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Pozitia Copilului – Child’s Pose – Instinto Materno

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Por trás de um grande idiota normalmente existe uma sequência de erros. E muitas vezes boa parte destes equívocos tem origem na criação do sujeito. Pozitia Copilului trata de um caso assim. Que poderia ser a história de diversos destes boçais que provocam horrores no trânsito ou em crimes contra as ex-namoradas e que fazem de tudo para sair ilesos. Com um baita roteiro, destes em que não é preciso tirar e nem acrescentar nada, este filme tem nas relações familiares e, especialmente, no domínio de uma mãe o seu argumento principal.

A HISTÓRIA: Sentada em um sofá e com um cigarro na mão direita, Cornelia Keneres (Luminita Gheorghiu) diz que tem vergonha de repetir o que lhe disseram. Mesmo assim, em seguida, ela diz que “estúpida” e “idiota” já viraram xingamentos habituais. Mas o grau desta vez superou em muito este padrão. Olga (Natasa Raab) escuta tudo com atenção e aconselha a irmã a deixar o filho em paz, pede para ela parar de sufocá-lo e esperar que ele a procure. Mas Cornelia não escuta. Ela diz que viu o filho, Barbu (Bogdan Dumitrache) depois de dois meses e meio e que a culpada de tudo é a nova mulher dele, Carmen (Ilinca Goia). Não vai demorar muito para que Barbu sofra um acidente grave que vai acabar testando ainda mais as relações familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Pozitia Copilului): Como é bom assistir a um filme que valoriza o roteiro e o trabalho dos atores! Pozitia Copilului tem como protagonista uma mãe que faz absolutamente tudo para o filho, mesmo que ele esteja constantemente maltratando a mulher. Ser rejeitada pouco importa. Pouco a pouco vamos descobrindo mais sobre a personalidade de Barbu, assim como da protagonista, ao mesmo tempo que vai ficando claro o que aconteceu no acidente provocado pelo rapaz.

O roteiro de Razvan Radulescu com o diretor Calin Peter Netzer é uma pequena preciosidade. Antes de mais nada, porque ele vai entregando o ouro aos poucos. Nas primeiras frases do filme ficamos em dúvida sobre a origem das queixas de Cornelia. A primeira impressão é que ela está falando do marido, mas conforme o diálogo da personagem com a irmã vai se desenvolvendo, percebemos que ela está falando do filho.

O sujeito alvo de tantas críticas vamos conhecer um bocado de tempo depois, e não damos muita bola pra ele. Porque o personagem de Barbu é bem daquele jeito: um sujeito insignificante, sem nenhum grande predicado até que ele começa a abrir a boca e a maltratar a própria mãe. Na delegacia, quando ele está prestando depoimento, mais uma vez é Cornelia que se faz ouvir. O acerto no roteiro deste filme é justamente este de ir revelando sobre os personagens centrais pouco a pouco.

Outra vantagem desta história é que ela tem poucos personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O protagonismo é da mãe, Cornelia, ainda que a história toda gire em torno do filho dela. As revelações sobre estes dois personagens e a dinâmica entre eles é que vai rechear o filme. Me impressionou o realismo de Pozitia Copilului. Digo isso porque não são poucas as mães como Cornelia.

Ela não apenas faz tudo pelo filho e o coloca em primeiro lugar, como faz questão de ter controle sobre tudo – desde o filho até o marido. Cornelia tem o perfil da mulher que sufoca, que não dá espaço para os outros serem – apenas para eles obedecerem e andarem conforme a música que ela compõe. E há ao menos um momento em que ela diz o que pensa com todas as letras: quando afirma que se realiza através de Barbu.

Oras, meus caros amigos e amigas, que desvio de função para um filho é este? De fato um filho ou filha deve ser a extensão dos anseios e desejos dos pais? Que tipo de cobrança e de controle é esse? E o mais assustador é que não é apenas a personagem de Cornelia que pensa assim, mas há muitas mães e pais por aí que tem esta lógica guiando as suas vidas.

Para mim, que ainda não sou mãe e, por isso mesmo, sigo sendo apenas uma filha, uma mãe ou pai nunca podem projetar os seus sonhos e frustrações em seus filhos. Primeiro porque este tipo de cobrança é injusta. Depois, porque um filho deve ser visto como um ser único, particular, para o qual devemos dedicar o nosso melhor, ensinar valores e a fazer o certo, mas que deve ter toda a liberdade para ser o que desejar ser e desenvolver as suas próprias vocações.

Quando uma pessoa assume a postura da personagem da Cornelia, ela passa a ser a carrasca da vida do filho, dizendo o que ele deve ou não fazer, o que deve ou não pensar, sem dar qualquer espaço para a individualidade do sujeito. A excelente atriz que faz Cornelia consegue vivenciar à risca esta personagem controladora, ao mesmo tempo em que transparece todo o amor de uma mulher por seu filho. Este amor materno é imenso e belíssimo, mas deve cuidar para não ser algoz do filho e de quem mais a rodeia por consequência.

Além de ter personagens muito bem desenvolvidos, Pozitia Copilului tem uma história simples e muito bem desenvolvida. Um personagem como Barbu, um sujeito adulto que viveu sendo mimado pelos pais – especialmente pela mãe – e que, desta forma, parece não ter limites para a própria verve de crueldade, normalmente é a criatura por trás de acidentes de trânsito que vitimam o lado mais fraco. No caso do filme – e de tantos casos da vida real -, um jovem adolescente de uma família simples e sem muitos recursos.

Dentro da lógica acertada dos roteiristas Radulescu e Netzer de ir soltando as bombas aos poucos, ficamos sabendo só bem mais tarde os detalhes sobre o acidente provocado por Barbu. Quando Cornelia avança na tarefa de encobrir o crime do filho e procura o outro motorista envolvido no acidente, Dino Laurentiu (Vlad Ivanov), para fazê-lo mudar o depoimento que tinha dado até então para livrar o filho de excesso de velocidade e de imprudência na morte do jovem rapaz vizinho do local do atropelamento, ficamos sabendo que Barbu estava não apenas dirigindo acima da velocidade permitida, mas que também dirigia de forma violenta. Para ser mais precisa, praticamente disputou um racha com Laurentiu – que afirmou que o outro vinha tentando ultrapassá-lo de forma babaca há tempos.

Já vi muitas situações como aquela descrita por Laurentiu no filme. Um sujeito qualquer, um babaca destes que existe aos montes no trânsito, surge de forma virulenta atrás de um outro carro e procura retirá-lo da pista a qualquer custo para ultrapassar em uma velocidade bem acima do permitido. Este comportamento violento, para mim, sempre foi indício de sujeitos desequilibrados. E muitos deles são exatamente como Barbu, adultos que não tiveram e nem tem limites porque sempre foram superprotegidos por mães que mandam e controlam suas famílias ricas e com muitas posses para achar que podem comprar a tudo e a todos.

Quantos equívocos, meu Deus! Não apenas de mães, pais e filhos, mas também de pessoas como Laurentiu que acabam cedendo na convicção de fazer o que é certo e frear esta soberba sem limites para apenas dar razão para os idiotas em um tipo de “corporativismo” dos abastados que acaba apenas dinamitando as nossas sociedades.

Agora, ainda que Cornelia e o marido Domnul Fagarasanu (Florin Zamfirescu), conhecido mais como Relu, sejam culpados pela falta de limites do filho, não dá para ausentar Barbu de sua própria culpa. Ele é um verdadeiro cretino, destes sujeitos desprezíveis e covardes que se fazem de vítimas quando é algo do próprio interesse mas que, por trás da fumaça de ilusões, dão a impressão que são incapazes de alimentar qualquer sentimento benéfico. Eu não sei se figuras como Barbu conseguem sentir – ou que tipo de sentimentos são capazes de alimentar.

E será que este poderia ser o único futuro de um filho criado por uma mãe controladora como Cornelia? Em certo momento ela recorda da época em que Barbu era amoroso, sensível e tudo o mais. Mas os pais se equivocam achando que o filho que eles tem na infância será o mesmo sempre caso ele não aprenda os valores certos.

Me parece evidente que a criança seja “obediente” e/ou “amorosa”, afinal, ela depende dos pais e só conhece aquela realidade – até uma certa idade. Mas depois, quando passa a pensar por sua própria conta, aquele mesmo indivíduo começa a ver as falhas dos pais, começa a discordar de parte da realidade em que vive. Se esta pessoa foi criada com os valores certos, o choque pode ser mais suave. Mas se foi formada com a noção de que pode fazer tudo e que não tem barreiras para nada, certamente o efeito será pior.

Mesmo afirmando isso, evidente que eu não acredito que uma figura como Barbu não poderia ter escolhido outra realidade para si mesma. Por mais trágica ou cruel que seja a nossa formação, temos toda a liberdade para nos curarmos daquele cenário no futuro. Dá trabalho? Com certeza, mas nada é impossível para o ser humano se ele quiser buscar o caminho do bem e superar os seus próprios males.

Agora, em uma realidade como a mostrada em Pozitia Copilului, no fim das contas, qual é o saldo possível daquele cenário e que poderia ser o retrato de qualquer acidente provocado por um sujeito sem limites nas nossas rodovias e estradas reais e mortíferas? Apenas o de perdas, de vítimas provocadas por relações entre pais e filhos nada saudáveis. Não apenas os pais do garoto morto (interpretados por Adrian Titieni e Tania Popa) viraram vítimas de Barbu junto com o filho, mas também Carmen sofreu na pele os destemperos daquele homem com sérios problemas de comportamento.

Mais que um ótimo desenvolvimento no decorrer do filme, com o aprofundamento da história e dos personagens, Pozitia Copilului tem um ótimo final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quem estava simpatizando com Cornelia até aquele momento, dando razão para a mãe que estava fazendo de tudo para proteger o filho e afastá-lo da prisão – mesmo que isso significasse mentiras, suborno e que fosse errado -, passa a ter esta visão otimista balançada pela reta final da produção. Afinal, como não abominar aquela mulher que vai visitar os pais da vítima e que, mesmo ali, enaltece o filho ao invés de realmente se colocar no lugar dos outros? O egoísmo dela é de mexer com os brios.

