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Logan

Para muitos, ele pode estar velho. Para mim, ele está em sua melhor forma. Logan resgata algumas das melhores características do personagem que todos conheceram como Wolverine. O filme é bastante violento e vai direto ao ponto em muitos momentos. Mesmo sendo uma produção de ação e com um desenrolar um bocado previsível, esta produção tem alguns grandes momentos. Há uma velha parceria bem interessante em cena, mas em outro estágio. Porque o tempo passou. Logan nos fala muito sobre o tempo e sobre a passagem dele. Também trata de novas descobertas. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Música alta e a voz de um grupo de latinos falando alto. Dentro do carro, Logan (Hugh Jackman) acorda quando o veículo começa a ser levantado. Ele sai da limusine e pede para os bandidos irem embora sem prejudicarem o carro, que é alugado. Ele logo leva um tiro no peito. Quando os bandidos dão as costas para ele, Logan começa a se levantar. Cansado e um pouco bêbado, ele não tem mais o vigor que tinha quando era jovem. Apanha, mas também mata parte do grupo. Logan trabalha como motorista para conseguir juntar dinheiro e comprar um barco. Mas logo os planos dele serão interrompidos pelo pedido de socorro de uma mulher desconhecida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan): Eu não assisti a todos os filmes da Marvel e demais produções baseadas em personagens de HQ. Mas conheço o suficiente deste universo para poder comentar sobre um filme sobre o Wolverine. Antes de Hugh Jackman estrear nos cinemas com este personagem, eu já conhecia bem o Logan/Wolverine das HQs.

Soube, antes de assistir a este filme, que ele seria inspirado na série Old Logan. Li a HQ antes de assistir ao filme e, por isso, posso dizer com toda a convicção que o filme não tem praticamente nada a ver com os quadrinhos. Os únicos elos de ligação são o fato de Logan estar envelhecido no filme e na HQ e das duas obras serem um tipo de “road trip”. E isso é tudo. A HQ tem uma história mais interessante e complexa que o filme, além de ter outros personagens e uma questão central: o velho Logan não quer mais usar as suas garras. Ele está “aposentado”.

Nada disso nós assistimos em Logan. Logo no início o personagem de Jackman utiliza as suas garras para matar, sem ter qualquer questionamento sobre isso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Outra diferença fundamental é que no filme, ainda que esta questão não esteja totalmente clara, mas apenas “sugerida”, o culpado pela morte de parte dos X-Men foi o professor Xavier (chamado apenas de Charles no filme, interpretado pelo ótimo Patrick Stewart). Na HQ, que nem tem o professor Xavier na história, o culpado pela morte de todos os X-Men foi Logan – manipulado por um inimigo.

Então, para resumir, o HQ é sim melhor que o filme. Especialmente porque a produção Logan tem um roteiro previsível demais. A premissa criada pelo diretor James Mangold e que acabou resultando no roteiro assinado por ele junto com Scott Frank e Michael Green deveria ser muito boa. Um envelhecido Wolverine batalha para sobreviver em um mundo sem novos mutantes e no qual ele, o professor Xavier e Caliban (Stephen Merchant) estão envelhecidos e sem grande perspectiva de viver um longo tempo.

Neste contexto, aparece em cena uma nova mutante. Logan acaba sendo impelido a ajudar ela a escapar dos bandidos que a estão caçando – a exemplo de como ele próprio já foi tantas outras vezes. A premissa é boa, não é mesmo? O problema é que o desenvolvimento do filme acaba sendo um tanto previsível demais. Quando Laura (Dafne Keen) aparece em cena junto com Gabriela (Elizabeth Rodriguez) fica evidente que teremos um tipo de “caçada sem fim” e que vai resultar com a garota sendo salva de alguma maneira.

Todas as crianças e jovens que fogem das garras da grande corporação manipuladora, uma evolução da mesma organização que injetou adamantium em Logan no passado, acabam combinando a mesma coordenada que viram em uma HQ do X-Men como ponto de encontro. Logan critica a versão dada por Gabriela e por Laura porque acha que elas estão sendo “iludida” pela HQ. Ao mesmo tempo, Mangold faz uma grande homenagem ao clássico de George Stevens de 1953, Shane, um dos grandes filmes de faroeste. Seria uma forma do diretor dizer que os filmes são mais importantes que as HQs?

Essa é uma questão menor. O importante é que Logan cumpre o seu papel de entreter. Bem diferente do recentemente comentado aqui The Great Wall, que dá sono, Logan deixa você bem acordado o tempo inteiro. Mérito do bom trabalho do diretor Mangold e, sem dúvida alguma, das ótimas interpretações de Hugh Jackman e Patrick Stewart, em especial. Quando os dois estão em cena, impossível não ficarmos com o nível de atenção no máximo. Cada detalhe da interpretação deles é preciosa.

O mesmo não pode ser dito de outros atores da produção. Achei a menina Dafne Keen esforçada, mas com um trabalho bastante raso. Boy Holbrook como Pierce, o capanga principal do Dr. Rice interpretado por Richard E. Grant também está mais ou menos. Mas o que nos “prende” a atenção é como a passagem do tempo cobra o seu preço até dos nossos heróis. Wolverine e o professor Xavier se esforçam em defender a nova geração que está chegando, mas eles são apenas “a sombra” de quem já foram.

Como acontece com os simples mortais, com os mutantes também o tempo é inexorável. Este é a parte mais interessante do filme, assim como a relação extremamente afetuosa e de respeito entre o professor e o discípulo. É muito bonita a forma com que Logan cuida do velho Xavier. É como a retribuição de um filho. Estes são os pontos fortes da produção, assim como diversas cenas de ação bem orquestradas.

Os pontos fracos estão na narrativa. Além da previsibilidade grande do desenrolar da história – ok, apenas o X-24 me pareceu surpreendente -, me incomodou um pouco algumas incongruências do filme. Certo que Logan precisava que Laura (ou X-23) sobrevivesse até o final e tudo o mais, mas qual, afinal, era a motivação do grupo liderado por Pierce? O que Dr. Rice e companhia queriam de verdade? Matar aquelas crianças mutantes que não serviam para o propósito deles, correto?

