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Drive

Um filme com estilo. No conteúdo e na forma. Drive resgata um jeito de fazer cinema um tanto esquecido e presenteia o espectador com uma história bem contada e envolvente. Quem diria que um sujeito bom de braço no volante poderia ser tão versátil. E render tantas cenas instigantes muito além da ação. Drive lembra um pouco o estilo da boa fase de Quentin Tarantino. Mas não é uma cópia do estilo do diretor ou mesmo uma releitura. Ele tem criatividade e estilo próprio, com foco menor nos diálogos e uma atenção maior em outros quesitos.

A HISTÓRIA: Um homem (Ryan Gosling) comenta, por telefone e olhando por uma janela de hotel, que há milhares de ruas em Los Angeles. E que basta o interlocutor dizer hora e local, que ele dará cinco minutos para ele. Depois deste tempo, ele irá embora, não importa o que aconteça. Em seguida, ele diz que a pessoa não poderá falar mais com ele naquele celular. O homem pega uma bolsa e sai do quarto. Dirige pelas ruas iluminadas, até chegar em uma oficina e pegar um Chevy Empala, um carro mais básico e comum para ele dirigir. O dono da oficina, Shannon (Bryan Cranston) explica que este é o carro mais usado na Califórnia. O protagonista então dirige, escutando a transmissão do jogo entre Celtics e Clippers. Chega no lugar combinado, vê dois homens atravessando a rua e tira o relógio do pulso para colocá-lo no volante. Ele dá cinco minutos para eles fazerem o roubo e depois segue para a fuga. A partir daí, mergulhamos na vida deste motorista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Drive): Uma pessoa nunca é uma coisa só. Um médico não é apenas um sujeito que tenta curar pessoas. Ele também pode ser um pai, sem dúvidas é um filho – ou já foi um -, um apreciador de bons vinhos, um especialista em mitologia grega, um ótimo pescador e tantas outras coisas… Da mesma forma, o protagonista de Drive não é apenas um ótimo motorista. Mas a habilidade dele para guiar com maestria um carro e seu conhecimento das ruas de Los Angeles fazem ele utilizar este diferencial para muitas funções.

No começo de Drive, ele parece ser apenas um motorista voraz e especialista em fugas espetaculares. E aí surge a primeira boa sacada da direção de Nicolas Winding Refn: mostrar como o ingrediente principal do protagonista não é a destreza, dirigir o carro de uma maneira enfurecida, mas a inteligência. Ele conhece como ninguém as ruas e quebradas de Los Angeles. Sabe como a polícia funciona. E, pouco a pouco, o roteiro de Hossein Amini vai nos mostrando que ele conhece também, com precisão, o funcionamento da bandidagem.

Um grande acerto do filme, para começar, é esta resistência em cair no lugar-comum de um filme de ação. Ainda que a destreza no volante seja fundamental para o protagonista, este não é o único elemento que o diferencia dos demais. A inteligência e o comportamento reto, centrado em proteger a Irene (Carey Mulligan) e seu filho, Benicio (Kaden Leos), e a manter-se vivo, contam muito mais. Então Drive acaba tendo elementos de filmes de ação, mas ele também abraça o drama e o suspense. Faz lembrar dos filmes noir, não apenas pelo estilo, mas pela lógica da produção, na qual o protagonista parece fadado a se dar mal – e tem que lutar para manter-se o mais limpo possível em um ambiente de contravenções e de um tipo de “submundo”.

Como em tantas outras produções, acompanhamos o protagonista em um momento de ruptura. Ele está deixando a vida de motorista de ladrões para abraçar apenas as suas outras duas profissões: dublê de astros em filmes de ação e mecânico. Neste momento, como manda a regra da roda-viva do cotidiano, ele também encontra outro motivo para mudar de foco: conhece a Irene e seu filho. Fica encantado por ela, e parece que o interesse é recíproco. Mas como nunca as coisas são fáceis, ele só se complica com esta ilusão de viver um grande amor.

Porque Irene é toda uma complicação. O protagonista não demora muito para saber que ela é casada com um cara que está na prisão. E ele, o marido, Standard (Oscar Isaac), também não tarda muito para dar as caras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E daí aquele primeiro lugar-comum básico: Standard é pressionado a fazer um “último trabalho” para pagar uma dívida contraída na prisão. E o protagonista se oferece para ajudar. Não por causa de Standard, claro, mas porque ele quer proteger Irene e Benicio. E como manda a regra de um filme que lembra o estilo noir, claro que algo vai sair errado. E sai.

A partir daí, o filme mergulha no submundo do crime, com os parceiros Bernie Rose (Albert Brooks, naquele que talvez seja o seu melhor desempenho em muito tempo) e Nino (Ron Perlman) assumindo os papéis de vilões no melhor estilo de mafiosos. O protagonista, sempre tão cuidadoso e cheio de regras – a principal delas, de não se envolver emocionalmente nos crimes – acaba se dando mal justamente quando perde o racionalismo. Drive, desta forma, também não deixa de ser um romance. Com elementos de ação, suspense e crime, mas um romance.

Assim, meio sem percebermos, adentramos na vida de um sujeito que simboliza as diferentes expressões de Los Angeles, dos Estados Unidos e, por que não dizer, de qualquer grande cidade e país do mundo? Esse motorista que dá título ao filme nos conduz pela história com maestria, revelando um pouco da simplicidade de quem enche as mãos de graxa, dos bastidores de uma indústria milionária como é o cinema, dos caminhos retos de quem trabalha muito e incorretos de quem busca a alternativa do crime para faturar muito em pouco tempo.

Los Angeles também é uma personagem da história. Se for olhado com uma lupa, Drive trata da busca tradicional do homem que parece perdido, sem sentimento, pela redenção, pelo amor, por um recomeço diferente. Ele quer mudar a lógica da roda que repete sempre a mesma fórmula. Vários filmes já trataram disto, é verdade. E ainda assim, Drive consegue contar esta história de forma diferente. E com muito estilo.

O personagem de Gosling é destes que há muito não vemos no cinema. Que cria fascínio pela personalidade, e porque nos colocamos muito próximos dele, ao mesmo tempo que desperta repúdio pelos crimes que comete ou ajuda a cometer. O ator dá um show. Convence e carrega o filme nas costas, ainda que os atores coadjuvantes também estejam muito bem. A direção de Refn, que nos aproxima sempre do protagonista e dos demais personagens, e que consegue criar a tensão exata nos momentos mais delicados, também é fundamental. Assim como o roteiro de Amini, que inova nos momentos precisos sem, para isso, tirar coelhos da cartola. A história parece realista, e esse tom é fundamental para que Drive funcione.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para funcionar tão bem, Drive tem na qualidade dos elementos técnicos um ponto fundamental. Além de dirigir muito bem as cenas de ação, o diretor Nicolas Winding Refn acerta em cheio na forma de dirigir as demais cenas. Em como criar a tensão exata quando o protagonista está sendo perseguido, e de como valorizar o trabalho dos atores e o texto bem escrito por Hossein Amini. Um grande trabalho do diretor.

Mas para o filme conseguir a nota máxima, ele precisou também que outros detalhes funcionassem com perfeição. O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção é a trilha sonora. Envolvente, moderna, ela dita um ritmo importante para a produção, especialmente em seus momentos de “reflexão”, sem diálogos. Mérito de Cliff Martinez. Ele também é responsável por ficarmos com a música A Real Hero, de College, na cabeça. Ela também serve para “resumir” a mensagem do filme, de transformar aquele “sujeito comum”, suscetível a todos os acertos e erros possíveis, em um “herói”. Drive consegue fazer com que ele seja visto assim, e que o espectador torça por ele.

Depois da trilha sonora, palmas para a direção de fotografia de Newton Thomas Sigel, que consegue capturar a melhor luz de Los Angeles durante o dia e as cores artificiais da cidade pela noite com precisão. Além do olhar diferenciado de Refn, o filme se destaca por uma edição cirúrgica de Matthew Newman. Sem ele, o filme perderia bastante do ritmo.

Difícil escolher apenas algumas cenas de Drive para destacar. Há muitos momentos bem pensados e filmados nesta produção. Mas eu gostei de alguns mais do que outros. Por exemplo, a sequência do protagonista e de Blanche (Christina Hendricks, ótima atriz de Mad Men) no hotel e a descida de elevador dele com Irene pouco depois. Simplesmente, genial.

Este, sem dúvida, é o grande filme de Ryan Gosling. Agora sim, consigo entender porque Hollywood está badalando tanto este ator. Ele merece. Há muito tempo eu não via um intérprete se sair tão bem em um papel complexo, que alia o lado mais bandido com o de mocinho. Gosling é carismático. Está lindo em Drive. E consegue convencer em cada nuance do seu papel. Se ele acertar em outras escolhas de papel como esta, poderá tornar-se um dos principais nomes de Hollywood em pouco tempo.

Os demais atores desta produção também estão muito bem. Gostei de ver Bryan Cranston em cena. Lembrei do trabalho excepcional dele em Breaking Bad durante todo o tempo. Mas em Drive ele está muito mais como “cordeirinho”. 🙂 Carey Mulligan também está ótima. Frágil, observadora e carismática na medida. Ainda que em um papel muito menor que dos outros dois, achei que Christina Hendricks se destaca no filme.

Drive estreou no Festival de Cannes em maio de 2011. De lá para cá, a produção passou por outros 13 festivais mundo afora. Nesta trajetória, ganhou 39 prêmios e concorreu a outros 56. Números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de melhor diretor para Nicolas Winding Refn no Festival de Cannes; o de melhor filme americano no Robert Festival, na Dinamarca; e quatro prêmios no Satellite Awards, entregue pela imprensa de Hollywood. Nesta última premiação ele ganhou como melhor ator para Ryan Gosling; melhor ator coadjuvante para Albert Brooks; melhor diretor para Refn; e melhor som (edição e mixagem). Albert Brooks foi indicado ao Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante, mas foi vencido pelo favorito também no Oscar, Christopher Plummer.

