Curtas de Animação Indicados ao Oscar 2016

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Olá, meus caros leitores e leitoras do blog.

Amanhã à noite vai terminar a nossa expectativa sobre os premiados do Oscar 2016. Em outros anos eu comentei sobre os curtas que concorrem à premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Nem sempre sobrou tempo para fazer isso, mas resolvi retomar os comentários sobre os curtas neste ano.

Infelizmente no Brasil não temos tanto o hábito de assistir a curtas quanto deveríamos. Afinal, este é um produto tão interessante quanto um longa e, geralmente, é nos curtas que grandes diretores e outros profissionais começam. Diferente dos longas, também é mais difícil de encontrar estes curtas para assistir – seja nos cinemas ou mesmo na internet. Por isso vou divulgar, por aqui, um resumo de cada curta e disponibilizar os trailers.

Vou começar os comentários sobre os curtas indicados este ano pela categoria Melhor Curta de Animação. Os cinco indicados são Bear Story (Historia de un Orso); Prologue; Sanjay’s Super Team; We Can’t Live Without Cosmos; e World of Tomorrow. Vamos falar um pouco de cada um deles.

 

1. Bear Story (Historia de un Orso) ou A História de Um Urso

Primeiro curta-metragem de animação produzido pelo Chile a concorrer a um Oscar, Historia de un Orso é dirigido por Gabriel Osorio Vargas. O curta com 11 minutos de duração marca a estreia do diretor na direção para o cinema – antes ele dirigiu apenas a série de TV Flipos.

De acordo com o site oficial do filme, Historia de un Orso é inspirado no exílio do avô de Osorio Vargas durante o regime militar chileno. No curta, um velho urso solitário conta a sua própria história através de um diorama mecânico. Ainda conforme o site oficial, a história é sobre “um urso que deseja voltar para a sua família, onde ele pertence”. Dirigido por Gabriel Osorio Vargas, o curta é produzido por Pato Escala.

Depois de estrear no Festival de Animação de Annecy, em 2014, o curta já contabiliza pouco mais de 50 prêmios em festivais mundo afora, incluindo reconhecimentos no Palm Springs Shortfest, Nashville, Cleveland Film Festival, Animamundi, além de prêmios do público em Zagreb, Florida Film Festival e Klik! Holland Festival de Animação.

No site oficial o diretor também escreveu uma mensagem contando o pano de fundo do filme e comentou: “Este curta-metragem é o resultado de mais de dois anos de trabalho duro. Alguns dos melhores animadores chilenos e artistas se uniram para fazer isso acontecer”.

Francamente eu não vi mais do que o que vocês vão ver abaixo. Ou seja, assisti apenas ao trailer do filme. Mas gostei muito do que eu vi. E ainda por ter essa mensagem de fundo, além de ser produto de um país do nosso continente, sinceramente a minha torcida amanhã irá para este curta. Para quem ficou interessado no curta, há ainda a página dele no Facebook. Na bolsa de apostas do Oscar, contudo, este curta aparece na terceira posição entre os favoritos. No site IMDb o curta tem a nota 7,6. Confira o trailer:

 

 

2. Prologue

Com seis minutos de duração, Prologue é ambientado há 2,4 mil anos e mostra uma violenta batalha entre dois grupos de espartanos e guerreiros atenienses. Esse curta é dirigido pelo experiente Richard Williams, um dos grandes nomes da animação dos Estados Unidos. Perto de fazer 86 anos, esse diretor nascido em Ontário, no Canadá, fez carreira em Hollywood.

Ele tem, no currículo, trabalhos como diretor de animação dos filmes The Pink Panther Strikes Again, Who Framed Roger Rabbit e The Thief and the Cobbler. Como diretor, ele tem nada menos que 10 curtas no currículo – como longas, apenas Raggedy Ann & Andy: A Musical Adventure e The Thief and the Cobbler. Por Who Framed Roger Rabbit ele ganhou dois Oscar’s em 1989.

Curta produzido no Reino Unido, Prologue tem apresenta uma técnica interessante, como de desenhos em stop motion, mas os comentários que eu li de pessoas que viram o curta é de que ele carece de uma boa história. É, basicamente, um trabalho de boa técnica e artístico.

Na bolsa de apostas para o Oscar ele aparecem em quarto lugar. Independente se o curta merece ou não ganhar, é bom ver um veterano como este ainda produzindo, filmando e chegando a ser indicado pela Academia. No site IMDb o curta tem a nota 6,1. Encontrei o vídeo abaixo que mostra um pouco da técnica do curta e também um depoimento de Richard Williams:

 

 

3. Sanjay’s Super Team ou Os Heróis de Sanjay

Nada como um bom material de divulgação. Faz toda a diferença para um curta não apenas ficar mais conhecido, mas também para ganhar votos. E isso é algo que a Pixar sabe fazer muito bem. Outro indicado na categoria Melhor Curta de Animação é este Sanjay’s Super Team, dirigido por Sanjay Patel.

O curta também tem uma história interessante por trás – com requinte um tanto autobiográfico, a exemplo do concorrente chileno. A sinopse de Sanjay’s Super Team é de que “um garoto indiano, entediado com as meditações do pai, imagina os deuses hindus como super-heróis”. Pelo que eu pude ver do trailer do filme e do vídeo com comentários do diretor, o curta vai além desta “brincadeira” inter-geracional.

Para começar, esta produção resgata as memórias afetivas do diretor, além da cultura de seus pais. Há uma reflexão interessante sobre as diferenças entre gerações e, pelo visto, um resgate interessante de diferentes culturas. A exemplo dos outros concorrentes eu não achei o curta completo na internet, mas encontrei o trailer e o depoimento do diretor, que já dão uma boa prévia da produção.

Com sete minutos de duração, Sanjay’s Super Team tem produção executiva de John Lasseter, um dos chefões da Pixar. Antes de estrear na direção com este curta, Patel tinha trabalhado no departamento de animação de 10 longas, incluindo Toy Story 2; Monsters, Inc.; The Incredibles; Ratatouille; e Monsters University. Este curta acompanha o lançamento da Pixar The Good Dinosaur.

No site oficial do curta, Sanjay’s Super Team comenta que o diretor utilizou a sua própria experiência para contar a história de um menino cujo “amor pela cultura pop ocidental entra em conflito com as tradições de seu pai”. Sanjay é fascinado por desenhos animados e por quadrinhos, e o pai tem um belo desafio para tentar apresentar para o filho as tradições da prática hindu.

A imaginação do menino transforma as divindades Hanaman, Durga e Vishnu em super-heróis, e o diretor se inspirou nas tradições das danças Bharatanatyam, Odissi e Kathakali para dar uma personalidade diferente para cada uma delas. Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para o curta.

Confira um dos trailers do curta por aqui:

 

E neste vídeo o making off da produção – incluindo comentários do diretor:

 

 

4. We Can’t Live Without Cosmos

Com 16 minutos de duração, este curta russo conta a história de dois cosmonautas que são amigos e que batalham todos os dias, juntos, para realizar o sonho de viajarem para o espaço. O curta é dirigido por Kostantin Bronzit, 49 anos, que tem nove curtas no currículo como diretor, um longa e um episódio de série para a TV.

Esta é a segunda indicação de Bronzit para o Oscar na categoria Melhor Curta de Animação. Ele concorreu, antes, com Lavatory – Love Story, no Oscar de 2009. We Can’t Live Without Cosmos ganhou, até o momento, seis prêmios, e foi indicado a outros quatro – incluindo aí o Oscar.

Na lista das bolsas de apostas o filme aparece em último lugar. Não consegui assistir aos curtas na íntegra mas, pelos trailers, ele me pareceu um dos mais interessantes – junto com o curta chileno. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção.

Confira o trailer do curta:

 

E confira esta matéria da rede RT sobre a indicação da animação russa:

 

 

5. World of Tomorrow

Este curta finaliza a lista de indicados deste ano mostrando a diversidade de produções do mercado e a escolha igualmente diversificada do Oscar. World of Tomorrow é uma produção filosófica que promove o encontro de uma mulher com a sua versão mais nova, mostrando para a menina que um dia ela já foi que tipo de futuro ela terá.

Este curta com produção 100% dos Estados Unidos é dirigido por Don Hertzfeldt, diretor californiano de 39 anos que tem 12 curtas e um longa no currículo como diretor. O único longa dele até agora foi It’s Such a Beautiful Day, lançado em 2012.

Antes de ser indicado ao Oscar por World of Tomorrow, Hertzfeldt concorreu também a uma estatueta dourada da Academia por Rejected no Oscar de 2001. De acordo com o site da produtora do curta, World of Tomorrow já ganhou 42 prêmios, incluindo o Grande Prêmio de Curtas no Festival de Cinema de Sundance.

De acordo com as notas de produção, este é o primeiro curta animado digitalmente por Hertzfeldt. Os outros curtas dele foram filmados em 16 mm e 35 mm e animados com um tablet Cintiq, usando Photoshop e Final Cut Pro. O diretor disse que escolheu a animação digital porque a história se passa em um futuro abstrato e que teria sido muito demorado se ele fizesse a animação diretamente no filme.

Francamente, pelo trailer, achei este curta um dos fortes concorrentes do ano. Ele tem 17 minutos de duração. Na bolsa de apostas ele aparece em segundo lugar, atrás apenas de Sanjay’s Super Team. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme. Confira o trailer aqui:

 

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Difícil avaliar os curtas apenas pelos trailers. Não vejo a hora de conferir cada um deles na íntegra. Mas pelo que é possível ver da proposta de cada um dos curtas, levando em conta a proposta artística e narrativa de cada produção, os três mais interessantes são World of Tomorrow, Historia de un Orso e We Can’t Live Without Cosmos.

Os três me chamaram a atenção pela técnica e pela história. Minha torcida particular vai para os “hermanos” chilenos representados por Historia de un Orso. Ainda assim, neste caso, assim como na categoria de Melhor Animação, o favoritismo é do filme com maior recursos e uma marca forte por trás. Neste caso, leva vantagem Sanjay’s Super Team. Logo mais saberemos quem se sairá melhor.

