas, simplesmente. Armstrong é mostrado da forma mais crua possível. Ele era um sujeito sério, quieto, preocupado com o seu “dever” e, ao mesmo tempo, angustiado com a perda da filha Karen (Lucy Stafford).

Apesar de ter uma história fascinante e de ser muito talentoso, Armstrong era um sujeito que não conseguia, exatamente, lidar com tudo que estava acontecendo. Ele tinha muita pressão no trabalho e, em casa, se cobrava sozinho pela morte da filha – ou, se ele não se cobrava, tinha dificuldade de aceitar.

Então ele amava a esposa, Janet, magistralmente interpretada por Claire Foy, e conseguia dar atenção para os dois filhos, Rick (interpretado por Gavin Warren e por Luke Winters) e Mark (Connor Blodgett), mas ele nem sempre conseguia fazer tudo isso ao mesmo tempo. Então ele era um profissional super competente e um sujeito esforçado em casa, mas não era perfeito. Como ninguém é, na verdade. First Man apresentar isso com tanta franqueza é algo realmente precioso.

Enfim, o que mais eu posso dizer para vocês? Apenas que esse filme me conquistou do início ao fim. Por sua técnica apurada; pela direção mais que competente de Chazelle; pelo roteiro sensível, envolvente e bastante humano de Singer; pelo ótimo trabalho de Gosling e Foy, em interpretações envolventes e muito convincentes; enfim, pelo conjunto da obra do filme.

Além de tudo isso, First Man passa, a meu ver, mensagens realmente poderosas e importantes. Primeiro, que a humanidade é sim capaz de feitos incríveis. Mas por mais que o homem chegue à lugares inacreditáveis e veja cenas estonteantes, como a que vemos nesse filme quando Armstrong e Buzz Aldrin (Corey Stoll) pisam na Lua – como não ficar completamente extasiada(o) com aquelas cenas? -, e por mais que estas conquistas sejam importantes para o indivíduo e para o coletivo, o que importa, no final, é o que nos une e o que não termina. Sim, o amor.

Para mim, esta foi a mensagem mais forte de First Man. E o que fez eu realmente amar esse filme. A vida é feita de muitos sacrifícios. Alguns conseguem fazer feitos incríveis para a humanidade, como Armstrong e Aldrin. Outros, conseguem realizar pequenos grandes feitos sobre os quais ninguém nunca vai ouvir falar. Mas, no final das contas, o que importa é honrar e homenagear quem a gente ama. E voltar para casa, ah, como isso é incrível! Sentir que você tem um lugar para retornar. Estas são algumas de várias reflexões e sentimentos que esta pequena joia rara nos apresenta.

Se para você estes valores que eu citei antes são importantes, se você se interessa por grandes momentos da nossa história e por pessoas “simples” mas geniais que tornaram eles possíveis, simplesmente não perca esse filme. Ele vale pela técnica e pelo sentimento. Pelo cuidado que apresenta em cada detalhe. Para mim, um dos grandes filmes do ano – e, possivelmente, dos últimos anos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não tinha nascido quando o homem foi à lua. Vi as imagens depois, é claro, assim como soube das teorias da conspiração e da descrença de muitas pessoas sobre o que aconteceu. Algo que eu acho incrível em First Man é que o filme mostra toda a precariedade daqueles anos, assim como a coragem e a inovação que foram necessárias para que a Nasa saísse de uma corrida espacial em posição de desvantagem e conseguisse passar à frente dos russos.

A história é contada sempre pelos vitoriosos, é claro. Mas com o passar do tempo e através de trabalhos como First Man a gente consegue ter uma visão menos idealizada dos fatos. Vemos os “heróis” como eles são, feitos de carne e osso, de sonhos e de frustrações. Tão bom encontrar pela frente um filme que verdadeiramente procurou nos remeter aos anos 1960 e àquela aventura que nos levou para o espaço. Uma reconstituição perfeita e fascinante. Algo que só o cinema é capaz de fazer.

Apenas por mostrar o desafio da Nasa de explorar o espaço e chegar à lua, uma forma de ultrapassar os “inimigos” russos, First Man já vale o ingresso. Mas o filme não é só isso. Acima de tudo, First Man é um filme muito humano. Primeiro, ao mostrar o cotidiano de “heróis” como Neil Armstrong, assim como as suas famílias.

Depois, por demonstrar como pessoas geniais, mas suscetíveis como qualquer outra a morrer em um acidente aéreo ou no espaço, podem ser capazes de vislumbrar algo tão magnífico como o espaço e pousar na lua. Ainda que eu e você nunca vamos fazer isso, mas pensar que outros como nós já fizeram e ver as imagens de First Man já nos bastam. É a humanidade mostrando que pode liderar feitos incríveis, se assim o desejar.

A direção impecável de Damien Chazelle é um dos principais trunfos de First Man. Ele coloca o espectador sempre em primeiro plano, para que sintamos tudo que o protagonista sente. Algo impressionante, especialmente nas cenas das missões nas quais ele participa. Consequentemente, outros aspectos fundamentais desse filme são a direção de fotografia de Linus Sandgren e os efeitos especiais e os efeitos visuais realizados por dezenas de profissionais. Visualmente, o filme é inesquecível.

Outros aspectos técnicos que merecem aplauso são a Direção de Arte, feita por dezenas de profissionais; a Edição e a Mixagem de Som, também de responsabilidade de dezenas de profissionais; a edição brilhante de Tom Cross; o design de produção de Nathan Crowley; a direção de arte de Rory Bruen, Chris Giammalvo, Justin O’Neal Miller, Benjamin Nowicki, Erik Osusky, Eric Sundahl e Thomas Valentine; os figurinos de Mary Zophres; a decoração de set de Randi Hokett e Kathy Lucas; e a trilha sonora de Justin Hurwitz.

Do elenco, os principais elogios vão para Ryan Gosling, que faz um trabalho bastante sóbrio, coerente e com alguns toques emotivos ao interpretar Neil Armstrong; e para Claire Foy como a esposa de Armstrong, Janet. Eu não acompanhei muito a atriz até o momento, mas ouvi sempre falar muito bem dela. Percebi o porquê ao vê-la nesse filme. Ela realmente está ótima, assim como Gosling – um dos grandes atores da sua geração. Os dois estão perfeitos, sem tirar ou por.

