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Jackie

Jackie revela uma Jacqueline Kennedy, posteriormente Jacqueline Onassis, como você nunca viu. Diferente do que alguns poderiam esperar – e eu me incluo neste grupo -, Jackie não conta a trajetória de uma das primeiras-damas dos Estados Unidos mais conhecidas de todos os tempos. Não. Este filme se debruça sobre os fatos que circundaram o assassinato de JFK. Ou, em outras palavras, Jackie é a história do assassinato de JFK e de parte dos sonhos e da vida do casal sob a ótica de Jackie.

A HISTÓRIA: Jackie (Natalie Portman) caminha por um gramado. A câmera está muito próxima dela e registra uma expressão que parece ser a de choro contido. Corta. Em Hyannis Port, na cidade de Massachusetts, em 1963, Jackie acompanha a chegada de um carro na propriedade. Um jornalista (Billy Crudup) desembarca e se apresenta à porta, dando os pêsames para a ex-primeira dama.

Ela logo pergunta se ele tem lido o que outros jornalistas tem escrito. Ele diz que sim, e Jackie demonstra todo o seu descontentamento com a forma com que estão tratando o seu marido morto, John F. Kennedy. O jornalista pergunta como ela gostaria que JFK fosse lembrado, e Jackie afirma que ela vai editar o que ela quiser da conversa. Ele acaba aceitando a condição, e Jackie começa a contar a sua própria versão dos fatos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jackie): Na seção que eu fui para assistir a Jackie, a maioria dos espectadores era de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Um público que vivenciou os anos de JFK e que, provavelmente, como a maioria da audiência mundo afora, admirava a figura da primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy.

Para este público não foi fácil assistir a Jackie. Na verdade, para qualquer público eu imagino que não seja uma experiência fácil. Eu, que não vivi aquela época do início dos anos 1960 mas que, como quase todo terráqueo, conhece a história de JFK, de seu assassinato, todas as teorias de conspiração envolvendo o fato e, claro, a figura admirada de Jackie Kennedy, achei este um filme difícil.

Especialmente por uma razão: Jackie quebra toda expectativa do público. Esta produção não mostra um Jacqueline Kennedy dócil, serena, simpática. Muito pelo contrário. O filme destrincha toda a complexidade desta figura histórica ao mostrar fatos de sua vida pré e pós o assassinato do marido, incluindo no pacote cenas do fato propriamente dito.

Boa parte do público deve ter procurado Jackie pensando que este filme mostraria a trajetória de Jacqueline Kennedy, talvez até da Jacqueline Onassis. Eu, ao menos, que não gosto de ler sobre os filmes antes e evito assistir aos trailers das produções, achava que eu teria pela frente um interessante retrato sobre a protagonista.

Isso não deixa de ser verdade. Só que o roteirista Noah Oppenheim e o diretor Pablo Larraín fizeram uma escolha diferente. Ao invés de contar a história de Jackie desde antes do casamento com JFK e até depois de sua morte, quando se casou com Aristóteles Onassis, os realizadores resolveram focar em sua personalidade durante o episódio da morte do presidente americano.

A linha narrativa é toda cadenciada pela entrevista que Jackie dá para um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Até a sua morte, em 1994, Jackie deu apenas três entrevistas. A primeira, que inspirou o filme Jackie, foi feita realmente poucos dias após a morte de JFK e foi divulgada pouco depois. Nela, Jackie cria o mito de “Camelot” como sendo a inspiração do marido morto.

A segunda entrevista, que Jackie queria que fosse divulgada apenas 50 anos após a sua morte, foi dada para o amigo e historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964 e divulgada no livro “Jacqueline Kennedy – Historic Conversations on Life with John F. Kennedy” em 2011 sob a autorização da filha do casal presidencial, Caroline. A terceira entrevista, reza a lenda, será divulgada apenas em 2067.

Como eu comentava, Jackie tem como linha narrativa a primeira entrevista divulgada com a ex-primeira-dama. A partir da conversa dela com o jornalista a história retrocede e avança na linha temporal, mostrando cenas de Jackie na Casa Branca antes da morte do marido, todos os detalhes dos fatos ocorridos logo após o assassinato de JFK, toda a preocupação da protagonista com o velório e o funeral do marido e questionamentos que ela fez neste período.

É um filme profundo, que disseca Jacqueline Kennedy de uma forma muito interessante e impactante. Natalie Portman dá um show de interpretação tanto nos momentos em que está sozinha em cena, tendo que lidar com a solidão e o luto, quanto nos momentos em que está lutando por colocar o marido e a família dela definitivamente na história dos Estados Unidos.

Mais que uma pessoa elegante, simpática e encantadora, Jackie se revela uma mulher forte, inteligente, perspicaz, afiada nas respostas para o jornalista – em mais de uma ocasião ela o questiona e o deixa constrangido – e, principalmente, uma grande conhecedora da História dos EUA e obstinada por colocar Kennedy e sua família como um capítulo importante desta mesma História.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de Jackie. Como o roteiro de Oppenheim e a direção talentosa de Larraín revelam uma primeira-dama extremamente preocupada com o legado do marido e, consequentemente, dela própria para os Estados Unidos. Ela queria ter o controle sobre tudo, especialmente sobre a imagem dela e de JFK.

Jackie era obcecada por Abraham Lincoln, não apenas por ele ter sido um presidente dos EUA que também foi assassinado, a exemplo do marido, mas especialmente pela força da figura de Lincoln na história americana. O filme deixa claro como ela queria que JFK tivesse uma figura tão marcante para a História como tinha sido Lincoln – tanto que ela pede para examinar o cortejo de Lincoln e tentar emular algo parecido para o marido morto.

Mas mesmo antes da morte de JFK Jacqueline queria que a figura do marido e de sua família fosse marcante para a História. Esta preocupação constante com a imagem e o trabalho de Jackie para utilizar a nova “fábrica” de sonhos, manipuladora de “corações e mentes” chamada televisão a seu favor, é algo fascinante neste filme. Nos faz pensar sobre o uso da comunicação de massas, que apenas mudou de plataforma, tirando um pouco da audiência dos meios tradicionais (rádio, jornais, revistas e TV) para jogá-la nos meios digitais, a favor dos interesses próprios.

Jackie foi muito inteligente nesta forma de explorar a comunicação de massas e o poder da imagem. Neste sentido, o filme também é uma maravilha. O diretor chileno Pablo Larraín cuida para construir um filme em que as imagens jogam um papel narrativo fundamental. Ele coloca a câmera sempre próxima dos atores, permitindo que os espectadores escutem as suas conversas “ao pé do ouvido” e, principalmente, foca em cada detalhe da interpretação de Natalie Portman.

A atriz está impecável especialmente porque ela estudou cada detalhe da forma de falar, caminhar e agir da personagem histórica que ela está retratando. A ajudou neste processo, claro, o rico e variado material de imagens com a primeira-dama, incluindo o filme “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” que está disponível neste link no YouTube e que é muito bem explorado por Larraín no filme.

Identificamos Natalie Portman, é claro, mas ela se transfigura de forma tão intensa em Jacqueline Kennedy que, em alguns momentos, parece que estamos vendo a ex-primeira-dama pela frente. É impressionante. Mais um trabalho soberbo desta atriz que, para mim, é uma das melhores de sua geração.

Como duas das três entrevistas com a ex-primeira-dama dos EUA já mostraram, ela era realmente uma mulher forte e inteligente, muito mais do que aquelas imagens históricas controladas por ela revelam. Procurando mais sobre a personagem, descobri que realmente o filme Jackie faz um retrato bastante interessante e próximo da realidade dela.

