Forushande – The Salesman – O Apartamento

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Um filme surpreendente, sutil e contundente ao mesmo tempo. Forushande é surpreende na história, sutil na narrativa e contundente na mensagem. Mais um trabalho excepcional do diretor Asghar Farhadi. O ideal é que você, como eu, procure saber o menos que puder do filme antes de assisti-lo. Só assim Forushande terá o impacto em você da forma correta e como o diretor imaginou.

A HISTÓRIA: Começa mostrando uma cama. Luzes de teatro. A iluminação é ajustada para mostrar não apenas um sofá, mas também uma mesa e cadeira. Depois, a luz ilumina duas camas. Enquanto o cenário da peça está sendo finalizado, ouvimos os atores aquecendo a voz. Corta. Emad (Shahab Hosseini) é acordado pelos vizinhos, que evacuam o prédio porque ele está ruindo. Do lado de fora, um trator trabalha no solo e prejudica a estrutura do prédio em que Emad morava com Rana (Taraneh Alidoosti).

Os dois, que são atores de teatro e encenam juntos a peça que começamos a ver no início da produção, acabam ficando sem casa. Eles procuram um lugar para ficar, e o colega deles da peça, Babak (Babak Karimi), afirma que pode ajudá-los. É assim que eles se mudam para o apartamento que Babak tem disponível para alugar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Forushande): Alguns filmes, pelos nomes envolvidos na produção e/ou pelo número de prêmios que os cercam, criam uma grande expectativa. Eu tinha uma grande expectativa sobre Forushande. E vocês sabem, quanto maior a expectativa, maior a possibilidade da gente se frustrar com o que vamos assistir.

Mas não foi isso que aconteceu com este filme com roteiro e direção de Asghar Farhadi. O realizador já tem trabalhos brilhantes no currículo, mas este Forushande é, mesmo no contexto dele, um ponto fora da curva. Cada palavra do roteiro tem um propósito, está ali a serviço da narrativa. E o próprio desenrolar da história é muito interessante.

Primeiro o filme nos prega algumas “peças”. Forushande é surpreendente em mais de uma ocasião. Além disso, ele tem a qualidade de tratar o espectador com respeito, valorizando a inteligência e a atenção de quem está assistindo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, não é evidente quando Emad encontra o dinheiro no apartamento que foi invadido de que o bandido que fez isso estava “pagando” pelos “serviços” da inocente Rana. Essa interpretação terá que ser feita pelo espectador.

Algo que eu acho impressionante neste filme é como ele joga com as simbologias e com os pequenos detalhes significativos todo o tempo. Por exemplo, o filme começa com um prédio sendo destruído pela ambição de alguém. Ora, a história que virá em seguida mostra, na prática, como um lar pode ir às ruínas por causa da atitude e das escolhas das pessoas.

A alegoria do lar em ruínas é um ponto fundamental nesta narrativa. Emad, fruto de sua cultura machista e patriarcal, onde a função do homem é proteger a sua mulher e ser o “provedor” da casa, faz tudo errado depois que a nova casa deles é invadida. Ao invés de ter um olhar de cuidado e de compreensão para a mulher, Rana, vítima de violência gratuita, ele se prende à ideia que a sociedade faz do “macho” da casa e empreende uma busca por vingança angustiante.

Desta forma, Forushande se revela brilhante em dois sentidos. Primeiro, ao fazer o paralelo inevitável entre a vida real de Emad e Rana e das demais pessoas que fazem parte da vida deles e a peça que o casal protagoniza, A Morte de um Caixeiro-Viajante, do dramaturgo Arthur Miller.

Qual é a essência da peça de Miller? Ele trata de um vendedor que não é bem-sucedido em sua vida profissional e que, desta forma, não importando as suas relações pessoais ou valores, ele é considerado um fracassado. E nada pior para uma sociedade que mede as pessoas pelo seu sucesso do que alguém ser fracassado. Miller escancara, assim, os valores do “sonho americano” e a sua hipocrisia.

Pois bem, agora vamos pensar na história central deste filme. Emad, apesar de ser um sujeito inteligente e “culto” – afinal, ele é professor e ator de teatro -, reproduz exatamente o que a sociedade dele exige. Quando a casa dele é invadida e Rana é agredida, Emad assume para si a posição de fracassado. Afinal, segundo a sociedade em que ele vive, a sua função primordial é dar segurança para a mulher e prover a casa em que eles vivem.

