Aquarius

Resistir é preciso. É preciso resistir. Perdi o “timing” de assistir a Aquarius no cinema, mas como não vi nada de muito interessante estreando nesta semana nas telonas da terra brasilis, resolvi retornar no tempo e ver a esta produção tão falada e discutida. É um filme com uma pegada social interessante, ainda que ele pegue “leve” no assunto e não apresente toda aquela coragem que outras escolas de cinema tiveram e tem de abordar temas do gênero. No fim, Aquarius satisfaz ao público que está farto de absurdos e que precisa de ao menos uma vitória para comemorar.

A HISTÓRIA: Fotografias em preto e branco mostram uma cidade que não existe mais. Uma época em que no máximo um grande prédio jogava sombra sobre a praia. Mas o tempo passa, e os prédios se multiplicam na orla. As fotografias saem de cena e começa a primeira parte do filme, “O cabelo de Clara”. Em uma praia, um carro faz manobras enquanto quatro pessoas dentro se divertem. Uma delas é Clara (Barbara Colen), que apresenta uma nova música para o irmão, Antonio, e para as amigas.

Em seguida, eles vão para o apartamento de Clara, onde a família está celebrando a festa de aniversário de 70 anos da tia Lucia (Thaia Perez). O ano é 1980 e a história se passa no Recife. É lá que, décadas depois, Clara terá que enfrentar o risco de ter que deixar a própria casa porque uma construtora tem outros planos para o edifício Aquarius, onde ela, o marido e os filhos viveram grandes momentos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Aquarius): O mundo é cruel e é injusto. Isso é verdade. Quanto antes descobrimos isso, melhor. Ainda assim, há o outro lado da moeda também. O mundo é lindo e é cheio de pequenos milagres cotidianos. Quanto antes nos damos conta disso, menor o nosso risco de desânimo.

Aquarius fala sobre como o poder econômico pode massacrar vidas e sonhos. Histórias como a contada pelo filme são vistas Brasil afora todos os dias. E em outros países também. Construtoras fazem grandes projetos e não tem espaço para negociar com os desejos que não sejam comprados com muito dinheiro. O que eles não sabem é que nem todo mundo está à venda. E são estas mesmas empresas que mandam e desmandam na mídia, dizendo o que deve e o que não deve ser publicado nas páginas dos jornais.

Para tudo nesta vida há exceções, é claro. Há bons jornalistas no mundo e há aqueles que, como a protagonista deste filme, resistem ao massacre do dinheiro. Mas estes são cada vez mais raros, e o público, que não é bobo, percebe. Sim, Clara é vítima de uma grande construtora que só quer saber de construir mais um grande edifício e faturar muito dinheiro com isso. Todos os vizinhos dela são convencidos de saírem de casa e de aceitarem o acordo com a construtora, menos ela.

Claramente Aquarius se debruça sobre a beleza de resistir quando existem bons motivos para isso. Diferente do que alguns acusam clara, de egoísta, vejo que ela é uma mulher que passou por muitas coisas na vida e que agora, em sua fase madura, quer viver em paz na casa em que viveu grande parte da vida – ou a vida inteira, isso não fica totalmente claro na produção. O que sabemos, com certeza, é que foi naquele apartamento em que ela criou os filhos e no qual ela viveu grandes momentos da vida.

Ninguém deveria ter o direito de exigir que uma pessoa abandone o local no qual ela se sente em casa. Onde tem as suas raízes e onde construiu a sua própria noção de identidade. Mas a verdade é que isso foi feito, segue sendo feito e infelizmente ainda será feito com muitas e muitas pessoas neste país. Quem se importa com o que foi feito com os índios no Brasil – e que continua sendo feito? Ou com os quilombolas? Ou com tantas outras pessoas que foram retiradas de suas casas recebendo uma indenização baixa para que o “progresso” de uma obra de infraestrutura fosse construída?

Possivelmente a frequência com que pessoas são obrigadas a deixar as suas casas e as suas coleções de memórias e noção de “pertencimento” para trás seja diária neste imenso país. Infelizmente são poucos que conseguem resistir a isso. Aquarius foca não uma pessoa realmente explorada por uma situação destas, mas uma mulher bem formada, inteligente, relativamente “privilegiada” e que tem recursos para resistir ao que a maioria não tem condições.

Admito que isso me incomodou um pouco. Acho que para este filme ser realmente social, ele poderia ter focado tantos outros perfis de pessoas subjugadas pelo dinheiro. Não faltam exemplos no Brasil. Mas dá para entender a escolha do diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho. No fim das contas, e vamos entender isso só no final, ele precisava de uma personagem que pudesse apresentar resistência de fato e, mais que isso, uma desforra que o público tanto anseia.

Por tudo isso, a grande revolução que este país há muito anseia e nunca vai alcançar – infelizmente – só aconteceria de uma maneira: com educação massiva de sua população. E quando falo educação, não estou me referindo ao básico, mas sim a uma educação inclusiva, de cidadania, humanista e que também daria as ferramentas para qualquer cidadão entender o básico das leis, de seus direitos e de como administrar a própria vida (incluindo aí as finanças). Porque se todos tivessem estas informações, e não apenas alguns “privilegiados” como Clara (na fase “atual” vivida por Sonia Braga), sem dúvida teríamos outro país.

Desta forma, achei Aquarius um tanto “leve”. Desde que a história de Clara se desenhou e vimos que a questão do interesse econômico da construtora seria algo determinante, francamente eu fiquei esperando o pior. A partir daí, pensei em várias ações que os inescrupulosos poderiam ter a respeito da “resistente” protagonista. No fim das contas e levando em conta o que vemos por aí, Clara até teve uma certa “sorte”.

No mundo real, infelizmente, executivos inescrupulosos tem atitudes até piores do que as tomadas por Diego (Humberto Carrão). Com isso, evidentemente, não estou defendendo ele. Pelo contrário. Mas achei que Kleber Mendonça Filho pegou leve nas ações e reações da história. Talvez porque, mais do que tratar de uma questão social, ele queria fazer uma homenagem para Sonia Braga. Dar um papel para a atriz que não tivesse apenas a crítica social, mas especialmente a reflexão sobre o amadurecimento, a passagem do tempo e as suas cobranças e liberdades. Neste ponto o filme funciona bem, ainda que seja um tanto previsível.