E desta forma, com um roteiro inteligente e poucos atores, este filme comprova como tantos outros já fizeram que o cinema não precisa de rios de dinheiro. Basta uma grande ideia na cabeça e uma câmera na mão, praticamente. Com estes recursos é possível fazer pensar e mexer com os sentimentos e as certezas das pessoas, como este Pozitia Copilului faz muito bem.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, em alguns momentos há pequenas falhas na direção de Calin Peter Netzer, com um certo descontrole da câmera – especialmente quando Cornelia e Carmen chegam na casa dos pais do adolescente morto. E alguns devem ficar incomodados com a sequência final, quando Barbu vai falar com o pai do jovem e não sabemos qual é o desabafo do crápula.

Da minha parte, tenho um palpite: acho que ele foi lá pedir desculpas e dizer para o pai do garoto que ele estava disposto a pagar pelo próprio erro, a despeito da mãe superprotetora. Mas como o roteiro não deixa isso comprovado, qualquer outra versão da fala dele também é válida. Daí fica ao gosto do espectador. Muitos não gostam desta fórmula, mas eu acho os finais “abertos” sempre interessantes. Independente do gosto sobre este final, algo é certo: Pozitia Copilului cumpre muito bem o seu papel.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O ponto alto de Pozitia Copilului é, como eu disse antes, o ótimo roteiro da dupla Razvan Radulescu e Calin Peter Netzer. Mas além daquelas linhas bem escritas, com diálogos marcantes e onde não há palavra que sobre, devo destacar também o trabalho de Netzer na direção. Ele assume a postura quase de um documentarista, com uma câmera ligeira e que busca sempre estar próxima dos atores. Esqueça planos abertos e a valorização de paisagens e/ou cenários. O que interessa nesta produção é a interpretação – os gestos e o que é dito.

Este filme, para mim, é mais um exemplo como o Oscar pode ser benéfico para o cinema mundial. Eu estava de olho em Pozitia Copilului não porque o filme tinha recebido este ou aquele prêmio, mas porque era considerado um forte candidato para o Oscar – antes da lista de indicados ser divulgada. No fim das contas ele ficou de fora da reta final da disputa, mas ainda assim ele ganhou uma certa evidência. Os indicados de cada país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, normalmente, merecem uma conferida. O difícil é arranjar tempo para ver a todos. 🙂

Fiquei impressionada com o trabalho da atriz Luminita Gheorghiu. Ela está perfeita no papel de Cornelia, em um papel que tem várias camadas de interpretação. Para mim, a qualidade desta atriz é similar ao do trabalho de Paulina García em Gloria (comentado aqui). Mas o curioso é que García foi muito mais badalada que Gheorghiu. Para ver como nem sempre os burburinhos do cinema fazem justiça com todos.

Falando nos atores de Pozitia Copilului, além de Gheorghiu, chamou muito a minha atenção o trabalho de Ilinca Goia como Carmen – ela rouba a cena toda vez que aparece e tem um momento incrível na produção quando faz aquela confissão constrangedora para a mãe de Barbu sobre a intimidade deles. Gostei também da firmeza de Vlad Ivanov no papel do arrogante Dinu Laurentiu – ele aparece pouco, mas tem uma presença marcante.

Da parte técnica do filme, o único destaque além da direção de Netzer é a edição de Dana Bunescu. O restante funciona, mas sem nenhum outro destaque.

Pozitia Copilului estreou em fevereiro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participaria ainda de outros 14 festivais, incluindo os de Karlovy Vary, Toronto, San Sebastián, Londres, São Paulo e Estocolmo. Nesta trajetória ele conseguiu três prêmios e foi indicado a um quarto prêmio. Entre os que recebeu, destaque para o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim e para o Prêmio FIPRESCI entregue no mesmo evento.

Esta produção teria custado aproximadamente 850 mil euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 33,7 mil. Pouco, quase nada, porque estreou em um circuito limitadíssimo. Infelizmente não consegui encontrar informações sobre a bilheteria do filme em outros mercados. Mas eu espero que ele consiga se pagar.

Fiquei curiosa para saber o significado do título original do filme já que, para o meu gosto, “Instinto Materno” me parecia um pouco estranho. A tradução literal de “Pozitia Copilului” é “posição do bebê”. Hummmmm… ainda mais misterioso este título. 🙂 Mas dá para usar a criatividade e fazer uma interpretação dele em relação a história do filme. O título em inglês acompanha o original, apenas a tradução para o mercado brasileiro que leva o título para outra linha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para este filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 46 textos positivos e três negativos, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média 7,5. Boas avaliações segundo os padrões dos dois sites.

Este é apenas o terceiro longa do diretor Calin Peter Netzer. Ele estreou no cinema com o curta-metragem Zapada Mieilor, de 1998. O primeiro longa veio cinco anos depois: Maria. Entre aquela produção e Pozitia Copilului, houve ainda Medalia de Onoare. Segundo o site IMDb, a melhor avaliação entre estas produções é a de Zapada Mieilor com a nota 7,9.

Pozitia Copilului é uma produção 100% da Romênia. E ela foi indicada por aquele país para representá-lo no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme direto, com um ótimo roteiro e interpretações muito convincentes. Pozitia Copilului é destas produções que não vão te deixar sem reação. Como um legítimo tapa no rosto, este filme pelo menos desperta reflexão, quando não alguma indignação. 🙂 E o mais interessante é que da forma com que ele é construído, bem que ele poderia ser um documentário de imersão na realidade de muitas famílias com boas condições de vida e pouca noção do que é ter relações saudáveis. Como diria o Cazuza, “só as mães são felizes”. Mesmo na infelicidade, assim parece sugerir Pozitia Copilului. Esse amor é impressionante mas, algumas vezes, também bastante destrutivo. Vale assistir, se entregar para a história e refletir sobre o que encontramos por aí.

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Saving Mr. Banks – Walt nos Bastidores de Mary Poppins

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As histórias dos bastidores do cinema sempre são fascinantes. Mesmo quando elas se apresentam um pouco confusas. Este é o caso de Saving Mr. Banks. Para quem, como eu, desconhecia a obsessão de Walt Disney pela história de Mary Poppins e todas as dificuldades que ele enfrentou para conseguir adaptar o romance de Pamela Lyndon Travers para o cinema, este filme é um grande achado. Pena que a própria Disney contou esta história exagerando nas doses de açúcar e que o roteiro, algumas vezes, mais confunde do que explica a história para o espectador.

A HISTÓRIA: Começa com a câmera deslizando por um céu com nuvens em vários formatos e colorações. Até que surgem algumas palmeiras e a informação de que estamos em Maryborough, na Austrália, no ano de 1906. Uma mulher caminha empurrando um carrinho, e uma voz fala do vento do leste que traz a magia. Sentada sobre um gramado, uma garotinha aproveita a luz do sol. Corta. Praticamente na mesma posição, mas sentada em uma cadeira em frente à escrivaninha com uma máquina de escrever, vemos a P.L. Travers (Emma Thompson).

No bloco sobre a mesa, vemos a data: 2 de abril de 1961. Entre outros objetos, a foto de uma família. Toca a campainha, e a Sra. Travers se levanta. A escritora recebe o seu empresário, Diarmuid Russell (Ronan Vibert), que luta para fazer com que ela não desista da viagem para Los Angeles, onde vai conversar com Walt Disney (Tom Hanks) em mais uma etapa da longa e dura negociação sobre o livro de maior sucesso da Sra. Travers, Mary Poppins.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Saving Mr. Banks): Uma única cena ajuda o espectador a não ficar confuso neste filme. Admito que a perdi. E por isso, o roteiro de Kelly Marcel e Sue Smith me deixou confusa por boa parte da produção. Se isso aconteceu com você também, não se sinta culpado(a). Saving Mr. Banks não tem, de fato, um primor de texto. Mas isso também faz parte do jogo.

Vejamos. A história começa com duas linhas de tempo correndo em paralelo. Primeiro, aquela que mostra uma família em fase de mudança na Austrália no início do século 20. A outra linha temporal se passa no início dos 1960 em Londres, na Inglaterra. O que une estas duas linhas? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se você for muito, mas muito atento, vai perceber que a foto que aparece no escritório de P.L. Travers ajuda a explicar tudo. Mas se você, como eu, não der muita importância para aquele retrato, vai ficar em dúvida sobre a origem daquela família australiana.

Outra saída para não haver confusão na leitura destas duas linhas temporais é se você é fã de Travers ou de Disney o suficiente para saber a história de ambos. Porque daí sim vai ficar claro que o que se passa na Austrália tem a ver com a família da escritora e não com a de Walt Disney que, afinal, era originária do Canadá. Como eu não sou tão fã da autora de Mary Poppins e nem do grande empresário do cinema e de parques temáticos, tive sérias dúvidas sobre quem eram aquelas pessoas.

Inicialmente, claro, pensei que a garotinha chamada pelo pai, o bancário alcoólatra Travers Goff (Colin Farrell), como Ginty (Annie Rose Buckley) poderia ser a adulta P.L. Travers. Mas depois eu pensei que a esposa de Goff, Margaret (Ruth Wilson) até poderia ser a escritora – ainda que, neste caso, a conta não batia, já que ela teria que ter quase uns 80 anos de idade na segunda linha do tempo, o que não pareceria ser possível pela caracterização. Finalmente, pensei que aquela família poderia ter alguma relação com Walt Disney… ou que poderia ser apenas a imaginação da autora de Mary Poppins.