Esta produção demonstra, mais uma vez, como um ótimo filme não precisa custar mais de US$ 100 milhões. Drive teria custado cerca de US$ 15 milhões. Até o momento, ele arrecadou mais que o dobro apenas nos Estados Unidos. O acumulado nas bilheterias, até o dia 5 de fevereiro, chegou a pouco mais de US$ 35 milhões. Não é nenhum resultado fantástico, arrasa-quarteirão, mas também não é desprezível.

Curiosidades sobre Drive: Ryan Gosling assumiu o papel que seria de Hugh Jackman. Acho que o Wolverine teria se saído bem mas, certamente, teríamos uma produção muito diferente com ele. Refn também substituiu outro nome inicialmente cotado para o projeto, o diretor Neil Marshall. Durante a preparação para a produção, Gosling restaurou o Chevy Malibu de 1973 que o seu personagem iria utilizar na produção. Inicialmente, os personagens de Irene e Standard seriam latinos. Mas isso mudou com a entrada de Carey Mulligan no projeto.

O diretor Refn não tem carteira de motorista e falhou oito vezes em tentar obter uma. Ele também não conhecia muito Los Angeles. Para resolver esta questão, que poderia ser um problema para o filme, ele andou como carona do ator Ryan Gosling para cima e para baixo. O nome do protagonista não é revelado em momento algum, e os diálogos dele com Irene são tão raros porque os atores resolveram que os encontros dos personagens deveriam previlegiar o humor deles. Para tornar isso mais evidente, Mulligan e Gosling resolveram não falar muitas linhas do roteiro, apenas olharem um para o outro. Funcionou. E muito bem.

Drive faz uma referência à fábula do Sapo e do Escorpião, aquela em que um sapo aceita ajudar a um escorpião a atravessar um rio mas, no caminho, ele é picado pelo ferrão do escorpião e os dois acabam morrendo. Antes, o escorpião diz que ele não pôde evitar aquele gesto porque aquela é a sua natureza. Em Drive, o protagonista é o sapo, que dirige para os bandidos e acaba sendo “picado” por eles, arrastado para o lado destrutivo da vida por causa deles. Não por acaso ele usa aquela estilosa jaqueta com um escorpião – assim, ele leva sempre o animal perigoso nas costas. Ah, e o ator, Gosling, é do signo Escorpião. 🙂

Gostei do trabalho de Refn e fui buscar mais informações sobre ele. Dinamarquês, ele tem nove filmes no currículo, incluindo Only God Forgives, que está sendo filmado. Refn estrou nos cinemas em 1996 com Pusher. Em 2009 ele lançou o estiloso Valhalla Rising, que eu ainda não assisti. Agora é esperar para ver a Only God Forgives, estrelado novamente por Gosling e com Kristin Scott Thomas, entre outros, no elenco.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Drive. Não está mal, mas poderia ser melhor. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 207 críticas positivas e apenas 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

O roteiro de Drive é inspirado no livro de James Sallis.

CONCLUSÃO: Estamos sempre ao lado do protagonista. Tão perto, fica difícil não compartilhar de sua adrenalina, ousadia, frieza e emoção. Drive acerta ao colocar o espectador em posição tão privilegiada. Filme de ação, mas com espaço para aprofundar nos sentimentos e desejos dos personagens, Drive entra em universos diferentes de Los Angeles para traçar um quadro interessante da cidade e de alguns de seus personagens. Com um ótimo estilo narrativo e visual, e com um desempenho irrepreensível de Ryan Gosling, Drive mantém o interesse do espectador do primeiro até o último minuto. E ainda que o roteiro tenha lugares-comuns um tanto inevitáveis, ele sabe dar as viradas narrativas no momento certo, tornando toda a aventura da história um belo achado. Uma forma diferenciada de fazer filme noir que dá gosto de assistir. Quem gosta de Quentin Tarantino, deverá curtir este filme. Drive lembra a melhor fase dele e de vários outros diretores que souberam recriar o estilo noir. Mas com a diferença deste filme ter um foco menor nos diálogos e maior nas características dos personagens e das situações vividas por eles.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Drive está concorrendo em apenas uma categoria: edição de som. Uma pena. Ele facilmente poderia ter sido indicado como melhor trilha sonora e edição, dois de seus pontes fortes. Mas ok, ele ficou apenas com edição de som. Nesta categoria, ele tem fortes concorrentes: The Girl with the Dragon Tattoo, Transformers: Dark of the Moon, War Horse e Hugo. Destes, assisti apenas ao último. Mesmo sem ter visto aos demais, acredito que os favoritos nesta categoria sejam Transformers e Hugo. Não vejo que Drive tenha muitas chances para vencer. Eu não apostaria nele.

SUGESTÕES DE LEITORES: Só depois de publicar o texto sobre Drive e começar a responder aos comentários de vocês, meus bons leitores, de janeiro, é que eu percebi que este filme tinha sido indicado pelo André Oliveira no primeiro dia deste ano. Grande dica, hein, André? Filmaço! Gostei muito. Estiloso, com um ritmo perfeito. Muito obrigada pela dica.

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Midnight in Paris – Meia-noite em Paris

Paris… ah, Paris! Quem já caminhou pelas ruas, calçadas, praças, parques, cafés, restaurantes, museus e viu todas as cores e nuances de luz da capital francesa sabe que não existe uma cidade do mundo com aquele encanto. Há um charme, uma aura diferenciada. Woody Allen acerta na mosca ao fazer uma homenagem descarada para esta cidade com Midnight in Paris. Ele retoma o seu texto ligeiro, esperto, com várias referências às artes e histórias da cidade e, de quebra, encontra a sua versão jovem em Owen Wilson. Bom rever Allen em sua melhor forma novamente.

A HISTÓRIA: Vários ângulos mostram Paris em todo o seu esplendor, acompanhados de uma trilha sonora deliciosa. Imagens que contam parte da rotina da cidade, começando pela manhã, seguindo pela tarde, com tempo bom e chuva, até chegar à noite iluminada. Em seguida, o roteirista de Hollywood e escritor Gil (Owen Wilson) tenta convencer a noiva, Inez (Rachel McAdams) de que não há e nunca houve uma cidade como Paris. Especialmente quando chove. Ela não entende as razões de tanto fascínio, e diz que não poderia morar fora dos Estados Unidos. Gil está maravilhado com o cenário que inspirou Monet, mas Inez responde dizendo que ele está apaixonado por uma fantasia. A partir daí, acompanharemos as aventuras do casal por uma Paris bastante distinta, que varia conforme a ótica de cada um.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Midnight in Paris): Woody Allen voltou à sua melhor forma. No texto ligeiro, cheio de referências e de humor inteligente. Midnight in Paris faz uma descarada e merecida homenagem à mais maravilhosa das cidades, Paris. Mas o filme é delicioso não apenas por isso, mas pelas pequenas ironias sobre a forma diferente com que as pessoas encaram as próprias vidas e as cidades pelas quais vão percorrendo enquanto esta mesma vida passa.

Como é costumeiro nos filmes de Allen, em Midnight in Paris os protagonistas vivem um momento de crise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E por ironia, vivem essa crise nas vésperas de dar o passo mais decisivo: o de se casarem. Mas eles parecem falar idiomas diferentes a todo o instante. E, desde o início, o espectador fica esperando para saber em qual momento eles irão se separar. Porque parece impossível eles darem certo. Ele é um romântico, sonhador. Ela, uma garota fascinada por alguém mais velho e que pareça vomitar conhecimento a cada palavra proferida – pura ilusão, diga-se. Porque ninguém sabe tudo. E aquele que parece estar dando uma aula constante, é apenas maçante.

Midnight in Paris tem o tempo certo. Não é longo demais, e nem repetitivo. E essas qualidades parecem ser cada vez mais difíceis de serem encontradas. Os filmes que conseguem acertar no tempo e na dose do vai-e-vem do roteiro sem torná-lo repetitivo são um verdadeiro achado. Claro que em Midnight repete duas fórmulas: o conflito entre Gil e Paul (Michael Sheen), o “super-crânio” admirado por Inez, e as “voltas no tempo” do protagonista. Mas como em cada uma destas “repetições” há novidades, novos elementos, um molho nos diálogos, principalmente, a fórmula não parece ajustada. E também não se repete vezes demais.

O primeiro elemento que chama a atenção na produção e continua impecável até o final é a trilha sonora. E o apurado senso estético de Allen para capturar a essência de Paris. A trilha sonora que merece aplausos é mérito de Stephane Wrembel. Diferente de outros diretores, que poderiam perder tempo demais focando os cenários maravilhosos de Paris, Allen faz isso apenas na medida necessária. No “clipe” de homenagem que abre a produção e poucas vezes mais – e sempre tratando a cidade como pano-de-fundo de diálogos interessantes e interpretações sob medida. Nada de exageros, nada “over” – diferente de Vicky Cristina Barcelona, só para dar um exemplo recente.

Um dos grandes acertos de Allen foi ele ter voltado a tratar sobre si mesmo. Sim, porque seus melhores filmes são mais que autorais, são quase microcinebiografias. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Novamente ele se coloca no personagem principal. Mas teve a lucidez de saber que não pode mais figurar como um quase-galã. Então ele encontrou o ator perfeito para viver o seu estilo: Owen Wilson. Até o jeito de falar dele lembra o de Allen em filmes antigos. Ele está perfeito. Allen brinca com o erro na escolha amorosa e com o desejo de um artista em ser mais sério – deixando clara a sua preferência irônica de que a literatura é mais interessante que qualquer roteiro de Hollywood.

Não sabemos exatamente o que se passa. Se Gil, em um momento de crise, acaba alucinando por várias noites e embarcando sozinho em conversas com alguns dos maiores escritores e artistas de todos os tempos, e que conviveram juntos na Paris dos anos 1920, ou se ele realmente encontrou uma forma mágica de voltar no tempo. Isso pouca importa. Outra lição de Midnight in Paris é que o cinema é magia, que nos faz sonhar, viajar no tempo e no espaço, e que não vem ao caso que uma história seja 100% lógica. Paris faz qualquer pessoa viajar no tempo. A cidade respira cultura, e tem histórias e personagens em cada esquina. Incluindo os de importância histórica.

