Cutie and the Boxer


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Há pessoas que fazem sucesso no mundo da arte, ganhando notoriedade e rios de dinheiro. Para cada pessoa que atinge este patamar, centenas ou até milhares de outros artistas apenas lutam para pagar as próprias contas. Cutie and the Boxer é um documentário que abre mão de focar no primeiro perfil para abraçar a história de vida e o cotidiano de um casal de artistas que, depois de décadas juntos, continuam se esforçando para ter o que colocar na mesa todos os dias. Um filme sensível e que não deixa nenhuma ponta solta.

A HISTÓRIA: Noriko Shinohara penteia os longos cabelos brancos e se olha no espelho. Depois, ela faz tranças com os fios, pacientemente. Pinta os lábios. Prepara o café e chama Ushio Shinohara, lembrando a ele que o seu aniversário chegou. Ele levanta, escova os dentes, e comenta que está fazendo 80 anos de idade. Ela presenteia o marido com duas pantufas, e depois eles comemoram a data comendo dois bolinhos individuais. Noriko comenta que ele está todo lambuzado com o bolo, e Ushio responde que não está escutando ela – e que esta é a fórmula para os dois estarem juntos há tanto tempo. Este é o começo do mergulho na história do casal de artistas que luta para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Cutie and the Boxer): Este é um filme que leva um bocado de tempo para responder àquela pergunta fundamental: afinal, sobre o que trata esta história? Ele parece algo no início, se transforma em outro tema na sequência e, no final, revela que há pelo menos dois assuntos principais na mira do diretor e roteirista Zachary Heinzerling.

Se você, como eu, não gosta de ver a trailer e de saber muito sobre os filmes antes de assisti-los, acredito que também levou um tempo para entender Cutie and the Boxer. E isso é um recurso interessante do filme de Heinzerling. Diferente de outras produções que estão concorrendo ao Oscar deste ano, este filme não tem pressa de dizer a que veio, ou sobre o que vai tratar essencialmente.

Desta forma, no início, parece que vamos mergulhar no cotidiano simples de um casal de japoneses que mora em Nova York e que trabalha com arte. De fato, Cutie and the Boxer trata deste mercado e de tudo que ele significa. Há desde a “crise” artística – no filme, na verdade, acompanhamos mais alguns minutos de insegurança de Ushio do que a uma crise propriamente – até as negociações com quem decide o que vai ser exposto nas galerias.

Como comentei lá no início, o mercado exposto em Cutie and the Boxer não é nada fácil. E ao assistir, logo nos primeiros minutos do filme, o trabalho de Ushio socando uma tela com certo sacrifício, pensamos no que é considerado arte. Desde o final do século passado há quem questione o valor artístico – há muitos que seguem não entendendo esta arte moderna do século 21 e/ou pós-moderna – do que as galerias vêem valorizando nos principais centros de cultura do mundo nos últimos 20 ou 30 anos.

A percepção da arte, seja ela da manifestação que for, é algo muito, muito particular. E ainda que eu acredite nisso – inclusive para o cinema -, assistindo Ushio pintando aquela enorme tela acreditando no que estava fazendo, pensei: esta arte que não é acadêmica e nem previsível e que predomina nos museus pelo mundo nos obriga a sair de nós mesmos. Sim, porque para entender o que Ushio apresenta, é necessário saber sobre ele. E o que vemos por aí exige esse movimento da gente. De não apenas entendermos o que o artista pensa, sente e quer dizer, mas também o que aquilo pode nos significar.

Cutie and the Boxer trata do fazer artístico, desta dura missão que todos nós temos – ou deveríamos ter – de valorizar as nossas vocações, independente do quanto é difícil ou fácil seguir no caminho que elas nos exigem. Ushio vive da arte e pela arte, e chega até a lamentar isso em certo momento do filme. Heinzerling não tem dúvidas em mostrar o cotidiano complicado de Ushio e da mulher, Noriko, que vivem de aluguel e que tem dificuldades de manter as contas em dia.

Aos poucos fica claro que Ushio é um artista conhecido e que ele tem um certo prestígio no meio. De acordo com a própria página dele na internet, que pode ser acessada aqui, o artista de quase 82 anos segue a linha neo-dadaísta e teve trabalhos expostos no Hara Museum of Contemporary Art, no Centre Georges Pompidou (Paris), no Guggenheim Museum Soho (Nova York), na Japan Society (Nova York), no The National Museum of Modern Art (Tóquio), na Leo Castelli Gallery (Nova York), na Galerie Oko (Berlim), no The Museum of Contemporary Art Los Angeles, no The Metropolitan Museum of Art (Seoul), entre outros.

Apesar deste currículo, e de ter desembarcado em Nova York em 1969, Ushio fala, basicamente, japonês. Natural ele dialogar com a esposa, em casa, no idioma materno de ambos. Mas chama a atenção em Cutie and the Boxer que o casal destila o japonês com praticamente todos os interlocutores – só em poucas ocasiões percebi que Noriko fala inglês.