Ainda assim, como para o público em geral esta imagem mais complexa de Jacqueline Kennedy Onassis não é a mais frequente, muita gente vai se surpreender com este filme. Tanto porque ele desconstrói a imagem tradicional da protagonista quanto porque ele foca em um capítulo bem complicado da história americana. Ainda que a produção tenha algumas pílulas de história além da tragédia, 95% da produção é sobre o assassinato de JFK e sobre os fatos que o sucedem.

Por tudo isso, Jackie não é um filme fácil. Pelo contrário. Ele é um filme triste, tenso, impactante. Ajuda neste processo a trilha sonora igualmente forte Mica Levi. Ela ajuda na narrativa da produção e muitas vezes leva a tensão para outro nível. Jackie, apesar de um ou outro “defeito”, é uma produção muito interessante sobre os bastidores do poder. Ele nos conta uma história de pessoas que ficaram encantadas com o poder e com a imagem que deixariam de legado. São temas até hoje muito, muito atuais.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No geral, achei as escolhas do roteirista Noah Oppenheim e do diretor Pablo Larraín muito interessantes. Eles conseguem o que desejam, que é apresentar uma outra visão de uma personagem histórica bastante conhecida e impactar com esta narrativa.

Dificilmente alguém vai pensar em Jacqueline Kennedy da mesma forma depois de assistir a Jackie. Eles conseguem uma desconstrução muito interessante da personagem história e a humanizam. Algo importante e inspirador, sem dúvidas.

Ainda assim, eu admito que eu esperava um filme um pouco mais “amplo”, que mostrasse um pouco mais de Jackie antes e depois do fato que é narrado. Eu queria saber mais sobre a sua fase após a viuvez e sobre a sua vida antes de JFK. Esse é um dos fatores para eu ter dado a nota acima para esta produção. Acho que os realizadores poderiam ter ousado um pouco mais na narrativa, poderiam ter fragmentado ela mais e se aprofundado na leitura da personagem para outras épocas de sua vida.

Um outro fator para a nota de Jackie não ser maior é que, apesar do filme desconstruir um bocado a imagem da ex-primeira-dama, ele também ignora uma série de outros fatos da época e que foram comentados por Jacqueline Kennedy nas cartas para o padre – e, talvez, na entrevista com o jornalista.

Por exemplo, ficam de fora do filme todas as infidelidades conjugais de JFK e, possivelmente, de Jackie. Muitos comentam que Onassis já era uma figura presente na vida de Jackie antes dela se tornar viúva e que ela teve um caso um tanto conhecido com William Holden quando ainda era casada com JFK. Nada disso é explorado no filme, o que achei uma escolha um tanto equivocada dos realizadores.

Antes eu comentei que o principal fio condutor da história é a entrevista real que Jacqueline Kennedy deu para um jornalista poucos dias depois da morte de JFK. Ainda que isso seja verdade, é preciso comentar que outro trecho marcante do filme, de conversas da protagonista com um padre (interpretado por John Hurt) são inspiradas em correspondências que a ex-primeira dama teve com um padre irlandês durante 15 anos e que foram leiloadas em 2014. Nestas cartas, ela fala sobre o que sentiu após a morte do marido – incluindo aí uma certa “bronca” com Deus.

Natalie Portman é realmente o nome deste filme. E não teria como ser diferente, já que ela é uma figura praticamente onipresente na história. O filme, afinal de contas, conta os fatos sob a ótica dela. Ainda assim, em algumas cenas ela não está presente. Nestes momentos outros nomes brilham em cena. Achei impressionante a caracterização de época. As pessoas escolhidas para cada papel foram certeiras.

Além da protagonista, que faz um trabalho impecável, estão muito bem em seus papéis Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy; Billy Crudup como o jornalista que entrevista a ex-primeira-dama; John Hurt como o padre que conversa com Jackie após o assassinato de JFK; e Caspar Phillipson com uma semelhança assustadora como JFK – ele aparece pouco, mas está muito bem em cada aparição que faz no filme.

Em papéis menores e secundários, mas igualmente bem, estão os atores Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, assessora e braço direito de Jackie no período em que ela foi a primeira-dama; Richard E. Grant como Bill Walton, assessor da Casa Branca; John Carroll Lynch como Lyndon B. Johnson; Beth Grant como a nova primeira-dama dos EUA, Bird Johnson; Max Casella como Jack Valenti, assessor de Johnson; e Georgie Glen como Rose Kennedy, mãe de JFK e Bobby. Todos estão muito bem.

O trabalho do diretor Pablo Larraín neste filme é feito com esmero. Em diversas cenas ele mistura cenas de época, reais, com os atores que fazem parte desta produção. O trabalho é interessante e dá outra força para a narrativa. Todos sabemos que estamos vendo personagens reais tendo as suas vidas contadas nesta produção, mas é diferente quando temos esta história imersa em cenas reais. Há diversas sequências impactantes, mas sem dúvida as que envolvem o assassinato em si e a sequência em que Jackie está limpando o sangue do marido no rosto estão no rol de inesquecíveis.

Além do diretor Pablo Larraín, que se credencia como um dos nomes a ser acompanhados no cinema, merecem aplausos nesta produção o trabalho de Mica Levi na trilha sonora; o de Stéphane Fontaine na direção de fotografia primorosa; o de Sebastián Sepúlveda na edição impecável e muito detalhista; o de Madeline Fontaine com os figurinos; o de Jean Rabasse no design de produção; o de Halina Gebarowicz na direção de arte; o de Véronique Melery na decoração de set; o dos 11 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 22 profissionais do departamento de arte; os 10 profissionais que fazem um ótimo trabalho no departamento de som; e os 12 profissionais dos efeitos visuais e que propiciam aquela “mescla” entre cenas históricas e as feitas pelo diretor.

Jackie estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme teve uma trajetória em 18 festivais pelo mundo – o último deles será o de Belgrado a partir de 3 de março deste ano. Até o momento o filme conquistou 32 prêmios e foi indicado a outros 136 – incluindo a indicação para três Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 15 recebidos por Natalie Portman como Melhor Atriz, para os sete recebidos por Mica Levi por Melhor Trilha Sonora e para os dois recebidos por Madeline Fontaine por Melhor Figurino.

Jackie teria custado US$ 9 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 13 milhões. É uma bilheteria baixa se levarmos em conta a força da figura de Jacqueline Kennedy no país. Chega a ser admirável como o filme não decolou nos EUA.

Talvez o público da época de JFK não tenha gostado da narrativa, um tanto “pesada” para a memória de Jackie, e a história contada pela produção não tenha atraído ao público mais jovem. O que é uma pena, porque é um belo filme, muito bem feito e que com temáticas muito atuais, além de ser uma produção interessante sobre uma época importante dos EUA e do mundo.

Esta produção foi rodada nos Estados Unidos e na França. Entre as locações, destaque para os Studios de Paris, na La Cité du Cinéma; para o Easton Newman Field Airport, em Maryland (cena em que Jackie sai do avião junto com JFK); e em Tred Avon Manor, em Royal Oak, Maryland (casa de Verão da família do presidente); além das cidades de Washington e de Baltimore, nos EUA, e de Paris, na França.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Jackie foi anunciado como um filme que seria dirigido por Darren Aronofsky e tendo Rachel Weisz como protagonista. Os dois acabaram pulando fora da produção, mas Aronofsky seguiu sendo um dos produtores do filme.