Este filme me fez lembrar de outro que trata sobre a noção de casa e de interesses econômicos/sociais prevalecendo sobre o interesse particular/individual. Para quem gostou de Aquarius, recomendo assistir ao francês Home (comentado por aqui). Para o meu gosto, um filme mais contundente e mais bem acabado que a produção brasileira tão comentada. Sem contar que sempre me lembro de outra produção brasileira que trata muito bem sobre a noção de lar e de pertencimento, que se chama Os Narradores de Javé – assisti ao filme antes de criar o blog, por isso não há uma crítica dele por aqui, mas super recomendo, ainda que eu ainda prefira Home. Mas dá para assistir aos dois sem problemas. 😉

Com isso, finalizo a crítica dizendo que sim, gostei de Aquarius, mas acho que o filme fez mais barulho do que deveria. Sim, Kleber Mendonça Filho tem todo o direito de ser panfletário e de ter as suas opiniões ouvidas e alabadas, mas acho que este filme ganhou mais cartaz do que ele receberia se apenas a produção e não todo o cenário político e panfletário fosse levado em conta. É um bom filme, bem realizado e com uma grande atriz como protagonista. Mas há filmes melhores que tratam do mesmo assunto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As críticas de Kleber Mendonça Filho e do elenco de Aquarius sobre o “golpe” realizado no Brasil – outra forma de encarar o impeachment de Dilma Rousseff – marcaram as opiniões sobre esta produção. O estilo de disputa Fla-Flu que dividiu o país sobre a questão Dilma Rousseff contaminou também as opiniões sobre Aquarius. Este debate voltou à tona quando os defensores do filme viram ele ser preterido por Pequeno Segredo (comentado aqui) para o Oscar.

No fim das contas, foi até bom eu ter assistido a Aquarius apenas agora. O clima de Fla-Flu já passou um pouco, e agora posso falar sobre esta produção sem ser influenciada por ele. Como eu disse antes, Kleber Mendonça Filho e as demais pessoas envolvidas neste projeto tem toda a liberdade e é assim que deve ser para terem a posição política que quiserem.

Vi este filme sem colocar as posições deles ou a minha em conta. Realmente avaliei a obra. Aquarius é um bom filme. Bem escrito, no geral, com alguns momentos muito bons, mas um tanto “suave” demais para o meu gosto. Assisti a outras obras sobre temas parecidos e que foram mais competentes na mensagem e na execução e sem terem feito tanto “barulho”. Por isso mesmo citei duas de várias que atendem a este meu comentário porque estas produções realmente merecem ser conferidas.

Sim, Aquarius tem uma história mais “original” que Pequeno Segredo. Coloquei original entre aspas porque a essência do que a produção nos conta, na verdade, já foi explorada por outras produções – de dentro e de fora do Brasil. É preciso assistir a mais filmes para ter esta contextualização melhor acabada. Pequeno Segredo tem uma história que pode ser entendida em qualquer parte e que trata de questões universais – família, acolhimento, amor, etc.

Aquarius também trata de temas universais, mas com um “sotaque” muito maior. Francamente, assim como Pequeno Segredo não teve chances no Oscar, acho que Aquarius também não teria. Ao menos em um ano como este, com grandes produções na disputa. Para ambos faltou um pouco mais de qualidade para realmente terem alguma chance mais forte na premiação de Hollywood.

A grande qualidade de Aquarius, sem dúvida, é a interpretação de Sonia Braga. Ela dá um show nos melhores momentos da produção – quando ela confronta Diego e diz para ele, com todas as letras, que ele ser abastado não significa que ele tem caráter e na sequência final da produção. Sem dúvida alguma Sonia Braga vale o ingresso. No mais, o roteiro de Kleber Mendonça Filho me pareceu bastante irregular. Tem alguns bons momentos, como os dois citados, em especial, mas tem também vários outros momentos de “vida ordinária” que pouco acrescentam para a produção, como várias sequências de Clara com os seus familiares – eu cortaria algumas cenas que parecem um tanto “penduricalhos”.

Para quem é jornalista, como eu, certamente a conversa de Clara com um colega de profissão é outro grande momento do filme. Ela está tentando descobrir um pouco mais sobre a construtora que está lhe aterrorizando, especialmente buscando mais informações sobre Diego, quando o colega comenta que a tal empresa tem muito “poder” no jornal e no mercado porque é uma grande anunciante. Ela fica atrás apenas dos recursos para publicidade do governo do Estado, do governo municipal e de uma construtora.

Momento muito interessante porque é isso realmente o que acontece em muitos e muitos jornais, onde os recursos públicos e de um punhado de empresas determina, muitas vezes, que cobertura estas publicações fazem ou poderão fazer sobre os acontecimentos locais. Infelizmente o interesse público, que deveria ser a principal preocupação de jornalistas e dos meios de comunicação, nestas situações é enterrado pelo poder econômico. Infelizmente.

Aquarius tem toda a sua narrativa focada em Clara. Tanto que os três “capítulos” da produção trabalham sobre três “temas” relacionados a ela. Primeiro, os cabelos de Clara. Depois, o amor e o câncer da protagonista. Cada um destes temas representa muito mais do que o sentido de cada palavra, é claro.

Uma “brincadeira” que ajuda o público também a pensar sobre a definição da personagem que, diferente do que muitos gostam de enxergar, como alguém colocado na caixinha “tia”, ou “mãe”, ou “privilegiada”, ou “mulher de meia idade avançando para a melhor idade”, é bem mais complexa do que qualquer caixinha destas. Pela narrativa ser concentrada na protagonista, claro que o filme é feito para Sonia Braga brilhar. E ela brilha. Está em um grande momento. Mas, além dela, vale comentar o bom trabalho de alguns coadjuvantes. A história mesmo dá mais espaço para poucos deles.

Deste grupo, destaco o bom trabalho de Humberto Carrão como Diego, o neto do dono da construtora Bonfim, Geraldo (Fernando Teixeira). Os dois interpretam com precisão pessoas da vida real com as mesmas características. Também se saem muito bem a atriz Zoraide Coleto, que interpreta a empregada de Clara, Ladjane; o ator Irandhir Santos, que interpreta o salva-vidas/bombeiro Roberval; Maeve Jinkings como Ana Paula, filha mais velha e um tanto “dinheirista” da protagonista; Buda Lira como Antonio, irmão de Clara; Paula de Renor como Fátima, mulher de Antonio e amiga de Clara; Daniel Porpino em um papel duplo como Adalberto, marido de Clara nos anos 1980, e como Rodrigo, um dos filhos do casal; Germano Melo como Martin, em uma ponta como o outro filho de Clara; Pedro Queiroz como Tomás, sobrinho que Clara considera como um filho; Carla Ribas como Cleide, amiga e advogada de Clara; e Julia Bernat como Julia, nova namorada de Tomás. Todos estão muito bem, ainda que muitos em papéis bastante pequenos, quase pontas.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Pedro Sotero e de Fabricio Tadeu; a edição cuidadosa de Eduardo Serrano; o design de produção de Juliano Dornelles e de Thales Junqueira; e os figurinos de Rita Azevedo. Ah sim, e a trilha sonora é um elemento fundamental de Aquarius, praticamente um personagem da história. Palmas aí para os 10 profissionais envolvidos no Departamento de Música da produção.