Ex Machina – Ex_Machina: Instinto Artificial

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Desde que o homem se imagina sendo Deus pensamos como será quando as máquinas pensarem por si mesmas. Quando elas tiverem o controle. Antes veio 2001: A Space Odyssey e Blade Runner, divisores de água neste sentido. E agora vem se juntar a eles este Ex Machina. Provocador em outro sentido, menos sombrio mas com uma boas surpresas no caminho, este filme é mais uma produção acertada que o Oscar selecionou para estar entre os seus indicados neste ano.

A HISTÓRIA: Em uma empresa em que todos estão conectados, Caleb (Domhnall Gleeson) recebe a mensagem de que ele foi sorteado com o primeior prêmio. Na sequência ele manda uma mensagem para Andy T avisando que ele ganhou o prêmio. O amigo pede para ir junto com ele e, na sequência, várias pessoas cumprimentam Caleb pela conquista. Corta.

Um helicóptero rasga uma área de montanhas geladas. Caleb pergunta quando eles vão chegar na propriedade de seu chefe, Nathan (Oscar Isaac). O piloto ri e diz que eles já estão sobrevoando a propriedade há duas horas. Caleb desce e tem que andar até a casa de Nathan, com alta segurança. Lá ele vai conhecer Ava (Alicia Vikander), o mais recente experimento de Nathan e a consolidação de uma AI (Inteligência Artificial da sigla em inglês) humanoide pra valer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ex Machina): Não é uma tarefa exatamente simples fazer um filme de AI (Inteligência Artificial). Especialmente porque já temos ótimos filmes do gênero, inclusive os super clássicos 2001 e Blade Runner já citados. Apesar disso, Ex Machina assumiu este desafio e consegue um bom resultado com o que ele se propôs a fazer.

Ex Machina tem alguns diferenciais importantes em relação aos filmes anteriores. Ele acerta em apostar em um viés mais psicológico e conceitual, além de acrescentar algumas colheradas de apelo sexual na história. O caráter psicológico marcou 2001 e uma pitada de provocação sexual podemos encontrar em Blade Runner, mas sem dúvida alguma Ex Machina explora mais estes dois pontos – nos outros filmes há outras questões importantes em cena.

Mesmo não sendo muito inovador, Ex Machina introduz o tema dos “riscos” que a AI pode trazer para quem se arriscar a ser Deus para uma nova geração. Entendo porque muitos espectadores sem as referências anteriores devem ter ficado maravilhados com esse filme. Mas quem já assistiu aos clássicos, certamente, terá outra impressão. Menos eufórica e mais embasada. Ainda assim, preciso admitir, esse filme tem mais acertos que erros.

Para começar, gostei da atmosfera criada pelo diretor e roteirista Alex Garland. O clima de suspense começa a ser criado logo no início, especialmente na chegada do protagonista na “terra prometida” do seu chefe e ídolo. Todo aquele excesso de segurança, claro, esconde algo sinistro. Inicialmente Garland vende, acertadamente para o desenrolar da história, a ideia que aquele aparato todo é porque o empresário Nathan é um grande desconfiado.

Rico, famoso, ele está se preservando de problemas – como sequestros – e, principalmente, de ter os seus avanços tecnológicos “vazados”. Como pede a regra do bom cinema, o roteiro de Ex Machina vai crescendo com o tempo. Nos primeiros dias do teste que Caleb aplica em Ava o “gelo” vai sendo quebrado e a interação mais íntima entre os dois começa a ganhar corpo. Em paralelo, temos a perda de energia estranha do local – não demora muito para o espectador desconfiar sobre a fonte daqueles acontecimentos.

A conversa entre Caleb e Ava segue o roteiro esperado, até que ela larga algumas frases bem estranhas quando mais um blecaute acontece – neste momento as gravações e o monitoramento feito por Nathan acabam sendo interrompidos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A quebra da previsibilidade na conversa de Caleb e Ava é muito bem feita mas, cá entre nós, é difícil de acreditar que um cara tão controlador e metódico quanto Nathan aceitaria ficar tanto tempo sem ouvir tudo que os dois falavam, ou não?

Neurótico pela segurança e pelo próprio experimento, sem dúvida alguma Nathan não aceitaria facilmente ficar no “blecaute” tantas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, na última pequena reviravolta do roteiro, Nathan comenta que instalou um sistema para registrar tudo independente dos blecautes. Só não fez muito sentido ele demorar tanto para fazer isso. Claro, para o roteiro de Garland foi importante isso acontecer apenas no final, mas é difícil acreditar que Nathan realmente daria tanta bobeira durante vários dias.

Depois das dicas de Ava, Caleb começa a observar tudo com uma dupla atenção. Em certo momento ele percebe que Nathan realmente tem um comportamento estranho. Na verdade, para o espectador um pouco mais atento, essa desconfiança está presente desde o início. Afinal, quem está sempre mergulhado em bebida tem que estar enfrentando algum problema sério, ou não? O problema pode ser transitório ou mais grave. A resposta para esta dúvida o espectador terá com o tempo – ao lado de Caleb.

Pouco a pouco o tom sinistro vai ganhando espaço e Caleb nos guia pela mente de Nathan. Afinal, tudo gira em torno do anfitrião do programador e criador de Ava. Mas a pessoa que dá um baile em todo mundo é a ciborgue – como manda o figurino do gênero, aliás. Até aí, nenhuma inovação. Os maiores acertos do filme estão mesmo no jogo psicológico entre os personagens – Nathan, Caleb e Ava – e na atuação provocativa de Alicia Vikander.

A atratividade da personagem, cuidadosamente planejada por Nathan, é um elemento provocador importante para a história. Finalizando os ganhos do filme, vale comentar a forma com que ele segue uma nova linha de produções que mostram as mulheres dando a volta por cima.

Vimos isso antes de forma marcante com Mad Max: Fury Road (comentado aqui). Depois veio Carol (com crítica neste link), Room (uma das grandes surpresas do Oscar, comentado aqui), Mustang (comentado neste link) e, agora, Ex Machina. Várias produções apostam as suas fichas na “libertação” feminina. Uma onda positiva que, esperamos, não seja apenas “modinha”. Ex Machina vem nesta levada sendo provocativo, sexy, psicológico e com a pitada adequada de suspense e esquisitice.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Diversos elementos contribuem para este filme funcionar bem. Sem dúvida alguma uma das qualidades é o roteiro de Alex Garland que, descontados os pequenos erros, tem o ritmo adequado e as pequenas viradas de direção nos momentos certos. A direção dele também é bem competente, sempre próxima dos atores e da ação, distanciando-se apenas nos momentos em que isso interessa para a história.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma os grandes destaques são o design de produção de Mark Didby; a direção de arte de Katrina Mackay e Denis Schnegg; a decoração de set de Michelle Day; o departamento de arte com 43 profissionais; o departamento de efeitos especiais com 11 profissionais e os efeitos visuais envolvendo nada menos que 148 profissionais. Destes filmes que empregaram muita gente nos bastidores e que exigiu muito trabalho além das câmeras.

Apesar de ser um bom roteiro, três pontos me incomodaram nesta produção. Vejamos. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Para começar, aquele ponto que citei na crítica: dificilmente o genial e um tanto neurótico por segurança e controle Nathan deixaria de ouvir as conversas durante os blecautes entre Caleb e Ava por tantos dias. Depois, segundo Caleb, ele havia invertido a lógica da segurança da casa quando os blecautes aconteciam. Quando Ava sai do local, aparentemente, a casa passa por novo blecaute. Segundo Caleb, naquele momento, as portas não deveriam todas abrir? Neste caso ele poderia sair do local tranquilamente. O terceiro ponto é a falha temporal da história. Quando Caleb e Nathan estão conversando, na cozinha, o dono da casa comenta que Caleb irá embora no dia seguinte às 8h. Aparentemente, logo depois, Nathan mostra que estava ouvindo as conversas entre Caleb e Ava mesmo nos blecautes, e toda a sequência seguinte se desenrola. Mas quando Ava sai da casa ainda é dia e ela logo vai pegar o helicóptero… é como se toda essa ação tivesse acontecido muito cedo na manhã da saída de Caleb. Mas não é isso que o roteiro nos apresenta. Teríamos dois dias diferentes para acompanhar – desde a fala de Caleb e Nathan e até a “manhã seguinte” em que Ava escapa. Ou seja, uma bela falha temporal na história. Descuido do roteirista.

Outros aspectos técnicos que valem ser citados é a trilha sonora de Geoff Barrow e Ben Salisbury; a direção de fotografia de Rob Hardy e a edição de Mark Day.

Como protagonista deste filme Domhnall Gleeson mostra, mais uma vez, que é um ator a quem devemos estar atentos. Ele sempre se sai bem em seus papéis e, parece, está em rota crescente de boas produções. O mesmo se pode dizer de Alicia Vikander que, ao que tudo indicada, deve levar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante este ano por The Danish Girl (com crítica neste link). São dois jovens talentos em ascensão e que merecem ser acompanhados. Normalmente o ator Oscar Isaac não me chama muito a atenção. Mas admito que neste filme ele está muito bem. Possivelmente é o melhor filme que eu vi dele até agora.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho de Sonoya Mizuno como Kyoko. Ela literalmente faz um papel mudo, mas tem bastante expressão e momentos feitos para ela se destacar.

Ex Machina estreou em janeiro de 2015 no Reino Unido, na Coreia do Sul, na Irlanda e na Suécia. No final daquele mês ele participou do primeiro festival, o de Göteborg. Depois o filme participaria, ainda, de outros cinco festivais. Em sua trajetória o filme acumulou 51 prêmios e foi indicado a outros 114 – um número impressionante. Entre as indicações estão duas para o Oscar 2016.

Esta é uma produção que teria custado US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 25,4 milhões. No restante dos mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 11,4 milhões. Ou seja, tem conseguido se pagar.

Boa parte de Ex Machina foi rodado na Noruega, mas houve cenas também rodadas no Reino Unido, nas cidades de Londres e Buckinghamshire.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme Independente Britânico, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhores Efeitos Visuais no British Independent Film Awards; e a escolha dele para figura na lista dos 10 melhores filmes independentes do ano pelo National Board of Review.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Na visão do diretor Alex Garland o futuro de Ex Machina está a apenas “10 minutos” de distância da realidade que temos agora. “Se alguém como o Google ou a Apple anunciar amanhã que eles tinham feito a Ava, todos ficariam surpreendidos, mas eu não ficaria tão surpreso”, comentou.

