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Little Women – Adoráveis Mulheres

Houve um tempo – e não faz tanto tempo assim – em que o melhor destino para uma mulher seria casar. Até hoje, na verdade, há quem pense que uma mulher só pode ser feliz se encontrar um bom partido. Little Women, história já várias vezes adaptada para o cinema, surge em uma nova versão, cheia de estrelas, sob a batuta da diretora e roteirista Greta Gerwig. Quem assistiu a alguma versão anterior da história verá pequenas diferenças na narrativa aqui e ali. Quem nunca assistiu à uma adaptação do romance de Louisa May Alcott poderá se surpreender mais com o que verá em cena.

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The Post – The Post: A Guerra Secreta

Ah, o jornalismo! O jornalismo de verdade, aquele que procura informar a sociedade sobre questões relevantes. O jornalismo que é capaz de mudar o curso da História quando conta o que os poderosos – e outros que nem são tão poderosos, mas acreditam ser – querem esconder. The Post nos conta uma história das boas sobre o papel do jornalismo no curso da História de um país.

Esse jornalismo, infelizmente, anda cada vez mais raro, muito também porque as pessoas deixaram de o financiar – e não existe jornalismo sem pessoas que paguem por ele. Um filme importante para os dias de hoje, mas que apenas mostra tudo o que estamos perdendo, e cada vez mais, com o fim do bom jornalismo.

A HISTÓRIA: Começa na Província de Hau Nghia, no Vietnã, em 1966. Barulho de helicópteros, soldados colocando capacetes e preparando armas, e em meio àquele cenário, Dan Ellsberg (Matthew Rhys) também recebe a sua arma. Um soldado pergunta quem ele é, e outro responde que ele trabalha para Lansdale na embaixada e que ele está ali apenas observando. Ele se prepara como os demais e avança com o pelotão.

À noite, eles são atacados, e muitos morrem ou são feridos. Ellsberg escreve o seu relatório a respeito. Na volta, ele fala para o secretário de Estado Robert McNamara (Bruce Greenwood) que as coisas não estão melhores ou piores no Vietnã. Estão iguais. McNamara fica inconformado com isso, mas quando fala com a imprensa, ele mente. Ellsberg decide fazer algo a esse respeito.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Post): Sim, essa história é importante. Sim, é sempre válido contar boas histórias no cinema, até para que as novas gerações as conheçam. The Post conta um dos belos capítulos da história do jornalismo americano e mundial. Quando alguns jornais enfrentaram o interesse do governo de Richard Nixon de continuar abafando as mentiras envolvendo o Vietnã.

The Post é importante especialmente agora, quando alguns discursos muito equivocados nos Estados Unidos, no Brasil e em outras partes querem justificar mentiras e meia verdades contadas por administrações pública. Não existe “segurança nacional” ou a justificativa que for para que um governo minta para os seu povo. Afinal, os governantes estão lá para governar para todos e não para mentir e enganar a opinião pública.

Também é especialmente relevante essa história voltar a ganhar o holofote em um filme de Hollywood nessa época da nossa História em que, parece, cada vez menos pessoas estão interessadas em gastar dinheiro com o jornalismo. Conforme os hábitos das pessoas estão migrando para serviços de streaming e para um consumo limitado ao que se compartilha nas redes sociais – sendo uma parte considerável dessa informação enganosa e não checada por profissionais preparados para isso, como é o caso do jornalismo -, vale nos questionarmos sobre o que irá acontecer com as sociedades sem o bom e velho jornalismo.

Eu sei a resposta para isso. E ela não é nada boa. Há 21 anos eu escolhi essa profissão. Fiz o curso de Jornalismo e logo comecei a trabalhar na área. Hoje, sem vontade de ir para os grandes centros do Brasil – São Paulo ou Rio de Janeiro -, eu vejo cada vez menos oportunidades para os profissionais da minha área fazerem o que eles tanto quiseram. Ou seja, jornalismo. Anunciantes e leitores estão cada vez menos dispostos a investir no jornalismo de qualidade, e o que vemos são os jornais “se vendendo” para qualquer um que lhes ajude a manter as rotativas em funcionamento.

Onde eu moro, existem jornais que são capazes de demitir um jornalista ético e competente porque ele desagradou a um grande anunciante com uma matéria 100% correta que feriu os interesses dessa companhia. Nesse cenário, não existe jornalismo de qualidade, apenas enganação para leitores desavisados. Atualmente, percebo que poucos jornais resistem às pressões do mercado e dos anunciantes e realmente fazem o seu dever de casa.

Em The Post, os jornais foram ameaçados simplesmente pela administração central do país. E o que você faz diante disso? Jogos de poderes existiam na época e existem hoje em dia. Os jornalistas e empresas de jornalismo de verdade não perdem o foco de seus papéis e enfrentam o interesse que for – econômico ou político – para cumprir esse papel. Por isso, para uma jornalista como eu, é especialmente emocionante assistir a um filme como esse. Um bom exemplo de história de quando o jornalismo realmente foi corajoso e cumpriu o seu papel.

Depois de fazer estes comentários, alguns bastante pessoais, vou analisar o filme propriamente dito. O roteiro de Liz Hannah e de Josh Singer é bem escrito e equilibra elementos históricos com algumas “pílulas” narrativas bem planejadas para tornar um filme aparentemente “chato” e “burocrático” em uma história com um bocado de tensão, altos e baixos e suspense. A narrativa é clássica e linear, além de bastante direta.

