Mustang – Cinco Graças


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A liberdade é o maior bem que alguém pode almejar, buscar e preservar. Ter o direito de escolher quem se quer ser e o que se quer fazer pode parecer algo simples, mas não é. Prova disso temos todos os dias, de diferentes formas e com pessoas distintas. Você realmente é e faz o que você gostaria de fazer? Poucos são os corajosos realmente livres. Mustang, mais uma pérola do cinema francês, fala justamente sobre isso. Sobre a coragem de buscar a própria liberdade e sobre a desgraça que algumas culturas provocam ao obrigar algumas pessoas a abrir mão dela. Um filme incrível e que faz mexer com os nervos de qualquer um – especialmente das mulheres.

A HISTÓRIA: Começa com uma menina comentando como elas estavam tranquilas e de como tudo mudou tão rápido. As primeiras cenas mostram Lale (Günes Sensoy) se despedindo da professora, Dilek (Bahar Kerimoglu), que deixou com ela o seu novo endereço. Esperando Lale estão as suas quatro irmãs mais velhas. Aos invés de irem para casa com a van escolar, as meninas resolvem aproveitar o dia bonito e ir à pé, brincando com meninos no caminho. Ao chegar em casa, elas são duramente repreendidas pela avó, porque a comunidade estava comentando que elas não tinham tido um comportamento correto. Este é apenas o começo do calvário das meninas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mustang): Como defensora das mulheres e do direito delas de terem as mesmas oportunidades que os homens, independente da origem, da classe social ou da religião, fiquei mexida com esse filme. Por todo o conjunto da obra. Todos nós sabemos que existem culturas e sociedades mais cruéis – me recuso a chamar de tradicionais – que outras, mas poucas vezes vi um filme tratar da questão feminina de forma tão direta e franca quanto este.

Sem contar que Mustang vai ao extremo, o que sempre ajuda a mexer com os brios dos espectadores. As cinco irmãs que tinham uma vida feliz, iam à escola e tinham uma certa liberdade acabam perdendo tudo isso por causa de alguns minutos de diversão na praia. Elas passam a ser um problema para a família. A avó delas (Nihal G. Koldas) é pressionada por todos os lados para tomar uma atitude. Depois que os filhos dela morreram, ela cuidou das cinco meninas sozinha. Mas agora, depois dos boatos cruéis na comunidade, ela cede à pressão do filho Erol (Ayberk Pekcan).

As meninas devem casar o mais rápido possível – antes que elas se “desviem”. No início, tudo o que é considerado “subversivo” é confiscado. Na sequência, as mais velhas são levadas ao médico para que ele dê um certificado de virgindade. Pode existir algo mais absurdo? A palavra e o comportamento das meninas não vale nada. Elas são como mercadorias, que devem ser negociadas o mais rápido possível para render um “retorno” adequado. Depois destes primeiros passos, as meninas ficam trancadas em casa e passam a receber todas as aulas possíveis que, virtualmente, podem ajudá-las a se tornarem “boas esposas”.

Essas aulas, claro, giram em torno do “cuidado do lar”. Aprendem a cozinhar, a fazer uma colcha, a costurar e a tudo o mais que pode significar cuidar do futuro marido. O roteiro, por tudo isso, é potente em si mesmo. Mas o texto da diretora Deniz Gamze Ergüven escrito junto com Alice Winocour se diferencia não apenas pela força da história, mas principalmente pela forma com que ela é contada.

Narrado por Lale, o filme está sempre muito próximo das meninas. Desta forma, o espectador vivencia junto com elas não apenas a clausura, mas também a liberdade e alegria dos momentos de brincadeira entre as irmãs, a inocência que é corrompida pela neurose da comunidade e da família para que elas “não se desvirtuem” e a descoberta da própria sexualidade e de seus próprios desejos pouco a pouco.

Esta é uma clássica produção sobre a perda da inocência, em todos os sentidos. Mas não é apenas isso. E aí está a principal beleza de Mustang. Este filme magistralmente escrito e dirigido por Ergüven é um libelo à liberdade. Um dos valores mais defendidos e propagados pela França. Sem entrar na seara da religião, mas não por acaso Deus deu a cada um de nós o presente da escolha. Nada na nossa vida está totalmente “escrito”. Temos sempre a liberdade de escolher um caminho ou outro.

