Forushande – The Salesman – O Apartamento

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Um filme surpreendente, sutil e contundente ao mesmo tempo. Forushande é surpreende na história, sutil na narrativa e contundente na mensagem. Mais um trabalho excepcional do diretor Asghar Farhadi. O ideal é que você, como eu, procure saber o menos que puder do filme antes de assisti-lo. Só assim Forushande terá o impacto em você da forma correta e como o diretor imaginou.

A HISTÓRIA: Começa mostrando uma cama. Luzes de teatro. A iluminação é ajustada para mostrar não apenas um sofá, mas também uma mesa e cadeira. Depois, a luz ilumina duas camas. Enquanto o cenário da peça está sendo finalizado, ouvimos os atores aquecendo a voz. Corta. Emad (Shahab Hosseini) é acordado pelos vizinhos, que evacuam o prédio porque ele está ruindo. Do lado de fora, um trator trabalha no solo e prejudica a estrutura do prédio em que Emad morava com Rana (Taraneh Alidoosti).

Os dois, que são atores de teatro e encenam juntos a peça que começamos a ver no início da produção, acabam ficando sem casa. Eles procuram um lugar para ficar, e o colega deles da peça, Babak (Babak Karimi), afirma que pode ajudá-los. É assim que eles se mudam para o apartamento que Babak tem disponível para alugar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Forushande): Alguns filmes, pelos nomes envolvidos na produção e/ou pelo número de prêmios que os cercam, criam uma grande expectativa. Eu tinha uma grande expectativa sobre Forushande. E vocês sabem, quanto maior a expectativa, maior a possibilidade da gente se frustrar com o que vamos assistir.

Mas não foi isso que aconteceu com este filme com roteiro e direção de Asghar Farhadi. O realizador já tem trabalhos brilhantes no currículo, mas este Forushande é, mesmo no contexto dele, um ponto fora da curva. Cada palavra do roteiro tem um propósito, está ali a serviço da narrativa. E o próprio desenrolar da história é muito interessante.

Primeiro o filme nos prega algumas “peças”. Forushande é surpreendente em mais de uma ocasião. Além disso, ele tem a qualidade de tratar o espectador com respeito, valorizando a inteligência e a atenção de quem está assistindo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, não é evidente quando Emad encontra o dinheiro no apartamento que foi invadido de que o bandido que fez isso estava “pagando” pelos “serviços” da inocente Rana. Essa interpretação terá que ser feita pelo espectador.

Algo que eu acho impressionante neste filme é como ele joga com as simbologias e com os pequenos detalhes significativos todo o tempo. Por exemplo, o filme começa com um prédio sendo destruído pela ambição de alguém. Ora, a história que virá em seguida mostra, na prática, como um lar pode ir às ruínas por causa da atitude e das escolhas das pessoas.

A alegoria do lar em ruínas é um ponto fundamental nesta narrativa. Emad, fruto de sua cultura machista e patriarcal, onde a função do homem é proteger a sua mulher e ser o “provedor” da casa, faz tudo errado depois que a nova casa deles é invadida. Ao invés de ter um olhar de cuidado e de compreensão para a mulher, Rana, vítima de violência gratuita, ele se prende à ideia que a sociedade faz do “macho” da casa e empreende uma busca por vingança angustiante.

Desta forma, Forushande se revela brilhante em dois sentidos. Primeiro, ao fazer o paralelo inevitável entre a vida real de Emad e Rana e das demais pessoas que fazem parte da vida deles e a peça que o casal protagoniza, A Morte de um Caixeiro-Viajante, do dramaturgo Arthur Miller.

Qual é a essência da peça de Miller? Ele trata de um vendedor que não é bem-sucedido em sua vida profissional e que, desta forma, não importando as suas relações pessoais ou valores, ele é considerado um fracassado. E nada pior para uma sociedade que mede as pessoas pelo seu sucesso do que alguém ser fracassado. Miller escancara, assim, os valores do “sonho americano” e a sua hipocrisia.

Pois bem, agora vamos pensar na história central deste filme. Emad, apesar de ser um sujeito inteligente e “culto” – afinal, ele é professor e ator de teatro -, reproduz exatamente o que a sociedade dele exige. Quando a casa dele é invadida e Rana é agredida, Emad assume para si a posição de fracassado. Afinal, segundo a sociedade em que ele vive, a sua função primordial é dar segurança para a mulher e prover a casa em que eles vivem.

O filme não deixa totalmente claro, assim como outros pontos da história em que vários fatos são sugeridos e não enfatizados, mas tudo indica que Rana foi, mais que agredida, também estuprada. O estupro fica mais que sugerido por três pontos: primeiro, a vergonha da vítima de falar sobre isso, ao ponto dela se recusar a prestar queixa na delegacia; depois pelo fato do crápula deixar dinheiro na casa como uma espécie de “pagamento” pelo sexo e, finalmente, isso fica intrínseco quando o criminoso diz para Emad que caiu em tentação – ora, isso não seria pela violência, não é mesmo? Sim, o crime é mais que ultrajante.

Frustrado por essa cobrança que ele mesmo sente que vem da sociedade, Emad acaba se deixando levar por uma vingança que o próprio coletivo parece “cobrar”. Ao fazer isso, ele não percebe que está virando as costas para a esposa e vítima da situação, Rana. É desta forma que a casa deles desmorona pra valer, não apenas de maneira figurada. Então sim, existe uma razão para termos o paralelo entre a história do casal e a peça de Miller.

Com essa ligação, Farhadi parece nos mostrar como a arte está sempre se apropriando da vida e como a vida, quando não é refletida, pode eternamente repetir a arte (especialmente quando esta reflete padrões sociais). O diretor também demonstra, de maneira muito franca, como pessoas inteligentes, “intelectuais”, pessoas que ajudam a formar outras pessoas e que inspiram muita gente podem também ter comportamentos tão sem reflexão como qualquer outra pessoa “menos culta”.

Para finalizar, algo que achei fantástico neste filme é a mensagem contundente que ele nos deixa no final. Sim, o crime praticado por Naser (Farid Sajjadi Hosseini) é abjeto, desprezível, digno de condenação. Buscar o culpado e saber a verdade é algo totalmente compreensível. Mas o que não dá para concordar é com a busca pela vingança de Emad. Afinal, tudo aquilo que ele fez e o que ele causou para Naser e sua família mudam alguma coisa?

De forma muito sincera e contundente Forushande mostra que a violência só gera violência e não traz nenhum conforto ou alento. Pior do que o crime de Naser foi o que fez Emad. Afinal, se Naser fez o que fez de forma intempestiva – o que não lhe exime de culpa, claro -, Emad sequestrou e foi responsável indiretamente pela morte dele de caso pensado. Então quem tem mais culpa?