O título é um derivado da expressão “Deus Ex-Machina”, que significa “um Deus para a máquina”, uma frase que tem origem nas tragédias gregas. Segundo a história original um ator interpretando Deus desceria por uma plataforma (a máquina) para resolver os problemas dos personagens, o que resultaria em um final feliz para todos.

Não comentei antes, mas o filme acerta em fazer diversas referências interessantes, que vão de Pollock até Robert Oppenheimer e o seu livro Prometheus Americano. A fala de Nathan pouco antes de dormir bêbado é um trecho de Gita que foi citado por Oppenheimer antes dos testes com explosivos que ele estava fazendo falhou.

Os três personagens principais deste filme tem os seus nomes inspirados em personagens da Bíblia – nada mais apropriado para um filme que trata dos riscos do homem querer tornar-se Deus. Ava é, claramente, uma alusão à Eva; Nathan era um profeta do tempo de Davi; e Caleb foi um emissário de Moisés para avaliar a Terra Prometida.

Outras referências interessantes no filme são um retrato de Margaret Stonborough-Wittgenstein pintada pelo artista Gustav Klimt no quarto de Nathan – Margaret era irmã de Ludwig Wittgenstein, autor de The Blue Book, mesmo nome do motor de busca criado por Nathan segundo a história de Ex Machina; e uma pintura de Ticiano que aparece do lado esquerdo na parede cheia de post-its de Nathan – a obra intitulada A Alegoria da Prudência tem três cabeças em três animais que podem ser interpretados pelos conceitos de memória, inteligência e perspicácia.

Este filme marca a estreia na direção de longas de Alex Garland. Sem dúvida nenhuma uma grande estreia!

Ex Machina seria uma releitura moderna da última peça de William Shakespeare, A Tempestade, na qual existe um “mestre mágico” no domínio da situação, a sua bela pseudo-filha que nunca havia conhecido outro homem além do “pai” e um homem jovem que acaba sendo ferido por ela.

Durante o filme as cores verde, vermelha e azul são valorizadas – o verde na floresta e nas plantas; o vermelho nos blecautes e o azul no teclado do sistema de segurança, por exemplo. Esta é uma referência para o padrão RGB utilizado para exibir imagens nos sistemas eletrônicos.

Agora, hora das curiosidades com SPOILER (não leia… bem, você já sabe). No final do filme aparece Sessão 7 – Ava, ainda que Caleb não esteja mais administrando o Teste de Turing e que Nathan seja morto. Essa parte dá a entender que no fim das contas quem estava aplicando o teste nos dois era Ava. Em certo momento Nathan provoco Caleb a pensar em uma cena da Jornada nas Estrelas. De fato Ex Machina se parece muito com Star Trek: Requiem for Methuselah, de 1969, episódio em que um gênio inventor cria um androide feminino e coloca o capitão Kirk como catalisador de uma experiência para descobrir se a androide poderia amar. Tanto o episódio de Star Trek quanto Ex Machina tem cenas em que aparecem vários robôs parcialmente inativos.

Quando está apenas como máquina, Ava não pisca. Ela só dá as primeiras piscadas quando veste a pele de outra androide e, com isso, termina de “construir-se” como mulher.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 206 críticas positivas e apenas 17 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 8.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

Apesar de ter sido bem elogiado e bastante premiado, Ex Machina foi praticamente ignorado no Globo de Ouro 2016. Praticamente, eu digo, porque ele acabou rendendo uma indicação a Melhor Atriz Coadjuvante para Alicia Vikander – ela perdeu para Kate Winslet. Menos mal que o Oscar fez mais jus ao filme e o indicou em duas categorias.

CONCLUSÃO: Um filme competente em sua proposta. A história vai crescendo conforme mergulhamos junto com o protagonista na relação com Eva. Há um par de quase-reviravoltas na história, e isso faz Ex Machina cair no gosto de quem gosta de ser surpreendido. E ainda que este seja um filme que caminha ao lado de outras produções que contam uma certa “revolução feminina”, ele não apresenta, realmente, um grande avanço no gênero. Apesar de ser competente, ele não tem o impacto para o público atual que antes os clássicos da Inteligência Artificial – os já citados 2001 e Blade Runner – tiveram para os seus públicos. É bom, vale ser conferido, mas não é genial.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Ex Machina está concorrendo em duas categorias do maior prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que será entregue na noite deste próximo domingo, dia 28 de fevereiro. O filme concorre como Melhor Roteiro Original e como Melhores Efeitos Visuais. Sem dúvida alguma merecidas as duas indicações, ainda que eu tenha algumas ressalvas quanto à primeira indicação. Se bem que, devemos admitir, este ano está mais fraco em termos de Roteiro Original.

Ex Machina tem boas sacadas no roteiro, como eu comentei na crítica acima. Mas ele não consegue ir tão além no subgênero da AI a ponto de reinventar a roda. Ou seja, Ex Machina até ajuda a refrescar os filmes de inteligência artificial, ganha pontos na escolha de um texto mais psicológico e com provocação sexual, mas não chega a deixar o espectador maravilhado. Ainda assim, é bem conduzido e tem as surpresas desejadas no roteiro. Sendo assim, merece chegar entre os cinco finalistas em Melhor Roteiro Original.

Sobre ganhar… francamente prefiro o roteiro de Spotlight (comentado por aqui). E sobre originalidade, acho que até Inside Out (com crítica neste link) é mais original que Ex Machina – levando em conta os filmes anteriores dos dois gêneros. Sendo assim, acho que ele não deve levar esta estatueta – eu consideraria um pouco de zebra se isso acontecesse. Acredito que Spotlight será premiado nesta categoria.

Analisando a outra categoria, Melhores Efeitos Visuais, Ex Machina também mereceu a indicação. Não assisti a Star Wars: The Force Awakens, mas há outros três grandes concorrentes na disputa: The Martian (com crítica por aqui), The Revenant (comentado neste link) e, principalmente, Mad Max: Fury Road. Francamente, na maior parte das quedas-de-braço entre Star Wars: The Force Awakens e Mad Max: Fury Road eu acredito que dará o segundo. Neste caso, desconfio, Mad Max vai faturar. Um segundo possível vencedor seja The Martian – o filme merecia, mais que os outros quatro.

Para resumir, em Melhores Efeitos Visuais Mad Max: Fury Road é o grande favorito, mas The Martian pode faturar. Ex Machina ganharia apenas se tiver bom lobby e para não sair de mãos vazias – o que eu acho ser o resultado mais provável.

Krigen – A War – Guerra

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A guerra sempre contabiliza vítimas. Por mais que alguns tenham atitude de heróis e que certos filmes tentem imortalizar estas histórias, a guerra sempre tem mais histórias de mortes e de vítimas inocentes do que de heroísmo para contar. Krigen trata da essência da guerra. Sem pirotecnia, sem muitos bombardeios, mas quase em um estilo documental. Focando em um grupo pequeno de personagens e em uma história que vai crescendo na dinâmica e no drama humano, Krigen consegue ir mais longe no debate sobre as razões da guerra do que muitas outras produções recentes.

A HISTÓRIA: Território agreste entre montanhas. Um batalhão camuflado caminha no vale. O grupo se comunica com o comando para dizer que eles chegaram no local em que eles queriam. Os soldados caminham em fila. Tudo está tranquilo, até que Anders (Alex Hogh Andersen) é atingido por uma bomba. Os outros soldados pedem ajuda de um médico, mas Anders morre rápido. Lasse é um dos soldados mais impactados com a morte do colega. No QG o comandante Claus Michael Pedersen (Pilou Asbaek) também fica afetado. Em breve ele vai passar a fazer patrulhas com os soldados para incentivá-los a seguir na missão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Krigen): O cinema nórdico normalmente tem um olhar interessante sobre os dramas humanos. Não é diferente com Krigen. Há muitos filmes sobre guerras e conflitos de qualidade. Diversos deles, inclusive, recentes. Mas gostei do foco desta produção.

A primeira qualidade de Krigen é que o roteiro do diretor Tobias Lindholm começa direto na ação, em um dos fatos que serão determinantes para a história, e não para de crescer até o final. Mas sem pirotecnia ou apelar para recursos para aumentar o drama superficialmente. Aliás, outra qualidade do filme é que ele é quase um documentário de tão realista. Lindholm parece ter sempre a preocupação de mostrar “a vida como ela é” da forma mais natural possível.

Sendo assim, logo no início do filme também acompanhamos a intimidade do personagem principal. Ele está no front da batalha de uma coalizão de países contra o terrorismo, mas o outro lado de sua vida está longe, em outra batalha sendo enfrentada pela mulher dele, Maria Pedersen (Tuva Novotny). Enquanto ele está no ambiente tenso da luta contra os talibãs do Afeganistão, ela está enfrentando problemas com os filhos em casa.

Especialmente o filho do meio está rendendo preocupação. Maria tenta segurar as pontas como dá, mas a verdade é que o garoto sente a falta do pai. Pelo trabalho que desempenha, Pedersen fica muitos meses longe de casa. O filme acerta ao mostrar logo o evento que vai desencadear escolhas, decisões e as consequências delas por parte do protagonista. A partir dali o filme só vai crescendo.

Comandante de uma tropa, Pedersen resolve, após perder um soldado de 21 anos e de ouvir questionamentos de pessoas do grupo sobre a razão dele estarem lá se arriscando e morrendo, que ele vai partir para a ação. Para dar o exemplo. Então ele sai do quartel e passa a fazer o patrulhamento com a tropa. Como um soldado normal. Essa decisão dele acaba colocando o capitão em contato com uma família de civis. Ele ajuda uma menina com o braço queimado e se coloca à disposição para seguir ajudando eles.

Até aí, tudo aparentemente bem. Mas aí surge o diferencial deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que decide “dar o exemplo” e fazer patrulha com a tropa, Pedersen começa a perder a visão do conjunto. Ele oferece ajuda para o pai de família – algo que nenhum outro soldado poderia fazer. Quando o homem vai com a família pedir ajuda do comandante para evitar que eles sejam mortos pelo talibã, Pedersen volta a ser o responsável pelo grupo e decide seguir as regras.