Partimos do momento em que o personagem de Ellsberg decide tomar a sua atitude corajosa de fazer cópias ilegais de documentos sigilosos, após ele fazer uma incursão e ver o caos no Vietnã in loco em 1966, para outro momento decisivo dessa história, quando o jornal The Washington Post está lutando para sobreviver enquanto o concorrente The New York Times começa a publicar reportagens devastadoras sobre como diversas administrações americanas mentiram sobre a Guerra do Vietnã.

Assim, grande parte da narrativa dessa produção se passa em Washington, em 1971. Essa eu achei a parte mais interessante do filme, na verdade. Os bastidores de um grande jornal. Hannah e Singer se debruçam, especialmente, sobre dois personagens: Kay Graham (Meryl Streep), herdeira do jornal familiar e desafiada por todos os lados por estar nessa posição no The Washington Post, e Ben Bradlee (Tom Hanks), o diretor de redação do jornal.

Como eu conhecia a história sobre a batalha dos jornais contra Nixon antes mesmo do escândalo de Watergate, o centro dessa história não me surpreendeu. O que eu realmente achei interessante e importante de ser contado foram os bastidores da notícia. Tanto a guerra que existe entre os grandes jornais, essa concorrência saudável que às vezes inclui uma certa “espionagem” dos melhores repórteres e coberturas exclusivas, quanto e principalmente a relação às vezes próxima demais de alguns jornalistas e donos de jornais com o poder.

Esses pontos realmente são interessantes nesse filme e importantes de serem debatidos nas faculdades de jornalismo. Afinal, qual deve ser a postura mais ética dos jornalistas e dos donos de jornais em relação aos anunciantes, patrocinadores e os donos do poder? O quanto determinadas “proximidades” e “amizades” podem ser aceitas e o quanto elas podem significar miopia na cobertura da imprensa e, consequentemente, a perda de sentido do trabalho jornalístico?

Eu conheci várias pessoas que achavam normal amizade com fontes diversas. Da minha parte, de quem nunca gostou de ter amizade nem com a chefia do jornal e nem com as fontes – justamente por questões éticas -, eu sempre me perguntava: e toda essa “amizade”, até que ponto ela é proveitosa para o leitor/consumidor da notícia? O quanto essas relações de proximidade limitam os jornalistas a fazer as perguntas incômodas, a ir atrás de uma fumaça que eles viram em algum momento de seu trabalho de eternos “fuçadores” de notícia?

Ao mesmo tempo que eu escrevo essas linhas, eu sei que a relação entre jornalista e fontes, especialmente as que estão nos governos, não pode ser sempre de confronto e de desconfiança. É preciso alguma trégua, algum “armistício”, até para que notícias positivas também sejam divulgadas.

Mas é um princípio do jornalista sempre desconfiar e sempre estar atento às denúncias e insatisfações da sociedade. Quando você está próximo(a) demais do poder, inclusive fascinado por ele, atrás de um furo ou de uma exclusiva, você não tem o distanciamento suficiente para enxergar isso. E The Post toca muito bem nesse ponto.

No fim das contas, Graham e Bradlee assumiram a postura correta no caso das mentiras de diversas administrações sobre o Vietnã. Mas e antes, ao serem próximos dos Kennedy, eles não falharam? Provavelmente sim. Mas o importante, nesse filme e na vida real, é que aprendamos com os nossos erros. E, preferencialmente, com os erros dos outros também. The Post mostra como é possível evoluir e fazer a coisa certa apesar de todos os riscos que isso envolve.

O roteiro de The Post mostra muito bem os riscos que Graham, em especial, estava correndo com toda aquela história das denúncias envolvendo diversas administrações dos Estados Unidos. Endividado, o jornal poderia perder a oferta dos banqueiros que queriam investir na publicação quando ela resolveu abrir o capital. Ou seja, ela aderir à série de denúncias poderia prejudicar definitivamente o futuro da publicação.

Mas Graham viu que isso era o certo a se fazer – e, claro, não sejamos inocentes, ao publicar aquelas notícias o The Washington Post estava se credenciando como um dos grandes jornais do país. Ou seja, se desse errado a busca de recursos através dos banqueiros, o jornal poderia conseguir isso ao ganhar uma projeção nacional e o prestígio que a publicação não tinha até aquele momento.

Essas são as partes interessantes do filme e que valem algumas horas de debates sobre a realidade dos jornais e dos jornalistas nos cursos mundo afora. Agora, depois de comentar sobre as partes interessantes do filme, devo dizer que The Post me incomodou um pouquinho por seu tom “rocambolesco”. Por que eu digo isso? Porque The Post dá uma exagerada na história e tenta transformar a narrativa em uma produção ao estilo “espionagem” para prender a atenção dos espectadores. Mas podemos sentir o “cheiro” de que houve um pouco de exagero aqui e ali.

E realmente houve. Para começo de história, o filme sugere, mas depois faz questão de esquecer, o papel de protagonista naquela denúncia do The New York Times. Eles foram os primeiros a denunciar e o jornal que foi processado na Justiça pelo governo – o The Washington Post apenas seguiu no encalço do rival. Então por que, afinal de contas, essa produção não é sobre o jornal que protagonizou toda aquela denúncia? Bem, alguns elementos ajudam a explicar isso.

