Os curtas e as canções indicadas ao Oscar 2010


Faltam pouco mais de 24 horas para a festa de premiação mais badalada da indústria do cinema mundial. Mesmo que Hollywood tenha perdido há tempos o status de maior indústria do cinema do globo – os Estados Unidos fica bem atrás da Índia, o chamado cinema de Bollywood – e que várias outras premiações tenham um apelo maior entre os críticos, nenhum outro evento consegue atrair tanto as atenções da mídia e do público quanto o Oscar.

No início de fevereiro publiquei este texto comentando, rapidamente, sobre todos os indicados nas 24 categorias do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas para resgatar um hábito dos últimos anos, comento agora cada produção concorrente na categoria de Melhor Curta de Animação. Além disso, desta vez, amplio o leque para divulgar e comentar as outras categorias “menores” – leia-se menos badaladas – do Oscar. Aproveitem a deixa e se surpreendam com as boas descobertas que esta premiação ajuda a divulgar para os espectadores do cinema a cada ano. Em 2010 há filmes realmente excelentes na disputa entre os curtas-metragens.

Melhor Curta de Animação

Gosto muito desta categoria. Bem, na verdade de todas as que envolvem curtas. Isso porque é neste formato, normalmente, que grandes nomes começam as suas carreiras. Quando eles não iniciam produzindo curtas, suas trajetórias começam no meio publicitário ou na TV. Mas se você quer acompanhar um grande diretor de filmes de animação desde o início de sua carreira, fique de olho nos curtas do gênero.

Este ano, os cinco concorrentes para Melhor Curta de Animação vem da Europa. Há dois franceses (French Roast e o favorito Logorama), um irlandês, um inglês e um espanhol. Comecemos pelos franceses. Logorama, com direção e roteiro de François Alaux, Herve de Crecy e Ludovic Houplain conta uma história de ação protagonizada por logos. No total, segundo os produtores, aparecem no curta de 17 minutos pouco mais de 2,5 mil marcas. Uma reflexão interessante sobre a sociedade consumita moderna, aonde as marcas de diferentes empresas predominam nos cenários urbanos.

O curta tinha sido disponibilizado em duas partes no Youtube, mas infelizmente ele foi retirado a pedidos dos produtores. De qualquer forma, é possível assistir ao trailer da produção neste link ou acessando a página oficial do curta. Procurando um pouco mais, encontrei este site que disponibiliza o curta completo (mas sem legendas). Assisti a Logorama e posso dizer que é um curta incrível, politicamente incorreto de uma maneira inacreditável. Ele começa e termina embalado por canções apaixonadas, mas seu recheio é totalmente explosivo e violento. Ronald, a figura carismática do McDonald, é o grande vilão do curta. Ele rouba, mata, sequestra criancinhas, dirige como um louco pelas ruas da cidade e é perseguido por “homens da lei” caracterizados pelos bonecos da Michelin.

Não faltam palavrões e violência em Logorama. A cidade vira uma loucura com a perseguição a Ronald por policiais em viaturas e helicóptero, mas tudo fica ainda mais caótico quando a cidade começa a ser abalada por uma espécie de terremoto. A principal atração da cidade, um zoológico onde vivem animais como o leão da Metro Goldwyn Mayer, acaba ruindo e libertando a sua fauna pelas ruas. Todos procuram sobreviver, mas é a boneca da Esso (a “gostosona” da história) que trabalha como garçonete em uma lanchonete e um mal-educado menino “Big Boy” (símbolo da cadeia de restaurantes de mesmo nome) que conseguem empreender uma fuga desesperada antes que tudo desabe.

A forma com que o curta foi realizado, reproduzindo alguns dos recursos que fizeram os gêneros de ação e de catástrofes se tornarem sucesso de público, é brilhante. Além de ter um ritmo perfeito e um roteiro extremamente irônico e “desbocado”, Logorama mistura entretenimento com uma forte carga de ironia sobre nossa sociedade consumista, violenta e midiática. Não sei se a Academia terá coragem de premiá-lo, mas ele merece o Oscar. Até o momento, o curta recebeu 13 prêmios, com destaque para os de melhor curta no Festival de Estocolmo e para o Kodak Discovery Award entregue em Cannes.