Pouco a pouco as irmãs vão arregaçando a manguinhas e tentando viver um pouco a vida apesar da clausura. Como resposta a uma ou outra fuga descoberta, aumenta o controle e a restrição da casa – que, no fim das contas, como bem observa a protagonista, realmente é transformada em prisão. Ao mesmo tempo em que angustia a realidade das cinco irmãs, cada vez mais restrita, é encorajadora e edificante a determinação de Lale.

Enquanto ela vai entendendo – ou tentando entender – a loucura dos adultos, ela não aceita o destino que querem lhe impor como inevitável. Depois de serem “mostradas” na comunidade, as irmãs mais velhas acabam casando. Sonay (Ilayda Akdogan), a mais velha das cinco, que já tinha um namorado, acaba tendo a sorte de casar com ele. Selma (Tugba Sunguroglu), a segunda mais velha, casa no mesmo dia com um sujeito que ela conhecia só de vista.

O que acontece com Selma logo após a noite de núpcias é indignante. Como tantos outros fatos mostrados neste filme – e que, segundo esta entrevista com a diretora de Mustang, são baseados em histórias reais que ela ouviu e que se passaram na Turquia, além dele ter também um pouco de aroma “autobiográfico” da diretora em alguns aspectos. Ela mesmo teve um pouco da vivência de Lale – por isso, talvez, tanta legitimidade não apenas do roteiro, mas especialmente da interpretação de cada pessoa do elenco.

Depois do casamento das duas mais velhas, as outras irmãs encaram o casamento arranjado com um destino quase imutável. Mas sempre, e essa bandeira é uma força intrínseca desta produção, existe a possibilidade de uma pessoa fazer as próprias escolhas. Mesmo que as condições para isso sejam tão adversas quanto as mostradas neste filme. O que acontece com as três irmãs mais novas apenas demonstra a desgraça que culturas que subjugam as mulheres e forçam elas a fazerem algo contra a sua vontade pode causar.

Filme impactante, poderoso e muito bem conduzido pela diretora Deniz Gamze Ergüven, Mustang é mais uma produção inesquecível do cinema francês. Indicado pelo país para o próximo Oscar, ele merece estar na lista dos nove filmes que seguem na disputa por uma das cinco vagas finais da premiação.

Todas as culturas devem ser respeitas e compreendidas, mas quando uma tradição subjuga alguma parte da sociedade, ela deveria ser automaticamente discutida e revista. Neste caso, o elo fraco são as mulheres – que seguem sendo subjugadas em diferentes países e culturas. Mas poderia ser outro o alvo do absurdo. Neste sentido, o cinema contribui muito com o debate. Sempre, claro, que as pessoas estejam abertas a ele.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Que filme fantástico! Achei ele perfeito não apenas pelo roteiro e pela excelente condução da diretora Deniz Gamze Ergüven que, claramente, privilegia a ótica das cinco irmãs, mas também pela interpretação de cada uma das meninas e do elenco de apoio. Não existe um elo fraco na interpretação ou na entrega dos atores. E o melhor de tudo: todos apresentam um trabalho muito natural, nada forçado. O que apenas ajuda no convencimento da história e na consequente reação do público.

As cinco atrizes que interpretam as irmãs estão fantásticas. E como todas são lindas! Além de demonstraram muita personalidade. Francamente bato palmas para o trabalho de Ilayda Akdogan, que interpreta Sonay; Tugba Sunguroglu, que dá vida a Selma; Elit Iscan, que interpreta Ece; Doga Zeynep Doguslu, que vive Nur; e, principalmente, a ótima Günes Sensoy, que interpreta a caçula e mais independente das irmãs Lale.

As filhas mais novas, aliás, são as que sofrem mais com a imposição. Para os jovens, normalmente, é mais difícil aceitar um destino infalível – eles são livres e querem continuar assim. Além disso, acredito, pesa contra elas a experiência de terem visto as irmãs mais velhas casando – uma por sua própria vontade, a outra, não.

Além das atrizes já citadas, da mais velha para a mais nova entre as irmãs, vale destacar o trabalho de outros atores importantes para esta história. Para começar, a avó das meninas, interpretada por Nihal G. Koldas. Ela equilibra bem o afeto de avó pelas meninas e a “carga” de, ao ser responsável por elas, dar um “destino adequado” para as cinco. Está muito bem em seu papel também o ator Ayberk Pekcan, que interpreta ao tio das meninas, Erol – parte fundamental para a vida delas ter tido uma guinada radical. Outra figura fundamental na história é Yasin, o entregador muito bem interpretado por Burak Yigit – um sopro de solidariedade e de humanidade em uma história tão dura.