Além de Gosling e de Foy, merecem ser mencionados, pelo trabalho competente que apresentam, Jason Clarke como Ed White; Kyle Chandler como Deke Slayton; Corey Stoll em quase uma ponta como Buzz Aldrin – ele aparece menos que White e Slayton; Patrick Fugit como Elliott See; Christopher Abbott como Dave Scott; e Ciarán Hinds como Bob Gilruth. Todos “homens da Nasa”.

Também está bem, em um papel secundário, Olivia Hamilton como Pat White, esposa de Ed White. Além deles, vale citar o trabalho dos atores mirins, que interpretam aos filhos do casal Neil e Janet Armstrong: Gavin Warren e Luke Winters, nas duas versões de Rick Armstrong; Connor Blodgett como Mark Armstrong e Lucy Stafford como Karen Armstrong.

First Man estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de outros oito festivais de cinema. Nesta trajetória, e até o momento, First Man recebeu três prêmios e foi indicado a outros dois.

Os prêmios que First Man recebeu foram: Melhor Diretor do Ano para Damien Chazelle, Melhor Compositor do Ano para Justin Hurwitz e Melhor Editor do Ano para Tom Cross, todos conferidos pelo Hollywood Film Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Algumas das vozes que ouvimos no filme são gravações reais do programa espacial norte-americano. Por exemplo, quando a Apollo 11 aterrissa na lua, a resposta de Houston é a original. Ouvimos, naquele momento, a voz do astronauta Charles Duke, que foi o responsável pela comunicação com a Apollo 11 durante o pouso.

Para esta produção, Chazelle fez questão de treinar os atores na Nasa e de enviar para eles vídeos que estão no YouTube com cada pessoa que eles iriam personificar. Com isso, ele esperava que cada ator reproduzisse o jeito de falar e os “tiques” de linguagem de seus personagens. Ele também indicou uma série de livros e de filmes que eles deveriam assistir.

A famosa frase de Armstrong ao pisar na lua é objeto de controvérsias. O que ouvimos no filme é o que foi possível ouvir na Terra no áudio da Nasa: “Esse é um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Mais tarde, Armstrong disse que queria ter dito “Esse é um pequeno passo para um homem”, e que ele achava que tinha dito isso, de fato, mas nunca foi possível extrair isso da gravação daquele momento. Então o filme reproduz o que foi documentado.

A intenção de Chazelle com First Man foi “abordar a história como um thriller, fazendo o público sentir os perigos enfrentados pela equipe de astronautas”. Ele, de fato, conseguiu esse intento. Com louvores.

Ryan Gosling sofreu uma lesão durante uma das várias cenas que ele filmou em uma nave espacial. Chegando em casa, e após reclamar de forma “bizarra” e exagerada sobre ladrões de donuts, a companheira do ator, Eva Mendes, sugeriu que ele procurasse um hospital. Foi aí que eles descobriram que ele tinha sofrido uma concussão. Um perigo.

Os filhos de Neil Armstrong, Mark e Eric, disseram que First Man faz o retrato mais preciso possível dos pais deles, Neil e Janet.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 305 textos positivos e 41 negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 8,1. Para mim, chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – bastante alta para o padrão do site. O site Metacritic apresenta o “metascore” 84 para First Man, assim como o selo “Metacritic Must-see”. O metascore para o filme é fruto de 54 críticas positivas e de duas críticas medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, First Man teria custado US$ 59 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 42 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 45 milhões. Ou seja, no total, o filme faturou cerca de US$ 87 milhões. Ele mal está se pagando, portanto. Uma pena, porque eu acho que ele merecia mais.

Pensando já no Oscar 2019 – iniciei esta “corrida” pela premiação com a crítica de A Star Is Born, que vocês podem acessar por aqui, mas logo vou me “debruçar” nos candidatos da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira -, acredito que First Man pode emplacar diversas indicações.

Por baixo, penso que ele pode emplacar em até 10 categorias. Não em surpreenderia se ele fosse indicado a Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Design de Produção, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Filme. Sim, ele pode chegar a tudo isso, da mesma forma com que pode ser indicado a um número bem menor ou praticamente ser esnobado pela Academia. Veremos, logo mais.

Sobre as chances dele ganhar um ou mais destes prêmios, prefiro esperar para ver quem são os concorrentes dele para depois opinar.

First Man é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Para conseguir feitos incríveis, é preciso uma dose considerável de sacrifício. Mas o que se conquista não é pensando em uma pessoa, mas em todos que vieram antes e em todos que já se foram. First Man é um dos filmes focados em uma história real mais interessantes que eu já vi. Especialmente porque ele foge do estilo “homenagem” e apresenta os personagens de forma bastante franca e direta.

A humanidade chegou muito longe, e a cada ano vai conquistando novas fronteiras do saber e se superando. First Man nos mostra o caminho árduo e pouco narrado de uma destas trajetórias. Com ótimo roteiro, interpretações inspiradas e uma direção incrível, é uma destas produções que deveria ser vista por todos. Para mim, um dos melhores filmes do ano e forte candidato ao Oscar 2019.

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La La Land – La La Land: Cantando Estações

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Hollywood ama a “fábrica de sonhos” chamada Hollywood. O cinema também ama ser cinema. Neste contexto de autorreferência, de certa nostalgia e de homenagem ao jazz é que surge La La Land, um filme perfeito para Hollywood (se) premiar. Assisti à produção no cinema, em uma das sessões de pré-estreia, e foi algo divertido. O filme é envolvente e muito bem feito. Mas é o melhor filme do ano? Para o meu gosto, não.

A HISTÓRIA: Começa com uma fila gigantesca de veículos parados no trânsito de Los Angeles. Cada veículo tem uma ou duas pessoas e cada automóvel é um pequeno mundo envolto em uma música diferente. Em um destes veículos, Sebastian (Ryan Gosling) ouve repetidas vezes a uma composição no piano. No carro da frente, Mia (Emma Stone) tenta lembrar as linhas que ela precisará falar logo mais em uma nova audição. O filme começa no Inverno.