O outro curta francês que concorre ao Oscar este ano é French Roast, com direção e roteiro de Fabrice Joubert. Diferente de Logorama, ele está disponível para ser assistido pelo Youtube – um dos links que recomendo é este, que permite assistí-lo em HD. A produção, com pouco mais de oito minutos de duração, esteve no Anima Mundi do ano passado. O curta, feito a partir de animação por computador em 3D, conta a história de um homem refinado que frequenta um tradicional café parisiense e que não sabe como lidar com a situação de ter esquecido a sua carteira em casa.

Ainda que tenha um roteiro bastante simplório, French Roast é interessante especialmente por brincar com algumas reações típicas dos franceses. Primeiro, a curiosa convivência das pessoas “normais” com figuras marginalizadas – muitas delas vivem nas ruas por vontade própria. Moradores de rua como aquele que aparece no curta tem a sua individualidade respeita pelos demais, especialmente se eles não incomodam com insistentes pedidos de ajuda.

Depois, o curta brinca com a falta de amabilidade dos garçons franceses – que parecem ser incapazes de um sorriso de cortesia. Claro que, como toda paródia, o curta exagera neste sentido – no geral os franceses são mais corteses e educados do que atendentes de outros países europeus. French Roast aborda ainda a questão da individualidade e do pavor que as pessoas tem em serem repreendidas – no caso do curta, o cliente “almofadinha” teme a vergonha de ser descoberto sem dinheiro na mesma medida em que fica em pânico quando ouve a sirene da polícia em certo momento de “esperteza”.

A exemplo do genial Rope (Festim Diabólico) do mestre Alfred Hitchcock, em French Roast toda a ação se desenvolve em um mesmo ambiente, com poucas mudanças no plano de visão do espectador. Um trabalho curioso, que brinca com a imagem que fazemos das pessoas e que tem na trilha sonora de Olivier Lliboutry um de seus pontos fortes – até porque é a música, mais do que os diálogos escassos, o que realmente dita a narrativa do curta. Um curta bacana, divertido, mas que não tem a força ou o apelo de Logorama.

Da Espanha surge para a competição La Dama y la Muerte (que recebeu o título de The Lady and the Reaper para o mercado internacional). Com direção e roteiro de Javier Recio Gracia, o curta com pouco mais de 8 minutos pode ser acessado integralmente neste link do Vimeo. Sem diálogos, La Dama y la Muerte “brinca” com uma questão ainda bastante controversa na Espanha e em outros países pelo mundo: o direito das pessoas em morrerem. Desde o caso de Ramon Sampedro, brilhantemente retratado por Alejandro Amenábar no filme Mar Adentro, a questão divide opiniões no país do flamenco.

La Dama y La Muerte lança um olhar diferente sobre o tema, ao explorar a disputa de um médico e da Morte pela alma de uma velha senhora. Nenhum deles – o médico orgulhoso de seus feitos ou a Morte, que busca cumprir a sua nova obrigação – está interessado em conhecer os desejos da protagonista. O curta explora muito bem e de forma dinâmica a queda-de-braços entre a ciência e a inevitabilidade da Morte. A religião conta pouco nesta história – ainda que fique sugerida a questão do Céu e do Inferno.

O tema principal do curta de Recio é mesmo a falta de compaixão da qual muitas pessoas, especialmente em idade avançada e incapazes de manifestar as suas vontades, são vítimas. La Dama y la Muerte conta com ironia como alguns profissionais da saúde fazem de tudo (muitas vezes por vaidade) para salvar a vida das pessoas não importando até que ponto elas podem estar sofrendo neste processo.

Sei que o tema é polêmico, mas ele me faz lembrar um amigo que trabalha com pacientes em UTI na Espanha e que questiona até que ponto a Medicina deve fazer de tudo para prolongar a vida de uma pessoa – a ponto de, muitas vezes, dar-lhe apenas mais algum tempo de vida em condições precárias e, muitas vezes, sentindo muitas dores no processo até o inevitável fim. A parte inicial do filme, com um uso muito interessante da iluminação e do contraste de cores, luz e sombra, é um de seus trechos mais interessantes. Depois, a produção ganha em ritmo, mas simplifica na direção de arte. O site de La Dama y la Muerte é bastante completo, disponibilizando inclusive um link para o blog dos produtores que conta detalhes sobre como o curta foi realizado.

O quarto concorrente ao Oscar de Melhor Curta de Animação é o irlandês Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty. Com direção de Nicky Phelan e roteiro de Kathleen O’Rourke, este curta de 6 minutos pode ser assistido (inclusive em HD) neste link do Youtube. Recomendo também o site oficial do curta, bastante completo e bem produzido. Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty aposta no humor para contar a história de uma avó que provoca calafrios em seu aterrorizado neto a cada noite.

