13th – A 13ª Emenda

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Algumas pessoas não querem saber de política. Mas são decisões políticas, muitas vezes, que pioram significativamente a sociedade em que vivemos. 13th é um documentário corajoso e que tem um objetivo muito claro: demonstrar como a exploração dos negros nos Estados Unidos não parou de acontecer com o fim da escravidão. Você pode até discordar de um ou outro argumento apresentado no filme, mas algo é certo: o sistema pode sim segregar e tornar os conflitos na sociedade cada vez piores ao transformar o nosso entorno em um ambiente cada vez mais injusto. Bem construído, com uma proposta interessante, 13th é um dos grandes filmes desta temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Começa com estatísticas e uma animação que mostra como os Estados Unidos, com uma população que equivale a 5% da população mundial, tem nada menos que 25% dos presos do mundo. O comentarista político Van Jones reflete sobre isso, como um a cada quatro cidadãos do mundo estão presos na “terra da liberdade”. Em 1972, o país tinha 300 mil presos e, atualmente, tem cerca de 2,3 milhões, ou seja, os EUA têm a taxa de encarceramento do mundo.

A advogada dos direitos civis Michelle Alexander pondera que, agora, muitas pessoas no país querem reduzir o sistema carcerário, porque ele estaria muito caro e grande, mas ela afirma que estas pessoas que defendem a redução do sistema carcerário não falam sobre como o Estado deveria remediar o dano que foi feito. De acordo com a 13ª Emenda da Constituição Americana, ninguém pode ser escravo no país. Ou seja, todos são livres. Uma exceção à regra é se a pessoa é criminosa. Esta produção defende que justamente o adendo neste artigo da Constituição abriu o flanco para uma série de desvios de políticas públicas que seguiram perseguindo os negros no país.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 13th): Você pode até discordar de algum argumento apresentado pelo filme de Ava DuVernay, mas algo não dá para negar: esta produção é muito bem construída, planejada e apresentada. Cada detalhe do filme é pensado com um propósito e ele atinge o seu propósito de provocar reflexão, debate e indignação – pelo menos na maioria das pessoas, aquelas que não tem, a priori, resistência a qualquer argumento que revele desigualdade no tratamento racial.

Sim, porque há pessoas que realmente negam o que acontece ao redor delas. Até dá para entender quando estas pessoas não vivem na realidade comum da maioria – há pessoas abastadas e que vivem em uma certa “redoma” de segurança, riqueza e miopia social. Para as demais pessoas, as que vivem batendo pé nas ruas, que conhecem a realidade como ela é, não chega realmente a ser uma surpresa saber mais sobre as chagas mal resolvidas até hoje do escravagismo norte-americano. Quer dizer, não é uma surpresa completa, mas nem por isso 13th não deixa de ser surpreendente.

De forma muito inteligente o roteiro da diretora Ava DuVernay e de Spencer Averick larga com dados impressionantes e com uma espécie de introdução dos argumentos de alguns dos mais interessantes entrevistados do filme. Como em qualquer série de TV que logo quer mostrar as suas credenciais, este filme produzido para a Netflix também apresenta nos primeiros minutos a linha dorsal de seu argumento e do seu questionamento. Logo entendemos a razão do título 13th.

Após uma introdução instigante, acompanhada de uma trilha sonora que, logo no início, vai se mostrando marcante, Ava DuVernay vai nos mostrando com diferentes recursos de que forma a imagem do negro foi construída e apresentada nos Estados Unidos. Ela retorna para as primeiras representações gráficas e as primeiras histórias que mostravam o negro como um estuprador e criminoso, quase “uma besta” que não se controlava e que queria atacar sempre os brancos, especialmente as mulheres, até chegar a um “clássico” nesta representação que foi o infame The Birth of a Nation, que no ano passado completou 100 anos e que marcou negativamente a trajetória do diretor D.W. Griffith.

Utilizando muito bem recursos gráficos, fotografias e vídeos e filmes antigos, Ava DuVernay vai narrando não apenas a representação dos negros/afro-americanos nas artes e no imaginário da população, mas também o que aconteceu com eles depois que a escravidão foi abolida. Como disse um entrevistado logo no início do filme, somos “produto de uma série de escolhas” ou de “não-escolhas” que nossos antepassados fizeram.

Por isso que eu sempre digo que é muito importante cada um de nós conhecer a nossa própria história, enquanto nação e enquanto civilização, até para sabermos como chegamos aqui e de que forma a sociedade ao nosso redor está constituída. Não dá para ignorar o passado, porque ele continua influenciando ou até mesmo ditando a nossa realidade no presente.

Ainda que a gente saiba um pouco sobre o que aconteceu nos Estados Unidos desde a abolição da escravatura, sem dúvida alguma 13th nos apresenta vários fatos novos. E com uma visão bem clara e crítica sobre como tudo aconteceu – com a vantagem do filme ser feito agora, com os direitos humanos muito mais desenvolvido do que há 10 ou 20 anos. De forma bem argumentativa e convincente, os roteiristas vão nos apresentando os fatos históricos intercalados pela análise crítica dos entrevistados e com uma boa escolha de trilha sonora que trata sobre o preconceito e o tratamento diferenciado que os negros tem nos Estados Unidos sob o critério do governo e da lei.

Algo que perpassa o filme do início ao fim é o interesse econômico que sempre evolveu a exploração dos afro-americanos nos Estados Unidos. A escravidão era um “grande negócio” e, depois que ela se tornou insustentável do ponto de vista humanitário e do bom senso, as classes dominantes do país arranjaram um outro jeito de “lucrar” com os ex-escravos. Utilizando a exceção prevista na 13ª Emenda da Constituição, passaram a prender os negros por quase qualquer motivo – incluindo “vagabundagem”, ou seja, alguém estar caminhando na rua sem estar “fazendo nada” – para então utilizar a mão de obra deles como presidiários para obras de infraestrutura no país.

Quando a população de ex-escravos e seus descendentes se espalhou pelo país, inclusive ocupando subúrbios de grandes cidades, a prisão teve que ser disseminada para estes centros urbanos também. Pouco a pouco as polícias começaram a fazer este trabalho, muitas vezes prendendo afro-americanos por praticamente razão alguma. Em paralelo, veio a segregação racial, a lei que literalmente dizia qual era o espaço dos brancos e qual era o espaço dos negros.

A resposta para isso foi a resistência de uma parte importante dos afro-americanos com, especialmente no final dos anos 1960, nomes como Martin Luther King, os Panteras Negras e tantos outros defendendo uma resistência a este absurdo da segregação legal após o fim da escravidão. Muitas pessoas, naquela época, foram consideradas “inimigos públicos” do país. Mas pouco a pouco mais gente se juntou a causa deles e os direitos humanos começaram a ganhar corpo no país.

Conforme este movimento, que pedia direitos iguais para todos, foi ganhando voz, a repressão teve que mudar o argumento. Sob a justificativa de combater a criminalidade crescente, as leis foram ficando cada vez mais severas mas, na prática, elas claramente seguiam perseguindo os afro-americanos e os latinos e deixando boa parte dos brancos de fora. Tanto isso é verdade que basta ver a proporção de negros e de brancos no sistema carcerário americano.

Mas isso não é tudo. Como bem mostra 13th e várias reportagens que mostraram recentes levantes populares nos Estados Unidos, um dos grandes problemas é quando policiais matam negros desarmados e sob argumentos suspeitos e questionáveis. A população afro-americana, juntamente com brancos, latinos e pessoas de outras origens que se revoltam contra injustiças, passou cada vez mais a se indignar com isso, com diferentes levantes e revoltas em momentos diferentes dos EUA desde os anos 1960 – e no ano passado e neste ano também.

Se a parte histórica de 13th pode não ser tão surpreendente para muitos, já que várias pessoas conhecem o que aconteceu no país em rápidas pinceladas e com os fatos principais desde o fim da escravidão, a parte em que o filme desvela os interesses econômicos por trás de tudo isso chama a atenção. Especialmente quando o filme trata da Alec (American Legislative Exchange Council) e das empresas que faziam parte da associação e que mexeram os pauzinhos para aprovar leis que fariam, no fim das contas, com que todos eles faturassem ainda mais dinheiro. Porque ninguém deve duvidar que o “combate ao crime” serve a alguns interesses bem específicos e enche os bolsos de várias pessoas.

Para mim, além de jogar os holofotes para estas questões, me chamou muito a atenção como 13th ajuda a explicar o impasse pelo qual os Estados Unidos está neste momento. Tanto Hilary Clinton quanto Donald Trump aparecem mais jovens com declarações absurdas contra afro-americanos e, mais que isso, ambos estão imersos em interesses econômicos que ganham muito dinheiro com o sistema carcerário inflado que o país tem atualmente, com 2,3 milhões de presos em 2014.

Mais que isso, todos sabemos, Donald Trump é uma figura muito ligada à indústria armamentista. Ele jamais vai concordar em uma saída mais humana para o problema, uma saída que esteja preocupada com as causas da violência e não apenas com a repressão que não resolve nada. Porque esta é a grande questão que 13th e outras obras levantam.

Se a sociedade tivesse na valorização da vida humana um elemento fundamental, estaríamos olhando para a desigualdade social, para a diferença de oportunidades e de condições adequadas para o desenvolvimento das pessoas e em formas de resolver isso mais do que em prender pessoas e, o que 13th mostra bem, segregá-las da sociedade para o resta da vida.

Um dos elementos fundamentais deste filme é mostrar não apenas a desigualdade de tratamento da polícia e da Justiça a respeito de brancos e negros, mas também como a minoria acaba sendo julgada. Esse é um dos fatos mais impressionantes que 13th nos apresenta. Diferente do que podemos imaginar no Brasil, onde as pessoas podem demorar para ser julgadas, mas costumam passar por um julgamento, nos Estados Unidos a maioria disparado é coagida a fazer um acordo com a promotoria e não ir para um julgamento. A alegação é que elas ficarão poucos anos presas se fizerem um acordo e, se não fizerem isso, serão condenadas por um período muito mais longo.

Além disso, diversos governos, inclusive e especialmente o do democrata Bill Clinton, foram endurecendo as leis que, no fim das contas, apenas aumentaram a discriminação e a segregação racial no país. Desta forma, ficou ainda mais claro para mim a razão pela qual muitas pessoas nos Estados Unidos estavam resistindo a votar em Hilary Clinton. Afinal, ela era “mais do mesmo” da política do marido dela. A alternativa para Hilary? Ainda pior. Ela se chamava Donald Trump.

Após assistir a 13th ficou ainda mais claro para mim que não é uma exclusividade do Brasil termos que votar no “menos pior”. Nestas últimas eleições os americanos tiveram que decidir entre o ruim e o péssimo. Complicado. No fim, além de apresentar argumentos muito convincentes sobre como um sistema pode funcionar não para promover a justiça e a igualdade, mas para garantir o oposto, incluindo governos, legisladores, sistema judicial e policial, 13th lança perguntas salutares sobre os passos seguintes que serão dados no país.

Como bem demonstra os roteiristas do filme e os seus entrevistados, quem está se forrando de dinheiro com o “combate” à criminalidade não vai perder o controle jamais. Conforme as pessoas vão resistindo e vão pedindo mudanças, estas corporações vão se adequando aos novos tempos e buscando novas formas de faturar muito dinheiro com a segregação racial e social.

Como a professora de Ciências Políticas da Universidade da Pensilvânia Marie Gottschalk argumenta em determinado momento do filme, o combate ao “inimigo” da sociedade pode estar migrando dos afro-americanos para os latinos e para os imigrantes de outras partes. Mas este combate vai seguir acontecendo porque ele traz lucro e “benefícios” para muita gente.