Por falar em história dura, há uma parte apenas sugerida neste filme que me chamou a atenção. (SPOILER – não leia se você não assistiu a este filme). Em pelo menos dois momentos a protagonista Lale observa o tio Erol entrando no quarto das irmãs. Não fica totalmente claro, mas a impressão que eu tive é que ele estava abusando de Nur – não a ponto de tirar a virgindade da meninas. Isso não é problema, porque os homens de lá sabem como “aproveitar” das meninas sem ter que tirar delas a “garantia” de um bom casamento. Um fato que ajuda a reforçar essa impressão do abuso praticado pelo tio contra Nur é que a menina, mesmo não sendo logo alvo de um casamento, acaba tendo esse processo “apressado” pela avó depois que ela tem uma discussão com o filho.

Se esta minha impressão está correta, ela apenas demonstra a hipocrisia de culturas e de pessoas que se dizem detentoras da “moral e dos bons costumes”. Nada daquela obsessão por casar as meninas logo e tudo o mais que fazia parte daquele contexto tornava alguém mais correto ou “santo”. Ninguém deveria ser obrigado a casar, até porque esta não é a única vida possível. Quanto mais a neurose sobre isso é alimentada, mais comportamentos equivocados são alimentados.

Da parte técnica do filme, além da excelente direção de Deniz Gamze Ergüven, sempre focada no trabalho dos atores e na vida “comum” dos personagens, vale destacar a bela direção de fotografia de David Chizallet e de Ersin Gok e a pontual e muito bonita trilha sonora de Warren Ellis. A música aparece nas horas certas e apenas para destacar ainda mais momentos importantes para a produção. Nos demais momentos, conta muito o som ambiental captado e trabalhado pela equipe do diretor de som Damien Guillaume.

Além dos pontos citados no parágrafo anterior, vale comentar o bom trabalho da direção de arte de Serdar Yemisci e os figurinos de Selin Sozen. Todos trabalham em função do filme e da história, dando ainda mais legitimidade para ela.

Particularmente, gostei muito do título original do filme, Mustang, que faz referência para os cavalos desta raça – sinônimo de beleza e de liberdade. Por outro lado, não gostei nada do título para o Brasil – Cinco Graças. Imagino que o título traduzido faça referência às cinco irmãs… ainda assim, achei desnecessária essa mudança que considero para pior.

Mustang estreou no Festival de Cinema de Cannes no dia 19 de maio. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 18 festivais. Nesta trajetória ele acumulou 20 prêmios e foi indicado a outros 17, incluindo a indicação para o Globo de Ouro 2016 como Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Label Europa Cinemas no Festival de Cannes; para o de Melhor Narrativa de Filme em Língua Estrangeira na escolha do público do Festival Internacional de Cinema de Chicago; para o Prêmio Art Cinema no Festival de Cinema de Hamburgo; para o Grande Prêmio e para o prêmio de Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Odessa; para os prêmios de Melhor Filme e Melhor Atriz (dado para as atrizes que interpretam as cinco irmãs) no Festival de Cinema de Saravejo; para o de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Estocolmo; para quatro prêmios como Melhor Filme e um de Melhor Novo Diretor no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; e para o Freedom of Expression Award do National Board of Review.

Esta é mais uma produção que comprova como um grande filme não precisa custar muito. Mustang teria custado 1,3 milhão de euros. Baixo orçamento, mas que nos presentou com uma história incrível. Para cada grande “blockbuster” de Hollywood muitos filmes como este poderiam ser realizados. Francamente, prefiro este segundo perfil.

Mustang foi totalmente rodado na Turquia, aonde a história é ambientada. Entre as cidades mostradas no filme estão Inebolu e Abana, assim como Istambul. Apesar de ser uma coprodução entre Turquia, França, Catar e Alemanha, esta produção é a representante da França no Oscar 2016. Isso porque boa parte dos recursos e do apoio para ela ter saído do papel foram dados pela França – o filme não existiria se fosse pela Turquia, evidentemente.

Enquanto Mustang está concorrendo no Globo de Ouro e tem grandes chances de estar entre os cinco indicados no próximo Oscar – ele avançou junto com outros oito filmes na disputa -, o representante da Turquia, Sivas, ficou fora da disputa. O que apenas comprova que grandes premiações, aonde lobby e outros questões contam, sempre servem para revelar grandes filmes mais independentes e corajosos, especialmente em termos de produções de língua estrangeira e documentários. Não por acaso iniciou com Mustang a minha “corrida” pelo Oscar 2016. Essa premiação sempre vale ser acompanhada – assim como as outras principais do cinema.