Mas o problema é que ele já não poderia fazer isso. Quando decidiu fazer o patrulhamento e ajudar aquele cidadão, o que, em teoria, é um dos propósitos da missão daquele grupo, ele mudou a realidade sem ter o direito de voltar atrás. Só que ele nega acolhida para aquela família e, naquele momento, ele e os demais de sua tropa, assim como os espectadores, já imaginam o que virá em seguida.

Quando na manhã seguinte eles chegam no vilarejo e encontram o pior cenário possível, ao mesmo tempo eles caem em uma emboscada. Faz parte do grupo justamente Lasse, o soldado que Pedersen resolve proteger logo após a morte de Anders mas que acaba voltando para a ação. Apenas para virar alvo de uma missão que poderia ter sido evitada se Pedersen tivesse cedido às regras e tivesse ajudado a família de civis quando ainda era possível.

Na rápida e caótica situação do grupo estar sendo atacado, Pedersen novamente faz uma escolha equivocada. O espectador não sabe disso naquele momento, mas na sequência. Mais uma vez, naquela situação, Pedersen quer proteger o seu grupo, não importa com que custo. E aí vem várias reflexões importantes deste filme.

Para começar, dá para entender as razões que fizeram o protagonista patrulhar junto com os seus soldados. Ele quer dar o exemplo, mostrar que ele também está comprometido com a missão – ele não apenas um sujeito que manda nos demais em um local protegido e que não pretende “sujar as mãos”. Certo ele fazer isso no início, para dar o exemplo e como estímulo. Mas por que ele ficou tanto tempo fazendo isso? Seria porque ele achava mais emocionante e atrativo estar no campo de batalha do que no QG? Ou será que ele achava que poderia mesmo ser decisivo para o batalhão nos locais de confronto? Não importa.

O importante é que, como observa depois no filme o amigo de Pedersen e oficial Najib Bisma (Dar Salim), ele ficou tempo demais no campo de batalha e perdeu a perspectiva, a visão de conjunto. Quando “pressionado” pela família de civis, que vai procurar o comandante em busca de ajuda, ele resolve seguir as regras. Essa decisão é fundamental e uma das piores que ele poderia ter tomado. Quando ele pede o bombardeio para defender o seu grupo sob ataque, não importando se o local que será afetado é mesmo o ponto em que estão os talibãs, ele comete um crime de guerra e um crime humanitário.

Ainda que no início do tiroteio alguém do grupo comenta que o Ponto 5 parece ser a fonte dos ataques, Pedersen em nenhum momento consegue confirmar esse fato. Ele “chuta” um local próximo da onde parecem sair os tiros e pede um ataque aéreo sem ter a confirmação necessária, mesmo tendo alegado que tinha essa confirmação. Muitos civis morrem no ataque, inclusive crianças.

E daí vem a grande primeira pergunta do filme: essa escolha de Pedersen em defender os seus soldados mesmo a custas da vida de civis não nega o propósito deles estarem ali? Afinal, como ele mesmo diz no início do filme, o grupo está no Afeganistão para “proteger e apoiar a população civil”, para que eles saibam que podem sonhar com a liberdade e a dignidade porque tem o apoio daqueles soldados.

Quando ele se nega a ajudar aquela família de civis e quando, por consequência disso, os soldados dele são emboscados e o comandante decide atacar um alvo mesmo sem saber que mataria outros civis ele está fazendo justamente o contrário da missão que eles se propuseram. Então, afinal, por que eles estão lá? Para protegerem a si mesmos acima de tudo, não importando se isso possa significar a vida de civis, de gente inocente?

O propósito mesmo da missão e da presença militar em zonas de conflito acaba sendo questionado pelo filme desta forma. E a verdade é que os conflitos que conhecemos no Afeganistão, na Síria e em outras partes e que envolvem grupos armados e terroristas parece mesmo uma história sem fim. Ignorar o problema e deixar estes grupos aterrorizarem populações inteiras não parece ser a solução. Mas combater o problema com soldados humanos e passíveis de erros e que apenas aumentam o problema matando civis também não parece ser a solução.

Depois que volta para a casa e é jugado pelo que fez, Pedersen ainda mente. Algo totalmente contrário ao código e a honra militar. Alguém pode argumentar que ele foi pressionado pela mulher para que ele assuma as responsabilidades em casa. É verdade. Ele é pressionado para ser marido, chefe de família e pai. É outra parte importante da vida dele. Mas o peso na consciência de ter matado inocentes certamente vai persegui-lo pelo resto da vida. Então a destruição não é apenas no plano vivenciado na zona de conflito, mas também na vida pessoal.

Ninguém, parece, sai bem desta situação. Mas a destruição de um lado não pode ser comparada com a do outro lado. No fim das contas Pedersen volta para casa, é absolvido e tem a sua família e diversas oportunidades para recomeçar a vida em um local seguro e com qualidade de vida. As pessoas que ele disse que iria proteger e defender seguem sendo perseguidas e mortas, sem dignidade ou oportunidade de melhorar de vida. Krigen não camufla o fato de que estamos vendo duas realidades muito diferentes e que fica claro que qualquer “ajuda” nunca é suficiente porque sempre olha de forma diferenciada os dois lados.

A primeira análise que este filme proporciona é esta. O espectador fica um tanto perplexo com a forma com que as pessoas são mortas com facilidade, não importa se crianças ou adultos. Esta é a guerra. Ali há mortes absurdas acontecendo o tempo inteiro. O filme de Tobias Lindholm é duro, sincero e necessário por causa disso. Bem narrado, ele não deixa o espectador perder interesse em momento nenhum pela história. Uma narrativa que nos mostra a falta de propósito da guerra ao mesmo tempo que nos revela quase a impossibilidade de abrir mão dela.

Passado um tempo depois de ter visto o filme, Krigen desperta outra análise um tanto independente da história: a de como cada escolha nossa nos leva a uma realidade e, consequentemente, define o nosso “destino”. Uma escolha boba ou simples, aparentemente, pode nos levar a uma emboscada ou a um problema maior que, por consequência, nos leva a uma atitude extrema. E assim por diante. Cada escolha, no fim das contas, acaba sendo decisiva. Sempre bom ver um filme que é competente em nos contar essa história fundamental.

NOTA: 10 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus caros leitores, esta semana que passou foi dura. Correria pura. Assisti a Krigen mais no meio da semana mas, só agora, consegui terminar a parte essencial da crítica sobre ele. Vou, excepcionalmente desta vez, deixar apenas a parte essencial por aqui. O restante dos comentários desta seção “Obs de pé de página” eu vou deixar para fazer amanhã, beleza? Até breve.

Voltei conforme o prometido. 😉 Os primeiros aspectos técnicos mais relevantes de Krigen foram citados anteriormente: o roteiro e a direção de Tobias Lindholm. Ele acerta no roteiro ao fazer a escolha por uma história com apelo crescente e que cuida em dar uma “visão geral” da vida do protagonista, abordando tanto a realidade que ele vive na guerra quanto o que espera ele em casa. Isso não é encontrado sempre no cinema, por isso é algo a ser valorizado. Também vale destacar a direção de Lindholm que, claramente, do primeiro até o último minuto, privilegia a câmera na mão e um estilo que lembra o de documentários. Escolha bem acertada para o tipo de história que ele está contando em Krigen.

Outro ponto a destacar neste filme é o trabalho dos atores. Todos estão muito bem mas, sem dúvida, o grande destaque da produção é o protagonista vivido por Pilou Asbaek. O ator está muito bem em qualquer momento da história e convence o espectador sobre as suas convicções e dúvidas, tornando o personagem de Claus Michael Pedersen mais humano. A atriz Tuva Novotny também está muito bem, assim como as crianças que fazem os filhos deles e os soldados do batalhão de Pedersen.

Há um ponto fundamental nesta história e que talvez nem todo mundo tenha muito claro depois que o filme termina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A questão é se alguém de fato confirma o local exato em que estão os talibãs que atacam o pelotão do protagonista. Ainda que um soldado tenha sugerido o local quase no início do tiroteio, em momento algum eles tem a confirmação sobre a presença dos terroristas ali. Não há confirmação visual por parte de ninguém – nem do comandante. Mas Pedersen decide, um tanto desesperado, mandar o ataque mesmo assim. Ele quer salvar o seu grupo e não se importa com o preço que outros possam ter que pagar por isso.

Da parte técnica do filme ainda vale destacar a competente direção de fotografia de Magnus Nordenhof Jonck e a eficiente edição de Adam Nielsen. O design de produção de Thomas Greve também ajuda a ambientar o espectador no clima adequado para o filme.

Krigen estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2015. Depois o filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Zurique, Reykjavik, Palm Springs e Göteborg. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio, apenas foi indicado para 11 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Não há informações sobre o custo de Krigen. Nos Estados Unidos, aonde o filme estreou de forma limitada, ele fez pouco mais de US$ 36 mil nas bilheterias. Um valor irrisório e que só reforça a pouca chance que a produção tem de concorrer a qualquer prêmio – especialmente o Oscar.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Quase todo o elenco de Krigen é formado por soldados dinamarqueses que realmente foram designados para o Afeganistão.

Esta produção foi rodada em Copenhague e em Konya, na Turquia.

Esta é a quarta vez que o ator Johan Philip Asbaek retrata um soldado dinamarquês. A primeira vez foi na segunda temporada de Forbrydelsen (The Killing). Depois ele fez esse papel no programa de TV 1864 e, novamente, em 9. April.

Esta é uma produção 100% da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e apenas quatro negativas para o filme, o que garante para Krigen uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,9.

Pensei um pouco melhor e achei um pouco exagerada a minha nota 10 para o filme. Acho que ele é bom, mas não chega a ser brilhante. E nem mesmo o melhor filme do gênero dos últimos tempos. Por isso resolvi diminuir um pouco a avaliação.