A grande questão é que deveríamos pensar em formas de incluir as pessoas e não excluí-las, maneiras de tornar as sociedades mais igualitárias de verdade e não fazer de conta que vivemos em países de oportunidades para todos. Não é assim nos Estados Unidos, 13th deixa claro, e não é assim no Brasil. Ou tomamos uma posição mais humanista e que exija mudanças para melhor a partir do sistema, incluindo leis mais adequadas e trabalhos da segurança pública da mesma forma, ou vamos cada vez mais ter conflitos sociais e problemas.

Chega de colocar o interesse econômico à frente dos direitos humanos. Esta talvez seja uma das grandes mensagens de 13th. Ainda que o filme, e de forma muito acertada, não termine com otimismo. Muito pelo contrário. Ele finaliza quase fazendo um alerta para o espectador de que o andar da carruagem está nos levando para um abismo. Documentário bem filmado, planejado e construído. Utiliza os recursos de forma adequada e tem uma direção de Ava DuVernay que explora ângulos diferentes dos entrevistados para tornar a estética da produção ainda mais interessante. 13th se destaca pelo conteúdo e também pelos detalhes, muito bem planejados e que funcionam bem para prender a atenção do espectador.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que não dei a nota 10 para este filme por muito pouco. Na verdade, apesar de ter achado a produção irretocável, eu só não dei a nota máxima porque achei que o filme não mexeu tanto comigo quanto poderia. Ou, em outras palavras, achei este filme marcante, elogiável, imperdível até, mas não o considerei inesquecível.

Eu não sou assinante da Netflix, mas admito que por produções como esta a empresa merece aplausos e ser cada vez mais disseminada. Produções independentes fazem falta e uma empresa como a Netflix pode consolidar-se cada vez mais por fazer apostas corajosas como esta. Neste sentido, desde já, estou um pouco na torcida para eles ganharem um Oscar, o que consagraria ainda mais a empresa e a sua proposta que foge do “mainstream” de Hollywood.

A exemplo do comentado aqui O.J.: Made in America, 13th estreou primeiro em um festival. No caso de 13th, foi no Festival de Cinema de Nova York, em setembro. Depois o filme estrearia no Festival de Cinema de Londres, no dia 6 de outubro, um dia antes dele ser lançado pela Netflix na internet. Ao ter sido lançado primeiro em festivais de cinema, 13th se credenciou para tentar uma vaga no Oscar 2017.

A exemplo de O.J.: Made in America, 13th também avançou da lista inicial de 145 filmes habilitados para concorrer na categoria Melhor Documentário do Oscar 2017 para figurar na lista de 15 filmes que seguem na disputa por uma das cinco vagas finais. Seria uma grande zebra se estes dois filmes não estiverem entre os cinco finalistas ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Agora, algumas curiosidades sobre 13th. O filme foi rodado na Estação West Oakland Amtrack, na cidade de Oakland, na Califórnia. Sem dúvida alguma uma locação interessante para as entrevistas.

Este é o 26º documentário produzido pela Netflix. Impressionante o que esta empresa já fez em termos de produções próprias. E, a cada ano, ela vem acumulando cada vez mais prêmios. O que mostra que boas ideias e serviços baseados na internet podem render dinheiro e, o mais importante, uma diversidade interessante de olhares sobre fatos importantes para as nossas sociedades.

Até o momento, 13th ganhou três prêmios e foi indicada a outros cinco. Os prêmios que o filme recebeu foram de Melhor Diretor TV/streaming para Ava DuVernay, Melhor Documentário TV/streaming e Melhor Documentário Policial no Critics Choise Documentary Awards. Vale lembrar que esta mesma premiação consagrou O.J.: Made in America. Possivelmente estas duas produções vão fazer a grande queda-de-braços no Oscar 2017. Veremos. Da minha parte, e falo mais sobre isso abaixo, gostei mais de 13th do que de O.J.: Made in America. Os dois filmes são importantes, mas achei 13th mais interessante, impactante e bem feito. Além disso, ele tem uma temática muito mais atual para os Estados Unidos e para o mundo do que o “sonho americano desfeito” de O.J. Simpson.

13th é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso o filme entra na lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog há muito tempo.

Quando coloquei a tag para a diretora Ava DuVernay eu percebi que esta não foi a primeira vez que escrevi um texto em que ela era citada. Olhando para a filmografia dela, que inclui 17 títulos entre curtas, filmes para a TV, documentários, séries para a TV e filmes para o cinema, percebi que eu já assisti a outra produção dirigida por ela: Selma (comentado por aqui).

Vale recordar que a produção, de 2014, acabou sendo indicada em duas categorias do Oscar 2015 e faturou a de Melhor Canção. Grande filme. como 13th, merece ser visto. Depois de 13th, Ava fez Battle of Versailles, um filme para a TV, e agora está filmando A Wrinkle in Time, uma aventura para os cinemas com Chris Pine e Reese Witherspoon, entre outros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto os críticos do Rotten Tomatoes dedicaram 55 críticas positivas e duas negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9. Ainda que as avaliações nos dois sites sejam boas e acima da média de ambos, elas estão abaixo das notas e da aprovação de O.J.: Made in America. Sem dúvida o filme sobre o astro do futebol americano parece ter um fascínio maior para o público americano do que esta produção que coloca o dedo na ferida sobre o racismo e sobre o sistema injusto dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme forte, objetivo e com uma argumentação poderosa. Questionar um dos pilares da sociedade americana não é para poucos, e 13th faz isso ao argumentar que o país é tudo, menos a “terra da liberdade”. Interessante a forma com que a produção destrincha os interesses econômicos e corporativos por trás da lucrativa “indústria” das prisões nos EUA. Indústria esta que, como no Brasil, sabe segregar muito bem negros de brancos e pessoas com ou sem dinheiro. Forte, bem construído e utilizando recursos interessantes como a música nos lugares certos, sem dúvida alguma é uma das boas pedidas de documentários deste ano. Merece ser visto e ser debatido, inclusive para repensarmos o que estamos fazendo no Brasil e em outras partes em termos de “segurança pública”.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Eu realmente espero que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tenha coragem de colocar 13th como um de seus finalistas na categoria Melhor Documentário. O filme tem qualidades para chegar lá, não há dúvidas. Mas todos nós sabemos que Hollywood também é uma “instituição” política, de formação de opiniões e que manda mensagens muito claras não apenas para a sociedade americana, mas mundial. Assim sendo, terá que ter coragem para dar visibilidade para um filme que questiona muitos interesses nos Estados Unidos.

Depois de ter sido muito questionada em 2016 por não ter indicado a grandes atores negros para a premiação máxima do cinema de Hollywood, o que todos esperam é que as mudanças provocadas após a gritaria geral tenham efeitos no Oscar 2017. Uma forma de demonstrar isso seria indicando 13th entre os cinco melhores documentários do ano. Veremos. Da minha parte, ainda preciso assistir a outros concorrentes que estão na lista dos 15 pré-selecionados nesta categoria, mas o que já posso comentar é que gostei muito mais deste 13th do que de O.J.: Made in America, outro dos favoritos.

Ainda que seja bem feito e que agregue algumas informações em relação ao que já sabíamos sobre O.J. Simpson, O.J.: Made in America não tem o impacto que este 13th tem. Além disso, o filme de Ava DuVernay tem algumas “sacadas” mais interessantes e foge um pouco do óbvio, especialmente ao intercalar músicas de rap no meio da narrativa. Achei também o argumento do filme mais contundente e menos disperso do que o filme de O.J. Simpson.

Ainda preciso assistir aos demais para dizer se 13th é o melhor do gênero no ano, mas desde já posso dizer que estou torcendo por ele em um confronto direto com O.J.: Made in America. Também é possível afirmar, desde já, que seria muito bacana para a Academia não apenas colocar 13th como um de seus filmes indicados como Melhor Documentário, mas também dar uma estatueta dourada para ele. Quem sabe, assim, o filme teria um apelo mais forte no país – apesar de Donald Trump ter vencido como presidente nas últimas eleições? Seria importante para a sociedade americana debater francamente o tema da criminalidade e do sistema penitenciário do país. O Oscar pode dar uma forcinha neste sentido.

O.J.: Made in America

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Há muitas formas de uma pessoa se perder. Uma história muito conhecida de alguém que “tinha tudo” e que perdeu tudo é o foco do longo documentário O.J.: Made in America. Esta é a história não apenas do esportista que era um fenômeno em seu país e que virou assunto mundial ao ser julgado por um crime brutal, mas também é a história de problemas não resolvidos nos Estados Unidos até hoje. A questão racial naquele país entra ano e sai ano e parece ter sempre avanços e retrocessos. Esta produção trata disso e de muito mais.

A HISTÓRIA: Começa mostrando uma estrada e uma paisagem deserta com a voz de O.J. Simpson dizendo que desde sempre ele quis fama mais que dinheiro. Na sequência, surge um presídio. Imagens de arquivo mostram uma audiência da Justiça com O.J. Simpson quando ele já estava há cinco anos em Lovelock. Perguntam para ele como ele se saiu nestes cinco anos, e ele conta como começou a trabalhar como faxineiro e que, pouco tempo depois, ele já estava trabalhando na academia. Em seguida, perguntam para ele se ele tinha 46 anos quando foi preso pela primeira vez, em 1994. O.J. se irrita e pergunta se eles vão falar “daquele caso”. Em seguida, ele confirma a informação. Corta. A partir deste momento, o filme conta a trajetória de O.J. Simpson desde que ele começou a se destacar no esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já tenha assistido a O.J.: Made in America): A história de Orenthal James Simpson sempre será uma grande história. Até assistir a este documentário, eu nunca tinha entendido bem a dimensão que esta figura tinha nos Estados Unidos. Mas o documentário dirigido por Ezra Edelman ajuda a dimensionar exatamente quem foi O.J. Simpson para o público americano.

Os Estados Unidos não tem apenas um esporte nacional. Lá é muito forte o futebol americano, o beisebol e o basquete. Diferente do Brasil, onde até segunda ordem o “esporte nacional” é o futebol. Ainda que nos EUA outros esportes dividam a atenção e a paixão do grande público, provavelmente o futebol americano é o esporte mais democrático do país. O.J. Simpson foi um fenômeno neste esporte.

A comparação pode parecer absurda e ridícula, mas o que aconteceu com ele pode ser “entendido” pelo brasileiro que tem hoje os seus 60 anos ou mais como se o Pelé, ainda no auge da carreira, resolvesse parar de jogar futebol e fizesse uma trajetória bem-sucedida como “celebridade” do cinema e dos comerciais, faturando rios de dinheiro e, depois, de forma “misteriosa”, fosse acusado de assassinato. A comparação é exagerada, claro, até porque o contexto social de racismo escancarado e disputas envolvendo a questão racial nos EUA não é o mesmo que o contexto brasileiro.

Essas reminiscências foram apenas para deixar ainda mais claro que fica difícil para o público que não seja o dos EUA entender realmente o que significou a figura de O.J. Simpson. Não apenas para o público do Brasil é difícil de dimensionar uma figura que era tão conhecida e controversa como, imagino, ocorra o mesmo em outros países. Mas O.J.: Made in America ajuda a explicar isso.

Como comentei lá no início, ainda lembro do “burburinho” criado pelo “julgamento do século” envolvendo O.J. Simpson. Ainda tenho na memória toda a expectativa criada após o crime, as artimanhas de Simpson para fugir da polícia – incluindo a absurda perseguição por ruas de Los Angeles filmada por helicópteros das TVs – e o derradeiro julgamento que todos acharam injusto. Ou quase todos, ao menos.

Neste ano, até porque a série ganhou diversos prêmios, eu já tinha assistido a The People x O.J. Simpson: American Crime Story. A série tinha me chamado a atenção não apenas pelos prêmios que recebeu, mas também pelo elenco estelar envolvido na produção. Então a história de Simpson já tinha voltado à minha memória por causa da série da FX antes mesmo do documentário começar a ganhar evidência e ser apontado por muitos como um dos favoritos ao Oscar 2017.