O filme não deixa totalmente claro, assim como outros pontos da história em que vários fatos são sugeridos e não enfatizados, mas tudo indica que Rana foi, mais que agredida, também estuprada. O estupro fica mais que sugerido por três pontos: primeiro, a vergonha da vítima de falar sobre isso, ao ponto dela se recusar a prestar queixa na delegacia; depois pelo fato do crápula deixar dinheiro na casa como uma espécie de “pagamento” pelo sexo e, finalmente, isso fica intrínseco quando o criminoso diz para Emad que caiu em tentação – ora, isso não seria pela violência, não é mesmo? Sim, o crime é mais que ultrajante.

Frustrado por essa cobrança que ele mesmo sente que vem da sociedade, Emad acaba se deixando levar por uma vingança que o próprio coletivo parece “cobrar”. Ao fazer isso, ele não percebe que está virando as costas para a esposa e vítima da situação, Rana. É desta forma que a casa deles desmorona pra valer, não apenas de maneira figurada. Então sim, existe uma razão para termos o paralelo entre a história do casal e a peça de Miller.

Com essa ligação, Farhadi parece nos mostrar como a arte está sempre se apropriando da vida e como a vida, quando não é refletida, pode eternamente repetir a arte (especialmente quando esta reflete padrões sociais). O diretor também demonstra, de maneira muito franca, como pessoas inteligentes, “intelectuais”, pessoas que ajudam a formar outras pessoas e que inspiram muita gente podem também ter comportamentos tão sem reflexão como qualquer outra pessoa “menos culta”.

Para finalizar, algo que achei fantástico neste filme é a mensagem contundente que ele nos deixa no final. Sim, o crime praticado por Naser (Farid Sajjadi Hosseini) é abjeto, desprezível, digno de condenação. Buscar o culpado e saber a verdade é algo totalmente compreensível. Mas o que não dá para concordar é com a busca pela vingança de Emad. Afinal, tudo aquilo que ele fez e o que ele causou para Naser e sua família mudam alguma coisa?

De forma muito sincera e contundente Forushande mostra que a violência só gera violência e não traz nenhum conforto ou alento. Pior do que o crime de Naser foi o que fez Emad. Afinal, se Naser fez o que fez de forma intempestiva – o que não lhe exime de culpa, claro -, Emad sequestrou e foi responsável indiretamente pela morte dele de caso pensado. Então quem tem mais culpa?

Sim, perdoar é algo complicado. Muitas vezes exige grande esforço e tempo. Mas sem dúvida alguma traz um efeito muito mais benéfico do que buscar a vingança ou exigir que o outro pague por um erro praticando um erro ainda maior. Nós não somos ninguém para julgar os outros. Se temos o mínimo de fé, deveríamos deixar o julgamento para quem é de direito julgar.

Forushande, para mim, é um grande exemplo de que apenas o amor e o perdão nos fazem ir para a frente. O restante nos joga para trás e não nos leva a lugar nenhum. A vingança é o caminho certo para a destruição. Seja de uma pessoa, de várias pessoas, ou de um lar. Grande filme, sob todas as óticas. Sem dúvida merece cada um dos prêmios que recebeu e vai receber.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Asghar Farhadi é uma aula de cinema. Assim como a direção dele. O diretor iraniano, possivelmente o mais conhecido e brilhante de seu país, já tinha feitos ótimos filmes – cito os já comentados por aqui Le Passé e Jodaeiye Nader az Simin -, mas este Forushande realmente é especial. Ele é marcante em todos os sentidos, tanto pela história quanto pela narrativa e por cada um dos seus elementos que funcionam de forma magistral.

Acredito que os bons cineastas são como um bom vinho, vão ficando cada vez melhores com o tempo. Isso parece acontecer com Asghar Farhadi. O diretor, que tem 76 prêmios no currículo, tem a possibilidade, com Forushande, de conquistar o seu segundo Oscar. Outro filme feito por ele antes a conquistar uma estatueta dourada foi Jodaeiye Nader az Simin, vencedor em 2012 como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Agora, sem dúvida, ele merece levar mais uma estatueta para casa.

Fico pensando sobre como Farhadi é brilhante ao fazer um paralelo entre a hipocrisia das sociedades americana e muçulmana. Esse é um paralelo muito corajoso nos tempos atuais, de extremismo das duas partes. Afinal, a essência da crítica e dos atos abjetos dos extremistas que viram, muitas vezes, terroristas, é de que o Ocidente é uma sociedade pecadora e corrupta, hipócrita, condenável. Mas Forushande mostra como tanto a sociedade americana quanto a retratada neste filme estão doentes.