Então me parece um tanto sem sentido toda aquela perseguição sem fim de Laura e companhia se para os perseguidores bastava matá-los para resolver o “problema” que eles tinham. Ou, em outras palavras, me pareceu um pouco forçado o filme “poupar” tanto os personagens juvenis. Ninguém quer ver criança ou um jovem ser morto ou agredido, é claro, mas isso me parece ser mais condizente com a história.

Se Logan acerta no retrato sobre a personalidade do personagem-título, acho que o mesmo não pode ser dito sobre o retrato que eles fazem sobre a “nova geração” dos X-Men. Afinal, e isso fica claro para quem acompanhou os HQs dos X-Men, eles só eram realmente fortes e conseguiam vencer qualquer inimigo quando eles juntavam as suas forças e habilidades. Pois bem, na reta final do filme, eles até fazem isso na hora de combater Pierce, mas a ação não é a mesma para defender Laura ou Logan. Isso não parece um bocado sem sentido?

Quando um filme abre a mão de fazer sentido apenas para que a história tenha o fim que o realizador imaginou, todos os espectadores perdem. Afinal, podemos nos divertir com uma boa ação. Podemos achar bacana ver Hugh Jackman dando um fim digno para o seu personagem, assim como ver um pouco mais da relação “derradeira” dele com o professor Xavier, mas tudo isso acaba sendo insuficiente quando pensamos em todas as pequenas mancadas da história.

Por tudo isso, Logan é um bom filme. Não é uma produção excepcional. Provavelmente não é melhor filme baseado em um personagem de HQ que eu já vi. E, certamente, ficou aquém do que se poderia esperar de uma produção “inspirada” (será? acho que não) em Old Logan. No dia em que adaptarem o velho Batman de Cavaleiro das Trevas e fizerem isso bem, quem sabe eu não me sinta redimida? Agora, nos resta esperar o que mais vão nos contar dos X-Men. Esperamos que venha história boa por aí.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A direção de James Mangold é um dos pontos fortes do filme. Também merece menção a competente direção de fotografia de John Mathieson; a ótima e difícil edição de Michael McCusker e de Dirk Westervelt; o design de produção de François Audouy; a direção de arte de Chris Farmer, Jordan Ferrer, Luke Freeborn e Scott Plauche; a decoração de set de Peter Lando; o ótimo trabalho dos 27 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; e, claro, os 18 profissionais envolvidos com os efeitos visuais e os 145 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem dúvida algumas os efeitos do filme são também pontos fortes da produção.

Em termos de atuação, os nomes fortes desta produção são mesmo Hugh Jackman e Patrick Stewart. Jackman está bem, só me incomodou um pouco ele ficar mancando a produção inteira sem uma explicação aparente para isso. Stewart, por outro lado, está de arrepiar a cada aparição. Dos outros atores, gostei do esforço de Stephen Merchant como Caliban; de Eriq La Salle como o fazendeiro Will Munson; e de Richard E. Grant em quase uma ponta como Dr. Rice.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Elise Neal como Kathryn Munson, mulher do fazendeiro; e de Quincy Fouse como o filho do casal, Nate. A atriz Dafne Keen não faz um trabalho ruim, mas achei ela parecida com todas essas novas atrizes que emplacaram com o papel de “esquisitonas”. Também preferi a parte do filme em que ela não abre a boca. Porque com aquela voz estridente que ela solta quando começa a falar em espanhol e, depois, em inglês, chegou a me dar “um nervoso”. Calada ela era menos irritante.

Logan teria custado cerca de US$ 97 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até ontem, dia 9 de março, pouco mais de US$ 114,8 milhões. Essa é a terceira melhor bilheteria no país em 2017 – atrás apenas de The Lego Batman Movie, com US$ 151,2 milhões, e de Split, com US$ 134,6 milhões. Como Logan estreou há menos tempo, tem tudo para ultrapassar estes dois concorrentes. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase outros US$ 190,8 milhões. Ou seja, a bilheteria acumulado do filme chega a quase US$ 305,6 milhões. Sucesso completo e que não deve parar de faturar tão cedo.

Infelizmente eu não pude assistir a Logan em 3D porque o filme não estreou nesta versão na minha cidade. Esperei uma semana para assisti-lo por causa disso, mas eu não iria esperar mais tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 243 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,8. Para os padrões dos dois sites, especialmente do IMDb, a nota do filme está muito boa.

Logan é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esta crítica entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: A passagem do tempo traz pontos positivos e negativos. Para qualquer pessoa e, segundo esta produção, também para qualquer mutante. Logan nos apresenta um filme que trata sobre este assunto da mesma forma com que ele revela a importância da renovação. Novas gerações surgem enquanto outras se despedem. É assim a vida. Gostei do tom algumas vezes amargo, muitas vezes violento e em certos momentos afetivo desta produção.

É um belo filme, apesar dele ser bastante previsível. Até demais, se pararmos para pensar. Mas você até esquece disso enquanto assiste a produção, que é bastante envolvente. Uma bela despedida de Hugh Jackman do personagem que o levou ao estrelato e com o qual ele está eternizado no cinema. O filme, contudo, não tem nada a ver com o HQ Old Logan. O que não deixa de ser uma pena. Apesar de ser bom, Logan acaba falhando em algumas escolhas do roteiro. Ainda assim, é um bom entretenimento.

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Prisoners – Os Suspeitos

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Filmes policiais nos provocam. Afinal, sobram histórias de crimes ao nosso redor. Desaparecimentos, sequestros, mistérios que nos afetam direta ou indiretamente. Quando um roteiro de filme do gênero é bem escrito, nos fascina pelo mistério. Não por acaso, Seven é um dos meus filmes favoritos do gênero e de sempre. Desde o excelente filme de David Fincher, uma produção do gênero não mexia tanto comigo como esta Prisoners. Envolvente, bem escrito, mas com alguns probleminhas aqui e ali, este é um filme que respeita o gênero policial e a nossa inteligência.