Dividido em cinco partes, O.J.: Made in America faz um grande trabalho de resgate histórico. No início, além de dimensionar quem foi O.J. Simpson ao mostrar a sua carreira no esporte, o filme também conta, em paralelo, o que estava acontecendo na cidade natal dele e onde ele fez a sua trajetória, Los Angeles, em relação aos conflitos raciais. Todo este contexto social e pano de fundo da história de Simpson acaba sendo determinante para a vida dele e, principalmente, para o que acontece com ele e com outras figuras desta história.

De forma muito inteligente e detalhista, o diretor amarra todos os fios desta história utilizando sempre a lógica de imagens de arquivo e trechos de entrevistas com diversas pessoas que foram testemunhas oculares do que aconteceu em Los Angeles. Tão importante quanto saber a origem pobre e humilde de Simpson e a sua trajetória espetacular no esporte é entender a forma com que os afro-americanos (ou negros, como é citado em vários momentos do filme) eram tratados na cidade.

Ao ver as cenas da trajetória de Simpson no futebol americano – algo que eu não tinha assistido até então -, fica claro que ele era um sujeito muito inteligente. Conforme ele foi ganhando projeção e sendo “paparicado” pelos torcedores e pela mídia, ele foi se tornando cada vez “malandro” e soube aproveitar as oportunidades que foram aparecendo pela frente. Em paralelo, outros atletas negros tiveram posição de resistência, iniciando pelos Panteras Negras e seguindo com figuras conhecidas mundialmente como o pugilista Muhammad Ali.

Interessante, aliás, que Muhammad Ali era mais conhecido globalmente do que o próprio O.J. Simpson. Mas, dentro dos Estados Unidos, sem dúvida alguma o segundo parece ter tido uma admiração maior que o primeiro. Isso pode ser explicado pela popularidade diferente entre os esportes e também pela forma “manipuladora” e sempre preocupada com a mídia que Simpson tinha e que Ali não tinha.

Não foi apenas Simpson quem explorou a mídia muito bem a seu proveito, mas possivelmente ele foi um dos primeiros a fazer isso de forma tão precisa e profissional. Nada do que ele fazia não era planejado para que os seus atos lhe trouxessem algum benefício. “Malandro”, ele sabia muito bem o que dizer e como se portar para conseguir o que ele queria. Em todos os sentidos.

Costurando sempre cenas da época e depoimentos de pessoas que vivenciaram aquela história, Edelman vai narrando a trajetória de Simpson e o contexto social dos EUA desde os anos 1960. Por isso, também, este é um filme que conta um bocado do que aconteceu no país em um momento de efervescência cultural e social importante. Diversos personagens históricos aparecem para o espectador, desde o senador Robert F. Kennedy até o pastor e ativista Martin Luther King Jr.

Depoimentos de pessoas fascinadas pela USC (Universidade do Sul da Califórnia), onde Simpson estourou em 1968, ano marcante na história dos EUA e do mundo, ajudam a mostrar como parte da sociedade americana era “cega” para assuntos mais sérios e fascinada apenas pelo esporte que fez a fama de Simpson. Ele, por sua vez, por ter feito a carreira em uma faculdade de brancos, fazia questão de “transcender” a raça.

Ambicioso, ele queria ser um cara de sucesso, ser reconhecido por todos e não ter a “raça” como um empecilho. Neste sentido, O.J.: Made in America demonstra, com diferentes depoimentos de pessoas que eram próximas de Simpson, como ele gostava do fato de não ser “visto como negro”. Ele fazia questão de ser visto como um sujeito bem-sucedido, acima de tudo. Como falou no início da carreira, quando ainda era uma promessa do futebol americano no colégio e não tinha estourado na liga universitária ou como profissional, ele queria ser famoso acima de tudo.

Ele conseguiu a fama e também muito dinheiro. Soube explorar muito bem a sua imagem e até foi favorecido com a questão racial ao adotar a figura do “negro bom”. De forma corajosa Edelman mostra isso. Que muitas empresas, a polícia e a mídia gostaram da ideia de ter um negro “do bem”, alguém que, diferente de outros atletas e personalidades da época, não criavam “polêmica” ou “problemas” por causa da questão racial. Ele foi “usado” mas também soube usar muito bem esta estrutura de dinheiro que queria “vender” um bom exemplo da comunidade negra.

Todo este contexto da época é bem contado pelo documentário. E talvez seja a parte mais interessante do filme. Outra parte acertada da narrativa é aquela que mostra como o ego de Simpson foi crescendo até ele se tornar quase incontrolável. A parte pública dele é muito bem explorada pelo diretor, mas a parte pessoal deixa um pouco a desejar. Principalmente porque o documentário não trata muito sobre a primeira esposa de Simpson ou revela muito da intimidade do casal ou dele com Nicole Brown.

Alguns amigos próximos dele e de Nicole contam um pouco sobre os “bastidores” da relação deles, mas acho que faltou explorar um pouco mais como era a relação da família dela com ele ou escutar outros amigos do casal. Uma parte interessante e diferenciada desta produção é o diário de Nicole, com várias informações importantes para traçar um lado pouco conhecido da personalidade de Simpson e até a linha temporal da relação deles quando ela começa a degringolar.

Bem construído, com uma ótima edição, trilha sonora, resgate histórico e depoimentos, O.J.: Made in America prende a atenção do espectador. Não é difícil querer assistir aos cinco episódios de forma quase seguida. Envolvente, o filme é atrativo especialmente por causa do contexto amplo que ele apresenta. A parte da acusação, da perseguição e do julgamento de O.J. Simpson é interessante, mas ao mesmo tempo é um pouco de “mais do mesmo”, ou seja, de relembrar o que praticamente todos já conhecem.

A parte mais interessante do resgate desta parte da história é revelar a essência da relação entre Simpson e Nicole. Com diferentes depoimentos o diretor sustenta o argumento que Simpson, sentindo-se tão poderoso, não aceitava a “rebelião” de Nicole. Mulherengo, aparentemente machista, ele não aceitava que a mulher que ele queria sob os seus pés decidisse por outro caminho. Como ela não ficou submissa e nem cedeu às chantagens dele, Simpson teria se descontrolado e acabado com a vida dela e de Ronald Goldman que, e isso é um ponto fraco do filme, ninguém sabe exatamente que relação tinha com Nicole.

Eu não teria me importado em assistir a um sexto episódio e ter mais detalhes da história. Acho que falta para O.J.: Made in America não apenas explicar melhor a relação de Nicole e Goldman mas, também, revelar um pouco melhor o que acontece com Simpson depois que ele é absolvido e, principalmente, o que aconteceu com alguns dos personagens principais desta história nos últimos anos.

Essa é a parte, na verdade, que me incomodou mais. Afinal, como está hoje Simpson na cadeia? Não seria possível entrevistar pessoas que convivem e/ou mantêm relação com ele até hoje e contar sobre como é a vida dele após a condenação por roubo, sequestro e toda aquela trapalhada no quarto do hotel? Eu também gostaria de saber mais sobre o paradeiro dos filhos dele com Nicole, dos seus familiares e das pessoas envolvidas no “julgamento do século”. Acho que o filme deixa a desejar neste sentido e é por isso que eu dou a nota a seguir para ele.

Apesar deste “porém”, O.J.: Made in America é um belo filme que ajuda a contar não apenas a história de um sujeito que quis ter tudo, conquistou o que ele queria e soube perder tudo, como também é um interessante retrato de uma época e de uma sociedade. Faz pensar sobre como as massas são fascinadas por histórias de sucesso e se iludem com elas sem parar para pensar que as pessoas são humanas, cheias de qualidades e de defeitos e que por mais talentoso que alguém seja, ele não é um deus. Ele não está acima das outras pessoas. O poder da fama, do dinheiro, da manipulação e da cobiça está todo escancarado nesta produção. Que ela sirva de lição para muita gente.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Ezra Edelman fez o seu nome com O.J.: Made in America. Até dirigir a este documentário, ele tinha apenas outros três títulos como diretor. Edelman estreou na direção de um filme em 2010 com o documentário para a TV Magic & Bird: A Coutship of Rivals. Depois, ele dirigiu um episódio para cada uma destas séries de TV: 30 for 30, em 2014, e 30 for 30: Soccer Stories, do mesmo ano. Agora ele apresenta O.J.: Made in America. Como produtor, ele tem 10 títulos no currículo, quase todos relacionados com o mundo dos esportes.

O estilo de Edelman é “clássico”. Ele não tem nenhuma grande sacada na direção. Pelo contrário. A narrativa é praticamente toda linear e segue aquela lógica já citada anteriormente de mesclar diferentes cenas históricas – incluindo imagens de TV, vídeo, fotografias, peças publicitárias e etc. – com depoimentos de pessoas que foram entrevistadas para a produção. Como O.J. Simpson era uma celebridade, e foi assim desde os anos 1960, não faltou material para Edelman e sua equipe trabalhar.

Tão importante quanto a direção de Edelman são outros aspectos técnicos que ajuda O.J.: Made in America a ter ritmo. Fundamental o excelente trabalho do trio de editores Bret Granato, Maya Mumma e Ben Sozanski. Muito importante também a ótima trilha sonora de Gary Lionelli, um trabalho importante para ajudar a situar o público na época dos fatos que estão sendo narrados.

Complementando o time de profissionais que ajudaram este filme a ter uma boa qualidade técnica está o diretor de fotografia Nick Higgins. Ele garante, em especial, o padrão das entrevistas que dão corpo para a produção. Falando nas entrevistas, achei especialmente interessantes os depoimentos de duas das juradas que ajudaram a absolver Simpson da acusação de assassinato. Os depoimentos delas são muito reveladores, assim como de alguns amigos de Simpson.

Antes comentei sobre a série American Crime Story. Pois bem, comparando os dois, sem dúvida alguma O.J.: Made in America é melhor. Mas vale assistir a série cheia de estrelas por curiosidade. Ainda que, ao comparar as duas produções, fica ainda mais claro o exagero de algumas interpretações da série ficcional – especialmente do ator Cuba Gooding Jr. Isso demonstra como, muitas vezes, uma série que fascina o grande público americano pelo seu tema ganha mais destaque por isso do que por suas qualidades. Não tenho dúvidas de que há séries muito melhores no mercado.

O.J.: Made in America estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2016. Depois, o filme participou de apenas um outro festival, agora em novembro, o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã. Em sua trajetória até agora, o filme colecionou 10 prêmios e outras 10 indicações. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os quatro entregues no Critics Choice Documentary Awards: Melhor Diretor, Melhor Documentário, Melhor Série Limitada de Documentário e Melhor Documentário de Esporte. A produção ganhou ainda como Melhor Documentário no Gotham Awards; Melhor Edição no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles (merecido); Melhor Documentário segundo o National Board of Review; Melhor Filme de Não-Ficção no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; e Melhor Filme no Festival de Cinema de Filadélfia.

Esta produção estreou no Festival de Cinema de Sundance e passou por alguns festivais e cinemas antes de ser lançada pela ESPN em cinco partes. Por isso, apesar de ter sido veiculado na TV, o filme foi originalmente lançado nos cinemas e pode, desta forma, concorrer na categoria Melhor Documentário do Oscar 2017. Se ele vencer e ganhar a estatueta, será o primeiro filme feito por um canal de TV a conseguir isso.

Falando no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, O.J.: Made in America já venceu a primeira etapa para chegar até a conquista de uma estatueta dourada. Inicialmente a Academia divulgou a lista de 145 documentários que estavam “habilitados” a concorrer ao Oscar. Nesta semana, contudo, como tem feito nos últimos anos, a Academia divulgou a lista dos filmes que avançaram na disputa. Entre as 15 produções que seguem buscando uma vaga entre os indicados ao Oscar está O.J.: Made in America. Pelos prêmios que eu citei antes e pelas bolsas de apostas de especialistas é quase certo que ele chegará entre os cinco finalistas.