A brincadeira com a meia-noite também é divertida. Afinal, quem não se lembra da clássica histórica da Cinderela? E quantos de vocês já não brincaram que precisavam sair mais cedo antes que a carruagem virasse abóbora? Então por que coisas fantásticas não podem acontecer com o bêbado certo no lugar certo com o desejo certo na cidade de Paris? Midnight nos ensina a sonhar, e a soltarmos a imaginação. É uma ode à arte e à criatividade.

Mas o melhor do filme, além de Paris, da trilha sonora e da criatividade do roteiro, são duas ironias do texto de Allen. Primeiro, ele dá um bom tapa com luva de pelica nos estadunidenses “clássicos”, como Inez e seus pais, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). Destes que chegam em Paris ou em outra cidade fora dos Estados Unidos e acham razões para criticar quase tudo. Não conhecem muito sobre a cultura do lugar, e ficam fascinados com qualquer Paul que pareça saber algo – sendo verdadeiro ou não o que ele esteja dizendo. Ou simplesmente não querem saber de cultura alguma. Querem apenas voltar para os Estados Unidos o mais rápido possível. Pessoas que acham que precisam pagar caro para algo bom, e que estando em outro país, assistem a um filme made in Hollywood. O inverso de Gil, que admira e quer mergulhar naquela cultura.

A outra ironia é ainda melhor – e mais filosófica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Antes mesmo do protagonista voltar no tempo, junto com Adriana (Marion Cotillard), para a melhor época de Paris na opinião dela – na virada dos séculos 19 para o 20 – eu já estava pensando naqueles retornos… afinal, faz falta mesmo acreditar que houve um tempo melhor que o atual? Que tipo de resultado um pensamento assim pode trazer? Frustração, e pouco mais. Ok, para a história esse desejo irrepreensível do protagonista serve. Mas na vida real, ser saudosista não leva à nada. Muito melhor é saber admirar o tempo passado, grandes obras que outros deixaram, mas conseguir admirar o tempo presente com o mesmo interesse e fascínio. Afinal, a história até pode se repetir, em alguns aspectos, mas o tempo é sempre novo e chega para surpreender. Saber tirar proveito disto é fundamental. E o final do filme mostra isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais uma vez, Woody Allen acerta na escolha do elenco. E desta vez, pelos artistas homenageados pela história, ele conta com um grupo de primeira. Além dos atores já citados, dos quais eu destaco os ótimos trabalhos de Owen Wilson, que me surpreendeu – para mim, dos filmes dele que eu assisti até agora, este foi o melhor -, o de Kurt Fuller e da encantadora e precisa Marion Cotillard, vale citar o surpreendente desempenho de Carla Bruni, como uma guia de museu; Alison Pill como Zelda Fitzgerald; Corey Stoll como Ernest Hemingway; Tom Hiddleston como F. Scott Fitzgerald; Kathy Bates como Gertrude Stein; Adrien Brody como Salvador Dalí (estrelando uma das sequências mais engraçadas do filme); e a encantadora Léa Seydoux como Gabrielle.

Midnight in Paris estreou no Festival de Cannes no dia 11 de maio de 2011. Depois, ele participou de outros cinco festivais e acumulou, até agora, nove prêmios e outras 38 indicações – incluindo quatro Oscar‘s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro.

O novo filme de Woody Allen custou aproximadamente US$ 17 milhões. E foi muito bem nas bilheterias – com um roteiro delicioso, o nome de Allen e Paris como pano-de-fundo, não tinha erro. Apenas nos Estados Unidos o filme arrecadou, até o dia 5 de fevereiro deste ano, pouco mais de US$ 56,5 milhões. Na França, ele acumulou pouco mais de 8,4 milhões de euros e, na Itália, mesmo o país em crise, outros pouco mais de 8,7 milhões de euros. Nada mal. Mais que pagado, e no lucro.

E Woody Allen, aos 76 anos, não para. Atualmente o cineasta trabalha na pós-produção de seu 47º filme como diretor – e 68º como roteirista: Nero Fiddled, no qual ele volta a atuar. No elenco estão Ellen Page, Jesse Eisenberg, Alec Baldwin, Penélope Cruz, Alison Pill, Roberto Benigni, Ornella Muti, entre outros. Os dois primeiros atores me atraem. Já os demais… bueno, a conferir.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Midnight in Paris. Achei que a nota poderia ter sido melhor. Talvez nem todos conheçam Paris… sim, porque eu acho que o fato da pessoa ter presenciado aquele encanto pessoalmente, ter vivido pelo menos um pouco o charme daquela cidade faz toda a diferença na percepção deste filme. E de qualquer outra que torne uma cidade como uma das protagonistas. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 181 críticas positivas e apenas 14 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,8.

Midnight in Paris é uma co-produção da Espanha e dos Estados Unidos.

Da parte técnica do filme, além da trilha sonora deliciosa – e fundamental para o resultado do filme -, vale citar a ótima direção de fotografia de Darius Khondji e Johanne Debas; a edição de Alisa Lepselter; a direção de arte de Jean-Yves Rabier e Anne Seibel; o design de produção de Anne Seibel; a decoração de set de Hélène Dubreuil e os figurinos de Sonia Grande.

E agora, uma observação inevitável: sim, eu sei que eu demorei para assistir a Midnight in Paris. Mas quem acompanha este blog há algum tempo, já deve saber que quando eu perco “o momento” de assistir a um lançamento, ele acaba ficando no final da fila. E ela é tão, mas tãoooo grande! Midnight in Paris só voltou a subir na lista porque está concorrendo ao Oscar, claro. Mas valeu a pena assistir, mesmo com todo esse atraso.

CONCLUSÃO: Como continuar fazendo filmes sobre cidades e suas digitais e não parecer redudante? Não é uma tarefa das mais fáceis. Mas talvez o segredo seja soltar a criatividade e a imaginação. Ser menos realista e mais surrealista. Midnight in Paris é um filme delicioso, criativo e que reinventa alguns dos lugares-comuns de seu cineasta, Woody Allen. Engraçado, mas não de uma forma forçada. O diretor e roteirista continua falando de casais, suas crises e o desejo individual que pode, muitas vezes, não coincidir e pioras as coisas. Mas sobretudo, ele trata de Paris. De como aquela cidade é maravilhosa, não importa o clima ou a época. De quebra, Allen ainda brinca com esse vício dos sadosistas de plantão, de sempre achar o passado melhor que o presente. Desta forma, eles nunca aproveitam as chances, oportunidades e encantos de sua própria época. Um filme delicioso, para quem vive o presente, o passado e gosta de histórias que ainda investem na imaginação.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Midnight in Paris foi indicado para quatro Oscar’s. Achei bastante justo. O filme mereceu as indicações que recebeu. Além de ser indicado na categoria principal, de melhor filme, a produção está concorrendo como Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor e Melhor Direção de Arte.

Destas categorias, vejo que ele tem alguma chance, ainda que pequena, em Melhor Roteiro Original e Melhor Diretor. Como melhor filme, ainda que não seria nenhum crime ele ganhar, acho que as chances são mínimas. Afinal, The Artist e The Descendants, especialmente o primeiro, são favoritíssimos. Na mesma onda, três diretores parecem ter mais chances que Allen, que já recebeu três Oscar’s na carreira. A saber: Michel Hazanavicius, por The Artist; Martin Scorsese, por Hugo; e Alexander Payne por The Descendants. Em uma bolsa de apostas, eles estariam na frente de Allen.

Como Melhor Roteiro Original, Midnight in Paris tem mais chances. Seu grande concorrente é The Artist. A queda-de-braço ficou menor. Qualquer um dos dois vencendo será algo justo. Os demais correm por fora. Finalmente, Midnight concorre em Direção de Arte. Acho que The Artist e Hugo tem mais chances nesta categoria. Mas nunca se sabe… No cômputo geral, vejo que Midnight pode sair do Oscar de mãos abanando ou, na melhor das hipóteses, ganhar em Roteiro Original.

SUGESTÕES DE LEITORES: Antes tarde do que mais tarde, já diriam os espanhóis… revendo o meu arquivo de sugestões deixadas por vocês, meus caros leitores, percebi que Midnight in Paris havia sido indicado pelo Lorenzo Lavati no ano passado. E ainda que este filme, como The Tree of Life, tenha sido assistido agora porque ambos foram indicados ao Oscar, vale citar que o Lorenzo tinha pedido um texto sobre eles no dia 25 de setembro do ano passado. E aí, Lorenzo, você gostou deste filme? Volte aqui para comentar. Abraços!

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The Iron Lady – A Dama de Ferro

O tempo passa para todas as pessoas. Seja você um cidadão “comum”, ou um nome de destaque nos livros de história. Se você tiver sorte e viver muito tempo, uma hora a fatura é cobrada. The Iron Lady equilibra a história de uma mulher que serviu e ainda serve de modelo depois que ela saiu dos holofotes e um rápido repasse em sua vida pública. E para interpretá-la, não existe e nem poderia existir alguém melhor que Meryl Streep. Mais uma vez ela dá uma aula de interpretação, e torna muito difícil a escolha dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

A HISTÓRIA: Uma senhora idosa fica em dúvida sobre o leite que irá comprar. Mas a dúvida dura pouco. Caminhando devagar até o caixa, ela é ultrapassada por um engravatado que fala no telefone celular e parece estar com muita pressa. Ela pega um jornal The Times no caixa e paga a conta, ficando surpresa com o preço do leite. Enquanto toma café com o marido, Denis (Jim Broadbent), Margaret Thatcher (Meryl Streep) comenta sobre a subida do preço do leite. Ele brinca com a preocupação da esposa, e diz que “ela”, a empregada, está chegando perto. Quando a empregada chega, Margaret Thatcher está sozinha na mesa. A partir daí, o filme mostra a fragilidade da ex-primeira ministra inglesa e parte de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Iron Lady): O que você poderia esperar de um filme sobre a mulher que ajudou a mudar a história da Inglaterra e da política mundial, abrindo espaço para tantas outras mulheres trilharem o caminho do poder? Para começar, um filme que mostrasse a determinação e a força da Dama de Ferro, como ela ficou conhecida, certo? Pois bem, por incrível que possa parecer, The Iron Lady trata mais da fragilidade do que da fortaleza desta figura histórica.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a The Iron Lady). Grande parte do filme enfoca a velhice de Margaret Thatcher e seu progressivo mergulho em um estado de demência. Por um lado, esse enfoque assumido pelo roteiro de Abi Morgan é um acerto ao abordar um aspecto novo, pouco conhecido e inusitado da conhecida líder política britânica. Por outro lado, essa mesma sacada perde o caráter de novidade e acaba se transformando em um desperdício de tempo, de oportunidade para explorar um retrato mais completo da personalidade focada. O grande problema do roteiro é que ele perde o momento de dar a guinada, de sair do estado de “surpreendente” para jogar-se em um trabalho mais aprofundado.