A HISTÓRIA: Cenário de árvores e neve. Keller Dover (Hugh Jackman) reza um Pai Nosso. Lentamente, um cervo começa a aparecer na cena. A câmera vai se afastando, e aparece à esquerda um rifle. O filho de Keller, Ralph (Dylan Minnette) dispara e acerta no alvo, sendo cumprimentado pelo pai. Na volta para casa, Keller explica para o filho o que a esposa lhe ensinou de mais valioso: estar sempre preparado. Ele diz que não importa o que aconteça, a família deles precisa estar preparada para enfrentar problemas. Por isso, ele mantém um estoque de suprimentos em casa. Mas nenhuma preparação vai impedir que a caçula da família, Anna (Erin Gerasimovich), e a filha de um casal de amigos, Joy Birch (Kyla Drew Simmons), desapareçam, tornando a vida de Keller e dos demais um verdadeiro purgatório.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Prisoners): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o princípio, é como ele alimenta a nossa dúvida. Afinal, o que aconteceu com aquelas duas meninas? Será possível que aquele trailer detonado que parou na vizinhança pode não ter nada a ver com o sumiço delas? Pouco provável, não é mesmo? E o estranho Alex Jones (Paul Dano) de fato tem a maturidade de uma criança de 10 anos e não fez nada ou é um sujeito dissimulado?

Estas são apenas algumas das várias perguntas que alimentam o imaginário do espectador enquanto a ação de Prisoners vai se desenvolvendo. E claro, como pede um bom filme policial, o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) vai seguindo várias pistas e o próprio instinto e lançando informações que parecem desconexas, sem muito sentido, na nossa frente. Enquanto o próprio detetive tenta ligar os pontos, o espectador é convidado a fazer o mesmo pelo roteiro de Aaron Guzikowski.

Diferente de outros filmes, como muitas produções de Alfred Hitchcock, em Prisoners não temos o privilégio de saber mais da história do que os personagens envolvidos. Sem uma posição privilegiada, nos resta seguir os passos da dupla de protagonistas, o detetive Loki e o pai Keller, para saber quem está mais próximo da verdade. Tendo o risco de nenhum deles estar avançando na direção certa. Esta dúvida constante, esta incerteza é o que torna Prisoners angustiante e atraente.

Não é por acaso que o roteiro fica centrado nas ações destes dois personagens, o detetive e o pai desesperado. No caso de um desaparecimento, quando a polícia funciona, são estes dois agentes, a polícia e a família, mais diretamente afetados pelo acontecimento. Gostei da forma com que Prisoners mostra estes dois elementos. Temos um detetive que parece dedicado ao trabalho, mas que cria dúvidas sobre a sua competência para o espectador na medida em que o tempo vai passando e ele não consegue nada de muito concreto sobre o caso; e temos o pai de família que funciona com a visão de mundo de que ele é o provedor e o protetor, a pessoa que deve garantir a segurança de todos e resolver o problema.

Interessante esta leitura feita pelo roteiro de Guzikowski porque, bem sabemos, em muitos locais – e não apenas nesta ficção ambientada nos Estados Unidos – as coisas funcionam com esta lógica. Percebo que grande parte da população, inclusive no Brasil, pensa bastante com a lógica de “fazer as coisas a sua maneira”. Ou, em um contexto como o mostrado pelo filme, em pensar que a justiça deve ser feita de qualquer forma, a qualquer custo, e que a solução dos problemas está na mão dos envolvidos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste ponto Prisoners nos apresenta dúvida suficiente para pensar se as atitudes de Keller são exageradas ou estão indo na direção certa e necessária, ainda que não seja bonito ver alguém ser tão maltratado, agredido, torturado como Alex. E daí jogam um papel importante o casal Nancy (Viola Davis) e Franklin Birch (Terrence Howard), pais de Joy. Eles querem, evidentemente, que a filha seja resgatada com vida. Assim, tem o mesmo desejo essencial de Keller. Mas é evidente que Franklin não concorda com os métodos e com o grau de crueldade a que chega o amigo. Ainda assim, o que ele faz?

Ele divide o problema com a mulher. Não consegue carregar aquele “fardo” sozinho. E aí os Birch tomam a atitude de muita gente que legitima os absurdos cometidos na nossa e em tantas outras sociedade: eles lavam as próprias mãos. Nancy diz que não vai contribuir para que as torturas continuem, mas que eles também não devem fazer nada para impedir Keller. Esta ânsia por “justiça com as próprias mãos” está difundida e é muito perigosa, além de absurda.

Certo que alguém pode dizer que Keller poderia estar certo. Verdade. Mas de fato ele precisava fazer aquilo? A polícia não chegaria à verdade mais cedo ou mais tarde? A justificativa de Keller é que, quando isso acontecesse, poderia ser tarde demais para a filha dele e dos Birch. Bem, esse é o risco que se corre sempre que um crime é cometido. Mas nem por isso temos o direito de sair culpando pessoas e exigindo que elas paguem por algo que não temos certeza que ocorreu.

A sociedade existe com leis e regras justamente para não vivermos no caos. Imaginaram todos fazendo o que acham certo, sem seguir o que está estabelecido? Seria uma verdadeira loucura e, tenho certeza, muitas outras injustiças seriam cometidas. A Justiça é falha, verdade. Assim como a polícia nem sempre consegue resolver todos os crimes. Mas sem a confiança da sociedade nestas instituições tudo seria ainda pior. Viveríamos na barbárie.

Prisoners trata um pouco de tudo isso. Sobre este desejo das pessoas, especialmente dos “chefes de família”, de ter controle sobre tudo, de resolver os seus problemas sem ter a paciência ou a confiança necessárias nas instituições estabelecidas. Hugh Jackman convence muito bem como o pai desesperado e que segue a própria convicção tendo o resgate da filha e de sua amiga como seu único propósito. Mas quantas pessoas bacanas, corretas e com “fé” podem agir de forma equivocada e provocar absurdos tendo esta arrogância de saber o que é “melhor” a todo o momento?

As pessoas cheias de certezas são as mais perigosas que podem existir. A arrogância é um perigo, assim como a certeza de que temos o controle sobre tudo o que nos cerca. Isso é impossível. Interessante como a família Dover acredita nisto, que estão muito preparados para tudo – mantendo, inclusive, um grande estoque de mantimentos para qualquer catástrofe ou eventualidade que possa acontecer. Acreditando serem muito espertos, e preparados, eles não aceitam quando algo inesperado como o sumiço de Anna acontece. Difícil lidar com pessoas assim, e mais difícil ainda é perceber que há muita gente por aí com esta postura.