Sim, perdoar é algo complicado. Muitas vezes exige grande esforço e tempo. Mas sem dúvida alguma traz um efeito muito mais benéfico do que buscar a vingança ou exigir que o outro pague por um erro praticando um erro ainda maior. Nós não somos ninguém para julgar os outros. Se temos o mínimo de fé, deveríamos deixar o julgamento para quem é de direito julgar.

Forushande, para mim, é um grande exemplo de que apenas o amor e o perdão nos fazem ir para a frente. O restante nos joga para trás e não nos leva a lugar nenhum. A vingança é o caminho certo para a destruição. Seja de uma pessoa, de várias pessoas, ou de um lar. Grande filme, sob todas as óticas. Sem dúvida merece cada um dos prêmios que recebeu e vai receber.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Asghar Farhadi é uma aula de cinema. Assim como a direção dele. O diretor iraniano, possivelmente o mais conhecido e brilhante de seu país, já tinha feitos ótimos filmes – cito os já comentados por aqui Le Passé e Jodaeiye Nader az Simin -, mas este Forushande realmente é especial. Ele é marcante em todos os sentidos, tanto pela história quanto pela narrativa e por cada um dos seus elementos que funcionam de forma magistral.

Acredito que os bons cineastas são como um bom vinho, vão ficando cada vez melhores com o tempo. Isso parece acontecer com Asghar Farhadi. O diretor, que tem 76 prêmios no currículo, tem a possibilidade, com Forushande, de conquistar o seu segundo Oscar. Outro filme feito por ele antes a conquistar uma estatueta dourada foi Jodaeiye Nader az Simin, vencedor em 2012 como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Agora, sem dúvida, ele merece levar mais uma estatueta para casa.

Fico pensando sobre como Farhadi é brilhante ao fazer um paralelo entre a hipocrisia das sociedades americana e muçulmana. Esse é um paralelo muito corajoso nos tempos atuais, de extremismo das duas partes. Afinal, a essência da crítica e dos atos abjetos dos extremistas que viram, muitas vezes, terroristas, é de que o Ocidente é uma sociedade pecadora e corrupta, hipócrita, condenável. Mas Forushande mostra como tanto a sociedade americana quanto a retratada neste filme estão doentes.

Onde está a hipocrisia das duas sociedades? Bem, sobre a americana eu acredito que nem preciso dizer. Sobre a mostrada no filme, essa hipocrisia fica clara na falta de transparência e verdade nas relações. Pouco a pouco Emad descobre que todos sabiam que no apartamento no qual ele e a mulher vão viver morava uma prostituta.

Ou seja, eles são colocados em uma situação de risco de forma inocente e por pessoas que eles tinham como amigas, como é o caso de Babak – que era “cliente” da mulher a exemplo do criminoso. Outra característica da hipocrisia da sociedade é que diversos homens casados, a exemplo de Naser, eram clientes da mulher que a sociedade inteira, inclusive eles, falam da boca para fora que é “louca” e que não é digna de qualquer respeito.

Ou seja, como Emad parece sugerir com Rana, a mulher é sempre culpada de tudo, como se o homem que a usa ou condena não fosse parte fundamental do problema ou, muitas vezes, ator fundamental da história. Desta forma, com Forushande, Farhadi deixa muito claro que a sociedade muçulmana não é melhor que a ocidental. Tudo depende das escolhas individuais das pessoas. Os indivíduos podem ser melhores. Se eles buscarem isso, quem sabe as sociedades comecem a melhorar também.

Bem no início do filme, temos uma fala que parece “solta no ar”, mas que não é. Um dos alunos de Emad pergunta para o professor, em uma aula, como alguém pode se transformar em uma vaca – a pergunta surge por causa de um livro que a turma está lendo. O professor responde: gradualmente. Pois bem, uma pessoa culta e “bacana” pode se transformar em um algoz e em um criminoso gradualmente. Para isso, basta ela querer e se deixar levar por “sugestões” da sociedade e pelos seus próprios instintos destrutivos.

O roteiro de Farhadi é a grande qualidade desta produção. A direção dele também é uma aula de cinema. Afinal, ele está sempre valorizando a interpretação dos atores, ponto fundamental desta história. A dinâmica entre eles é um ponto fundamental no filme.

Da parte técnica da produção, vale destacar também a direção de fotografia de Hossein Jafarian, a edição de Hayedeh Safiyari, os figurinos de Sara Samiee, a maquiagem de Mehrdad Mirkiani e a direção de arte de Keyvan Moghaddam.

Como em todos os filmes de Farhadi, onde a interação entre os personagens joga um papel fundamental, em Forushande, mais uma vez, o trabalho dos atores é fundamental. Por isso mesmo o diretor escolhe eles a dedo. Nesta produção, vale destacar, especialmente, o excelente trabalho dos atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini. Eles estão fantásticos. Tanto nos momentos de “rompante” quanto nos mínimos detalhes da interpretação. Também faz um belo trabalho em um papel difícil o ator Farid Sajjadi Hosseini. Eles são os destaques do filme.

Outros atores com papéis menores, praticamente pontas, que merecem ser citados são Motjaba Pirzadeh como Majid, genro de Naser; Mina Sadati como Sanam, mulher de Naser; e Sam Valipour como Sadra, filha de Naser.

Algo me incomodou bem no início do filme. Antes de Forushande começar a me surpreender. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apesar de serem pessoas cultas e “do bem”, Emad e Rana não se importam de tirar todos os pertences da inquilina anterior e colocá-los do lado de fora da casa. Depois dos objetos pegarem chuva, eles resolvem colocá-los novamente para dentro do apartamento. Mas o que me incomodou é que independente de quem era a inquilina anterior ou as razões que a faziam não tirar os objetos da casa logo, realmente eles precisavam fazer aquilo?

Eles não deveriam ter se colocado no lugar da antiga inquilina e terem se perguntado se eles gostariam que aquilo fosse feito com eles na mesma situação? Enfim, quando você para de pensar no que é certo para pensar apenas no que é mais conveniente sem se colocar no lugar do outro é que tudo desanda. Claro que nada disso justifica o que acontece com Rana, mas realmente a nossa sociedade tem problemas porque nós mesmos agimos de forma equivocada com mais frequência do que deveríamos fazer ou aceitar. Está mais que na hora de um exame de consciência individual e coletivo. Aqui em todas a partes.

Sobre a peça de Arthur Miller, existem muitos textos disponíveis na internet. Achei interessante e recomendo este trabalho escrito por Antonius Gerardus Maria Poppelaars e Sandra Amélia Luna Cirne de Azevedo e publicado na Revista Estudos Anglo-Americanos. O bacana do texto é que ele faz um paralelo do trabalho de Miller e a ilusão do sonho americano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a Forushande, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 95 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,1. As duas avaliações são bastante positivas se levarmos em conta os padrões do site. O filme merece.

Forushande é uma coprodução do Irã e da França.