Aquarius teria custado R$ 2,5 milhões. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 285,9 mil, ou seja, foi visto por poucos, mas a grande carreira da produção foi feita mesmo nos festivais mundo afora e no Brasil. Apenas no mercado interno o filme teria feito pouco mais de R$ 3,4 milhões.

Falando na carreira da produção em festivais, Aquarius ganhou 19 prêmios e foi indicado a outros 21. Entre os prêmios que conquistou, destaque para o de Melhor Atriz para Sonia Braga e o Prêmio Especial do Júri para Kleber Mendonça Filho no Festival Internacional de Cinema Latino de Biarritz, na Espanha; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Cartagena; para o de Melhor Filme dado pelo Círculo de Críticos de Cinema de Dublin; para o de Melhor Filme em Língua Estrangeira dado pelo Sindicato dos Críticos de Cinema Francês; para o de Melhor Filme no Fipresci Prize do Festival de Cinema de Havana; para o de Melhor Filme segundo a audiência e o de Melhor Atriz para Sônia Braga no Festival de Cinema Mar del Plata; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney; e para o “Directors to Watch” para Kleber Mendonça Filho no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Como a história mesmo sugere, Aquarius foi totalmente rodado na cidade de Recife, Pernambuco, cidade natal do diretor e local que ele costuma retratar em suas produções. Do diretor eu já tinha assistido ao bem elogiado O Som ao Redor (com crítica neste link).

A trilha sonora de Aquarius é outro ponto forte da produção. Um verdadeiro deleite para quem gosta de música brasileira e de outras latitudes. Entre outros nomes, há músicas de Taiguara, Queen, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Roberto Carlos e Heitor Villa-Lobos.

Aquarius é uma coprodução do Brasil e da França. Como há algum tempo vocês votaram aqui no blog pedindo alguns filmes realizados no Brasil, esta crítica atende a este pedido e entra na tag específica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 90 crítica positivas e apenas três negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,2. Este é um raro exemplo de filme brasileiro que consegue conquistar mais os críticos do que o público – e obtém uma nota maior do primeiro grupo do que do segundo.

CONCLUSÃO: Um filme necessário, assim como tantos outros do “novíssimo” cinema brasileiro. Aquarius fala sobre absurdos que acontecem no dia a dia de grandes cidades, pontos mais frágeis mas não únicos da exploração do capital sobre as pessoas. O diretor Kleber Mendonça Filho segue em sua levada de tratar das distorções sociais e tem alguns grandes momentos nesta produção.

Ainda assim, achei ela um tanto longa demais e um tanto “suave” demais na comparação com o que realmente acontece à nossa volta. Outros diretores, provavelmente fora do Brasil, seriam um pouco mais contundentes. Ainda assim, dá para entender a intenção do filme em dar um pouco de “prazer” para as audiências, tão carentes de histórias de desforra. Entendo tudo isso, mas esperava um pouco mais desta produção.

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20th Century Women – Mulheres do Século 20

Estar sempre aberta e humilde para aprender, especialmente com as pessoas. Viver cada época da sua vida com atenção e com gratidão. Degustar da vida, seus sabores e dissabores. Ter a coragem de decidir se quer ter filhos ou não. Avançar e evoluir e tentar contribuir da melhor forma possível para que as pessoas ao redor, como você, sejam melhores. Tudo isso faz parte da vida e faz parte deste filme incrível chamado 20th Century Women. Ele concorreu ao Oscar 2017 como Melhor Roteiro Original e eu tinha certa curiosidade de assisti-lo, mas vi que ninguém tinha se empolgado muito com ele. Mas eu sim.

A HISTÓRIA: Ondas do mar. Santa Bárbara, 1979. Vemos a cidade do alto e, depois, um carro em chamas em um estacionamento. As pessoas começam a correr para ver o que está acontecendo. Dorothea (Annette Bening) e Jamie (Lucas Jade Zumann) olham admirados para a destruição. Dorothea diz que aquele era o Ford Galaxy do marido dela, o mesmo carro que eles usaram para trazer o filho deles do hospital para casa.

Jamie conta que a mãe dele tinha 40 anos quando ele nasceu, e que todos diziam que ela era muito velha para ter um filho. Dorothea conta sobre o primeiro contato com o filho, na maternidade, e como ela disse que a vida é grande e desconhecida. Esta é a história desta mãe e deste filho e das pessoas que conviveram com eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 20th Century Women): Que bela e grata surpresa este filme! Ele me conquistou, desde o início, pela narrativa criativa e, claro, pelos ótimos personagens, pelo desenvolvimento da história e pelos diálogos. 20th Century Women é um exemplo fantástico de como o roteiro é algo fundamental em uma produção.

Como eu comentei na crítica anterior, de Ghost in the Shell (que você encontra por aqui), o roteiro para mim sempre será o elemento mais importante de qualquer produção. Em 20th Century Women ele é o elemento central e a melhor qualidade da produção, ainda que não seja a única, é claro.

Este filme conta a história fantástica de uma mulher de 55 anos que há vários anos cuida sozinha da criação do filho adolescente. Vivemos o final dos anos 1970, uma época de muitas modificações sociais e, claro, de avanços também na liberação da mulher. 20th Century Women coloca as mulheres em evidência, com certeza, mas o filme não se resume apenas a isso. Muito rico e interessante, ele também trata sobre a relação de mães e filhos e sobre como preparar um homem para o futuro.

Afinal, o que nos faz ser pessoas bacanas, realmente inseridas e participantes da sociedade? Que valores são importantes repassar para a frente, e como fazer isso sem sufocar quem precisamos educar? 20th Century Women trata de educação, mas trata também de amadurecimento e do desenvolvimento humano. E aí você pensa: puxa, mas tratar de todos estes temas em um filme deve ser algo complicado e maçante. Poderia ser, mas o roteirista e diretor Mike Mills faz isso com cuidado e maestria exemplar.

Como acontece com todo filme fantástico, sobre 20th Century Women também seria possível escrever praticamente um livro, ou um tratado. Não farei isso, vocês sabem, primeiro porque este não é o espaço adequado e, depois, porque com o meu manifesto eu já tinha defendido textos mais curtos e objetivos, citando que em casos especiais (e este é um deles) eu poderia escrever um pouco mais.

Gostei de algumas sacadas bacanas de Mills. Destaco duas. A primeira foi contar a história destacando alguns personagens centrais e os anos em que eles nasceram. A protagonista, claro, é Dorothea, que nasceu em 1924 e que tem a sua introdução narrada pelo filho, um rapaz que tenta entender a vida, a sua referência principal (a mãe) e tudo que lhe cerca sob a sua própria ótica pela primeira vez.