Não deixa de ser tragicamente cômico que este filme comece com um Pai Nosso. Porque tudo o que Keller e sua família parece carecer é de fé. Eles não acreditam na polícia. Não apenas Keller resolve fazer a “justiça com as próprias mãos” e resolver o problema sozinho, por não acreditar na eficiência de Loki, como a esposa dele, Grace (Maria Bello) não consegue sair da cama. Parece em depressão constante. Claro que dá para entendê-los. Afinal, o sumiço de uma filha deve ser algo horrível de enfrentar. Mas onde ficou a fé deles? Essa crise de valores, ou de ser coerente com o que se acredita e como se age, é uma leitura crítica interessante dos nosso tempo.

O outro protagonista desta história, o detetive Loki, por sua vez, demonstra uma fé aparentemente incansável no próprio trabalho. Ele segue todas as pistas que considera importantes e não perde a esperança de conseguir chegar a um bom resultado. E aí surge uma das razões principais para o roteiro de Guzikowski funcionar tão bem: o espectador passa a conhecer vários elementos que parecem não se encaixar com a história do sumiço de Anna e Joy.

Como por exemplo a história do padre Patrick Dunn (Len Cariou) e do homem que Loki encontra morto no porão dele. O que ela tem a ver com o caso que o detetive está investigando agora? E por que a senhora Milland (Sandra Ellis Lafferty) tem tanta certeza que a mesma pessoa que levou o filho dela, há 26 anos, cometeu o mesmo crime agora contra Anna e Joy? Puro chute? Ou estas histórias podem estar relacionadas? Não faz muito sentido, mas também seria estranho elas estarem no filme se fossem totalmente descoladas da trama.

Quando o personagem de Bob Taylor (David Dastmalchian) aparece em cena, as dúvidas aumentam. Suspeitíssimo, ele cria tensão ao entrar nas casas dos Birch e dos Dover. O que ele foi fazer lá? Ele é o parceiro de crime de Alex? Sem dúvida o filme ganha com este personagem, enquanto o tempo passa e a pressão fica cada vez maior para que um desfecho aconteça. Você chega a pensar que tudo aquilo pode ser um grande engano, ou que as meninas nunca mais serão encontradas. Muitas dúvidas no ar.

O desafio de um roteiro de filme policial não é apenas envolver o espectador com tensão, cenas de ação e com pistas jogadas aqui e ali para tornar a história interessante. No final, tudo precisa se encaixar e fazer sentido. Cada fato relevante mostrado no filme precisa estar conectado e fazer sentido. E isso acontece em Prisoners. Todos os elementos se encaixam. Mas há pelo menos dois pontos que não se encaixam muito bem e que acabam incomodando e prejudicando o resultado final.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, se de fato Alex era inocente e tinha a mentalidade de uma criança de 10 anos, por que ele não reagiu antes falando a verdade para Keller? Impossível alguém acreditar que uma pessoa aguentaria tanta tortura e agressões apenas com medo de sofrer ainda mais ao dedurar a “tia” Holly Jones (Melissa Leo). Certamente ela e o marido educaram o garoto com medo, mas ainda assim é difícil acreditar que sob tanta tortura ele não falaria que deixou as meninas para a sequestradora. E o longo sequestro de Alex também justifica porque ele ficou com aquela mentalidade subdesenvolvida – afinal, ele não estudou e, certamente, foi bastante maltratado.

Outro ponto difícil de engolir tem a ver com o final. O detetive Loki faz barulho com o carro ao chegar, bate na porta e ainda chama a Holly. E, mesmo assim, a mulher segue com a rotina e não pensa em dispensar o policial ou se ver livre dele de outra maneira? Por que ela desistiria no final? Não faz sentido.

Esses dois pontos incomodam porque o restante do filme funciona muito bem. Além de questionar pontos importantes sobre a perda de fé, a loucura e as formas com que as pessoas lidam com a perda e o imprevisto, Prisoners amarra bem todas as pontas. Só não convence nos dois pontos citados, além de ser difícil de acreditar na resolução final para o drama de Keller. Por quanto tempo ele fez barulho? E como ninguém ouviu antes? O detetive Loki parece que é o único herói desta produção, que consegue envolver bem o espectador e que tem muitas qualidades, mas alguns probleminhas que poderiam ter sido evitados.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Foi difícil chegar a uma nota para este filme. Inicialmente, cheguei a avaliá-lo até melhor. Movida pela tensão criada pela história logo depois que Prisoners terminou. Mas os dias foram passando e, quanto mais eu pensava nos pontos que não se encaixavam, mas eu achava que deveria diminuir a nota do filme. Cheguei na avaliação acima porque acho que Prisoners toca em pontos importantes e que precisam ser discutidos. Se não fosse assim, talvez as pequenas mas importantes falhas do roteiro fariam ele descer ainda mas na minha avaliação.

O diretor Denis Villeneuve faz um belo trabalho. Além de destacar a interpretação dos atores, e de colocá-los sempre em sequências bastante extremas, ele não economia nas cenas noturnas e de impacto. O filme tem ritmo e valoriza o bom roteiro de Guzikowski. Mais um belo trabalho do diretor canadense que já acumula 53 prêmios na carreira que tem apenas seis longas, quatro curtas, uma série de TV e a participação em outro longa com um segmento até agora.

O personagem de Bob Taylor acaba se revelando ainda mais interessante no final. Ele e Alex Jones ganham uma dimensão totalmente diferente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Descobrimos que Bob foi o segundo garoto sequestrado pelo casal Jones e que, depois de fugir, nunca mais se recuperou. Ele descobriu o livro Finding the Invisible Man e resolveu recriar o roteiro de terror que viveu de uma forma bastante sinistra. E sem ser compreendido. O símbolo do labirinto, compartilhado por Bob e Alex, tinha origem no medalhão do marido de Holly, o mesmo homem que acaba sendo preso após confessar para o padre Patrick Dunn que havia matado a 16 crianças. Bob e Alex foram tão traumatizados que não conseguiram se livrar daquele terror, mas o detetive Loki acaba chegando à verdade.

Aliás, outro ponto interessante deste filme é a ironia do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desprezível a violência empregada por Keller contra Alex que, no fim das contas, foi a maior vítima de toda esta história. Mas se não fosse o cativeiro que ele provocou, o detetive Loki não teria ido até a casa de Holly para avisá-la do resgate de Alex e, consequentemente, não teria descoberto a verdade. Interessante esta provocação da história, após fazer toda aquele reflexão de que a justiça com as próprias mãos pode ser bastante injusta.