Esta produção estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois o filme participou de outros 28 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 18, incluindo uma indicação para o Oscar como Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator para Shahab Hosseini e de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Filme em Língua Estrangeira no National Board of Review; para o Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique; para o de Melhor Filme Internacional no Satellite Awards; e para o de Melhor Filme segundo escolha do público no World Cinema Amsterdam.

Não encontrei informações sobre o quanto Forushande custou, mas apenas nos Estados Unidos o filme fez uma bilheteria de pouco mais de US$ 1,25 milhão. Nada mal para um filme estrangeiro no país.

Forushande foi totalmente rodado na cidade iraniana de Tehran.

Agora, duas curiosidades sobre esta produção. Forushande quebrou o recorde de um final de semana de estreia no Irã. Sucesso total de público, pois.

As rodagens do filme foram interrompidas devido a morte súbita de Yadollah Najafi, famoso gravador de som que atuou na produção.

Meus bons amigos e amigas do blog, este é último texto que eu publico por aqui neste formato que vocês conhecem há bastante tempo. Hoje à noite eu farei por aqui mais uma cobertura do Oscar e, a partir da semana que vem, vou mudar o formato das publicações aqui no blog. Logo mais conto todos os detalhes para vocês. Beijos e abraços e até mais!

CONCLUSÃO: Um filme sobre como uma casa pode ruir de maneira figurativa e na prática. Forushande trata desse e de vários outros temas, mas com uma atenção maior para os efeitos nocivos e permanentes que a vingança traz para uma casa – ou mais de uma. Como é comum nos filmes do diretor Asghar Farhadi, em Forushande refletimos obrigatoriamente sobre uma sociedade patriarcal, onde as mulheres tem claramente menos direitos do que os homens, por mais que nas aparências não pareça assim.

Este filme certamente fará sentido de forma diferente para cada pessoa. Para mim, além de tratar de vingança e de perdão, de violência e da escolha ou não pela perpetuação dela, Forushande trata sobre algo muito importante: que pessoas cultas não são sinônimo de boas ações, ou atitudes certas. Enfim, um filme que faz pensar em muitos pontos da nossa sociedade ou de tantas outras mundo afora. Com um roteiro incrível, um ritmo cadenciado, boas surpresas e atores afinados, eis mais uma grande produção de uma safra realmente diferenciada do Oscar.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: A disputa deste ano na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira tem dois grandes competidores e três filmes que concorrem por fora. A maior queda-de-braço será feita entre o alemão Toni Erdmann (comentado aqui) e o iraniano Forushande.

Quem acompanha sempre o blog já matou a charada sobre a minha preferência, não é mesmo? Sem dúvida alguma eu acho Forushande mais merecedor da estatueta dourada do que Toni Erdmann. Não que o filme alemão seja ruim. Mas acho ele muito menos interessante e bem acabado do que o filme de Asghar Farhadi.

Se eu fosse votar nesta categoria do Oscar, nenhuma dúvida sobre o voto para Forushande. Nas bolsas de apostas Toni Erdmann estava à frente boa parte do tempo, mas nas últimas semanas Forushande ganhou a dianteira. Eu espero que os apostadores e especialistas estejam certos.

Entre os outros concorrentes deste ano, acho inclusive A Man Called Ove (com crítica neste link) e Land of Mine (comentado aqui) mais interessantes, bem acabados e/ou surpreendentes que Toni Erdmann. O filme que realmente corre por fora e atrás é Tanna (com crítica aqui). Resumindo, espero que na noite deste domingo a Academia faça justiça e dê mais um Oscar para Farhadi e o seu Forushande.

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Le Passé – The Past – O Passado

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O espaço que o passado ocupa nas nossas vidas depende de uma decisão. O quanto nos faz bem ou nos interessa viver amando algo ou alguém que não existe mais? Le Passé, um dos fortes concorrentes ao próximo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira trata deste assunto. Com a revisita ao passado de alguns personagens, encontramos diversos sentimentos. Todos eles muito presentes no cotidiano destas pessoas, que tem dificuldade em romper com histórias desfeitas. Um filme forte pela forma da narrativa e que faz pensar por muito mais tempo do que a duração da trama.

A HISTÓRIA: Barulho de aeroporto. Marie Brisson (Bérénice Bejo) parece estar procurando alguém. Ela se anima quando vê Ahmad (Ali Mosaffa), e tenta chamá-lo estando fora da área de desembarque. Antes que ele a veja, ela tira a proteção que tinha no braço. Ahmad pergunta sobre o procedimento que deve adotar já que a mala dele não chegou. Ele sorri quando vê Marie, e pergunta sobre Lucie (Pauline Burlet).

Está chovendo fora do aeroporto, e Marie diz que eles devem ir para casa após pegar Lucie. Ele não gosta de saber que Marie não contou para as filhas que ele chegaria e nem reservou um hotel, como ele havia pedido. Mas ela justifica que não fez isso porque tinha dúvidas se ele viria. Depois de não encontrarem Lucie no colégio, Marie e Ahmad vão para a casa dela, onde ele encontra a Fouad (Elyes Aguis), filho do novo namorado de Marie. Este é apenas o início do mergulho de Ahmad no cotidiano da mulher de quem ele vai se separar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Le Passé): Muito interessante a o estilo do roteiro do diretor Asghar Farhadi escrito com a ajuda de Massoumeh Lahidji. Somos apresentados a um turbilhão de fatos sem entender, realmente, o que move aqueles personagens. Mas algo que podemos perceber, desde o início, é que existe uma forte ligação entre os protagonistas, Marie e Ahmad.

A reação dela, ao ver Ahmad no aeroporto, é emblemática. Mas depois, como quando deixamos a emoção por um segundo para que a razão tome conta, ela muda de expressão no carro e o passado mal resolvido começa a falar mais alto. Não sabemos o que aconteceu entre os dois, mas é evidente que nada terminou esclarecido entre eles. Depois, quando ele chega na mesma casa em que eles viveram juntos por vários anos, percebe-se o peso no ar.

Aos poucos vamos entendendo a motivação da visita, e todo o contexto que cerca os personagens principais. Há um conflito visível entre os adultos e as crianças – e a jovem Lucie. Ninguém parece estar feliz. E como se o espectador fosse uma visita invisível que chegou no mesmo voo de Ahmad, vamos descobrindo aos poucos as razões de tanto mal estar.

Este é um filme que trata justamente sobre isto: o peso do mal estar constante na vida das pessoas e das sociedades das quais elas fazem parte. O foco principal está em primeiro plano na tela: o quanto o passado pode comprometer o nosso presente. Mas há outros pontos que estão em segundo e terceiro planos, como o desmantelamento das famílias – especialmente dos casamentos – e a dificuldade nas relações entre diferentes origens étnicas em um país que atrai pessoas de diversas partes do mundo.