Para um filme da Disney que é tão escancarado em suas intenções, achei que este enredo um tanto confuso destoa do restante da produção. O espectador só terá certeza sobre a identidade daquelas pessoas quando a charada é revelada pelo próprio Walt Disney. Claro que muito antes há vários indicativos sobre esta referência – e, como eu disse, aquela foto nos minutos iniciais do filme é suficiente para matar a charada junto com um cálculo simples sobre as duas datas que aparecem na tela.

Mas esta margem que o roteiro abre para a confusão do espectador eu achei desnecessária. Além disso, me incomoda um pouco a forma com que Saving Mr. Banks “floreia” os fatos. Se por um lado é interessante assistir o embate entre Travers e os realizadores da versão cinematográfica de Mary Poppins – incluindo o todo-poderoso Walt Disney -, por outro é difícil de acreditar que tudo ocorreu exatamente daquela forma.

A razão da descrença é simples: ninguém é tão amargo o tempo todo quanto a P.L. Travers que aparece na telona, e ninguém é tão sonhador e obstinado sem cometer exageros e passar por cima de algumas pessoas como o Disney mostrado por esta história. Em outras palavras, incomoda um pouco o quanto os dois personagens centrais são explorados de maneira rasa, com poucas nuances.

Outro detalhe que me deixou um pouco perdida em Saving Mr. Banks é que a produção praticamente não resgata a história de Mary Poppins – nem a versão literária, nem a do cinema. Apenas no finalzinho do filme, quando Travers confere a versão da Disney para a sua história, que relembramos algumas cenas de Mary Poppins. Se você assistiu recentemente ao filme clássico ou seu leu o livro há pouco tempo, este é um problema que já nasce resolvido. Mas se você, como eu, viu este filme há mais de 20 anos, fica difícil lembrar de detalhes da história.

Este é um ponto importante para desfrutar de Saving Mr. Banks. Para o meu gosto, o roteiro da dupla Marcel e Smith deveria facilitar a vida do espectador e não exigir que retomemos o clássico antes de nos lançarmos nesta nova produção. Mas é claro que é do interesse dos produtores que as pessoas voltem para a Mary Poppins lançada em 1964 – afinal, isso significa mais dinheiro para a Disney.

O problema de faltar este link entre a história de Mary Poppins e o que vemos em Saving Mr. Banks poderia ter sido facilmente resolvido. Bastava a dupla de roteirista dar menos espaço para as canções que estavam sendo compostas para o filme de 1964 e permitir que P.L. Travers fizesse o que ela realmente foi fazer em Los Angeles: conferir de perto o roteiro de Don DaGradi (Bradley Whitford). Uma inserção maior de momentos de leitura e de embate entre Travers e DaGradi poderia ajudar a todos nós a nos situar melhor na história de Mary Poppins.

Claro que eu lembro que o filme que rendeu tanta batalha entre Travers e Disney trata de uma babá diferenciada e que surge na família Banks para revolucionar a vida do casal e dos filhos. Também recordo da importância da música no filme, mas é só. Um dos erros de Saving Mr. Banks é que ele inicia com a citação literal de uma parte da obra e, depois, larga este caminho que sempre é interessante (de mergulhar na obra original).

Depois de falar dos problemas principais do filme, falemos de suas qualidades. Antes de mais nada, muito bacana o resgate de uma história que não havia sido explorada antes e que nos ajuda a entender um pouco mais sobre as negociações entre autores e estúdios de cinema. Além disso, Saving Mr. Banks tem uma trilha sonora marcante, muito inspirada, assinada pelo veterano Thomas Newman, e um cuidado técnico que é marcante nas produções Disney.

Entre os atores, sem dúvida o destaque fica com Emma Thompson que, apesar de ter uma personagem um tanto “rasa” dramaticamente – em boa parte do roteiro P.L. Travers se apresenta como uma mulher fechada e “do contra” -, entrega uma interpretação bastante convincente e que emociona no final. O mesmo não pode ser dito de outros dois trabalhos centrais nesta produção: os de Tom Hanks e Colin Farrell.

O primeiro também é prejudicado pela construção um tanto rasa de Walt Disney. No filme, ele aparece como um empresário obstinado e sonhador, que dá a volta por cima na infância dura para seguir o sonho de fazer a alegria de muitas crianças. Certo que este é um perfil do fundador do estúdio e dos parques que levam o nome Disney, mas certamente ele não era apenas aquilo. Hanks aparece menos que Thompson, o que também pode ter prejudicado o trabalho dele.

Farrell, por outro lado, tem um personagem muito mais complexo e aparece com frequência maior. Ainda assim, em vários momentos, a interpretação dele me pareceu exagerada. Diferente da parceira de cena do ator, a jovem Annie Rose Buckley, que dá um show como a principal atriz mirim da produção.

O diretor John Lee Hancock apresenta uma direção segura em um filme onde o roteiro é que se apresenta como a peça chave. Mas Hancock consegue orquestrar bem os atores e produzir algumas cenas muito bonitas, especialmente quando a família Goff se muda para Allora, a 16 horas da cidade de origem de Ginty. Também é bacana ver novamente a um filme com a “alma” da Disney, ou seja, onde a fantasia predomina sobre a realidade.

Porque fica evidente que Saving Mr. Banks “enfeita” a história real. Mesmo antes de ler a alguns textos que vou citar para vocês na sequência, apenas vendo ao filme eu já suspeitava que a dupla Marcel e Smith havia tornado o trabalho de Disney e equipe mais “leve” e bacaninha do que na vida real. E que eles também haviam carregado um pouco demais nas “tintas” de uma P.L. Travers “irredutível” e “do contra”.

De fato, como os textos ajudam a explicar, Saving Mr. Banks fantasia o que aconteceu de fato, tornando Disney mais “bondoso” e bem intencionado do que de fato ele foi. Digo isso porque é evidente que ele queria rodar Mary Poppins não apenas porque fez uma promessa para as filhas, mas porque sabia que iria faturar alto com o filme. E a própria Travers acabou cedendo os direitos da personagem mais por uma questão financeira do que por concordar com o que seria feito.

Sem contar que muito do que ela achou que faria nesta história – como participar da pós-produção, contribuindo para a montagem do filme – acabou não acontecendo. O filme mesmo mostra, mas sem dar muito destaque para este ponto, de como o produto final não agradou a escritora – e não, ela não chorou no lançamento do filme porque ficou emocionada com a homenagem para o pai, e sim porque viu a essência da história de Mary Poppins ser bem alterada pelo estúdio Disney.

Por ser originado deste mesmo estúdio, Saving Mr. Banks presta um serviço interessante de nos apresentar uma história curiosa, mas ele acaba fantasiando muito mais do que resgatando o que aconteceu. Por um lado, isso é bacana – afinal, a vida muitas vezes merece ser fantasiada -, mas, por outro, acho que tanto Travers quanto o próprio cinema (e nele, Walt Disney) mereciam um filme um pouco mais trabalhado, com profundidade e menos leviandade.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes dos indicados ao Oscar 2014 serem divulgados, vários especialistas em cinema nos Estados Unidos apontavam Saving Mr. Banks como um possível candidato de diversas categorias. No fim das contas, esta produção acabou conseguindo uma indicação: a de Melhor Trilha Sonora. De fato, nesta produção, o trabalho de Thomas Newman se destaca, sendo um dos carros-chefe do filme. Ainda assim, o compositor perdeu a disputa para Steven Price, responsável pela trilha de Gravity, no último domingo, quando a cerimônia do Oscar foi realizada.

Como comentei antes, Saving Mr. Banks apresenta algumas cenas muito bonitas espalhadas aqui e ali na produção. O mérito principal delas é, além do diretor John Lee Hancock, do diretor de fotografia John Schwartzman. E ainda que eu tenha sentido falta de mais trechos do livro original e/ou do roteiro de Mary Poppins sendo citados/revelados no decorrer desta produção, gostei da homenagem que os realizadores fizeram para a produção da Disney no final de Saving Mr. Banks. Aquela projeção do clássico no cinema, com a surpresa e as reações da escritora na plateia, foram uma boa sacada. Ainda que, como vocês podem conferir nos textos que eu vou indicar abaixo, a escritora não tenha reagido “tão bem” como o que Saving Mr. Banks sugere.

Da parte técnica do filme, também gostei do trabalho do editor Mark Livolsi e do design de produção de Michael Corenblith. O segundo foi o grande responsável, junto com a direção de arte de Lauren E. Polizzi, a decoração de set de Susan Benjamin e os figurinos de Daniel Orlandi, por nos transportar para a Austrália do início do século 20 e para a Los Angeles do início dos anos 1960.

Agora, vejam como são as coisas… O livro Mary Poppins foi publicado em 1934. Walt Disney tentou negociar os direitos para a adaptação da história para o cinema com a autora P.L. Travers durante 20 anos – ele teria começado as conversas com ela em 1938 e conseguido avançar nas negociações apenas em 1958. Mas as negociações avançaram para valer três anos depois, em 1961, quando Travers foi para Los Angeles conferir de perto o roteiro inicial do projeto, uma das condições para as negociações avançarem.

Depois deste passo, Mary Poppins, o filme, foi lançado nos cinemas em 1964 e, apenas dois anos depois, Walt Disney morreria aos 65 anos (10 dias depois de fazer aniversário) vítima de câncer de pulmão (no filme ele aparece se desculpando por fumar). Ou seja: este foi um dos últimos projetos e, talvez o mais difícil, que o empresário conseguiu concretizar antes de morrer.

Uma parte do roteiro de Saving Mr. Banks que eu gostei é aquele em que Marcel e Smith não fogem da responsabilidade de mostrar o quanto Disney era exagerado – ou extravagante? A quantidade de bichos de pelúcia de personagens que ele pede para colocarem no quarto de Travers é assustadora. E os modos dele, achando que poderia ter uma queda-de-braço constante com a escritora, também chamam a atenção. Chega a ser cômico acompanhar ele insistindo em chamar Travers de Pamela – quando ela pedia para ser tratada como Sra. Travers – e ela, por sua vez, chamá-lo de Disney, quando todos o chamavam de Walt. Dois cabeças-dura, sem dúvidas.