Faltou um pouco mais de talento e de percepção para Abi Morgan. Ela perde o momento de ponderar o que poderia ser mais interessante para o espectador – além do caráter surpresa. E como o roteiro, especialmente quando o foco é uma personalidade histórica, é a alma de um filme e precisa ser bem costurado, o resultado de The Iron Lady se mostra fraco, quase decepcionante, quando percebemos o quanto da história de Thatcher é ignorado pelo texto do filme.

Sem Meryl Streep, o resultado teria sido catastrófico. Mas eis mais um filme em que ela salva a história. A interpretação dela é perfeita. Mais uma digna de prêmios. De Oscar. Mesmo que ela fiquei à ver navios, mais uma vez, na maior premiação do cinema dos Estados Unidos, ela é a grande responsável pelo interesse de The Iron Lady. Ela interpreta com gravidade e um grande respeito a personalidade de Thatcher. Mergulha de tal maneira na fragilidade da velhice e na convicção das opiniões fortes da primeira-ministra na vida adulta que você precisa esforçar-se para recordar da Thatcher real.

Pena que uma grande atriz, sozinha, não salva um filme com roteiro fraco. Para a sorte do espectador, contudo, há pelo menos mais um grande ator em cena: Jim Broadbent, que interpreta ao marido de Thatcher. Ele é a graça do filme – ou, pelo menos, tenta fazer rir em meio ao drama e ao tom sisudo do restante da história. A diretora Phyllida Lloyd faz um bom trabalho, ponderando bem cenas de reconstituição, a inserção de imagens de época, e imprimindo o tom exato, com a ajuda do diretor de fotografia Elliot Davis para diferenciar bem os tempos históricos. Ela também acerta ao tornar a câmera uma grande fã de Meryl Streep, acompanhando-a em cada movimento.

O problema está realmente no roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele gasta muito tempo batendo na tecla da fragilidade de Thatcher, uma forma de emocionar o espectador ao tornar uma personagem sem grande apelo popular como digna de piedade. Claro que, neste sentido, o filme faz pensar no que eu comentei lá no início. De que não importa o quanto grande ou “pequeno” alguém pode ser, o tempo passa para todos e, com esta passagem, a fatura vai ficando mais pesada. Mas o interessante mesmo de um filme sobre Margaret Thatcher não seria essa reflexão, ainda que ela seja válida, e sim mais detalhes sobre a história desta grande mulher. E faltam mais detalhes que possam encorpar essa reconstituição histórica.

Verdade que o espectador acaba tendo rápidas pinceladas sobre vários momentos da vida de Thatcher, antes mesmo dela ter este sobrenome. O problema é que rápidas pinceladas é muito pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sabemos nada da infância de Margaret, e saber tão pouco sobre a família dela não ajuda a montar um quadro sobre a formação da personagem histórica. A entrada e, principalmente, o sucesso dela na política também são tratados de maneira muito displicente. Ela não chegou a ser líder do partido sem alianças ou apoios importantes. Estas pessoas não aparecem – ou figuram apenas de relance, sem sabermos nada sobre elas. E mesmo o momento mais importante da personagem, quando ela se torna Primeira Ministra, é mostrado com pouca emoção ou profundidade.

Mesmo com tantos problemas, é interessante rever algumas frases famosas de Margaret Thatcher e relembrar, por exemplo, que ela citou a São Francisco de Assis logo que assumiu como Primeira Ministra. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A diretora e a roteirista acertam ao resgatar cenas históricas, e ao mostrar como o governo dela foi combatido. Mas os bastidores do poder e os jogos ao redor dela são quase todos ignorados. Algumas vezes, a questão parece estar resumida em uma questão sexista – homens versus mulher. Certo que esta foi uma questão importante, mas não foi a única que pudesse explicar a resistência dos pares de Thatcher ao seu poder. Também faltou mostrar o apoio que ela tinha da população – por grande porte do filme, até a guerra com a Argentina, pareceu que a população basicamente estava contra ela. E todos sabemos que ninguém ficaria tanto tempo no poder sendo impopular entre a massa e seus pares. Não faz muito sentido. E fragiliza o filme.

Meryl Streep, algumas das ótimas frases de Margaret Thatcher e o rápido repasse histórico daquela época fazem o filme não ser um completo desperdício e, porque não dizer, revelar-se até interessante. Se você conseguir ignorar algumas teclas batidas com repetição e a ligeireza do roteiro, poderá render-se a Streep. E isso sempre vale a pena.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Margaret Thatcher não foi apenas a primeira mulher a se tornar Primeira Ministra na Inglaterra – e a única, até agora. Ela foi também a figura forte de um dos principais países do mundo em uma época decisiva para a nossa história moderna. Thatcher ocupou a cadeira de Primeira Ministra entre 1979 e 1990. Certamente seria impossível, para qualquer filme, retratar com precisão os principais momentos destes 11 anos de governo dela. Mas faltou mais molho e enredo em The Iron Lady, tendo como fonte uma biografia e um tempo histórico tão determinante.

Este texto da Wikipédia, em inglês, traz mais informações sobre Margaret Thatcher do que todo o filme The Iron Lady. Para quem quiser saber um pouco mais sobre ela, é um bom ponto de partida. Aguardo o dia em que outro filme fizer mais justiça a uma personagem histórica desta grandeza. Gostaria de saber, por exemplo, dos bastidores das críticas que ela fazia à União Soviética, e a recepção que este combate tinha do outro lado – responsável por chamá-la de “dama de ferro”.

Segundo o texto da Wikipédia, como Primeira Ministra, entre outras ações, Thatcher desenvolveu uma política de desregulação, especialmente do setor financeiro, flexibilizando as regras trabalhistas, fechando e vendendo empresas estatais, e cortando subsídios dados para outras empresas. Parte destes pontos – especialmente as questões trabalhistas – são mostradas rapidamente no filme, com a consequente resistência de trabalhadores. Mas a recuperação da imagem de Thatcher não se deu apenas pela Guerra das Malvinas, em 1982.

Ainda que um conflito armado, que ressuscita a velha questão da soberania e do orgulho nacional, seja sempre um grande afrodisíaco para reeleições e para a política, a vitória da Inglaterra neste conflito justifica apenas em parte o sucesso de Thatcher para ser reeleita em 1983. As duras medidas tomadas logo que assumiu o poder começaram a surtir efeito e o país começou a registrar uma importante recuperação econômica.

Outro tema praticamente ignorado por The Iron Lady e que seria muito interessante de ter sido explorado foi a relação de Thatcher com lideranças mundiais, especialmente os Reagan. Também faltou abordar o que aconteceu com ela nos anos posteriores a ela ter deixado de ser a Primeira Ministra. Interessante como ela passou a ganhar 250 mil libras por ano para ser consultora geopolítica da companhia Philip Morris, por exemplo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficou de fora da história também os problemas que ela teve de saúde, como os derrames “suaves” sofridos em 2002 – um ano antes da morte do marido.

Para quem quiser ler um rápido resumo de Thatcher em português, indico este. Nele ficamos sabendo, por exemplo, que o estado de saúde da ex-líder política é muito mais complicado do que aquele mostrado no filme.

Indicando outras leituras: esta página, em inglês, é o site da fundação Margaret Thatcher, que traz materiais multimídia, frases, discursos, entrevistas e um material bem extenso da líder política; e esta outra página, especial da BBC, com um vasto material de texto, vídeos e áudio com Thatcher.

The Iron Lady estreou no dia 26 de dezembro na Austrália e na Nova Zelândia. Agora em fevereiro, mais precisamente no dia 14, o filme participa de seu primeiro festival, o de Berlim. Pelas característica do filme, não vejo ele fazendo uma grande carreira nos festivais ou ganhando muitos prêmios além daqueles entregues pelos círculos de críticos para Meryl Streep.

O filme teria custado aproximadamente US$ 13 milhões e faturado, até o dia 29 de janeiro, um mês depois de estrear nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 17,5 milhões. Sem dúvida esta bilheteria foi feita por duas razões: pelo nome de Meryl Streep, que é sempre um chamariz, e pela esperança dos espectadores de ver um grande filme sobre uma grande personagem histórica. Pena que apenas Streep faça valer o ingresso.

Até o momento, The Iron Lady ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo as nomeações para dois Oscar’s. Quase todos os prêmios recebidos foram para Meryl Streep, como era de se esperar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para o filme. É baixa, mas compreensível pela qualidade do roteiro da produção – frente ao que ela poderia ser. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também não perdoaram a fragilidade da produção. Eles dedicaram 101 críticas positivas e 86 negativas para The Iron Lady, o que garante uma aprovação de 54% para a produção – e uma nota de 5,8.

The Iron Lady é uma co-produção do Reino Unido com a França. Curioso, porque estas duas escolas de cinema, normalmente mais cuidadosas com cinebiografias, desta vez não tiveram a competência em focar uma personagem histórica tão relevante.