Achei este aspecto interessante porque ele demonstra o quanto os Shinohara seguiram em sua pequena “bolha” cultural, preservando a língua, a culinária e os costumes japoneses mesmo após viver por décadas nos Estados Unidos. Este tema é curioso porque há muitos “guetos” culturais mundo afora. Encontrei alguns deles na Espanha, quando vivi em Madrid, mas sei que eles existem na Alemanha, nos Estados Unidos e em todas as partes.

Fica “fácil” para os estrangeiros se reunirem, ainda mais em tempos de redes sociais, em países estrangeiros onde passaram a viver por distintas razões. Posso falar, por vivência própria, que manter laços com a cultura original é algo interessante, especialmente quando você vai para um lugar sem nenhuma convivência com amigos ou familiares, mas que é igualmente fundamental sair deste “gueto” e conviver com pessoas da cultura onde você está imerso. Do contrário, você não aprende com o diferente e nem se dá o prazer de descobrir outras formas de viver e pensar que podem lhe trazer bons ensinamentos.

O detalhe do idioma japonês é um de tantos outros do cotidiano dos Shinohara que chama a atenção. Talvez essa falta de imersão do casal na cultura dos Estados Unidos tenha contribuído para que Ushio e Noriko não ganhassem uma projeção maior no país. Afinal, por mais cosmopolita que Nova York seja, ela é mais receptiva com estrangeiros que são turistas ou que ficam um breve período por ali, mas aqueles que permanecem por mais tempo devem, pelo menos, falar o inglês e imergir um pouco no “way of life” local. Característica esta que move qualquer cidade, seja ela menos ou mais cosmopolita.

Desta forma, não é complicado entender porque, apesar de conhecido, Ushio não conseguiu, após décadas em Nova York, de fato emplacar na cidade ou no mercado das artes. Em certo momento, quando a curadora do Guggenheim pede por uma tela antiga do artista e a mulher dele explica que aquele trabalho está indisponível porque ele foi prometido para um amigo do casal, fica evidente a diferença cultura entre os interlocutores.

Além disso, alguém pode defender a ideia que Ushio não se tornou um artista vital ou de grande referência simplesmente pelo fato de que o que ele fazia não era tão bom assim ou mesmo tão original. De fato, em certo momento do filme, quando a produção apresenta informações práticas da trajetória do artista, fica evidente a relação dele com a pop art e Basquiat, para citar apenas duas referências. Mesmo com estas referências, me pareceu claro que Ushio tem um estilo próprio. E afirmar que o que ele faz é ruim… bem, isso depende da ótica de cada um.

Algo que achei fundamental, neste filme, é que ele desbrava de forma muito consciente o meio artístico, revelando as negociações e as dificuldades para cada exposição na mesma medida em que mostra a expectativa e a frustração dos artistas. Mas o interessante desta história é que ela vai, pouco a pouco, mostrando como o filme também trata de outro grande assunto: o casamento. A união de décadas entre duas pessoas que tem muitas semelhanças e diversas diferenças.

Fiquei fascinada como, conforme o trabalho de Zachary Heinzerling ia se desenvolvendo, a personagem de Noriko ganhava cada vez mais importância e de como a relação dela e de Ushio ganhava protagonismo. Não é fácil compartilhar uma vida por muito tempo, ainda mais quando há tanta frustração em jogo – e além de Ushio não conseguir decolar na carreira como o casal gostaria, ele ainda viveu boa parte da vida sofrendo com o alcoolismo.

É linda a forma com que o diretor aposta na animação de desenhos de Noriko para contar uma parte importante da história. Parte esta que revela não apenas a intimidade do casal, mas como a arte pode ser libertadora porque não apenas fala de sentimentos que não são verbalizados, mas porque concretiza desejos que nunca poderão ser efetivados por outro meio. Belíssima sacada de Heinzerling que, claramente, deseja que Noriko tenha no filme o protagonismo que não conseguiu com a própria arte. E ela parece conseguir essa libertação.

De forma muito honesta e até singela, Cutie and the Boxer trata, na mesma medida, dos desafios, tropeços e pequenas alegrias da vida compartilhada de um casal que, além de dividir a vida, também divide o amor pela arte. É preciso paciência, perseverança, compaixão e uma dose de “foda-se” para insistir nos dois caminhos – do casamento e da materialização das nossas vocações. Estes são alguns dos ensinamentos de Cutie and the Boxer.