Quem nunca sofreu com um grande amor que atire a primeira pedra. Algumas vezes, de fato, é difícil deixar o passado para trás. Tentamos, nos esforçamos, mas parece que algumas ligações são indissolúveis. O quanto vamos deixar o passado ditar as regras do nosso presente é uma questão de escolha. Sim, porque por mais que algumas ligações perdurem e certas memórias insistam em aparecer, começar uma nova história depende, essencialmente, de força de vontade. De uma decisão.

Le Passé trata disto. De como Marie e Samir (Tahar Rahim) se esforçam para recomeçar. Mas a aparente convicção que eles tinham é fragilizada com a chegada de Ahmad. A vinda dele, após uma ausência de quatro anos, justamente é para que o recomeço de Marie possa ser oficializado. Ahmad viaja para assinar os papéis do divórcio. Mas o reencontro mexe com todos. Fica claro que as filhas de Marie gostam de Ahmad, e que ele também não conseguiu que a ligação deles acabasse.

Por essas e por outras que eu sou favorável ao distanciamento completo entre as pessoas quando um relacionamento amoroso termina. Não vejo muito como uma relação pode continuar quando tanto foi vivido, mas quase nada daquilo segue adiante. Como ficar próximo de alguém que se amou tanto e que agora a relação está colocada totalmente em outras bases? Para mim, isso sempre será um mistério. E neste Le Passé fica claro que reativar certas lembranças ou mesmo se aproximar de pessoas com quem se teve um passado não é nada bom para o presente e/ou o futuro que se quer criar diferente.

Como um filme de qualidade pede, vamos mergulhando na história e nos sentimentos dos personagens principais aos poucos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao lado de Ahmad, vamos descobrindo o porquê de tanto mal estar entre Lucie e a mãe e as razões do comportamento “revoltado” de Fouad. Primeiro, sabemos que Marie terá dificuldades de se casar com Samir porque a mulher dele está em coma no hospital. Na sequência, surge a razão do coma dela e, o mais chocante, o motivo que fazia Lucie resistir tanto à ideia do casamento de Marie e Samir.

Um tema presente do início ao fim desta produção é a dificuldade das pessoas em terem diálogos verdadeiros. De falarem o que estão sentindo e enfrentarem as próprias mágoas, ressentimentos e acessar de peito aberto aquelas gavetas internas cheias de peso e que vivem no breu. Especialmente as crianças neste filme, o que é especialmente interessante, tem dificuldade de expressarem o que estão sentindo. Digo que é especialmente interessante porque, normalmente, pensamos que as crianças e os jovens são mais diretos, francos, sem tantos filtros quanto os adultos.

Mas acredito que isto mude de figura quando crianças e jovens vivem em ambientes repressores. Não sou nenhuma especialista no assunto, mas Le Passé indica esta leitura. Lucie manifesta toda a desaprovação que tem com o novo relacionamento da mãe ao não voltar para casa, ao tentar ficar o máximo de tempo longe daquela realidade com a qual não concorda. Fouad, ainda criança, igualmente não gosta daquele ambiente. Pede para voltar para a casa onde vivia com Samir e a mãe. Ainda que o local traga tantas lembranças ruins. Mas nem Lucie e nem Fouad conseguem, inicialmente, verbalizar o que estão sentindo.

Para mim, ficou claro que Marie, em primeiro lugar, e depois o próprio Samir, não davam o espaço necessário para que as crianças se manifestassem – e daí incluo também Léa (Jeanne Jestin) que, apesar de não mostrar a revolta dos demais, claramente sente falta de Ahmad e parece se sentir um pouco perdida no novo cenário familiar. Marie parece, pelo menos no tempo em que a história transcorre, ser pouco afetuosa com os filhos.

A protagonista, vivida pela maravilhosa Bérénice Bejo, que tem uma interpretação impecável nesta produção, não sabe lidar bem com a situação e fica claramente dividida entre os dois homens – Ahmad e Samir. Eles chegam a disputar quem pode mais em duas situações distintas, pelo menos – nos reparos da casa, como o da pia, e na “orientação” de Fouad. Ahmad sente-se estranho naquele ambiente, mas é bom demais para sair correndo e fazer de conta que não tem responsabilidade com aquela família. Samir, por sua parte, não tem mais tanta certeza se deve seguir com Marie.

Ao mesmo tempo em que as tensões vão se explicando para o espectador, vamos acompanhando o presente e o passado dos personagens intercalando os seus protagonismos. Afinal, será que Marie e Samir vão conseguir caminhar para a frente? Quanto do que aconteceu com a mulher dele, em coma, e quanto da história do término da relação dela com Ahmad, nunca explicada, vai continuar ocupando as mentes e corações dos personagens?

O filme termina sem uma resposta. Até porque as pessoas, muitas vezes, não conseguem responder estas questões. A culpa pode ser devastadora, como comprovam as histórias de Lucie, Naïma (Sabrina Ouazani) e Samir. E a indecisão sobre que caminho trilhar para recomeçar a própria vida desgasta demais, como demonstra Marie.

Ter um filho  para forçar a barra em uma relação que nasce capenga é uma técnica antiga e que normalmente surte efeitos devastadores. Preferir esta via do que tentar um recomeço com quem se quer, ou ao menos buscando entender o passado, me parece uma lástima. Mas, algumas vezes, não restam muitas alternativas. Infelizmente as pessoas são mais complicadas do que deveriam e nem sempre procuram o caminho da honestidade e da franqueza. Esconder os próprios sentimentos e ser desonesto com quem se gosta é como alimentar um tumor. E que pode não ter cura.

Além de mergulhar nestes sentimentos e na vida de pessoas que tem dificuldades de seguir adiante, Le Passé trata dos conflitos entre pessoas de origens diferentes em uma sociedade em que é perigoso ser imigrante ilegal. Samir e Ahmad orbitam ao redor de uma comunidade árabe, mas não sabemos exatamente o quanto desta origem é importante para eles. Tudo fica subentendido.

Parece, por exemplo, que Ahmad ficou deprimido e resolveu sair da casa de Marie quatro anos antes desta história começar porque ele não se encaixava na França onde o filme se passa. Sabemos que ele está vindo de viagem e, pela conversa que ele tem com as crianças e com o amigo Sharyar (Babak Karimi), o roteiro dá a entender que ele voltou para o Irã. Samir tem origem árabe, mas não sabemos até que ponto ela pode ser importante para ele. Naïma é uma imigrante ilegal que consegue emprego com Samir, mas ela não fala francês direito e se sente sempre ameaçada pelo risco da deportação.

Esta vulnerabilidade acaba sendo importante para os personagens que parece estarem sempre em busca de um “encaixe melhor” na realidade em que estão vivendo. Alguns conseguem este feito com maior facilidade, mas outros não – a ponto de terem que sair daquele entorno. Um filme interessante, bem construído e com interpretações fortes. Merece chegar até o Oscar – mesmo que ele não sair vencedor.