Fora os atores já citados, há pouca relevância no trabalho dos demais. Mas não custa citar os nomes de Alexandra Roach, que interpreta a jovem Margaret Thatcher; Harry Lloyd, que interpreta o jovem Denis Thatcher; e Olivia Colman, que faz um bom trabalho como a filha de Margaret, Carol. Da parte técnica do filme, nunca é demais citar o trabalho competente de Thomas Newman, na trilha sonora e a edição de Justine Wright.

Ah sim, e para quem acha que eu fui muito generosa com a nota acima, tenho duas considerações a fazer: de fato, acho que eu ando muito generosa, especialmente com os filmes indicados ao Oscar, já que este ano a premiação tem uma concorrência bem mais fraca do que em anos anteriores; e a nota é justificada, basicamente, por mais um excelente trabalho de Meryl Streep. Ela, sozinha, justifica a nota.

CONCLUSÃO: Um filme cuidadoso, atento aos detalhes de mais uma interpretação exemplar de Meryl Streep. The Iron Lady é conduzido por esta atriz espetacular. E ainda tem um roteiro inteligente em vários momentos, mas que não consegue aproveitar o legado de Margaret Thatcher. A produção perde uma boa oportunidade de contar mais detalhes da vida desta grande líder política. O roteiro ignora as forças que a levaram para o poder e a sustentaram por tanto tempo. Porque ninguém chegaria onde ela chegou e nem ficaria tanto tempo no poder apenas por suas ideias brilhantes. Toda a reflexão sobre a fragilidade da etapa final de Margaret Thatcher é válida, mas poderia ter sido encurtada para explorar melhor outros aspectos relevantes da vida desta personalidade histórica. Mesmo com os seus defeitos e simplificação da história, The Iron Lady é uma ótima oportunidade para assistirmos a mais um grande trabalho de Meryl Streep e, ainda de quebra, saber um pouco mais sobre a rotina de Thatcher em um momento em que ninguém mais se interessava por ela.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Iron Lady concorre a duas estatuetas este ano: a de Melhor Atriz, para Meryl Streep, e a de Melhor Maquiagem. As duas indicações foram merecidíssimas. Bato palmas para elas. Mas quais as chances do filme ganhar alguma destas estatuetas?

Meryl Streep sempre merece um Oscar. Impressionante. Dito isso, acho que ela poderia receber o Oscar por The Iron Lady. Conta a seu favor o fato dela ter recebido um Globo de Ouro pelo papel. Mas tenho minhas dúvidas se ela vai conseguir isso. Primeiro, porque as bolsas de apostas estão apontando para uma vitória de Viola Davis. Que também merece, diga-se. Depois, porque The Help está com uma moral muito mais alta com a crítica do que The Iron Lady. E isso conta pontos na hora da votação.

O trabalho feito com a maquiagem também é merecedor de uma indicação. E eu acho, pela sutileza do trabalho, que ele merecia ganhar a estatueta. Só que será difícil, para não dizer impossível, já que The Iron Lady concorre com os fortes candidatos Albert Nobbs e, principalmente, Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2. Resumindo a ópera: acho que The Iron Lady pode sair do Oscar sem prêmio algum.

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Hugo – A Invenção de Hugo Cabret

A magia do cinema é o foco central dos dois filmes que fazem a maior quebra-de-braço deste ano no Oscar. Além do já comentado The Artist, Hugo bebe desta fonte para encantar o público e a crítica. Mas diferente do filme francês, Hugo esbanja em efeitos especiais, no uso de recursos técnicos para encantar. The Artist, por outro lado, faz isso com um roteiro melhor acabado e com interpretações exemplares. Na queda-de-braço, Hugo perde – apesar de ser um filme interessante e que faz uma homenagem exemplar para um dos grandes inventores da Sétima Arte.

A HISTÓRIA: Engrenagens de um relógio dão lugar à lógica incessante do Centro iluminado de Paris. Neva, e nos aproximamos da estação de trem, onde parece pulsar o coração da cidade. A câmera passa ligeira entre muitas pessoas, até adentrar em um ponto fundamental daquela estação: um de seus relógios. Ali, invisível para as pessoas que entram e saem da estação, está Hugo Cabret (Asa Butterfield). O garoto observa, pelos números do relógio, a vida que transcorre na estação. Ele sai desta posição de observador apenas para roubar alguma comida e as peças que ele precisa para consertar um robô misterioso deixado pelo pai do garoto (Jude Law). Sem infância, a curiosidade do garoto sobre um brinquedo o aproxima do dono de uma das lojas da estação (Ben Kingsley).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Hugo): Hugo é um filme maravilhoso, destes planejado, do início até o final, para encantar o espectador. Aquela sequência inicial, da câmera percorrendo Paris, foi um cartão-de-visitas eficaz do diretor Martin Scorsese para o que viria depois. A sequência, propriamente, não é uma novidade – já foi explorada por muitos filmes, inclusive o ótimo Moulin Rouge. Bem planejado e executado nos detalhes, Hugo é um show de técnica. Mas lhe falta, justamente, um pouco mais de emoção e de inovação.

Não por acaso, Hugo me deu sono. Me desculpem os fãs do filme, que talvez tenham visto na telona o que consideram ser um dos melhores filmes de Scorsese. Eu não chegaria tão longe. Ele é um grande diretor, mas não fez aqui um trabalho surpreendente. Pelo contrário. Apesar de bem filmado, Hugo sofre para decolar. Demora para ficar interessante. O protagonista é bom, mas ele desaparece quando aparecem em cena atores como Ben Kingsley ou Chlöe Grace Moretz, que interpreta a Isabelle, afilhada de “Papa George”. Se Hugo tivesse meia hora a menos, talvez fosse melhor.

Nunca assisto a trailers e tento, como vocês bem sabem, me informar o menos possível sobre um filme antes de assistí-lo. Sendo assim, eu sabia que Scorsese havia homenageado a Georges Méliès com Hugo, mas não sabia até que ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda a este filme). Tinha lido algo a respeito de que o diretor havia reconstituído a alguns dos filmes de Méliès, um dos precursores mais brilhantes do cinema. Mas não sabia que o filme era, escancaradamente, sobre ele. Gostei da surpresa. De saber um pouco mais sobre este grande nome da Sétima Arte e do que aconteceu com ele após a Primeira Guerra Mundial. Foi muito bacana, também, a forma com que Scorsese reconstituiu alguns dos curtas mais famosos do diretor. Bela homenagem.

Mas o filme, infelizmente, não se resumo apenas à isso. Como Hollywood adora fazer, de tempos em tempos, Hugo coloca um jovem órfão como narrador de uma história cheia de fantasia. O protagonista, fascinado pelo cinema, arte que ele aprendeu a amar porque o pai lhe acostumou a levá-lo para a sala escura como uma espécie de presente, atua para resgatar um realizador esquecido. Ele simboliza a indústria fazendo um mea culpa. Incapaz de fazer isso enquanto Méliès estava vivo, essa indústria tenta fazer isso agora. Ainda que essa indústria seja outra, na verdade. Porque foi a indústria francesa que esqueceu Méliès em sua época – e a que o resgata agora é a de Hollywood.

Eis um ponto curioso sobre a disputa do Oscar deste ano. Vejamos: Hugo, o filme mais indicado do ano, é uma homenagem de Hollywood para um grande pioneiro do cinema, de origem francesa. The Artist, o melhor filme na disputa e o grande concorrente de Hugo, é uma homenagem francesa para o cinema mudo feito em Hollywood. Histórias que reverenciam o passado e o legado deixado por grandes realizadores de tempos extintos. Mas que não se debruçam sobre si mesmas, mas homenageiam escolas distintas. Interessante exercício.

Mas voltando a falar sobre o que prejudica Hugo: a lentidão do filme para que a história comece a decolar. Cansa um pouco aquela marcação cerrada do inspetor da estação de trem (Sacha Baron Cohen) contra toda e qualquer criança desacompanhada de um adulto. Fica repetitiva a corrida dele em busca de Hugo. O problema é que estas perseguições não criam tensão – afinal, todos nós sabemos que o protagonista não poderia se dar mal. Outro “suspense” do filme não se concretiza: o que envolve o robô herdado por Hugo. Não demora nada para percebermos que o robô é familiar a Papa George. E ainda que eu não tenha matado logo a charada de que o personagem de Ben Kingsley fosse, realmente, o próprio Méliès, torna-se evidente que o robô tinha uma forte ligação com ele. Faltava apenas explicar qual era a função dele, o que também não demora para acontecer – e nem surpreende.

Sem tensão ou grande expectativa sobre o que virá em seguida, Hugo passa lentamente. Como eu disse antes, ele chega a dar sono, apesar de toda a perfeição dos efeitos especiais e visuais. Aquelas histórias de “vida comum” da estação querem dar um “charme” para a produção, contextualizar aquela época e mostrar o cenário que fascinou os Lumière a ponto de inspirar os seus primeiros filmes. Mas francamente? Esse pano de fundo poderia ter sido mais resumido. Afinal, ele contribuiu pouco – para não dizer quase nada – para a história que mais interessa.

Um ponto é curioso neste filme: a “disputa” entre os mundos fascinantes de uma sala de cinema e de uma biblioteca. Hugo é fascinado pelo cinema. Isabelle, sua parceira de “aventuras”, pelas histórias narradas nas páginas dos livros. No final, a mensagem que o filme parece nos sugerir é que o fascínio de um não elimina o do outro. Tanto que Hugo é inspirado em um livro. E o protagonista mesmo comenta que era acostumado a ler livros junto com o pai. Neste sentido, o filme dá uma contribuição importante. Porque fica evidente a diferença de vocabulário entre as duas crianças da produção. Quem lê muito, como a personagem de Isabelle, consegue expressar-se muito melhor que os demais. Também conseguem fantasiar com muito mais facilidade, e encantar-se com as coisas mais comuns – enxergando referências em muitos feitos ordinários. Ainda assim, nada parece ser mais fascinante que o efeito que a fantasia tornada realidade, pela lente dos cineastas, causa nas pessoas – e isso, só uma sala de cinema é capaz de revelar.