CONCLUSÃO: Filmes de guerra existem aos borbotões. Cada um tem um propósito. O que eu mais gostei em Krigen foi questionar o papel do “bom soldado”, do homem honrado que volta para casa e que tem uma vida para seguir. Com narrativa envolvente e claramente dividida em duas partes, este filme não deixa a atenção do público cair em nenhum momento. Além de bem construída, a trama faz pensar sobre os conflitos que parecem não ter fim, retroalimentando uma violência que ainda não sabemos aonde vai parar. Achei brilhante e profundo. Não consegui pensar em uma nota diferente da que eu dei antes. Mais uma bela descoberta do Oscar 2016.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Podem malhar a premiação máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood o quanto quiserem. Como qualquer outra premiação, esta tem falhas. Mas quem mais além do Oscar colocaria tão em evidência um filme como Krigen. E como eu disse antes, que belo achado o deste filme!

Ainda não assisti, mas todas as bolsas de apostas do mercado colocam Son of Saul como o favoritíssimo na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2016. Além de Krigen, assisti a Mustang (comentado aqui) e a Theeb (com crítica neste link), outras duas produções nesta disputa. E ainda que eu tenha gostado muito de Mustang, admito que o meu voto iria para Krigen. Achei o filme brilhante. Talvez porque há tempos eu queria ver uma produção que tratasse os “mocinhos” com a dúvida necessária.

Além de Son of Saul, falta assistir ao colombiano Embrace the Serpent. Não dá para bater o martelo sem ter visto a estes dois filmes. Mas algo é certo: este ano a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira está bem diversificada e com produções bem interessantes. Em comum, quase todas tratam de temas que seguem muito atuais e passíveis de debate. O que aproxima um pouco a categoria dos documentários – ótimo neste ano também, diga-se.

O público, com tudo isso, só tem a ganhar. Não sei se Son of Saul vai levar mesmo o caneco, mas desde já recomendo Krigen e Mustang para quem ainda não assistiu a estas duas produções. Para mim, as duas mereciam tranquilamente a estatueta.

O Menino e o Mundo – The Boy and the World – Boy & The World

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Há muitas formas de encarar a realidade em que alguém vive. Independente da ótica, do filtro ou da bandeira que se use, o importante é volta e meia repensar a respeito. O Menino e o Mundo tem uma ótica muito específica sobre a realidade em que um homem deve sair de sua terra para buscar trabalho longe e em meio a uma sociedade do consumo aonde a vontade coletiva tem pouco valor. É um filme com uma bandeira muito clara. Essencialmente artístico e sem diálogos, é uma produção que foge do que a indústria está acostumada. E, por isso, é importante.

A HISTÓRIA: Começa com um ponto. Depois surgem círculos coloridos, até que os desenhos vão ficando mais complexos. Todos muito coloridos, vão se multiplicando e se sobrepondo enquanto surge a música também. Tudo termina em um ovo colorido. O Menino olha para o ovo e tenta entendê-lo. Mas quando surge uma borboleta, a atenção do menino vai para ela. E depois para um pintinho, passando por uma ninhada, uma lata, e assim a curiosidade do Menino vai o levando cada vez mais longe. Até que ele ouve uma sineta e corre para casa. Ele chega a tempo de ver a mãe dele se despedindo do marido. O Menino também se despede do pai mas, depois, começa a sua própria aventura de procurá-lo pelo mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a O Menino e o Mundo): A essência do cinema está neste filme. Esqueça os diálogos e as palavras. O que precisa ser contado pode ser entendido pela junção de imagens e música. O trabalho de Alê Abreu é realente artístico, do primeiro até o último segundo. Achei a produção encantadora, especialmente na parte inicial, quando assumimos a ótica de um menino que explora as cores e os sons do mundo.

Mas não demora muito para o filme assumir a sua bandeira. Muito válida, diga-se. Quando o pai do Menino vai embora, em busca de um trabalho, esta produção mergulha no sentimento de ausência que ele deixa no protagonista. O Menino resgata as lembranças que tem do pai antes de procurar ele mesmo o patriarca da família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Até perto do final o filme sugere que a busca do Menino pelo pai não passa de uma fantasia. Afinal, como um menino como aquele sairia do interior sem dinheiro e passaria por tantas aventuras e lugares sozinho. Então teríamos que encarar tudo isso como algo lúdico, uma fantasia na imaginação do menino.

Mas não. E aí que o filme ganha realmente relevância perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na reta final da produção é que entendemos que os dois personagens importantes que o menino encontrou em sua busca pelo pai eram, na verdade, ele mesmo em duas fases posteriores de sua vida. Aí sim, o filme não apenas faz muito mais sentido, mas revela-se muito mais interessante. O Menino acaba passando pelo mesmo processo que o pai, seguindo um dos caminhos possíveis que ele tenha percorrido.

Curiosa a escolha de Alê Abreu em nos apresentar o encontro do Menino primeiro com o Velho, sua fase mais recente no tempo, que trabalha na colheita do algodão. Depois é que o protagonista se encontra com a versão dele mais Jovem, na cidade, trabalhando em um tear. Talvez seja a forma do diretor reforçar a ideia de que, com o tempo, nos aproximamos cada vez mais do básico, do essencial. Até porque, no final, mais uma vez demitido após o avanço das máquinas, o Velho retorna para a sua terra da infância, retomando lembranças do Menino.

Algo interessante da proposta de O Menino e o Mundo é assumir o olhar do Menino como observador das duas fases importantes de sua vida na passagem do tempo. Ele olha e analisa de uma forma essencial o que acontece ao redor do Velho e do Jovem, que são ele mesmo no futuro. O olhar é diferente, é curioso, e está mais atento ao que é o essencial. No fundo cada um de nós carrega o nosso Menino ou Menina da infância nas fases seguintes, ainda que nem sempre percebemos a presença deles ali.

Esta produção também nos faz refletir de como a nossa parte criança avalia ou poderia avaliar o que fazemos nas fases seguintes da nossa vida. O que a nossa criança diria para o nosso adulto? O Velho e o Jovem são observados e também observam o Menino – por isso, e só dá para entender isso no final, eles não oferecem comida para o protagonista em nenhum momento. Afinal, ele não “existe” de fato. Apenas no sentimento e na memória.

Agora, algo que me chamou muito a atenção é a forma com que Alê Abreu defende um argumento. Isso é mais comum de ser visto em documentários do que em filmes de animação. Normalmente em documentários temos uma ótica muito bem defendida, o que percebemos neste O Menino e o Mundo também. Logo percebemos a diferença entre a beleza e o colorido do lugar de origem do Menino, da terra de seus pais, e as cores e/ou a falta delas nos outros locais em que as pessoas são trabalhadoras em série.

Para que o choque não fosse tão grande logo de cara, passamos do interior da infância do Menino para a lavoura em que o Velho trabalha. Lá ainda há verde, há um tom mais pueril e de liberdade do que na fase seguinte, em que temos o Menino e o Jovem na cidade. Fica clara a defesa do argumento de que o homem deveria preservar o seu contato e relação com a natureza e não abrir mão de tudo isso por um desenvolvimento que só traz caos e destruição.

Na primeira fase de descoberta do Menino existe a exploração do trabalhador – não apenas por eles serem vistos como peça de uma engrenagem, mas especialmente porque não se aceitam pessoas “fracas” ou doentes no grupo -, mas também existe a beleza do Carnaval e a de uma rotina simples acompanhada de um cachorro. Há mais diversão do que na segunda fase de descoberta, aonde as condições para os trabalhadores parecem muito piores na grande cidade aonde as pessoas trabalham distantes do local em que moram e que devem se sacrificar para sobreviver.

Claramente Alê Abreu defende que esta sociedade do consumo torna as pessoas descartáveis e que a única forma de conter a revolução popular é a repressão. A presença do Exército e o posterior confronto entre ele e as pessoas que estão se manifestando lembram do nosso próprio passado – e da realidade de muitos locais ainda. Além da exploração do indivíduo e da subjugação dele, o filme explora o resultado de tudo isso na degradação do meio ambiente e dos recursos naturais. Quando o Velho volta para a casa da infância, tudo o que vimos belo e colorido no início do filme está acabado.

Honestamente esse é um filme importante. Faz pensar em questões importantes, ainda que ele não utilize os recursos mais simples para chegar ao grande público. Me lembro de The Artist (com crítica aqui), o filme mais recente que explorou a linguagem do cinema mudo que eu tenha visto. A exemplo de O Menino e o Mundo, The Artist não chegou ao grande público. Foi um filme bem elogiado pela crítica, mas que não teve o mesmo apelo da audiência.

Com isso não quero dizer que um filme não possa explorar outras linguagens, sair do lugar-comum do cinemão. Pode e deve, claro. Mas isso não fará dele um filme popular. O Menino e o Mundo está para a arte como outras produções estão para o cinema de grande público. Quem vai conseguir fazer a sua mensagem chegar mais longe? Eu não tenho dúvida sobre esta resposta.

O diretor Alê Abreu fez uma escolha de tornar os diálogos deste filme incompreensíveis. Talvez essa tenha sido a forma dele de dizer que nenhuma explicação, nenhuma palavra faria muito sentido em um mundo carente de significado. Pode ser. Ou pode ser a forma dele destacar que os sons e a música criada por eles são mais significativos do que as palavras.

É válida a escolha do diretor, mas francamente eu acho que o filme teria sido mais interessante e mais “palatável” para o grande público se ele tivesse os seus diálogos. Ou então que ninguém nunca falasse nada, como em alguns raros filmes do cinema mudo – lembrando que antes do cinema ter som os diálogos eram manifestados através de intertítulos de fala. No caso de O Menino e o Mundo não temos falas inteligíveis e nem intertítulos de fala. O que conta é a narrativa das imagens e, claro, a música.

Como nos primórdios da sétima arte, quando os filmes eram acompanhados de orquestras, em O Menino e o Mundo tudo está plasmado em desenhos, sons e música. O trabalho artístico é incrível, realmente uma obra de arte. A narrativa também tem ritmo e uma trilha sonora fantástica. Respeito a ideia defendida pelo realizador, mas só discordo dela um pouco.

É verdade que deveríamos estar debatendo com muito mais constância e energia a degradação do meio ambiente e dos recursos naturais, assim como o estilo de vida que a maioria tem nas grandes cidades, mas daí a considerar que tudo o que vemos na sociedade de consumo é ruim… bem, vejo um certo endeusamento do que é natural um tanto pueril.