NOTA: 9,7 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme consegue a proeza de reunir dois atores que me impressionaram muito, na primeira vez que os vi, e que por isso mesmo me “ganharam”: Bérénice Bejo, a atriz fenomenal que ajuda a dar alma para o premiado The Artist (com crítica aqui no blog); e Tahar Rahim, que arrasa no ótimo Un Prophète (comentado aqui). Quando vi que os dois estariam nesta produção, já despertei na minha memória sentimental uma expectativa considerável. Bejo de fato faz um grande trabalho neste filme, mas senti que Rahim poderia ter feito mais. Achei o ator um pouco apagado nesta produção – ele perde muito espaço na comparação com o excelente Ali Mosaffa. Não que Rahim esteja mal, mas acho que lhe faltou um pouco mais de intensidade. Ainda assim, o trio de protagonistas faz toda a diferença no filme.

Não consegui dar a nota máxima para Le Passé porque, apesar de humano, demasiado humano, o filme não me despertou a empatia ou provocou o impacto que outras produções recentes conseguiram. Na comparação com o filme anterior do diretor, por exemplo, achei Le Passé inferior. Mas nada grave. Ele perde pontos, inclusive, porque estou sempre comparando estes filmes que estão na pré-lista para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira entre si. Ou seja, como falarei melhor logo abaixo, Le Passé obrigatoriamente tem que ter uma nota menor que Jagten.

Aliás, como aconteceu em outros anos em que tentei assistir e comentar ao máximo de filmes cotados para o Oscar, desta vez também pode acontecer de algumas produções terem as suas notas modificadas conforme a lista for avançando. Isso porque, por coerência, tem que receber uma nota maior o filme que eu achei melhor, na comparação uns com os outros. E só vou saber isso conforme a “fila andar”. 🙂

Dois momentos desta produção ficaram “martelando” na minha cabeça por muito tempo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, aquela alegria incontida de Marie ao recepcionar Ahmad no aeroporto. Ficou evidente que ali existia muito amor ainda. Na verdade, no início do filme, cheguei a pensar que eles eram um casal – e que ele estava retornando após uma temporada fora de casa à trabalho, por exemplo. Ledo engano. Outra cena que eu acho marcante é quando Marie diz que não quer mais falar do passado, quando Ahmad tenta explicar o porquê a deixou quatro anos antes. É como se o diretor Asghar Farhadi estivesse sempre nos dizendo que as nossas expectativas devem ser frustradas. Afinal, a história – e a vida mesmo, muitas vezes – tem outra dinâmica que não a de acontecimentos perfeitos. Interessante.

O principal atrativo de Le Passé é o roteiro de Farhadi e Lahidji, junto com as interpretações dos atores. Afinal, este é um filme de diálogos, que conta uma história, muito mais do que uma produção de apuro técnico. Ainda assim, vale comentar a competente direção de fotografia de Mahmoud Kalari, a edição de Juliette Welfling e o design de produção de Claude Lenoir.

Le Passé estrou no circuito de cinemas francês e no Festival de Cannes no dia 13 de maio deste ano. Foi a estreia da produção nos cinemas. Depois, ela passaria ainda por outros 14 festivais. Nesta trajetória, o filme recebeu quatro prêmios e foi indicado a outros dois. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz e o Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes. Os outros dois que ganhou foram o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Durban e o Prêmio da Audiência no Oslo Films from the South Festival.

O filme é o indicado do Irã na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2014. Agora, acho essa indicação interessante. Ok que o diretor Asghar Farhadi nasceu no Irã em 1972 e tem a sua filmografia naquela país. Mas pelo que informa o site IMDb, Le Passé é uma coprodução da França e da Itália. Sempre achei esse tema da origem dos filmes na indicação ao Oscar curiosa.

Afinal, segundo consta na história da premiação, Orfeu Negro, uma produção do Brasil com a França e a Itália, ganhadora do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1960 e com a “alma brasileira”, consta como sendo uma vitória da França – o diretor Marcel Camus era francês. Acho tudo isso muito estranho. Afinal, o que importa é a origem do filme ou do diretor? No caso de Orfeu Negro, para mim parece incrível o filme não ser considerado brasileiro. Enfim, destes mistérios do Oscar que fica difícil de entender.

Falando em local em que o filme é feito, Le Passé não tem apenas nome francês e é falado naquele idioma, mas também foi totalmente rodado em Paris e em Sevran (um subúrbio próximo da capital francesa e que faz parte de Seine-Saint-Denis). Para mim, não é por acaso que Le Passé foi rodado na França. Afinal, aquele país sofreu e continua sofrendo com políticas que não favorecem a imigração.

Agora, uma curiosidade sobre Le Passé. Inicialmente, a atriz Marion Cotillard havia sido escalada para interpretar a protagonista deste filme. Mas ela acabou pulando fora do projeto por uma questão de conflito de agendas. Quando as filmagens de Le Passé começaram, em setembro de 2012, o filme De Rouille et d’Os, que tem uma interpretação incrível de Cotillard, tinha sido selecionado para participar de vários festivais e a atriz teve que viajar para promover a produção – comentada aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Le Passé teria faturado pouco mais de US$ 6,7 milhões nos mercados em que estreou até o momento. Achei pouco, ainda que me parece que este dado não seja muito atualizado. De acordo com o site IMDb, o filme passou em cinco festivais nos Estados Unidos, mas ainda não estrou no circuito comercial. A previsão é que ele entre em cartaz em poucos cinemas a partir do dia 20 de dezembro. No calendário do site não aparece, ainda, a previsão de estreia no Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Le Passé. Uma ótima avaliação, levando em conta o padrão do site. Poucos críticos que linkam os seus textos no Rotten Tomatoes viram o filme até agora. Mas há quase uma unanimidade entre as avaliações: 17 textos são positivos para o filme e apenas um é negativo – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média 8. Excelente nota também, levando em conta que é difícil um filme conseguir 8 ou mais por ali.

CONCLUSÃO: Eis um filme de grandes atores. Através do trabalho deles, nos envolvemos com a história de uma mulher que resolve colocar fim a um relacionamento antigo para se jogar em um novo casamento. Mas como na vida mesma, esta história não pode ser assim, tão simples. Le Passé vai se descortinando aos poucos, sem pressa, em um evidente contraste entre a percepção das crianças e da jovem que faz parte desta trama e dos adultos que tomam as decisões. Ninguém parece estar muito satisfeito com o que está acontecendo. E isso ocorre porque ninguém está feliz com o presente, tão contaminado com um passado aparentemente insolúvel.