O diretor Pablo Larraín estima que pelo menos um terço do que vemos no filme no corte final foram rodados em apenas um take – o que reforça ainda mais o talento da equipe envolvida.

O jornalista interpretado por Billy Crudup é inspirado em Theodore H. White, jornalista da revista Life que fez uma entrevista com a ex-primeira-dama pouco depois da morte de JFK.

As filmagens foram feitas em um prazo curto para os padrões de Hollywood: duraram 23 dias em Paris e mais 10 dias em Washington e Baltimore.

O diretor Pablo Larraín disse que só faria Jackie se Natalie Portman estrelasse a produção. O produtor Darren Aronofsky concordou que ela era a pessoa ideal para viver Jackie.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8. A nota do IMDb é boa, mas está entre as mais baixas entre os filmes concorrentes ao Oscar. A nota do Rotten Tomatoes, por outro lado, é bastante boa se levarmos em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução do Chile, da França e dos Estados Unidos. Por ter os EUA como um de seus países, ele entra para a lista de produções que atendem uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Há diversos textos interessantes sobre as entrevistas dadas por Jacqueline Kennedy e sobre esta personagem conhecida da história americana. Deixo como sugestões por aqui esta matéria em espanhol do jornal El País; esta outra do El País sobre as cartas de Jackie para o padre irlandês Joseph Leonard; esta matéria da Veja sobre a entrevista de Jackie dada em 1963; esta reportagem do português Jornal de Notícias sobre a segunda entrevista de Jackie; esta coluna de Elio Gaspari em que ele fala das três entrevistas da ex-primeira-dama; e, finalmente, esta matéria da Carta Capital sobre a vida sexual diversificada do casal Kennedy.

CONCLUSÃO: Este filme é impactante. Ele incomoda. Não apenas porque ele mergulha em uma realidade duríssima, mas também porque é um mergulho na cabeça de uma mulher que se habituou a ser fotografada a cada passo. Com uma direção interessante de Pablo Larraín, Jackie tem uma interpretação impressionante de Natalie Portman. Mais uma, aliás.

Em Jackie ela e o diretor conseguem desconstruir boa parte da imagem que temos de Jackie Kennedy. O que não é uma tarefa fácil, mas que é cumprida a risca. É um filme angustiante, até certo ponto, e pode ser uma decepção para quem tem apenas uma imagem positiva da protagonista na lembrança. Não acredito que este filme seja interessante para qualquer pessoa, mas ele tem um propósito muito claro e o realiza muito bem.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Era certo que Jackie teria pelo menos duas indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Atriz para Natalie Portman e Melhor Figurino. Além destas indicações mais que esperadas, o filme ainda emplacou uma terceira, a de Melhor Trilha Sonora.

Para mim, a interpretação de Natalie Portman neste filme, que é todo focado nela, é uma peça irretocável. A forma com que a atriz emula a voz, a forma de falar, o jeito de andar, a postura e todos os demais detalhes da ex-primeira-dama americana é algo impressionante. E não é uma tarefa simples, especialmente porque há muito material de comparação – Jackie Kennedy foi uma figura extremamente filmada e fotografada.

Fiquei arrepiada e perplexa de forma positiva com a forma com que Natalie Portman “encarnou” uma personagem tão conhecida. E fazendo algo ainda mais difícil: além de “emular” Jackie Kennedy, ela ainda imprimiu uma dinâmica para a personagem que não vimos em lugar algum. Digo tudo isso para afirmar que, sem dúvidas, ela merecia ganhar o Oscar 2017 mas que, infelizmente, isso não deve acontecer.

Tudo indica que este será o ano de La La Land. E como já comentei na crítica do filme, La La Land é a produção da vida de Emma Stone. No prêmio máximo dos atores, o Screen Actors Guild Awards, Emma Stone foi a vencedora como Melhor Atriz. Então é muito improvável que um resultado diferente ocorra no Oscar.

O bom é que, diferente de outros anos, Natalie Portman perder para Emma Stone não será exatamente uma grande injustiça, até porque Emma Stone está muito bem em La La Land – para mim, ela é um dos pontos fortes do filme que carece de roteiro. Então, apesar de fazer um trabalho mais complexo, Natalie Portman vai perder para alguém que também está bem.

Sobram as outras duas categorias em que Jackie está concorrendo. O filme tem boas chances em Melhor Figurino, mas ele tem pela frente, novamente, o “queridinho do ano” La La Land. Então sim, ele pode perder novamente nesta mesma queda-de-braço. Em Melhor Trilha Sonora ele tem chances muito, muito remotas. O favoritíssimo, e com razões desta vez, é La La Land, seguido de Moonlight.

Então, se as previsões estiverem certas e este ano for confirmado como o ano de La La Land, Jackie deve sair do Oscar 2017 com as mãos vazias. Não será de todo injusto, porque realmente La La Land é um filme muito bem acabado, ainda que lhe falte conteúdo. Jackie é denso, tem conteúdo e tem uma reconstrução de época impressionante, mas não tem a mensagem de celebração de Hollywood que o rival tem e que a indústria do cinema acha tão importante valorizar neste momento político dos Estados Unidos.

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Hidden Figures – Estrelas Além do Tempo

Algumas histórias precisam ser contadas. Não apenas porque elas demonstram a capacidade humana para o impossível, mas também porque são inspiradoras sob todas as óticas. Hidden Figures é um destes filmes que nos traz estas histórias. Considero esta uma das produções mais contundentes contra o racismo e o machismo. De quebra, o filme nos fala sobre superação e sobre como todos nós, independente do sexo ou da cor de pele, temos o potencial de fazer o extraordinário. Filmão.

A HISTÓRIA: Começa avisando que o filme é baseado em eventos reais. Katherine Coleman (Lidya Jewett) caminha por uma estrada de terra e vai cotando os números, mas não de uma forma comum. Além da contagem normal, ela também enumera os números primos. A história começa na cidade de White Sulphur Springs, em West Virginia, em 1926, quando os professores de Katherine explicam para os pais dela que o melhor colégio para negros da região está oferecendo uma bolsa completa para a menina.

Ela é um fenômeno precoce. E será um fenômeno na vida adulta. Ao lado de Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e de Mary Jackson (Janelle Monáe), Katherine (Taraji P. Henson) se tornará uma peça muito importante para a conquista do espaço pelos americanos. Este filme conta a história destas figuras extraordinárias.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hidden Figures): Eu não era contemporânea dos fatos narrados por esta história. Então, certamente, tenho uma visão um tanto “distanciada” da história, diferente de quem viveu os anos 1960.

Ainda assim, a competência do diretor Theodore Melfi e do saboroso, inteligente e envolvente roteiro de Allison Schroeder e Theodore Melfi me fez viajar no tempo e no espaço. Consegui, e imagino que isso aconteça com qualquer espectador, viver aqueles dias e aquela realidade tão diferente da NASA. Aliás, já vi a alguns filmes sobre a corrida espacial e sobre a guerra fria, mas não lembro de outra produção que tenha me colocado tão dentro da tensão, das dúvidas e do receio daqueles dias.

Claro que esta história conta apenas um lado da história. Hidden Figures é um filme americano com todo o seu coração e espírito. Nas entrelinhas desta produção estão alguns princípios que são o pilar daquele país, vendido – e nem sempre na história realizado como tal – como a “nação das oportunidades” e onde o talento e a superação sempre serão premiados.