A protagonista da animação insere na história da Bela Adormecida toda a sua amargura e revolta pela forma com que idosos como ela são tratados. Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty brinca com os padrões de beleza e os valores predominantes na nossa sociedade, assim como com a relação entre “avozinhas e seus netinhos”. É uma produção cômica e assustadora – especialmente para as crianças – ao mesmo tempo. Bem dirigido e com uma dinâmica acertada, é um curta envolvente, mas não atinge a qualidade de Logorama ou La Dama y la Muerte. Até o momento, o curta dirigido por Phelan ganhou 12 prêmios – incluindo o de melhor animação no Irish Film & Television Award.

O último concorrente deste ano é o inglês A Matter of Loaf and Death, que explora uma nova aventura da dupla Wallace and Gromit. Com direção de Nick Park e roteiro dele com Bob Baker, este curta com 29 minutos de duração – muito acima dos demais concorrentes – pode ser encontrado na internet (até o momento de publicar este texto ele estava disponível neste link do Myspace de um fã do curta. Caso o link seja apagado, é possível assistir ao trailer do curta no Youtube, neste link, assim como acessar este video que conta um pouco como a produção foi realizada.

A Matter of Loaf and Death é uma aventura com requintes de suspense envolvendo o fiel e engenhoso Gromit e o seu atrapalhado e ingênuo dono Wallace. Como o site oficial do curta revela, a história gira em torno do novo empreendimento de Wallace e Gromit, a padaria Top Bun na rua West Wallaby. Tudo caminha bem, até que as notícias nos jornais sobre o desaparecimento de vários padeiros naquele ano começam a preocupar Gromit. Aparentemente há um serial killer atuando na região.

Wallace, “cuca fresca” como sempre, não se abala com os noticiários. Primeiro porque ele está envolvido demais com o trabalho, depois porque ele fica fascinado pela figura da efusiva Piella Bakewell. Lembrando em alguns momentos o ritmo de um suspense de Hitchcock e, em outros, fazendo referências a filmes como Ghost (entre outros), A Matter of Loaf and Death cumpre o seu papel como entretenimento. Bem dirigido, com um trabalho impecável da equipe de animadores, este curta ainda conta com a popularidade dos personagens de Wallace e Gromit.

Conta a favor de A Matter of Loaf and Death também o fato de que Nick Park já ganhou quatro estatuetas do Oscar anteriormente – em três ocasiões por histórias de Wallace e Gromit. Em 1994 e 1996 a dupla de “heróis” levou Park a vencer na categoria de Melhor Curta de Animação. Em 2006 o diretor ganhou na categoria principal, como Melhor Animação, pelo longa Wallace & Gromit in The Curse of the Were-Rabbit. Park pode ser, por tudo isso, o favorito este ano, mais uma vez. Ainda que a produção tenha todos os méritos para ganhar o Oscar, seria interessante também uma zebra – meu voto ficaria com Logorama ou La Dama y la Muerte.

Melhor Canção Original

Como manda o figurino, o Oscar 2010 tem como fortes concorrentes nesta categoria composições produzidas para filmes de animação e musicais. Duas das músicas na disputa foram criadas para o filme The Princess and the Frog. A primeira delas, Almost There, composta por Randy Newman e interpretada por Anika Noni Rose, é a típica canção edificante dos filmes da Disney. Ela fala sobre superação e as lições amorosas que os pais podem ensinar para seus filhos. Aqui é possível escutar a música – sem videoclipe próprio.

Outra composição de Randy Newman, também produzida para o filme The Princess and the Frog, concorre este ano:Down in New Orleans. Bem mais trabalhada e complexa do que a representante anterior da animação da Disney, Down in New Orleans é uma forte candidata ao Oscar. A interpretação de Dr. John ajuda bastante a música, que é bastante animada e lembra o clima dos cabarés.

O musical francês Faubourg 36 (Paris 36 para o mercado internacional) entrou na disputa com a canção Loin de Paname, composta por Reinhardt Wagner com letra de Frank Thomas. A música, acessível através de vários clipes no Youtube (um deles é este), resgata a essência da música romântica parisiense. A intérprete da canção, Nora Arnezeder, tem uma voz preciosa, e canta com propriedade os versos que homenageiam a capital francesa. Ela canta no refrão, de forma muito musical, que Paris é a sua “única família”.