Outros documentários foram feitos sobre O.J. Simpson. Admito que este foi o primeiro que eu assisti a respeito da história dele. Minha motivação, claro, foi por ele ser um foto candidato ao Oscar. Não sei se outros documentários feitos anteriormente jogam outras luzes na história. Mas, sem dúvida, este filme é importante por retratar parte dos conflitos raciais nos EUA de forma muito franca. Diferente do que muitas pessoas normalmente imaginam, que a questão do preconceito está ligado aos Estados mais “conservadores” dos EUA, ao Sul do país, fica claro com O.J.: Made in America que cidades “bem vendidas” como modernas e inclusivas como Los Angeles também tem problemas sérios neste sentido. Importante, até porque estas questões continuam bem vivas e pulsantes naquele país. Infelizmente.

O.J.: Made in America caiu no gosto do público e da crítica. O filme tem uma nota impressionante nos dois sites que uso como referência e os quais eu cito sempre aqui no blog. No site IMDb o filme aparece com a nota 9 e no Rotten Tomatoes, que agrega a opinião de diversos críticos, ele tem a impressionante e um tanto rara aprovação de 100% da crítica – 41 pessoas consideraram o filme bom e ninguém fez uma crítica negativa para ele. A nota média dos críticos é de 9,2.

Conceitos muito altos para os padrões dos dois sites. Da minha parte, eu tinha dado a minha nota antes de ver estes sites… para quem acompanha o blog, já sabe que a nota 9 é boa, mas que está longe da perfeição do 10. Ou seja, gostei do filme, mas não achei ele “tudo aquilo”.

Matei a minha curiosidade sobre como está O.J. Simpson atualmente nesta matéria do jornal L.A. Times. Além de resgatar um pouco da história de Simpson e de falar um pouco sobre o cotidiano dele atrás das grades, a reportagem comenta sobre outra produção a respeito do ex-atleta que será lançada em 2017 (Hard Evidence: O.J. Is Innocent), com outra perspectiva, e sobre a possibilidade dele sair em liberdade condicional em outubro de 2017 após ter cumprido os primeiros nove anos de sua pena.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de críticas que atende a uma votação feita há tempos atrás aqui no blog.

CONCLUSÃO: Este filme ajuda qualquer pessoa que não nasceu nos Estados Unidos a realmente dimensionar e entender o apelo que O.J. Simpson tinha/tem naquele país. Lembro bem do “julgamento do século”, mas até assistir a este documentário eu não tinha entendido de forma mais completa quem era aquele cidadão que fez boa parte do mundo – e especialmente os EUA – parar para ver um julgamento.

Bastante amplo, este documentário acerta ao contar a trajetória de Simpson e o contexto racial que explica boa parte dos fatos que aconteceram com ele, mas peca na reta final ao não contextualizar o que aconteceu com as pessoas após os fatos principais serem narrados. É um bom filme, bem costurado, mas poderia ter caprichado melhor no final. E apesar de entregar quase tudo que se espera de um documentário sobre este tema, ele não chega a ser realmente marcante. Em outras palavras, há documentários que concorreram ou ganharam um Oscar nos últimos anos que perduram mais tempo na nossa memória.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: É quase certo que O.J.: Made in America seja um dos cinco finalistas da categoria Melhor Documentário. Apenas uma zebra deixaria esta produção da ESPN fora da disputa pela estatueta dourada. Digo isso com base em alguns fatores que precedem a divulgação dos filmes finalistas da disputa.

Para começar, O.J.: Made in America aparece nas principais bolsas de apostas pré-Oscar como um dos favoritos da disputa. Depois, ele foi o documentário mais premiado, junto com o filme 13th, no recente Critics Choice Documentary Awards. A terceira razão que faz qualquer um apostar em O.J. Simpson: Made in America para figurar entre os cinco finalistas é que ele já venceu a primeira barreira, avançando na pré-lista de finalistas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com outros 14 filmes – normalmente a Academia divulga em dezembro algumas listas preliminares.

Além destas questões que mostram que o filme tem força para chegar até o Oscar 2017, vale dizer que este documentário foi um dos mais comentados do ano entre produções do gênero. E não é difícil identificar a razão para isso. Até hoje a figura de O.J. Simpson fascina os americanos – que, no final das contas, é o público principal para o qual o Oscar se direciona. Mesmo provavelmente não sendo o melhor documentário do ano, este filme cai como uma luva (sem fazer piada sobre isso) no gosto do público americano. Ele também acaba sendo importante por retratar a história dos conflitos raciais em centros urbanos como Los Angeles – revelando que não é apenas uma coisa do “interior” dos EUA.

Enfim, certamente O.J.: Made in America será um dos cinco finalistas na categoria Melhor Documentário do Oscar 2017. Agora, ele terá forças para ganhar uma estatueta? Por tudo que já comentei, até acredito que sim. Resta saber se ele é o melhor documentário da temporada. Desconfio que não, mas isso eu vou dizer com mais propriedade após assistir aos outros indicados/pré-finalistas deste ano.

Arrival – A Chegada

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Este filme é recomendado para quem gosta de ficção científica, de ciência pura e dura e de comunicação. Se você não está neste grupo, pense bem antes de assistir a Arrival. Digo isso porque, me perdoem a expressão, mas esse filme é cabecice pura. Sim senhor, sim senhora. Arrival leva várias questões dos fãs de ficção científica para outro patamar. Por mais que desconfiemos de algo aqui e ali, é só no final mesmo que o filme faz todo o sentido. E é aí que você percebe a genialidade da história. Mais um grande filme do Sr. Dennis Villeneuve.

A HISTÓRIA: Da sala de uma casa vemos a uma linda paisagem. Louise Banks (Amy Adams) está admirando a filha, ainda bebê. Na sequência, ela aparece sentada e pede para a filha voltar para ela. Depois, Louise aparece brincando com Hannah (Abigail Pniowsky) maiorzinha. A menina corre, sorri, mas depois Louise aparece chorando no hospital e se despedindo da filha. “Volte para mim”, Louise diz novamente.

Após comentar que não sabe exatamente onde está o começo ou o fim, Louise afirma que existem dias que “definem a sua história além da sua vida”. Então ela recorda do dia em que “eles” chegaram. Ela percebe a sala bastante vazia, na universidade, e então fica sabendo que naves estacionaram em 12 locais do mundo. Assim começa a história do envolvimento de Louise com a chegada de seres de fora do Planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção Arrival): Este é um filme em que não dá para dormir no ponto. Como é preciso ter atenção em cada detalhe, também não é recomendado assistir a Arrival cansado. Outros filmes já trataram de extraterrestres e da forma com que a Humanidade lidou com ele em uma possível “invasão” ao nosso Planeta. Mas Arrival leva o tema para um outro patamar.

Na verdade, por incrível que possa parecer, este filme segue a linha do diretor Denis Villeneuve em desbravar alguns dos principais dilemas individuais e coletivos das sociedades. Temos dilemas morais aqui, como em outros filmes dele, e mais que uma produção sobre extraterrestres, esta é uma produção sobre pessoas, seres humanos. Essa é uma das questões brilhantes do filme, mas ela não é a única.

Voltemos um pouquinho. Para começar, mais uma vez, Villeneuve trabalha bem com a questão temporal da história. A exemplo do que vimos antes em Prisoners (comentado aqui) e em Enemy (com crítica neste link), em Arrival, novamente, não temos certeza sobre a ordem dos fatos. Afinal, em que momento os acontecimentos que abrem esta produção estão situados?

A impressão que o roteiro de Eric Heisserer, baseado na história “Story of Your Life” de Ted Chiang, nos dá é que aquele começo são lembranças da protagonista sobre o que aconteceu com a filha dela. Só muito mais para a frente é que vamos saber exatamente do que se trata. Villeneuve a cada filme mostra o seu talento para a narrativa. Depois daquela introdução das memórias de Louise, mergulhamos na ação propriamente dita. A protagonista acompanha as notícias pela TV, como a maioria da população do mundo, mas por ser uma reconhecida especialista em linguística, ela acaba sendo chamada pelo Exército americano, mais especificamente pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para ajudar.

Como já foi mostrado em outros filmes, sendo o clássico Close Encounters of the Third Kind talvez o exemplo mais conhecido, a comunicação é um elemento-chave em um encontro de humanos com seres extraterrestres. De forma magistral e irretocável Villeneuve vai construindo a expectativa e a tensão até que pessoas comuns como Louise e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) se encontrem com os seres extraterrestres. A escolha é a acertada e funciona muito bem porque cria, desde o início, a empatia no público. Teria sido muito diferente mostrar “uma palhinha” de um encontro de um grupo de militares, por exemplo, como ocorreu no primeiro contato.

A primeira cena impactante é quando o público vê a nave. Impossível para mim, naquele momento, não lembrar do final de outro clássico, 2001: A Space Odyssey. Aliás, lembrei muito destes dois clássicos enquanto assistia a Arrival. E isso só fez ficar mais claro, para mim, como o filme de Villeneuve leva produções deste gênero para outro patamar. Diferente de outros filmes que apostam no confronto e na guerra entre humanos e extraterrestres, estas outras produções tem em comum um olhar muito mais cuidadoso, atento, e que observa, sobretudo, o nosso comportamento em relação ao diferente e ao estranho do que realmente os efeitos destes contatos.

De forma inteligente, o roteirista e o diretor de Arrival constroem a narrativa em um crescente. A primeira tensão é o encontro inicial dos protagonistas com os seres que eles deverão “desvendar”. Depois entra a parte superinteressante e lógica do trabalho linguístico de Louise. Enquanto os militares tem pressa para uma resposta, achando que ela virá simples em um entendimento sobre sons que eles nem sabem se tem algum significado, Louise mostra que é preciso sair do “modelo mental” humano e buscar conhecer a forma com que os seres de fora da Terra pensam.

Esta é a grande sacada do filme, a meu ver. E a grande explicação para o que a história nos revela está em um diálogo entre Louise e Ian. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em determinado momento, quando todos trabalham para compreender a linguagem dos extraterrestres mas ainda não chegaram a parte alguma, Ian pergunta para Louise se ela já está sonhando no idioma deles. E daí ele observa que quando uma pessoa realmente mergulha em um outro idioma, ela passa a pensar de outra forma, a ter a compreensão do mundo modificada e, consequentemente, começa a “sonhar” naquele idioma.

Aí está a grande resposta para o enigma de Arrival. Até então eu ficava me pergunta qual era a razão de, volta e meia, Louise ficar lembrando de momentos com a filha. A primeira resposta, e a mais óbvia, é que fatos do presente estavam fazendo ela relembrar de momentos com Hannah. Essa é a forma linear de pensar, acreditando que a vida tem começo, meio e fim e que, consequentemente, nossa memória também funciona assim. Só que Louise descobre depois de investigar a linguagem dos extraterrestres que eles não tinham uma forma de comunicação linear.

A “viagem” do argumento de Arrival é que se eles não tinham uma linguagem linear, eles também não pensavam ou viam a realidade de forma linear. Desta forma, de fato não existiria passado, presente e futuro, mas todo o conhecimento de alguém que tivesse essa forma de comunicação e, consequentemente, este mapa mental seria também não-linear. Ou seja, atemporal. A genialidade de Arrival ao ter este argumento é que conforme a especialista em linguística Louise ia realmente entendendo a forma de comunicação não-linear, ela própria passava a ver o mundo desta maneira. Assim, ela passou a vivenciar o futuro com a filha que nem havia nascido. Genial, não?

Enquanto todos os outros estavam com pensamento linear, Louise começou a enxergar a realidade de forma não-linear. Mas a compreensão dela, assim como a de qualquer um de nós que se aventura em um novo idioma e em uma nova forma de pensar, vai acontecendo aos poucos e de forma gradativa. Só perto do sinal que ela tem tudo claro. Por isso aquela sequência aparentemente maluca dela com o general Shang (Tzi Ma), manda-chuva da China, faz sentido.