Pois bem, Hidden Figures acerta em cheio ao mostrar como estas intenções nem sempre foram universais dentro daquele (e de outros) país(es). Como outras produções que estão concorrendo ao Oscar neste ano, a exemplo dos documentários 13th (comentado aqui) e O.J.: Made in America (com crítica neste link), Hidden Figures mostra que apesar da escravidão ter sido abolida nos Estados Unidos, negros continuaram sendo tratados de forma muito diferente naquele país. E até hoje, infelizmente.

Algumas produções tratam da segregação racial e/ou dos conflitos envolvendo a discriminação racial nos Estados Unidos de forma mais contundente. Mas é na sutileza dos exemplos de vida cotidiana apresentados em Hidden Figures que o tema ganha um outro nível de indignação e de potência. Não tem como assistir às cenas que tratam deste tema em Hidden Figures sem ficar balançado(a).

As protagonistas desta histórias eram mulheres brilhantes, extremamente inteligentes – muito mais do que eu ou a maioria de quem puder ler este texto – e muito, muito valentes. Por causa de tudo isso e movidas pelo sonho de fazerem a diferença, de colocaram os seus talentos à serviço da ciência e de seu país, é que elas engoliram tantos sapos, injúrias e venceram tantos absurdos para vencer.

Não vou mentir que eu adoro filmes que valorizam as mulheres. Histórias que mostram como elas vencem tudo e todos para “apenas” conseguirem realizar ao máximo o talento que elas tem. Seja eles qual forem. As protagonistas de Hidden Figures são mulheres maravilhosas, feministas que não precisam levantar esta ou aquela bandeira para fazerem a diferença. Não. Com o exemplo delas, elas inspiram a qualquer mulher.

Uma grande mensagem passada pelo exemplo delas é a da igualdade. Elas não querem ter mais direitos que os demais, apenas querem ir e vir e ter acesso ao mesmo que qualquer outra pessoa, seja homem, branco ou branca, qualquer um. Igualdade racial parece algo óbvio nestes dias, por isso é de arrepiar pensar que há pouco mais de 50 anos uma sociedade como os Estados Unidos poderia viver uma segregação como a que vemos neste filme. Ultrajante. E hoje, quando há racismo, seja velado, seja explícito, é igualmente ultrajante.

Hidden Figures, para mim, fala sobre este ultraje e fala também sobre a força e a capacidade inegável de Katherine G. Johnson, de Dorothy Vaughan e de Mary Jackson. Elas são exemplo para qualquer mulher, independente da nossa cor – e, claro, devem encher de orgulhos, especialmente, às mulheres negras. Como diz uma certa música, vendo este filme, eu quis também ser negra para ter ainda mais orgulho e empatia com estas mulheres.

Além da questão da segregação racial e também do preconceito contra as mulheres – porque sim, claramente a NASA é um ambiente muito, muito masculino – Hidden Figures ainda trata de uma forma muito humana e interessante um capítulo da história que a maioria de nós conhece apenas pelos noticiários, sem todos os detalhes que vemos no filme. Esta é uma outra faceta interessantíssima desta produção.

Neste sentido, Hidden Figures me fez lembrar um pouco The Imitation Game (comenta aqui), produção que, igualmente, nos apresentou uma ótica muito diferente sobre um capítulo muito conhecido da história, a Segunda Guerra Mundial. Da mesma forma que The Imitation Game, Hidden Figures trata de forma diferenciada um capítulo conhecido e, mais que isso, nos apresenta “pessoas comuns” envolvidas naqueles fatos, tornando a História ainda mais humana.

Afinal, e algumas vezes podemos esquecer disso, a História com H maiúsculo é feita, como a história de todos os dias, por pessoas comuns. Muitas vezes algumas obras, seja no cinema, seja em outras partes, simplificam estes personagens e fazem a gente esquecer disso, que todos são pessoas de carne e osso, acertos e falhas. Bom encontrar filmes como Hidden Figures e The Imitation Game que nos mostram outra perspectiva.

Agora, claro, como tantas outras produções, este filme também tem um propósito bem definido. Ele quer ressaltar os valores e o talento das protagonistas e, para isso, ofusca uma boa parte das pessoas que faziam parte da realidade delas. Inicialmente, eu pensei até em dar uma nota ainda maior que a abaixo para este filme, mas daí comecei a refletir sobre a forma com que o roteiro, baseado no livro de Margot Lee Shetterly, simplifica vários personagens e relações.

Em geral, o roteiro de Hidden Figures enaltece as protagonistas e transforma praticamente todos os colegas delas na NASA em idiotas, preconceituosos ou invejosos (este último parece ser o caso de Paul Stafford, chefe de pesquisa interpretado por Jim Parsons). Sim, imagino que muitas pessoas naquele ambiente eram preconceituosas e menos talentosas que as protagonistas, mas achei um pouco exagerada a simplificação que o filme faz da maioria.

Fiquei um pouco com o “pé atrás” com Hidden Figures por causa disso. Durante a experiência de ver o filme no cinema, me apaixonei pela história e pela forma com que ela é contada. Achei o filme potente, inspirador. Mas, depois, fui refletindo sobre a forma com que roteiro retratou aos personagens secundários, e me pareceu que ele exagerou um pouco na dose da simplificação e estigmatização deles sem necessidade. Acho um pouco difícil acreditar que os fatos aconteceram exatamente como aconteceram, por isso acabei “reduzindo” um pouco a avaliação do filme. Ainda assim, volto a dizer, este é um filmaço. Merece ser visto.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do estilo do diretor Theodore Melfi. Ele sabe valorizar as boas imagens, quando ele tem cenários interessantes para valorizar, mas, sobretudo, ele sabe valorizar o trabalho das atrizes que protagonizam esta produção e a sintonia que elas desenvolvem em cena. Ele captura muito bem estes momentos e sabe trabalhar para torná-los bastante comuns neste filme. O que é um presente para o espectador.

Engraçado que o roteiro de Melfi e de Allison Schroeder é uma das grandes qualidades de Hidden Figures se também o seu único roteiro. O filme tem três atrizes maravilhosas e escolhidas à dedo como protagonistas e um elenco de apoio muito interessante – também com grandes nomes -, uma direção interessante e cuidadosa de Melfi e um roteiro quase o tempo todo brilhante.

Como eu disse antes, o texto de Melfi e Schroeder é envolvente, instigante, sabe tratar os diferentes assuntos do contexto social da história muito bem. Maaaasssss… o mesmo roteiro também simplifica algumas relações e personagens da NASA que tornam partes da história um tanto difíceis de acreditar. Vou dar um exemplo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que Stafford tenha sido um boçal, um preconceituoso invejoso como o filme sugere, acho difícil acreditar que ninguém daquela sala, majoritariamente masculina, ou de qualquer outra parte da NASA tenha estendido a mão e tentado ser um pouco mais justo com Katherine. Difícil imaginar que ela não teve apoio de ninguém e que tenha, realmente, inclusive peitado o chefão Al Harrison (Kevin Costner) no corredor como o filme mostra. Enfim, gostaria de ler o depoimento das envolvidas para poder entender melhor o que aconteceu. O filme me deixou com dúvidas.

Falando nos atores envolvidos nesta produção, achei as atrizes Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe brilhantes. Cada uma delas soube construir a sua personagem de forma diferente, trazendo características interessantes e particulares das “personagens reais” para o filme. A interpretação delas é tão envolvente que eu acho que todas mereciam uma indicação ao Oscar. 😉 Como isso não é possível, Octavia Spencer representa as outras duas colegas.