Para quem ficou curioso para saber mais sobre o livro e o filme de Mary Poppins, recomendo este texto com pílulas de informação do Blog dos Curiosos. E para comparar as figuras reais e os atores de Saving Mr. Banks, além de saber o quanto o filme se parece ou não com a realidade, recomendo este texto (em inglês) do site History vs. Hollywood.

Algo bacana de Saving Mr. Banks é que o filme valoriza o trabalho de dois grandes compositores que fizeram parte da história dos estúdios Disney: Richard Sherman (interpretado por Jason Schwartzman) e Robert Sherman (vivido pelo ator B.J. Novak). Os dois atores estão bem no filme, com especial destaque para Schwartzman que, de fato, canta e toca piano na produção.

Falando nos atores coadjuvantes deste filme, vale citar o bom trabalho de Ruth Wilson como Margaret Goff, esposa de Travers Goff; Rachel Griffiths quase em uma ponta como Helen Morehead, mais conhecida como tia Ellie, que teria inspirado, em parte, a personagem de Mary Poppins; Bradley Whitford como o roteirista Don DaGradi; e Paul Giamatti como Ralph, o motorista que leva a protagonista de Saving Mr. Banks para cima e para baixo em Los Angeles. Além deles, que tem mais destaque na produção, há outros rostos conhecidos em papéis menores. Exemplo: Kathy Baker como Tommie, secretária de Walt Disney.

Falando em personagens de Saving Mr. Banks, duas curiosidades: primeiro, o fato de que o Travers Goff original, pelo menos segundo aquela foto histórica divulgada pelo History vs. Hollywood, tinha bigode – algo que P.L. Travers não queria que o Mr. Banks, livremente inspirado no pai dela, tivesse em Mary Poppins, e algo que Walt Disney fez questão de acontecer; e, depois, o fato que o personagem de Ralph não existiu de fato. O motorista que Giamatti interpreta é um “compilado” de motoristas que atenderam a escritora na vida real – quiseram reunir todos em uma figura “amável” e que interagisse com Travers para tornar a personagem mais “simpática”.

Chega a ser engraçado ver o parque da Disney mostrado em Saving Mr. Banks. Ele parece um projeto amador perto do que se tornaria, depois, a franquia de parques que leva o nome do empresário. Mas vale lembrar que a primeira Disneylândia foi inaugurada em 1955, apenas seis anos antes da reconstituição de época explorada em Saving Mr. Banks. E, certamente, no início, ela tinha aquela cara de parque de diversões e sem toda a tecnologia e ousadia que passaria a ter conforme os anos foram passando.

Quem quiser saber um pouco mais sobre a vida de Walt Disney, recomendo este texto, publicado quando ele morreu; e também este outro, com 10 curiosidades sobre o empresário.

Saving Mr. Banks estreou em outubro de 2013 no Festival BFI de Cinema de Londres. Depois, o filme passaria ainda por outros quatro festivais. Nesta trajetória, a produção recebeu nove prêmios e foi indicada a outros 44 – incluindo a já citada indicação ao Oscar de Melhor Trilha Sonora. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Emma Thompson e por figurar no Top Ten Films da National Board of Review; e para os prêmios de Melhor Atriz para Emma Thompson e para o de Melhor Filme para a Família entregues no Prêmio da Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas.

Diferente do que Saving Mr. Banks sugere, a escritora P.L. Travers não gostou nada da adaptação feita pela Disney de sua Mary Poppins. A ponto dela proibir qualquer adaptação dos outros livros que ela lançou com a personagem para os cinema e de ter usado o resultado ruim, na opinião dela, da adaptação do cinema como um argumento para dificultar a adaptação da história para os teatros – no fim, ela acabou cedendo, mas após diversas reuniões com o produtor Cameron Mackintosh (responsável por sucessos da Broadway como Cats, Les Misèrables, Oliver!, Miss Saigon, entre outros).

Outra cena que o filme mostra e que, na verdade, não aconteceu, foi aquela visita de Walt Disney a P.L. Travers em Londres. Na vida real os dois só conversaram por telefone – o empresário nunca chegou a ir até a casa da escritora.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Saving Mr. Banks foi rodado na Disneylândia da Califórnia, nos Estados Unidos; no aeroporto de Ontário, no Canadá; no Pacific Southwest Railway Museum que está na Califórnia; nos estúdios da Universal e em outras locações da Califórnia.

Saving Mr. Banks teria custado US$ 35 milhões e faturado, até o dia 2 de março, pouco mais de US$ 82,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Nos outros mercados em que já estreou o filme teria feito outros US$ 23,8 milhões. Passando da barreira dos US$ 100 milhões no acumulado, este filme já pode ser considerado um sucesso.

Alguns pontos que Travers não queria em Mary Poppins e que acabaram aparecendo no filme: animações como na cena dos pinguins; o ator Dick Van Dyke como Bert; Mr. Banks com um bigode; uma certa sugestão de romance entre Mary Poppins e Bert; entre outros pontos. E como falamos da bilheteria de Saving Mr. Banks, vale lembrar que Mary Poppins teria custado US$ 6 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 92,67 milhões. Soma-se a isso cerca de US$ 44 milhões de outros mercados em que o filme estreou e a escritora Travers, que havia fechado um acordo de receber 5% do faturamento do filme, teria embolsado uma pequena fortuna: cerca de US$ 6,8 milhões. Nada mal – mesmo não tendo gostado do resultado final.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Saving Mr. Banks. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 177 críticas positivas e 43 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média 7. Boas avaliações.

Este é um filme com coprodução dos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido.

CONCLUSÃO: Volta e meia você encontra um roteiro que mistura o tempo presente com o passado. Muitas vezes esta fórmula dá certo, apesar de já desgastada. Outras vezes, como é o caso deste Saving Mr. Banks, o recurso acaba jogando contra a própria história. Este é um filme interessante como qualquer outro que conta um pouco dos bastidores do cinema para os fãs desta grande arte. Mas ao mesmo tempo ele demora para decolar e se explicar, criando uma quantidade de dúvida no espectador que acaba sendo um desserviço para a história.

Saving Mr. Banks tem todos os elementos de um filme da Disney. A história é recheada de fantasia, tem uma moral edificante e investe em uma trilha sonora marcante. No fim das contas, você pensa sobre o quanto é importante ter aprendido com o amor e com a dor, e tem reafirmada a importância de saber perdoar e seguir em frente. Aprendizados básicos, mas que sempre valem ser recordados. De quebra, sabemos um pouco mais sobre a origem de Mary Poppins. O lado ruim é o exagero no perfil de Walt Disney, que é retratado de maneira unidimensional. O que salva o filme, além de uma reconstituição de época razoável, é a interpretação de Emma Thompson. Vale pela curiosidade, mas não vai mudar a sua vida e nem deve ser levado muito ao pé da letra.

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E o Oscar 2014 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

86th Oscars®, Governors Ball Preview

Boa noite minha gente!

Pelo sétimo sexto ano consecutivo vou acompanhar a entrega das estatuetas douradas do Oscar com vocês.

A expectativa é boa para este ano porque a disputa está bem acirrada em diversas categorias da maior premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Tenho certeza que em algumas categorias o prêmio será decidido por poucos votos.

O canal E! Entertainment começou a transmissão do tapete vermelho ao vivo às 19h30min, no horário de Brasília, mas o clima começou a esquentar agora, perto das 21h. Uma das figuras interessantes da noite e que acaba de chegar é o ator Jared Leto, todo de branco, com uma gravata borboleta vermelha e os cabelos longos soltos. Para o repórter ele comentou que gosta de roupas antigas. Leto é o favorito da noite na categoria Melhor Ator Coadjuvante por seu trabalho em Dallas Buyers Club.

Das pessoas que já chegaram, outra que chamou a atenção pela roupa foi a atriz Lupita Nyong’o, indicada como Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em 12 Years a Slave. Ela surgiu com um vestido azul claro Prada interessantíssimo e foi bem comentada. O canal TNT também está transmitindo direto do tapete vermelho.

O ótimo ator inglês Benedict Cumberbatch, que não foi indicado a nada este ano mas que participa de quatro produções indicadas (a saber: 12 Years a Slave, August: Osage County, The Hobbit: A Desolation of Smaug e Star Trek Into Darkness), destacou o trabalho de equipe feita em 12 Years. A produção é uma das favoritas na categoria Melhor Filme. Logo veremos se ela terá força de desbancar The Wolf of Wall Street, Gravity e American Hustle.

A favorita da noite segundo muitas bolsas de apostas na categoria Melhor Atriz, Cate Blanchett, aparece belíssima. Ela comenta que achou fascinante interpretar a personagem trágica e complexa de Blue Jasmine. Linda. Vestida para brilhar com uma roupa de Giorgio Armani – sob medida para ganhar a estatueta. Acredito que apenas Sandra Bullock e Amy Adams poderiam surpreender e tirar o prêmio dela – mas meu voto, na verdade, iria para Meryl Streep.

Segundo a votação feita aqui no blog, quase 40% dos leitores aqui do blog acreditam que Gravity saíra da noite de hoje com o maior número de estatuetas da premiação. Em seguida aparecem 12 Years a Slave (com 17,5% dos votos) e Her (com 15% dos votos). Concordo com a maioria. Gravity deve sair com vários prêmios técnicos e ganhar dos demais concorrentes no número de estatuetas. Mas acho que os prêmios principais (Melhor Filme, Diretor, Atriz e Ator) serão partilhados por três ou até quatro filmes.