Cheio de fantasia, e que apenas se inspira em uma história real. Muito do que vemos na telona não aconteceu, de fato. O que é real: Méliès realmente faliu e trabalhou, em meados da década de 1920, em uma loja de brinquedos na estação de trem de Paris. Mas ele não foi resgatado por um órfão, como Hugo, e sim por vários jornalistas que começaram a resgatar a importância que o diretor havia tido para o cinema. A razão para a falência dele também não se explica apenas pelo “desinteresse” do público pelos filmes cheios de fantasia que ele produzia após o excesso de realidade da Primeira Guerra. Esta foi uma das razões, mas não a principal. Depois falarei mais sobre isto.

O melhor deste filme demora para acontecer: o resgate de parte da história do cinema e de algumas das produções mais bacanas de Méliès. Só depois de uma hora e nove minutos é que mergulhamos no livro Inventer le Rêve, de René Tabard, que faz um rápido recorrido sobre as origens da Sétima Arte. E daí o grande mistério de Hugo é revelado. E surge, pouco depois, o resgate de cenas preciosas da obra de Méliès, reconstruídas com esmero por Scorsese. A partir daí, Hugo diz ao que veio. E acaba valendo o ingresso. Pena que demore tanto para chegarmos a este ponto.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O visual de Hugo é o melhor do filme. Aplausos para a direção de fotografia de Robert Richardson, para o design de produção de Dante Ferretti, para a direção de arte comandada por 10 grandes nomes, para a decoração de set de Francesca Lo Schiavo e para os figurinos da premiada Sandy Powell. Esse grupo imenso de pessoas, e mais todas as outras que ajudaram a tornar o resgate de Paris nos anos 1930 e da origem do cinema, algumas décadas antes, uma realidade.

Um grande diretor, como Martin Scorsese, só consegue fazer um grande filme como este, complexo pelo resgate histórico e pela ousadia de recriar alguns trechos de curtas clássicos, tendo uma ótima equipe ao seu redor. Por isso mesmo, Hugo é um dos filmes concorrentes deste ano que mais elogia a arte do cinema como o resultado de um trabalho de equipe. Talvez por isso, este filme saia vencedor em várias categorias. Mas lhe falta um pouco de invenção, por incrível que pareça, para ser o favorito nas categorias principais.

Hugo é uma grande obra de fantasia. Mas ele tem algum fundo de realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem central, daquele garotinho órfão “valente”, talvez tenha existido. Tenha percorrido várias vezes a estação de trem de Paris e, eventualmente, tenha parado no orfanato. Mas ele não existiu no ponto de mudar a parte final da vida de Georges Méliès. De fato, uma das mentes mais criativas do cinema ficou esquecida por muito tempo. Falido, abriu uma loja de brinquedos na estação parisiense. Mas as semelhanças com a história terminam aí. Méliès foi “resgatado” do ostracismo por jornalistas da época. E segundo este texto, em inglês, da Wikipédia, acabou de fato sendo homenageado, em dezembro de 1929, com uma retrospectiva de seus filmes na Sala Pleyel – antes da história de Hugo ser contada, portanto. Mesmo com esta homenagem, Méliès continuou pobre e precisou de ajuda para terminar a vida com o mínimo de dignidade. Vale a leitura do texto da Wikipédia.

Aliás, ao ler o texto sobre a vida do cineasta homenageado, fiquei um pouco mais incomodada com Hugo. Afinal, se era para fazer uma homenagem ao cinema e à Méliès, por que não contar um pouco melhor a sua história? Por que não falar das verdadeiras razões que fizeram o cineasta deixar de produzir filmes? Pelo texto da Wikipédia comentado, é verdade que os fatos da Primeira Guerra contribuiram para Méliès deixar de fazer filmes. Mas a derrocada do diretor havia começado muito antes do conflito de proporções mundiais eclodir.

Algo importante a comentar: Méliès não deixou o Théâtre Robert-Houdin para dedicar-se exclusivamente a fazer filmes. Pelo menos durante muito tempo. Os primeiros curtas de Méliès datam de 1896, quando ele estreou como diretor com Un Petit Diable. O famoso Le Voyage Dans la Lune, importante como fio condutor para o filme Hugo, está completando este ano 110 anos de seu lançamento. Mas segundo o texto da Wikipédia, em 1907, Méliès fazia sucesso lançando novas mágicas no teatro, enquanto produzia 19 curtas para o cinema. Segundo muitos críticos, a decadência do cineasta começou naquele ano, porque ele teria começado a repetir “velhas fórmulas” ao mesmo tempo em que lançava ideias novas. No ano seguinte, 1908, ocorreu um fato que seria decisivo – muito mais que a Primeira Guerra – para o futuro de Méliès: a criação da Motion Picture Patents Company (MPPC) por Thomas Edison.

O objetivo de Edison era colocar ordem e, de certa maneira, controlar a indústria cinematográfica nos Estados Unidos e na Europa. Várias empresas aderiram à proposta dele, incluindo a American Pathé e a Méliès’s Star Film Company. Edison assumiu a presidência do coletivo de realizadores. Naquele ano, a companhia de Méliès produziu 68 filmes e forneceu mil metros de filme por semana para cumprir o contrato com a MPPC. O irmão de Georges, Gaston Méliès, abriu então um estúdio em Chicago com a intenção de ajudar a empresa familiar a produzir a quantidade de filmes necessária. Mas ele não produziu nada em 1908. No início do ano seguinte, Méliès parou de fazer novos filmes e, em fevereiro, presidiu a primeira reunião do Congresso Internacional de Cineastas em Paris. Como outros diretores, ele estava descontente com o monopólio de Edison.

Naquele congresso, Méliès liderou um movimento de reação. O resultado é que Edison definiu que os filmes não seriam mais vendidos, mas alugados por um prazo de quatro meses apenas por integrantes da organização e que seria adotado uma mesma contagem de perfurações de filme para todas as produções. Méliès não gostou do último ponto, porque a maioria de seus clientes eram feirantes e proprietários de casas de espetáculo que eram contra esta padronização. Na época, Méliès dizia que não era uma empresa, mas um produtor independente. Ele voltou a filmar apenas no outono daquele ano. Enquanto isso, o irmão dele, Gaston, começou a produzir filmes nos Estados Unidos, abrindo estúdios diferentes até 1912. Entre 1910 e 1912, Gaston produziu mais de 130 filmes, enquanto o irmão, Georges, apenas 20.

Apenas em 1910, Georges Méliès produziu 10 filmes. Mas ele já passava mais tempo no teatro do que fazendo curtas para o cinema. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No outono daquele ano, Méliès fez um acordo com Charles Pathé que, segundo o texto da Wikipédia, acabaria destruindo a carreira cinematográfica dele. Pelo contrato, Méliès recebeu uma grande quantidade de dinheiro para produzir filmes que seriam distribuídos por Pathé Frères – as produções também poderiam ser editadas por Pathé, caso ele achasse conveniente. Fez parte do acordo com Pathé as escrituras da casa e da propriedade onde estava o estúdio de Méliès.

O diretor começou a fazer os seus filmes mais elaborados, como The Adventures of Baron Munchausen e The Haunted Window. O problema é que a extravagência destas produções, sucesso uma década antes, acabou resultando no fracasso de bilheteria das novas produções. Em 1912 Méliès seguiu com os projetos ousados e caros e, sem conseguir sucesso nas bilheterias, passou a ter os seus trabalhos editados por Pathé. Algumas produções de Méliès foram editadas por seu rival, Ferdinand Zecca, naquele ano, até que o diretor resolveu quebrar o contrato com Pathé.

Enquanto isso, Gaston Méliès gastou muitos recursos viajando com a família e uma equipe de 20 pessoas pelo Tahiti, pelo Pacífico Sul e pela Ásia. As filmagens foram enviadas através do filho dele para Nova York, mas grande parte do material acabou sendo danificado e perdido. Consequentemente, Gaston não conseguiu cumprir o acordo com a empresa de Edison. Além de gastar US$ 50 mil na viagem – uma fortuna para a época -, Gaston teve que se livrar do estúdio nos Estados Unidos.

Quando Méliès quebrou o contrato com a Pathé, em 1913, ele se viu em apuros para conseguir pagar o que devia para a companhia. Por ironia, a moratória declarada com o surgimento da Primeira Guerra Mundial salvou Méliès de perder as propriedades para a Pathé. Mas falido e sem possibilidade de seguir fazendo filmes, Méliès viu a situação piorar quando a primeira esposa, Eugénie Génin, morreu em maio de 1913 e seu teatro, o Robert-Houdin, ficou fechado por um ano. Foi aí que ele deixou Paris por vários anos, até retornar e começar a trabalhar em uma loja de brinquedos na estação de trem Montparnasse em meados da década de 1920. Depois da morte da esposa, Méliès teria se casado com Jeanne d’Alcy, que aparece em vários de seus filmes e que teria sido sua amante por vários anos – é ela que aparece no filme Hugo.

Durante a guerra, o exército francês confiscou mais de 400 impressões originais de filmes que faziam parte do catálogo do estúdio de Méliès para derretê-los em busca de matéria-prima para fazer solas de sapatos. O próprio Méliès, em um acesso de raiva, destruiu muitos de seus filmes. Ainda assim, segundo o texto da Wikipédia, pouco mais de 200 produções que levam a assinatura dele foram recuperadas e podem ser vistas em DVD.

Segundo o ótimo site de referências IMDb, Georges Méliès dirigiu, entre 1896 e 1913, 552 curtas metragens – a maioria deles, peças de ficção, mas alguns eram documentários. Além de diretor, Méliès trabalhou como ator em 85 curtas, como produtor de 71 deles e como roteirista de 42.

Ah sim, e era verdade que ele foi um dos espectadores maravilhados com a primeira exibição dos irmãos Lumière.