No presente ela não sabia como evitar uma catástrofe mundial, mas conforme o entendimento dela ia ficando mais claro, ela foi buscar “no futuro” a resposta do que ela deveria dizer para Shang. Alguém que pensa de forma linear pode dizer: “Mas não faz sentido, como Shang poderia estar lembrando para ela sobre algo que ela contou para ele no passado se o passado ainda não tinha acontecido e, consequentemente, aquela cena da festa de lançamento do livro dela após o conflito resolvido também não seria uma realidade ainda”.

A questão, e a grande sacada deste filme é esta, é que quando Louise passa a pensar da mesma forma que os extraterrestres, ela tem conhecimento sobre todo o espaço temporal, inclusive do que acontece no futuro. Isso não impede, claro, que ações diferentes dela no presente não modifiquem o futuro. Mas ela tem acesso a conhecimentos prováveis do futuro e, com isso, consegue agir no presente e tomar decisões. Por um tempo depois de ter assistido ao filme me pareceu sem sentido, ainda assim, as cenas iniciais de Arrival.

Afinal, eu ficava pensando, não fazia sentido aquele começo de Louise indo para casa sozinha, como se já tivesse sido abandonada pelo marido e tivesse perdido a filha, e depois ela entrando na missão dos extraterrestres. Afinal, a história de Hannah estava no futuro. Mas aquele começo se explica não como um fato linear, e sim como lembranças de Louise depois que tudo aquilo tinha acontecido. É como se fosse uma introdução para a história que, a partir da chegada dos extraterrestres, volta para trás no tempo.

Enfim, diferente do que pensei inicialmente, Arrival não tem furos. Ele faz sentido, especialmente se você entende a proposta da não-linearidade. Uma dúvida que acho que muitos podem ter é porque no futuro Ian ia abandonar Louise quando ela contou para ele que Hannah iria morrer se ele, como ela, poderia ter a compreensão completa do tempo. Se fosse assim, ele já saberia o que iria acontecer com a filha antes mesmo dela nascer.

Para mim, a explicação para isso é simples: como acontece com diferentes idiomas que temos no mundo atualmente, nem todo mundo tem a capacidade de dominar certas linguagens. Há pessoas que aprendem, que mergulham e que realmente passam a pensar em outro idioma, mas tem outros que não tem esta capacidade. Ian era uma destas pessoas que certamente não entendeu/decifrou profundamento o idioma extraterrestre. Louise escreve um livro sobre aquela linguagem, mas certamente poucas pessoas no mundo tiveram a capacidade dela para realmente compreender o “presente” deixado pelos visitantes de fora da Terra.

Achei a premissa de Arrival brilhante, assim como a forma com que o filme é construído. A narrativa fragmentada e cheia de inserções de diferentes tempos da história de Louise é intricada, não é simples de entender. Mas é brilhante por realmente mergulhar e demonstrar o que a história quer nos mostrar de diferenciado em relação a filmes do gênero. A linguagem e a descoberta dela é fundamental para qualquer relação, e isso fica evidente neste filme.

Além das ponderações envolvendo a linguagem e a comunicação, gostei também de como o filme se debruça na raça humana. Este é outro atrativo da produção. Arrival mostra claramente como, apesar do início as diferentes nações colaborarem entre si, passado algum tempo predomina a característica egoísta e competitiva do ser humano. Isso é demonstrada pela “guerra fria” entre a China, os Estados Unidos e outros países. A tão falada geopolítica se apresenta com toda a sua divisão quando alguns países se sentem ameaçados e querem demonstrar mais força que os outros.

Neste sentido, Arrival apresenta algumas reflexões importantes sobre o nosso mundo. Primeiro, o pavor e o medo das pessoas sobre o desconhecido. Há revolta, depredação e falta de civilidade em várias partes do globo quando as naves aparecem. Depois, conforme o tempo passa e as nações não encontram respostas, a insegurança dos governos também marca posição. Como aconteceu com o 11 de Setembro e em outras ocasiões, a resposta para o medo é a ameaça e o confronto. Primeiro acabam as cooperações entre os países e, depois, muitos se armam para confrontar uma presença que eles não entendem. E quando você não entende, você se sente ameaçado.

Então Arrival não apenas apresenta um conceito interessante e diferenciado sobre o que motivaria a “visita” de extraterrestres na Terra, mas também nos coloca frente a um grande espelho. Como sugere um dos extraterrestres, eles estão “ajudando” a Humanidade desde os primórdios e, desta vez, vieram entregar a sua forma de se comunicar e de “pensar” para que tenhamos um entendimento completo do tempo. Desta forma, se este conhecimento for bem utilizado, catástrofes podem ser minimizadas e guerras podem ser evitadas. Em troca os extraterrestres querem ajuda nossa no futuro. Fica em aberto a razão para isso, mas não deixa de ser inteligente.

O filme precisa de muita atenção, até porque tem várias “interferências” de outros tempos no “presente” da protagonista, mas Arrival é construído de forma inteligente e funciona muito bem. Para finalizar, a produção reflete sobre algo que o brasileiro Pequeno Segredo (comentado aqui) também aborda: como você agiria frente a uma criança que você sabe que vai morrer e que é a sua filha? Você cuidaria para que ela fosse o mais feliz possível ou, de alguma forma, você evitaria aquele sofrimento.

Se em Pequeno Segredo o casal Schürmann deve decidir se vai ou não adotar uma menina que eles sabem que não deverá viver muito tempo, em Arrival Louise deve decidir se vai casar com Ian e ter uma filha com ele sabendo que ela vai morrer ainda jovem. Nos dois casos as duas mulheres optam por viver ao máximo ao lado de suas filhas, cuidando para dar todas as oportunidades de felicidade para elas e sem escapar da dor. Tocante. E nos faz pensar sobre as nossas próprias escolhas e sobre a vida. Ela é bela não porque não tenha dor e sofrimento, mas porque aprendemos com absolutamente tudo, especialmente na relação amorosa com as pessoas, e nisto está a sua beleza.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não é impossível que, conforme eu vá assistindo aos outros favoritos ao Oscar, eu reveja a nota acima. Na verdade, mesmo agora eu fiquei muito em dúvida sobre que avaliação dar para Arrival. A indecisão estava entre o 10 acima e uma nota mais “modesta” como um 9,8. Mas decide dar a nota máxima porque, realmente, não vi nenhum defeito neste filme. O “furo” na história que eu achei que Arrival tinha acabou ficando claro depois de pensar um pouco mais. Arrival é bem redondo e bem acabado, então merece um ótimo conceito.

A direção de Denis Villeneuve, irretocável, e o ótimo roteiro de Eric Heisserer são realmente destaques importantes da produção. Mas não são os únicos. Amy Adams estava inspirada nesta produção, mostrando muita maturidade na interpretação e também muita veracidade na condução de sua personagem. Jeremy Renner está bem, mas ele fica um pouco eclipsado pela parceira de cena. Além deles, os outros atores tem papéis bem secundários, sem nenhum grande destaque.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia difícil e bem planejada e executada de Bradford Young. Também funcionam bem a edição de Joe Walker, a trilha sonora muito pontual de Jóhann Jóhannsson, o ótimo e interessante design de produção de Patrice Vermette, o departamento de som com um trabalho incrível de uma equipe de 33 profissionais, os efeitos especiais com cinco profissionais e os efeitos visuais envolvendo impressionantes 358 profissionais – sim, isso mesmo que você leu, uma equipe gigantesca de 358 profissionais. Não lembro de ter visto a um outro filme, pelo menos recentemente, que tenha envolvido uma equipe tão grande que trabalhou nos efeitos visuais da produção. Realmente o trabalho de toda esta equipe é impressionante e fundamental para Arrival.

Sobre o elenco, além dos atores que eu já destaque, vale citar o bom trabalho – ainda que sem graaaande expressão – dos atores Forest Whitaker como o coronel Weber, que convoca Louis e Ian; Michael Stuhlbarg, que interpreta o agente Halpern, que está coordenando as ações em Montana; Tzi Ma como o general Shang, presidente da China; Abigail Pniowsky como a Hannah de oito anos de idade; Mark O’Brien como o capitão Marks, um dos militares incomodados com a “falta de ação” contra os extraterrestres; Jadyn Malone como a Hannah de seis anos de idade; Julia Scarlett Dan como a Hannah com 12 anos de idade; e Carmela Nossa Guizzo como a Hannah de quatro anos.

Arrival estreou no Festival de Cinema de Veneza no dia 1º de setembro. Até o final de outubro ele participou e outros 12 festivais, uma verdadeira maratona, e em novembro, de mais dois. Com esta trajetória o filme conseguiu um prêmios e foi indicado a outros 13. O único que ele recebeu, até agora, foi o Silver Frog no Camerimage.

Esta produção, que teria custado cerca de US$ 47 milhões, faturou apenas nos Estados Unidos cerca de R$ 67,8 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez outros US$ 32,2 milhões. Batendo a marca de US$ 100 milhões e tendo muito ainda para faturar, Arrival é uma produção que sairá no lucro apesar do seu alto custo.

Arrival foi totalmente rodado no Canadá, em lugares como Montreal e Bas-Saint-Laurent. Entre outros locais, um dos pontos que foi aproveitado como cenário da produção foi a Universidade de Montreal.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor Denis Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criaram uma linguagem visual alienígena funcional. Eles criaram um tipo de “glossário” de logogramas com 100 tipos diferentes de imagens com “significados”, sendo que 70 delas são vistas no filme.

Na história de Ted Chiang, desembarcam na Terra 112 naves muito menores dos que as apresentadas no filme. Mas, sem dúvida, para o cinema, funcionou melhor a escolha feita pelos realizadores de Arrival.

Antes das filmagens começarem, Amy Adams não sabia falar mandarim. Mas ela acaba tendo que dizer uma frase neste idioma em certo momento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, a frase que o general Shang sussurra para ela e que teria sido dita pela mulher dele no leito de morte foi: “Na guerra não existem vencedores, apenas viúvas”. Uma boa frase para ele repensar o que estava prestes a fazer na história, realmente.

Descobri algumas coisas interessantes ao ler as notas da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente o filme teria “presentes” diferentes deixados pelos alienígenas em cada um dos oito países em que eles pararam as suas naves. Mas Villeneuve mudou de ideia após assistir a Interstellar. Ele não queria que um filme lembrasse o outro. A exemplo de quando Louise conta para Hannah que ela tinha recebido este nome porque ele era um palíndromo, o próprio filme e a última música que aparecem nele também são um palíndromo. Ou seja, as cenas iniciais do filme são também como a produção termina, uma forma de mostrar que a linguagem e a forma de pensar dos extraterrestres que nos é “presenteada” e compreendida por Louise não é linear e nem tem início, meio ou fim.

Denis Villeneuve é, sem dúvida alguma, um dos novos diretores que vale a pena acompanhar. Gostei muito dos dois filmes anteriores dele, que eu citei lá mais no início deste texto. Além deles, sei que tem outros filmes de Villeneuve que eu perdi e que foram bem elogiados – um dia, ainda, quero assisti-los. A próxima produção dirigida por ele também promete. Ele já está trabalhando na pós-produção de Blade Runner 2049, filme que dá continuidade para o clássico de Ridley Scott e que tem no elenco, entre outros nomes, Robin Wright, Harrison Ford, Ryan Gosling, Jared Leto, Barkhad Abdi, entre outros. Promete.

Assisti a este filme no cinema, e ele realmente pede ser apreciado em uma telona e com um grande som.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Arrival, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 248 críticas positivas e 18 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,4. Tanto a nota do público quanto da crítica comprovam que o filme foi aprovado por estes dois públicos e que está bem credenciado para emplacar alguns prêmios e indicações daqui para a frente.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Que filme, meus amigos! Ainda que ele não ignore outras referências de filmes com “contatos alienígenas”, ele nos leva a outro patamar neste tipo de produção. Mais do que nos fazer pensar sobre os “visitantes”, Arrival nos faz refletir sobre nós mesmos e sobre o tipo de organização global em que estamos. Este é um nível de análise. Mas há outro existencialista e um terceiro sobre a importância da comunicação. De forma muito genial o filme nos constrói uma narrativa que fará sentido realmente no final.