Além das três atrizes, que são um ponto forte do filme, fazem um bom trabalho os atores bem conhecidos que fazem papéis coadjuvantes na produção. Estão bem em seus papéis Kevin Costner, como o chefão Al Harrison; Kirsten Dunst como Vivian Mitchell, que lida com os “computadores” humanos da NASA; Mahershala Ali como o coronel Jim Johnson, que se torna o segundo marido de Katherine; Aldis Hodge como Levi Jackson, marido de Mary; e Glen Powell como o astronauta John Glenn. Jim Parsons está bem como Paul Stafford, mas o personagem “simplista” e maniqueísta que ele precisa interpretar não o ajuda muito.

Estes atores tem um destaque maior na história. Mas vale citar outros que tem uma participação menor, mas que estão muito bem: Lidya Jewett como a encantadora Katherine Coleman quando criança; Donna Biscoe como a mãe de Katherine, Joylette Coleman; e as jovens atrizes Ariana Neal, Saniyya Sidney e Zani Jones Mbayise como as filhas de Katherine, respectivamente Joylette, Constance e Kathy. Também está muito bem Frank Hoyt Taylor como o juiz que dá a permissão para Mary estudar em uma universidade que era só para brancos. Belo elenco.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Mandy Walker e da trilha sonora de Benjamin Wallfisch, Pharrell Williams e Hans Zimmer. Ainda que, eu admito, em alguns momentos a trilha sonora “animadinha” contrastava com momentos em que o público deveria estar indignado, ou perplexo, mas não “animadinho” – como nas cenas em que Katherine tem que ficar correndo para ir no banheiro porque não tem nenhum próximo que seja “adequado”.

Outros elementos interessantes e que funcionam muito bem no filme são a edição de Peter Teschner; o design de produção de Wynn Thomas; a direção de arte de Jeremy Woolsey; a decoração de set de Missy Parker; os figurinos de Renee Ehrlich Kalfus; o ótimo trabalho da equipe de 30 profissionais envolvidos no departamento de arte e o da equipe de 22 profissionais dos efeitos visuais.

Hidden Figures estreou em alguns cinemas dos Estados Unidos no dia 25 de dezembro. Justamente à tempo do filme ser habilitado para concorrer ao Oscar. Espertos. 😉

Esta produção contabiliza 25 prêmios e foi indicado a outros 63, inclusive a indicação para três estatuetas do Oscar 2017. Entre os prêmios recebidos por Hidden Figures, destaque para os seis prêmios que a produção recebeu como Melhor Elenco, inclusive a entregue pelo Screen Actors Guild Awards.

Esta produção teria custado US$ 25 milhões. Certamente boa parte destes recursos foi utilizada para reconstituir as instalações da NASA e os anos 1960, além de pagar o cachê dos atores envolvidos na produção. Apenas nos Estados Unidos Hidden Figures conseguiu uma bilheteria de US$ 119,4 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros
US$ 2,78 milhões. Ou seja, terá um belo lucro no final. Merece.

Hidden Figures foi totalmente rodada no Estado de Georgia, em cidades como East Point, Atlanta, Canton e Monroe.

O diretor e roteirista Theodore Melfi conquistou as duas primeiras indicações ao Oscar de sua trajetória com Hidden Figures – ele é um dos produtores do filme, por isso o seu nome aparece na lista de indicados a Melhor Filme, e foi indicado também por Melhor Roteiro Adaptado.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. O problema com a falta de banheiro para negros não foi vivenciado por Katherine Johnson, com Hidden Figures mostra, e sim por Mary Jackson.

Quando a atriz Taraji P. Henson assinou o contrato para interpretar Katherine Johnson, ela procurou a mulher que inspirou a sua personagem e que estava, na época, com 98 anos de idade. Nas conversas com Johnson a atriz aprendeu que ela tinha terminado o ensino médio aos 14 anos de idade e a faculdade aos 18. Mesmo com 98 anos de idade, ela estava muito lúcida e parecia ter a mesma vitalidade de quando era mais nova. Depois que o filme entrou em cartaz, Katherine aprovou a interpretação de Henson mas comentou que não sabia quem poderia se interessar em conhecer a sua história. Você mal sabe, querida Katherine, o quanto você inspira qualquer mulher em qualquer parte do globo.

Ahá!! E eis uma nota da produção que confirma o que eu tinha comentado antes. Segundo essa nota, a relação de trabalho real entre os engenheiros e as mulheres na NASA não foram tão hostis como aparecem no filme. “Embora houvesse questões claramente raciais em jogo, a maioria dos engenheiros foram capazes de trabalhar com os computadores (como eram chamadas as mulheres responsáveis pelos cálculos) sem problemas”, diz a nota.

O uso das cores foi importante para definir o “humor” do filme. Cores “frias” definem a NASA, onde foram utilizadas as cores branco, cinza e prata, enquanto os conjuntos “quentes” foram utilizados no escritório de Al Harrison e na casa das protagonistas.

Claro que o filme desperta uma série de dúvidas e de interesse sobre a história real daquela mulheres maravilhosas. Por isso mesmo eu fui atrás de algumas reportagens que ajudassem a contar a “história real” por trás do filme. Deixo aqui algumas sugestões de leituras, todas em inglês, mas que podem ser interessantes: esta matéria da Popular Mechanics; esta outra da People e esta terceira da Time.

Interessante no artigo da Popular Mechanics o resgate sobre as mulheres que ajudaram muito a ciência nos Estados Unidos e que, por muito tempo, não foram reconhecidas por isso. Uma das verdades que o filme mostra e que o artigo confirma é que as mulheres faziam tanto ou mais que os colegas do sexo masculino e que recebiam menos que eles. Uma briga da sociedade em diversas áreas até hoje. Interessante também como Hidden Figures, segundo este artigo, retrata bem a segregação das mulheres negras em uma área separada na NASA. Ainda de acordo com o artigo da Popular Mechanics, “a maioria dos eventos do filme são historicamente precisos”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, uma boa avaliação para os padrões do site, mas abaixo de outros concorrentes deste ano do Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 textos positivos e apenas 14 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,6. O nível de avaliação é bom, mas também abaixo dos concorrentes.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra na lista de filmes que atende a uma votação feita por aqui há algum tempo.

CONCLUSÃO: Não deixa de ser sintomático pensar que a história de Hidden Figures demorou 50 anos para ser contada. Este é um filme que surpreende. Inicialmente, pela premissa da história, você poderia pensar que Hidden Figures é “mais um” filme sobre racismo e preconceito. Mas não, ele é muito mais que isso.

Esta produção nos faz mergulhar na vida real de pessoas que sentiram na pele o apartheid e que contra todos os prognósticos – afinal, eram mulheres e ainda negras! – fizeram diferença para o mundo. Com roteiro ótimo e atuações igualmente inspiradas, é um dos grandes filmes desta temporada do Oscar. Inspirador. Imperdível.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Nem sempre os nossos filmes preferidos ganham algum prêmio ou são indicados no número de vezes que nós achamos que eles mereciam ao Oscar e em outras premiações. Verdade que nesta temporada temos filmes fantásticos na disputa, mas como cinema é, sobretudo, gosto pessoal, admito que esta produção me conquistou.

Hidden Figures foi indicado três vezes ao Oscar. Como Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) e como Melhor Roteiro Adaptado. Mereceu cada uma destas indicações, sem dúvidas – e até merecia algumas outras se não estivéssemos com uma safra tão boa.