Primeiro, vivemos uma interessante – e mais do que justa – fase de histórias e filmes que enaltecem o protagonismo feminino. No caso do NYT, não tínhamos uma Kay Graham para mostrar o posicionamento de uma mulher forte, inteligente e independente no caso. Depois, o jornal dela realmente teria uma relevância grande logo a seguir: o protagonismo no caso das denúncias do caso Watergate – no qual os papéis se inverteriam, e o NYT teria que correr atrás do que o The Washington Post começou a fazer.

Enfim, esse filme peca um pouco pela previsibilidade, para quem, como eu, já conhecia a história, e peca um pouco pelo “exagero” em tornar o The Washington Post o protagonista do escândalo envolvendo os papéis do Pentágono. Mas, no geral, o filme é bem conduzido e bem narrado. E o grande destaque dele são os grandes atores em cena, especialmente a gigante Meryl Streep, que nos apresenta uma Kay Graham muito interessante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, o grande nome desse filme é o de Meryl Streep. Mais uma vez ela consegue se destacar. Tom Hanks também está bem, mas ela impressiona pelos detalhes da interpretação e por mergulhar tão bem na personagem. Além deles, Steven Spielberg faz um bom trabalho na direção, procurando sempre ampliar a visão do espectador em planos mais abertos quando possível. É como se ele estivesse sempre nos lembrando da necessidade de olhar os quadros de maneira mais ampla. Mas achei que tanto Hanks quanto Spielberg fazem um trabalho competente, mas também dentro do esperado. Nada além. Meryl Streep consegue fazer uma entrega um pouco acima da média.

Enquanto eu assistia a esse filme, eu lembrei muito de “ligações perigosas”. Assim mesmo, em letras minúsculas. Ou seja, não me lembrei do filme propriamente dito, mas dessa expressão que ajuda a explicar um bocado das relações entre jornalistas e as suas fontes. Os profissionais tem que ter atenção constante sobre o seu trabalho e buscarem sempre o caminho ético para não se perderem em algumas relações que podem descambar, às vezes, para o lado da promiscuidade. The Post mostra muito bem isso, especialmente na relação de Kay Graham com Robert McNamara e de Ben Bradlee e da esposa Tony Bradlee (Sarah Paulson) com os Kennedy.

Esse filme está cheio de atores interessantes em papéis menores. Temos alguns coadjuvantes muito bons em cenas, mas em papéis pouco desenvolvidos pelo roteiro de Liz Hannah e Josh Singer. Vale citar alguns desses nomes, pela ordem de importância no filme e de bom trabalho em cena: Bob Odenkirk como Ben Bagdikian, o repórter do The Washington Post que consegue localizar Ellsberg e conseguir com eles a papelada que o jornal tanto precisava; Tracy Letts como Fritz Beebe, braço direito de Graham; Bradley Whitford como Arthur Parsons, integrante do conselho do Post e que vive questionando a liderança de Graham; Bruce Greenwood como o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara; Matthew Rhys como Daniel Ellsberg, o “garganta profunda” desse caso; Alison Brie em uma super ponta como Lally Graham, filha de Kay; Jesse Plemons como Roger Clark, advogado que representa o The Washington Post; Carrie Con como Meg Greenfield, jornalista que faz parte da equipe que analisou a papelada do Pentágono; David Cross bem disfarçado como Howard Simons, editor do jornal que fez parte daquela força-tarefa; John Rue como Gene Patterson, outro editor que fez parte do grupo; Philip Casnoff como Chalmers Roberts, idem; Pat Healy como Phil Geyelin, idem.

O que chama a atenção dessa lista acima? Que fora alguns personagens, vários que eu citei vocês nem conseguiram identificar assistindo ao filme, não é mesmo? Esse eu achei um problema de The Post. O filme se preocupou em colocar todos os personagens em cena, até para os fãs que iriam procurar os nomes dos personagens reais que fizeram história, mas durante o desenrolar da produção os roteiristas não tiveram a preocupação de realmente apresentar e desenvolver aqueles personagens. O que eu acho um ponto falho.

Além dos atores citados, há vários outros que aparecem em cena. Muitos de interesse histórico, mas ainda menos desenvolvidos pelos roteiristas.

Entre os diferentes aspectos que compõem essa produção, fora a interpretação precisa e muito bem feita dos protagonistas, vale destacar o competente trabalho do diretor Steven Spielberg. Ele mostra a forma com que domina o seu ofício nos detalhes. Isso fica especialmente evidente na sequência em que Graham e Bradlee discutem com Beebe e Parsons, cada um em um telefone, sobre se o jornal vai embarcar na história dos papéis do Pentágono ou não. A forma com que aquela sequência foi filmada, planejada e editada é uma pequena aula de cinema.

Fazer um grande trabalho na direção em um filme de ação pode projetar um diretor, mas fazer um belo trabalho em um filme “intelectualizado” e pouco movimentado como esse, é só para quem conhece realmente o ofício. Tornar um filme como The Post atraente para os grandes públicos não é algo simples, mas Spielberg consegue isso utilizando todos os artifícios de planos e dinâmicas de câmera possíveis. Um belo trabalho, sem dúvida.