Com um roteiro primoroso, ótimos atores e uma direção competente, Arrival é realmente uma das grandes pedidas deste período pré-Oscar. Mais uma vez o diretor Dennis Villeneuve soube me conquistar. Por pouco ele não apresenta nenhum furo ou defeito. Por isso ele vai merecer as indicações que deverá receber no próximo Oscar. Agora, como eu comentei antes, este filme é super difícil de entender. É preciso estar atento e gostar dos temas para não ficar “perdido” no final. Para quem está familiarizado com boa parte dos temas tratados, contudo, Arrival é um deleite. Recomendo para estas pessoas. Para as demais, acredito que outros filmes podem funcionar melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Este é um dos filmes inevitáveis nesta temporada pré-Oscar segundo muitas bolsas de apostas de especialistas. Ao assistir a Arrival eu percebi o porquê do filme ser apontado como promissor em diversas categorias. Só não sei se a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vai topar o desafio de dar evidência para um filme tão complexo. Porque este filme não tem nada de simples ou de muito palatável para o grande público.

Caso a Academia resolver dar o devido crédito para o filme, apesar dele não ser muito simples, Arrival realmente pode chegar longe no Oscar. Há quem aposte que Arrival poderá ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Realmente eu acho que ele pode emplacar todas estas indicações, além de algumas outras técnicas, como Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mixagem de Som e, talvez, Melhor Edição de Som.

Entre as categorias principais, talvez apenas Melhor Diretor pode ser mais difícil do filme figurar. Nas demais, acredito que ela consiga emplacar uma indicação. Agora, saber se ela tem chance de ganhar em alguma ou mais de uma, só esperando para ver a outros dos favoritos. Aparentemente Arrival corre por fora, mas vou conseguir falar com mais propriedade sobre isso após assistir a outros favoritos, como La La Land, Jackie, Fences, Silence e Manchester by the Sea. Veremos.

ATUALIZAÇÃO (18/12): Nesta semana sai a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2017. Arrival foi indicado nas categorias Melhor Atriz – Drama (Amy Adams) e Melhor Trilha Sonora. A disputa nas duas categorias está bem acirrada.

Ya Tayr El Tayer – The Idol – O Ídolo

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Muitas pessoas fascinaram o mundo pelo seu talento. Alguns realmente estavam muito acima da média, enquanto outros foram galgados a um posto de destaque também por causa de sua história de superação. Ya Tayr el Tayer conta uma destas histórias, de um talento que se destaca também por suas origens. O representante da Palestina no Oscar 2017 sabe explorar a história real de um ídolo de Gaza e dos palestinos para tornar a produção sobre ele um tanto universal e um tanto “nos moldes” para fascinar os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

A HISTÓRIA: Começa avisando que o filme é inspirado em uma história real, mas que alguns fatos são ficção. Tudo começa em Gaza, na Palestina, em 2005. Um grupo de crianças está jogando futebol, até que uma confusão começa. Nour (Hiba Attalah) pede para Ahmad (Ahmad Qasem) jogar o dinheiro. Ela e o irmão, Mohammed (Kais Attalah) saem correndo, perseguidos por meninos maiores. Correndo pelas ruas da cidade eles conseguem escapar, até que ficam encurralados.

Mas Nour consegue enxergar uma saída inusitada. Eles são rápidos e conseguem chegar em casa, onde ficam a salvo. Em seguida, eles começam a estudar, mas não escapam de receber uma bronca da mãe. Eles já juntaram 337 shekels. O sonho dos irmãos e de dois amigos é comprar bons instrumentos musicais para fazerem sucesso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ya Tayr el Tayer): Esta produção começa bem ao apresentar logo os personagens principais e os seus sonhos, assim como o seu entorno. Crianças em um local que logo será de conflito e de destruição sempre rende uma boa história e, claro, entra no tipo de filme que a Academia gosta.

Primeiro, Ya Tayr el Tayer tem crianças corajosas e que vão atrásd e seus sonhos. Depois, é um filme que ilustra bem uma realidade complicada. Quer dizer, ao menos parece que ele ilustra bem. Sabemos que a realidade de Gaza foi muito pior do que este filme mostra, mas até nisso Ya Tayr el Tayer se encaixa bem no estilo do Oscar. Afinal, Hollywood é pura fantasia, e ainda que a Academia tenha apostado mais em filmes independentes e interessantes nos últimos anos, entre os premiados ela costuma escolher filmes geralmente menos ousados. Ya Tayr el Tayer é exatamente isso, um filme pouco ousado.

Francamente eu não conhecia a história do ídolo de Gaza e da Palestina Mohammed Assaf. Perdi as notícias que falaram sobre este fenômeno da música. Mas, depois de assistir a Ya Tayr el Tayer, claro que eu fui atrás de saber mais detalhes sobre ele. Daí também percebi o quanto o filme embarcou em “licenças poéticas” para se tornar mais “palatável” para as audiências de outros países.

Mas antes de falar das mudanças na história real que o filme produz, vamos retornar um pouco na história. Gostei da pegada inicial do filme porque ela mostra crianças sendo crianças em um território de refugiados. Isso é importante. Mostrar que a vida segue apesar das mortes, do luto e dos conflitos. Apesar disso, aquele início de correria me fez lembrar outras produções muito conhecidas, como Cidade de Deus (grande filme brasileiro) e até mesmo o ótimo Slumdog Millionaire (comentado aqui).

Aliás, se pararmos para pensar, Ya Tayr el Tayer lembra bastante Slumdog Millionaire. A diferença é que o candidato da Palestina para o Oscar se passa em um terreno de conflitos e de destruição mais do que de pobreza. Mas justamente aí reside um dos problemas do filme. Quando ele avança sete anos na vida do protagonista, passando de 2005 para 2012, vamos claramente a diferença da Faixa de Gaza neste período. A cidade, que antes tinha poucos sinais de conflito – um rapaz sem perna em um momento, uma cerca que isola a população mostrada em outro momento -, neste segundo momento da história se mostra um terreno quase todo arrasado.

As pessoas vivem entre escombros, se virando aqui e ali e tentando sobreviver. E há mais pessoas, como o amigo do protagonista, Omar (Abdel Kareem Barakeh quando criança, Ahmed Al Rokh quando adulto), que resolvem radicalizar e pegar em armas. No caso de Omar, ele atua na fronteira, mas está envolvido na “causa palestina”. Só que o problema do filme, apesar de mostrar bem esta mudança de paisagem, é não entrar mais profundamente no drama palestino. Vemos uns dois mutilados no filme inteiro, mas quase ninguém trata das mortes, do luto, das perdas da comunidade. O assunto é tratado de forma muito “ligeira”.

Para mim, este é um dos problemas do filme. O outro é que ele se torna muito previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois daquele começo que lembra outras produções mas que até é interessante, logo que Nour fica doente, prevemos que fim ela vai ter. Daí a história avança sete anos e já prevemos também qual será o destino de Mohammed (vivido na fase adulta por Tawfeek Barhom).

Comento isso me colocando na posição de quem não conhecia a história real por trás do filme. Para quem já conhecia a história de Mohammed Assaf, este filme deve ser ainda mais previsível. Bem, isso se descontarmos as “licenças poéticas” do roteiro da dupla Hany Abu-Assad e Sameh Zoabi. Não consegui descobrir se Mohammed realmente teve uma irmã que morreu ainda criança, mas algo eu descobri: diferente do que Ya Tayr el Tayer sugere e mostra, ele não tinha apenas uma irmã, e sim seis irmãos e irmãs.

Lendo a uma entrevista do diretor Hany Abu-Assad, ele justificou a mudança, de mostrar o garoto com apenas uma irmã, para tornar o filme mais “impactante” e para tornar mais universal a história – afinal, todo mundo entende uma relação afetuosa entre um irmão e uma irmã. Dá para entender essa intenção do diretor, mas acho que teria sido mais interessante tentar contar a história da forma mais fiel possível. Afinal, Ya Tayr el Tayer atende também a um público aficionado pelo protagonista, e este público merecia ter uma história mais legítima.

Quando o filme fica previsível, ele não apenas perde um pouco do impacto e da força, mas especialmente no desenrolar da doença da irmã do protagonista ele se torna um tanto sentimentalista. Achei que os roteiristas perderam um pouco a mão na sequência final da menina, quando Mohammed insiste para ela repetir a frase que havia dito antes, de que “seremos grandes e mudaremos o mundo”. Quando esta cena acontece já estamos preparados para ela. Provavelmente a sequência funcionou para a cultura árabe, mas tenho as minhas dúvidas se funciona para outras latitudes.

Agora, dois aspectos mostrados neste filme provocam reflexão. Primeiro, ainda que não seja bem explorada, a questão da cultura machista na Palestina. Nour trilha o caminho da independência e isso incomoda a muitas pessoas que mexem com ela por ela “parecer um menino”. O comportamento da mulher, na média, deveria ser outro, bem mais “amistoso” e serviçal.

O outro aspecto é a própria saída apresentada para a menina quando ela fica doente. Ou a família consegue um doador voluntário (o irmão se candidata, mas não tem o sangue compatível), ou tem que pagar US$ 15 mil para conseguir um órgão saudável. Ou seja, por lá não existe lista de doadores. Sobrevive quem tem dinheiro. É a dura realidade de muitos lugares, infelizmente.

A parte do passado do protagonista, desta forma, acaba sendo bem modificada e “floreada” para tornar o filme mais palatável. Depois, quando entramos na fase do concurso musical propriamente dito, a história fica mais próxima da realidade. Realmente Mohammed chegou tarde para a classificatória do concurso Arab Idol (versão árabe do popular American Idol) e entrou no local em que estavam outros candidatos fugindo dos seguranças. Uma outra “liberdade poética” do filme é mostrar ele cantando no banheiro e, desta forma, convencendo um outro candidato e lhe dar o bilhete para a audição.

Na verdade, Mohammed escapou dos seguranças e acabou cantando na frente de diversos candidatos. Um deles, também palestino, percebendo o talento do rapaz, realmente resolveu lhe dar o bilhete para a audição. No mais, a história é a que a maioria das pessoas – ao menos as que acompanham Arab Idol – já conhece. Semana após semana Mohammed foi mostrando o seu talento até chegar na grande final. Nesta parte, achei um pouco o estranho o filme mesclar imagens reais e as da produção, com as cenas do verdadeiro Mohammed sendo mostradas sempre à distância e as imagens do ator que o interpreta, Tawfeek Barhom, sendo colocadas na tela de uma forma meio fake.

Enfim, o filme tem as suas boas intenções, mas eu acho que ele foi feito mesmo sob medida para agradar aos fãs de Mohammed Assaf. Ele conta uma história bacana de um morador da Faixa de Gaza que deixa um cenário de destruição para mostrar o seu dom e obter êxito. De fato, dá para entender porque os moradores daquele local se encheram de tanto orgulho. Apesar das mortes, das perdas e da destruição, é preciso falar de talento, de superação e da vida. A história de Assaf tem tudo isso, mas o filme sobre ele não é tão interessante quanto poderia ser.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A melhor parte do filme é, sem dúvida alguma, o elenco infantil. As crianças estão muito bem. São a parte bacana da história. Ainda que ninguém esteja mal, as quatro crianças fazem um belo trabalho, os irmãos Assaf são o destaque. Hiba Attalah está ótima como Nour, com uma interpretação que convence pelo olhar. O mesmo pode ser dito por Kais Attalah – que, ainda que Tawfeek Barhom seja bom, me convenceu mais até que o ator adulto. Estão bem também, com interpretações coerentes e que passam credibilidade, os jovens Abdel Kareem Barakeh e Ahmad Qasem. Eles são, sem nenhuma dúvida, o melhor de Ya Tayr el Tayer.