Outro vestido totalmente de branco a aparecer foi Matthew McConaughey. Mas a gravata borboleta dele é preta, diferente do parceiro de cena, Jared Leto, com gravata do mesmo tipo vermelha. Ele apareceu lindo ao lado da esposa, a brasileira Camila Alves, e da mãe dele. Em seguida, mostraram Jennifer Lawrence de vestido vermelho fazendo o que? Caindo, é claro. hehehehehe. Acho que esta é a atriz mais atrapalhada de Hollywood – e uma das mais talentosas de sua geração.

lupitaarrival1Na revisão feita pelos comentaristas do E! Entertainment destacaram muito Charlize Theron com um vestido preto que valorizou um belíssimo colar. De fato, a atriz é uma diva, uma das mais bonitas da noite. Elogiaram também Amy Adams em um Gucci azul – mas eu, francamente, não achei que o vestido caiu tão bem nela, ainda mais se comparada com Charlize Theron. Mas não há dúvidas, até o momento, que Lupita Nyong’o é o destaque da noite.

Comparado com outros anos, estou achando esse tapete vermelho um tanto morno. Os atores estão bem treinados. Exemplo: Chiwetel Ejiofor aparece entrevista após entrevista comentando que conhecia o autor Solomon Northup, que narrou a própria história no livro 12 Years a Slave, e que só se entregou ao projeto depois de refletir muito sobre ele. Também tenho a impressão que não há muita novidade no visual dos astros e estrelas. Veremos se a premiação consegue nos surpreender um pouco mais.

Voltando para os comentários de moda, destacaram bastante o vestido vermelho de Jennifer Lawrence, mesmo dizendo que ela foi ousada em investir nesta cor (que daria azar para quem quer ser premiado) e também o vestido preto de Julia Roberts. Anne Hathaway, que normalmente é um dos destaques nas premiações, escolheu um belíssimo Gucci para o Oscar 2014. Muito interessante o vestido preto e prateado que ela escolheu.

Faltando menos de meia hora para a premiação começar, Jonah Hill e Bradley Cooper emocionadíssimos no tapete vermelho. Os dois tem razões para comemorar, já que conseguiram ser indicados na categoria Melhor Ator Coadjuvante. No TNT, Lupita Nyong’o comenta que fez aniversário na véspera e que foi ótimo ver 12 Years a Slave ser bem premiado no Spirit Awards.

Ana Maria Bahiana, a quem admiro e sempre acompanho, comentando no Twitter que o Matthew McConaughey pulou o cordão de segurança e foi cumprimentar o público, apertando a mão de vários fãs. Mais uma razão para ele ganhar a estatueta hoje à noite. Outras mais? Além da humildade e simpatia, o ótimo trabalho em Dallas Buyers Club e a ótima fase na carreira.

Sandra Bullock está linda em um vestido azul. A atriz destacou que Gravity mudou a sua vida, tornado ela um pouco menos complexa. Na revisão das 24 horas que antecederam a festa do Oscar, o canal TNT mostrou como havia chovido horrores em Los Angeles e destacou o trabalho de centenas de pessoas na preparação do Oscar – achei curiosa, em especial, a determinação de cada assento no Dolby Theater, com cada astro e estrela identificado com um cartaz com suas respectivas fotos. Só faltava um “Wanted” no material. 🙂

Faltando menos de cinco minutos para a cerimônia começar, Kevin Spacey fala do sucesso da série House of Cards. A segunda temporada veio arrasadora. Para quem ainda não assistiu, eu recomendo. Em poucos minutos vamos saber como vai se sair a anfitrião do prêmio Ellen DeGeneres e qual será a característica do Oscar deste ano – se ele vai seguir a maioria das apostas ou trará muitas surpresas para os fãs de cinema.

Pontualmente as 22h30min no horário de Brasília começou a cerimônia do Oscar. Ellen DeGeneres foi bem aplaudida e começou brincando que os últimos dias foram muito difíceis porque estava chovendo. 🙂 Ela comenta que retornou para a premiação depois de sete anos, e que muitas coisas mudaram no período… Cate Blanchett, Meryl Streep, Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese haviam sido indicados anteriormente. 🙂 Mas ela também destaca as estreantes da noite, como June Squibb, Lupita Nyong’o e Barkhad Abdi. Começou muito bem.

DeGeneres também destacou a presença dos verdadeiros Capitão Phillips e Philomena, e brincou com a Liza Minnelli dizendo que estava presente um de seus melhores imitadores. Nada como ter uma apresentação como um ótimo texto! Isso faz toda a diferença. O Oscar acertou este ano. Mas ela não escapou da tradicional piada com Meryl Streep que foi indicada 18 vezes ao Oscar.

Em seguida, ela foi rápida tirando sarro de Jennifer Lawrence, brincando que não iria lembrar sobre o que aconteceu no ano passado… que ela caiu quando foi receber o Oscar. Comentou que não iria mostrar o vídeo relembrando a cena, mas que ela poderia relembrar isso ao pensar na queda que teve ao sair do carro na noite de hoje. hehehehe.

dallasbuyersclub5Na primeira entrega da noite, Anne Hathaway foi ao palco para apresentar os candidatos na categoria Melhor Ator Coadjuvante. O favorito, sem dúvida, é Jared Leto. Após o clipe de cada trabalho, muitas palmas da plateia. Os mais aplaudidos, me pareceu, foram Barkhad Abdi, Jonah Hill e Jared Leto. E o Oscar foi para… Jared Leto de Dallas Buyers Club!! Uhuuulll. Bacana ver este ator, que mudou tanto desde que estrelou um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Requiem for a Dream, receber esta honraria.

No microfone, ele comentou sobre uma adolescente que foi mãe solteira e que deixou de estudar para educar bem os filhos. Ele estava homenageando a própria mãe. Um fofo! E seguiu dizendo que os sonhadores do mundo, inclusive os da Ucrânia e da Venezuela, que eles estão sendo observados e lembrados pelas pessoas naquele local. Discurso emocionado e também político. Para finalizar, dedicou o prêmio para todas as pessoas que morreram de Aids e que algum dia se sentiram injustiçadas pelo que são ou fazem. Palmas!

Na sequência, surge Jim Carrey. Ele brinca sobre como deve ser difícil a tarefa de ser sempre indicado, e comenta que está feliz porque um de seus heróis, Bruce Dern, foi lembrado no Oscar deste ano. Na plateia, Bono Vox e o U2, banda que vai se apresentar na noite. Carrey estava ali para apresentar um vídeo com os heróis de filmes de animação.

Kerry Washington apareceu em seguida, gravidíssima, para chamar o rapper Pharrell Williams para apresentar a canção Happy, presente no filme Despicable Me 2. Essa foi a primeira apresentação musical da noite, e ela foi aplaudida por boa parte da plateia de pé. Agora, cá entre nós, achei a participação de Jim Carrey um tanto que dispensável. Seria o primeiro “enche linguiça” da noite?

thegreatgatsby7A bela Naomi Watts surge após os comerciais ao lado de Samuel L. Jackson para apresentar os indicados na categoria Melhor Figurino. E o Oscar foi para… Catherine Martin por The Great Gatsby. Ela homenageou o marido, Baz Luhrmann por ele ser um visiónario. Em seguida, os atores apresentaram apresentaram os indicados em Melhor Maquiagem e Penteado. E a estatueta foi para… Dallas Buyers Club. Matthew McConaughey e a esposa bateram palmas de pé. As premiadas agradeceram McCounaughey e Leto por eles terem deixado elas modificarem eles e fazerem o trabalho dos sonhos, além de dedicar a estatueta para as vítimas da Aids.

Na sequência, Harrison Ford apresentou três dos indicados a Melhor Filme da noite. Na sequência: American Hustle, Dallas Buyers Club e The Wolf of Wall Street. Destes três, gostei mais dos últimos dois. Até o momento, quem se saiu bem foi Dallas Buyers Club.

O ator Channing Tatum veio em seguida para apresentar os universitários que ganharam o concurso de curtas promovido pela Academia. Bacana eles darem esse espaço para os novos realizadores – afinal, eles são o futuro do cinema dos Estados Unidos.

Após a propaganda, Kim Novak e Matthew McConaughey aparecem para apresentar os candidatos na categoria Melhor Curta de Animação. E o Oscar foi para… Mr. Hublot. Bacana. Vi imagens da produção e achei elas muito interessantes. Acho que vale ir atrás. Laurent Witz e Alexandre Espigares subiram ao palco para agradecer pela estatueta que, segundo um deles, é um sonho americano. Ele estavam muito, muito nervosos. Bacana ver gente que luta tanto ser premiada. Cool.

Na sequência, McCounaguey e Kovak apresentaram os candidatos a Melhor Animação. E o Oscar foi para… Frozen. Bacana ver uma diretora subir ao palco: Jennifer Lee, que fez este filme da Disney junto com Chris Buck. Discurso rápido e bacaninha.

A duplamente premiada com estatuetas do Oscar Sally Field surgiu após uma rápida brincadeira de Ellen DeGeneres para apresentar um vídeo sobre os heróis do “dia-a-dia”. No vídeo, entre outros, filmes como Milk, Erin Brockovich, Captain Phillips, Ali, Schindler’s List, Argo, Norma Rae, Philadelphia, Ben-Hur, 12 Years a Slave, Dallas Buyers Club e Lawrence of Arabia.

Emma Watson surge com Joseph Gordon-Levitt para apresentar a categoria Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… Gravity. Prêmio esperadíssimo e muito cantado. O trabalho feito nesta produção é impecável, de fato. Um dos pontos fortes do filme – se não o maior, junto com edição de som.

No palco, surge o galã Zac Efron para apresentar a próxima atração musical da noite: Karen O canta The Moon Song, do belíssimo filme Her. Esta produção, sem dúvida, a minha favorita deste ano – mas, como ocorreu em outros anos, a minha escolha não tem chances reais na categoria principal. Bela e sensível apresentação de Karen O.

Depois dos comerciais, Kate Hudson e Jason Sudeikis apresentam Melhor Curta de Ficção. E o Oscar foi para… Helium. Bacana ver gente apaixonada falar de cinema. Depois, entregaram o Oscar de Melhor Curta Documentário, que foi para… The Lady in Number 6: Music Saved My Life. O curta conta a história de uma sobrevivente do Holocausto que, infelizmente, faleceu uma semana antes do Oscar ser entregue com 110 anos. Os realizadores disseram que a personagem real que os inspirou lhes ajudou a terem mais esperança. Bacana.