Falando nos aspectos técnicos de The Post, vale citar o belo trabalho do veterano John Williams na trilha sonora – ainda que, para o meu gosto, ele exagera na dose em alguns momentos; de Janusz Kaminski na direção de fotografia – ele utiliza uma fotografia um bocado escura, quase um preto e branco, parece que para marcar o realismo da história; a edição precisa e muito competente de Sarah Broshar e Michael Kahn; o design de produção de Rick Carter; a direção de arte de Kim Jennings e de Deborah Jensen; a decoração de set de Rena DeAngelo; e os figurinos precisos de outra veterana, Ann Roth.

Essa produção abre uma frente interessante de pesquisa sobre aquela época e alguns daqueles personagens. Andei lendo alguns textos a respeito, e deixo alguns aqui para vocês conferirem. Gostei, por exemplo, da ponderação de Helio Gurovitz sobre o filme e publicada no G1. Sobre a Katherine Graham real, vale dar uma conferida no material sobre ela na Wikipédia. E sobre a Guerra do Vietnã, gostei dessa matéria do site BBC Brasil, que tem algumas curiosidades do conflito, e dessa outra do site História do Mundo que dá uma boa resumida no conflito que durou impressionantes 16 anos.

The Post estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 22 de dezembro de 2017. Depois, no dia 4 de janeiro de 2018, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Esse foi o único festival em que o filme participou até o momento. No Brasil, o filme estreou no dia 1º de fevereiro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como o filme sugere, em todas as cenas em que o ex-presidente Richard Nixon aparece de costas na Casa Branca, a voz que ouvimos é realmente do ex-presidente americano. Achei um detalhe interessante e bacana do filme terem escolhido trechos de conversas dele.

Nas cenas em que os documentos do Pentágono aparecem no filme, realmente foram utilizadas as páginas originais – ou seja, os documentos que, de fato, resultaram no escândalo no governo Nixon e que foram copiadas por Daniel Ellsberg.

The Post é dedicado para Nora Ephron, que foi casada com Carl Bernstein, jornalista do The Washington Post que, com Bob Woodward, descobriu o escândalo de Watergate – aquele mesmo que derrubaria Nixon.

Sem nunca ter trabalhado antes com Spielberg, Meryl Streep ficou surpresa ao saber que o diretor não ensaiava as cenas com os seus atores. Tom Hanks sabia disso, mas não contou nada para a atriz para não “assustá-la”. Apesar de surpresa com essa forma de trabalhar de Spielberg, Meryl Streep trabalho nesse ritmo e surpreendeu o diretor, que volta e meia elogiava a forma com que a atriz tinha se transformado na personagem.

Benjamin C. Bradlee e a esposa dele, Sally Quinn, foram vizinhos de Steven Spielberg em Long Island por muitos anos. Mas eles só se conheceram socialmente.

Falando nas relações pessoais entre os realizadores desse filme e os personagens retratados, Tom Hanks chegou a conhecer Bradlee e também Kay Graham – ela, na véspera de sua morte.

Steven Spielberg tinha pressa em lançar The Post, como uma espécie de resposta a onda de “notícias falsas” nos Estados Unidos. Entre o momento em que o roteiro foi concluído e o filme foi lançado, passaram-se apenas nove meses. As filmagens ocorreram entre maio e julho de 2017, e The Post foi finalizado por Spielberg em duas semanas – ele nunca finalizou um filme tão rápido. Tudo para que The Post estreasse logo que possível.

Spielberg exibiu The Post para os filhos de Katherine Graham, Lally Weymouth e Donald Graham, e para a viúva de Bradlee, Sally Quinn. Todos aprovaram a produção.

Esse é o terceiro filme com roteiro de Josh Singer que explora a importância do jornalismo. Os anteriores foram The Fifth Estate e Spotlight.

O Prêmio Pulitzer de Jornalismo de 1972 sobre os escândalos dos papéis do Pentágono foi dado apenas para o The New York Times – isso ajuda amostrar como The Post “exagera” um bocado sobre a participação do The Washington Post naquele capítulo.

The Post termina praticamente no ponto em que o clássico All The President’s Men começa. Por isso, para alguns, The Post pode ser considerado um “prequel” do outro filme – afinal, um termina com o vigia descobrindo os assaltantes no prédio Watergate, mesmo ponto em que o outro começa.

Até o momento, The Post ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 79 – incluindo a indicação em duas categorias do Oscar 2018. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e Melhor Atriz para Meryl Streep no prêmio do National Board of Review. Também vale citar o prêmio de Melhor Filme e o Gary Murray Award de melhor elenco dados pela North Texas Film Critics Association.

The Post é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e que pediam por filmes dos Estados Unidos.

Essa produção, que teria custado US$ 50 milhões, faturou US$ 63,5 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 24,7 milhões nos outros países em que estreou. No acumulado, ele faturou pouco mais de US$ 88,2 milhões – ou seja, ainda falta um pouquinho para começar a registrar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 261 textos positivos e 35 negativos para a produção, o que garante para The Post uma aprovação de 88% e uma nota média 8. A nota no Rotten Tomatoes, em especial, chama a atenção, porque está acima da média.