De repente, Sebastian buzina indignado porque Mia não avançou na fila. Os dois trocam xingamentos e olhares irados, mas seguem no trânsito. Na cafeteria dentro dos estúdios Warner em que trabalha, Mia fica fascinada por uma das estrelas do estúdio, mas logo é lembrada pelo celular sobre o horário da audição. Ela vai para lá, mas não dá certo. Ainda assim, ela não desiste de seu sonho de ser atriz, e em breve vai conhecer Sebastian que também sonha, mas em ter um bar de jazz.

VOLTANDO PARA A CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La La Land): Vou ser sincera com vocês. Eu espera muito mais de La La Land. Seja pela coleção de prêmios que ele já ostenta e por ser o favoritíssimo para o Oscar, seja pelo filme anterior que eu vi do roteirista e diretor Damien Chazelle.

O início, os primeiros minutos de La La Land, para mim já foram um tanto frustrantes. Afinal, tudo que você não espera em pleno 2017 é ver um filme “clássico” do estilo musical. Não. Você espera um filme que renove o gênero, que introduza novas ideias. E aí, logo nos primeiros minutos de La La Land, somos apresentados para uma sequência óbvia e requintada de pessoas paradas no trânsito e que resolvem sair de seus carros para cantar e fazer uma coreografia “moderna” e que mostra diversidade da Los Angeles atual. Sério? Sério mesmo? Pensei isso quando assisti à cena.

Mas daí eu pensei: “Calma, tem muito para acontecer no filme ainda. Ele pode te surpreender”. Com uma certa ironia aqui e ali e, claro, demonstrando o seu grande talento estético e de ritmo, Chazelle apresenta um filme que tem diversos acertos e que tem a assinatura do realizador. Ainda assim e apesar da exuberância, das cenas lindas e das coreografias que nos fazem lembrar dos grandes, gigantes Ginger Rogers e Fred Astaire (se você não assistiu a nenhum filme deles, vá atrás agora mesmo!), La La Land parece uma grande homenagem ao cinema e ponto.

Há um compêndio de referências de Hollywood neste filme e, principalmente, a mensagem que vale sempre correr atrás de seus sonhos. Ok, a mensagem é bacana, mas não é nada inovadora. E mesmo a forma de seguir esta linha de raciocínio não é nova. Temos grandes momentos, o filme é lindo e nos remete a grandes episódios do que já foi Hollywood, mas como a própria protagonista fala, em determinado momento, ele me parece um tanto saudosista demais.

Entendo as razões que fizeram a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood dar todos os prêmios possíveis no Globo de Ouro para La La Land. Afinal, além da mensagem de “nunca desista dos seus sonhos”, qual é o grande tema desta produção? Hollywood e a sua fábrica de sonhos. O filme mostra toda a “fauna” que gira em torno dos estúdios de cinema de Los Angeles, todas as pessoas que pensam em um dia viver da arte e o que elas fazem para chegar lá.

Em uma época em que um presidente como Donald Trump está assumindo a presidência dos Estados Unidos e em que muitos artistas e imigrantes (muitos artistas são de fora do país) se sentem “ressabiados” ou com medo do que ele poderá fazer no cargo, La La Land lembra a todos sobre a importância/necessidade da “fábrica dos sonhos” de Hollywood. Além disso, e basta ver o histórico das premiações de cinema nos Estados Unidos, o cinema adora premiar a si mesmo.

Quanto a isso não há problemas, é algo legítimo. Mas em anos anteriores filmes do mesmo gênero que La La Land, como Moulin Rouge e The Artist (comentado neste link), renovaram os musicais cada um a sua maneira. The Artista, em especial, que também fazia uma homenagem escancarada para a “fábrica de sonhos” do cinema, foi ainda mais ousado que La La Land por resgatar um tipo de filme ainda mais esquecido, o do cinema mudo.

Com tudo isso eu não quero dizer que La La Land não seja divertido, que não faça a plateia rir ou se envolver. Não, ele consegue tudo isso. Há sequências realmente lindas e sacadas idem. Ryan Gosling faz um bom trabalho, mas é Emma Stone quem surpreende. A atriz é o melhor do filme, junto com algumas sequências belíssimas da produção.

Emma Stone tem em La La Land o filme da sua vida até aqui. Ela está linda, comovente e, principalmente, esbanja muito carisma. Mais que Gosling, que mantém o seu padrão de bom intérprete, mas que já fez filmes melhores. Além da sintonia entre os dois, o filme acerta no ritmo e no visual, além da edição que já virou marca registrada de Chazelle.

O roteiro… bem, o roteiro! Ele foi escrito para as pessoas que adoram uma boa história água-com-açúcar. Mas não surpreende em momento algum. A divisão da histórias em estações não é nada nova. A linha temporal de “garota conhece rapaz, os dois antipatizam no início mas depois se apaixonam” não poderia ser mais lugar-comum.

Assim como é bastante previsível o “perrengue” que os dois passam por boa parte da produção, a insistência de ambos, uma certa desistência dela e, finalmente, o sucesso para aqueles que persistiram. Até o desfecho para o casal não é mais surpreendente, após tantos filmes em que o “mocinho e a mocinha” não terminaram juntos. Enfim, absolutamente nada de novo no roteiro de Chazelle. Claro, há uma ou outra boa sacada aqui e ali, mas isso não deveria garantir o Oscar para ninguém. É pouco.

Ainda assim, é preciso uma justificativa para a nota abaixo. Afinal, ela não é baixa. Acho que Chazelle se sai bem, por um bom período do filme, em revisitar uma série de lugares-comum de forma envolvente. Com uma boa dinâmica de câmera e de edição, ele prende a atenção dos espectadores com uma história simples, deixando o trabalho mais difícil para os intérpretes que, claro, conseguem ter uma bela sintonia.

Além de tudo que eu já comentei, talvez a parte realmente interessante de La La Land é como o filme mostra a diferença entre a vida de sonhos e a vida real. Lá pelas tantas as cobranças e as palavras duras aparecem entre os protagonistas, e eles não sabem lidar muito bem com elas. Para mim, em termos de roteiro, o melhor momento da produção é quando Mia fica desiludida com a estreia de sua peça e decide voltar por um tempo, ao menos, para a casa dos pais.