Os atores envolvidos nesta história fazem um belo trabalho. A ponto de convencer o espectador sobre o momento que cada um deles vive. O destaque, claro, fica para Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, que dominam a cena. Em papéis menores, mas igualmente convincentes, estão Viola Davis, Maria Bello e Terrence Howard. Mesmo aparecendo muito menos que os protagonistas, os suspeitos desta produção se saíram muito bem. Em papéis delicados, os atores Paul Dano e David Dastmalchian convencem pelo tanto que eles se revelam “desfuncionais”. Melissa Leo também está bem, se bem que eu acho que o excesso de maquiagem/caracterização atrapalha um pouco a atriz.

Da parte técnica do filme, vale destacar o ótimo trabalho do veterano diretor de fotografia Roger Deakins. Ele tem que lidar com várias cenas escuras e em penumbra e consegue um belo resultado final. Muito bom também o trabalho de edição da dupla Joel Cox e Gary Roach. A trilha sonora de Jóhann Johannsson é fundamental para o filme, ainda que não seja nada inovadora. Ela apenas segue o peso e o estilo de outros filmes de suspense policial.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Hugh Jackman entrou no projeto quando Antoine Fuqua era o diretor escalado para Prisoners. Depois, os dois saíram do projeto. Após vários anos de desenvolvimento para o filme sair do papel, Jackman acabou voltando.

Mark Wahlberg e Christian Bale chegaram a ser cogitados para estrelar o filme tendo Bryan Singer como diretor. Hummm… essa junção teria sido interessante também.

Prisoners estreou em agosto deste ano no Festival de Cinema de Telluride. Depois, ele passou pelos festivais de Toronto, San Sebastián e Zurique. Nesta trajetória, a produção ganhou dois prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para Jake Gyllenhaal no Hollywood Film Festival e o terceiro lugar na escolha da audiência no Festival de Cinema de Toronto.

Aliás, gostei muito do nome original deste filme. Prisoners… o conceito de prisioneiros pode ser aplicado a vários personagens deste filme. Não apenas às vítimas diretas, as crianças, mas também aos familiares, que ficam aprisionados no drama da falta de respostas, e aos personagens Bob e Alex.

No Brasil, o filme acabou levando o nome de Os Suspeitos. Não é um nome equivocado, evidentemente. Mas acho que o original tinha mais força. Sem contar que já existe um filme com este nome no mercado nacional – tradução de The Usual Suspects, ótimo filme de 1995 dirigido por Bryan Singer.

Prisoners teria custado cerca de US$ 46 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até ontem, dia 18, o filme faturou pouco mais de US$ 55,8 milhões. Nos demais mercados onde o filme já estreou, ele teria acumulado outros US$ 22,6 milhões. Ou seja, está dando lucro.

Esta produção foi filmada em três cidades do estado da Georgia, nos Estados Unidos: Porterdale, Conyers e Atlanta.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Prisoners. Uma excelente nota, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 textos positivos e 39 negativos para Prisoners, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,3.

A disputa entre os bonitões neste filme é dura. E os papéis que eles desempenham não favorecem muito para as fãs. 🙂 Mas apesar do cacoete com o olho, acho que eu votaria no Jake Gyllenhaal como o mais interessante do filme.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ela se soma a outras publicadas recentemente aqui no blog e que satisfazem a votação em que os EUA ganharam como alvo de uma série de críticas aqui no site. Espero que esteja sendo do agrado de vocês, caros leitores.

CONCLUSÃO: Crimes envolvendo crianças são mais cruéis. Mexem com qualquer pessoa, sendo ela mãe, pai, ou não tendo filhos. Prisoners pega o espectador pelo estômago quando duas meninas desaparecem e o tempo corre sem uma solução para o mistério. Um policial e um pai dividem a atenção na busca pela verdade. Busca essa que coloca a nossa apreensão e crença em uma solução em xeque. Normalmente, as pessoas querem que os bandidos se ferrem.

Mas e quando não temos certeza sobre quem é o bandido? E mesmo tendo esta certeza… a melhor saída é realmente a vingança? Este filme vai bem, coloca muitas pistas no caminho e explica tudo no final de forma satisfatória. Mesmo assim, tem alguns probleminhas para convencer ao público nos detalhes, o que não permite que ele seja perfeito. Mas é bom e angustiante.

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Les Misérables – Os Miseráveis

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Me perdoem, mas vou começar este texto dizendo algo óbvio. Os clássicos são chamados clássicos por uma boa razão. E esta boa razão se chama qualidade extrema. Na escola, eu lembro, crianças e jovens têm preguiça de ler os clássicos. Muitas vezes, de fato, porque eles são difíceis. Por isso mesmo, é sempre um prazer quando alguém como o diretor Tom Hooper resolve resgatar um clássico e jogá-lo nos cinemas, utilizando uma linguagem muito mais acessível. Les Misérables é uma produção intocável. E que me surpreendeu. Admito que, no início, eu estava com um pouco de “preguiça” de assistir a um musical adaptado da obra de Victor Hugo. Achei que poderia ficar pedante demais. Mas que fantástico presente! Quebre qualquer preconceito que você puder ter com musicais. Vai valer a pena.

A HISTÓRIA: Uma bandeira tremula na água. O ano é 1815, exatamente 26 anos após o início da Revolução Francesa. Novamente a França tem um rei ocupando o seu trono. Um navio de guerra retorna para o porto e é puxado por dezenas de homens com grossas cordas. Eles são prisioneiros. Entre eles, Jean Valjean (Hugh Jackman). O grupo canta a sua pobreza, com ódio na voz, e são observados pelo policial Javert (Russell Crowe). Depois de ajudar a puxar o navio, Valjean é convocado por Javert a pegar o mastro com a bandeira francesa. E recebe a notícia que está saindo em condicional. Mas que terá que carregar uma carta que lhe apresenta como um homem perigoso. Uma condenação para o resto da vida. Livre, contudo, Valjean recebe uma única oportunidade de recomeçar a vida, e acaba escolhendo este caminho, que significa ignorar o próprio nome, para tentar trilhar um caminho distinto do que aquela carta de condicional lhe determinava.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Miseràbles): Para gostar deste filme, em primeiro lugar, é preciso aceitar algo que nem sempre as pessoas parecem estar dispostas a aceitar: de que todos nós somos falhos. É estranho ouvir Russell Crowe em um musical? Certamente. Ele parece sofrer para cantar? Um pouco. Mas nem esta primeira constatação, logo no início do filme, e nem a mesma constatação feita com outros atores que, diferente de Hugh Jackman e Anne Hathaway são menos afeitos a cantar, diminuem a força dramática desta história e as suas várias qualidades.