Acho difícil o filme levar qualquer um destes prêmios. Sendo sincera. A melhor chance dele, talvez, seria em Melhor Roteiro Adaptado, mas ele tem pela frente Moonlight, Fences e Arrival. Então acho difícil ele derrotar estas produções. A favoritíssima na categoria Melhor Atriz Coadjuvante é Viola Davis, de Fences, e Melhor Filme deve consagrar La La Land – com Moonlight correndo por fora.

Ou seja, Hidden Figures é um ótimo filme, mas provavelmente sairá do Oscar de mãos abanando. A expectativa é que ele consiga, com a visibilidade das indicações para a premiação e com a propaganda boca a boca, chegar a um número expressivo de pessoas. Ele merece.

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Manchester by the Sea – Manchester à Beira-Mar

Tem pessoas que apenas querem ser um “ninguém”. E elas tem uma boa razão para isso. Determinados fatos da vida podem fazer com que você apenas queira esquecer o máximo possível quem você é e de onde você veio. Mas uma hora ou outra a fatura é cobrada. Manchester by the Sea conta a história de pequenas e grandes tragédias particulares. Se a história não é 100% original, a forma com que ela é contada sim traz novidade. Temos aqui um raro exemplo de um filme sensível, duro e legítimo. Muito bem polido nas aparências, mas bastante áspero em seu interior.

A HISTÓRIA: Começa mostrando as águas e a cidade de Manchester, nos Estados Unidos. É neste cenário que surge o barco Claudia Marie, pilotado por Joe Chandler (Kyle Chandler) e com o irmão Lee (Casey Affleck) e o filho Patrick (Ben O’Brien) conversando na popa da embarcação. Lee conta para o sobrinho como ele tem uma visão diferente de mundo do irmão, e pergunta para ele quem ele levaria para uma ilha.

O garoto responde que o pai, e corre em direção a ele. Em outro ambiente, Lee tira a neve do caminho e ajuda a um dos moradores a resolver um problema de vedação da pia. Ele está longe de Manchester, mas logo terá que voltar para a cidade porque o irmão dele está no hospital.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Manchester by the Sea): Este ano temos uma safra interessante de filmes concorrendo ao Oscar. Ainda que o favoritíssimo deste ano seja um musical, por definição uma produção cheia de “fantasia” e de uma realidade um tanto “embelezada”, boa parte das histórias tem uma grande dose de reflexão sobre a dura realidade da vida.

Este é o caso de Manchester by the Sea, um filme que vai crescendo conforme a história avança e nós entendemos melhor ao protagonista e o seu contexto. O destaque da produção, sem dúvida, é o seu roteiro, ainda que o conjunto de elementos que compõem o filme também apresentem qualidade e uma boa alquimia entre si. Os atores estão bem, e a trilha sonora é um ponto fundamental, assim como a direção de fotografia.

Mas voltemos para a história, que é o mais interessante desta produção. De forma inteligente o roteiro do diretor Kenneth Lonergan mostra parte do contexto de proximidade entre Lee e o sobrinho Patrick quando este último ainda era apenas um menino. Após uma breve introdução sobre aquele contexto familiar construído na cidade de Manchester, vemos Lee em outra realidade completamente diferente.

O personagem se parece com tantos outros de classe média baixa dos Estados Unidos – e de vários outros países. Um sujeito que mora sozinho, que trabalha duro, ganha pouco, engole sapos e finaliza os dias bebendo uma cerveja para conseguir encarar melhor tudo isso.

Para muitos, este é o americano médio que foi ignorado por muito tempo pelo governo e por todos e que, nas últimas eleições nos EUA, foi o grande responsável por eleger Donald Trump como presidente. Então este filme ajuda a contar um pouco sobre o contexto destas pessoas que, não apenas nos EUA, mas em qualquer parte do mundo realmente são pouco “visíveis”. Como outros grupos que acabaram sendo tema de outros filmes desta temporada – como os “excluídos”, “desprezados” ou marginalizados de Fences (comentado aqui) ou de Moonlight (crítica neste link).

Sem perder tempo, Lonergan mostra um recorte da vida do protagonista e o retorno dele para a sua cidade-natal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele retorna por uma razão muito triste: a morte do irmão mais velho. Mas esta não é a parte mais dura da história, e o roteirista/diretor espera a hora certa de nos contar porque Lee saiu de Manchester e porque para ele é tão duro voltar para lá.

De forma muito honesta, esta produção nos mostra como há tragédias particulares que são impossíveis de serem superadas. As autoridades podem dizer que você está liberado, e a família mais próxima pode lhe dar todo o apoio do mundo, ainda assim não parece justo que os dias continuem correndo como se nada tivesse acontecido. É sobre isso e muito mais que Manchester by the Sea trata.

O filme tem a habilidade de nos contar de forma interessante e o mais natural/crível possível uma narrativa de perda, vidas retomadas e vidas aprisionadas. Outros filmes já fizeram isso, é verdade, mas não com o mesmo desafio narrativo e criativo desta produção. Então temos a perda de Joe logo no início da produção e o desafio de Lee encarar esta realidade e lidar com a burocracia decorrente de uma morte na família.

Lonergan escolhe o caminho já bastante explorado de narrativas paralelas. Enquanto Lee busca lidar com tudo que envolve a “destinação final” do corpo do irmão e com a nova e inesperada (ao menos para ele) responsabilidade de cuidar de Patrick, voltamos atrás na história para saber melhor sobre o contexto familiar de todas aquelas pessoas.

Desta forma, quando Lee é acompanhado pelo médico para ir reconhecer o irmão morto, voltamos para o momento em que Joe recebe o diagnóstico da doença que o mataria no futuro. Naquele momento já vemos uma certa tensão familiar, especialmente entre Lee e a cunhada, Elise (Gretchen Mol).

Esta relação conflituosa volta à tona após a morte de Joe, quando Patrick é procurado pela mãe e volta a se encontrar com ela após longo tempo separados – ela não apenas deixa o hospital quando o marido recebe o diagnóstico, mas depois acaba deixando ele e o filho definitivamente.

Algumas pessoas demonstram os seus sentimentos com facilidade, enquanto outros são mais restritos nestas manifestações. Mas isso não quer dizer que eles não estejam sentindo, e muito. Manchester by the Sea é um filme exemplar em explorar isso. Porque tanto Lee quanto Patrick parecem lidar “bem” com a perda um tanto “esperada” de Joe mas, no fim das contas, ninguém lida bem com perda alguma.

Cada um deles sofre à sua maneira. Patrick tenta manter a vida normalmente, em uma fase de descobertas, de muitas atividades, amigos e de indecisões entre duas namoradas. Lee está sendo o cara responsável por manter quase tudo em ordem – dentro do possível. Mas para ele é muito difícil ficar em uma cidade onde ele viveu uma história tão pesada.

Em nenhum momento ele quis voltar para Manchester, mas as circunstância fizeram ele retornar para a cidade. O ideal, para ele, era resolver o velório e o enterro do irmão e voltar para a vida que ele tinha até então, onde ninguém o conhecia e onde ele era “mais um” na cidade. Só que ao receber a responsabilidade por Patrick, ele chega a cogitar de ficar em Manchester.

Mas, pouco a pouco, ele se lembra porque deixou a cidade. Todos de lá olham para ele com alguma ideia pré-concebida e com sentimentos muito bem definidos. Enquanto alguns lançam olhar de pena, outros lançam olhares curiosos e muitos estão sempre o julgando ou condenando. A tragédia pessoal de Lee é como a de tantas outras pessoas. Fatos horríveis acontecem por desleixo ou por descuido. Por causa de um “momento de bobeira”.