CONCLUSÃO: Essa história não é, exatamente, nova. Quem acompanha a história do jornalismo mundial e conhece alguns de seus principais capítulos, não será surpreendido por The Post. Mesmo assim, esse filme vale por reunir um grande elenco para contar um dos grandes episódios do bom jornalismo americano. Quem dera que mais histórias como essa pudessem ser contadas no futuro. Com uma boa narrativa e com atores mais que competentes em papéis-chave, The Post faz um resgate histórico importante, especialmente nos dias de hoje, em que a imprensa anda cada vez mais atacada por todos os lados.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente? Gostei desse filme, mas eu não acho que ele se aproxima da qualidade do vencedor do Oscar Spotlight (comentado por aqui), um filme melhor conduzido e com menos exageros narrativos. Em resumo, a exemplo de Darkest Hour (com crítica neste link), eu considero um exagero The Post ter sido indicado a Melhor Filme no Oscar 2018. Para mim, os dois filmes não tem qualidade para chegarem a tal posição.

No lugar deles, por exemplo, eu colocaria I, Tonya (comentado aqui) ou mesmo The Florida Project (com crítica neste link), filmes mais corajosos e “inovadores” na narrativa. Mais criativos. Mas, certamente, The Post e Darkest Hour tiveram boas campanhas e um bom lobby para chegarem a suas indicações na categoria principal do Oscar 2018.

Mas quais são as chances de The Post no Oscar, afinal de contas? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Filme e Melhor Atriz para Meryl Streep. A atriz, recordista em indicados no Oscar, mereceu mais essa chance de ganhar uma estatueta. Ela é o grande nome desta produção – que tem outros grandes nomes envolvidos no projeto, como Steven Spielberg e Tom Hanks. Meryl consegue, mais uma vez, roubar a cena.

Apesar disso, ela não tem chances de levar a estatueta nesse ano. A favoritíssima para levar o Oscar para casa é a atriz Frances McDormand, a estrela de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado aqui). A única pessoa que pode estragar a festa de McDormand é a atriz Sally Hawkins, de The Shape of Water. Mas se eu fosse apostar em alguém, seria em McDormand.

The Post tem chances remotas – para não dizer zero – de vencer como Melhor Filme. Vejo que, antes dele, estão na frente dessa disputa Three Billboards Outside Ebbing, Missouri; The Shape of Water e Dunkirk, nessa ordem. Ou seja, com duas indicações importantes no Oscar, The Post tem grandes chances de sair da premiação de mãos vazias. Não será injusto, especialmente quando estamos buscando por filmes excelentes e/ou acima da média nessa premiação.

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Nebraska

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Por mais que uma pessoa seja próxima, nunca vamos saber tudo a seu respeito. Isso vale para um casal na mesma medida que para pais e filhos. Nebraska conta a história de uma viagem de descobertas para a família do protagonista – especialmente para um dos filhos dele. Uma produção que, ao mesmo tempo, lembra um pouco os filmes dos irmãos Coen e aquela aura marcante de produções clássicas como Giant.

A HISTÓRIA: Às margens de uma rodovia qualquer dos Estados Unidos, Woody Grant (Bruce Dern) caminha lentamente sobre a neve. Passam por ele diferentes tipos de carros e caminhões, até que o acostamento termina, ele caminha sobre uma pista em uma elevado, e um policial o para. Um tempo depois, David (Will Forte), um dos filhos de Woody, vai até a delegacia para se encontrar com o pai.

Daí que ele descobre que o pai estava indo à pé da cidade deles, Billings, no Estado de Montana, até Nebraska. A justificativa: ele quer ganhar o US$ 1 milhão que uma carta que ele recebeu pelos Correios diz que ele tem direito. Com esta ideia fixa na cabeça, Woody empreende uma viagem acompanhado do filho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Nebraska): Esse é um filme de quebrar o coração. Desde o início. Como não sentir pena desta figura chamada Woody Grant. Um senhor de cabelos brancos como tantos outros que vivem nos Estados Unidos, no Brasil e em diversas outras partes. Uma das vantagens de Nebraska é que o filme não gasta tempo com o que não precisa. Logo nos primeiros minutos sabemos do que se trata, mas a história, ainda assim, vai nos surpreendendo conforme é contada.

Aliás, muito bom o roteiro de Bob Nelson. Ele consegue, ao mesmo tempo, falar de relações humanas, da ligação e admiração entre pais e filhos, da “instituição” família e também do estilo de vida de parte do interior dos Estados Unidos. Essa “salada mista” poderia se perder em uma história com vários altos e baixos, ou com alguns momentos de tédio seguido de rompantes, mas não. O texto de Nelson é bem cadenciado e, como eu disse antes, não demora para embalar.

Algo também um tanto raro de ver nos filmes de Hollywood está presente em Nebraska: o tempo necessário de pausas nos diálogos ou, se preferirem resumir de outra forma, os necessários momentos de silêncio. Há bastante espaço para eles nesta história, e o espectador vai perceber que todos estes momentos são essenciais para a dinâmica do filme.

Além deste aspecto do roteiro, algo que chama a atenção logo no início da produção é a excelente direção de fotografia. Um grande trabalho, digno de tirarmos o chapéu, de Phedon Papamichael. As imagens em preto e branco valorizam a aridez dos cenários e, por que não dizer, também das pessoas. Afinal, ainda que este filme tenha algumas cenas emocionantes, ele não tem o propósito de revelar os comoventes laços familiares dos protagonistas, e sim de mostrar como parentes e antigos “amigos” podem se revelar bem interesseiros quando o tema de alguém se tornar milionário entra em cena.