20feetfromstardom1Depois de uma piada um tanto sem grança sobre fome e pedir uma pizza de Ellen DeGeneres, subiu ao palco o ator Bradley Cooper. Ele apresentou os indicados na categoria Melhor Documentário. Ele disse que os concorrentes deste ano talvez fossem dos melhores dos últimos anos. Concordo com ele. Este ano está ótimo. E o Oscar foi para… 20 Feet from Stardom. Uau! Ele era um dos mais cotados nas bolsas de apostas. Belo filme, um resgate interessante sobre a história das backing vocals. Mas cá entre nós, acho outras produções melhores… Dirty Wars e The Square merecem ser vistas. Nos agradecimentos, Darlene Love, uma das cantoras destacadas no filme, deu um pequeno show e foi bem aplaudida depois.

Kevin Spacey surgiu na sequência brincando que estava feliz por estar ali, ao invés de em Washington – por causa de House of Cards. Ele comentou os prêmios especiais e honorários deste ano e apresentou um vídeo sobre eles: Steve Martin, Angela Lansbury, Piero Tosi e Angelina Jolie. Grandes nomes, que contribuíram de diferentes formas para o cinema e a sociedade. Legal.

lagrandebelezza2Depois do intervalo, Ewan McGregor e Viola Davis apresentaram os indicados na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ela me surpreendeu pela magreza. Este ano, alguns filmes muito bons. E o Oscar foi para… La Grande Bellezza. Era o favorito segundo a bolsa de apostas. Torcia por ele, ainda que eu estivesse dividida entre este filme, Jagten e The Broken Circle Breakdown. Para quem não assistiu a todos eles, recomendo fortemente assisti-los. O diretor Paolo Sorrentino agradeceu a seus ídolos. Entre outros, Diego Maradona.

Na sequência, o diretor e roteirista Tyler Perry apresenta outros três indicados a Melhor Filme deste ano: Gravity, Her e Nebraska. Brad Pitt surge para chamar a terceira apresentação musical da noite: U2 com a música Ordinary Love do filme Mandela: Long Walk to Freedom. Apresentação gostosa, como tdas que Bono e Cia. costumam fazer. A banda foi bem aplaudida pela plateia, com Jared Leto e quase todos os outros aplaudindo eles de pé.

Na volta dos comerciais, Ellen DeGeneres com nova roupa, desta vez toda de branco, em uma das melhores tiradas da noite: ela chama Meryl Streep e mais uma pancada de atores para bater um “selfie coletivo” e bater recorde de retweets. Na sequência, subiram ao palco Michael B. Jordan e Kristen Bell para homenagear os premiados nas categorias científica e técnica – que fazem parte do Oscar, mas que sempre são vistas em uma lembrança de resumo de vídeo.

Charlize Theron e Chris Hemsworth, sem dúvida o casal mais bonito de apresentadores até então, vieram em seguida para apresentar os indicados na categoria Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Esperadíssimo. Um dos prêmios mais cantados da noite. Na sequência, os indicados em Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Merecido, ainda que o trabalho feito em All Is Lost também merecia uma estatueta – seria interessante um raríssimo empate, neste caso.

E agora, a reta final da premiação com as principais categorias se acumulando. Christoph Waltz apresentou as cinco indicadas desta noite na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. E o Oscar foi para… Lupita Nyong’o de 12 Years a Slave. Que bacana! Premio merecidíssimo, porque ela está absurdamente perfeita em 12 Years a Slave. O nome mais falado da noite no quesito moda também se firma como vencedora da premiação.

E a primeira palavra dela: Yes! Em seguida, ela agradece a Academia, mas lembra que tanta felicidade na vida dela significa infelicidade na vida de tantas outras pessoas – mais um discurso consciente. Ela agradeceu ainda o diretor Steve McQueen e os colegas de cena, Chiwetel Ejiofor e Michael Fassbender. O discurso dela, o ponto alto da noite até agora, emocionando muita gente da plateia – de Brad Pitt até Kevin Spacey. Senti cheiro de Melhor Filme indo para 12 Years a Slave…

Na volta do intervalo, a sequência da piada sobre o povo que passa fome durante a apresentação do Oscar. Ellen DeGeneres recebe um entregador de pizza que distribuiu pedaços para vários astros e estrelas – de Meryl Streep e Julia Roberts até Harrison Ford e Jared Leto. Baita sacada, destas para entrar na história da premiação.

GRAVITYNa sequência, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, apresentou o projeto do Museu do Cinema que eles pretendem inaugurar até o final de 2017. Projeto de sonho. Amy Adams e Bill Murray surgiram, então, para apresentar os concorrentes na categoria Melhor Fotografia. E o Oscar foi para… Gravity. Mais um prêmio técnico que esta produção leva, como era previsto. Ainda que nesta categoria ele poderia ter perdido para outros títulos, especialmente Nebraska e The Grandmaster. Emmanuel Lubezki agradeu ao mestre Alfonso Cuarón, para a equipe e, em especial, para Sandra Bullock.

Depois, vieram os indicados em Melhor Edição. E o Oscar foi para… Gravity. Sem dúvida um excelente trabalho de Mark Sanger e Alfonso Cuarón, ainda que esta categoria estava bem disputada este ano. Algo me diz que Cuarón vai receber, ainda, outro Oscar nesta noite, desta vez como Melhor Diretor. Logo saberemos… Em edição outros fortes concorrentes eram American Hustle e Captain Phillips.

Na sequência, Whoopi Goldberg faz uma homenagem para The Wizard of Oz, filme de 1939. No palco, Pink canta enquanto cenas projetam momentos marcantes da produção. Bela lembrança e muito bem executada pela cantora que estava em um vestido vermelho decotado e cintilante – bem ao gosto dos sapatinhos de Judy Garland. Ela também foi aplaudida de pé – a plateia está animada hoje.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres vestida de fada madrinha. Jennifer Garner e Benedict Cumberbatch apresentam a categoria Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… The Great Gatsby. Catherine Martin e Karen Murphy subiram ao palco para receber o prêmio. Depois, Chris Evans surgiu para apresentar um vídeo que relembrou grandes personagens do cinema.

Outro comercial e, na sequência, a homenagem aos falecidos no último ano. Para começar, James Gandolfino, seguido de vários nomes, entre outros Carmen Zapata, Hal Needham, Richard Shepherd, Jim Kelly, Les Blank, Paul Walker, Elmore Leonard, Eduardo Coutinho, Peter O’Toole, Richard Griffiths, Roger Ebert, Shirley Temple Clark, Joan Fontaine, Juanita Moore, Harold Ramis, Eleanor Parker, Ray Dolby, Julie Harris, Maximilian Schell, Gilbert Taylor, Esther Williams, chegando até Philip Seymour Hoffman.

Grandes perdas. E bacana, muito bacana terem incluído o grande Eduardo Coutinho entre os lembrados. Bette Midler fechou a homenagem cantando. E muito, aos 69 anos, com voz e aparência de tirar o chapéu. A plateia bateu palmas de pé, mais uma vez. Justo, muito justo.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres novamente de preto. Ela brinca que eles estão batendo recorde no Twitter – e Meryl Streep se emociona com a cena. Goldie Hawn apresenta os últimos três indicados a Melhor Filme: Philomena, Captain Phillips e 12 Years a Slave. Destes, sem dúvida o único com chances reais é o filme de Steve McQueen.

John Travolta surge com a música de Pulp Fiction – antes, Harrison Ford apareceu com a trilha de Indiana Jones – para apresentar a última música concorrente da noite: Let It Go, do filme Frozen, apresentada por Idina Menzel. Ainda que bem vestida, para mim foi a atração mais entediante do Oscar. Alguém tem que baixar a adrenalina, não é mesmo? 🙂 Ela me pareceu um tanto alterada… fiquei com medo dela ter um troço no final, mas a plateia levantou novamente. Ai, ai…

Na sequência, Jamie Foxx e Jessica Biel apresentaram os concorrentes da categoria Trilha Sonora Original. Antes, Foxx fez várias gracinhas. E o Oscar foi para… Steven Price por Gravity. Esta categoria estava recheada de excelentes trabalhos. Mais uma vez eu teria ficado em dúvida se daria o Oscar para Gravity ou Her. E daí veio a estatueta para Melhor Canção Original. E ele foi para… Let It Go, de Frozen. Aaaaahhhh, que pena que o U2 não levou essa!

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres passa o chapéu entre os astros para pagar a pizza. A apresentadora embolsa o dinheiro dado por Kevin Spacey e o bastão labial de Lupita. Depois surgem Penélope Cruz e Robert De Niro para apresentarem os indicados na categoria Melhor Roteiro Adaptado. E o Oscar foi para… John Ridley, de 12 Years a Slave. Muito bacana! Mais um sinal de que o filme tem grandes chances de ganhar como Melhor Filme.

her7Depois, o esperado Melhor Roteiro Original. Minha torcida total para Her. E o Oscar foi para… Spike Jonze por Her. Yeesssss. Ufa! Salvou a noite para mim. 🙂 Baita texto o dele. E Jonze foi aplaudido de pé. Ele brinca que tem 42 segundos para falar, por isso ele corre para agradecer aos amigos e familiares. Grande figura e muito merecido!

Depois de mais um intervalo – perdi a conta de quantos tivemos! -, sobem ao palco Angelina Jolie e Sidney Poitier. Os dois, aplaudidíssimos. Jolie começou a fala dela agradecendo ao grande Poitier – antes, ela andou muito devagar para acompanhá-lo. Ele respirou fundo para conseguir seguir com a fala. Os dois apresentaram os indicados na categoria Melhor Diretor.