A perda de Lee e de Randi (Michelle Wiliams) é incomensurável. Não dá para medir, não dá para entender em sua plenitude. Apenas quem vive uma situação daquela pode ter a dimensão exata do que ela significa. O casamento deles acabou depois da tragédia, e Lee teve que lidar com toda a culpa que todos jogaram sobre ele.

A cena mais forte do filme mostra como nem ele mesmo se perdoava. Talvez, com o tempo, ele tenha feito isso. Ou não. Pode apenas ter “tocado em frente” por inércia. Quando está tentando tocar a vida de volta em Manchester, por causa de Patrick, ele percebe que não conseguirá viver na cidade conforme não acha oportunidades de trabalho e, especialmente, quando reencontra Randi.

O tempo passou e, como sempre, o tempo é um grande professor e um grande remédio. O choque passou a ser algo do passado, assim como boa parte da dor e do julgamento, e Randi parece ter um certo arrependimento do que falou e do que fez com Lee. Outra cena marcante da produção é quando ela tenta conversar com ele, mas Lee não está preparado para ter qualquer contato com ela.

Há muita dor em jogo. E dá para entender tudo isso. Mesmo que você ou eu não tenhamos passado por algo assim, a competência de Kenneth Lonergan e dos atores principais desta produção fazem com que você consiga se lugar no lugar deles. Ou seja, esta é mais uma produção que nos faz não apenas pensar, mas sentir e também exercer a misericórdia e a empatia.

Com um pouco de boa vontade é possível sentir qualquer dor e sentimento do outro. Isso nos aproxima e nos torna mais humanos. Este é um dos filmes que nos ajuda neste processo. Apenas por isso, e por todas as qualidades da história e do trabalho dos atores, ele já vale ser visto.

Sem contar que eu acho bacana como o filme, mais do que tratar de perdas, trata de recomeços. Sempre é possível tocar a vida em frente, e cada um sabe a melhor maneira de fazer isso. Sem tantos julgamentos e fórmulas prontas, e essa reflexão sobre a nossa sociedade atual – cheia deles – também é muito importante. Um filme bem acabado e com algumas mensagens bacanas.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um elemento interessante neste filme é a trilha sonora de Lesley Barber. Bastante lírica, ela contraste com o tom árido da história. É como se o que vemos e o que ouvimos fosse complementar e mostrasse como a vida é feita de histórias duras e de beleza. De suavidade e de rispidez. Considero este “casamento” inusitado entre música e história um dos pontos acertados da produção.

Entre os diferenciais do filme, como comentei antes, está o grande roteiro do diretor Kenneth Lonergan. Se este é o ponto fraco de La La Land (comentado por aqui), é o ponto forte de Manchester by the Sea. De forma muito inteligente e milimetricamente calculada o roteirista e diretor constrói esta história de uma forma que faça ela ganhar em interesse e em força conforme ela se desenvolve. Utilizando dois tempos narrativos, Lonergan também se debruça sobre a história do protagonista e das pessoas que o cercam. Bem bacana.

Algo que eu acho interessante nesta produção é que ela foge de muitos lugares-comum. Se é verdade que este filme me lembra muito outro que assisti há tempos atrás – e do qual eu não consegui, nem por decreto, lembrar o nome -, ao mesmo tempo ele se mostra diferenciado pelas escolhas no desenvolvimento dos personagens.

Aliás, explicando um pouco a nota que eu dei para o filme, ainda que ele tenha um ótimo roteiro e atuações coerentes, achei ele muito parecido, ao menos na essência, com outros filmes que já assistimos sobre perdas e sobre o “julgamento social” de uma pequena comunidade. Então, apesar de bem acabado, este filme não é exatamente revolucionário ou mesmo muito inovador. Por isso da nota acima. Mas nada que desmereça a produção, claro. Ela tem muito mais méritos que falhas.

Para muitos, Lee pode parecer um cara frio, vazio, e isso não deixa de ser verdade. Mas não é toda a verdade. A forma com que ele lidar com os fatos e esse “vazio” dele tem boas explicações e, apesar disso tudo, ele se importa muito com o sobrinho e sente uma aflição tremenda quando tem que enfrentar o passado novamente. Não é fácil, em um filme, construir uma história que trate destas nuances e que convença. Por isso mesmo Lonergan e os atores desta produção estão de parabéns, especialmente por não forçar a barra ou exagerar na história ou nas interpretações.

Da parte técnica do filme, além do roteiro muito bem construído, vale destacar a excelente trilha sonora de Lesley Barber, que contrasta com perfeição com a história e a complementa; a edição de Jennifer Lame; e a direção de fotografia de Jody Lee Lipes.

Manchester by the Sea estreou em janeiro de 2016 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 19 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme colecionou 97 prêmios e foi indicado a outros 211 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar. Números impressionantes, sem dúvida.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator para Casey Affleck no Globo de Ouro 2017; Melhor Filme segundo a National Board of Review; e para nada menos que outros 40 prêmios para Casey Affleck como Melhor Ator; 21 prêmios como Melhor Roteiro; nove prêmios para Michelle Williams como Melhor Atriz Coadjuvante; cinco prêmios para Lucas Hedges como “jovem talento” e similares.

Manchester by the Sea teria custado US$ 8,5 milhões, um orçamento baixo para os padrões de Hollywood. Bacana ver um filme com orçamento tão pequeno se sair tão bem em diversas premiações. Eu sempre torço pelo cinema independente. 😉 O filme é um grande sucesso nos Estados Unidos, onde fez US$ 42,5 milhões até o dia 2 de fevereiro deste ano. Em outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 1 milhão. Ou seja, não apenas repôs os gastos dos produtores, mas está garantindo um belo lucro para eles.

Esta produção foi rodada em diversas cidades do Estado de Massachusetts, como Manchester, Beverly, Lynn, Essex, Gloucester, Manchester-by-the-Sea, Salem, Cape Ann, Quincy e Rockport.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção e o cenário em que o filme se passa. A cidade onde a história é ambientada se chamava Manchester até que, em 1989, o morador Edward Corley fez uma campanha para que o nome mudasse para Manchester-by-the-Sea. O curioso é que o Legislativo aprovou a mudança naquele mesmo ano.

Interessante que este filme demorou muito para ser feito por uma série de razões. A ideia original tinha sido esboçada por John Krasinski, que falou para Matt Damon sobre este roteiro em que um trabalhador braçal acaba com a custódia do filho adolescente de seu irmão morto. Damon tinha pensado em estrear na direção com esta produção, mas acabou cedendo a história para Kenneth Lonergan que sofreu um longo martírio por causa do filme Margaret, estrelado por Damon. Em 2011 Margaret estreou de forma limitada e o processo movido pelo produtor do filme terminaria apenas em 2014. Foi só aí que Lonergan pensou em voltar a dirigir, e como Damon estava envolvido em outros projetos, ele passou Manchester para o amigo e diretor.

Quando Damon pulou fora do projeto, deixando a direção para Lonergan, ele pediu para o seu amigo de infância, Casey Affleck, protagonizar a história. Lonergan aparece como o único roteirista do filme porque ele acabou usando a premissa inicial de Krasinski e de Damon para fazer uma história bem ao seu gosto.