O filme só não é melhor, para o meu gosto, porque perde uma boa oportunidade de cercar os personagens principais com uma leitura mais ampla. Senti falta de ouvir especialistas de arte ou mesmo amigos/familiares de Noriko e Ushio sobre o trabalho e a vida do casal. Essa contextualização ficou faltando. Mas dá para entender a escolha de Heinzerling em fazer um filme intimista e centrado no cotidiano dos artistas. Ainda assim, senti falta de um foco mais amplo.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Noriko e Ushio são dois personagens. Como praticamente toda e qualquer pessoa. E descobrimos as nuances de cada um deles graças ao excelente trabalho do diretor Zachary Heinzerling, que conseguiu entrar bem no cotidiano dos artistas e, com a ajuda da própria arte que eles produzem – especialmente o trabalho de Noriko -, desbravar a intimidade deles.

Aparentemente Heinzerling teve um grande respeito pelos personagens centrais de seu documentário. A ponto de não “forçar uma barra” para conseguir alguns depoimentos. Comento isso porque achei curioso como o filho do casal, Alex Shinohara, aparece na produção e praticamente não abre a boca. Teria sido interessante escutar a versão dele dos fatos, mas pareceu que Heinzerling quis, muito mais que levantar depoimentos, ser uma “testemunha ocular” do cotidiano dos artistas.

Algo que chama muito a atenção neste filme é a excelente trilha sonora de Yasuki Shimizu. As músicas dela valorizam a produção e nos embalam em diversos momentos, dando ritmo para a história. Muito bom também o trabalho de Heinzerling na direção de fotografia e o de David Teague na edição.

Um trabalho importante para a história é o do animador Chris Monaco. É ele que, junto com o assistente Jeffrey Hsu, dá vida para a arte de Noriko.

Cutie and the Boxer estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2013. De lá para cá, a produção participou de outros 12 festivais, incluindo os de Tribeca, Karlovy Vary, de Londres e de Estocolmo. Nesta trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros quatro (incluindo um Oscar).

Entre os prêmios que recebeu, estão o Charles E. Guggenheim para artistas emergentes no Full Frame Documentary Film Festival, o Prêmio Grierson – Menção Especial no Festival de Cinema de Londres, o prêmio de Melhor Diretor de Documentários no Festival de Sundance e o segundo lugar no prêmio da audiência na categoria Documentário do Festival de Cinema de Tribeca.

De acordo com o site Box Office Mojo, Cutie and the Boxer conseguiu pouco mais de US$ 197 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho pífio. Pelo visto o filme não conseguiu ainda uma boa distribuição – o que diminui, ainda mais, as chances dele de emplacar em premiações.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos. Eles dedicaram 66 textos positivos e três negativos para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,8.

Para quem ficou interessado no neo-dadaísmo, achei esse texto interessante que fala de Jasper Johns, um dos expoentes do movimento e, através dele, sobre esta vertente artística. Bem interessante para situar o casal Shinohara no seu contexto artístico específico.

Cutie and the Boxer é uma produção 100% dos Estados Unidos. Desta forma, esta crítica entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog e que pediu por uma série de críticas daquele país.

CONCLUSÃO: A arte e o casamento são vistos aqui sem tintas falsas. Se o objetivo deste filme era desbravar a relação de um homem e de uma mulher que vivem da arte e que construíram uma vida juntos, este objetivo é alcançado com perfeição. O cotidiano do casal é revelado desde sua faceta mais ordinária até o lado da moeda em que eles falam de suas aspirações e desejos.

A ótica dos artistas é valorizada do primeiro até o último minuto, com Cutie ganhando certo protagonismo no processo. Mas a escolha por ficar centrado apenas nos dois artistas faz o filme perder outros aspectos que poderiam explicar a trajetória de cada um deles. A história perde um pouco com isso, mas nada que tire a beleza e a capacidade de fazer pensar que a produção tem.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Este é um ano forte para a categoria de Melhor Documentário da maior premiação de Hollywood. Não há filme ruim na disputa. Apenas a questão de gosto diferencia uns dos outros, mas a qualidade de cada produção concorrente é bastante alta.

Com Cutie and the Boxer fecho a lista dos cinco concorrentes deste ano. Além deles, assisti a dois grandes filmes que ficaram de fora da disputa e os quais eu recomendo sem medo de errar: Stories We Tell (comentado aqui) e Blackfish (com crítica neste link).

Entre os filmes que concorrem, minha preferência está entre The Square (comentado aqui) e Dirty Wars (com texto neste link). O primeiro, parece, tem muito mais chances que o segundo. Cutie and the Boxer corre por fora. Antes dele, tem maiores chances o divertido e interessante 20 Feet from Stardom (comentado aqui). E mesmo não gostando tanto da produção, até The Act of Killing (com crítica neste link) parece ter chances maiores que Cutie and the Boxer.

Ainda assim, mesmo com poucas chances de levar a estatueta dourada, Cutie and the Boxer deve ser valorizado porque chegou até a lista final dos concorrentes. Ele merece ser visto, especialmente por quem gosta de artes plásticas. Mas apesar de ser bom, acho que tanto ele quanto The Act of Killing poderiam ter dado lugar para Stories We Tell e Blackfish. Questão de gosto.

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