Logo que terminei de assistir a Les Misérables, eu sabia que deveria dar uma nota muito alta para ele. Talvez, até, a máxima. De verdade, fiquei emocionada com a entrega da equipe envolvida e, evidentemente, com o respeito deles com a obra máxima de Victor Hugo. E que obra! Há muito tempo eu não chegava perto deste clássico e de toda a sua profundidade. E esta leitura, com levada muito popular, rejuvenesceu a tão examinada história de Jean Valjean.

Sou da opinião, e a cada dia mais, que as pessoas devem abandonar os preciosismos. Deixar para lá um pouco da “erudição” e do apego ao original, como se ele fosse imutável – quando toda obra carrega, em sua própria essência, a capacidade de ser mutável -, para “abrir a mente” para as releituras. Claro que não defendo as adaptações que violentam o original. Mas este não é o caso deste Les Misérables. A essência do original está toda aqui. Mas vestida de uma roupagem para este século 21 que se parece, em muito, com a parte final do século anterior.

Sendo assim, e voltando um parágrafo, comento que eu sabia, logo depois de terminar de ver a este filme, que lhe daria uma nota muito boa. Primeiro, porque Les Misérables tem um cuidado com os aspectos técnicos irretocável. É um filme que investe nos detalhes, desde o trabalho do ator, os figurinos, direção de fotografia, até os efeitos visuais e especiais. Depois, porque o roteiro respeita a essência do original. E finalmente, porque ele inova ao investir na dramaticidade da música para supervalorizar o lado afetivo do original sem torná-lo piegas.

Ainda que eu tivesse uma nota em mente, resolvi dar uma olhada nas avaliações dos usuários dos sites IMDb e Rotten Tomatoes. Como vocês, meus caros leitores, sabem que eu sempre faço. E como em qualquer outra crítica, não tive a minha nota modificada por estas análises. Mas admito que fiquei surpresa ao ver que, desta vez, mais que em outras, minhas impressões não acompanhavam a da maioria.

Observei muitas críticas pesadas para este filme. E daí notei o seguinte: Les Misérables é, provavelmente, a produção mais “ame ou odeie” que está concorrendo ao Oscar deste ano. Basta olhar as críticas espalhadas por aí. Muita gente não gostou desta produção porque um ou outro ator não sabe cantar. Ou porque eles não cantam tão bem assim. Ah, convenhamos. De fato isto é o mais importante?

Sim, como eu disse antes, Russell Crowe não parece totalmente à vontade cantando. Por isso mesmo, desde a primeira vez que ele aparece em cena, ele parece “comedido”. Melhor para ele. Se você não tem potência vocal e/ou não se sente tão confiante cantando, se comparado com outros colegas, melhor fazer a sua parte dentro de certas limitações.

Da minha parte, como alguém sem preconceitos, acho que vale se lançar para assistir a um filme sem a postura primária de que musicais são chatos, de que alguém vai cantar mal, e de que clássicos estão vencidos. Até porque sempre busco o mais importante de um filme: ele convence? Ele me emocionou? Ele pareceu legítimo em sua proposta?

Pois eu acho que Les Misérables consegue, sim, emocionar. Ele convence com a história de Jean Valjean e de uma França que se decepcionou com a Revolução Francesa. Esta produção, além disto, também parece legítima em sua proposta de revisitar um clássico e vestí-lo com nova roupagem. Para o meu gosto, tudo funcionou bem nesta produção. Com uma pequena ressalva: o estereótipo irritante do casal Thénardier, interpretado pela dupla Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter.

Certo, é evidente que os Thénardier são os personagens com maior levada estereotipada de Les Misérables. Que eles são mesmo caricatos, e tudo o mais. Na primeira aparição de Cohen e Carter, não me irritei com a caricatura deles. Mas depois… Tom Hooper teria nos poupado de uma certa e restrita chatice da história se tivesse diminuído a participação dos dois atores na trama. Para mim, Cohen não consegue deixar para traz Borat, e Carter lembra sempre uma personagem qualquer de Tim Burton. Eles são a parte frágil do filme, e me impedem de dar a nota máxima para esta produção.

Porque, para o meu gosto, Les Misérables funciona muito bem, exceto pelos excessos de Cohen e Carter. Além das qualidades já comentadas, achei impressionante a entrega dos atores. Eles emocionam, assim como a história. E agora, voltemos ao início desta crítica. Les Misérables trata de algo fundamental: a compreensão de que todos nós somos falhos. O grande embate entre Valjean e Javert está de que o segundo se acha totalmente cheio de moral. Em certo momento, ele fala que veio da mesma origem de Valjean… não completa a sua linha de pensamento, mas fica evidente que ele se acha superior.

Afinal, apesar de vir da mesma origem ordinária e carente, Javert seguiu “o caminho da lei”, venceu os desafios da vida e trilhou “o caminho certo”, enquanto Valjean roubou alguns pães para dar para a irmã e o filho dela que estavam com fome. Este pensamento de Javert é o mesmo de 99% das pessoas, talvez. Essa massa de gente que, muitas vezes, quando há uma matéria de polícia, argumenta que “bandido bom é bandido morto”, e que esta história de direitos humanos é uma grande bobagem, já que os “bandidos” não tem esta mesma postura ao fazer as suas vítimas.

Quanta dureza de princípios, não? Eis, para mim, o último grau de desumanização. Para estas pessoas que defendem a pena capital, não importa o ser humano e suas histórias. O importante são os números. X bandidos mortos é o que interessa. Quantos mais, melhor. Mas será mesmo que cada um de nós estamos isentos de dúvida? Quanto tempo você já gastou para refletir como seria a sua vida se você não tivesse nascido no local em que você nasceu? No berço da família da qual vieste? E se você tivesse nascido em outra parte, com uma família muito diferente?