O super musical Nine, de Rob Marshall, praticamente esquecido pelo Oscar deste ano, conseguiu ao menos emplacar a canção Take It All entre as concorrentes. Composta por Maury Yeston e interpretada por Marion Cotillard, Take It All é uma música provocante e envolvente.

Ela explora um ato de submissão da mulher, em um primeiro momento, para depois revelar a sua “volta por cima” em uma história de amor, aparentemente, conturbada.

Ela dá o troco em uma forma de desafogo impressionante – quando pouco parece ter sobrado, além de decepção e dor, para contar a história.

Além do link já citado, que traz a canção inteira, o Youtube ainda disponibiliza este clip delicioso que mostra o trecho em que a canção aparece no filme e os bastidores do trabalho de Marion Cotillard – maravilhosa, aliás.

Gostei muito da interpretação da atriz, mas não acredito que a composição tenha força para vencer a favorita da noite: The Weary Kind, do filme Crazy Heart.

O drama com levada de musical estrelado por Jeff Bridges tem como seus pontos fortes, justamente, o trabalho de seu protagonista e a trilha sonora com composições acertadíssimas. E o carro-chefe dessa trilha sonora é a canção The Weary Kind. Belíssima, ela resume a história que está sendo contada pelo diretor e roteirista Scott Cooper.

Interpretada com emoção por Ryan Bingham, a canção cai como uma luva na imagem do homem durão que perdeu quase tudo e que precisa se recriar das cinzas. Sem dúvida é a composição mais fundamental para o filme do qual ela faz parte entre as concorrentes. Sua maior rival talvez seja Take It All, mas minha aposta, ainda assim, continua sendo para The Weary Kind levar o Oscar. Além da versão anterior, achei interessante esta outra, disponível no Youtube, que mostra Ryan Bingham no Late Show com David Letterman em janeiro deste ano.

Melhor Documentário em Curta-metragem

Produções com temáticas fortíssimas concorrem este ano na categoria de melhor documentários de curta duração. O primeiro concorrente da lista, China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province, está totalmente disponível no Youtube. O primeiro link de cinco pode ser acessado aqui – os demais você pode ir acessando na sequência, na parte de “videos relacionados”. Com 38 minutos de duração, o documentário dirigido por Jon Alpert e Matthew O’Neill mostra os efeitos devastadores de um terremoto ocorrido na localidade chinesa de Sichuan no dia 12 de maio de 2008.

As primeiras cenas do documentário acompanham uma garotinha pelas ruas cercadas de escombros até que ela chega na escola em que estudava. Ela chora ao pensar nos colegas que morreram naquele dia. O começo emocional tenta lançar um olhar mais humanos para a tragédia que teria vitimado 70 mil pessoas – 10 mil delas crianças. O filme faz uso de imagens gravadas por Alpert e O’Neill (muitos depoimentos incluídos) e por outras resgatadas de noticiários de TV e câmeras de segurança de locais que foram parcialmente destruídos.

China’s Unnatural Disaster expõe imagens duras, apresentando uma série de vítimas do terremoto – corpos, inclusive. Mas seu foco de questionamento não é o desastre em si, mas o fato de tantas crianças terem sido mortas em diversos desabamentos de escolas. Não é preciso dizer que não há dor maior para um pai ou uma mãe do que perder, repentinamente, um filho, não é mesmo? Ainda mais quando a maioria das famílias chinesas gera filhos únicos.

Ao mostrar o rosto de diversos pais com as fotos de seus filhos falecidos e contar algumas de suas perdas, o documentário procura revelar um lado pouco explorado nos desastres de grandes proporções como é o caso de um terremoto. Mais que isso, a produção questiona o comportamento do governo chinês, denunciando o seu descaso com os familiares das vítimas antes e depois do terremoto. Alguns pais afirmam que muitas escolas tinham tido suas estruturas comprometidas questionadas, mas que o governo local não lhes deu atenção – existem denúncias inclusive de autoridades corruptas no processo.

Há situações de edifícios que abrigavam escolas e que, posteriormente, foram alugados para fins comerciais pelo governo. Estes prédios permaneceram praticamente intactos, com o terremoto, enquanto que os prédios das “novas” escolas foram totalmente destruídos. Depois que as estruturas desabaram, os familiares das vítimas foram abandonados pelas autoridades mais uma vez. Os próprios pais das crianças tiveram que se organizar, sozinhos, para assumir o resgate de vivos e mortos. O filme, claro, foi proibido na China.