Eu gostei da parte “se vira nos trinta” das crianças na primeira parte do filme. Eles buscam ganhar dinheiro para comprar os instrumentos musicais apostando dinheiro no futebol, depois pescando e vendendo peixe para quem passasse e, finalmente, Mohammed tem a ideia de começar a ganhar dinheiro com a própria voz. Primeiro, na mesquita e, depois, em festas de casamento. Ahmad descobre, lá pelas tantas, como vender Wacdonald’s (sim, uma versão de Macdonald’s) de forma ilegal em Gaza e faturar dinheiro com isso. Eles se viram, como qualquer garotada que vive em um local com poucos recursos.

Depois de assistir a Ya Tayr el Tayer eu fui atrás da história real de Mohammed Assaf. Há muito material sobre ele na internet. No filme já percebemos, perto do final, que ele é do estilo galã. Muito bonito, carismático, ele tem uma presença marcante, além de uma voz potente e linda. Achei que o filme Ya Tayr el Tayer explorou pouco estas qualidades dele. Faltou mostrar ele cantando em mais momentos e, claro, escolher um ator que tivesse mais a ver com ele. Nada contra Tawfeek Barhom, mas ele não faz jus para o original.

Da parte técnica do filme, não há nada para realmente destacar. O roteiro, como eu disse, acho que poderia ser melhor. A direção de Hany Abu-Assad é boa, especialmente com o bom ritmo do início, mas depois segue uma linha um tanto confortável. Talvez a trilha sonora de Hani Asfari se destaque e mereça uma menção especial. A edição de Eyas Salman é boa, mas nada excepcional, assim como a direção de fotografia de Ehab Assal.

Além dos atores já citados, vale destacar outros coadjuvantes com papel significativo na história: Dima Awawdeh como Amal e Teya Hussein como Amal quando criança, as duas vivendo a personagem que conhece Mohammed e a irmã dele, Nour, quando ela está fazendo tratamento no hospital; Amer Hlehel como Kamal, o músico que ajuda a turma de garotos quando eles estão querendo melhorar e, depois, segue ajudando Mohammed; Manal Awad como a mãe de Mohammed e Nour e Walid Abed Elsalam como o pai dos dois; e Azmi Al-Hasani como Ismael, o palestino que resolve doar o seu ticket para Mohammed tentar uma vaga no Arab Idol. Aliás, Azmi Al-Hasani tem masi a ver com o Mohammed original do que o próprio Barhom.

Fora o óbvio “vale a pena lutar pelos seus sonhos” e de que as pessoas devem lutar pelas “causas certas” (no caso do protagonista deste filme, ele briga para dar voz para os moradores de Gaza, para os palestinos, e também para homenagear a irmã), Ya Tayr El Tayer tem uma outra reflexão interessante: de que na hora de um grande desafio, devemos nos apegar ao simples, a uma motivação mais concreta do que pensar em toda a repercussão que algo que fazemos pode ter. Comento isso por causa do ataque de pânico que Mohammed sofre ao perceber que o seu sonho está tomando uma proporção gigantesca e que ele não esperava. No final, ele se apega ao efeito que o seu talento tem para Amal e, com isso, tornando tudo mais simples, ele segue em frente. Esta é uma boa dica.

Ya Tayr El Tayer estreou no Festival Internacional de Toronto em setembro de 2015. Depois, o filme passaria ainda por outros nove festivais, incluindo o de Londres, Warsaw, Torino, Hong Kong e Munique. Até o momento o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que Ya Tayr El Tayer recebeu foi o Prêmio Unesco dado pelo Asia Pacific Screen Awards.

Esta produção, 100% da Palestina, foi também totalmente rodada no país árabe, mais precisamente na cidade de Jenin.

Mohammed Assaf é um fenômeno. Seus vídeos no YouTube tem milhares de visualizações. Este aqui, de três anos atrás e do Arab Idol, tem nada menos que 47,69 milhões de visualizações. Nele é possível perceber, realmente, como o intérprete tem uma voz incrível. Interessante também este vídeo de uma música que ele lançou após o Arab Idol e que foi gravado em Gaza – produção que mistura as tradições e o “patriotismo” de Mohammed com uma pegada mais moderna e contemporânea.

Como comentei antes, em determinado momento o filme mostra o verdadeiro Mohammed Assaf. É perto de ser anunciada a vitória dele no programa. Daí o cantor faz uma pequena ponta no filme aparecendo no lugar do ator que o interpreta. Escolha curiosa do diretor.

O diretor israelense Hany Abu-Assad tem 55 anos e 11 filmes no currículo como diretor. Ele estreou no cinema com Het 14e Kippetje, em 1998, e tem 17 prêmios em sua trajetória até o momento. A maior parte dos prêmios ele recebeu pelos filmes Omar, de 2013, e Paradise Now, de 2005 – ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ou seja, Abu-Assad é um velho conhecido da Academia. Eu não assisti a nenhum dos filmes anteriores dele, sou franca em dizer. Quem sabe agora é hora de ir atrás? Até porque estes dois filmes, além de terem sido indicados ao Oscar, tem notas melhores no IMDb do que Ya Tayr el Tayer.

Ya Tayr el Tayer é a indicação oficial da Palestina para o Oscar 2017 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 35 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,7.

CONCLUSÃO: Este filme tem, sem dúvida alguma, a “cara do Oscar”. Pelo menos quando a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira era mais tradicional – nos últimos anos ela se mostrou um pouco menos óbvia. Ya Tayr el Tayer conta a história de sucesso de um personagem improvável, valorizando o talento e a obstinação por um sonho. É bonitinho, é interessante, mas é fraco. Sem dúvida alguma está abaixo da média de filmes que eu vi até o momento e que concorrem ao Oscar 2017. Achei ele curioso apenas no início, porque depois Ya Tayr el Tayer cai em um lugar-comum e em roteiro bastante previsível. Vale ser visto se você é fã do artista que inspirou o filme. No mais, vale apenas pela curiosidade. Não é um filme que vai marcar a sua vida.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Como eu adiantei logo acima, para mim Ya Tayr el Tayer é o mais fraco entre os concorrentes que eu vi até o momento da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apesar do começo promissor, o filme depois embarca em um tipo de roteiro bastante previsível e que se esforça para nos fazer nos emocionar – comigo, ao menos, a estratégia não funcionou.

Mesmo sem conhecer a história de Mohammed Assaf até então, eu não me surpreendi nem um pouco como o desenrolar de sua história e das pessoas que o cercam. Mas ser surpreende não é pré-requisito para o Oscar. Como uma obra de cinema, achei o filme apenas mediano. Mas se a Academia resolver ser “tradicional”, ela até pode fazer Ya Tayr el Tayer avançar e ficar entre os nove pré-indicados. Especialmente para passar uma mensagem de que a história dos palestinos merece ser ouvida. Isso pode acontecer, mas acho improvável.

Apesar de figurar em diversas listas como um dos filmes que pode chegar lá, acho Ya Tayr el Tayer muito fraco e previsível para conseguir uma das nove vagas bastante disputadas – tem menos chances ainda de ficar entre os cinco finalistas. Surpresas sempre podem acontecer, mas não acho que este será o caso de Ya Tayr el Tayer. Apesar de ter uma história previsível, o filme acerta ao mostrar o “antes e o depois” da tragédia chamada Faixa de Gaza, com toda a destruição que foi provocada no local em poucos anos. Só acho que o filme poderia ser mais contundente.

En Man Som Heter Ove – A Man Called Ove – Um Homem Chamado Ove

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Quando encontramos uma pessoa ranzinza ou apenas “estranha” pela frente, devemos sempre parar alguns segundos para pensar: “eu não sei nada sobre a vida desta pessoa, então terei calma neste andor”. Porque não sabemos mesmo nada ou quase nada sobre aquela pessoa. Por isso mesmo, não devemos logo colocar esta pessoa em uma caixa ou colar uma etiqueta nela. Afinal, não temos ideia pelo que ela já passou, está passando, sobre os seus sonhos, medos, desejos ou frustrações. En Man Som Heter Ove começa com um sujeito destes, um tanto ranzinza, um tanto estranho. E é justamente a história dele que nos dá muitas lições.

A HISTÓRIA: Em uma loja de plantas e artigos para o jardim, Ove (Rolf Lassgard) vê uma placa de promoção de buquês de rosa e escolhe um ramalhete. Na fila do caixa, ele impede que uma senhora passe na frente dele. Ao ser atendido, ele quer pagar 35 coroas por um buquê alegando que isto é metade da promoção que prevê dois buquês por 70 coroas. Ele discute com a caixa e diz que não acha correta a forma com que eles trabalham. No fim das contas, ele leva os dois buquês para o cemitério, e diz em frente ao túmulo de Sonja que sente a falta dela. No dia seguinte, ele sai para a sua ronda matinal na vizinhança antes de ir para o trabalho. Pouco a pouco vamos conhecendo este sujeito com hábitos bem definidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a En Man Som Heter Ove): Em algum momento da sua vida você já deve ter cruzado com alguém do tipo de Ove. Um sujeito obstinado em fazer tudo certo e que não tem muita paciência com os “idiotas” que ele vai encontrando pelo caminho. Eu mesma, devo admitir, muitas vezes tenho que me esforçar para ter paciência com quem não dá a mínima para as regras da boa civilidade.

Por isso mesmo, logo me apaixonei pelo protagonista. Claro que contou muito para isso o ótimo trabalho do ator Rolf Lassgard. Ele consegue, mesmo no momento em que ele tem uma crise de chatice, ser de alguma forma terno e gracioso. Quando o filme começa, nós temos uma impressão sobre o que vai acontecer. Depois de mais uma ronda pela vizinhança, o protagonista vai para o trabalho, rotina que ele mantêm nos últimos 43 anos. Esse tempo todo na empresa não impede que ele seja poupado da demissão.

Neste início do filme, pensei que a história teria uma forte carga social. E ainda que a produção tenha vários elementos de análise da sociedade sueca atual, En Man Som Heter Ove é bem mais filosófico e humano do que poderíamos pensar no princípio. A trilha sonora de Gaute Storaas e o ótimo roteiro do diretor Hannes Holm logo mostram que esta produção tem uma boa carga de comédia. Aliás, esta é a primeira produção pré-indicada na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira que tem a comédia como um elemento importante.

Baseado no livro de Fredrik Backman, este filme acerta na mosca no equilíbrio entre comédia e drama. Após aquela introdução curiosa sobre a personalidade de Ove, vamos pouco a pouco desbravando a sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta não é a primeira produção que mostra um protagonista que tenta se matar e que não consegue porque acaba sendo impedido em cada uma de suas tentativas. Os novos vizinhos de Ove, uma família de imigrantes, acaba sendo decisiva para esta guinada na trajetória do protagonista. Mas não são apenas eles. Até um jovem que resolve sair do armário acaba impedindo Ove de se matar.

Como acontece na vida real, mas certamente com menos frequência do que nesta comédia, todas as vezes que alguém impede Ove de seu intento é por acidente. Não é nada planejado. Mas eis aí uma das belas lições deste filme: como a boa relação entre vizinhos e a preocupação genuína das pessoas uma como as outras fazem toda a diferença na vida de uma comunidade e dos indivíduos. Ove parece um chato de galocha no início, sob a ótica de alguns, mas pouco a pouco ele vai se revelando um homem corretíssimo e muito zeloso com a vida da comunidade.

Quando Ove parece que vai realizar o seu desejo, “um filme” passa pela sua cabeça e ele começa a lembrar da própria trajetória. E é aí que o roteiro de Holm fica ainda mais rico e interessante. Mergulhamos na vida do personagem desde a sua infância, sabendo como ele perdeu a mãe cedo e como era a relação dele com um pai bastante calado e pouco afetuoso. Ele próprio, aparentemente, sempre foi um homem de poucas palavras. Mas ele encontrou a felicidade e uma parceira para a vida quando conheceu acidentalmente em um trem a bela Sonja (Ida Engvoll).