Antes de Mustang, Deniz Gamze Ergüven havia dirigido apenas a dois curtas: Mon Trajet Préfére, em 2006, e Bir Damla Su (Une Goutte D’eau), também em 2006. Ela escreveu o roteiro dos três. Nascida na Turquia, a diretora é radicada na França. Vale a pena ler esta matéria e entrevista com a diretora feita pela Vogue na qual ela conta não apenas um pouco de sua história, mas também das fontes para Mustang. Ergüven merece aplausos só pelo fato de querer tratar de um assunto tão espinhoso como a mulher na Turquia – resgatando suas próprias raízes.

Mustang está concorrendo com El Club, Le Tout Nouveau Testament, Miekkailija e Saul Fia como Melhor Filme em Língua Estrangeira do Globo de Ouro 2016. Depois de divulgar os 81 países que estavam concorrendo a uma vaga na mesma categoria no Oscar 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood listou as nove produções que seguem na disputa por uma das cinco vagas finais. Além de Mustang, representante da França, estão concorrendo Le Tout Nouveau Testament (Bélgica), El Abrazo de la Serpiente (Colômbia), Krigen (Dinamarca), Miekkailija (Finlândia), Labyrinth of Lies (Alemanha), Saul Fia (Hungria), Viva (Irlanda) e Theeb (Jordânia). Falta conferir a todos para depois dar a opinião final sobre esta categoria do Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Mustang – uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão de notas do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 avaliações positivas e apenas uma negativa para Mustang, o que garante para o filme a aprovação de 97% e uma nota média de 8,2.

Em dezembro, no dia 11, terminei o meu doutorado na Faculdade de Ciências da Informação da Universidade Complutense de Madri, na Espanha. Agora, meus bons amigos e leitores fieis deste blog, terei muito mais tempo para ver a filmes e comentá-los por aqui. Esta é uma das minhas intenções para 2016 e para o finalzinho deste ano. Com Mustang, como comentei antes, iniciou a minha “temporada” de avaliações para o Oscar 2016. Espero que vocês gostem e comentem. Pouco a pouco vou respondendo a todos vocês. Obrigada pela paciência e para parceria neste tempo todo. Um abraço grande para cada um@ de vocês e que 2016 seja incrível para todos vocês!

CONCLUSÃO: Mustang parece ser, na parte inicial, um filme singelo. Mas ele é tudo menos isso. Com uma narrativa crescente e que para alguns pode beirar o absurdo – mas que não é, na verdade e infelizmente -, esta produção vai ganhando o espectador aos poucos. Até que estamos arrebatados pelas atrizes e pela narrativa. Neste momento, impossível não torcer pela protagonista e sua irmã.

Impossível não sonhar com mais mulheres que possam tomar as suas próprias decisões. Independente do país ou da cultura na qual nasceram – e sem poder escolher isto, ao menos. Não é preciso ser feminista para gostar deste filme. Basta colocar-se no lugar do outro e arriscar-se a entender que cada pessoa deveria ser dona de seu próprio destino. Com um elenco afinadíssimo e um roteiro que mede a dose exata de drama, comédia e emoção a cada minuto, Mustang é uma verdadeira preciosidade. Vale ser visto e recomendado.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Este é apenas o primeiro dos nove filmes em língua estrangeira que avançaram para a seleção do próximo Oscar que eu assisti. Claro que falta ver aos demais mas, desde já, eu não acharia nada injusto Mustang ganhar a tão cobiçada estatueta dourada. Este filme é um libelo à liberdade, especialmente a feminina. Corajoso, toca em temas importantes para a Turquia e para vários outros países aonde, infelizmente, as pessoas não podem ser realmente livres muitas vezes.

Bem dirigido, com um roteiro que cresce nos momentos certos, Mustang tem na interpretação dos atores um de seus principais trunfos. Funciona bem, do início até o fim. Para quem está começando agora a ver os filmes que tem chances no próximo Oscar, esta foi uma bela estreia. Atualizarei este palpite mais para frente, depois de assistir aos demais e de termos todos acesso a lista dos cinco finalistas à premiação. Mas, desde já, e como comentei na conclusão, recomendo. E ele merece o Oscar.

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11 thoughts on “Mustang – Cinco Graças

  1. Excelente Filme !! Em todos os sentidos desde a actuação das actrizes ao trabalho da realizadora, esta brilhante, E por estes filmes que o cinema deve existir e ser visto por todos.