Este é um filme que incomoda porque ele explora a nossa incapacidade de resolver os nossos próprios problemas. Trata da dificuldade de esquecermos grandes amores, na mesma medida em que a comunicação entre as pessoas parece ser um intricado quebra-cabeças. De quebra, Le Passé trata das dificuldades no entendimento dos valores e prioridades de diferentes culturas em um mesmo país. Um filme sobre o incômodo contemporâneo da falta de acerto. Bem escrito e com ótimas interpretações, se destaca por sua humanidade e pela capacidade de ser entendido em qualquer parte.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Ainda tenho que assistir a uma lista grande de filmes que estão tentando uma vaga no próximo Oscar mas posso dizer, desde já, que realmente Le Passé tem grandes chances de chegar até os cinco finalistas. Primeiro, porque este é um filme universal. Ou seja, os sentimentos, temas e valores tratados na produção podem ser compreendidas por espectadores de qualquer latitude. Ainda que nem todos tenham vivenciado ou presenciado situações de conflitos entre pessoas de diferentes origens, as dificuldades de comunicação e para recomeçar são compreensíveis em qualquer parte.

Depois porque o filme tem ótimas interpretações, toca em temas importantes, cresce com o passar do tempo e vem de um país que não é tradicional na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – o primeiro Oscar que o Irã recebeu na história da premiação foi dado em 2012 para o filme anterior de Farhadi, Jodaeiye Nader az Simin, comentado aqui no blog. Além disso, claro, Le Passé firma a ótima fase do diretor, que tem nada menos que 58 prêmios no currículo.

Difícil bater o martelo já sobre o próximo premiado nesta disputada categoria do Oscar 2014. Acho que Le Passé tem vários pontos que fazem ele ter grandes chances de sair vencedor mas, ao mesmo tempo, Farhadi ter sido premiado há pouco tempo pode ser um limitador para o filme. Além disso, Jagten (que tem um texto aqui no blog) me parece um filme mais forte, e com tema igualmente universal. Pessoalmente, entre os três filmes que estão concorrendo nesta categoria que eu assisti até agora – incluindo o brasileiro O Som ao Redor, comentado aqui -, meu voto iria para Jagten. Acho que o filme de Thomas Vinterberg consegue um impacto maior no espectador e também se diferencia mais que os demais.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Le Passé ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Le Passé, outros filmes que apareciam na lista dos especialistas como alguns dos favoritos, Gloria e Wadjda, também ficaram de fora. Interessante.

ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): Estou revendo algumas notas de filmes que estavam cotados para o Oscar deste ano – e que, por isso, estão incluídos nesta categoria aqui no blog. E ainda que Le Passé não chegou a avançar na disputa, acho que devo ser coerente e analisa-lo como se tivesse. Sendo assim, reduzi um pouco a nota do filme. E a verdade – vou confessar – é que desde o início eu achei que ele deveria ir com um 9,5. Mas como ele tinha sido tãoooo elogiado por aí, acabei sendo “boazinha” demais no início. Agora, estou mais coerente com a minha opinião.

Jodaeiye Nader az Simin – A Separation – A Separação

Uma cisão entre o compromisso com o passado e com o futuro. Como conseguir buscar o equilíbrio entre estes dois tipos de compromisso quando a realidade não permite este equilíbrio? A escolha entre um e outro sempre causa dor, mas a escolha sempre é possível. Sobre isso e muito mais é que trata Jadaeiye Nader az Simin, filme iraniano que é o grande favorito na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar. Profundo e potente em diversos sentidos, este filme, com o título internacional de A Separation, tem todos os elementos e os méritos para sair vencedor.

A HISTÓRIA: Vários passaportes e outros documentos de identidade ganham luz em uma máquina de xerox. Lado a lado, Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi) discutem sobre o pedido dela para o divórcio. O juiz pede mais detalhes, porque não está convencido. Em poucos minutos, sabemos sobre o impasse que levou o casal até aquele lugar e situação. Simin quer sair do país, viver no exterior em busca de um futuro melhor para a família, especialmente para a filha Termeh (Sarina Farhadi). Nader resiste a sair de seu país, porque não quer abandonar o pai (Ali-Asghar Shahbazi), que está em estado avançado do Mal de Alzheimer. Frente ao impasse, Simin decide se separar e sair de casa. Com esse gesto, Nader, que trabalha o dia todo fora, é obrigado a contratar alguém para ajudar a cuidar do pai doente. Desta forma é que Razieh (Sareh Bayat) entra na vida da família, e tudo se complica.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Jodaeiye Nader az Simin): Gostei muito da forma direta com que o filme começa. Logo nos primeiros minutos, sabemos sobre a essência do impasse do casal. De um lado, o compromisso de Nader com o pai, que simboliza as suas raízes, o seu passado – e, de forma intrínseca, a tradição do Irã. De outro lado, Simin e toda a sua amorosidade cheia de fibra, que busca fora do país as oportunidades que ela não vê no Irã – sendo mulher, ela sabe o que a filha poderá esperar dali no futuro.

Logo de cara, o personagem de Nader parece irrepreensível. Simin, para alguns, pode parecer uma traidora. Mas logo na cena da separação, no início do filme, cada um apresenta os seus argumentos. E Simin revela como a ideia de buscar um futuro melhor fora não foi só dela. Ainda que não tenhamos detalhes sobre o que aconteceu – nem no começo, e muito menos depois -, sabemos que o casal passou 18 meses trabalhando e ganhando dinheiro para conseguirem um visto para morar fora do país. E seis meses depois, faltando 40 dias para o prazo expirar, Nader resolve que não quer mais morar fora.

Enquanto o marido se agarra à enfermidade do pai como um forte argumento para não partir, Simin comenta que o estado avançado da doença não deixa nem ao menos o velho reconhecer quando o filho está próximo. Mas para Nader, isso não significa nada. O pai estar consciente ou não sobre o filho estar cumprindo as suas responsabilidades não vem ao caso. O compromisso dele independe do reconhecimento. Primeira grande lição do filme. Contra o argumento do compromisso com o passado, Simin rebate sobre o futuro da filha do casal. Ela diz que não quer que Termeh cresça sob “aquela situação”. O juiz pergunta sobre que situação ela está se referindo, e se as crianças daquele país não tem futuro. Simin não responde. E nem será preciso, porque o resto do filme responderá por ela.

Antes disto acontecer, Simin revela que a filha fará 11 anos duas semanas depois. Com esta idade, a menina só pode viajar com a mãe para fora do país com a permissão do pai. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Simin consegue o divórcio, mas não consegue o que mais gostaria, que é a presença da filha. Termeh decide ficar com o pai e o avô, enquanto a mãe vai para a casa dos pais. Ela não quer deixar o país sem a filha, mas também não pensa em continuar convivendo com Nader, com quem se decepcionou. E o filme segue em um crescente de conflitos e de decepções.

Inicialmente, como eu comentei antes, Nader parece o lado correto da história. O pêndulo está de seu lado. Simin, em uma leitura ligeira, parece apenas estar se livrando de um problemão, o de ter um sogro em estado avançado do Mal de Alzheimer. Mas as coisas não são tão simples assim, como o filme vai mostrando aos poucos – eis outra lição, de que qualquer leitura ligeira sobre uma determinada realidade tem uma grande probabilidade de estar errada.