Onde está a hipocrisia das duas sociedades? Bem, sobre a americana eu acredito que nem preciso dizer. Sobre a mostrada no filme, essa hipocrisia fica clara na falta de transparência e verdade nas relações. Pouco a pouco Emad descobre que todos sabiam que no apartamento no qual ele e a mulher vão viver morava uma prostituta.

Ou seja, eles são colocados em uma situação de risco de forma inocente e por pessoas que eles tinham como amigas, como é o caso de Babak – que era “cliente” da mulher a exemplo do criminoso. Outra característica da hipocrisia da sociedade é que diversos homens casados, a exemplo de Naser, eram clientes da mulher que a sociedade inteira, inclusive eles, falam da boca para fora que é “louca” e que não é digna de qualquer respeito.

Ou seja, como Emad parece sugerir com Rana, a mulher é sempre culpada de tudo, como se o homem que a usa ou condena não fosse parte fundamental do problema ou, muitas vezes, ator fundamental da história. Desta forma, com Forushande, Farhadi deixa muito claro que a sociedade muçulmana não é melhor que a ocidental. Tudo depende das escolhas individuais das pessoas. Os indivíduos podem ser melhores. Se eles buscarem isso, quem sabe as sociedades comecem a melhorar também.

Bem no início do filme, temos uma fala que parece “solta no ar”, mas que não é. Um dos alunos de Emad pergunta para o professor, em uma aula, como alguém pode se transformar em uma vaca – a pergunta surge por causa de um livro que a turma está lendo. O professor responde: gradualmente. Pois bem, uma pessoa culta e “bacana” pode se transformar em um algoz e em um criminoso gradualmente. Para isso, basta ela querer e se deixar levar por “sugestões” da sociedade e pelos seus próprios instintos destrutivos.

O roteiro de Farhadi é a grande qualidade desta produção. A direção dele também é uma aula de cinema. Afinal, ele está sempre valorizando a interpretação dos atores, ponto fundamental desta história. A dinâmica entre eles é um ponto fundamental no filme.

Da parte técnica da produção, vale destacar também a direção de fotografia de Hossein Jafarian, a edição de Hayedeh Safiyari, os figurinos de Sara Samiee, a maquiagem de Mehrdad Mirkiani e a direção de arte de Keyvan Moghaddam.

Como em todos os filmes de Farhadi, onde a interação entre os personagens joga um papel fundamental, em Forushande, mais uma vez, o trabalho dos atores é fundamental. Por isso mesmo o diretor escolhe eles a dedo. Nesta produção, vale destacar, especialmente, o excelente trabalho dos atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini. Eles estão fantásticos. Tanto nos momentos de “rompante” quanto nos mínimos detalhes da interpretação. Também faz um belo trabalho em um papel difícil o ator Farid Sajjadi Hosseini. Eles são os destaques do filme.

Outros atores com papéis menores, praticamente pontas, que merecem ser citados são Motjaba Pirzadeh como Majid, genro de Naser; Mina Sadati como Sanam, mulher de Naser; e Sam Valipour como Sadra, filha de Naser.

Algo me incomodou bem no início do filme. Antes de Forushande começar a me surpreender. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apesar de serem pessoas cultas e “do bem”, Emad e Rana não se importam de tirar todos os pertences da inquilina anterior e colocá-los do lado de fora da casa. Depois dos objetos pegarem chuva, eles resolvem colocá-los novamente para dentro do apartamento. Mas o que me incomodou é que independente de quem era a inquilina anterior ou as razões que a faziam não tirar os objetos da casa logo, realmente eles precisavam fazer aquilo?

Eles não deveriam ter se colocado no lugar da antiga inquilina e terem se perguntado se eles gostariam que aquilo fosse feito com eles na mesma situação? Enfim, quando você para de pensar no que é certo para pensar apenas no que é mais conveniente sem se colocar no lugar do outro é que tudo desanda. Claro que nada disso justifica o que acontece com Rana, mas realmente a nossa sociedade tem problemas porque nós mesmos agimos de forma equivocada com mais frequência do que deveríamos fazer ou aceitar. Está mais que na hora de um exame de consciência individual e coletivo. Aqui em todas a partes.