Como ela mesma reflete, nem todo mundo dá certo. E talvez eu tivesse gostado mais de La La Land se ao menos um dos dois tivesse seguido um caminho que não fosse o do sonho. Afinal, esta é a realidade. Ok, o grande público vai para o cinema para ver o sonho. E por isso, talvez, La La Land tenha dado tão certo. O filme apresenta o que o público quer, sem fazer nada ousado no caminho.

Quando a produção confronta sonho com realidade, ela ganha pontos e chega a esboçar um final interessante. Depois, na sequência durante o piano no Seb’s ele volta a ousar ao mostrar um final que não seria previsível e que até poderia ser inovador. Mas no fim das contas, sempre, Chazelle acaba optando pelo óbvio e pelo que o grande público vai entender e gostar. Com isso ele está papando todos os prêmios. Bacana para ele. Mas não necessariamente para o cinema e a sua evolução.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho que dizer. Emma Stone rouba a cena. A atriz está maravilhosa em seu papel. Relembra à todas as grandes atrizes do cinema no auge de Hollywood. Dos filmes que eu assisti com ela, La La Land é o seu melhor trabalho. Ryan Gosling é lindo e gostamos de tudo que ele faz, mas acho que aqui ele está charmoso e serve de um bom par para Emma Stone, mas nada além disso. Gostei mais dele em Drive (comentado por aqui), por exemplo.

Mesmo que o filme tenha ficado aquém do que eu esperava, algo tenho que admitir: há sequências realmente incríveis na produção. Gostei, em especial, das coreografias e das cenas dos protagonistas dançando no morro após a festa em que eles se reencontram e ela pede a música I Ran; da dança no Griffith Observatory, quando bailam em um “céu de estrelas”; claro, da bela cena em que os dois atores cantam a principal música da produção, “City of Stars”; e, finalmente, gostei da sequência de “outro final” que sai da imaginação de Sebastian (ou dos dois).

A homenagem mais clara e escancarada é para o cinema e a própria Hollywood. Mas Chazelle também deixa muito clara a sua homenagem para a música, especialmente o jazz. A exemplo do que ele já tinha feito no seu filme anterior, o interessante Whiplash.

Um acerto do filme, assim como de outras produções recentes, é de apostar as fichas em poucos personagens. A história de La La Land gira em torno de Mia e de Sebastian, e isso é bom, especialmente porque se trata de uma “história de amor”. Mas há outros atores ótimos que fazem papéis menores – alguns, praticamente pontas. Me chamou a atenção, em especial, a fina ironia do papel de J.K. Simmons como Bill, o dono do restaurante que obrigada Sebastian a tocar apenas músicas natalinas – nada mais contrastante e irônico com o papel dele em Whiplash.

Além dele, há outros atores que merecem ser citados: Rosemarie DeWitt como Laura, irmão de Sebastian; Callie Hernandes como Tracy, Jessica Rothe como Alexis e Sonoya Mizuno como Caitlin, as três amigas com quem Mia divide um apartamento na parte inicial da produção; Claudine Claudio como Karen, chefe de Mia na cafeteria; Olivia Hamilton em uma super ponta como Bree, a mulher que não quer comer glúten; Finn Wittrock como Greg, o namorado de Mia na parte inicial do filme; John Legend em um papel até com certa relevância como Keith, amigo de Sebastian e que “abre a cabeça” dele sobre o “novo” jazz; e, claro, Tom Everett Scott como David, a “surpresa” no final da produção.

Tecnicamente falando, La La Land é muito, muito bem feito. Mas a história, convenhamos, é meio “bobinha”. Ou simplificada ao máximo para agradar ao grande público. Para mim, ficou faltando. Da parte técnica do filme, contudo, inevitável elogiar o excelente trabalho do diretor de fotografia Linus Sandgren, do editor Tom Cross e da trilha sonora de Justin Hurwitz. São, sem dúvida, os pontos altos da produção, assim como Emma Stone.

Outros aspectos que merecem elogios: o design de produção de David Wasco; a direção de arte de Austin Gorg; a decoração de set de Sandy Reynolds-Wasco; os figurinos de Mary Zophres; o departamento de maquiagem com 15 profissionais afiados; os 29 profissionais envolvidos com o departamento de arte; e, claro, os 64 profissionais envolvidos no departamento musical, um elemento fundamental para a produção.

La La Land estreou no Festival de Cinema de Veneza no final de agosto de 2016. Depois, o filme passou por outros 19 festivais e eventos. Um caminho interessante para um filme tão comercial e de Hollywood. Nesta trajetória o filme ganhou impressionantes 132 prêmios e foi indicado a outros 183. Entre os prêmios que recebeu estão sete Globos de Ouro.

Como a produção mesmo sugere, La La Land foi totalmente rodado na Califórnia, especialmente em Los Angeles, em locais como o Santa Monica Blvd (bar Seb’s), EstWest Studios, Magnolia Blvd (local do “Van Beek Tapas and Tunes”), nos estúdios da Warner Bros., no Beverly Boulevard (quando Mia deixa os amigos no restaurante e sai andando pela rua), no Rialto Theatre (que faz as vezes de cinema Rialto), no Hermosa Beach Pier (na praia Hermosa, quando Sebastian começa a cantar “City of Stars” sozinho ainda), Griffith Observatory e Watts Towers – pontos turísticos de Los Angeles, entre outros pontos da cidade que abriga os estúdios de cinema de Hollywood.

Em certo momento do filme, Sebastian pergunta quem é o “Bogart” de Mia, em uma clara alusão ao filme Casablanca – veja se ainda não assistiu. Ora, a própria história de La La Land, que deixa no ar algo do gênero “sempre teremos Paris”, mas sem que eles tenham tido, faz uma clara alusão ao filme com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

Além disso, claro, La La Land tem muitas e muitas referências a outros filmes, sendo as mais evidentes as alusões à Singin’ in the Rain, The Bad Wagon, Top Hat, An American in Paris, The Umbrellas of Cherbourg, Swing Time, The Young Girls of Rochefort, e a homenagem com direito a trecho e tudo de Rebel Without a Cause. Com isso, o filme acaba sendo ainda mais nostálgico, porque faz as pessoas que já assistiram aos clássicos a ter ainda mais saudade deles. 😉

La La Land é um filme que não custou muito, especialmente se levarmos em conta a complexidade dos detalhes da produção. O filme teria custado cerca de US$ 30 milhões. Apenas nos Estados Unidos ele fez quase US$ 63,7 milhões e, nos outros países em que já estreou, outros US$ 34,7 milhões. No total, até agora, fez cerca de US$ 98,4 milhões. Com toda a visibilidade do Globo de Ouro e, logo mais, das indicações ao Oscar, certamente este filme vai obter um belo lucro.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Outra Emma, a Watson, recusou o papel de Mia por causa dos conflitos de agenda que La La Land acabou tendo com Beaty and the Beast, dirigido por Bill Condon. Por sua vez, Ryan Gosling recusou o papel de Beast no filme de Condon porque preferiu o filme de Chazelle. Está claro quem acertou na escolha, não?