China’s Unnatural Disaster tem uma estrutura bastante simples. A produção é narrada de forma essencialmente tradicional e linear. O que não é um problema, levando em conta o tema abordado pelo curta, mas se a Academia está buscando um documentário diferenciado e mais inventivo, certamente esta produção tem poucas chances para ganhar a disputa.

Mesmo com uma estrutura muito simples, o China’s Unnatural Disaster vale ser visto por sua coragem em denunciar uma parte da realidade chinesa impossível de ser conhecida, até então, fora do país – por este lado, de quebra de censura e pela questão política que o filme denota, ele tem chances no Oscar. A verdade é que a produção compre o seu papel, de emocionar e revoltar quase na mesma proporção. O que me preocupa é o que pode ter acontecido com aquelas pessoas que abriram suas casas e contaram suas histórias depois que o filme foi finalizado – uma amostra da repressão no país pode ser visto na ação da polícia para impedir uma manifestação que os pais tentaram promover.

Outro concorrente ao Oscar este ano é o curta The Last Campaign of Governor Booth Gardner. Não encontrei o documentário, que tem 37 minutos de duração, inteiro na internet. Mas é possível ter um palhinha do que ele trata no trailer da produção divulgada neste link do Vimeo e com este vídeo que traz entrevistas com os realizadores do filme no Youtube. The Last Campaign é dirigida por Daniel Junge e conta a história de um dos mais populares ex-governadores de Washington e sua luta para legalizar o “suicídio assistido” – ou o chamado “direito de morrer”.

O filme procura mostrar os bastidores da campanha de Booth Gardner, focando especialmente a sua vida desde que ele começou a sofrer com o Mal de Alzeheimer. The Last Campaign traz muitos depoimentos do político – alguns bastante emocionantes – e discute a aprovação da iniciativa “Morte com Dignidade” lançada por ele. Apenas pelo trailer é possível perceber que o filme de Junge mistura imagens produzidas pelo diretor e cenas de arquivo para contextualizar o espectador na trajetória do ex-governador.

A direção de fotografia e a escolha dos ângulos pelo diretor mostram o apelo visual da produção. Imagens de 1988 resgatam o auge de Gardner para, posteriormente, estas lembranças serem contrastadas com sua vida atual. Um filme feito para emocionar – especialmente às pessoas que acompanharam a trajetória do político que há 15 anos convive com a doença. A produção busca tornar a questão da morte assistida mais “humana” e, certamente, terá um grande apelo entre os norte-americanos. Parece interessante, mas ainda prefiro a denúncia corajosa de China’s Unnatural Disaster.

The Last Truck: Closing of a GM Plant, por sua vez, toca na ferida da crise econômica nos Estados Unidos ao mostrar de forma particular o desastre que o fechamento de uma fábrica da GM provocou na vida de dezenas de pessoas na cidade de Moraine, em Ohio. O curta de 40 minutos dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert não está disponível na internet, mas é possível conferir uma prévia da produção através deste link no Youtube.

Os diretores assumiram a ótica das pessoas afetadas pelo fechamento da fábrica, tornando mais “real” e “humana” a questão da perda do emprego e tudo o que isso pode acarretar na vida de diferentes famílias. Consegui assistir ao filme da HBO e posso dizer que ele realmente cumpre a sua função. Uma das primeiras imagens simbólicas da produção é uma bandeira tremulante dos Estados Unidos rasgada. Ela simboliza, é evidente, a idéia de um país “colapsado”, ferido em de seus principais valores – o direito ao trabalho e, consequentemente, a possibilidade de ascensão social.

Um dos acertos do documentário é que ele dimensiona a importância da fábrica da GM que será fechada logo no início. Aberta em 1981, ela tinha uma estrutura maior do que a do Pentágono, segundo o texto de abertura de The Last Truck. Mesmo tendo recebido vários prêmios nacionais por sua eficiência e qualidade, a fábrica foi fechada – algo sentido pessoalmente por seus funcionários, que tinham o local como parte fundamental de suas vidas. Interessante, justamente por esta característica de “vestirem a camisa” da empresa, como os empregados da GM encaram o fechamento do local, assim como acaba sendo bastante instrutiva a forma com que é montado o quadro da vida que se forma ao redor de uma fábrica como aquela.