Sobre a peça de Arthur Miller, existem muitos textos disponíveis na internet. Achei interessante e recomendo este trabalho escrito por Antonius Gerardus Maria Poppelaars e Sandra Amélia Luna Cirne de Azevedo e publicado na Revista Estudos Anglo-Americanos. O bacana do texto é que ele faz um paralelo do trabalho de Miller e a ilusão do sonho americano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a Forushande, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 95 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,1. As duas avaliações são bastante positivas se levarmos em conta os padrões do site. O filme merece.

Forushande é uma coprodução do Irã e da França.

Esta produção estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois o filme participou de outros 28 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 18, incluindo uma indicação para o Oscar como Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator para Shahab Hosseini e de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Filme em Língua Estrangeira no National Board of Review; para o Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique; para o de Melhor Filme Internacional no Satellite Awards; e para o de Melhor Filme segundo escolha do público no World Cinema Amsterdam.

Não encontrei informações sobre o quanto Forushande custou, mas apenas nos Estados Unidos o filme fez uma bilheteria de pouco mais de US$ 1,25 milhão. Nada mal para um filme estrangeiro no país.

Forushande foi totalmente rodado na cidade iraniana de Tehran.

Agora, duas curiosidades sobre esta produção. Forushande quebrou o recorde de um final de semana de estreia no Irã. Sucesso total de público, pois.

As rodagens do filme foram interrompidas devido a morte súbita de Yadollah Najafi, famoso gravador de som que atuou na produção.

Meus bons amigos e amigas do blog, este é último texto que eu publico por aqui neste formato que vocês conhecem há bastante tempo. Hoje à noite eu farei por aqui mais uma cobertura do Oscar e, a partir da semana que vem, vou mudar o formato das publicações aqui no blog. Logo mais conto todos os detalhes para vocês. Beijos e abraços e até mais!

CONCLUSÃO: Um filme sobre como uma casa pode ruir de maneira figurativa e na prática. Forushande trata desse e de vários outros temas, mas com uma atenção maior para os efeitos nocivos e permanentes que a vingança traz para uma casa – ou mais de uma. Como é comum nos filmes do diretor Asghar Farhadi, em Forushande refletimos obrigatoriamente sobre uma sociedade patriarcal, onde as mulheres tem claramente menos direitos do que os homens, por mais que nas aparências não pareça assim.

Este filme certamente fará sentido de forma diferente para cada pessoa. Para mim, além de tratar de vingança e de perdão, de violência e da escolha ou não pela perpetuação dela, Forushande trata sobre algo muito importante: que pessoas cultas não são sinônimo de boas ações, ou atitudes certas. Enfim, um filme que faz pensar em muitos pontos da nossa sociedade ou de tantas outras mundo afora. Com um roteiro incrível, um ritmo cadenciado, boas surpresas e atores afinados, eis mais uma grande produção de uma safra realmente diferenciada do Oscar.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: A disputa deste ano na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira tem dois grandes competidores e três filmes que concorrem por fora. A maior queda-de-braço será feita entre o alemão Toni Erdmann (comentado aqui) e o iraniano Forushande.

Quem acompanha sempre o blog já matou a charada sobre a minha preferência, não é mesmo? Sem dúvida alguma eu acho Forushande mais merecedor da estatueta dourada do que Toni Erdmann. Não que o filme alemão seja ruim. Mas acho ele muito menos interessante e bem acabado do que o filme de Asghar Farhadi.

Se eu fosse votar nesta categoria do Oscar, nenhuma dúvida sobre o voto para Forushande. Nas bolsas de apostas Toni Erdmann estava à frente boa parte do tempo, mas nas últimas semanas Forushande ganhou a dianteira. Eu espero que os apostadores e especialistas estejam certos.

Entre os outros concorrentes deste ano, acho inclusive A Man Called Ove (com crítica neste link) e Land of Mine (comentado aqui) mais interessantes, bem acabados e/ou surpreendentes que Toni Erdmann. O filme que realmente corre por fora e atrás é Tanna (com crítica aqui). Resumindo, espero que na noite deste domingo a Academia faça justiça e dê mais um Oscar para Farhadi e o seu Forushande.

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Indicados ao Oscar 2017 – Lista Completa e Avaliações

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Olá meus amigos e amigas do blog!

Mais uma vez estamos juntos em uma cobertura do Oscar. Desta vez, eu não pude publicar pela manhã a lista dos indicados e alguns comentários sobre eles, mas compartilhei na conta do blog no Twitter (@criticanonsense) um texto que eu produzi logo após os indicados serem anunciados no site do jornal para o qual eu trabalho, o Notícias do Dia.