Sabemos que não há Terra o suficiente para todos viverem no campo. Somos muitos e é preciso uma produção além da básica de uma família para a própria subsistência. Precisamos, de fato, de uma produção em larga escala de alimentos para suprir a necessidade de toda a população, para falar apenas de sobrevivência. Se entrarmos na criação artística, se abandonássemos a tecnologia e abraçássemos apenas o giz e a cera, o que é uma forma bacana de criar, teríamos apenas um tipo de produto. Já imaginaram? Enfim, a discussão é longa.

Se entrarmos na área da saúde, então… uma saída seria abandonar as pesquisas e a alta tecnologia para retrocedermos em técnicas mais simples, talvez de prevenção das doenças? Prevenir sem dúvida é melhor que remediar, mas quanto mais se vive, mais inevitável se torna a aparição de doenças. E daí como procederíamos sem a assistência adequada?

Enfim, acho válido questionar a realidade atual, mas não tenho a mesma visão do realizador de que todo o progresso é ruim e que as cidades são apenas terreno de confronto e de precariedade da vida, enquanto o interior é local de beleza e de graça. Nem a cidade é tão feia e nem o interior é tão bonito. Este filme é panfletário e tem uma bandeira bem definida. Deve ser respeitado por isso. Mas para o meu gosto ele é lindo, válido, mas não me convenceu ou me emocionou como outras animações.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo nos créditos iniciais do filme chama a atenção que ele foi escolhido pelo Programa Petrobras Cultural e que ele recebeu recursos do BNDES e do Governo de São Paulo através da Sabesp. Essa é a grande diferença entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar nesta categoria neste ano. Enquanto os demais se sustentam por conta própria, com recursos dos estúdios e captação na iniciativa privada, o nosso filme e o cinema brasileiro ainda depende de verba pública porque falta não apenas uma indústria de verdade – que tenha recursos para se autofinanciar e lucrar – mas também apoio da iniciativa privada que sustente novas produções. Uma pena.

Agora, sem dúvida, os créditos iniciais me fizeram pensar que parte pequena dos recursos da Petrobras serviu para algo bacana, que foi viabilizar este filme. Certamente se todo o dinheiro desviado no Petrolão tivesse sido aplicado no cinema brasileiro, teríamos muitos outros projetos de qualidade saindo do papel. Faz pensar.

O Menino e o Mundo tem uma forte carga política. E um bocado de ironia sobre a nossa realidade. Por exemplo quando o filme mostra a “cobertura” da TV – claramente uma alusão ao Jornal Nacional – da repressão sofrida pela população pelo Exército. Aparecem cenas do confronto como se tivesse sido uma repressão “natural” e, em seguida, partimos para o futebol, para desfile de moda e para outros assuntos que logo vão “anestesiar” e tirar o foco das pessoas dos assuntos realmente relevantes.

Achei curioso que o filme mostra, perto do final também, cenas reais de degradação – saindo dos desenhos. Mais uma forma do diretor reforçar a mensagem de que ele não está falando de fantasias, mas da realidade. Curioso.

Os desenhos, claro, são fundamentais para esta história. Mas a trilha sonora também. Tiro o meu chapéu não apenas para a arte de Alê Abreu, mas também para a trilha sonora de Ruben Feffer e Gustavo Kurlat; e para a sonoplastia do departamento de som comandado por Marcelo Cyro, Pedro Lima e Teo Oliver. Também merece ser destacado o trabalho de edição de som de Vicente Falek e a mixagem de som de Ariel Henrique. Turma de primeira e fundamental para esta produção. Também há participações especiais de Naná Vasconcelos na percussão e no vocal; de Barbatuques na percussão corporal e vocal; e do Emicida com a música-título do filme. Um time de primeira.

O Menino e o Mundo estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Animação do Canadá. Depois o filme faria uma longa trajetória de festivais, passando por 20 outros festivais mundo afora. Até o momento esta produção ganhou 12 prêmios e foi indicada a outros oito segundo o site IMDb, incluindo a inédita indicação para uma animação brasileira na categoria Melhor Filme de Animação do Oscar. De acordo com este texto da Ancine, O Menino e o Mundo já conquistou mais de 40 prêmios em festivais internacionais.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme na escolha da crítica e da audiência no Annecy International Animated Film Festival, considerado o mais importante evento do gênero no mundo; para o prêmio de Melhor Animação Independente no Annie Awards, outra premiação fundamental do gênero; para o One Future Prize – Honorable Mention no Festival de Cinema de Munique; para o de Melhor Filme Brasileiro no Youth Award do Festival Internacional de Cinema de São Paulo; e para os prêmios de Melhor Filme de Animação e Melhor Filme Infantil no Cinema Brazil Grand Prize.

O filme fez, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco menos de US$ 76,9 mil. Uma bilheteria simbólica, claro. Poucos assistiram o filme, apesar dele ter sido indicado ao Oscar. E ele não deve dar um voo muito maior, até pelo perfil da produção. Mais uma produção artística do Brasil que chegará em poucas pessoas. Filme não-comercial.

Agora, algumas curiosidades sobre O Menino e o Mundo. De acordo com as notas da produção, todos os desenhos do filme foram feitos à mão pelo diretor Alê Abreu.

Alguns diálogos da produção são falados em uma língua imaginária que, na verdade, são falas em português colocadas de trás para a frente. As falas invertidas, claro, ficam incompreensíveis.

O filme mostra uma fazenda de algodão que, na verdade, realmente foi uma das primeiras a se adaptar às mudanças trazidas pelo início da Revolução Industrial.

No início o diretor Alê Abreu tinha a ideia de fazer um documentário sobre a América Latina. Depois surgiu a vontade de fazer uma animação. Segundo as notas de produção, no final, o diretor considera que fez dois filmes em um. Além de animação, O Menino e o Mundo teria um documentário embutido.

Este é apenas o quarto filme do diretor Alê Abreu. Ele teria estreado na direção com o curta Espantalho, de 1998. Depois viria o curta Passo, de 2007 e, naquele mesmo ano, o longa Garoto Cósmico.

Como o IMDb, minha base natural sobre os filmes, tinha pouco material de O Menino e o Mundo e sobre o diretor Alê Abreu, procurei alguma entrevista com o diretor. Encontrei esta, bem interessante, do Correio Braziliense (free apenas a versão resumida). Nela o diretor paulistano de 44 anos comenta sobre o trabalho de três anos e meio que resultou no longo indicado ao Oscar: “Dizia a todos: ‘a tela do seu computador tem que ser vista como uma página de papel em branco – esqueça que a tela é de vidro. Trate como um papel sulfite, que permita colagem, folha amassada e expressão viva e rica”. Vale conferir a entrevista inteira.

Nesta matéria assinada por Maria Clara Moreira, da Folha de S. Paulo, mais informações sobre a trajetória de Alê Abreu. Vale conferir. Fez parte da trajetória do diretor um estágio com o Mauricio de Souza quando Abreu tinha 11 anos. Mas desde aquela época ele gostava de ser independente – o que fez ele não seguir desenhando o personagem Horário e nem mandar desenhos para um concurso da Disney. Agora, ironicamente, ele tenta ganhar um Oscar do filme feito pela Pixar e distribuído pela Disney. Essas são as voltas que a vida dá. 😉

De acordo com a matéria a Folha e diferente do que consta no IMDb, Alê Abreu fez o primeiro curta em 1993, Sírius, que fez junto com colegas. O primeiro curto totalmente assinado por ele foi mesmo Espantalho, de 1998.

Como comentei antes, este filme não tem diálogos. Ao menos não diálogos compreensíveis. Ainda assim, aparecem os nomes de pessoas que dão as vozes para os personagens que falam o português invertido. Vale citar: Vinicius Garcia empresa a sua voz para o Menino; Felipe Zilse para o Jovem, assim como para as vozes adicionais; Alê Abreu para o Velho; Lu Horta para a Mãe; e Marco Aurélio Campos para o Pai.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para O Menino e o Mundo. Uma bela avaliação, levando em conta o padrão do site. Ainda assim, menor que o 8,3 recebido por Inside Out. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 38 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante 95% de aprovação e uma nota média de 7,6.

Esta é uma produção 100% do Brasil. Sendo assim, esta crítica entra para a lista de filmes que atendem a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que não é para todos. Assim como um filme do cinema mudo também não é. Em uma época em que sobram palavras e em que a tecnologia estimula filmes 3D e muita ação, O Menino e o Mundo convida o público para o contrário. Este é um filme artístico, artesanal, contrário a tudo que estamos acostumados nos filmes de animação. A proposta do diretor Alê Abreu é clara: rever o que estamos fazendo e pedir para que as pessoas pensem na roda viva em que elas estão imersas.

Um filme importante, bem feito, com algumas imagens verdadeiramente lindas, tem propósito e proposta. Como quase todo documentário, ele tem um ponto de vista para defender muito claro. Para o meu gosto, ele dá pouco espaço para a discordância, o que nunca acho muito positivo. De qualquer forma, é um filme que ganha pontos especialmente no final, quando ele se explica. Bonito, singelo e com uma bandeira bem clara, é uma animação que vai continuar sendo elogiada pelos críticos, mas que dificilmente cairá no gosto do grande público habituado a outro estilo de filme. Faz pensar e, pelo estilo onírico, fica bastante tempo ressoando na memória. Independente do gosto pessoal, algo é necessário comentar: esse é um filme para deixar os brasileiros orgulhosos.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Uma decisão bacana da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter selecionado O Menino e o Mundo entre os cinco finalistas na categoria de Melhor Filme de Animação deste ano. Esta produção, de fato, pode ser imaginada facilmente em festivais e premiações que deem destaque para produções mais artísticas e alternativas mas, inicialmente, este não parece ser o foco do Oscar.

Ainda assim, a maior premiação de Hollywood colocou o filme brasileiro lá. Acho bacana porque isso só demonstra como o “mainstream” também gosta do que é bem feito e de produtos que defendam ideias diferentes ou até críticas às suas. Este é o caso de O Menino e o Mundo, um filme claramente libertário e contrário ao sistema consumista. Quando saíram as indicações para o Oscar deste ano, vi muitos comentários de que teríamos “Davi contra Golias” – em uma referência entre a disputa de O Menino e o Mundo e Inside Out (com crítica neste link).