Não importa a idade que você tenha. Todos nós já fomos crianças e adolescentes na vida. Quando éramos crianças, nos divertíamos e tínhamos os pais como referência máxima. O respeitávamos, lhes obedecíamos e começávamos a conhecer outras pessoas e outras relações na escola e em outras partes. Na adolescência começamos, pela primeira vez, a pensar pela nossa própria conta. Percebemos mais as influências variadas que nos rodeiam e já não achamos que tudo o que nossos pais nos dizem é certo.

Este filme começa justamente neste momento na vida dos protagonistas, Dorothea e Jamie. Depois de sabermos um pouco mais sobre a Dorothea que nasceu em 1924, ela nos conta um pouco sobre o filho que nasceu em 1964. Sempre que conta cada história, Mills pinça alguns fatos e imagens que ajudam a contextualizar a geração daquela pessoa. Porque somos muito influenciados pelas nossas famílias, nossos pais e antepassados, mas definitivamente somos também produtos culturais e da sociedade em que nascemos e crescemos.

20th Century Women é, assim, um filme sobre desenvolvimento humano. Sobre o processo de crescer e de envelhecer e tudo que nos acontece no caminho. Enquanto Jamie está começando a abrir as suas asas e a pensar por conta própria, Dorothea está aprendendo a envelhecer sem estar casada e no padrão social estabelecido como mais comum para a época. Ela é uma mulher, mas é também mãe e profissional. Tem os seus desejos e as suas fraquezas e, sobretudo, tem muita vontade de aprender e um respeito profundo pelos demais.

Esta é uma das maiores belezas deste filme e da personagem principal da história. Essa abertura para aprender, para olhar para o outro e para si mesmo com sinceridade e atenção. Dorothea é uma personagem incrível, uma mulher incrível. E ela nos lembra tantas e tantas outras mulheres, inclusive as nossas mães. Muitas vezes demoramos para perceber isso, mas nosso pai e nossa mãe são pessoas comuns que decidiram, em algum momento da vida, ter filhos.

Ainda que quando somos crianças achamos que eles são perfeitos e que tudo que eles falam deve ser levado em conta e respeitado, conforme o tempo passa e nós mesmo passamos por diversos desafios na vida, percebemos com ainda mais verdade quem são os nossos pais. Como eles acertam e como eles erram. Como eles tem as suas inseguranças e as suas convicções. E como nós nem sempre precisamos concordar, e que tudo bem se for assim. O importante, e 20th Century Women trata disso muito bem, é conhecermos com profundidade uns aos outros, nos respeitarmos e nos amarmos sempre.

O roteiro de Mills também destaca as outras duas mulheres que fazem parte da vida de Jamie e Dorothea: a jovem estudante Julie (Elle Fanning), amiga de infância de Jamie; e a jovem fotógrafa Abbie (Greta Gerwig). Também conhecemos um pouco mais sobre a única figura masculina mais presente na vida do garoto, o mecânico e “faz-tudo” William (Billy Crudup), que está ajudando Dorothea a reformar a casa onde ela, o filho e Abbie moram.

Observadora inteligente do passar do tempo, Dorothea acaba ficando um pouco “perdida” com as mudanças pelas quais o filho passa na adolescência. Como acontece com todo adolescente, Jamie já não consegue dialogar com a mãe como antes e parece um tanto “revoltado” e/ou “distante”. Dorothea não sabe, porque ele é filho único e ela não teve outras mães para compartilhar sobre isso, mas esses comportamento são normais para a idade. Preocupada com o que está acontecendo, ela pede ajuda para Julie e Abbie, o que deixa Jamie revoltado.

E assim, com muita inteligência e cuidado, Mills avança na evolução de Dorothea e Jamie enquanto mãe e filho e enquanto indivíduos. Também avança nas relações entre os personagens centrais desta história, uma pequena comunidade que desbrava as interessantes e mutáveis relações entre as pessoas. Outra qualidade que achei muito interessante no roteiro de Mills foi a forma com que ele destacou algumas obras durante toda a produção.

Além de fazer uma linda homenagem para o clássico fundamental do cinema Casablanca, 20th Century Women abre espaço para citar diversas obras que acabam embalando o crescimento e o autoconhecimento de Jamie e de Julie. Enquanto a adolescente busca entender o amor e a sexualidade, Jamie mergulha em livros emprestados por Abbie e que tentam apresentar um pouco da complexidade feminina. Todos os temas são tratados com muita franqueza na produção porque os personagens vivem as suas vidas desta forma franca, bem ao sabor do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Gostei também de como 20th Century Women mostra que não existem fórmulas de mulher (ou de homem) para serem seguidas. Enquanto algumas mulheres podem preferir nunca mais casar e ficarem sozinhas grande parte da vida, outras podem escolher o casamento e ter filhos, ao mesmo tempo que outras mulheres vão casar e não vão querer engravidar.

O século 20 trouxe esta liberdade para as mulheres. Da mesma forma, os homens podem ser mais ou menos sensíveis em relação a entender e conviver com as mulheres. Tudo isso vai depender da educação que eles receberam e das escolhas que fizeram na vida. É possível criar os filhos para eles serem mais sensíveis e inteligentes, isso Dorothea nos mostra bem. Mas, como sempre, esta não é uma decisão apenas de uma mãe ou de um pai, vai depender, essencialmente, da escolha do indivíduo de ele ser mais aberto, humano, sociável e sensível. Seja ele homem, seja ele mulher.

O roteiro é a grande qualidade desta produção. Mas ela também acerta na escolha do elenco, de cada personagem e, principalmente, na entrega de cada atriz e ator ao seus respectivos papéis. Todos estão ótimos, mas Annette Bening faz um trabalho excepcional. Ela está impecável. Finalizando as qualidades da produção, gostei muito da condução de Mike Mills, que é detalhista e perfeccionista. Ele sabe valorizar os cenários e os lugares mas, especialmente, os atores e o texto. Todos os demais aspectos que ajudam o filme a ser ambientado em sua época, inclusive a ótima trilha sonora, também funcionam muito bem. Enfim, um filme completo e de grande, grande qualidade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto quando um filme me surpreende positivamente. Como eu falei lá no início, 20th Century Women entrou no meu radar por causa da indicação que ele recebeu no Oscar. Mas como eu ouvi algumas críticas mornas sobre ele, acabei deixando ele para ser visto mais tarde, sem pressa. Por pouco eu não o perdi, o que seria uma grande besteira. Apesar de ter recebido apenas uma indicação ao Oscar, ele é um grande filme, melhor que outras produções que foram indicadas mais vezes. Gosto de filmes humanistas, e esta é uma destas produções. Bela surpresa.