A fotografia preto e branco combina com aquelas pessoas. E paralelamente, a ausência de cores valoriza os cenários amplos deste road movie que gasta bastante tempo na cidade de origem dos Grant. Somado a estes dois aspectos vistos logo nos primeiros minutos do filme – ótimo roteiro e direção de fotografia -, pouco a pouco outras qualidades vão se revelando em Nebraska. Exemplos: a direção segura de Alexander Payne, que não carrega no tom de nenhuma cena, e a interpretação dos atores principais.

Dito isso, falemos um pouco sobre a história de Nebraska. Como eu disse antes, como não ter pena de Woody? Primeiro, percebemos que aquele homem já passou por muito, muito mesmo nesta vida. Agora, de cabelos brancos e uma saúde fragilizada, inclusive pela bebida, ele se agarra à esperança de que pode conseguir US$ 1 milhão. Logo de cara, a mulher dele, a irônica e reclamona Kate (June Squibb), proíbe o marido de seguir com aquela “tonteria”. Ela se recusa a levá-lo até Nebraska, mas Woody está com ideia fixa e passa a sair caminhando por aí em direção ao destino.

Neste momento, entra em cena David. Fica evidente, logo nos primeiros minutos, o afeto dele pelo pai. E pouco a pouco, percebe-se também a admiração dele para com seu velho, ainda que o que fica mais evidente nesta produção é que David desconhece muito sobre a vida do pai. Daí aquele meu início de texto. Por que afinal de contas, quem não desconhece muito sobre as pessoas que ama? Ainda que isso seja natural, não deixa de ser chocante para as pessoas quando as “verdades” e revelações familiares pipocam.

Hollywood já produziu muitos tipos de road movies, alguns, inclusive, no estilo de Nebraska, que aproveita uma longa viagem para aproximar pais e filhos. Outras produções, se especializaram em abordar os segredos e confrontos familiares, e há aquelas que mergulham no estilo de vida interiorano do país. August: Osage County, comentado por aqui, por exemplo, trata destes dois últimos aspectos.

Falando em referências… o humor de Nebraska, muitas vezes, me lembrou alguns “tiques” dos roteiros dos irmãos Joel e Ethan Coen. O humor ácido retirado de pessoas comuns visto aqui é a cara dos Oscarizados diretores de No Country for Old Men e Fargo. E a direção de fotografia em preto e branco me lembrou muitos filmes do passado – especialmente Giant pelas paisagens de campos abertos.

Mas o diferencial de Nebraska é que o filme não apenas fala de tudo isso, mas também da ligação que existe entre as pessoas de uma mesma família mesmo que elas não demonstrem todo o afeto que sentem umas pelas as outras de forma clara e transparente. Quando Kate encontra Woody e David na cidade de Hawthorne, cidade natal do casal e, depois, Ross (Bob Odenkirk) se encontra com eles, fica evidente que apesar das palavras ferinas e duras e dos longos silêncios pontilhados aqui e ali, todos se amam e se respeitam.

Algumas vezes você só percebe isso na forma de olhar de uns para os outros – especialmente no caso de Kate, que normalmente detona as pessoas, mas que olha de forma afetuosa para o marido, mesmo chamando-o de “grande idiota” no hospital. Não é fácil um filme captar esta idiossincrasia entre pessoas muito próximas. No caso de Nebraska, o mérito é tanto do roteirista quanto dos atores e do diretor. Excelente entrega de todos – e, diferente de August: Osage County, sem grandes rompantes de interpretação.

Em Nebraska, parece que a ordem é “menos é mais” o tempo todo. Bruce Dern, em especial, tem uma interpretação bastante contida. Ele não grita, não faz nenhuma revelação bombástica, mas interpreta os sentimentos do personagem com o olhar.

Um papel difícil, e bem interpretado – ainda que eu tenha dúvidas se ele merecia uma indicação ao Oscar, tirando a vaga de Tom Hanks que, conforme eu disse aqui, teve a melhor interpretação em muito tempo em Captain Phillips (comentado por aqui). De qualquer forma, não dá para achar injusta a indicação de Dern – só vi como um pouco “generosa” demais. Mas a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre tem destas.

Enquanto Dern tem uma interpretação comedida, Squibb tem todo o espaço para ser a “boca suja” da família. A mulher de voz um pouco irritante não para de ser irônica e fazer “leves” críticas para vivos e mortos. Sem dúvida, da boca dela saem algumas das frases mais engraçadas do filme. Outras surgem de cenas pós-bebedeira de Woody, que acaba levando o filho David a buscar “tesouros perdidos” como uma dentadura e a chave para a história.

Aliás, essa chave para a história é o “MacGuffin” de Nebraska. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como bem nos ensinou o mestre do suspense Alfred Hitchcock, algumas vezes tudo o que uma história precisa para envolver o espectador é um bom MacGuffin. E o que ele seria? Pouco importa, nos disse Hitchcock. MacGuffin pode ser uma bolsa de dinheiro, um tesouro escondido, ou no caso de Nebraska, a carta com números que poderiam dar US$ 1 milhão para o protagonista. O MacGuffin é o que os personagens buscam, sem fim, e o que acaba movimentando a história.

Todos sabem que o MacGuffin que motiva Woody é um “fisga-bobos”. Quem recebe aquele tipo de correspondência sabe que tudo o que as pessoas que a enviaram querem é que você faça a assinatura da revista. O prêmio? Não existe. Mas Woody está tão certo de que deve ir até Nebraska, tem tanta convicção que esta é a chance da vida dele, que até chegamos a duvidar, por alguns momentos, se o impossível não pode acontecer.