Segundo o compositor Justin Hurwitz, todas as músicas tocadas no piano no filme foram gravadas primeiramente pelo pianista Randy Kerber na fase de pré-produção de La La Land e, depois, o ator Ryan Gosling passou duas horas por dia, durante seis dias de cada semana, tendo aulas de piano para saber as músicas de cor. Quando as filmagens começaram, Gosling foi capaz de tocar todas as músicas sem que fosse necessário usar um “dublê” de mãos ou efeitos especiais intercalando com um pianista.

Uma das cenas de audição em que o diretor de elenco interrompe o desempenho de Mia para atender a um telefonema é inspirado em um dos testes que Ryan Gosling fez em sua carreira.

John Legend, que é cantor e pianista, teve que aprender a tocar guitarra para fazer o seu papel em La La Land.

Inicialmente, Miles Teller, estrela de Whiplash, foi cotado para fazer o papel de Sebastian. Mas, depois, ele acabou sendo substituído por Ryan Gosling.

La La Land foi rodado ao longo de oito semanas durante o Verão de 2015.

Esta produção teria uma forte ligação com a vida real de Emma Stone, porque a exemplo da personagem de Mia, Emma Stone também deixou a escola e se mudou para Los Angeles aos 15 anos de idade para tentar a carreira de atriz.

Emma Stone dá um show não apenas de interpretação, mas também cantando. E ela cantou “ao vivo” no filme, quando Chazelle começou a gravar a cena em que ela interpreta a canção “Audition (The Fools Who Dream)”, perto do filme. Que é linda, aliás. O diretor e o compositor Justin Hurwitz decidiram que ela iria escolher o momento em que ela pararia de falar os seus diálogos e começar a cantar e, por isso, não fizeram uma gravação prévia da música. Foi feito na hora.

Como comentei antes, La La Land levou nada menos que sete prêmios no Globo de Ouro 2017. É um recorde para a premiação – nenhum filme levou tantos prêmios em uma única edição do prêmio – e significou algo impressionante como o filme ganhar nas sete categorias em que concorreu. Ele foi premiado como Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Ryan Gosling, Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Emma Stone, Melhor Diretor para Damien Chazelle, Melhor Roteiro para Damien Chazelle, Melhor Canção Original para “City of Stars” (composta por Justin Hurwitz, Benj Pasek e Justin Paul) e Melhor Trilha Sonora para Justin Hurwitz.

A produção venceu outros 125 prêmios além destes sete do Globo de Ouro. Desta lista imensa, destaque para os 19 prêmios que La La Land recebeu como Melhor Filme e que foram dados por associações de críticos, para 19 prêmios como Melhor Diretor para Damien Chazelle, para 19 prêmios como Melhor Fotografia, para sete prêmios como Melhor Edição e para 14 prêmios como Melhor Trilha Sonora. Além disso, Emma Stone ganhou seis prêmios como Melhor Atriz.

La La Land é o quarto filme no currículo do diretor Damien Chazelle. Antes ele fez Guy and Madeline on a Park Bench, sua estreia na direção em 2009; o curta Whiplash, em 2013, e o longa Whiplash, filme que deu visibilidade para ele, em 2014 (e que foi comentado por aqui). O próximo filme dirigido por ele e atualmente em fase de pré-produção é First Man, que será estrelado por Ryan Gosling e que contará a história do astronauta Neil Armstrong. Ou seja, tem grande potencial de ser outro sucesso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,8 para La La Land, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 258 críticas positivas e 20 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Para mim estas avaliações são sintomáticas. A nota alta no IMDb revela o gosto do grande público, enquanto o nível de aprovação dos críticos demonstra que sob uma análise mais criteriosa o filme não é tão brilhante assim.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Quando eu vi La La Land ganhando tudo no Globo de Ouro eu pensei: “É preciso ter coragem para fazer um musical hoje em dia”. E a expectativa era assistir ao filme no cinema e me deliciar com ele. De fato, é um filme divertido. Bem conduzido, bem feito, um espetáculo para os olhos. E só. Ele não inova o gênero, não surpreende, não é inesquecível.

Apenas para ficar nas comparações óbvias, ele é menos inovador que Mouling Rouge ou The Artist. Foi e será muito premiado não porque mereça, mas porque Hollywood precisa, neste momento mais do que nunca, se autoafirmar. Dá para entender, mas nem por isso o resultado é justo. Há filmes melhores nesta temporada. Boa parte deles não será premiada, e isso faz parte do jogo da indústria cinematográfica.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: La La Land tem tudo para ser o filme mais indicado deste ano na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e, possivelmente, sair da noite do Oscar como o filme mais premiado. Mas, ainda que ele tenha papado tudo no Globo de Ouro, é preciso lembrar que há algumas diferenças entre as duas premiações mais visíveis de Hollywood.

As grandes diferenças estão em dois pontos fundamentais: quem vota em cada uma destas premiações e o fato do Globo de Ouro dividir os principais prêmios entre Drama e Musical ou Comédia. O perfil de quem vota no Globo de Ouro costuma ser mais “liberal” do que os votantes da Academia, sem contar que as visões sobre o cinema nem sempre coincidem entre quem comenta sobre os filmes (a imprensa, o Globo de Ouro) e as pessoas que fazem a indústria acontecer (votantes da Academia).

Além disso, musicais e comédias que acabam sendo valorizados no Globo de Ouro podem ser praticamente esnobados no Oscar porque, fora a categoria Melhor Filme, que abriga até 10 indicados, nas demais categorias podem concorrer até cinco filmes. Nem sempre há comédias ou musicais com qualidades para chegar até lá.