Fiquei muito interessada em conhecer mais sobre o diretor e roteirista Mike Mills. Este californiano de 51 anos de idade tem apenas 10 títulos no currículo como diretor. Ele estreou em 1999 com o vídeo documentário Air: Eating, Sleeping, Waiting and Playing. Depois ele fez dois curtas antes de fazer o vídeo Moby: Play – The DVD. Daí vieram mais um curta e um vídeo chamado Pulp Anthology em 2002. A estreia dele com um longa nos cinemas foi Thumbsucker, em 2005, filme que teve não apenas a direção dele, mas também o roteiro de Mills. Depois vieram o documentário Does Your Soul Have a Cold? em 2007 e, em 2010, o longa Beginners.

Este é um dos grandes filmes de Annette Bening. Ela tem uma personagem ótima e com um texto excepcional, mas isso não basta. É preciso talento para trazer veracidade para um texto tão bom. Ela é o grande nome do filme, mas os outros atores estão muito bem também. Elle Fanning está ótima e mostra, mais uma vez, como é um dos grandes nomes de sua geração. Greta Gerwig faz um grande trabalho, assim como a revelação Lucas Jade Zumann.

Entre os coadjuvantes, destaque para Billy Crudup sendo Billy Crudup – ele sempre está muito igual, não?; e para as pontas competentes de Alison Elliott, que interpreta a mãe de Julie; para Thea Gill, como mãe de Abbie; para Olivia Hone como a irmã de Julie; para Waleed Zuaiter como Charlie, colega de Dorothea e um de seus “romances” pontuais; e Darrell Britt-Gibson como Julian, um dos homens que Dorothea conhece e que chama para um jantar em casa. Há outros atores que aparecem como colegas de Jamie e Julie, mas ninguém sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, Mike Mills manda bem não apenas no ótimo roteiro, mas também na direção cuidados a e detalhista, que valoriza especialmente os atores, mas também os ambientes e o tempo narrativo. Ele conduz muito bem o filme. A trilha sonora de 20th Century Women, com muito rock e punk, também é um ponto a destacar. Fantástico. Vale também elogiar a direção de fotografia de Sean Porter; a edição de Leslie Jones; o design de produção de Chris Jones; os figurinos de Jennifer Johnson; e a decoração de set de Aimee Athnos, de Traci Spadorcia e de Neil Wyzanowski.

20th Century Women teria custado US$ 7 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 5,6 milhões. Ou seja, o filme, mesmo que você incluir o resultado obtido em outros mercados, está mal conseguindo pagar os custos de produção e distribuição. Espero que ele tenha algum sucesso no boca a boca, porque a produção merece ser mais conhecida.

Esta produção foi rodada em várias locações na Califórnia e uma pequena parte em Nova York. Entre os locais na Califórnia, há cenas em East Beach, em Miramar Beach e em Montecito, incluindo em Four Seasons Resort The Baltimore Santa Barbara.

Entre as curiosidades de 20th Century Women está a de que o filme é semi-autobiográfico, segundo Mike Mills. Os personagens do filme são inspirados em pessoas que participaram da juventude do diretor. A personagem de Annette Bening tem traços da mãe de Mills e também da própria atriz.

Durante as gravações, o elenco foi incentivado a sugerir músicas que eles achavam que os seus personagens escutariam. O filme Casablanca era um dos favoritos da mãe de Mills, por isso ele aparece em mais de um momento de 20th Century Women.

20th Century Women ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Actress Defying Age and Ageism para Annette Bening dado pelo Alliance of Women Film Journalists; o de Melhor Atriz para Annette Bening do Atlanta Film Critics Society Awards; Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig dado pela Detroit Film Critics Society; e os de Melhor Atriz para Annette Bening e de Melhor Atriz Coadjuvante para Greta Gerwig conferidos pela Nevada Film Critics Society. Além de uma indicação ao Oscar, o filme também foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Comédia ou Musical e ao de Melhor Atriz – Comédia ou Musical para Annette Bening.

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso esta crítica atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog na qual vocês pediram filmes daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para 20th Century Women, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 144 textos positivos e 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,8. Achei interessante como especialmente os críticos gostaram da produção.

CONCLUSÃO: Muito do que somos tem a ver com as nossas origens. Nossos pais, antepassados, o entorno em que nascemos e no qual crescemos. Ainda que tudo isso seja verdade, há um peso muito específico e que merece ser sempre analisado: o das nossas mães. Elas nos influenciam decisivamente. Este filme fala sobre isso e fala sobre a força impressionante que as mulheres tem no mundo. Ainda que o título remeta às mulheres do século 20, ele poderia tratar de mulheres de qualquer época. Nós temos a força, é preciso dizer.

Com muita sensibilidade e um roteiro incrível, 20th Century Women presta uma grande homenagem à todas as mulheres e para todas as mães. Dificilmente alguém não verá ao menos um pouco da sabedoria e da coragem de suas próprias mães na protagonista deste filme. Roteiro primoroso, elenco muito afinado e que faz um grande trabalho, 20th Century Women é delicioso para quem não tem pressa em ver um filme e gosta de se deliciar com grandes história. Para quem curte, volta e meia, pensar na vida e em como caminha a Humanidade. Achei impecável, maravilhoso, inspirador.

Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

The Founder – Fome de Poder

Persistência, ambição e falta de escrúpulos. Esta pode ser a fórmula de “sucesso” de muitos homens. The Founder conta uma destas histórias. Mostra como um conglomerado global foi criado e como ele teve como uma figura chave do processo justamente um sujeito que seguiu esta fórmula. Com um ótimo roteiro, um grande elenco e uma direção afinada de John Lee Hancock, temos neste filme a história da rede de lanchonetes McDonald’s. Querendo uma não, uma “bela” história da cultura americana.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que este filme é baseado em uma história real. Ray Kroc (Michael Keaton) lança o seu discurso para mais um potencial comprador. Ele fala que o cliente vai vender muito mais milk-shake se ele comprar a máquina que ele está vendendo. Aumentando a oferta, ele também vai aumentar a demanda, seguindo a lógica do ovo e da galinha, garante Kroc. Ele vive visitando drive-thrus tentando vender a sua máquina de cinco eixos para acelerar o processamento de milk-shakes, mas sem sucesso.

A história começa em Saint Louis, cidade do Missouri, em 1954. Kroc não tem sucesso em suas investidas, até que fica sabendo de uma empresa que ligou para o escritório dele pedindo seis máquinas. Ele não acredita, liga para o local, e acaba falando com Dick McDonald (Nick Offerman). Curioso para saber quem teria “bala na agulha” para comprar tantas máquinas de uma vez, Kroc viaja até San Bernardino, na Califórnia, para ver de perto o negócio dos McDonald’s.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Founder): Eu fui assistir a este filme sem muitas expectativas. Bem, eu sabia que se tratava da história do McDonald’s, claro. Mas eu não sonhava que The Founder seria uma crônica mordaz sobre o pior lado do “sonho americano”. O filme se debruça como poucos nos desdobramentos de um homem que é ambicioso e que passa como uma patrola sobre todos para conseguir tudo o que deseja.