O bonito, nesta história, é a forma com que David é generoso com o pai. Mesmo sabendo que eles estão indo atrás de uma mentira, ele resolve empreender a viagem com Woody por duas razões: para impedir que o velho fosse à pé e se arriscando por aí pedindo carona até Nebraska; e também para passar mais tempo com o pai, aproveitando para conhecê-lo melhor. Assim, de forma muito discreta, David cuida do pai e também aprende algumas coisas sobre ele.

Neste aprendizado, é muito interessante como Bob Nelson explora esta característica de muitos homens do interior de falar pouco – e mesmo há alguns nas cidades com este perfil. Woody, o irmão Ray (Rance Howard) e todos os outros homens da família que encontramos em Hawthorne são de falar quase nada. E o papo, quando existe, normalmente é sobre carros. Apenas o sacana Ed Pegram (Stacy Keach) parece destoar deste perfil caladão.

Em contrapartida, e como acontece em muitas famílias, as mulheres deles é que se esforçam por falar. Percebemos isso não apenas em Kate, mas também na esposa de Ray, a esforçada Martha (Mary Louise Wilson). Parece até que elas, tendo tanto espaço para falar com o silêncio dos homens, capricham em preencher todo aquele “vazio”. Nem sempre falando coisas boas, diga-se. Um retrato bastante realista sobre diversas famílias por aí.

Todo mergulho que um filho ou filha fazem no passado dos pais gera frutos. Primeiro, porque passamos a entender melhor os nossos “velhos”. Depois, porque também entendemos um pouco mais sobre nossas origens e, de quebra, sobre nós mesmos. Nebraska trata disso, assim como da fragilidade das pessoas quando elas chegam na velhice e de como as máscaras caem quando o assunto é dinheiro. Quem era apenas conhecido passa a ser velho amigo, e quem era sacana passa a ser ainda mais sacana.

Agora, mesmo que o filme flua bem e que tenha uma ótima direção de fotografia e uma trilha sonora bacana, Nebraska foi me convencer mesmo perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo tentando se controlar, sendo paciente e generoso, lá pelas tantas David confronta o pai sobre a bobagem que é eles seguirem viagem – especialmente após mais uma “rateada” do velho senhor. Daí que ficamos sabendo a verdadeira motivação de Woody – e que não é ficar com o dinheiro, mas garantir um pouco de tranquilidade para o futuro dos filhos. E esta não é a preocupação de 99% dos pais? Linda homenagem para estes homens tão valentes.

Afinal de contas, não é nada fácil investir a vida nesta empreitada que é ter família e filhos. Quem faz isso de forma consciente é porque tem muito amor para dar e porque, quando tem filhos, coloca eles em primeiro lugar. Mesmo quando não pareça que é assim. E nisso Nebraska também acerta. Ele não coloca Woody em um pedestal. Pelo contrário. Ele é um personagem palpável, cheio de defeitos e de virtudes. Aliás, David resume bem o perfil do próprio pai para a atendente no escritório em Nebraska.

E daí surge a cereja do bolo. David nos mostra que o dinheiro só serve para uma coisa: para honrarmos e fazermos felizes quem a gente ama. O resto é bobagem, é consumismo. Desde já Nebraska entra para o rol dos road movies que valem a lição que deixam. Sem contar a emoção de um encontro bacana entre pessoas próximas e que talvez nunca tivessem se permitido o contato com tempo e peito aperto. Eis uma viagem que vale a pena.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nebraska tem algumas cenas impagáveis. Para mim, as melhores são as sequências no cemitério com Kate “soltando a franga”; a fuga de David e Ross na corrida para encontrar o carro guiado pela mãe; e, claro, a “desforra” final. Grandes momentos que vão ficar na memória. Por outro lado, e ainda que o filme não tenha grandes sobras, achei um tanto repetitivas algumas cenas familiares em Hawthorne e as ironias/sequências de puro interesse do povo de lá para com Woody.

Uma curiosidade sobre a história: a distância entre as cidades de Billings, no Estado de Montana, e Lincoln, em Nebraska, nos Estados Unidos, é de 850 milhas, o equivalente a 1.367,9 quilômetros. De acordo com o Google Maps, esta rota, se for feita sem interrupções, levaria cerca de 12 horas e 27 minutos.

Os atores Bruce Dern e June Squibb fazem uma ótima parceria neste filme e, graças as indicações ao Oscar, ficaram evidenciados em relação ao restante do elenco. Ainda assim, devo dizer, gostei muito do trabalho de Will Forte como David. Ele está perfeito e, na mesma medida que Dern, grande parte de sua interpretação é feita pelo olhar. Grande trabalho! Gostei também de ver Bob Odenkirk em ação fora de Breaking Bad – uma razão à mais para acompanhá-lo na nova série Better Call Saul.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Tim Driscoll como Bart e de Devin Ratray como Cole, os filhos de Ray e Martha e que estão muito interessados no dinheiro do “novo rico” tio Woody. A atriz Angela McEwan aparece pouco como Peg Nagy, ex-namorada de Woody, mas sempre que ela aparece, ajuda a enternecer a história. Presença marcante.