Mas, claro, La La Land é uma outra história. Não apenas pelas premiações no Globo de Ouro, mas pelas demais premiações e pelo sucesso nos cinemas. Então, calculo por baixo, La La Land deve ser indicado a pelo menos 11 categorias, podendo chegar a 13. As que eu acho que ele deve disputar são: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção e Melhor Figurino. Se quiserem “arrasar com o filme”, podem ainda indica-lo a Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Destes prêmios, quais ele deve levar para casa? Me parece quase certo que o filme vai emplacar em Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original, tendo grandes chances também em Melhor Diretor, Melhor Edição e Melhor Atriz. Se ele for papando quase todos os prêmios, deve levar também Melhor Filme. Assim, teria, pelo menos, sete estatuetas.

Da minha parte, para o meu gosto, ele não merecia levar o prêmio principal. Preciso ainda assistir a Moonlight e Manchester by the Sea, além de outros fortes concorrentes. Mas, só por ter assistido a Fences (comentado por aqui), posso dizer que eu acho o filme estrelado por Denzel Washington e Viola Davis mais merecedor do Oscar de Melhor Filme. Certo que Fences não chega nem perto da exuberância visual de La La Land, mas acho as interpretações e o roteiro do filme melhor. Enfim, são gostos… Veremos qual será o da Academia neste ano.

PEQUENO AVISO: Meus caros leitores aqui do blog, eu vou seguir com as publicações normais até o Oscar 2017, para seguir uma tradição aqui do blog. Mas passada a premiação, se eu não tiver conseguido uma boa adesão na campanha de apoio ao blog, eu vou dedicar mais tempo para outras atividades que me deem retorno financeiro e vou tornar as atualizações aqui mais escassas ou bem mais sucintas. Se você quer ajudar o blog a continuar como ele está agora ou até a ampliar a frequência de publicações, sugiro o apoio a este projeto:

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Whiplash – Whiplash: Em Busca da Perfeição

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Ninguém vai ser bom, na atividade que for, se sempre for elogiado e adulado. Isso é fato. Alguém só consegue ser diferenciado se for cobrado, empurrado para ser melhor e, ele(a) próprio(a), preferencialmente, ser um(a) grande crítico(a) de si mesmo(a). Whiplash discorre sobre este tema, faz pensar sobre a educação caótica que temos no Brasil, mas também leva a lição ao extremo. Um filme delicioso tanto pela trilha sonora quanto pelo roteiro, mas que exagera um pouco em certa dose. Ainda assim, é ótimo de ser visto porque acerta no elenco e na narrativa, além de fazer pensar. Tudo o que desejamos em um bom filme.

A HISTÓRIA: Som de bateria. Cada vez mais forte e mais rápido. Quando o som para, vemos a Andrew (Miles Teller) no fundo de um corredor, sentado na frente de uma bateria. O resto é silêncio. Aluno de primeiro ano de uma das melhores escolas de música dos Estados Unidos, Andrew está treinando até tarde. Ele recomeça, e a câmera vai se aproximando. Ele está concentrado, por isso demora para perceber a aproximação do ídolo e professor mais admirado/temido da escola, Fletcher (J.K. Simmons). O garoto pede desculpa, mas Fletcher quer saber o seu nome. Ele se apresenta, e acaba tocando para Fletcher escutar. Ali apenas começa a relação conturbada dos dois.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Whiplash): Quem acompanha o blog há mais tempo sabe que sou louca por música. Minha outra paixão junto com o cinema. Bem, também sou louca por boas leituras. Mas replicando a frase de Nietzsche, “sem música a vida não faria sentido”. Já tive a sanidade preservada inúmeras vezes graças à música.

Dito isso, é uma satisfação encontrar pela frente um filme como Whiplash, porque esta produção dá o devido protagonismo para a música. Ainda que ela seja apenas uma desculpa para o argumento principal desta história: a importância de cobrar eficiência máxima de quem quer aprender ou se aperfeiçoar em algo. Ninguém é ou será grande se não for muito exigido. Isto é fato, e bem explorado nesta história envolvente com roteiro e direção de Damien Chazelle.

O realizador não perde tempo. Ele logo nos apresenta o som que vai embalar o filme, o protagonista e o alvo que ele quer agradar a qualquer preço. Não há tempo a perder. Afinal, precisamos entrar fundo nas ambições de Andrew e no preço que ele está disposto a pagar para ser grande. Com diálogos precisos e diretos, Whiplash vai logo no cerne da questão: qual é o limite das exigências para impulsionar alguém a ser bom? E até que ponto esta cobrança é benéfica ou apenas a manifestação de um sadismo de alguém que está em posição de ensinar e orientar quem está aprendendo?

Estas são questões pertinentes e atemporais. E ao optar por enfocar a música e o jazz, Chazelle consegue fazer o roteiro de Whiplash ganhar em ritmo e em interesse. Afinal, além da história que está se desenrolando na nossa frente ser interessante, temos boa música para embalar os minutos que vão passando. Fórmula quase perfeita.

Interessante Chazelle tocar neste assunto da educação e da orientação de talentos em um mundo com tantas disparidades na condução destes temas. Enquanto em alguns lugares a cobrança de ótimos resultados é constante, em outros o descaso com a qualidade da educação é endêmico. Infelizmente estamos no segundo caso. Bravos professores e professoras seguem se dedicando em ensinar, mas muitas vezes tem as expectativas de um bom ensino frustradas quando se veem obrigados(as) a passar gente sem condições de aprendizado para dar o passo seguinte.

Mais cedo ou mais tarde estas pessoas sem preparo são selecionadas no mercado de trabalho. Isso tende a ser verdade. Mas e aí o que vai acontecer com elas? Não será tarde demais para consertar erros na condução da educação destas pessoas que deveriam ter sido revistos antes? Estes assuntos me preocupam há tempos. Pessoalmente, tive uma educação boa. Mas tenho a convicção que o ensino dos meus pais foi mais completo e que, se eu tivesse filhos, e eles estivessem em escola pública, a educação deles seria bem pior que a minha.

Claro que nem tudo depende dos mestres e das escolas. Os pais precisam fazer o seu papel. Mas ninguém substitui ninguém. O protagonista de Whiplash sabe disso. Ele admira e ama o pai, mas o caminho que ele escolheu para si é diferente. E ele decide que será grande e que, para chegar lá, precisa aprender com os melhores. Mais que isso, com o melhor: o músico e mestre Fletcher.