Emocionante ouvir o Poitier pedindo para os realizadores seguirem com o ótimo trabalho. E o Oscar foi para… Alfonso Cuarón, de Gravity. Grande diretor, e que fez um trabalho exemplar em Gravity. Ainda assim, admito que eu estava torcendo também por Scorsese. Cuarón repete as palavras de Sandra Bullock e diz que o filme foi uma experiência transformadora. Ele dividiu o prêmio com o filho e co-roteirista e com Sandra Bullock. Citou também George Clooney e várias outras pessoas que ajudaram o filme a sair – bacana ele citar Guillermo del Toro.

Na volta seguinte, DeGeneres brinca com Matthew McConaughey sobre ele ter perdido tudo dançando. E sobe ao palco Daniel Day-Lewis para apresentar as indicadas na categoria Melhor Atriz. E o Oscar foi para… Cate Blanchett, de Blue Jasmine. Estatueta cantadíssima, mas ainda assim tinha gente – inclusive eu – esperando por uma possível zebra. Ela subiu ao palco e foi aplaudida de pé. Diz que foi uma honra especial receber o prêmio da mão de Day-Lewis. Generosa, ela cita todas as demais candidatas. Agora, mais que antes, admito que ela mereceu o prêmio – especialmente pela postura que ela teve e tem. E o mais bacana de tudo, ela citar no final a Companhia de Teatro de Sydney. Muito legal!

Caminhando mais firme desta vez, Jennifer Lawrence aparece no palco para apresentar os cinco indicados na categoria Melhor Ator. E o Oscar foi para… Matthew McConaughey, de Dallas Buyers Club. Uau! Que maravilha! Esse ator está na melhor fase da vida. Era o momento de ganhar a estatueta. Foi bem aplaudido e começou agradecendo os votantes da Academia. Em seguida, agradeceu o diretor de Dallas Buyers Club, Jared Leto e Jennifer Garner.

Ele disse que precisa de três coisas todos os dias. Agradeceu a Deus, que dá todas as oportunidades da vida dele, e que a gratidão é recíproca. Depois, falou da família, que é quem ele busca sempre, e citou especialmente a mãe e a esposa. E finalmente ele fala do herói dele, que ele busca sempre, e este herói é ele no futuro. Comentou que ele vai semrpe buscar este herói, ainda que ele nunca se torne um. Discurso interessante e corajoso. Sem ser McConaughey, acho que o Leonardo DiCaprio merecia o prêmio.

DF-02238.CR2Finalizando a noite, Will Smith relembrou os nove indicados deste ano como Melhor Filme. E o Oscar foi para… 12 Years a Slave. Dei o favorito. Sem zebras este ano. Muita celebração na plateia. Brad Pitt foi o primeiro a falar, como produtor do filme. Ele iniciou dizendo que foi um privilégio ter trabalhado no filme, e chamou Steve McQueen para discursar. O diretor agradeceu a Academia e seguiu uma lista de nomes, muitos que foram fundamentais para o filme ser concretizado. Ao agradecer a mãe, mostraram ela no fundo da sala – apesar de estar lá, ela teve a chance de ver o filme levando a estatueta e pulando muito no palco.

E assim se foi mais um Oscar. Neste ano, sem surpresas. Todos os favoritos levaram a sua estatueta. E algumas produções bem indicadas, como American Hustle e The Wolf of Wall Street, saíram de mãos vazias. Francamente? Gostei do resultado final. Claro que gostaria de ver The Wolf com algum Oscar, mas também não dá para dizer que foram feitas injustiças.

Grande vencedor da noite: Gravity com sete estatuetas. Tiveram destaque também 12 Years a Slave, com três estatuetas, e Dallas Buyers Club com três Oscar’s. Para quem não assistiu a premiação, a TNT reexibe a entrega do Oscar nesta segunda-feira, dia 3 de março, pouco depois das 11h. E agora é esperar pela premiação do próximo ano, com a garantia de que ele nos trará muitos filmes bons, a exemplo deste ano. Abraços e até lá!

ADENDO (04/03): Pessoal, para quem não leu o post com as apostas, quando foram divulgados todos os indicados deste ano no Oscar, facilito aqui o link. Mais que ver o que eu acertei ou errei – até porque, na época, faltava ver muitos filmes ainda, o que fui fazendo aos poucos -, acho interessante dar uma olhada por lá porque ali as críticas de todos os filmes que eu assisti até agora estão facilitadas com links nos respectivos nomes. Boa leitura!

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All Is Lost – Até o Fim

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Em condições normais, o ser humano é feito de um material que lhe exige buscar a sobrevivência a todo custo. Quanto mais adversa a situação, mais o indivíduo se desdobra em sobreviver. E algumas vezes, ao invés de gestos desesperados, a sobrevivência significa pequenas atitudes, singelos gestos de inteligência.

All Is Lost é um filme diferente, que exige muita paciência do espectador, mas que trata, exatamente, deste infindável desejo de viver que todos nós temos. Agora, se você ainda não assistiu ao filme, saiba que esta é a história de um homem só, trabalho de um único ator, e que há poucas palavras em jogo. Por isso mesmo, recomendo que você assista ao filme bem desperto(a), preferencialmente na primeira parte do dia – e não no final, quando o sono já pode começar a bater.

A HISTÓRIA: Barulho de água. Seguido da informação de que a história começa a 1.700 milhas náuticas do estreito de Sumatra. No horizonte, apenas mar, até que surge a ponta de contêiner. Uma voz diz que a data é 13 de julho, e a hora, 16h50min. Em seguida, prossegue pedindo desculpas, mas explicando que havia tentado de tudo. Ele fala de seus princípios e tentativas, mas acaba concluindo que não estava certo.

Afirma que tudo estava perdido ali, exceto por seu corpo e alma, e por comida suficiente para metade de um dia. Também afirma que lutou até o fim, ainda que não saiba se valeu a pena. E conclui que sempre esperou mais para todos, e que sentirá falta das pessoas. Daí o filme volta oito dias no tempo, antes daquela declaração, para sabermos o que levou aquele homem (Robert Redford) a escrever aquelas palavras.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All Is Lost): Este não é um filme fácil, não há dúvidas. Comecei a assisti-lo em um dia, cansada, e depois de 15 minutos eu tive quase certeza que não conseguiria vê-lo até o fim. De fato, não consegui. Deixei os 30 minutos finais para o dia seguinte. E valeu muito a pena ter feito isso.

O melhor de All Is Lost está neta reta final. Mas para você concluir isso, como acontece muitas vezes na nossa própria vida, é preciso ter vivenciado todo o resto. Impressionante pensar que conseguiram um grande astro e o investimento necessário em dinheiro para realizar All Is Lost em Hollywood. Porque este filme é tudo, menos hollywoodiano. Se ele tivesse sido feito por europeus ou russos, seria mais “natural”. O que apenas valoriza ainda mais o trabalho do diretor e roteirista J.C. Chandor.

Talvez o paralelo possa surpreender vocês, mas acho All Is Lost um irmão gêmeo de Gravity (comentado aqui no blog), só que ambientado em outro “universo” (no lugar do espaço sideral, este filme se passa em outra imensidão, a do mar), e a antítese de The Wolf of Wall Street (com crítica neste link). Isso apenas para ficar na comparação de filmes que foram lembrados no Oscar deste ano.

Vejamos melhor estas comparações… All Is Lost trata do desejo infindável da sobrevivência da mesma forma que Gravity. A diferença é a quantidade de ação, de diálogos e de recursos entre uma proposta e a outra. Gravity teve um orçamento aproximado de US$ 100 milhões e investe pesado em inovação tecnológica e efeitos especiais. All Is Lost teria custado cerca de US$ 9 milhões e aposta em recursos espartanos, sem muita inovação – apesar de exigir vários efeitos especiais, ainda que em escala radicalmente menor que Gravity.

No fim das contas, tanto Gravity quanto All Is Lost são estrelados por atores solitários. Tudo bem que Sandra Bullock não fica só o tempo todo – conta com a “companhia” de George Clooney por uma parte considerável do tempo. Ainda assim, o fundamental da história de Gravity se passa na parte solitária da protagonista. All Is Lost é um filme de um único ator, literalmente. Tanto Robert Redford quanto Sandra Bullock se sacrificaram pelos seus papéis e embarcaram em suas respectivas interpretações.

Além disso, os protagonistas dos dois filmes devem enfrentar muitos desafios para tentar sobreviver. Passam, inclusive, por alguns momentos de esperança seguidos de frustração. São testados mais de uma vez. Mas não esmorecem. Em certo momento, parece que vão desistir, mas daí surge uma última chance de viver e eles a abraçam com toda a força que resta. Nos dois casos a história é edificante e carregada de esperança. Apesar de tantas semelhanças, para o meu gosto All Is Lost foi mais emocionante que Gravity – especialmente pelo final de Gravity, um tanto previsível demais enquanto All Is Lost é pura beleza e poesia.

Agora, vejamos a comparação dos extremos: All Is Lost e The Wolf of Wall Street. No caso do primeiro, dá para contar nos dedos as palavras proferidas. Existe quase uma ausência de falas – por pouco All Is Lost não é um filme mudo. The Wolf of Wall Street, por outro lado, apresenta uma verborragia incessante, quase ensurdecedora. Há excesso de diálogos, de palavras. É como se All Is Lost negasse The Wolf e vice-versa.

Sem contar as diferenças de ambiente e de essência. Enquanto em The Wolf sobram recursos, dinheiro e luxúria, em All Is Lost nada disso tem importância. No filme que estamos tratando aqui, a sobrevivência depende de muito pouco. Voltamos para o essencial. Descobrimos, mais uma vez, que precisamos de muito pouco para viver. E mesmo que não tenhamos quase comida ou água, como o que acontece com o personagem de Robert Redford, nos sobra vontade de viver, lembranças para revisitar, esperança para seguir lutando e imaginação para sonhar.