É pelo site do jornal que eu devo, mais uma vez, acompanhar a entrega do Oscar deste ano. Farei ou mesmo pela conta do Twitter do blog, é claro. Bem, a divulgação dos indicados deste ano foi um pouco diferente do usual. Desta vez a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood abriu mão do formato de dois atores e/ou um(a) ator(atriz) e um(a) diretor(a) anunciando os nomes ao vivo em transmissão direta de um teatro para abraçar a ideia de vídeos produzidos para a data.

A proposta de dividir a lista de indicados – 24 categorias no total – em duas partes continuou valendo este ano. Nos dois trechos, um representante de diferentes categorias que compõe a fauna Hollywood – um roteirista, um diretor, um ator, uma atriz e uma cantora – se intercalaram falando sobre a emoção de serem indicados a um Oscar e enalteceram, claro, a premiação e a indústria do cinema.

Como era esperado, La La Land saiu com o maior número de indicações. O filme tem 14 chances de emplacar em 13 categorias da premiação. É verdade que ele é o favorito, até porque defende uma indústria autossuficiente e que precisa reafirmar a “máquina de sonhos” que ela representa em uma era de Donald Trump no poder. Ainda assim, não é certo que o filme vai levar o prêmio principal da noite.

Pela frente ele tem importantes concorrentes em diversas categorias. Com oito indicações cada um estão Arrival e Moonlight, dois grandes filmes desta temporada, cada um com as suas particularidades. O que estas duas produções tem em comum – e La La Land nem tanto – é um ótimo roteiro que sustenta os outros recursos que jogam à favor dos respectivos filmes.

Em seguida, aparecem com seis indicações Manchester by the Sea e Hacksaw Ridge. A verdade é que os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood souberam reconhecer a ótima safra que o cinema americano e de outros países soube produzir nesta temporada.

Praticamente todos os grandes filmes desta boa safra foram indicados – sempre há algum esquecimento, como Gleason, Cameraperson, Deadpool, Tom Hanks e, depende dos gostos, Finding Dory ou Captain America: Civil War. Da minha parte, fiquei feliz com a lista dos indicados. Para mim, é um raro ano de uma grande safra que acaba sendo reconhecida por seus valores e qualidades.

Entre os destaques individuais, vale destacar a 20ª – sim, a vigésima! – indicação ao Oscar da gigante Meryl Streep, e o resgate quase do ostracismo de Mel Gibson, que volta a ser indicado como Melhor Diretor após ter ganho um Oscar por Braveheart há nada menos que 21 anos.

Depois da Academia ser duramente criticada por não indicar atores e diretores negros, neste ano os votantes foram justos e indicaram todos os nomes que mereciam chegar lá – independente da raça deles. Desta forma, o Oscar 2017 tem um recorde de atores, atrizes e diretor negro indicados em uma única edição do prêmio. Vivemos novos tempos, ao menos no Oscar, e isso é um bom sinal.

Aliás, claramente a Academia quer dar uma mensagem para o mundo e para os americanos com os filmes que escolheu nas diferentes categorias deste ano. Há filmes sobre pacifismo, histórias que destacam o poder da comunicação e do diálogo, produções que tratam de violência, de desigualdade social e de segregação racial e, claro, o maior indicado que defende a busca pelos sonhos por todos – além de defender Hollywood.

As mensagens estão muito claras, e a entrega do Oscar deste ano promete ser dominada por discursos políticos e cheio de princípios. Será normal ver realizadores, astros e estrelas e diferentes profissionais defendendo a arte, a igualdade de oportunidades para imigrantes/migrantes de qualquer parte, respeito com as mulheres e todas as raças. Será uma premiação interessante, sem dúvida.

Acertei, até o momento, ao ter assistido a vários dos indicados deste ano – entre os nove finalistas como Melhor Filme, aqui no blog eu já comentei sobre cinco deles. Também acertei em quatro dos cinco documentários e em três dos cinco filmes em língua estrangeira. Agora a missão é assistir aos filmes que faltam desta ótima lista. Para quem não começou esta empreitada ainda, recomendo começar e seguir nela. A safra é boa.