    Acompanho o blog com alguma regularidade e espero ver aqui as suas excelentes criticas sobre as nomeações dos OSCARES ,
    Continuação de excelente trabalho

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  2. O filme é bom, mas o roteiro é fraco, muito maniqueísta. Todas as meninas são rebeldes, inteligentes e lutam pela liberdade. Todas 5!?
    Deveria haver alguma das irmãs para fazer o contraponto, uma irmã conservadora que seguisse a linha de pensamento dos adultos, lembrando que muitas mulheres se acomodam ou mesmo impõe as outras esse modo submisso. O pensamento machista/patriarcal não é só invenção dos homens. A diretora parece se esquecer disso. No mais é um bom filme e vejo nele uma nota de crítica política a Turquia do Presidente Erdogan, um político do partido islamista que é acusado por progressistas turcos de criar um ambiente de volta ao passado no país, celebrando “valores tradicionais islâmicos” de forma populista perante a população (especialmente nas cidades do interior, onde é ambientado o filme).
    Lembrando que até pouquíssimo tempo atrás, a Turquia era o país mais aberto e democrático do Oriente Médio e com uma cultura bem mais próxima a Ocidental do que qualquer outro país da região. A Turquia quase integrou a União Europeia!
    Mas aí o partido islâmico venceu as eleições para o parlamento turco….e como sabemos, islã e modernidade é uma conta difícil de fechar.
    Li uma vez uma anedota que não sei se é verdadeira, mas diz muito o islamismo e a modernidade. Parece que em finais dos anos 60, a década da pílula e dos jovens, o então Xá do Irã Reza Pahlevi, que havia a pouco iniciado toda uma campanha de modernização no seu país, especialmente no que toca aos direitos femininos, escreveu uma carta ao rei Faisal da ultraortodoxa Arábia Saudita dizendo: “Irmão, não esqueças que apesar de morardes em Riad estamos no século XX. Deixe as mulheres usarem minissaia. Moderniza-te”.

    E o rei saudita respondeu: “Irmão, não me esqueci que estamos no século XX, tu é que pareces que esquecestes que apesar de suas férias em Paris, não és o Xá da França. governais um país islâmico!”

    Dez anos depois o Xá do Irã foi derrubado por uma revolução islâmica que criou o regime dos Aiatolás, que com todos embargos e crise sobrevive ainda hoje no Irã e quanto a Arábia Saudita…precisa falar?

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    1. “O filme é bom, mas o roteiro é fraco, muito maniqueísta. Todas as meninas são rebeldes, inteligentes e lutam pela liberdade. Todas 5!?
      Deveria haver alguma das irmãs para fazer o contraponto, uma irmã conservadora que seguisse a linha de pensamento dos adultos, lembrando que muitas mulheres se acomodam ou mesmo impõe as outras esse modo submisso.”

      As cinco meninas eram bem unidas, portanto não acho falha do roteiro que todas elas tivessem a mesma linha de raciocínio e pensassem de forma semelhante. Para ter uma “ovelha negra” no meio delas, ela teria que ser desapegada do grupo, e nenhuma das cinco mostra desapego ao grupo.

      Colocar essa ovelha negra provavelmente desestruturaria o roteiro inteiro porque praticamente todas as cenas teriam que ser refeitas. Seria interessante saber as diferentes formas de tratamento para a irmã que seguisse o pensamento dos adultos e as outras que não seguiam, mas não acho que melhoraria o roteiro ou o filme em geral.

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  3. Assisti ” Mustang ” ontem e fiquei muito tocada. Adorei tudo: roteiro, direção, fotografia, música e principalmente a atuação do elenco. As meninas são lindas e mostram uma afinação no seu modo de atuar que impressiona! E tem a temática muito presente em nossa sociedade, que é extremamente machista. São histórias de meninas que se assemelham em muitos pontos do Planeta. Mudam-se os lugares, os costumes, mas a opressão à mulher é sempre a mesma.
    Entretanto a despeito de toda situação desfavorável a necessidade intrínseca de liberdade do ser humano dá sempre um jeito de se manifestar. A sensação que tive ao sair do cinema é a de que o conformismo deve ser banido, para que alguém seja plenamente feliz.

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  4. Amei este filme e me entristece saber da quantidade de mulheres que, por conta de “tradições”, acabam perdendo tanto da vida, incluindo o bem mais preciso: a liberdade. Filme realmente maravilhoso, de excelente gosto e muito delicado ao retratar fatos impactantes, como o tio indo ao quarto da menina.

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