Os atores em Hugo estão muito bem, especialmente os veteranos. Roubam a cena, claro, Ben Kingsley e Helen McCrory – ela como Mama Jeanne. Jude Law faz uma ponta, assim como Michael Stuhlbarg como Rene Tabard, mas ambos estão muito bem. O garoto Asa Butterfield não faz feio, mas também não se destaca. Chlöe Grace Moretz sim, ocupa todo o espaço na tela sempre que aparece. Sacha Baron Cohen parece desconfortável em um papel sério. E outros atores conhecidos, como Emily Mortimer, que aparece como a florista Lisette, e Christopher Lee como o livreiro Labisse, praticamente desaparecem em meio a um roteiro que dá mais atenção para as cenas de perseguição do que para o trabalho dos atores.

Até o momento, Hugo pode ser considerado um fracasso nas bilheterias. Afinal, ele custou aproximadamente US$ 170 milhões e arrecadou, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 58,9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Mesmo que o filme se recupere ganhando algumas estatuetas do Oscar, dificilmente ele conseguirá ser um êxito. Algo ruim, mas previsível – afinal, o filme não convence o suficiente e não entra na famosa propaganda boca-a-boca.

Hugo estreou no festival de Nova York no dia 10 de outubro. De lá para cá, a produção participou de apenas um festival de cinema, o de Roterdã, na Holanda.

Mesmo sem ir bem nas bilheterias, Hugo fez sucesso entre os seus pares e entre a crítica. James Cameron, após assistir ao filme, classificou-o como uma “obra de arte” e disse que é a melhor experiência de filme 3D já feita – superando, inclusive, os seus próprios filmes, como Avatar. Admito que assisti Hugo sem ser na versão 3D. Talvez neste formato ele pareça mais impressionante.

Até o momento, Hugo ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 65 – incluindo as 11 indicações ao Oscar. Os mais importantes que ele recebeu foram o Globo de Ouro de melhor diretor para Scorsese; e os prêmios de melhor filme e melhor diretor do National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Hugo. Uma boa nota, mas nada excepcional. Os críticos do Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 178 críticas positivas e 12 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,3.

Hugo tem um bom roteiro, mas ele poderia ter sido melhor construído – sem tantas sobras e pegando ritmo mais rápido. John Logan fez um trabalho competente, mas que deixou a desejar. O roteiro dele teve o livro The Invention of Hugo Cabret, de Brian Selznick, como fonte de inspiração.

CONCLUSÃO: Volta e meia, Hollywood gosta de olhar-se no espelho. De falar sobre seus grandes diretores, artistas, de relembrar de tempos em que o glamour dominava o cenário do cinema. Eram tempos diferentes, quando não haviam muitas escolas de cinema ou centros de produção de filmes no mundo. Hugo aparece 116 anos depois da primeira exibição pública do invento dos irmãos Lumière cheio de homenagens e tentando repassar para a telona a mesma magia que encantou as primeiras audiências desta arte já centenária. O problema é que, apesar do trabalho técnico competente e das boas intenções, Hugo não consegue ter o mesmo encanto. Ele nem chega perto dele, aliás. O roteiro não surpreende e a história demora para engrenar. O final sim, sela o trabalho com chave de ouro, e faz o restante do tom morno do filme parecer pouco importante. De fato, a homenagem é bonita e o final é exemplar, mas o restante do filme, nem tanto. Bem feito, bacana, mas pouco inspirado e menos criativo que o seu grande rival no ano, The Artist.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Hugo foi o filme que ganhou o maior número de indicações para a maior premiação de Hollywood este ano: 11, no total. Surpresas sempre podem acontecer, mas francamenteu eu acho que ele ficará a ver navios na maior parte das indicações.

Muito bem acabado nos detalhes, Hugo tem melhores chances de vencer em categorias técnicas. Frente à The Artist, ele não merece ganhar como melhor filme. Claro, não seria nenhum absurdo se ele ganhasse. Afinal, é um bom filme. Mas não é o melhor do ano – ou na disputa, pelo menos. Martin Scorsese faz um trabalho ótimo na direção. Pode levar a estatueta. Mas se Michel Hazanavicius, de The Artist, ou Woody Allen, por Midnight in Paris, conseguissem embolsar a estatueta dourada, também não seria nenhuma injustiça – francamente, torço por Hazanavicius.

Das outras nove indicações, vejo Hugo tendo uma chance grande de vencer nas categorias de melhor edição, melhores efeitos especiais, melhor edição de som, melhor direção de arte e melhor mixagem de som. Não seria uma surpresa se o filme ganhasse ainda em melhor fotografia, ainda que eu veja outros filmes como favoritos – como The Artist e The Tree of Life. E mesmo na lista de categorias técnicas em que Hugo tem chances fortes, há sempre pelo menos um outro concorrente que pode surpreender e vencê-lo. É preciso esperar para ver o quanto a Academia quer ou não deixar o prêmio “em casa” e seguir olhando fixamente para o próprio espelho.

Para resumir, eu diria que Hugo merece entre quatro e cinco estatuetas, todas nas categorias técnicas. Mas se Hollywood quiser homenagear a si mesma e deixar o prêmio nos Estados Unidos, ignorando a superioridade de The Artist, Hugo poderá receber entre sete e oito Oscars. Logo veremos…

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The Help – Histórias Cruzadas

Surpreendente. Admito que se este filme não tivesse sido indicado a tantas estatuetas do Oscar e ganho tantos prêmios pelas atuações de suas atrizes, eu dificilmente o teria assistido agora. E The Help merece esta chance de ser visto. Ele conta uma história conhecida, mas sob uma ótica totalmente nova. Por isso a surpresa. E, claro, pelo ótimo trabalho do elenco da produção. O roteiro também é ótimo, junto com a direção de Tate Taylor.

A HISTÓRIA: Alguém escreve à lápis em um caderno comum. A empregada doméstica Aibileen Clark (Viola Davis) começa a contar a própria história, dizendo que nasceu em 1911 em uma fazenda. Ela diz que sempre soube que seria uma empregada, porque a mãe tinha sido uma e a avó, uma escrava doméstica. Skeeter Phelan (Emma Stone) pergunta se Aibileen já sonhou em ser outra coisa, e a mulher assente com a cabeça. Quando ela pergunta sobre o que a empregada sente ao cuidar de crianças brancas enquanto as suas, negras, estão sendo cuidadas por outra pessoa, Aibileen lança o olhar para um retrato na parede. E aí começa a ser contada a história dela, e de várias outras empregadas domésticas que vivem e trabalham em Jackson, uma cidade do Mississippi onde vigora a segregação racial.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Help): Histórias bem contadas sempre são fascinantes. Bons textos, com interpretações inspiradas, fazem toda a diferença no cinema. O diretor pode até não fazer um trabalho inovador, inspirado. Pode filmar fazendo o bê-à-bá. Tudo bem. Mas se o roteiro não for bom e os atores não fizerem um trabalho condizente com ele, não há como remediar. The Help, para a sorte dos espectadores, tem ótimas histórias para contar, de um tempo onde as aparências contavam muito e quando a ignorância predominava, e com um plus de interpretações que faz a diferença.

O problema do filme é o que o roteiro, ainda que bem escrito, é simplório em muitos pontos. O diretor Tate Taylor adaptou o romance de Kathryn Stockett para a telona. Não li a obra, mas imagino que ele jogou para o cinema a mesma lógica do livro. E ela incomoda um pouco por duas razões: por estigmatizar as mocinhas e as bandida e pela preocupação da história chocar e, em seguida, suavizar o problema com a mesma intensidade.

Mas antes de falar mais destes deslizes, vou abordar as qualidades da produção. Porque The Help tem muitas. Primeiro, a interpretação impecável de Viola Davis. Cada vez que a atriz entra em cena, ela dá uma aula de como repassar para a telona a profundidade de emoções de uma personagem. Ela convence quando sorri e ensina mais uma menina de quem cuida. Faz o mesmo quando conta suas próprias histórias, ou emociona-se lembrando do filho. Além dela, outras grandes atrizes seguram o interesse na história, com destaque para Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer e Jessica Chastain. E os coadjuvantes também fazem um coro interessante para as ótimas interpretações.

A segunda qualidade da produção é tornar atrativas narrativas de histórias que nem sempre contam com flashbacks. Esse resgate do papel fundamental dos contadores de história, que nos estimulam a ficarmos sentados enquanto viajamos com eles para outros dramas e prazeres humanos, é um dos pontos fortes de The Help. E as histórias das empregadas domésticas negras subjugadas, até então escondidas, se tornam especialmente interessantes pelo ineditismo.

Ando assistindo à muitas séries de TV, e este filme me fez lembrar da premiada e elogiada – com razões – Downton Abbey. É como se o filme destrinchasse as relações de poder e os bastidores entre empregadas negras e suas patroas brancas e ricas da mesma forma – só que com menos profundidade, é claro – com que Downton Abbey destrincha as mesmas relações na sociedade inglesa.

O filme equilibra bem o humor e o drama e, ainda que o desenrolar seja bastante previsível, no meio do caminho temos algumas boas surpresas e sacadas do roteiro. A direção de Taylor não surpreende, mas pelo menos não atrapalha. O diretor acertou ao focar a câmera sempre valorizando o trabalho dos atores – que são, sem dúvida, os grandes responsáveis pela produção manter o interesse do público do início até o final. História de gente sempre atrai, especialmente quando trata de relações conflitantes e que são próximas de quem assiste – de uma forma ou de outra o preconceito racial e/ou com minorias ainda permanece, em contextos diversos.

A grande sacada da história é o filme dar voz para quem nunca tinha tido chance de expressar-se. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta questão me afetou, em especial, porque, afinal, como jornalista, sempre buscamos uma forma de, uma hora ou em outra, dar voz para essas pessoas excluídas e/ou esquecidas. Bacana ver uma personagem como a de Skeeter Phelan fazendo isso, e a repercussão importante que o seu trabalho teve. Neste sentido, The Help é um filme diferenciado, porque ele trilha caminhos antes não explorados. Outras produções já trataram de segregação racial, mas nunca tomando este ponto de vista – de empregadas e suas patroas – de bastidores familiares como tema central.