Confira a lista de todos os indicados ao Oscar 2017:

Melhor Filme:

Avaliação: La La Land é um filme exuberante. Tecnicamente falando, perfeito. Mas a história… como eu gosto de filmes com um ótimo roteiro, para o meu gosto, La La Land deixa a desejar no roteiro. Não achei ele tão bom ou tão surpreendente quanto eu gostaria. Ele é o grande favorito deste ano, mas não é garantido que leve nesta categoria – vale lembra que no ano passado o “papa-prêmios” e favoritíssimo The Revenant perdeu na categoria principal para Spotlight. Pode acontecer novamente. Da lista de indicados, até agora, torço para Moonlight e Fences, com reais chances para o primeiro. Mas ainda preciso assistir a quatro da lista.

Melhor Ator:

Avaliação: Todos os atores da lista são ótimos, não há dúvidas. Andrew Garfield é estreante na categoria, enquanto Denzel Washington soma a sua sétima indicação. Admito que conforme a lista acima ia sendo divulgada neste 24 de janeiro de 2017, eu estava preocupada que Denzel não aparecia… para o meu alívio ele foi o último nome citado. Com isso, já revelo o meu favorito neste ano. Ele tem boas chances pelo ótimo trabalho em Fences, ainda que os apostadores apontem para Casey Affleck como favorito. Ainda preciso assistir a alguns desempenhos para realmente bater o martelo, mas neste momento o meu favorito é Denzel – acho que ele é sempre o meu voto, na verdade. 😉 Um dos grandes atores de sempre.

Melhor Atriz:

  • Isabelle Huppert (Elle)
  • Ruth Negga (Loving)
  • Natalie Portman (Jackie)
  • Emma Stone (La La Land)
  • Meryl Streep (Florence Foster Jenkins)

Avaliação: Lista incrível, vamos combinar! Alguns dos grandes talentos da história do cinema, como Meryl Streep e Isabelle Huppert, ao lado de jovens talentos já consagrados – Natalie Portman – e outros que ainda buscam uma primeira estatueta, como Emma Stone e Ruth Negga. A favorita é Emma Stone. E a verdade é que ela é o ponto alto de La La Land, junto com as qualidades técnicas do filme, é claro. Meryl Streep sempre merece um Oscar, mas não deve levar, mais uma vez. Quem tem mais chances de ganhar a estatueta da favorita Emma Stone, aparentemente, é mesmo Natalie Portman. Da minha parte, acho que se Emma Stone ganhar, não terá sido injusto. La La Land é o filme da vida dela.

Melhor Ator Coadjuvante:

Avaliação: Novamente grandes nomes na disputa. Da lista, só não conheço o trabalho de Lucas Hedges – ou não lembro dele, ao menos. Os outros quatro são geniais. Mas o favoritismo é claramente de Mahershala Ali. Quem pode roubar a estatueta dele é o veterano Jeff Bridges, que realmente é um dos pontos altos de Hell or High Water. Ainda preciso ver a alguns dos trabalhos para poder “votar”, mas inicialmente o meu voto iria mesmo para Mahershala Ali, ainda que Bridges também mereça.

Melhor Atriz Coadjuvante:

Avaliação: Mais uma categoria de alto nível este ano. Todos os nomes já demonstraram que tem talento de sobra. Naomie Harris está ótima em Moonlight, mas Viola Davis é outro nível em Fences. Sou suspeitíssima para falar, mas eu estou com a maioria que coloca ela como favorita nesta categoria – e eu votaria ainda por Denzel Washington, parceiro dela no filme, para Melhor Ator. Em sua terceira indicação no Oscar, sem nunca ter levado uma estatueta dourada para casa, eu estou na torcida por Viola Davis. Quem ameaça a vitória dela, me parece, são mesmo Naomie Harris e Michelle Williams.

Melhor Animação:

Avaliação: Ah, fiquei muito feliz que Kubo and the Two Strings chegou aqui. E não apenas nesta categoria, mas foi indicado também em outra – que virá na lista depois. O filme merece. É maravilhoso! Zootopia, sem dúvida, é o favoritíssimo nesta disputa. Ele tem um grande estúdio e a força da maior bilheteria entre os concorrentes a seu favor. Preciso ver aos outros três, mas acho que tanto Kubo quanto Zootopia merecem, cada um por razões diferentes. O primeiro, por sua proposta artística; o segundo, por tratar de forma inteligente e envolvente assuntos importantes.

Melhor Direção de Fotografia:

Avaliação: Mais uma categoria com grandes indicados. La La Land é o favorito, e com méritos. Realmente a fotografia do filme é um de seus pontos altos. Possivelmente o fator que faz a experiência valer o ingresso – junto com Emma Stone. Mas a fotografia de Arrival e, depois, de Moonlight, também são ótimas. Acredito que a estatueta dourada vá para La La Land, com Arrival correndo por fora.