Interessante o filme tratar deste assunto, da aspiração de um jovem em ser um dos melhores do mundo, em uma era em que todos parecem querer ser os melhores. O problema é que, e a maioria destas pessoas vai descobrir isso apenas com o tempo, poucos tem talento para se tornarem referência em uma área. Quanto mais em tornar-se lenda, a exemplo dos nomes citados na produção – como Charlie Parker, conhecido como Bird.

É preciso muito esforço, suor e algumas vezes sangue mas, e isso é inquestionável, um talento fora do comum. Bacana o filme mostrar e equilibrar isto. Afinal, Andrew faz a sua parte, se esforça muito além do razoável, mas o roteirista dá a entender que, mesmo assim, ele será apenas muito bom. Não excepcional. De qualquer forma, perto do fim, fica evidente que ele arranca admiração do ídolo, Fletcher. E para o rapaz, isso já é mais que o suficiente.

Levantar este tema, mostrar o quanto é dura a vida atrás da excelência em uma era em que todos querem ser ótimos, mas poucos conseguem ultrapassar a fronteira de serem bons, é um dos grandes méritos de Whiplash. Bem filmado, com um roteiro envolvente e atores interessados em se entregarem em seus respectivos papéis, este filme só peca por algumas escolhas um tanto pueris. Vejamos.

Para começar, Andrew parece um garoto mimado que mal saiu da casca do ovo. Ele segue fazendo programas de um adolescente, como assistir a filmes com o pai, ao mesmo tempo que pensa em ser um músico excepcional e que vai entrar na História por seu virtuosismo. Hummm… me pareceu um pouco frágil esta construção do personagem. Acredito que um garoto com um pouco mais de experiência teria convencido melhor como um sujeito disposto a tudo pelo estrelato, ou um jovem inexperiente teria convencido mais se tivesse titubeado repetidas vezes e fraquejado em mais momentos da história.

Além disso, fica difícil de acreditar que outros alunos, inclusive naquela insana sequência da troca constante de três bateristas, não teriam enfrentado Fletcher em algum momento. Por mais que ele fosse excelente e todos quisessem agradá-lo, o nível de cobrança dele passou dos limites em mais de uma ocasião e renderia facilmente tanto confronto direto quanto indireto através de processos ou queixas. Ignorar isso para dar ritmo ao filme é uma escolha que funcionou, mas que também incomoda.

Para finalizar, difícil acreditar também em outros dois trechos do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, é preciso muito boa vontade para acreditar que Andrew conseguiria se levantar e correr até o local da apresentação depois do acidente de carro que ele sofre em Dunellen. E que ele teria esta como preocupação principal e não ir para um hospital. Mas ok, vamos seguir a linha de raciocínio de desejo insano de aprovação do rapaz vendida pelo diretor e roteirista.

Agora, tão ou mais difícil de acreditar no gesto de Andrew, é pensar que Fletcher aceitaria um sujeito ensanguentando e que poderia desmaiar a qualquer tempo na posição de baterista em uma apresentação importante. Some-se a isso a história bonitinha mas sem grande finalidade prática entre Andrew e Nicole (Melissa Benoist) e a parte final do filme, quando fica evidente que Andrew está caindo em uma cilada, e temos os elementos que enfraquecem um pouco o potencial do filme. Pequenos pecados, mas que não comprometem a essência desta obra.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não lembro de ter visto Miles Teller em ação antes. Gostei do trabalho deste ator que parece ser mais novo, mas que está prestes a completar 28 anos no dia 20 de fevereiro – dois dias antes da entrega do Oscar 2015. Natural da Pennsylvania, nos Estados Unidos, Teller tem apenas 10 anos de carreira.

Ele estreou no curta Moonlighters em 2004, fez outros dois curtas e só estreou em um trabalho maior com a série de TV The Unusuals em 2009. O primeiro longa-metragem dele para o cinema foi Rabbit Hole, de 2010. Mas este ano ele deve bombar, estrelando cinco filmes – após um 2014 bastante produtivo também, quando ele apareceu em quatro produções.

Ainda que Teller esteja ótimo em Whiplash, ao ponto dele merecer ser acompanhado daqui por diante, J.K. Simmons quase sempre rouba a cena. Aliás, eis entre os dois a parceria perfeita, com desempenhos muito dinâmicos e equilibrados. Natural de Detroit, no Michigan, Simmons completou 60 anos no dia 9 de janeiro e chega a sua primeira indicação a um Oscar tendo 147 filmes, curtas e séries de TV no currículo – sendo que seis destes trabalhos ainda sairão do forno. Um ator que já fez praticamente de tudo e que, volta e meia, mostra como é bom.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para Whiplash. Uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 224 textos positivos e apenas 11 negativos para o filme, o que lhe rendeu uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,6. Avaliações muito boas também.

Caros leitores, corri para escrever este texto. Deixei vários pontos para serem comentados em outro momento. O mais breve que eu conseguir. Até logo.

Beleza. Vamos voltar a Whiplash. Ainda que este filme seja baseado na velha premissa de duelo entre dois atores, sendo um pupilo e outro o mestre, alguns intérpretes também ganham certa relevância pela parte que eles ganham na história. Paul Reiser interpreta Jim Neimann, pai de Andrew e uma figura na qual ele se apoia sempre que necessário – ele também reforça a imagem de “garotão” do filho; Melissa Benoist faz as vezes de Nicole, uma garota que ainda está descobrindo o que quer fazer da vida, o que contrasta com as convicções artísticas de Andrew; Nate Lang se sai muito bem como Carl Tanner, o melhor concorrente do protagonista para a posição de baterista; e Austin Stowell é o outro concorrente para a posição, o mais novato Ryan. Esses são os atores principais que giram em torno de Teller e Simmons, mas ainda há aparições de atores veteranos em papéis ainda menores, como Chris Mulkey como o tio Frank.

Da parte técnica do filme, menção especial para a trilha sonora fantástica de Justin Hurwitz, para a direção de fotografia precisa de Sharone Meir e para a excepcional edição de Tom Cross. Especialmente o primeiro e o terceiro itens são fundamentais para a qualidade de Whiplash. A equipe de 18 profissionais envolvida com o departamento de som também é fundamental para o filme.