Certamente o documentário vai emocionar muita gente, especialmente nos Estados Unidos. Afinal, ela toca em valores importantes da nação e desvela histórias particulares em meio à crise que, entre outros exemplos, teve o fechamento de várias fábricas da GM em 2008 como um de seus principais símbolos. Bem editado e filmado da maneira correta para atingir seus objetivos, é um documentário de qualidade. Ele tem algumas sacadas muito boas, especialmente na captura de detalhes do cotidiano dos estadunidenses com um olhar muito atento de seus realizadores, assim como a escolha acertadíssima de mostrar o interior da fábrica apenas no último dia de seu funcionamento.

Bognar e Reichert foram rápidos no gatilho e conseguiram acompanhar as últimas semanas de produção da fábrica, o que torna a “captura do momento” histórico precisa. O drama ganha cores ainda mais fortes porque o local foi fechado às vésperas do Natal, deixando desempregadas diretamente 2,4 mil pessoas, a maioria delas sem muita escolaridade, despreparadas para buscar uma nova profissão. O número de pessoas que perderam seus empregos chegaria a 10 mil pessoas na comunidade local, somados aqueles indiretamente dependentes da GM. Mesmo com todas as suas qualidades, considerando os demais concorrentes, não acredito que The Last Truck tenha muitas chances de ganhar a cobiçada estatueta dourada.

O quarto concorrente é o emocionante Music by Prudence, curta com 33 minutos de duração dirigido por Roger Ross Williams. O documentário conta a história de Prudence Mabhena, uma mulher que teve uma doença que lhe provocava dores fortíssimas nos braços e pernas e que teve seus membros amputados.

Contrariando a tudo e a todos, ela se tornou uma cantora fenomenal e passou a trabalhar em uma instituição que ensina crianças e jovens com deficiências a lidarem com suas limitações e buscarem sua própria independência. Infelizmente o curta não está disponível na internet – nem mesmo o seu trailer. Mas encontrei este vídeo no Youtube que traz uma entrevista com o diretor e alguns trechos da produção.

Music by Prudence é uma produção do Zimbabwe e dos Estados Unidos. O curta foca uma história tão impactante que fica difícil de compará-la com as demais produções. Na África, uma pessoa como Prudence é, segundo seu diretor, abandonada à própria sorte, no chão, como um animal.

Desprezada por outras pessoas, esta mulher impressionou Williams por sua potência e talento vocal, sem contar o seu exemplo de vida e superação. Parece um documentário belíssimo e bastante diferente dos três concorrentes anteriores.

Fechando a lista, está o único filme não falado em inglês – e produzido fora dos Estados Unidos. Rabbit à la Berlin (o título original é Królik po Berlinsku), uma co-produção da Alemanha e da Polônia, tem 51 minutos de duração e conta uma história interessantíssima envolvendo o Muro de Berlim e a Alemanha dividida. Dirigido por Bartosz Konopka e com roteiro dele e de outras três pessoas, Rabbit à la Berlin parece ser a produção mais criativa na disputa. O trailer do filme pode ser visto neste link do Youtube – a produção, infelizmente, não está disponível na internet.

O ponto forte do filme é que ele, como bem afirma o trailer na internet, conta uma história “fora do comum por uma perspectiva diferente”. Através da ótica das centenas de coelhos que viviam livremente em um campo aberto e que passaram a ter uma “nova vida” com a construção do Muro de Berlim (quer alusão mais explícita ao próprio povo alemão?), o espectador assiste cenas impactantes envolvendo a divisão da Alemanha. Pela criatividade de seu roteiro e o resgate histórico que o filme parece fazer, Rabbit à la Berlin tem tudo para levar a estatueta para casa. Seus grandes concorrentes talvez sejam Music by Prudence e China’s Unnatural Disaster.

Melhor Curta-metragem

Fechando a lista de categorias importantes que são eclipsadas pelas demais durante a premiação do Oscar, vamos dar uma olhada nas produções que concorrem como Melhor Curta de ficção do ano. Dirigido por Juanita Wilson, o irlandês The Door conta a história de um casal que escuta pelo rádio um chamado de evacuação imediata. Com 17 minutos de duração, o curta explora um drama familiar em meio ao desastre de Chernobyl, como ficou conhecido o acidente nuclear na usina soviética (hoje território da Ucrânia) em 1986.