Melhor Figurino:

  • Allied
  • Fantastic Beasts and Where to Find Them
  • Florence Foster Jenkins
  • Jackie
  • La La Land

Avaliação: Esta é uma das categorias em que estou mais desinformada, eu admito. Assisti a apenas um dos filmes da disputa. Ainda assim, sei que Jackie era, até há pouco, o favoritíssimo a ganhar nesta categoria. Com a avalanche de prêmios recebidos por La La Land no Globo de Ouro, o filme passou a ser também um forte concorrente. Eu ficaria dividida entre os dois, e mesmo sem ter assistido a Jackie – apenas vi fotos da produção. Mas La La Land, em uma noite de “papa-tudo”, pode levar aqui também.

Melhor Diretor:

Avaliação: Apenas grandes trabalhos apareceram nesta lista. Impossível não bater palma para cada realizador. O favorito na disputa é Damien Chazelle. Ele merece, até porque teve a visão criativa por trás da exuberância visual e narrativa de La La Land. Mas, da minha parte, torço um pouco por Barry Jenkins ou Denis Villeneuve para serem a “zebra” da noite. 😉 Mas não será injusto se Chazelle confirmar o favoritismo.

Melhor Documentário:

Avaliação: Filmes muito bacanas estão nesta lista. Fiquei muito feliz, em especial, por 13th ter chegado lá. Fire at Sea é um filme necessário, mas não é tão bom quanto poderia ser. Life, Animated é tão necessário quanto e melhor realizado, sem dúvidas. Apesar da qualidade destas produções, o favoritíssimo da categoria é O.J.: Made in America, um filme muito, muito americano. Ele conta uma história especialmente importante para os nascidos naquele país, ainda que, com um pouco de esforço, se veja um recorte “universal” na história mais que conhecida de O.J. Simpson. Senti a falta de Gleason, que seria o meu voto. Da lista que chegou na reta final dos indicados, torço por uma zebra, com vitória de 13th.

Melhor Curta Documentário:

  • Extremis
  • 4.1 Miles
  • Joe’s Violin
  • Watani: My Homeland
  • The White Helmets

Avaliação: Ainda não assisti a nenhum dos curtas desta categoria, mas pretendo fazer isso em breve e compartilhar com vocês as minhas impressões.

Melhor Edição:

Avaliação: Mais uma vez, grandes filmes na disputa. Difícil escolher o melhor, porque o trabalho de edição de todos é uma aula do ofício. Ainda assim, me parece, La La Land corre na frente. É o favorito, mais uma vez – algo normal para um filme tão bom tecnicamente. Se ele ganhar, será justo. Mas podem estragar a festa dele Arrival ou Moonlight. Pouco provável, no entanto, que isso aconteça.

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

Avaliação: Esta era, realmente, uma grande safra de filmes nesta categoria. Interessante a ascensão de Tanna. O filme roubou a vaga de outros fortes concorrentes, inclusive do limado com antecedência, com a divulgação da lista dos nove pré-finalistas, de Elle. Preciso assistir ainda a The Salesman que, segundo todos que andei lendo, é o único filme que pode roubar a estatueta dourada do favorito Toni Erdmann. Ainda que o filme alemão seja bom, prefiro A Man Called Ove ou Land of Mine. E tenho uma tendência muito grande de gostar de The Salesman porque eu admiro muito o trabalho do diretor Asghar Farhadi. Mas a estatueta deve ficar mesmo entre Toni Erdmann e The Salesman.

Melhor Maquiagem e Cabelo:

Avaliação: Única categoria com menos de cinco indicados, esta disputa parece ter um favoritíssimo: o sucesso de bilheterias e fracasso de críticas Suicide Squad. Me surpreendeu a indicação de A Man Called Ove, mas eu gostei dele ter emplacado em mais uma categoria além da anterior.

Melhor Trilha Sonora:

Avaliação: Só assisti a dois dos concorrentes, mas posso dizer que as indicações de La La Land e Moonlight foram justíssimas. As trilhas sonoras dos dois filmes são deliciosas e fundamentais para as duas histórias. Ainda assim, me parece, por razões óbvias, que esta categoria é praticamente uma barbada para La La Land. Não será injusto. O único realmente veterano entre os competidores é Thomas Newman por Passengers.