Whiplash estreou em janeiro de 2014 no Festival de Cinema de Sundance. Em maio ele chegaria no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de outros 37 festivais por diferentes países mundo afora. Nesta trajetória o filme conquistou 54 prêmios e foi indicado a outros 78, incluindo a indicação em cinco categorias do Oscar 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons no Globo de Ouro 2015; para dois prêmios no Festival de Sundance, incluindo o de Melhor Filme Drama segundo os jurados e outro para Damien Chazelle dado pelo público; para o de Melhor Novo Diretor para Damien Chazelle no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; e para os dois prêmios recebidos no Festival Internacional de Cinema de Santa Barbara, um para Damien Chazelle, outro para J.K. Simmons.

Por falar em Chazelle, vale comentar que este diretor nascido na cidade de Providence, em Rhode Island, nos Estados Unidos, tem apenas 20 anos de idade – completados no último dia 19 de janeiro. Ele tem apenas três trabalhos no currículo, estreando em 2009 na direção como Guy and Madeline on a Park Bench. Em 2013 ele apresentaria o curta Whiplash que, em 2014, daria origem ao longa Whiplash. Por isso mesmo, apesar de ser uma obra original, Whiplash é considerado um roteiro de “adaptação” já que foi precedido por um curta com a mesma premissa. Diretor e roteirista muito promissor e que vale ser acompanhado, com certeza.

Whiplash foi rodado nas cidades de Santa Clarita e Los Angeles, ambas na Califórnia, e também em Nova York.

Esta produção teria custado cerca de US$ 3,3 milhões. Ou seja, um filme de baixíssimo orçamento para os padrões dos Estados Unidos. Apenas no país de origem o filme arrecadou pouco mais de US$ 8,6 milhões. Bilheteria baixa, mas que tende a aumentar após as indicações ao Oscar e com o filme chegando aos cinemas de outros países.

Para finalizar, algumas curiosidades sobre esta produção 100% dos Estados Unidos – por isso ela entra na lista de filmes sugeridos por votações aqui no blog. Whiplash foi rodada em 19 dias.

Nas cenas mais intensas na bateria, o diretor não gritava a palavra “corta!” para que o ator Miles Teller pudesse dar tudo que gostaria até o esgotamento.

Nem tudo são flores nos bastidores de um filme. Os atores se entregam e, algumas vezes, se machucam. J.K. Simmons fraturou duas costelas na cena em que Miles Teller o ataca.

Damien Chazelle não tinha conseguido recursos para fazer Whiplash, por isso ele acabou transformando a história em um curta e apresentando o resultado no Festival de Sundance em 2013. Ele ganhou com a produção o Prêmio do Júri de Melhor Curta e, com o dinheiro que recebeu, conseguiu fazer o tão sonhado longa com a história.

Miles Teller toca bateria desde os 15 anos. Algumas cenas em que vemos o sangue dele em baquetas, no filme, são reais. Ele foi até o extremo com o papel. O ator realmente tocou a bateria em todas as cenas. Isso que eu chamo de achar o intérprete perfeito para um papel. Simmons, que também tocou piano, mas no passado, teve que relembrar o instrumento para poder tocá-lo no filme.

Mesmo tendo tocado bateria desde os 15 anos, Teller teve aulas adicionais do instrumento durante quatro horas por dia, por três dias na semana, para preparar-se para protagonizar Whiplash.

CONCLUSÃO: O incentivo à mediocridade é sempre mais danoso que o exagero na cobrança. Disso não tenho dúvidas. O Brasil, por exemplo, está sofrendo com esta política de aprovar a todos nas escolas públicas, independente se as pessoas tem conhecimento o suficiente para ir para a fase seguinte. Este filme trata sobre a busca da genialidade, que é artigo para poucos, e desmistifica que estes gênios chegam lá com um toque de vara de condão.

Esqueçam isso. Só chega ao topo quem luta e se dedica muito, quem tem obstinação por ser o melhor. Neste sentido, Whiplash acerta o alvo com esmero. Bem conduzido, com ótimos atores e bem dirigido, o filme só peca em algumas escolhas do protagonista difíceis de acreditar, assim como com certo exagero no antagonista. Descontados estes detalhes, é um belo filme. Um tanto pueril em alguns momentos, mas que se esforça em passar uma mensagem.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Whiplash é mais um filme interessante que chegou até o Oscar deste ano com um bom número de indicações. Diferenciada e de baixo orçamento, esta produção confirma que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sabe sim se renovar – e vem fazendo isso desde 2010. Apesar de ter muitos méritos, acredito que esta produção saia do próximo Oscar com apenas uma estatueta.

Whiplash está indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som. Vou começar pela categoria principal. Não vejo chances de Whiplash ganhar como Melhor Filme.

Comparando com os outros finalistas, ele não supera Boyhood, Selma ou The Imitation Game. Além disso, certamente ele não é o preferido entre os votantes críticos que viram em Birdman um tapa importante na cara do mainstream. Whiplash corre totalmente por fora nesta categoria.

Em Melhor Roteiro Adaptado, ele até tem alguma chance. Meu voto iria para The Imitation Game, e acho que o favorito seja The Theory of Everything. Mas nesta categoria não seria totalmente zebra Whiplash levar – afinal, a adaptação é realmente perfeita. A grande chance está com J.K. Simmons em Melhor Ator Coadjuvante. Dos filmes que vi até agora, apenas Ethan Hawke poderia tirar a estatueta do ator veterano.

Na categoria Melhor Mixagem de Som, o ano está com grandes concorrentes. Whiplash pode ganhar, mas para isso terá que derrubar o excelente trabalho feito nesta categoria em American Sniper, Unbroken e, acredito, apesar de ainda não ter visto o filme, em Interstellar.

Para fechar a conta, o filme corre por fora também em Melhor Edição. Mas não seria uma zebra se ele levasse a estatueta, já que a edição desta produção é impecável. Meu palpite, contudo, é que Boyhood ou The Grand Budapest Hotel levam vantagem nesta disputa. A estatueta deve ficar com um deles. Assim sendo, Whiplash pode até levar três estatuetas, mas a maior chance é mesmo de Melhor Ator Coadjuvante.