Este é o primeiro filme codistribuído por um serviço de streaming – neste caso, da Amazon – que consegue uma indicação ao Oscar de Melhor Filme. Manchester by the Sea estreou nos cinemas também, claro, mas foi distribuído igualmente pelo serviço da Amazon. Vivemos novos tempos. O que é ótimo, porque assim o cinema sempre vai se renovar.

Manchester by the Sea é o terceiro filme escrito e dirigido por Lonergan – antes ele fez o mesmo com You Can Count on Me e com Margaret.

No melhor estilo Alfred Hitchcock, o diretor Kenneth Lonergan faz uma aparição também em Manchester by the Sea. Ele é o habitante anônimo da cidade que dá uma dura em Lee quando ele está discutindo com o sobrinho e ameaça ele de lhe dar uma porrada.

Falando no diretor de Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan tem no currículo apenas três filmes como diretor e nove como roteirista. Com as duas indicações por Manchester by the Sea – Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original – ele contabiliza quatro indicações ao Oscar. As anteriores foram por Melhor Roteiro Original por You Can Count on Me e por Gangs of New York.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Manchester by the Sea, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes escreveram 221 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9. Os dois níveis de aprovação são muito bons se levarmos em conta os padrões dos respectivos sites – especialmente a nota do Rotten Tomatoes é muito boa.

Esta produção está sempre focando os personagens Lee e Patrick, por isso mesmo é tão importante que os dois se saiam realmente bem. E eles fazem um trabalho muito bom, muito coerente e sem exageros. Realmente parecem pessoas “comuns” passando por aquelas situações. Além deles, alguns atores tem trabalho importante na história. A premiada Michelle Williams é uma das que menos aparece no filme, mas ela tem um bom desempenho quando é exigida.

Fazem um bom trabalho também em papéis secundários e/ou quase em pontas Kyle Chandler como Joe Chandler; Ruibo Qian como a Dra. Bethany, que faz o diagnóstico de Joe e o acompanha durante a doença; Gretchen Mol como Elise, mãe de Patrick; C.J. Wilson em um trabalho fundamental como George, amigo dos irmãos Joe e Lee; Tom Kemp como Stan Chandler, pai de Joe e Lee – ainda que a participação dele seja pequena; Tate Donovan como o técnico de hockey de Patrick; Kara Hayward como Silvie, uma das namoradas de Patrick; Anna Baryshnikov como Sandy, a outra namorada do adolescente; Heather Burns como Jill, mãe de Sandy; Jami Tennille como Janine, mulher de George; e Matthew Broderick em uma super ponta como Jeffrey, novo marido de Elise.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo e na qual vocês pediram filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Um filme que trata de maneira muito franca sobre como a vida continua de maneira diferente para as pessoas que compartilharam uma tragédia. Manchester by the Sea revela a complexidade da vida, das famílias e dos amores. Nem todo mundo consegue recomeçar e, mesmo assim, toca em frente da melhor maneira que pode. Um dos pontos fortes do filme é o roteiro, que sabe construir a história com criatividade e bebendo fundo na fonte do realismo. Amargo, mas muito humano.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Manchester by the Sea é um dos quatro grandes concorrentes deste ano no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A produção conseguiu emplacar seis indicações ao Oscar, e os realizadores devem ficar felizes com isso.

Afinal, este é um filme não muito óbvio e sem uma grande produção ou lobby por trás. Então emplacar seis indicações, incluindo aí a de Melhor Filme, é algo muito bacana. Além da categoria principal, Manchester by the Sea concorre nas categorias Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Melhor Diretor (Kenneth Lonergan) e Melhor Roteiro Original.

Analisando todas estas categorias e os seus respectivos concorrentes, acredito que Manchester by the Sea tenha a sua melhor chance em Melhor Roteiro Original. O filme pode emplacar também em Melhor Ator – apesar da minha torcida ser para Denzel Washington, não dá para ignorar os 41 prêmios recebidos por Casey Affleck antes do Oscar.

Na categoria principal, Melhor Filme, o favoritíssimo é La La Land (com Moonlight correndo por fora e Manchester by the Sea um pouco atrás). A categoria Melhor Ator Coadjuvante tem Mahershala Ali como favorito; assim como Viola Davis é a favorita em Melhor Atriz Coadjuvante e Damien Chazelle corre na frente em Melhor Diretor. Assim sendo, Manchester by the Sea pode levar em roteiro e em ator, na melhor das hipóteses. Este é o prognóstico mais “óbvio” mas, claro, surpresas sempre podem acontecer.

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As premiações que dão uma prévia do Oscar 2017

Neste último final de semana duas premiações entregues em Hollywood ajudam a dar um prévia do que podemos esperar para a noite do próximo dia 26, quando a Academia de Arte e Ciências Cinematográficas de Hollywood faz a entrega do Oscar 2017.

No sábado foi entregue o Producers Guild Awards, prêmio que consagra os melhores produtores de filmes e séries de TV da temporada. Ainda que na escolha na categoria Melhor Filme do Oscar seja mais ampla, com um número bastante diversificado de votantes, a produção que ganha o prêmio dos produtores sai fortalecida para a entrega da Academia.

Este ano os produtores premiados por filme para os cinemas foram Fred Berger, Jordan Horowitz e Marc Platt, trio responsável por La La Land. Em Documentário, o vencedor foi o filme O.J.: Made in America; e em filme de Animação, Zootopia. Estas três produções saem fortalecidas para as suas respectivas categorias no Oscar.

Ainda assim, vale lembrar que desde 2010 os produtores consagrados na categoria principal do Producers Guild Awards também levaram o Oscar de Melhor Filme em seis das sete ocasiões. A saber: The Hurt Locker em 2010; The King’s Speech em 2011; The Artist em 2012; Argo em 2013; 12 Years a Slave em 2014 (quando este filme dividiu o prêmio do Producers Guild com Gravity); e Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) em 2015. Apenas no ano passado o vencedor da categoria principal do Producers Guild Awards, The Big Short, perdeu o Oscar para Spotlight.

Ou seja, segundo a história recente das duas premiações, no Oscar 2017 sai como favoritíssimo para o prêmio principal o filme La La Land. Além de ter levado o principal prêmio do Producers Guild Awards, o musical também tem nada menos que 14 indicações em 13 categorias do Oscar.

A outra premiação relevante para antecipar o Oscar foi entregue no domingo, o Screen Actors Guild Awards. Quem vota nesta premiação é o mesmo grupo, praticamente, que irá votar nas respectivas categorias do Oscar. Afinal, atores votam em atores e atrizes votam em atrizes.

Pois bem, segundo este último Screen Actors Guild Awards, saem fortalecidos para levar as estatuetas douradas do Oscar os atores Denzel Washington, de Fences, que ganhou no domingo como Melhor Ator; Emma Stone, de La La Land, que venceu como Melhor Atriz; Mahershala Ali, de Moonlight, que ganhou como Melhor Ator Coadjuvante; e Viola Davis, de Fences, que venceu como Melhor Atriz Coadjuvante.

fences4Da minha parte, eu não tocaria nesta lista. Acho, realmente, do que eu vi até agora, que cada um destes quatro nomes merecem ganhar o prêmio em suas respectivas categorias. Talvez apenas Emma Stone possa ser um pouco questionada… mas eu acho, e reafirmo o que comentei aqui na crítica de La La Land, que a atriz é um dos pontos fortes do filme. La La Land é o filme da vida dela e não deixa de ser justo que ela se consagre por ele. Enfim, teremos boas emoções neste Oscar e, pelo que tudo indica, mais justiça do que injustiça entre os premiados.