Melhor Canção Original:

  • “Audition (The Fools Who Dream)” – La La Land
  • “Can’t Stop the Feeling” – Trolls
  • “City of Stars” – La La Land
  • “The Empty Chair” – Jim: The James Foley Story
  • “How Far I’ll Go” – Moana

Avaliação: As músicas de La La Land são favoritíssimas. Da minha parte, gosto muito das duas, mas me parece que City of Stars é a que tem mais chances de levar a estatueta dourada. Corre por fora as canções dos filmes de animação, que por muitos anos dominaram nesta categoria, e que em 2017 são representadas por Moana e Trolls. Da minha parte, torço pelas músicas de La La Land – e meu voto iria com a maioria, desta vez.

Melhor Design de Produção:

  • Arrival
  • Fantastic Beasts and Where to Find Them
  • Hail, Caesar!
  • La La Land
  • Passengers

Avaliação: Mais uma vez, grandes competidores – não conheço apenas o trabalho de design de Hail, Caesar!, mas dos demais eu posso dizer que são trabalhos impecáveis. Novamente o favoritismo é de La La Land. Gosto muito também do design de produção de Arrival, um dos pontos fortes do filme. Mas não será injusto La La Land levar. O meu voto, provavelmente, também iria para ele.

Melhor Curta de Animação:

  • Blind Vaysha
  • Borrowed Time
  • Pear Cider and Cigarettes
  • Pearl
  • Piper

Avaliação: Mais uma vez esta é uma categoria em que eu ainda não assisti aos indicados. Mas em breve eu quero fazer aqui um post sobre eles.

Melhor Curta:

  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode

Avaliação: A exemplo da categoria anterior, ainda preciso assistir aos indicados para poder opinar. Quero fazer isso em breve.

Melhor Edição de Som:

Avaliação: Nesta categoria não esqueceram de Sully. 😉 Isso porque era quase que inevitável lembrar da edição de som feita nesta produção, claro. A concorrência é fortíssima. Todos são excelentes trabalhos na edição de som. Se a noite for para um filme “papar todas”, certamente La La Land vai levar nesta categoria também. Da minha parte, prefiro ainda o excepcional trabalho de Arrival ou, em segundo lugar, de Sully.

Melhor Mixagem de Som:

Avaliação: Três dos cinco indicados na categoria anterior estão indicados novamente por aqui, o que não é raro de acontecer. Quando um filme tem uma excelente edição de som, não raras vezes ele tem uma mixagem de som igualmente brilhante. O favoritismo, novamente, é de La La Land pela razão que comentei no item anterior. Meu voto, até por não ter assistido aos outros concorrentes, iria para Arrival.

Melhores Efeitos Visuais:

Avaliação: Aqui está a outra indicação de Kubo. 😉 Fiquei feliz pelo filme. Novamente, grandes filmes nesta disputa. Não conferi à maioria, por isso não me sinto exatamente na posição de opinar aqui, mas talvez este seja o caso de premiar Doctor Strange ou Rogue One: A Star Wars Story. Me parece. De qualquer forma, grandes sucessos nas bilheterias concorrem por aqui.

Melhor Roteiro Adaptado:

Avaliação: Como comentei na crítica de Moonlight, para o entendimento de alguns este filme deveria concorrer como Melhor Roteiro Original, enquanto para outros o certo seria Melhor Roteiro Adaptado. Na divulgação dos indicados feita pela Academia, a lista de Original saiu antes da de Adaptado e levei um susto ao não ver lá Moonlight. Sem dúvida alguma este filme merece estar lá. Tem um dos grandes roteiros do ano. A lista é forte. Acredito que os favoritos sejam Arrival, Moonlight e Fences, nesta ordem – ou não. Difícil escolher, já que são histórias tão diferentes. Eu ficaria mesmo entre Moonlight e Arrival – nesta ordem de preferência.

Melhor Roteiro Original:

Avaliação: Como muitas vezes acontece no Oscar, a categoria Melhor Roteiro Original apresenta filmes mais “fracos” do que na categoria anterior. Isso não é novidade. Desta lista, acredito que os favoritos sejam Manchester by the Sea e La La Land, possivelmente nesta ordem. Claro que se o musical estiver em uma noite de “papar tudo”, ele leva aqui também. Acho o roteiro do filme um de seus pontos fracos, mas sabem como é… quando a Academia quer premiar alguém, ela não é, exatamente, justa. Gosto muito também do roteiro de Hell or High Water.