Como o bom cinema pede para qualquer realizador, The Founder vai crescendo em narrativa e em interesse pouco a pouco. Francamente, eu não sabia nada sobre a história do conglomerado McDonald’s até assistir ao filme. Acredito que a impressão sobre esta produção será diferente para pessoas que já conheciam bastante a história. Para mim, foi uma grande surpresa tudo que The Founder revelou.

Não há dúvidas que o protagonista Ray Kroc (Michael Keaton) teve muita ousadia. Para começo de história, claro. Ao mesmo tempo, Dick (Nick Offerman) e Mac McDonald (John Carroll Lynch) eram o contrário dele. Pessoas simples, daquelas que acreditam na palavra dos outros e não tem malícia, eles contavam para quem quisesse ouvir como eles haviam revolucionado o setor de lanchonetes nos anos 1950 – o filme começa em 1954, para ser mais exata. E foi assim que, encontrando um “espertalhão” como Kroc pela frente, eles se deram mal.

O roteiro de Robert D. Siegel é um primor. Como o cartaz mesmo do filme sugere, esta produção conta a história de Kroc, sob a perspectiva dele. É assim que o acompanhamos desde que ele vendia máquinas de milkshake e até ele encontrar os irmãos McDonald e o seu modelo revolucionário de fazer e vender hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes. Como a narrativa de Siegel é bem construída, no início você pode até pensar, como eu, que sem Kroc nós jamais teríamos um McDonald’s a cada esquina.

Ele realmente soube construir e encarnar muito bem o “espírito americano” ao negócio, fazendo o McDonald’s ser tão ianque e colonizador quanto o próprio país. A sacada dele foi realmente preciosa. Sem dúvida alguma o McDonald’s original jamais teria se tornado o que se tornou sem esta figura. Até aí, tudo bem, se ele tivesse feito tudo com respeito aos criadores do conceito e proprietários do nome. Mas não, ele não teve respeito nenhum por eles.

Conforme foi ganhando dinheiro e espalhando lanchonetes do McDonald’s pelos Estados Unidos, os “olhos” de Kroc “cresceram”. Com o ego bem alimentado e se sentindo poderoso, inteligente, capaz de tudo, ele foi passando como uma patrola sobre quem aparecesse pela frente. Este é o problema da ambição, do gosto pelo poder e pelo dinheiro. As pessoas que se deixam “encantar” por todos estes ingredientes ou por um deles se perdem.

Claro que Kroc não teria conseguido tudo o que conseguiu se ele não tivesse cruzado com Harry J. Sonneborn (B.J. Novak). Foi ele que mostrou de onde, realmente, sairia o dinheiro da companhia. Não seria de uma pequena porcentagem da vendas de combos baratos, mas da compra de terrenos que dariam depois renda permanente através da cobrança dos franqueados. E foi assim que a rede McDonald’s cresceu e multiplicou resultados.

Até um certo momento do filme, você fica admirado(a) pela história dos irmãos McDonald e pela ousadia de Kroc em abraçar aquela ideia e crescer com ela. Mas depois, quando percebemos como ele vai mudando de postura conforme ganha fama e dinheiro, logo presumimos que essa história não pode acabar bem. E não acaba, realmente. Ao menos para os irmãos que criaram todo o conceito do negócio. Por tudo isso, o trabalho de Siegel e de Hancock é exemplar.

Eles tem a ousadia de fazer um retrato mordaz sobre o homem que fez o conceito McDonald virar um conglomerado global. Não é para poucos. É preciso coragem e talento para contar uma história como esta sem querer tapar o sol com uma peneira. Em The Founder não temos isso. Somos apresentados a uma história interessante, com muitas lições sobre empreendedorismo e sobre como um negócio pode ser deturpado pelas mãos de alguém que tem pouco ou nenhum escrúpulo.

Como eu disse antes, The Founder acaba sendo um retrato impressionante sobre muitas e muitas empresas gigantes e que são vistas como “importantes” pelo mundo. Certamente em quase todos esses casos alguma história obscura sobre tanto poder e dinheiro foi escondida. Pois bem, The Founder nos revela uma destas histórias escondidas, ajudando a lançar luz também sobre o pior lado da ambição e do capitalismo como sistema que permite a premiação deste tipo de gente sem escrúpulos.

Quer dizer, a Humanidade ainda não criou um sistema econômico em que os valores estão no centro das trocas e das relações. Infelizmente. O capitalismo fomenta histórias bacanas e histórias podres como esta contada por este filme. Ainda não inventamos nada melhor, possivelmente porque nós, como coletivo, também não sejamos melhores. Afinal, quantas pessoas, após assistir a este filme, farão escolhas melhor de consumo? Imagino que pouquíssimas. Quantas abririam mão de fortuna e de sucesso para manter os seus valores éticos? Este filme nos levanta todas estas questões. Por tudo isso, achei ele brilhante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fascinante a reconstrução de época orquestrada pela equipe do diretor John Lee Hancock. Voltamos realmente aos anos 1950 nos Estados Unidos. Além da direção muito bem feita de Hancock, que sabe valorizar os ambientes e as interpretações de seus atores, este filme se destaca pelo excelente roteiro de Robert D. Siegel e, claro, pelo elenco escolhido à dedo. Cada elemento técnico do filme funciona à perfeição, junto com o roteiro, a direção e o elenco. Nada a criticar negativamente.

Algo que eu gostei neste filme é como ele mostra a genialidade dos irmãos McDonald’s. Eles realmente revolucionaram o setor das lanchonetes. Muito interessante como The Founder mostra como eles chegaram lá e de que forma eles construíram o conceito de lanchonete enxuta e eficiente. Ray Kroc teve ousadia, sem dúvida, mas não foi ele que teve nenhuma sacada para o negócio propriamente dito.

Tive curiosidade de saber o quanto o filme foi fidedigno com a história original, e ao ler este texto da Time, eu diria que a grande sacada de Kroc foi de marketing. Afinal, ele soube explorar o nome McDonald’s e criar a figura de Ronald McDonald para vender muito para um público fundamental para a marca, as crianças. No mais, ele foi tudo o que esta produção conta. Fui obrigada também a pesquisar como o próprio McDonald’s hoje conta a sua história. Lendo esta explicação fica claro que a empresa incluiu uma linha sobre os grandes responsáveis pelo modelo da empresa mas que tudo o mais gira em torno de Kroc. Acho que nem preciso dizer mais nada, não é mesmo?

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de John Schwartzman, muito coerente com a época e elemento importante para nos situar nos anos 1950; a ótima edição de Robert Frazen; a música bem pontual e bacana de Carter Burwell; o design de produção de Michael Corenblith; a decoração de set de Susan Benjamin; os figurinos de Daniel Orlandi; e o ótimo trabalho dos 34 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis desde a construção de cenários e até o design gráfico da produção.