Como bem escreveu o protagonista naquelas linhas iniciais, ainda que quase tudo tivesse terminado, ele ainda tinha o próprio corpo e a alma. Mesmo enfraquecidos, eles estavam ali. Que grande filosofia! E esta é a essência de All Is Lost. Claro que para chegar naquele ponto e no final derradeiro, J.C. Chandor teve que fazer o exercício básico de nos contar como o protagonista chegou naquela carta.

Daí que existem vários momentos de ação, do personagem de Redford lutando contra o acidente que inicia esta história, até o ápice de enfrentar uma grande tempestade. Antes e depois destas cenas, predominam imagens de “vida real” no mar. Descobrimos, quase na prática, como se desenvolve o cotidiano de quem navega sozinho, quais são os recursos que esta pessoa tem disponível e que alternativas ela possui no caso de emergências.

Como eu disse lá no início, esta é uma produção de um único ator. Redford se entregou para o papel, como Sandra Bullock fez em Gravity. Mas em All Is Lost ele está sozinho. A imagem do ator naquela imensidão, revelando toda a sua fraqueza, mortalidade e solidão, é um paralelo interessante sobre a condição humana.

Afinal, não importa onde estejamos ou o que estejamos fazendo, no fundo somos exatamente isso. Seres frágeis, mortais e que passam grande parte da vida sem uma companhia no que isso tem de mais pleno (ou seja, sem a compreensão do outro que seja plena). Quando nos damos conta disso, talvez nos sintamos mais realistas ou, quem sabe, conformados.

Por isso tudo vale vencer o sono que All Is Lost pode nos provocar – especialmente se você tentou assisti-lo no final do dia. Esta é uma produção que trata de alguns dos temas, medos e fortalezas mais caros do ser humano. E não deixa de ser um desafio aprender com um roteiro como este de Chandor.

Digo isso porque, normalmente, queremos ter um contexto para acalmar a nossa curiosidade de saber mais sobre o outro. E no caso do protagonista de All Is Lost, não apenas desconhecemos o passado dele como, depois de acompanhá-lo naquela experiência extenuante, ficamos sem saber o que irá acontecer com ele a partir dali.

A carta que ele escreve e lança no mar sugere que ele tem família, pessoas que ama e que ele teria decepcionado de alguma forma. Mas existe também espaço para interpretar aquela carta como uma mensagem para a humanidade em geral – especialmente porque ele não cita nome algum no texto. Aí a interpretação vai depender do gosto do freguês – ou, neste caso, do espectador. Eis mais uma escolha brilhante de Chandor.

Interessante a coragem dos realizadores de fazer um filme praticamente mudo. Em pouquíssimas ocasiões Robert Redford abre a boca. O que acaba valorizando, ainda mais, quando este gesto é feito. Mais um ponto de reflexão para todos nós que, normalmente, deveríamos nos calar mais e escutar os sons ao redor. O silêncio pode ser mágico e fonte de grande aprendizado. Pena que ele esteja cada vez menos presente no nosso cotidiano.

All Is Lost sabe valorizar aquele silêncio ainda que, no fundo, ele praticamente nunca exista na prática. O filme é recheado por “sons ambientes” (muitas vezes criados para valorizar o que seria o som original) e por uma trilha sonora marcante e fundamental. Mas nada que tire o espaço fundamental dos sons da Natureza que, propositalmente, acaba “falando” alto e dando dinâmica para as cenas.

Apesar de ter tantas qualidades, não dou uma nota maior para All Is Lost porque acho que o filme gasta tempo demais com o passo-a-passo da vida no mar. Para o meu gosto, ele demora tempo demais para embalar. Como eu não tenho um gosto especial por navegação, acho que várias cenas que mostram os aparatos de um iate e as soluções que eles podem trazer poderiam ter sido suprimidas. Talvez sem elas o filme se tornaria mais “digerível” para o grande público, muito acostumado com sequências mais editadas e dinâmicas. Ainda assim, respeito a proposta de Chandor que, evidentemente, era aquela que vemos no filme mesmo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há muito tempo eu não via ao ator Robert Redford tão bem. Entregue ao papel e ao projeto, ele dá um banho – sem alusão a trocadilhos. 🙂 Não é nada fácil segurar um filme com pouco mais de uma hora e meia de duração sozinho e convencendo a quem assiste. E com um detalhe importante: sem a “muleta” de diálogos espertos ou de um texto bem escrito. Aqui, Redford tem basicamente a ação de pequenos gestos como recurso cênico. Convencer o público desta forma, só sendo um grande ator. Pena ele não ter sido indicado ao Oscar.

Uma das qualidades marcantes desta produção é a direção de fotografia. Em muitas cenas, especialmente no final, são as belas imagens que embalam os pensamentos do público – que não tem nos diálogos uma válvula de escape. A dupla Frank G. DeMarco e Peter Zuccarini fizeram um belo trabalho em All Is Lost.

Como All Is Lost praticamente não tem diálogos, acaba sendo fundamental o trabalho de “preencher o vazio” feito pelos técnicos de som. Seja na captação de som ambiente ou seja na edição de som posterior, o trabalho destes profissionais acaba sendo vital para a produção. O Departamento de Som do filme contou com 24 profissionais liderados por Steve Boeddeker e Richard Hymns. Um trabalho exemplar. Destaque também para a trilha sonora de Alex Ebert que casa e dialoga perfeitamente com os sons do filme.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o roteiro inteiro de All Is Lost tem 32 páginas. O que deve ser um recorde de economia no cinema. 🙂 E por falar em recordes, All Is Lost é o primeiro filme que se tem notícia estrelado por um único ator, dirigido e escritor por um único profissional, mas que tem 11 produtores executivos e seis outros produtores.

All Is Lost estreou em maio de 2013 no Festival de Cannes. Depois, o filme participaria de outros 15 festivais. O próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado que começa amanhã. Nesta trajetória, a produção conquistou três prêmios e foi indicada a outros 21, incluindo a indicação a um Oscar. Entre os prêmios que recebeu está o de Melhor Roteiro Original no Globo de Ouro; Melhor Ator para Robert Redford (e quem mais seria? hehehehe) entregue pelo Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; e o terceiro lugar como Melhor Ator para Robert Redford no prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos.

Esta produção teria custado cerca de US$ 9 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 6,3 milhões nas bilheterias. Ainda falta contabilizar o resultado do filme nos outros mercados em que estreou, mas parece que ele terá um pouco de dificuldade para conseguir um grande lucro.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, All Is Lost foi rodado em diferentes locais de Los Angeles, na Califórnia; nas Bahamas e na Baixa Califórnia, no México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para All Is Lost. Os críticos que tiveram os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 188 textos positivos e apenas 14 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9.

Figura interessante este J.C. Chandor. Antes de All Is Lost, ele havia dirigido apenas a um filme: Margin Call. A estreia dele como diretor foi com o curta Despacito. Mesmo com um número tão reduzido de trabalhos, ele já tem sete prêmios no currículo e foi indicado a um Oscar – pelo roteiro de Margin Call. Agora, ele está rodando A Most Violent Year, estrelado por Jessica Chastain e com estreia prevista para 2015. Vale acompanhá-lo.

Este é um filme com produção 100% dos Estados Unidos. Por esta razão, ele engrossa a lista de produções daquele país comentada aqui no blog e que atende a uma votação feita por vocês.

Fazia tempo que eu não encontrava tantos cartazes bons de um mesmo filme. Tive um pouco de dificuldade de escolher qual colocar aqui no blog. Mas acho que fiz uma escolha acertada. De qualquer forma, vale dar uma olhada nas outras opções que existem na rede.

CONCLUSÃO: Inicialmente este filme é recomendado apenas para quem gosta muito de mar e de histórias de busca pela sobrevivência. Ou, pelo menos, para quem não se importa com um desenrolar lento da história, na qual a falta de diálogos predomina. Aqui o que importa é a relação do homem com a Natureza e com o seu próprio significado no mundo. Não sabemos nada sobre a vida do protagonista antes de vê-lo sozinho navegando pelo mundo.

Aqui a contextualização pouco importa. Um filme lento, com grande interpretação de Robert Redford, e que testa a paciência do espectador para levá-lo a outro nível. Um estágio em que os diálogos são supérfluos e em que a contemplação e a reflexão é o que importa. Lindo e exigente, All Is Lost exige que o espectador vença o seu sono – especialmente se você tentar assisti-lo no fim de um dia de trabalho -, mas no fim das contas ele se revela muito válido e interessante pelo diferencial que nos apresenta.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Antes da lista de indicados ser divulgada, alguns apostavam que Robert Redford conseguiria uma indicação como Melhor Ator. Mas ele ficou fora da lista – apesar de merecer. O mesmo aconteceu com Tom Hanks. É que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, este ano, resolveu encher a bola de American Hustle – e, consequentemente, de seus atores, incluindo Christian Bale, que foi indicado como Melhor Ator.

Para All Is Lost sobrou uma indicação na categoria Melhor Edição de Som. De fato, em um filme praticamente sem falas, a trilha sonora e o som ambiente e criado em estúdio são os elementos fundamentais em cena. Mesmo que você não perceba com exatidão durante o desenrolar da história, mas o trabalho impecável da equipe liderada por Steve Boeddeker e Richard Hymns é essencial para te transportar para o meio da história e provocar o que é um dos objetivos desta produção: a empatia do espectador com o protagonista solitário desta história.

Sem dúvida Boeddeker e Hymns merecem a estatueta. Mas eles tem pela frente uma tarefa inglória: desbancar o trabalho  fantástico que Glenn Freemantle fez com a edição de som de Gravity. Sem dúvida alguma Freemantle é o favorito. Ainda que a concorrência na categoria esteja pesada – a edição de som em Captain Phillips também é ótima, e mesmo sem ter assistido aos demais concorrentes (a saber: Lone Survivor e The Hobbit: The Desolation of Smaug), imagino que o trabalho de todos seja de primeiríssima linha. All Is Lost, desta forma, pode sair de mãos vazias do Oscar. Não seria uma surpresa.