Me perdoem os ultranacionalistas (que acham sempre que algo do Brasil deve ganhar independente de qualidade ou do que for) e os super fãs de O Menino e o Mundo, mas para o meu gosto não se aplica aqui a comparação “Davi contra Golias”. Sempre em uma comparação há filmes melhores e outros nem tanto. Ponto. E isso, claro, varia conforme o gosto, a percepção de mundo e o momento atual de quem está avaliando.

Para o meu gosto Inside Out vai levar a estatueta de Melhor Filme de Animação não porque é “mainstream”, tem o poder dos grandes estúdios ou porque rendeu mais dinheiro que o artístico e alternativo O Menino e o Mundo. Ele vai ganhar porque é melhor. Achei francamente Inside Out mais complexo e com um roteiro mais criativo, um desenvolvimento mais interessante e pensado para todos os públicos do que O Menino e o Mundo, que acho mais restritivo, previsível e limitado na criatividade da história – não do desenvolvimento, que é bem feito.

Respeito as opiniões divergentes, desde já, mas quero deixar claro que se tivesse que votar, certamente daria meu voto para Inside Out. Com todo o respeito ao que O Menino e o Mundo apresenta e representa. Acho realmente que o Oscar irá para Inside Out. E será merecido.

Inside Out – Divertida Mente

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Logo depois de nascer, começamos a sentir. Há um choque importante de realidade quando saímos da barriga da nossa mãe. Depois daquele instante e durante a vida inteira, até o último minuto, vamos sentir. Especialmente os sentimentos primários, mas também outros que vão se tornando complexos – ou seriam apenas os primários mais “amadurecidos”? Não importa. É sobre sentimentos e sobre o passar do tempo que Inside Out trata. Algo surpreendente para um desenho animado, não é mesmo? Mas esse filme é genial justamente por isso, por tratar de forma tão divertida questões tão fundamentais e ao mesmo tempo complexas.

A HISTÓRIA: Começa com uma declaração: “Você já olhou para uma pessoa e pensou o que se passava na cabeça dela?”. Ela diz que sabe, pelo menos na cabeça da Riley (voz de Kaitlyn Dias). Vemos a imagem da pequena Riley, pouco depois de ter nascido, abrindo os olhos pela primeira vez e vendo aos pais dela. Daí surge a Alegria/Joy (voz de Amy Poehler), que vê tudo maravilhada e aperta um botão no cérebro da menina. Ao fazer isso, Riley sorri e surge a primeira memória feliz da menina.

A Alegria fala do momento incrível, em que existia apenas ela e Riley. Até que surge a Tristeza/Sadness (voz de Phyllis Smith). Conforme a menina foi tendo experiências e crescendo, a “sala de comando” no cérebro recebeu outros personagens: o Medo/Fear (voz de Bill Hader), a Raiva/Anger (voz de Lewis Black) e o Nojo/Disgust (voz de Mindy Kaling). Esse filme conta sobre a relação deles e de Riley conforme o tempo vai passando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Inside Out): Quando esse filme estreou nos cinemas acompanhei, com aquela distância saudável, o burburinho das pessoas sobre como ele seria genial. Ainda assim, perdi o momento de assisti-lo no cinema. Agora, como ele virou o favorito para ganhar o Oscar de Melhor Filme de Animação, resolvi conferir o filme. E fiquei deliciada com o que eu vi.

Admito que achei brilhante o começo do filme. A forma com que o roteiro de Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, baseado na história original de Docter e de Ronnie Del Carmen, contam a relação entre os sentimentos essenciais e as interações entre as “pessoas reais” da família de Riley. Simplesmente fascinante não apenas a relação entre os sentimentos e a forma com que eles se manifestam nos personagens, mas também a forma com que o filme trata o tempo.

Achei lindo e achei brilhante. A narrativa é incrível, pelo menos até que a Alegria e a Tristeza mergulham em uma aventura dentro do cérebro após abandonarem a “sala de comando” atrás das memórias fundamentais (ou memórias-base) da protagonista. Fascinante como os diretores Pete Docter e Ronnie Del Carmen contam essa história, equilibrando os conceitos das emoções e da relação delas com o indivíduo, a memória, o sonho e tudo o mais que compõe essa complexa realidade da nossa mente.

Muito criativa a forma com que Inside Out trata não apenas a forma com que reagimos às situações conforme estamos “dominados” e/ou com certas emoções no comando, mas também como as memórias marcantes para a gente acabam se transformando em nossas “ilhas” da personalidade. No caso da protagonista desta animação os fatos que aconteceram em sua vida até os 11 anos a levaram a ter ilhas da família, do hockey, da honestidade e da amizade.

Essas ilhas são os elementos fundamentais para qualquer um de nós. São os elementos que achamos importantes e que são alimentados durante a nossa vida. Mas conforme os sentimentos influenciam nas nossas memórias mais importantes e nestas “ilhas de personalidade”, tudo pode mudar. O que era visto como algo sólido e permanente pode mudar e desmoronar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento, quando a Raiva, o Medo e o Nojo ficam perplexos com o sumiço da Alegria e da Tristeza, Riley fica sem reação, como que perplexa. Depois, em outra situação, a sala de comando vai perdendo a capacidade de influenciar a menina porque ela está começando a “não sentir nada”. Quantas vezes, especialmente quando ficamos mais velhos, tem situações que parecem nos fazer “não sentir nada”? Nestas horas os elementos importantes da nossa personalidade parecem mesmo desligados.

Há muitos momentos grandes nesse filme. Como quando vemos as emoções da mãe (com voz de Diane Lane) e do pai (voz de Kyle MacLachlan) de Riley. Esse momento, em especial, me fez pensar. Como vocês devem ter notado, normalmente na cabeça de Riley quem está no centro da mesa de comando e tenta influenciar aos demais é a Alegria. No caso da mãe da menina quem faz esse papel é a Tristeza e, no caso do pai da protagonista, a Raiva. Isso não quer dizer que eles façam tudo, mas fica evidente a figura central de cada uma destas emoções para cada um dos personagens.

Ora, isso faz pensar. Quando somos crianças e até uma certa parte da nossa vida parece mesmo que a Alegria está no comando. Quando deixamos que outros sentimentos tomem o protagonismo da nossa vida? Quando a Raiva, a Tristeza ou o Nojo assumem o centro da mesa de comando e passam a influenciar aos demais? Pessoalmente eu fiquei pensando qual destes sentimentos primários estão no centro da sala de comando do meu cérebro. Parece bobagem, mas não é. 😉 E você, que sentimento está no comando do teu dia a dia?

Os filmes de animação são, em sua essência, entretenimento. Por isso mesmo é de aplaudir um filme do gênero que permita reflexões como essa. Maravilhoso. Outro requinte interessante deste filme é mostrar como as emoções tem, elas próprias, características de identidade muito definidas. Há várias cenas engraçadas no filme por causa disso, mas destaco, em especial, aquela em que a Tristeza está tão triste que ela não quer nem caminhar e a Alegria começa a puxá-la pela perna. hahahahahaha. Muito bom!

Enfim, esse filme tem diferentes sequências geniais, muito criativas e inteligentes. Mas para não dizer que o filme é perfeito, acho que ele perde muito o ritmo naquela sequência quase interminável da Alegria e da Tristeza tentando voltar para a sala de comando. O filme, que talvez estivesse “filosófico” demais para o gosto do grande público que os produtores queriam alcançar, acaba apostando muitas fichas no estilo aventura/ação para entreter o público. Daí entra em cena o antigo amigo imaginário de Riley, o personagem Bing Bong (com voz de Richard Kind).

Claro que a imersão dentro do cérebro da protagonista rende momentos interessante, como o ambiente do pensamento abstrato e a Terra da Imaginação. Mas há diversas sequências que poderiam ter sido resumidas e o caminho de retorno das duas emoções básicas para a sala de comando também poderia ter sido um pouco acelerado. No lugar daqueles caminhos quase intermináveis com Bing Bong, a Alegria e a Tristeza, poderíamos ter acompanhado mais da vida real de Riley com as suas emoções restritas.

Dá para entender a escolha dos produtores, mas acho que algumas sequências realmente não ajudaram tanto o ritmo da história quanto outras poderiam ter feito em seu lugar. Por outro lado, algumas sequências com Bing Bong servem para ajudar a dar “a moral da história”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por exemplo, quando o personagem está lamentando que jogaram fora o foguete que ele queria usar para levar Riley até o espaço e a Tristeza chega para consolá-lo. Neste momento a Alegria começa a perceber que a Tristeza pode ter uma função importante.

Ainda que as emoções acreditem que para Riley ser feliz ela precisa da Alegria, a verdade é que todos os sentimentos tem a sua importância. Muitas vezes é uma reação provocada pela Raiva, pelo Medo, pela Tristeza ou pelo Nojo que pode levar não apenas à sobrevivência da pessoa, mas também abrir espaço para a Alegria. Neste sentido, interessante também com os sentimentos dos adultos, aparentemente, amadureceram junto com eles. A análise se tornou mais complexa, assim como os comandos que eles tem à disposição.

Finalmente, é engraçado ver como os sentimentos de Riley acreditam que o pior já passou quando ela supera a mudança de cidade e todos os desafios que surgem a partir daí – novos amigos, escola diferente, falta inicial de hockey, pais muito ocupados e um pouco ausentes, etc. Quando tudo é superado, eles pensam: “Ela tem 12 anos, o que mais pode acontecer?”. Os sentimentos não sabem, assim como Riley, que os acontecimentos complexos mal começaram. Mas a forma com que esse filme tratou o assunto é apaixonante e de tirar o chapéu.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei esse filme divertido, sensível e inteligente na mesma medida. Ele tem um olhar bacana sobre a vida, as relações, nossas escolhas e sentimentos. Inside Out é uma forma bacana e lúdica de encarar o cérebro e o que acontece ali dentro. Uma bela sacada dos dos diretores e criadores da história original Pete Docter e Ronnie Del Carmen. Uma história realmente original.

