Logan


Para muitos, ele pode estar velho. Para mim, ele está em sua melhor forma. Logan resgata algumas das melhores características do personagem que todos conheceram como Wolverine. O filme é bastante violento e vai direto ao ponto em muitos momentos. Mesmo sendo uma produção de ação e com um desenrolar um bocado previsível, esta produção tem alguns grandes momentos. Há uma velha parceria bem interessante em cena, mas em outro estágio. Porque o tempo passou. Logan nos fala muito sobre o tempo e sobre a passagem dele. Também trata de novas descobertas. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Música alta e a voz de um grupo de latinos falando alto. Dentro do carro, Logan (Hugh Jackman) acorda quando o veículo começa a ser levantado. Ele sai da limusine e pede para os bandidos irem embora sem prejudicarem o carro, que é alugado. Ele logo leva um tiro no peito. Quando os bandidos dão as costas para ele, Logan começa a se levantar. Cansado e um pouco bêbado, ele não tem mais o vigor que tinha quando era jovem. Apanha, mas também mata parte do grupo. Logan trabalha como motorista para conseguir juntar dinheiro e comprar um barco. Mas logo os planos dele serão interrompidos pelo pedido de socorro de uma mulher desconhecida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan): Eu não assisti a todos os filmes da Marvel e demais produções baseadas em personagens de HQ. Mas conheço o suficiente deste universo para poder comentar sobre um filme sobre o Wolverine. Antes de Hugh Jackman estrear nos cinemas com este personagem, eu já conhecia bem o Logan/Wolverine das HQs.

Soube, antes de assistir a este filme, que ele seria inspirado na série Old Logan. Li a HQ antes de assistir ao filme e, por isso, posso dizer com toda a convicção que o filme não tem praticamente nada a ver com os quadrinhos. Os únicos elos de ligação são o fato de Logan estar envelhecido no filme e na HQ e das duas obras serem um tipo de “road trip”. E isso é tudo. A HQ tem uma história mais interessante e complexa que o filme, além de ter outros personagens e uma questão central: o velho Logan não quer mais usar as suas garras. Ele está “aposentado”.

Nada disso nós assistimos em Logan. Logo no início o personagem de Jackman utiliza as suas garras para matar, sem ter qualquer questionamento sobre isso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Outra diferença fundamental é que no filme, ainda que esta questão não esteja totalmente clara, mas apenas “sugerida”, o culpado pela morte de parte dos X-Men foi o professor Xavier (chamado apenas de Charles no filme, interpretado pelo ótimo Patrick Stewart). Na HQ, que nem tem o professor Xavier na história, o culpado pela morte de todos os X-Men foi Logan – manipulado por um inimigo.

Então, para resumir, o HQ é sim melhor que o filme. Especialmente porque a produção Logan tem um roteiro previsível demais. A premissa criada pelo diretor James Mangold e que acabou resultando no roteiro assinado por ele junto com Scott Frank e Michael Green deveria ser muito boa. Um envelhecido Wolverine batalha para sobreviver em um mundo sem novos mutantes e no qual ele, o professor Xavier e Caliban (Stephen Merchant) estão envelhecidos e sem grande perspectiva de viver um longo tempo.

Neste contexto, aparece em cena uma nova mutante. Logan acaba sendo impelido a ajudar ela a escapar dos bandidos que a estão caçando – a exemplo de como ele próprio já foi tantas outras vezes. A premissa é boa, não é mesmo? O problema é que o desenvolvimento do filme acaba sendo um tanto previsível demais. Quando Laura (Dafne Keen) aparece em cena junto com Gabriela (Elizabeth Rodriguez) fica evidente que teremos um tipo de “caçada sem fim” e que vai resultar com a garota sendo salva de alguma maneira.

Todas as crianças e jovens que fogem das garras da grande corporação manipuladora, uma evolução da mesma organização que injetou adamantium em Logan no passado, acabam combinando a mesma coordenada que viram em uma HQ do X-Men como ponto de encontro. Logan critica a versão dada por Gabriela e por Laura porque acha que elas estão sendo “iludida” pela HQ. Ao mesmo tempo, Mangold faz uma grande homenagem ao clássico de George Stevens de 1953, Shane, um dos grandes filmes de faroeste. Seria uma forma do diretor dizer que os filmes são mais importantes que as HQs?

Essa é uma questão menor. O importante é que Logan cumpre o seu papel de entreter. Bem diferente do recentemente comentado aqui The Great Wall, que dá sono, Logan deixa você bem acordado o tempo inteiro. Mérito do bom trabalho do diretor Mangold e, sem dúvida alguma, das ótimas interpretações de Hugh Jackman e Patrick Stewart, em especial. Quando os dois estão em cena, impossível não ficarmos com o nível de atenção no máximo. Cada detalhe da interpretação deles é preciosa.

O mesmo não pode ser dito de outros atores da produção. Achei a menina Dafne Keen esforçada, mas com um trabalho bastante raso. Boy Holbrook como Pierce, o capanga principal do Dr. Rice interpretado por Richard E. Grant também está mais ou menos. Mas o que nos “prende” a atenção é como a passagem do tempo cobra o seu preço até dos nossos heróis. Wolverine e o professor Xavier se esforçam em defender a nova geração que está chegando, mas eles são apenas “a sombra” de quem já foram.

Como acontece com os simples mortais, com os mutantes também o tempo é inexorável. Este é a parte mais interessante do filme, assim como a relação extremamente afetuosa e de respeito entre o professor e o discípulo. É muito bonita a forma com que Logan cuida do velho Xavier. É como a retribuição de um filho. Estes são os pontos fortes da produção, assim como diversas cenas de ação bem orquestradas.