Mas nem tudo são qualidades. Agora sim, falarei mais do que me incomodou nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ainda que os atores desta produção façam um ótimo trabalho, eles estão baseados em personagens simplistas. Vejamos: será que apenas uma garota sem marido e que deseja ser independente, trilhando o caminho do jornalismo, poderia se incomodar o suficientemente para contribuir para uma mudança naquele cenário de injustiças? E será que apenas outra garota, isolada das demais, poderia também ser tão receptiva a uma empregada negra, a ponto de tratá-la como uma semelhante? Nenhuma mulher branca, casada e com filhos que fizesse parte daquela sociedade poderia, por sua própria conta e risco, se dar conta que aquela exclusão com base na raça era absurda? Curioso que há nuances de mudança na história, e esses indicativos aparecem, justamente, em mulheres mais velhas – como as mães de Skeeter e de Hilly.

Outra fonte de incômodo – ainda que esta reflexão surja depois do filme terminar, muito mais do que durante a exibição da história que, de tão envolvente, provoca pouca reflexão – é a preocupação da história em equilibrar, quase que matematicamente, o drama com a comédia. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Será que é preciso realmente assoprar sempre depois de bater? The Help preocupa-se demais em chocar e suavizar ao mesmo tempo. Você espera sempre que algo pesado vá acontecer porque, de fato, episódios muito pesados aconteceram naquele cenário e tempo histórico. Mas a maior violência, a morte de um homem pelas costas, não é mostrada. The Help não deixa de ser um filme duro, mas essa dureza fica restrita apenas às histórias, às palavras e sentimentos. Fora as interpretações estonteantes, The Help parece pouco realista. Claro que ele não precisa ser realista, porque é um filme – antes que alguém diga o óbvio. Ainda assim, todo esse glacê na história faz com que ela não seja perfeita ou exemplar. O bom é que as atrizes estão tão bem que o sentimento que temos, no final, é de que acabamos de ver a um grande filme.

NOTA: 9,4 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis um filme de atrizes. Os homens aparecem pouco em The Help e, quando aparecem, estão sempre dando base para o destaque de uma intérprete. Os únicos atores que tem algum destaque são o galã Chris Lowell, que assume a pele do estranhíssimo Stuart Whitworth, que corteja a “solterona” Skeeter Phelan; e Mike Vogel como Johnny Foote, o bom partido que escolheu uma mulher menos óbvia, a engraçada Celia. Vogel tem apenas uma grande sequência de diálogo na produção mas, quando diz as suas falas, se sai muito melhor que o colega Lowell – sem sal, na minha opinião, pelo menos neste filme.

Vários outros filmes trataram da segregação racial nos Estados Unidos, especialmente no Sul do país, onde ela ressistiu muito mais tempo à ceder. Provavelmente o mais famoso deles seja Mississippi Burning, o ótimo filme de Alan Parker, que já pode ser considerado um clássico. Vale também dar uma conferida em Malcolm X, filme estrelado por Denzel Washington e que trata do controvertido líder negro.

Pesquisando para citar aqui alguns textos importantes e interessantes sobre a questão racial no Sul dos Estados Unidos, encontrei uma frase do escritor William Falkner a respeito de seu estado natal, o Mississippi, que eu acho relevante: “eis um lugar onde o passado nunca morre”. O racismo mostrado no filme não terminou. E não apenas no Sul dos Estados Unidos, mas em tantas outras partes, e transvestido de formas muito diversas – e, geralmente, não verbalizadas.

Tenho alguns textos para indicar àqueles que ficaram interessados por este tema da segregação racial. Para começar, indico este, publicado em um especial do portal UOL de Joaquim Nabuco. O texto traz o depoimento de Barbara Carter, uma professora de uma universidade dos Estados Unidos para mulheres negras que viveu a discriminação legalizada naquele país. No final, há a citação de que ainda existiriam, nos Estados Unidos, 762 grupos racistas. Um dos principais, claro, é a Ku Klux Klan. Aqui, um texto que explica o surgimento e o desenvolvimento deste grupo. Para fechar, recomendo este texto, que mostra avanços e retrocessos na discussão da segregação racial nos Estados Unidos, e este outro, sobre o movimento dos direitos civis naquele país.

Além das atrizes já citadas, e que dão um banho, é preciso citar outras que engrossam o time do filme – e mesmo que não façam um trabalho brilhante, elas ajudam a esta história ser contada: Ahna O’Reilly como Elizabeth Leefolt, a patroa de Aibileen; Anna Camp como Jolene French, uma das amigas de Hilly; Cicely Tyson como Constantine Jefferson, a empregada negra que ajudou a criar a Skeeter; e Aunjanue Ellis como Yule Mae Davis, a empregada que entra para substituir Minny na casa de Hilly.

Duas atrizes que fazem papéis secundários, são veteranas e dão um show são Allison Janney como Charlotte Phelan, mãe de Skeeter, e Sissy Spacek como Missus Walters, mãe de Hilly. As duas, mesmo sendo de gerações mais antigas e, teoricamente, mais resistentes às mudanças, são as que revelam uma aceitação maior das mulheres negras como iguais – ou quase isso – do que as gerações mais jovens. Talvez porque elas já sejam capazes de reconhecer tudo que aquelas mulheres fizeram por elas e pelas demais, cuidando de seus filhos e famílias por muito tempo.

O filme é bem acabado. Além da direção que privilegia as interpretações feita por Tate Taylor, vale citar a envolvente trilha sonora do veterano premiado Thomas Newman, a direção de fotografia “aconchegante” e “de época” de Stephen Goldblatt, e a edição precisa de Hughes Winborne. Por ser um filme ambientado nos anos 1960, vale comentar o bom trabalho dos figurinos feito por Sharen Davis, a direção de arte de Curt Beech e o design de produção de Mark Ricker. Sem eles, não teríamos sido transportados com tanta fidelidade para aqueles anos.

The Help é um sucesso de público. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, faturou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 169,6 milhões. Mesmo que ele não sair com muitas estatuetas do Oscar, para o qual ele foi indicado quatro vezes – e tem chance de ganhar, no máximo, três estatuetas -, The Help já pode ser considerado um sucesso.

Este filme estreou nos Estados Unidos e no Canadá no dia 10 de agosto de 2011. De lá para cá, ele participou de seis festivais – sem dúvida, The Help é uma produção muito mais com cara de comercial do que de festivais. Mesmo não participando de muitos festivais, este filme embolsou, até o momento, 29 prêmios – e foi indicado a outros 64, incluindo os quatro do Oscar. Dos prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer; para o prêmio de melhor elenco conferido pelo National Board of Review; e para os prêmios para o elenco e de interpretações impactantes para Viola Davis e Octavia Spencer do prêmio Screen Actors Guild (que representa a categoria dos atores em Hollywood).

Uma curiosidade sobre os bastidores deste filme: as atrizes Emma Stone e Bryce Dallas Howard viveram a personagem de Gwen Stacy em filmes do Homem-Aranha. Outro fato curioso: o livro de Kathryn Stockett, no qual The Help é baseado, foi rejeitado 60 vezes antes de encontrar alguém que acreditasse em seu potencial e decidisse publicá-lo. E algo fundamental para este filme ter sido realizado: o diretor, Tate Taylor, é amigo de infância de Kathryn Stockett.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para The Help. Não está mal, mas está abaixo de outros concorrentes importantes deste filme no próximo Oscar. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais exigentes: publicaram 149 críticas positivas e 47 negativas para o filme, o que lhe rendeu uma aprovação de 76% – e uma nota média de 7.

The Help é uma co-produção dos Estados Unidos, da Índia e dos Emirados Árabes – curioso.

Vale lembrar que este é apenas o terceiro filme dirigido por Tate Taylor. Ator com 18 filmes no currículo, ele estreou atrás das câmeras em um curta, em 2003, e cinco anos depois, em 2008, dirigiu o primeiro longa, Pretty Ugly People. Com o sucesso de The Help, ele deve seguir nesta seara.

CONCLUSÃO: Um filme recheado de histórias interessantes narradas com uma ótica diferenciada sobre a segregação racial e a diferença de classes nos Estados Unidos. The Help é destas produções que busca o equilíbrio constante entre o drama e a comédia, com várias pitadas inusitadas e interpretações exemplares. As atrizes deste filme surpreendem pela dedicação e pela força de suas interpretações – não é por acaso que três delas foram indicadas ao Oscar e ao Globo de Ouro. E que duas estejam sendo apontadas como favoritas para levar uma estatueta dourada para casa no próximo dia 26. É um filme bem escrito, mas que falha ao suavizar a própria história, dividindo as pessoas claramente entre “boas” e “más” – quando sabemos que esta divisão é bem mais difícil de ser feita. Ainda assim, The Help é envolvente e deve cair no gosto popular, mais do que outras produções que estão concorrendo ao Oscar deste ano.

ATUALIZAÇÃO NO DIA 14/04: Olhando para trás, acho que fui um pouco “bondosa” demais com o filme dando, inicialmente, a nota 9,4 para ele. Um 9 me parece mais justo.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Help foi indicado em quatro categorias do Oscar. Por repetir duas indicações em uma mesma categoria, a de melhor atriz coadjuvante, ele pode receber, na melhor das hipóteses, apenas três estatuetas. Mas deverá ficar com menos que isso. Ele não tem chance como melhor filme – pelo menos não tendo The Artist e The Descendants como concorrentes.

Levará, sem dúvida, na categoria de melhor atriz coadjuvante – provavelmente a ganhadora será Octavia Spencer, ainda que Jessica Chastain tenha se firmado como um dos grandes nomes do ano passado. Viola Davis, para a minha surpresa, está liderando muitas bolsas de apostas para a premiação. Caso ela consiga vencer das favoritas Meryl Streep e Michelle Williams, não será uma injustiça.

Viola Davis é uma das grandes responsáveis pelo êxito de The Help. Além do mais, para muitas pessoas, a Academia tem uma dívida com ela, desde que não a premiou pela interpretação estonteante – ainda que muito curta – de Doubt. Ela merece, pois. Agora é esperar para ver se ela conseguirá desbancar as favoritas e garantir o segundo de três Oscars possíveis para The Help.