Não quero relativizar tudo e dizer que todos os “bandidos” tem as suas justificativas e que são todos “tadinhos”. Mas peço calma em qualquer andor. Les Misérables é uma história tão incrível porque nos fala sobre estas coisas… de como a sociedade pode excluir as pessoas, tirarem as suas oportunidades de desenvolverem os seus próprios potenciais. De como o coletivo pode estigmatizar e interromper vidas que poderiam ser produtivas e maravilhosas.

Vide Valjean. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De fato, e muitos devem ter tido uma reação impressionante quando, na primeira oportunidade, ele sai roubando ao Bispo (Colm Wilkinson) que lhe ajudou, ele erra feio ao seguir bandido logo que tem a chance de escolher que caminho seguir. Mas daí, e eu também fiquei indignada a princípio, vem a história para nos dar o primeiro tapa na cara.

Quanto do que fazemos e do que tantas pessoas fazem é por automatismo? Valjean, até aquele momento, estava acostumado a que? Depois de 19 anos preso, penando como um diabo, ele sai da detenção e é tratado como um cachorro. Em seu íntimo, tudo que ele tinha era raiva e revolta. De forma automática, ele segue sendo um marginal – à margem da sociedade. Até que, para surpresa geral – especialmente dele -, ele recebe um segundo gesto seguido de ajuda. É perdoado e incentivado a recomeçar a vida. E este gesto solene de generosidade chega fundo ao coração endurecido de Valjean.

Quantos de nós não sentimos o coração sendo endurecido com o passar do tempo, depois de ter recebido tantos golpes? Um certo Renato Russo, certo, dia, cantou: “… não vou me deixar embrutecer/ eu acredito nos meus ideais/ Podem até maltratar o meu coração/ que o meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”. Certo, mas quantas pessoas se mantém fortes apesar dos golpes? Conseguem manter a suavidade, apesar de tantos golpes para que se tornem brutas?

Valjean aprende com o gesto do Bispo e muda a sua vida para sempre. Ganha uma oportunidade de recomeçar que 99% dos presos libertos do nosso país não recebem. Com apenas um candelabro de prata – perto da morte percebemos que ele ainda preserva o outro -, ele multiplica os recursos, vira um homem de negócios, dá oportunidade de emprega para muitas pessoas e se torna um homem respeitado pela sociedade.

Até que Javert volta a lhe assombrar. E ele estará perseguindo o personagem até o final. Porque os dois são a mesma pessoa, apesar da sociedade vê-los de forma tão diferente. E eis uma das forças deste clássico de Victor Hugo. Nos mostrar que papéis contrários da mesma sociedade podem ser, mais que nada, duas faces da mesma moeda. Javert não suporta “ficar devendo” nada para o homem que ele abomina porque, no fim das contas, é incapaz de perceber que eles são tão parecidos. Por ter sido um homem “da lei” a vida toda, Javert não era melhor que Valjean. Pelo contrário. Já que Valjean foi capaz de se arriscar mais de uma vez pela vida de outra pessoa. Foi capaz de amar e de se doar sem esperar nada em troca. Enquanto Javert apenas “cumpria o seu dever”. E quem tem mais mérito: aquele que faz algo por obrigação, porque assim lhe cobra o “dever”, ou aquele que se doa por livre e expontânea vontade?

Um filme que trata de todas estas coisas já é algo fora do comum. E por isso mesmo, merece ser visto. Porque faz pensar, porque emociona. Mas além disso, Les Misérables trata sobre o espírito da mudança. Aborda a força inspirada de uma França que nunca desistiu de lutar por liberdade, igualdade e fraternidade. Mesmo que estes ideiais não tenham sido vitoriosos após a Revolução Francesa, eles perduram. No tempo. Passam gerações, vencem fronteiras. Seguem inspirando.

Mas nem por isso, deixa de valer a crítica de que os anos seguintes à Revolução não trouxeram melhora para o povo. Que seguiu cada vez mais miserável. E que um certo levante não chegou a ser popular, mas apenas serviu de tema para registros históricos de uma covardia que aconteceu e se repete em diferentes sociedades até hoje. Mesmo que transfigurada com outras roupagens.

Enquanto Les Misérables trata destes e de outros temas tão magnifícos e raros, há quem se apegue apenas a uma falta de musicalidade de um ou outro ator. Que pena. Mas a história está lá. Nos mostrando como uma pessoa nunca é apenas um determinado personagem. Um ladrão não precisa ser, sempre, um ladrão. Um homem da lei, idem. Cada pessoa é responsável por suas próprias escolhas, e elas nos determinam. O mágico da vida é que esta reinvenção é constante. Só não muda quem não quer – ou acha que não precisa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Les Misérables teve a sua premiere no dia 5 de dezembro, em Londres. Depois desta data, pouco a pouco, ele foi sendo lançado nos mercados de diferentes países. Até o momento, a produção está confirmada para participar de apenas um festival, o de Belgrado, no dia 23 de fevereiro.

Como comentei antes, este filme é todo bem acabado. Além do ótimo trabalho dos atores – um melhores que outros -, vale destacar alguns aspectos técnicos da produção. Começando pela ótima direção de Tom Hooper. O diretor inglês consegue, ao mesmo tempo, explorar belos cenários da França do século 19, os detalhes dramáticos das interpretações de seus principais atores, e a convulsão social/divisão de classes tão explorada pela obra de Victor Hugo. Hooper se utiliza de um jogo de câmeras importante, dando ritmo visual para a produção, em sintonia com a música. Tudo deve fluir nesta produção, e ele consegue fazer com que isso aconteça na prática.

Para ajudar Hooper neste processo, é fundamental o trabalho do diretor de fotografia Danny Cohen. Ele faz um trabalho impecável, tanto nas cenas abertas, com muitos figurantes ou com ajuda de efeitos especiais, quanto e, principalmente, nos planos mais dramáticos com os atores principais em interpretações solitárias. Muito bom o trabalho da dupla de editores Chris Dickens e Melanie Oliver. Eles são peças-chave para que o diretor consiga dar o ritmo adequado para as cenas.

E depois, vem a turma responsável pela linguagem visual desta produção. Merecem ser elogiados os trabalhos da designer de produção Eve Stewart; a direção de arte da equipe Hannah Moseley, Grant Armstrong, Gary Jopling e Su Whitaker; os figurinos de Paco Delgado, bárbaros; a decoração de set de uma equipe de nove profissionais; o departamento de arte, que faz um trabalho impressionante; os efeitos especiais da equipe de James Davis III; os efeitos visuais da equipe de Sandra Chocholska, Edson Williams e Thomas Nittmann; e a ótima maquiagem da equipe comandada por Audrey Doyle, Nikita Rae e Malwina Suwinska.