Considerado o pior acidente nuclear da História, o evento em Chernobyl teria produzido uma nuvem de radioatividade com um nível de contaminação 400 vezes maior do que aquela causada pela bomba de Hiroshima. Segundo este texto da Wikipédia, aproximadamente 200 mil pessoas tiveram que deixar suas casas e serem deslocadas para outros locais. The Door conta uma destas histórias. O bacana é que o site oficial do filme disponibiliza ele para ser assistido – outra opção é este link do Vimeo.

Depois de conferir o curta inteiro, posso dizer que The Door tem uma direção de fotografia perfeita e uma dinâmica bastante natural. A história flui suavemente e os atores são competentes, assim como as mudanças no tempo narrativo. The Door termina deixando um certo gosto de “quero mais” no espectador, o que é algo muito positivo. Mas o olhar sempre distante da diretora não permite que o curta emocione mais do que a média de produções do gênero. É um belo trabalho, inspirado em uma história real, mas honestamente não sei se ele terá a força para vencer os demais concorrentes.

Instead of Abracadabra (ou Istället för Abrakadabra no original) é outro concorrente na categoria. Com roteiro e direção de Patrik Eklund, este curta sueco de 22 minutos aposta na comédia para narrar a história de Thomas, um homem adulto que ainda vive com seus pais e acredita que um dia terá o seu talento como mágico reconhecido.

Enquanto isso não acontece, ele utiliza a própria família como público e cobaia para seu “talento”. O trailer do filme está disponível neste link.

Em uma co-produção da Índia e dos Estados Unidos surge Kavi, um curta de 19 minutos com direção e roteiro de Gregg Helvey. O filme, que pode ter seu trailer conferido aqui, narra uma história de exploração infantil e de escravidão humana. A produção começa mostrando o cotidiano de trabalho de um garoto indiano forçado a trabalhar na fabricação de tijolos. O menino não entende porque alguns rapazes da sua idade vão para a escola e tem uma vida tão diferente da sua.

Ele pede explicações para o pai, que também trabalha fabricando tijolos, mas acaba não se convencendo com o fato de que aquila condição é “inevitável”. Em sua busca por liberdade, o garoto acaba passando por situações muito piores do que aquela vivida na fábrica de tijolos. Capturado por traficantes de escravos, ele acaba tendo que lutar por sua liberdade de uma maneira que jamais imaginou. Kavi parece ser bem emocionante, além de ter uma forma de narrativa dinâmica e diferenciada dos demais.

Outro concorrente é o curta Miracle Fish, uma produção australiana de 17 minutos com direção e roteiro de Luke Doolan. A história gira em torno de Joe (Karl Beattie), um menino de oito anos que é sacaneado a todo o momento por seus coleguinhas de escola – especialmente no dia de seu aniversário.

Cansado de sofrer tanta pressão, ele acaba se refugiando na enfermaria da instituição ao invés de voltar para a sala de aula após o recreio. Na enfermaria, que considera um local seguro, Joe deseja que o mundo inteiro “desapareça”. O menino acaba dormindo e, ao acordar, ele encontra a escola vazia e começa a se perguntar se o seu pedido se tornou realidade.

Gostei do desenvolvimento do curta. Depois de passar por maus bocados, o garoto se sente em um verdadeiro parque de diversões na escola vazia – antes seu purgatório. Ele brinca e come muito chocolate, sem se preocupar com nada mais. Celebra, à sua maneira, o seu aniversário de 8 anos. Até que… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao curta). Após sugerir inclusive uma saída pela corrente de “rapto extraterrestre”, Miracle Fish revela a razão pela qual Joe não encontrou nenhum professor ou aluno na escola: um homem descontrolado e armado invadiu o local.

Curiosa a forma com que a produção aborda este tema, bastante delicado nos Estados Unidos e em outros países que já sofreram com estes tipos de invasões. Muito interessante também como ocorre o desfecho da história. Achei ele mais inventivo que The Door, por exemplo. Depois de procurar um bocado pela internet o trailer do filme, encontrei ele na íntegra neste site. Miracle Fish tem uma história interessante e, principalmente, uma direção envolvente de Doolan. Acredito que ele tenha boas chances na disputa. Mas para levar a estatueta, além de vencer o aparentemente favorito The Doors e o emocionante Kavi, ele terá que deixar para trás o último filme da lista, o impactante The New Tenants.

Co-produzido pela Dinamarca e pelos Estados Unidos, o curta de ficção dirigido por Joachim Back explora a convivência de dois homens em uma vizinhança violenta. Entre os personagens que integram o roteiro adaptado por David Rakoff de uma história original de Anders Thomas Jensen estão um par de vizinhos curiosos, um traficante de drogas e um marido nervoso e armado.