A “situação” aquela da qual Simin quer afastar a filha é logo revelada. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para começar, um grande disparate entre as pessoas que vivem naquele país. Homens como Nader, que trabalham em um banco, estão em um patamar muito mais elevado do que Razieh e seu marido desempregado Hodjat (Shahab Hosseini). Não apenas uns tratam os outros de forma diferente, mas também a Justiça trata os indivíduos de forma distinta. Certo que Hodjat parecia sempre estar um tom acima do razoável, enquanto Nader mantinha a tranquilidade frente ao juiz mas, ainda assim, fica evidente o tratamento diferenciado que uns e outros recebem.

O tratamento de Nader com Razieh foi muito desigual desde o início. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E aqui talvez entre em jogo outra questão da sociedade iraniana: a supremacia do homem sobre a mulher. Ainda que eu tenha achado aquela sociedade mais “liberal” que outras do Oriente, porque Simin aparece dirigindo um carro, por exemplo, e porque é possível mulheres e homens dividirem os mesmos espaços sem grandes restrições, sempre parece que o homem tem uma voz mais ativa que a mulher. Outro ponto da “situação”. Nader não cede em nada que Razieh argumenta no início. Ele não se importa se ela tem que sair de madrugada de casa, carregando a pequena Somayeh (a encantadora Kimia Hosseini) pela mão. Ele não dá bola quando ela reclama que ele estava pagando pouco. Isso porque Nader sabe que há muita gente sem emprego, desesperada, e que se submeteria ao que ele estava propondo – mesmo sendo injusto.

O roteiro do diretor Asghar Farhadi é brilhante. Além de ir direto ao ponto no início, de apresentar rapidamente aquela que parece ser a questão primária da separação – mas que depois, vamos descobrindo, ser apenas uma parte das razões -, ele vai aumentando a tensão conforme o filme se desenrola. Partimos do conflito para o drama e, depois, para a tensão de uma disputa judicial com promessas de rompantes de descontrole – e, talvez, violência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei fascinante como Nader começa ganhando a batalha da simpatia do espectador, por não querer abandonar o pai doente – o que parece um argumento irrefutável -, e como depois ele vai perdendo pontos, conforme vai deixando a máscara cair. E mesmo que Simin não apareça tanto quanto ele na história, ela vai virando o jogo quando se solidariza com o ex-marido – mesmo que, novamente, sob o argumento de proteger a filha do casal.

E este é, para mim, o ponto fundamental desta história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pai e mãe argumentam, sempre, que estão buscando o melhor para a filha. E a ótima Sarina Farhadi, que interpreta a menina, fica apenas observando. Como nós também. Até que percebemos que ela nunca foi a razão principal da disputa. Nem do pai, nem da mãe. Ela se decepciona com a mãe, e fica triste quando ela realmente sai de casa. Depois, se decepciona com o pai, quando descobre que ele mentiu sobre algo fundamental – e pior, que fez ela mentir. Simin não se separou apenas porque queria sair do país. E Nader não ficou apenas por causa do pai. O casamento estava arruinado por outras razões, ainda que a desculpa do “melhor para a filha” permaneça nos discursos de Nader e Simin. Para resumir, ele não era o santo que parecia. E ela também não era a “megera desalmada” que uma análise rápida poderia levar a crer.

Famílias sempre são complexas, e as relações entre seus membros também. Há muito amor em jogo e, na falta dele, ressentimentos. Mas este filme fala também de comprometimento. Aliás, eis uma carga pesada em cena. Há compromissos com os pais, há responsabilidades com os filhos. E no meio de tudo isso, uma grande desigualdade entre classes sociais, que torna a conta que alguns tem que pagar muito mais pesada. Ainda que, mesmo os “abastados”, também tenham as suas faturas nada leves.

Outra questão que chama muito a atenção no filme é a questão da religião. Fica claro que alguns no Irã não tem apego nenhum pelo Corão, enquanto outros, como Razieh, são muito religiosos. A ponto de ligar para pedir uma consulta antes de praticar algum ato que possa ser considerado pecado. Quem não tem esta religiosidade, como Nader, parece considerar a religião algo de pessoas menos “instruídas”. Outra diferença grande entre as famílias que acabam se chocando nesta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sobre o grande mote do conflito entre estas famílias, evidente que Razieh não fez certo ao deixar ao velho senil em casa sozinho. E que Nader teve razão em ficar desesperado. Mas isso não tira a responsabilidade dele, ainda mais naquela sociedade, por ter sido tão bruto com aquela mulher. E sabendo da situação dela.

Chocante a forma com que ele tratou Razieh sem um pingo de consideração pela filha dela estar vendo tudo. (SPOILER  não leia… bem, você já sabe). Depois, impressionante também como ele não quis ceder em absolutamente nada para ajudar ela ou a família. Entendo e acho justo que ele não quisesse ser condenado por algo que ele não fez. Mas ele tinha condições de ter tornado a vida deles menos miserável. Simin quis colocar panos quentes, e levou a questão do acordo até o final.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Interessante a surpresa dela, assim como a dos demais, quando Nader pede para que Razieh jure sobre o Corão. Não houve piedade, em nenhum momento, e nem a capacidade mínima dele ceder em algo. Como é possível ter uma família assim. Como é possível ensinar valores para uma filha com esta filosofia? Não basta amar o passado e ter responsabilidade com os ancestrais. É preciso mais que isso. Qual seria a decisão final de Termeh? Pouco importa. E este é o final perfeito. Nader de um lado, Simin de outro. Não apenas do corredor, separados ainda por um vidro – sem possibilidade de comunicação, o que eles pareciam incapazes de ter. Mas na vida e no futuro. Talvez o espectador conseguiu escolher um lado. Como Termeh. Mas isso, também, pouco importa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu achei o filme perfeito. Roteiro incrível. Direção precisa, dando o devido protagonismo para os ótimos atores. Peyman Moadi, como Nader, e Leila Hatami, como Simin, são impressionantes. Cada um com as suas características – de quase permanente fúria, por um lado, e de costumaz racionalidade, de outro. Grande observadora da história, assim como nós, Sarina Farhadi também está ótima, com uma interpretação bastante comedida, mas muito emotiva. Ela, aliás, é filha do diretor – achei isso interessante. Sareh Bayat dá um banho. Shahab Hosseini está sempre um pouco além do tom, característica do personagem dele, o que torna o filme sempre um pouco tenso quando ele aparece em cena – ele parece carregar uma mágoa constante, e que ultrapassa aquela questão específica. E a pequena Kimia Hosseini como Somayeh rouba a cena a cada aparição. Grande trabalho também de Ali-Asghar Shahbazi. Não é fácil fazer o personagem do pai sênil.