O elenco é fantástico. Outro ponto fortíssimo do filme – eu diria que tão fundamental quanto o roteiro e a direção. Michael Keaton está soberbo. Ele convence em cada cena e humaniza a figura sem escrúpulos que vemos em cena. Apenas perto do final conseguimos ter “ódio” dele. 😉 Os atores Nick Offerman e John Carroll Lynch, que vivem os irmãos McDonald, também estão soberbos. Fazem um grande trabalho. O filme não seria o mesmo sem eles.

Além deste trio de atores soberbo, vale citar o elenco de coadjuvantes que também faz um grande trabalho: B.J. Novak se sai muito bem como Harry J. Sonneborn; Laura Dern está bem como Ethel Kroc, esposa do protagonista; Patrick Wilson como Rollie Smith, dono de restaurante que acaba virando um dos franqueados da rede; Linda Cardellini como Joan Smith, mulher de Rollie; Justin Randell Brooke como Fred Turner, funcionário de Kroc e que acaba se transformando em um dos seus sócios; Kate Kneeland como June Martino, secretária de Kroc; e Adam Rosenberg como o funcionário do McDonald’s original que rouba a cena quando atende Kroc. Há vários outros coadjuvantes, mas nenhum sem grande destaque para a narrativa.

No texto da Time que eu citei, eles falam sobre o livro que Kroc escreveu e sobre a matéria que a própria Time fez sobre ele. No texto, eles comentam que diferente do que o filme mostra, os irmãos McDonald’s já tinham algumas franquias antes de Kroc aparecer na vida deles. Ora, o filme fala sobre isso. Eles deixam claro que os McDonald’s já tinham franquias, mas que não queriam mais seguir com este modelo de negócios porque achavam complicado garantir a mesmo qualidade que eles queriam em franquias que não estivessem próximas. Kroc acaba os convencendo, mas o filme é bastante preciso nesta informação.

O diretor texano John Lee Hancock tem oito filmes em seu currículo. Antes, eu assisti dele The Blind Side (comentado aqui) e Saving Mr. Banks (com crítica neste link). Não tenho dúvida alguma ao afirmar que The Founder é o melhor filme do diretor até agora.

The Founder teria custado US$ 7 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 12,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase US$ 7,6 milhões. Ou seja, no acumulado, tem pouco mais de US$ 20 milhões. Já se pagou e está obtendo lucro. Ainda que pequeno, comparado com outros filmes. Como ele não tem uma propaganda massiva, certamente fará sucesso na propaganda boca a boca.

Até o momento The Founder ganhou um prêmio e foi indicado a outros três. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Ator para Michael Keaton no Capri – ele dividiu o prêmio com Andrew Garfield por seu trabalho Hacksaw Ridge (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 150 críticas positivas e 32 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são bons, mas para o meu gosto eles poderiam ser um pouco maiores. Talvez o pessoal que gosta do McDonald’s não gostou muito de saber a história por trás da marca. 😉

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso ela entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que mostra bem o “espírito americano”. Uma sociedade baseada no ideário do sucesso, da persistência que leva o homem ou a mulher até o êxito que, geralmente, significa dinheiro. The Founder nos conta a impressionante e pouco comentada história por trás da rede McDonald’s. Como as pessoas que realmente criaram a fórmula foram passadas para trás. Um grande filme sobre o pior lado do capitalismo e da ambição humana. Este é um “case” do gênero famoso, mas quantos mais do mesmo tipo não teremos por aí? Certamente muitos. E o que tudo o que o protagonista desta história lhe garantiu? Certamente não a vida eterna. Grande filme. Muito bem realizado e que nos faz pensar.

Captain Fantastic – Capitão Fantástico

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Uma história para dar bastante pano para manga. Na verdade, algumas teses poderiam ser escritas sobre Captain Fantastic. Mas eu vou me eximir desta tarefa e fazer apenas alguns comentários sobre o filme. Com um roteiro corajoso, que leva uma ideia até o extremo em alguns momentos ao mesmo tempo em que nos apresenta uma proposta bastante realista sobre um conceito, este filme é uma aula de cinema. Primeiro, pelo roteiro. Depois, pelo elenco escolhido a dedo e com ótimo desempenho e, finalmente, com algumas mensagens que a produção deixa no ar.

A HISTÓRIA: Uma imensa e linda floresta com belas árvores. Em meio à mata, vemos um cervo. Ele está tranquilo, perto de um riacho. O animal se alimenta de flores. Ele olha para um lado e vemos a uma pessoa camuflada. O cervo não se assusta. Bo (George MacKay) espera ele chegar perto e ataca. Ele corta a garganta do animal. Lentamente os irmãos dele chegam perto, e Ben (Viggo Mortensen) marca o filho mais velho com sangue e lhe dá uma parte do animal para comer. Esse foi o rito de passagem do garoto. Em seguida, a família tira a camuflagem no riacho e leva a caça para casa. Todos sabem o que fazer na sequência. A família vive em meio à floresta e tem o seu próprio modo de vida alternativo à civilização.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Captain Fantastic): Uma característica importante para assistir a este filme é desarmar-se. Deixar em segundo plano as suas opiniões, crenças e valores e acompanhar essa história e seus argumentos sem julgar. Ben e os seus filhos tem uma maneira de encarar a vida e a realidade muito diferente da maioria.

Alguns podem achar a história utópica, ou exagerada. Sem dúvida a forma de pensar de Ben e dos filhos é utópica. Eles acreditam em uma sociedade diferente da que os cerca e daquela que nos rodeia. Captain Fantastic também é um pouco exagerado, sem dúvida. O roteirista e diretor Matt Ross exagera em algumas cores para justamente comprovar os seus argumentos. Um recurso bem conhecido na literatura e nas artes e um tanto em “desuso” no cinema, que anda bastante padronizado.

Não vou mentir que alguns exageros da história me pareceram um tanto desnecessários. A forma com que Ben tenta tocar a vida de forma “normal” após a perda da esposa e mãe de seus filhos me pareceu um tanto exagerada. Certo que ele parecia estar um pouco em choque também e que era um grande defensor do estilo “sobrevivência”, mas me pareceu um pouco forçada a frieza dele tanto na hora de contar para os filhos sobre a morte da mãe deles quanto o episódio seguinte de treinamento na montanha.

Também achei um tanto infantil a sequência da “missão libertar comida”, que nada mais foi do que roubar alimentos de um supermercado. Ora, se a filosofia de Ben e da esposa era criar os filhos tendo como base a verdade acima de tudo, parece um tanto incoerente ensinar para eles a manipulação de um ataque cardíaco fictício para cometer um crime, não? (sem contar a sequência do cemitério, que por mais que fosse cheia de “boas intenções”, novamente se trata de um crime e de um grande desrespeito aos pais da mãe dos garotos). Mas ok, Ross exagera nas tintas para mostrar uma família anti-sistema, alternativa ao extremo.