Vale lembrar que o filme tem a força de uma idéia original de Jensen, o homem responsável pelos roteiros de algumas das maiores bilheterias do cinema dinamarquês nos últimos anos. O diretor e roteirista ganhou um Oscar em 1998 com o curta Valgaften. Além disso, The New Tenants conta com um elenco de atores talentoso e relativamente bem conhecido do público, como é o caso de Vicent D’Onofrio e Kevin Corrigan. Neste link é possível assistir ao trailer de The New Tenants. O curta parece realmente interessante e bem dirigido. Talvez seja o favorito da categoria este ano, em uma disputa bastante acirrada.

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3 thoughts on “Os curtas e as canções indicadas ao Oscar 2010

  1. Não pude deixar de comentar sobre o curta “La Dama e la Muerte”. Mexeu com ciência, mitologia e religião.

    Não ví os outros, mas este é muito polêmico e me lembou um pouco ao início da estória de UP! pois retrata uma pessoa idosa solitária e sem a pessoa amada.

    Cérbero foi retratado de forma hilária e, embora me trouxesse boas risadas não gostei, pois, alí não está claro a Eutanásia já que não há doença ou incapacidade haja vista a “porrada” que o médico leva, mas sim o Suicídio que é condenado por muitos independente da religião.

    Enfim, comentário impulsivo e passional, que não gosto de fazer, mas creio que estes tipos de comentários são os melhores e mais autênticos. 😉

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  2. Quanto aos curtas, achei todos eles muito “clichês” tratando de assuntos que correm o mundo e o noticiário há anos. Como não dá para ver todos, comentei apenas sobre o que vi, mas parece que, no geral estão nivelados e o que vai diferenciar é a técnica e a sensibilidade do diretor em passar a mensagem do filme. Gostei da estória dos coelhos alemães e da africana que deu exemplo de vida. Claro que isto é uma opinião às cegas.

    A internet tem nos permitidos a assistir produções que nunca imaginaríamos ver, mas ainda existem, como demostra o post, muitos “tesouros” perdidos entre os torrents e sites. Bem que estes produtores poderiam disponibilizá-los na rede.

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  3. Olá Reinaldo!!

    Concordo que La Dama y la Muerte pode levantar polêmicas. Especialmente porque trata com humor questões espinhosas. Agora, como tínhamos falado pelo Twitter, realmente eu não tinha me dado conta da aparição do Cérbero. Muito boa a tua observação a este respeito!

    Olha, a questão do “suicídio assistido” ou da eutanásia depende do ponto de vista. Afinal, pela Natureza pura e simples, a mulher teria morrido em sua cama, feliz da vida porque iria “encontrar” o seu marido – hipoteticamente para alguns, certamente por outros. Depois, ela teria morrido em outras ocasiões se não fosse a intervenção do médico – e ainda que o curta mostre com um certo humor toda aquela disputa da Morte com o médico, é fato que a pessoa que sofria naquela ocasião era a velhinha. Os doentes terminais sofrem, e muito – ainda que as demais pessoas não se dêem conta disso.

    Bacana teus comentários, Reinaldo. Sejam eles impulsivos ou super pensados. 😉

    Sobre teu segundo comentário, volto a dizer aqui o que tinha comentado pelo Twitter: concordo com aqueles que dizem que todas as histórias já foram contadas. O que diferencia uma grande nova obra das outras é que temas antigos, já “batidos”, são contados de forma diferente, inovadora, que recria o que já conhecemos.

    Então se formos olhar para os filmes desta maneira, nenhuma história é realmente nova. Mas isso não quer dizer que ela seja clichê – porque a definição de clichê está na repetição da história, de sua fórmula e, especialmente, da forma com que ela é narrada. Resumindo, podemos ter vários temas recorrentes que, com criatividade, podem ser recriados e escapar do clichê. No geral, gostei da forma diferenciada com que estes curtas tratam temas “batidos” e outros menos explorados pelo cinema.

    Procurando bem, grande parte das produções que eu citei neste post podem ser encontradas na internet. Francamente, se eu fosse uma das produtoras dos curtas, divulgaria para o grande público mesmo – de que outra forma meu trabalho ficaria realmente conhecido? Mas acho que, a respeito dos curtas, isso vai se tornando realidade pouco a pouco.

    Um grande abraço e obrigada, mais uma vez, por tuas visitas constantes!

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