Todos estiveram muito bem. Mesmo os atores secundários, como Babak Karimi, juiz que fazia os interrogatórios, ou Merila Zare’i, como a professora Ghahraii. Sem eles, os momentos tensos do filme – e eles não são poucos, para a nossa surpresa – não seriam tão verdadeiros e relevantes.

Mas nem tudo é perfeito, infelizmente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que a maioria de vocês, meus caros leitores, vai discordar de mim. Mas paciência. Vocês sabem que não deixo de opinar, mesmo sabendo que posso não agradar a todos. Queria muito ter dado um 10 para este filme. Mas algo que ele deixou sem resposta me incomodou muito. Afinal, foi muito relevante para a história a acusação de Nader sobre o roubo do dinheiro. Ele se descontrolou com Razieh não apenas por causa do pai, mas do alegado roubo. E ela, principalmente, tão religiosa, ficou mais indignada com esta acusação do que com o restante. E eis que o filme não nos explica, afinal, o que foi feito daquele dinheiro. Ele caiu atrás da gaveta e depois Nader o encontrou? Termeh havia pego ele por alguma razão e depois o devolveu? Nader havia colocado o dinheiro em outro lugar? Somayeh pegou ele sem falar para ninguém? Porque quando a menina disse para Nader que a mãe não tinha pego o dinheiro ele disse que sabia? Muitas perguntas sem respostas. E essa era uma questão fundamental. Isso me incomodou, a ponto do filme não receber a nota máxima – apesar de ter tantas qualidades.

Todo o filme é muito bem acabado, tecnicamente. Mas merecem menções os trabalhos de edição de Hayedeh Safiyari, fundamental para o bom ritmo da produção; a direção de fotografia bastante limpa e luminosa de Mahmoud Kalari; e o som captado por Mahmoud Samakbashi e equipe.

Incrível como uma ótima ideia e roteiro podem resultar em um filme barato. A Separation teria custado aproximadamente US$ 800 mil. Depois de estrear em apenas três cinemas nos Estados Unidos no dia 1º de janeiro, ele acumulou, até o último dia 22, pouco mais de US$ 541 mil de bilheteria. No restante do mundo, ele tinha acumulado pouco mais de US$ 13,4 milhões até o dia 30 de dezembro. Fiquei muito feliz em saber que o filme foi tão bem em diferentes países – com destaque para a França que, sozinha, garantiu US$ 6,1 milhões em bilheteria para ele. Desta forma, Farhadi deve continuar produzindo grandes histórias pra gente. 🙂

A Separation estreou no Festival de Berlin no dia 15 de fevereiro de 2011. Depois, ele passou por outros 28 festivais. Um número impressionante. Mas que ajudou, e muito, ao filme ser divulgado e reconhecido – com méritos. Até o momento, ele ganhou impressionantes 43 prêmios, e foi indicado a outros 20 – incluindo dois Oscars. Caso ele ganhar uma das estatuetas douradas mais cobiçadas de Hollywood, no próximo dia 26 de fevereiro, ele terá fechado um ano recheado de prêmios. Entre os que recebeu, destaque para o Urso de Ouro no Festival de Berlin como o melhor filme concorrente em 2011, e os ursos de prata de melhor ator para Shahab Hosseini e Peyman Moadi e os de melhor atriz para Leila Hatami e Sareh Bayat. Destaque também para o prêmio de melhor filme em língua estrangeira dado pelo National Board of Review e o de melhor filme no Festival de Cinema de Sydney.

Agora, algumas curiosidades sobre A Separation: grande parte desta produção foi rodada com uma câmera de mão. Este foi o primeiro filme a ganhar três ursos no Festival de Berlin, a primeira produção do Irã a ganhar um Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e a primeira daquele país a concorrer a um Oscar pelo seu roteiro.

Pela segunda vez na história um filme do Irã é indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Antes dele, concorreu à estatueta Children of Heaven, dirigido por Majid Majidi.

Para os curiosos, como eu, sobre as locações dos filmes: A Separation foi totalmente rodado na cidade de Teerã.

Os usuários do IMDb deram a nota 8,6 para o filme, uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 86 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante a impressionante marca de 99% de aprovação – e uma nota média de 8,8. Praticamente insuperável esta aprovação. O que torna a corrida dele no Oscar ainda mais tranquila.

CONCLUSÃO: Um filme potente sobre as razões de fundo que podem fazer um casal com uma bela filha e história se separar. A vida é complexa, e Jodaeiye Nader az Simin, mais conhecido como A Separation – título do mercado internacional – deixa isso muito claro. Com um roteiro sem sobras e com muitas cenas de tensão, o diretor Asghar Farhadi dá um show sobre interpretação de uma realidade social tendo um núcleo familiar e seus conflitos como argumento primário. As desigualdades do Irã ficam claras nesta produção, que não se limita àquele território porque trata de temas universais. Não apenas família, compromisso com o passado e com o futuro, mas também respeito pelo próximo, compaixão, amor e a perda da inocência a respeito dos nossos progenitores. Um grande filme, que não é perfeito apenas por um detalhe. De pouca importância, eu admito, mas que, ainda assim, impediu o tão aguardado 10. De qualquer forma, é imperdível.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Mais uma vez, não posso fazer uma análise totalmente embasada porque, afinal, não assisti aos outros concorrentes de Jodaeiye Nader az Simin ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar deste ano. Ainda assim, pelos prêmios que recebeu, pela quase total unanimidade da crítica e, claro, pela qualidade deste filme, posso dizer que ele tem 90% de chance de receber a estatueta dourada no próximo dia 26 de fevereiro.

Seria uma grande surpresa se esta produção não recebesse o Oscar. Esta sim, seria a grande zebra da premiação deste ano. Acredito que todas as apostas estejam nele. E seria algo bacana para Hollywood. Afinal, de uma maneira muito sutil, Farhadi critica a “situação” das coisas do Irã, um país governado pelo combatido presidente Mahmoud Ahmadinejad. Certamente seria um tapa com luva de pelica dar um prêmio tão importante para a indústria do cinema para um filme que trata sobre ruptura, sobre o “fim dos sonhos” de um casamento e de tantas outras questões tratadas com bastante simbologia nesta história. Mesmo sem ter assistido aos outros quatro concorrentes, se eu fosse apostar, apostaria neste filme como vencedor.

SUGESTÕES DE LEITORES: Só agora, ao responder aos recados dos bons leitores deste blog deixados em janeiro que eu percebi que A Separation tinha sido indicado por dois leitores: Vander e Mangabeira, ambos no dia 22 do mês passado. Meus caros, grande filme este, hein? Provavelmente o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro hoje à noite, na entrega do Oscar. Merecido, ainda que eu não tenha visto aos outros concorrentes para poder comparar. Obrigada por mais esta dica, Vander e Mangabeira! E inté mais!