Da parte técnica do filme, sem dúvida tem destaque o trabalho de edição de Kevin Nolting, o design de produção de Ralph Eggleston, o departamento de arte de Kevin Dart, os efeitos visuais criados por 48 profissionais e, claro, a essência do filme que é o trabalho do departamento de animação com o número impressionante de 269 profissionais envolvidos. Uau!

Achei a trilha sonora de Michael Giacchino boa, mas nada muito além do normal. Nada que mereça ser destacado. De qualquer forma, ao menos para mim, foi bom ver um filme de animação que não tivesse algum “momento para a música emocionante que será cantada por algum personagem principal”. Essa tem sido praticamente a regra dos filmes do gênero e gostei por Inside Out não ter utilizado este recurso. Só para variar. Isso é bom.

Inside Out estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015 e, depois, ele passaria ainda por outros cinco festivais e um fórum de cinema. Nesta trajetória o filme recebeu 51 prêmios e foi indicado a outros 84, incluindo indicações em duas categorias do Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação; para o prêmio de Melhor Filme de Animação e por ter aparecido na lista dos Filmes Top do ano segundo a National Board of Review; e outros 33 prêmios como Melhor Filme de Animação. Ele também foi escolhido como um dos 10 melhores filmes do ano pelo Prêmio AFI.

Esta produção teria custado US$ 175 milhões, aproximadamente, e faturado, apenas nos cinemas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 356,5 milhões até dezembro de 2015. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez outros US$ 500,35 milhões. No total, até o momento, o filme teria feito US$ 856,8 milhões. Nada mal, hein? Sem dúvida alguma ele deu lucro e fez a alegria dos produtores. 😉 Um grande sucesso de público e de crítica, pois.

Ainda que tenha sido coproduzido pela Disney, este filme foi totalmente feito nos Estúdios de Animação da Pixar na Califórnia.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Os roteiristas consideraram até 27 emoções diferentes mas, no final das contas, resolveram ficar com cinco para tornar a produção menos complicada. Algumas das principais emoções que acabaram sendo cortadas incluíam Surpresa, Orgulho e Confiança.

Segundo Pete Docter cada emoção foi baseada em uma forma. Alegria foi inspirada na forma de uma estrela, a Tristeza em uma lágrima, a Raiva em um tijolo de fogo, o Medo em um nervo exposto e o Nojo no brócolis. Ainda que o diretor jura que gosta bastante de brócolis. 😉

Psicólogos e outros especialistas foram consultados para que o roteiro do filme pudesse ser feito o mais próximo possível da realidade científica. Um exemplo disso é que realmente se acredita que as memórias de curto prazo feitas durante o dia são convertidas em memórias de longo prazo à noite, durante o sono, o que acontece no filme a respeito de Riley.

Inside Out recebeu uma ovação com oito minutos de aplausos na estreia no Festival de Cinema de Cannes.

O desenhista de produção Ralph Eggleston trabalhou durante cinco anos e meio neste filme. Foi o tempo mais longo que ele dedicou para uma produção – ele considerou também o processo mais difícil de sua carreira.

A inspiração de Pete Docter para Inside Out veio da própria observação dele do crescimento turbulento de sua filha. Inicialmente ele e Ronnie Del Carmen pensaram na Alegria se unindo com o Medo naquela viagem pelo interior do cérebro, mas depois que Docter fez uma caminhada e teve alguns pensamentos tristes, temendo perder o emprego e os amigos, ele percebeu que a Alegria deveria caminhar com a Tristeza para perceber que estaria tudo bem se algumas vezes a Tristeza tomasse conta das situações. Bacana.

O namorado imaginário de Riley está baseado na boy band britânica One Direction – segundo Pete Docter a filha dele, que inspirou a protagonista, era fã da banda.

Na versão norte-americana do filme – que foi a que eu acabei assistindo – o pai de Riley está pensando em cenas de uma partida de hockey, enquanto na versão do filme para o mercado internacional ele está pensando em uma partida de futebol. Um tema que volta e meia aparece no filme é a ojeriza de Riley por brócolis. Pois bem, na versão japonesa da produção ela não suporta pimentas verdes.

Na versão hebraica do filme o personagem de Bing Bong aponta para as letras de Perigo na entrada da sala do Pensamento Abstrato movendo o dedo da direita para a esquerda que é a forma com que o hebraico é escrito.

Em uma cena da Dream Productions, estúdio que produz os sonhos da protagonista, a diretora pede para que seja colocado o “filtro de distorção da realidade”. Para quem assistiu a Steve Jobs (comentado aqui) ou leu o livro homônimo sabe que esta é uma referência a Steve Jobs que, por um bom tempo, foi fundamental para a Pixar.

Aquela cena do jantar, em que a mãe de Riley tenta chamar a atenção do marido veio da própria experiência pessoal de Pete Docter.

Originalmente Riley teria um cachorro e um irmão mais novo, mas depois os realizadores decidiram retirar os dois de cena para dar mais destaque para a protagonista e para ela parecer mais vulnerável.

A cena em que os dois guardas do subconsciente ficam discutindo de quem é o chapéu um do outro é uma referência para a troca de chapéu entre os personagens de Vladimir e Estragon na peça Esperando Godot de Samuel Beckett.

Existem uns quadrinhos britânicos chamados The Beano e que são publicados desde os anos 1960 que tem os The Numskulls como personagens que vivem dentro de “pessoas reais” e que comandam tanto as funções emocionais quanto mecânicas destas pessoas. Depois que Inside Out foi lançado saiu uma HQ em que os The Numskulls assistem e criticam o filme dentro da pessoa em que eles estão.

Este é o terceiro filme de Pete Docter para a Pixar. Ele dirigiu, antes, Monsters, Inc., de 2001, e Up, de 2009 (com crítica neste link). Por outro lado, Inside Out marca a estreia na direção de Ronnie Del Carmen.

O filme teria o mesmo conceito da produção feita para a TV Herman’s Head, de 1991.

No início as memórias de Riley tem apenas uma cor, porque em cada uma predomina apenas uma emoção. Depois, perto do final, essas memórias tem cores misturadas, o que revela a maturidade nos sentimentos dela e a passagem da protagonista da infância para a adolescência. Interessante. Não tinha pensado sobre isso até ler esse comentário dos produtores.

O diretor Pete Docter coleciona nada menos que sete indicações ao Oscar e uma estatueta dourada por Up, produção dirigida por ele e que ganhou como Melhor Filme de Animação em 2010. Além dos três longas dirigidos por ele e já citados, ele tem no currículo como diretor os curtas Winter (1988), Palm Springs (1989), Next Door (1990), o curta em vídeo Mike’s New Car (2002) e o segmento do Oscar sobre o filme Up lançado em 2010. No roteiro ele tem como um dos criadores das histórias originais de Toy Story, Toy Story 2, Wall-E e de Toy Story 4 (este último em pré-produção). Ele também assinou o roteiro do curta Party Central. Um sujeito brilhante.

O filipino Ronnie Del Carmen estreou nos longas com este filme. Antes ele dirigiu dois episódios da série de TV Freakazoid! e o curta em vídeo Dug’s Special Mission.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para Inside Out, uma bela avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 296 críticas positivas e cinco críticas negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 9 – uma avaliação impressionante, especialmente se levarmos em conta a quantidade de críticas que este filme recebeu.

Inside Out é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela entra na lista dos filmes que atendem a uma votação aqui no blog que pedia críticas de produções daquele país.

CONCLUSÃO: Um filme brilhante no início e que depois dá uma desacelerada na condução da trama importante. No lugar de dar mais espaço para o enredo um tanto psicológico, um tanto filosófico, a Disney e a Pixar resolveram ceder para o “gosto” do público mais geral e colocar um bocado de “aventura” e de ação na trama. O filme não estraga quando entramos nas diferentes partes do cérebro mas, claramente, ele perde força. Ainda assim, fiquei fascinada pelo roteiro.

Além de instigante, ele realmente faz rir em alguns momentos e também faz pensar. O que mais você pode querer de um filme de animação? Uma grande e grata surpresa, apesar de já ter ouvido todo o burburinho elogioso causado pelo filme quando ele estreou. Não ser contaminada pelos elogios e conseguir realmente apreciar o filme só demonstra a qualidade de Inside Out.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Ele é o franco favorito para levar a estatueta de Melhor Filme de Animação nesta premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Por isso mesmo preferi assistir a ele antes do que ao filme O Menino e o Mundo, primeiro longa de animação brasileiro a concorrer a um Oscar. Além de concorrer como Melhor Filme de Animação, Inside Out também concorre na categoria de Melhor Roteiro Original.

Quis assistir ao favorito Inside Out para, quando assistir na sequência ao brasileiro, eu poder avaliar com mais propriedade cada um deles. Até o momento, assisti apenas a Inside Out e a Shaun the Sheep Movie (comentado aqui) entre os concorrentes. E não tenho dúvida em dizer que o filme dirigido por Pete Docter e Ronnie Del Carmen merece ganhar. Não que Shaun the Sheep Movie não seja bom e divertido, mas sem dúvida alguma Inside Out tem como diferencial uma história realmente instigante e inovadora.

Bem dirigido e bem escrito ele só peca, para o meu gosto, no momento em que decide apostar mais na ação do que em aprofundar a história que ele vinha contando. Não é perfeito, mas chega perto. Realmente, com tantas qualidades e ainda com dois grandes estúdios por trás – Disney e Pixar -, sem contar o grande capital envolvido, vejo muita dificuldade para o independente O Menino e o Mundo ganhar a batalha com Inside Out. Ainda preciso ver ao filme brasileiro mas, desde já, me parece que se Inside Out levar a estatueta não terá sido injusto. Belo filme.

Esta produção também concorre, como comentei acima, em Melhor Roteiro Original. Não assisti ainda a Ex Machina e Straight Outta Compton, que também concorrem nesta categoria, mas vi a Spotlight (comentado aqui) e a Bridge of Spies (com crítica neste link). Esse último, para mim, não tem chance nenhuma. Para o meu gosto, ainda que o roteiro de Inside Out seja bacana e original, ele não ganha na disputa com Spotlight. Até porque acho que Spotlight corre um sério risco de ganhar como Melhor Filme e, sem dúvida, como Melhor Roteiro Original. Acho que Inside Out corre um pouco por fora nesta categoria.