Os pontos fracos estão na narrativa. Além da previsibilidade grande do desenrolar da história – ok, apenas o X-24 me pareceu surpreendente -, me incomodou um pouco algumas incongruências do filme. Certo que Logan precisava que Laura (ou X-23) sobrevivesse até o final e tudo o mais, mas qual, afinal, era a motivação do grupo liderado por Pierce? O que Dr. Rice e companhia queriam de verdade? Matar aquelas crianças mutantes que não serviam para o propósito deles, correto?

Então me parece um tanto sem sentido toda aquela perseguição sem fim de Laura e companhia se para os perseguidores bastava matá-los para resolver o “problema” que eles tinham. Ou, em outras palavras, me pareceu um pouco forçado o filme “poupar” tanto os personagens juvenis. Ninguém quer ver criança ou um jovem ser morto ou agredido, é claro, mas isso me parece ser mais condizente com a história.

Se Logan acerta no retrato sobre a personalidade do personagem-título, acho que o mesmo não pode ser dito sobre o retrato que eles fazem sobre a “nova geração” dos X-Men. Afinal, e isso fica claro para quem acompanhou os HQs dos X-Men, eles só eram realmente fortes e conseguiam vencer qualquer inimigo quando eles juntavam as suas forças e habilidades. Pois bem, na reta final do filme, eles até fazem isso na hora de combater Pierce, mas a ação não é a mesma para defender Laura ou Logan. Isso não parece um bocado sem sentido?

Quando um filme abre a mão de fazer sentido apenas para que a história tenha o fim que o realizador imaginou, todos os espectadores perdem. Afinal, podemos nos divertir com uma boa ação. Podemos achar bacana ver Hugh Jackman dando um fim digno para o seu personagem, assim como ver um pouco mais da relação “derradeira” dele com o professor Xavier, mas tudo isso acaba sendo insuficiente quando pensamos em todas as pequenas mancadas da história.

Por tudo isso, Logan é um bom filme. Não é uma produção excepcional. Provavelmente não é melhor filme baseado em um personagem de HQ que eu já vi. E, certamente, ficou aquém do que se poderia esperar de uma produção “inspirada” (será? acho que não) em Old Logan. No dia em que adaptarem o velho Batman de Cavaleiro das Trevas e fizerem isso bem, quem sabe eu não me sinta redimida? Agora, nos resta esperar o que mais vão nos contar dos X-Men. Esperamos que venha história boa por aí.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A direção de James Mangold é um dos pontos fortes do filme. Também merece menção a competente direção de fotografia de John Mathieson; a ótima e difícil edição de Michael McCusker e de Dirk Westervelt; o design de produção de François Audouy; a direção de arte de Chris Farmer, Jordan Ferrer, Luke Freeborn e Scott Plauche; a decoração de set de Peter Lando; o ótimo trabalho dos 27 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; e, claro, os 18 profissionais envolvidos com os efeitos visuais e os 145 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem dúvida algumas os efeitos do filme são também pontos fortes da produção.

Em termos de atuação, os nomes fortes desta produção são mesmo Hugh Jackman e Patrick Stewart. Jackman está bem, só me incomodou um pouco ele ficar mancando a produção inteira sem uma explicação aparente para isso. Stewart, por outro lado, está de arrepiar a cada aparição. Dos outros atores, gostei do esforço de Stephen Merchant como Caliban; de Eriq La Salle como o fazendeiro Will Munson; e de Richard E. Grant em quase uma ponta como Dr. Rice.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Elise Neal como Kathryn Munson, mulher do fazendeiro; e de Quincy Fouse como o filho do casal, Nate. A atriz Dafne Keen não faz um trabalho ruim, mas achei ela parecida com todas essas novas atrizes que emplacaram com o papel de “esquisitonas”. Também preferi a parte do filme em que ela não abre a boca. Porque com aquela voz estridente que ela solta quando começa a falar em espanhol e, depois, em inglês, chegou a me dar “um nervoso”. Calada ela era menos irritante.

Logan teria custado cerca de US$ 97 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até ontem, dia 9 de março, pouco mais de US$ 114,8 milhões. Essa é a terceira melhor bilheteria no país em 2017 – atrás apenas de The Lego Batman Movie, com US$ 151,2 milhões, e de Split, com US$ 134,6 milhões. Como Logan estreou há menos tempo, tem tudo para ultrapassar estes dois concorrentes. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase outros US$ 190,8 milhões. Ou seja, a bilheteria acumulado do filme chega a quase US$ 305,6 milhões. Sucesso completo e que não deve parar de faturar tão cedo.

Infelizmente eu não pude assistir a Logan em 3D porque o filme não estreou nesta versão na minha cidade. Esperei uma semana para assisti-lo por causa disso, mas eu não iria esperar mais tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 243 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,8. Para os padrões dos dois sites, especialmente do IMDb, a nota do filme está muito boa.

Logan é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esta crítica entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: A passagem do tempo traz pontos positivos e negativos. Para qualquer pessoa e, segundo esta produção, também para qualquer mutante. Logan nos apresenta um filme que trata sobre este assunto da mesma forma com que ele revela a importância da renovação. Novas gerações surgem enquanto outras se despedem. É assim a vida. Gostei do tom algumas vezes amargo, muitas vezes violento e em certos momentos afetivo desta produção.

É um belo filme, apesar dele ser bastante previsível. Até demais, se pararmos para pensar. Mas você até esquece disso enquanto assiste a produção, que é bastante envolvente. Uma bela despedida de Hugh Jackman do personagem que o levou ao estrelato e com o qual ele está eternizado no cinema. O filme, contudo, não tem nada a ver com o HQ Old Logan. O que não deixa de ser uma pena. Apesar de ser bom, Logan acaba falhando em algumas escolhas do roteiro. Ainda assim, é um bom entretenimento.

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