Da parte técnica do filme, além da impecável direção de fotografia de Phedon Papamichael e da direção segura de Alexander Payne, vale destacar a excelente trilha sonora de Mark Orton. Ele resgata músicas importantes daquele cenário e que ajudam a ambientar o público no ambiente que é quase um personagem da trama. Muito boa também a edição de Kevin Tent.

Nebraska estrou no Festival de Cannes em maio de 2013. Depois de participar de Cannes, o filme passou por outros 15 festivais. No próximo dia 3 de março ele vai participar do último da lista, o Festival de Cinema de Belgrado. Nesta trajetória, o filme ganhou 24 prêmios e foi indicado a outros 61 – números impressionantes. Além destas indicações, Nebraska está concorrendo em seis categorias do Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano entregue pela AFI Awards; Melhor Ator para Bruce Dern no Festival de Cannes; Melhor Ator para Bruce Dern, Melhor Ator Coadjuvante para Will Forte e ser escolhido para o Top Ten Films do ano pelo National Board of Review; Melhor Diretor pelo prêmio da audiência do Festival de Cinema Internacional de Roterdã; Melhor Filme no FIPRESCI Prize do Festival de Cinema de Estocolmo; e Melhor Elenco no Satellite Awards.

Para quem gosta de saber sobre os locais de filmagens das produções, Nebraska foi, de fato, rodado em diferentes cidades de Nebraska (incluindo a de Lincoln), e em Billings, Montana.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o ator Bryan Cranston fez o teste para o papel de David, mas o diretor Alexander Payne acabou opinando que ele não tinha o perfil adequado para o papel. Também acho que fazia falta um ator um pouco mais jovem que Cranston, ainda que ele seja genial. Outros nomes considerados para o papel: Matthew Modine, Paul Rudd e Casey Affleck.

Antes da definição por Bruce Dern, o papel de Woody foi cogitado para Gene Hackman, Robert Forster, Jack Nicholson e Robert Duvall.

Alexander Payne nasceu em Nebraska. Na cena do cemitério, a família dele ganhou uma referência com uma lápide com o nome Payne.

Nebraska teria custado cerca de US$ 12 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até ontem, dia 10 de fevereiro, o filme tinha acumulado um resultado de pouco mais de US$ 15 milhões. Ainda lhe falta uma boa estrada para conseguir garantir o lucro dos produtores. E pelo perfil do filme, bem independente, isso será difícil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Nebraska. Uma avaliação muito boa para o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 174 textos positivos e 16 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 8.

Nebraska é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de filmes daquele país que viraram foco de uma série de crítica por aqui após votação no blog.

CONCLUSÃO: A família ganha evidência nesta produção da mesma forma que em August: Osage County. Os dois filmes, aliás, guardam outras semelhanças, como um mergulho profundo e interessante na cultura e no estilo de vida de cidades do interior dos Estados Unidos e nas relações familiares que formam estes cenários. Mas diferente de August: Osage County, Nebraska tem mensagens redentoras e um final emocionante.

Esqueça as brigas e o filme liderado por mulheres. Nebraska tem muitos silêncios, observação e o predomínio das interpretações masculinas – em um tipo de filme cada vez mais raro em Hollywood. Além disso, Nebraska se destaca por fotografia maravilhosa e por uma trilha sonora envolvente. Grande trabalho, e que mereceu receber uma certa evidência ao ser indicado em seis categorias do Oscar. Assista sem moderação e sem pressa.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Filme de baixo orçamento, comparado a outras produções que estão bem indicadas ao Oscar, Nebraska deve comemorar as suas seis chances por uma estatueta dourada. Esta produção está na disputa por Melhor Filme, Melhor Ator (Bruce Dern), Melhor Atriz Codjuvante (June Squibb), Melhor Direção de Fotografia, Melhor Direção e Melhor Roteiro Original.

Francamente, mesmo que eu tenha gostado muito do filme, não achei que ele mereceu todas estas indicações. Certo que o roteiro é muito bom, assim como a direção de Alexander Payne e o trabalho dos atores. Mas não vejo que Bruce Dern ou June Squibb tenham qualquer chance frente aos concorrentes diretos.

Provavelmente a melhor chance do filme no Oscar seja na categoria Melhor Direção de Fotografia. De fato o trabalho de Phedon Papamichael é excepcional. Há cenas verdadeiramente impactantes em uma fotografia preto e branco marcante. Em Melhor Direção acho difícil Payne desbancar o favorito Alfonso Cuarón (pelo trabalho com Gravity, comentado aqui). E mesmo Martin Scorsese (de The Wolf of Wall Street, com crítica por aqui) de ou Steve McQueen (de 12 Years a Slave, comentado aqui) teriam o meu voto antes de Payne.

Na categoria de Melhor Roteiro Original a disputa está boa, forte. Meu voto iria para Her (comentado aqui), mas acredito que estejam liderando a disputa Blue Jasmine (com crítica por aqui) e American Hustle (comentado aqui). Para o meu gosto, nenhum destes favoritos é melhor roteiro que Her ou Dallas Buyers Club (com crítica por aqui). Mas a Academia deve pensar diferente. 🙂 Logo saberemos.

OBS: Vale lembrar que o filme foi indicado a cinco prêmios no Globo de Ouro e saiu da premiação de mãos vazias. O Globo de Ouro nunca foi um indicativo para o Oscar, especialmente nos últimos anos, mas este pode ser um sinal para o prêmio da Academia.