Entendo as intenções do diretor e roteirista, mas só acho algumas cenas um tanto “pesadas” demais. Ver crianças, algumas inclusive pequenas, agindo em conjunto para cometer crimes não me caiu bem. Descontada esta parte, acho bacana a forma com que Captain Fantastic mostra uma realidade possível de uma família que resolve apostar em uma forma alternativa de viver a vida. A exemplo de Into the Wild (comentado aqui), sempre é bacana ver um filme que questiona a realidade de “piloto-automático” e consumismo em que vivemos.

Mas, ainda que pareça bonita a ideia de procurar uma sociedade alternativa, não acredito que alguém se realize sozinho ou de forma isolada. Então ok, Ben e a esposa Leslie (Trin Miller) tentaram preparar os filhos da melhor forma possível. Conseguiram ensinar para eles não apenas técnica de sobrevivência, de luta, o valor de conhecer a origem do que nos alimenta e a pensar por sua própria conta e de argumentar cada pensamento e teoria, mas não ensinaram para eles a importância de viver em um coletivo. Acredito que a gente só aprenda para valer no contato com o outro, com o estranho e o diferente, e não vivendo em uma bolha e na realidade que nos parece mais conveniente.

De forma crítica o filme mostra a realidade das cidades e o seu consumismo e padrão de vida sem reflexão. As pessoas se alimentam sem nenhum contato com a origem do alimento e estão mais conectadas com os eletrônicos do que com o raciocínio lógico, a argumentação e o conhecimento. Esse é um extremo que não serve. E o extremo da família de Ben, que vê o mundo apenas de uma forma e sem contato com o diferente, também não serve.

O bacana deste filme é que ele vai expondo os seus argumentos de forma linear e crescente, com algumas surpresas no caminho, e termina mostrando que os extremos não deveriam nos servir. Tanto que no final Ben cede um pouco ao estilo de vida que eles vinham levando e percebe a importância de não isolar os filhos na educação que ele acredita ser certa.

Eles precisam ser integrados à sociedade e é isso que acontece. Certamente eles estarão muito bem preparados para enfrentar a vida pensando por conta própria, mas agora mais abertos a aprender também com os outros. Porque não basta apostar em uma forma diferente de enxergar o mundo e ensinar literatura e música de qualidade para os seus filhos. Tão importante quanto é ensiná-los a respeitar os outros, especialmente quem pensa diferente. O equilíbrio sempre é a resposta.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro e a direção de Matt Ross são exemplares. Especialmente o roteiro, que é inteligente e que exagera algumas tintas de forma proposital. Mas, descontados os pontos que eu já tratei antes, achei o trabalho dele exemplar. Soube apresentar essa história com muita competência e, o mais importante, não apenas com ótimas linhas de roteiro, mas valorizando o trabalho de cada ator.

Aliás, o elenco é outro ponto forte da produção. Viggo Mortensen lidera o grupo por ser o intérprete mais experiente em cena na maior parte do tempo, mas todos estão ótimos. Mortensen mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Ator, mas acho que George MacKay merecia, também, uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. Ele realmente é um dos destaques desta produção.

Além deles, vale citar os outros atores que compõem a família e que se saem muito bem: Samantha Isler como Kielyr; Annalise Basso como Vespyr; Nicholas Hamilton como Rellian, o filho que se rebela contra o pai; Shree Crooks como a esperta Zaja; e Charlie Shotwell como Nai, uma fofa. A despedida da família de Leslie, bem perto do fim da produção, com as irmãs Kielyr e Vespyr soltando a voz, é um dos momentos mais especiais e bonitos do filme. Todos esses atores que interpretam os filhos de Ben e Leslie estão incríveis.

Completando o elenco, mas em papéis menores, estão Kathryn Hahn como Harper, irmã de Ben; Steve Zahn como Dave, marido de Harper; Elijah Stevenson como Justin, um dos filhos de Harper e Dave; Teddy Van Ee como Jackson, o outro filho do casal; Erin Moriarty como Claire, a primeira garota a beijar Bo; Missi Pyle em uma super ponta como Ellen, mãe de Claire; Frank Langella como Jack, pai de Leslie; e Ann Dowd como Abigail, mãe de Leslie.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Stéphane Fontaine; da trilha sonora bem pontual mas também bem bacana de Alex Somers; da edição cuidadosa de Joseph Krings; dos figurinos de Courtney Hoffman; do design de produção de Russell Barnes; da direção de arte de Erick Donaldson; e da decoração de set Tania Kupczak e Susan Magestro.

Captain Fantastic fez quase US$ 5,9 milhões nos Estados Unidos. É uma bilheteria baixa, mas não é um resultado ruim para um filme tão alternativo. Sem dúvida alguma este é um deste filmes que só vai ter público na propaganda boca-a-boca e, provavelmente, entre as pessoas com cabeça “mais aberta”. Afinal, esta não é uma produção simples. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez quase US$ 3 milhões.

Algo bacana neste filme é que os argumentos para defender a proposta de Ben e de Leslie estão certos, assim como os argumentos que criticam o que os dois fizeram. A reta final da produção demonstrou isso, e a saída equilibrada foi sem dúvida um dos grandes acertos de Matt Ross.

Captain Fantastic é o segundo longa-metragem dirigido por Matt Ross. Mais conhecido por seu trabalho como ator, Ross estreou na direção em 1997 com o curta The Language of Love. Depois, ele voltaria a dirigir um curta apenas em 2009, Human Resources. O primeiro longa viria três anos depois, 28 Hotel Rooms. Acho que ele tem um trabalho bastante promissor. Tem talento para escrever e um feeling importante na direção.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros 40, inclusive a indicação de Viggo Mortensen na categoria Melhor Ator do Oscar 2017. Sim, ainda estou na onda do Oscar. 😉 Mas já estou atenta ao que está nos cinemas e estreando nas próximas semanas para acompanhar o que de melhor teremos pela frente neste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 152 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Como este filme é 100% americano, ele entra na categoria de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Captain Fantastic, para mim, leva um pouco além a ideia de Into the Wild. Esta produção leva um pouco além a ideia de sociedade alternativa, mostrando de maneira bastante cruel, em alguns momentos, como é para uma família viver de forma totalmente independente. O bacana da produção é que, apesar dela exagerar em algumas tintas volta e meia, ela tenta ser franca com os conceitos e com a realidade e, no final das contas, busca o que é o ideal da vida: o equilíbrio. A saída é não ser totalmente alternativos, a ponto de viver isolado da sociedade, e nem seguir o pensamento mediano comum. Bem desenvolvido, é um filme que merece ser visto e discutido, certamente.