Seguindo a linha de muitos outros filmes, En Man Som Heter Ove também mescla dois tempos narrativos, em um constante e bem construído “ir e vir” do tempo atual, quando Ove tenta dar um fim em sua vida “sem graça”, e a sua vida passada. Uma outra lição desta produção é que por mais que algumas vezes pensemos que a nossa vida não tem saída ou que faz mais sentido morrermos para encontrarmos em outro lugar quem a gente mais amou e que partiu antes de nós, a vida sempre tem as suas surpresas e reviravoltas.

Ove acaba sendo fundamental para vários eventos importantes na comunidade, mesmo quando ele achou que não tinha mais “utilidade” nenhuma neste mundo. Ele não apenas ajuda a família de Parvaneh (Bahar Pars), mas também cria uma relação muito afetuosa com eles, especialmente com as filhas dela. Ove também consegue recuperar a amizade com Rune (Börje Lundberg), vizinho do qual ele foi parceiro muito tempo mas do qual se afastou porque a relação deles foi abalada por causa de “convicções” envolvendo carros e a nacionalidade deles. Isso mostra como uma pessoa simples, que acha que pode não ter grande importância no mundo, pode sim fazer muita diferença para várias pessoas.

En Man Som Heter Ove é bem construído em todos os seus elementos. O roteiro de Hannes Holm acerta ao começar com a comédia e com a parte “mais esquisita” e uma das mais atrativas do protagonista, facilmente identificada entre o público, para depois ir mergulhando na história do personagem. Como a história vai crescendo aos poucos, é praticamente inevitável se emocionar com o final – eu chorei, e com gosto, eu admito. Ove tem uma história maravilhosa porque nos ensina a grandeza das pessoas simples, corretas, que procuram sempre fazer o bem. O que não lhes impede de serem exigentes e um tanto esquisitas em muitos momentos.

Da minha parte, também me senti um pouco “representada” por Ove. Nem sempre eu sou direta e meio “grossa” como ele com as pessoas sem educação deste mundo, mas certamente eu também me “estresso” com várias pequenas demonstrações de falta de respeito no cotidiano. Além disso, certamente já encontrei com um ou dois sujeitos um tanto “ranzinzas” como Ove.

Pessoas que se acostumaram a ficar sozinhas, na maioria das vezes a contragosto, e que não sabem lidar muito bem com isso. A resposta para esta infelicidade é elas acabarem se isolando ainda mais, se afastando das pessoas. Mas tudo que elas querem é um pouco de atenção e de afeto, algo que Ove recebe quase sem querer por parte de Parvaneh e suas filhas. Sempre é bonito de ver como pessoas um tanto “desajeitadas” para o afeto são tocadas por ele.

Finalmente, acho que uma das grandes belezas deste filme é mostrar como vale a pena ser honesto, ser correto e dedicado. Ove é um sujeito que sempre buscou fazer o que era certo e ajudar a quem ele podia. Ele nunca se isentou, nunca virou as costas, e foi extremamente dedicado para a sua mulher, Sonja, além de ser generoso com Parvaneh e com outras pessoas. Um lado totalmente desconhecido para quem lidava apenas com o lado “ranzinza” e exigente dele.

Com isso, de forma muito sutil e bonita, En Man Som Heter Ove nos lembra que uma pessoa nunca é apenas uma coisa. Normalmente ela tem uma diversidade que poucos conhecem e que merece ser conhecida quando damos a oportunidade para que a pessoa revele a sua parte mais bonita. Mas para isso, é claro, essa pessoa precisa ter a oportunidade de mostrar este “outro lado”, mais vulnerável e muitas vezes difícil de perceber em um contato mais superficial. Belo filme, muito sensível e bem construído.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção foi a ótima trilha sonora de Gaute Storaas. Depois, conforme o filme avança e percebemos os dois tempos narrativos, chama a atenção a direção de fotografia que diferencia bem estes dois tempos e que é assinada por Göran Hallberg. O tempo presente parece um tanto “cinza”, ou “azulado”, passando a impressão de realidade “nua e crua”, enquanto as lembranças de Ove parecem ter cores mais “quentes”, nos remetendo a um tempo mais “colorido” na vida do protagonista.

Conforme a história vai avançando também percebemos como o roteiro é um dos pontos fortes da produção, assim como a direção cuidadosa de Hannes Holm. O diretor sempre está atento aos detalhes, valorizando as interpretações dos atores e também os detalhes interessantes de cada momento da história, desde um porta-retrato de Sonja até a mais nova “amiga” do protagonista, uma gatinha da vizinhança que precisa de cuidados. Tanto a direção quanto o roteiro dele tem um ritmo adequado e interessante, que envolve o espectador e que cresce até o final. Como sempre, são os detalhes que fazem toda a diferença.

O elenco é pequeno, mas escolhido à dedo. Sem dúvida o grande destaque é o ator Rolf Lassgard. Mas outros nomes também merecem aplausos. Especialmente Bahar Pars, que tem uma interpretação muito sensível e interessante, e Ida Engvoll que, toda vez que aparece, ilumina a cena. Entre os atores com papéis menores, vale destacar Filip Berg como o jovem Ove e Viktor Baagoe como Ove aos sete anos de idade; Tobias Almborg como Patrik, o marido meio “trapalhão” de Parvaneh; Anna-Lena Brundin como a jornalista Lena, que tenta contar a história de Ove; Stefan Gödicke como o pai de Ove; Chatarina Larsson como Anita, mulher de Rune, e o próprio Börje Lundberg em um papel difícil, mas bem interpretado; e Simeon da Costa Maya como o jovem Rune.

Ainda da parte técnica do filme, vale destacar a competente edição de Fredrik Morheden; o design de produção de Jan Olof Agren;os figurinos de Camilla Olai Lindblom e a ótima maquiagem feita por cinco profissionais: Paulina Hilding, Hanna Holm, Love Larson, Mattias Tobiasson, Eva Von Bahr e Oskar Wallroth.

En Man Som Heter Ove estreou em dezembro de 2015 na Suécia e na Noruega. Em abril deste ano ele participou do primeiro festival, o Festival Internacional de Cinema de Newport Beach. Depois o filme participaria ainda de outros nove festivais em diversos países.

Até o momento este filme conquistou 12 prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo a audiência do Festival de Cinema Romântico de Cabourg; para o de Melhor Ator para Rolf Lassgard no Festival Internacional de Cinema de Seattle; para o de Melhor Filme na categoria World Cinema segundo escolha do público do Festival de Cinema de Mill Valley; e para os de Melhor Filme, Melhor Ator para Rolf Lassgard, Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Estória segundo o Film Club’s The Lost Weekend.

En Man Som Heter Ove conseguiu, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,9 milhões. Não é uma bilheteria desprezível por se tratar de um filme estrangeiro. Esse é um ponto favorável para o filme que é o indicado da Suécia para o Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Se ele é um pouco mais conhecido do público, pode facilitar a sua vida para avançar na disputa e aparecer na lista dos nove pré-selecionados logo mais, em dezembro, e depois seguir para uma disputadíssima lista final de cinco indicados.

Esta produção, 100% sueca, foi totalmente rodada na Suécia, em cidades como Göteborg, Uddevalla e Trollättan, todas em Västra Götalands Iän.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: o ator Rolf Lassgard tinha 59 anos quando o filme começou a ser rodado, mesma idade do personagem dele na produção. Curioso que, mesmo eles tendo a mesma idade, fica claro como a equipe de maquiagem trabalhou bastante no ator para caracteriza-lo como Ove.

Dois gatos foram usados neste filme: Magic e Orlando. O primeiro foi escolhido por ser muito curioso, amistoso e por não se assustar facilmente. Orlando foi escolhido porque ele era capaz de ficar muito tempo parado em uma mesma posição. Os dois gatos nasceram na Polônia.

Fiquei curiosa para saber mais sobre o diretor Hannes Holm. Justamente hoje, dia 26 de novembro, ele está completando 54 anos de idade. Holm tem 17 títulos no currículo como diretor, incluindo longas, séries para a TV e um curta, e oito prêmios, a maioria por En Man Som Heter Ove. Ele também foi premiado por Adam & Eva, produção de 1997.

Ah sim, e vale falar da parte mais “social” do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, temos um grupo de pessoas simples em uma comunidade singela da Suécia mas que poderia estar em quase qualquer parte. Depois, temos um senhorzinho sendo demitido de seu trabalho depois de décadas de serviços prestados e sem muita “consideração” dos seus empregadores – que tem o discurso correto, dão uma “pá” de lembrança – bem simbólico, não? -, mas sem dúvida não tem a atitude correta. Sinal dos tempos em que as pessoas são apenas números para muitas empresas. Depois, temos a defesa singela e bacana dos imigrantes, que chegam para enriquecer a sociedade local – e que são simbolizados por Parvaneh e suas filhas -, e dos homossexuais através do garoto que é protegido por Ove. Muito bacana. Uma mensagem de tolerância e de afeto mútuo entre todas as pessoas, independente de suas origens ou de sua sexualidade, desde que todas tenham atitudes corretas e de respeito aos demais.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 44 críticas positivas e apenas quatro negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,4.

CONCLUSÃO: As vidas mais “ordinárias” são aquelas que estão mais repletas de sutilezas, de pequenas belezas cotidianas e de lições. Alguém que percorreu a vida buscando fazer o que era certo, estando coerente com a própria consciência e buscando valorizar a bondade e a beleza de quem estava do lado tem uma grande história para contar. Mesmo que ela pareça “ordinária” ou comum. En Man Som Heter Ove nos conta a história de um homem que foi justo, honesto, soube amar e ser amado e sempre procurou fazer o bem. Apesar de suas teimosias e manias. E quem não as tem? Um grande filme contado de maneira simples e milimetricamente planejada para ir se revelando aos poucos e nos emocionando no momento correto. Uma bela, bela peça de cinema cheia de humanidade.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Digam o que disserem, mas se tem algo que o prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood faz por nós, amantes do cinema, é nos apresentar grandes filmes a cada ano. De que outra forma esta produção despertaria a minha atenção e me faria assisti-la se não pelo fato de En Man Som Heter Ove ser um dos pré-indicados ao Oscar e um dos títulos que aparecem nas listas de apostas para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira?

Dificilmente eu veria esta produção se não fosse por uma indicação ao Oscar. Pois bem, que bela surpresa este filme! Sem dúvida alguma ele merece estar na lista das possíveis produções que vão conquistar uma das cinco vagas decisivas da premiação. Mas por ser totalmente diferente de todos os filmes que eu vi até agora, é até difícil compará-lo com os demais. Mas para palpitar aqui, isso se faz necessário.

En Man Som Heter Ove caminha na trilha da comédia por grande parte do tempo, ainda que não deixe de ter retoques de drama aqui e ali, muito diferente dos outros filmes que estão concorrendo com ele que eu já vi. Das produções que eu assisti até agora, acredito que Under Sandet (comentado por aqui) ainda leve uma certa vantagem na disputa, seguido de Elle (com crítica neste link) e de En Man Som Heter Ove. Fuocoammare (comentado por aqui), apesar de não ser tão bom, pode acabar levando vantagem por tratar de um assunto fundamental nestes dias, que é o drama e a catástrofe dos refugiados e imigrantes que buscam uma saída para os seus drama através da Europa.

Desde Allá também é um filme que tem chances de chegar entre os cinco indicados. Para o meu gosto, até agora, estariam “classificados” para a grande disputa do Oscar Under Sandet, En Man Som Heter Ove, Elle e Desde Allá (com crítica neste link). Mas acho que estes dois últimos, até por guardarem muitas semelhanças entre si em vários sentidos, podem disputar apenas uma vaga. Ainda que seja um belo filme, En Man Som Heter Ove corre um tanto por fora para ganhar a estatueta dourada. Neste sentido e analisando apenas os filmes que eu vi até agora, vejo a Academia pendendo mais para Under Sandet, Fuocoammare (que pode levar como Melhor Documentário) ou Elle.