Como qualquer musical exige, a trilha sonora e todos os demais aspectos sonoros desta produção são impecáveis. Claro, alguns atores como Russell Crowe, Eddie Redmayne e até Amanda Seyfried não se saem tão bem cantando quanto outros nomes da produção, mas isso não impede que o filme funcione bem na parte musical. Vale, portanto, elogiar o departamento de som desta produção, assim como o departamento musical comandado por Claude-Michel Schönberg, com direção musical de Stephen Brooker.

Les Misérables tem roteiro de William Nicholson, Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, já que é uma adaptação do musical homônomo baseado na obra original de Victor Hugo. Segundo os próprios produtores deste filme, ele segue o musical que já foi assistido por mais de 60 milhões de pessoas em teatros de 42 países e adaptado para 21 idiomas. Há 27 anos o musical está em cartaz perigrinando por diferentes nações. Segundo os produtores, Les Misérables é o musical há mais tempo em cartaz no mundo.

Tiro o meu chapéu para Hugh Jackman. Ele faz, em Les Misérables, um de seus grandes papéis até hoje. Grande interpretação, digna de prêmios. Os demais atores são coadjuvantes. Ainda assim, impressiona a interpretação de Anne Hathaway, que rouba a cena como Fantine. Amanda Seyfried está bem como Cosette, assim como Isabelle Allen, que interpreta a personagem quando criança. Pena que Seyfried, por mais carismática que ela seja, não consiga se destacar tanto quanto Hathaway e nem cantar como ela. O mesmo se pode dizer de Eddie Redmayne, que perde na comparação com Jackman tanto na interpretação quanto ao cantar.

Dos atores secundários, vale destacar o trabalho de Samantha Barks como Éponine, a jovem apaixonada por Marius e que, mesmo assim, tem uma postura correta e não canalha com Cosette; o jovem Daniel Huttlestone como Gavroche, o menino emblemático da história; e Aaron Tveit como Enjolras, o líder dos revolucionários.

Les Misérables teria custado cerca de US$ 61 milhões. Até o momento, o filme faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 137,5 milhões. Nada mal para um musical – ainda mais baseado em um clássico.

Esta produção foi totalmente rodada no Inglaterra, em cidades como Winchester, Kettering, Kent e Londres.

Uma curiosidade sobre esta produção: Paul Bettany havia sido considerado para o papel de Javert antes de Russell Crowe. Talvez ele tivesse se saído melhor. Para o papel de Fantine, foram consideradas as atrizes Amy Adams, Jessica Biel, Marion Cotillard, Katie Winslet e Rebecca Hall. Geoffrey Rush, que interpretou a Javert na versão de Les Misérables para o teatro, foi considerado para o papel de Monsier Thenardier.

Inicialmente, Les Misérables teria quatro horas de duração. Ainda bem que fizeram uma versão bem mais curta.

Até o momento, Les Misérables recebeu 31 prêmios e foi indicado para outros 79, além de ter recebido oito indicações para o Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para dois como o Filme do Ano no AFI Awards; para os Globos de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator – Musical ou Comédia para Hugh Jackman, e Melhor Música para Suddenly; Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway no Screen Actors Guild; além de figurar no Top Films da National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Les Misérables. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 150 textos positivos e 65 negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média 7. A pior nota entre os filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano.

CONCLUSÃO: Uma história emocionante, adaptada de um clássico. E que da forma com que foi adaptada, faz refletir sobre vários valores e posturas que seguem válidas e, me arrisco a dizer, seguirão válidas enquanto existir a humanidade. Les Misérables provavelmente não vai agradar a todos. Primeiro, porque não é qualquer um que tem paciência para os musicais. Assim como nem todos tem paciência com os clássicos. Junte ambos, musical e clássico, e terás muitos insatisfeitos. Mas com a ousadia de adaptar o texto de Victor Hugo para o formato musical, o drama dos personagens deste clássico são colocados em negrito e sublinhado. Les Misérables nos fala, com estes tons dramáticos ressaltados pela música, da fantástica capacidade humana da reinvenção. E de como o amor pode ter um papel fundamental neste processo. Com uma produção impecável, um trabalho apaixonado do diretor e de seus comandados, Les Misérables é um dos belos filmes desta safra. Desde que você ignore seus pequenos pecados.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Les Misérables recebeu o mesmo número de indicadores que o recentemente comentado por aqui, Silver Linings Playbook. Mas diferente do filme de David O. Russell, de fato eu acho que a produção de Tom Hooper mereceu cada uma de suas indicações.

Curioso que Les Misérables concorre, basicamente, em categorias técnicas, mas foi ignorado em Melhor Roteiro Adaptado. Não que uma produção que, como ele, concorre como Melhor Filme do ano precise estar, obrigatoriamente, indicada como roteiro. Mas é estranho ele não estar ali. Assim como Hooper ter ficado de fora da lista de Melhor Diretor.

Então o que sobrou para Les Misérables? O filme está concorrendo nas categorias Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Canção Original para Suddenly, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som e, finalmente, Melhor Filme, Melhor Ator para Hugh Jackman e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway.

Mesmo não tendo assistido a todos os filmes que estão concorrendo com Les Misérables, não seria uma surpresa ver ele ganhando em algumas destas categorias. Principalmente nas de Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Mixagem de Som e, quem sabe, até como Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway. De fato, ela merece. Se o filme ganhar nestas categorias – Melhor Ator parece ser uma barbada para Daniel Day-Lewis -, ele terá conseguido quatro ou cinco Oscar’s. E deve estar satisfeito com isso.

Francamente, apesar de saber que Day-Lewis é o favorito e que, de fato, ele ganhando não será uma injustiça, mas eu prefiro a Hugh Jackman. Acho que ele, como Anne Hathaway, tiveram uma entrega muito maior para os seus papéis.

Independente das expectativas, claro que acidentes de percurso sempre acontecem. E Les Misérables pode sair de mãos vazias. Pode ocorrer. Mas acredito que não. Até porque seria uma boa injustiça.