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Blue Jasmine

BlueJasmin OneSheet_Blue Jasmine - One Sheet

Uma mulher que sabe bem o lugar importante que ela deve ocupar no mundo. Não por mérito próprio, mas porque ela há de encontrar e encantar um homem que possa proporcionar-lhe a vida de rainha que ela merece. Blue Jasmine foi feito para uma mulher brilhar, e esta mulher se chama Cate Blanchett. A personagem dela é sobre a qual me refiro no início deste texto.

Como o sol e os demais planetas, é ela que aguarda que o mundo gire ao seu redor. Woody Allen faz, mais uma vez, um filme para que uma atriz de renome brilhe e tenha a carreira marcada por seu desempenho. Demorei para assistir a este filme. Gostei dele, mas não encontrei em Blue Jasmine todas as qualidades que eu esperava.

A HISTÓRIA: Um avião corta os céus dos Estados Unidos. Dentro dele, Jasmine (Cate Blanchett) conta para a passageira ao lado (interpretado por Joy Carlin), que ela nunca conheceu um homem como Hal (Alec Baldwin). Ela fala da vida que teve com ele, e como se sentia especial ao seu lado. Lembra como tocava a música Blue Moon quando eles se conheceram, e a mulher ao lado parece embarcar na história.

Jasmine diz que deixou a faculdade para ficar com Hal, mas que não perdeu nada porque ela não se imaginava como uma antropóloga. Na saída para pegar a bagagem, ela diz que o sexo entre eles sempre foi bom. Ela também conta que os médicos tentaram seis medicamentos com ela, mas que nada funcionou como deveria. Nesta parte, a mulher ao lado dela parece um pouco desconfortável. E é desta maneira, um tanto deslocada, que Jasmine tentará refazer a vida em San Francisco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blue Jasmine): Devo adiantar para vocês que vou cometer algumas “heresias” neste texto. Mas há uma justificativa para elas – mesmo que vocês possam discordar dos argumentos.

Como eu disse antes, demorei um bocado para assistir a Blue Jasmine. Uma prova disso é que vi a quase todos os principais concorrentes ao próximo Oscar, incluindo Gravity (comentado aqui no blog), assim que ele estreou nos cinemas, mas perdi o momento de Blue Jasmine. Pouco a pouco, contudo, fui acompanhando como Cate Blanchett foi ganhando todos os prêmios da temporada por causa do desempenho neste filme, e como ela é a virtual favorita para o próximo Oscar, fui obrigada a assistir a este filme.

E francamente? Vi a mais uma produção com a marca do Woody Allen. E aí vai o primeiro sacrilégio deste filme: nunca achei nada demais na filmografia de Allen. Um indicativo disto é que não tenho nenhum de seus filmes como um dos meus preferidos de todos os tempos. Outros diretores, muito menos “badalados”, me “afetam” ou me convencem muito mais em sua forma de contar uma história.

Dito isso, feito este parêntesis, Blue Jasmine é mais um filme bem escrito por Woody Allen. Outra vez, este diretor com marca registrada muito própria, escolheu um tema específico para escrever um roteiro bacana sobre ele. No caso de Blue Jasmine, ele se debruça nas mulheres de escroques que vivem uma vida de primeira a custa dos outros – ou seja, não são ricos por mérito, mas por exploração. E há quem diga que não há rico por mérito… mas esta é outra história.

A personagem principal deste filme, vivida por Blanchett, Jeanette ou Jasmine (o segundo nome por escolha própria), encarna aquele tipo de mulher que acha que a função que tem na vida é encontrar um homem endinheirado pra sustentá-la. Isso porque ela faz uma avaliação de si mesma muito específica: ela merece ter o bom e o melhor. Mas diferente de outras mulheres, Jasmine não acha que conseguirá isso por conta própria – afinal, tudo é muito complicado, especialmente batalhar pela própria sobrevivência e/ou vida boa.

No filme de Allen, encontramos Jasmine após a “tragédia”. Mesmo não tendo me fascinado tanto quanto deveria, o roteiro de Blue Jasmine tem um mérito: ele sabe ir e vir do presente para o passado com suavidade e no momento exato. Assim, pelas lembranças da protagonista, voltamos sempre para a época na qual Hal estava vivo para acompanhar momentos que pudessem ou não sinalizar a inocência ou o conhecimento de Jasmine sobre tudo o que acontecia.

Aliás, esta parece ser a premissa principal do filme. Afinal, o quanto alguém pode ser inocente frente a tanto dinheiro sem uma justificativa plausível para ele existir? As mulheres dos ricaços que ganham verba de forma escusa de fato não sabiam de nada ou fingem não saber? A responsabilidade de Jasmine sobre tudo o que aconteceu e o “preço” que ela paga por ter se feito de cega move a trama, na mesma medida que a tentativa da personagem em se “reerguer”.

Achei especialmente interessante como ela tenta fazer a vida por “conta própria”. No fundo, como fica comprovado, ela apenas tenta fingir que vai tentar um caminho alternativo. Ela é daquela “espécie” de mulher que não quer um grande esforço. O ideal, para este perfil, é que surja pela frente um marido rico e que possa suprir todas as suas demandas.

Não vou julgar uma pessoa que siga esta linha. Até porque há várias mulheres assim. Mas francamente? Não vejo na dependência de outra pessoa, neste caso um “marido-provedor”, a saída para um ser humano. Afinal, cadê a independência, a autonomia? Como eu posso me sentir uma pessoa completa e capaz se não consigo crescer e me manter por conta própria? Acho ótimo e primordial dividir a vida e o que se sabe com os outros – ou com uma pessoa especificamente. Mas a dependência é sempre ruim – porque torna as pessoas superficiais e sem identidade.

Demora, mas lá pelas tantas Jasmine percebe isso. Só que talvez seja tarde demais para ela… Será? Francamente, para quem está disposto a “mudar a chave”, nunca acho que seja tarde demais para nada. Muito menos para tomar as rédeas da própria vida nas mãos. Mas o que faz a protagonista deste filme?

(SPOILER – não leia se você não assistiu a Blue Jasmine). Ela busca o primeiro cara que possa lhe manter na vida boa assim que possível. Assim, naturalmente, ela agarra a oportunidade que uma festa lhe dá e tenta segurar o bom partido Dwight (Peter Sarsgaard). Como tantas pessoas na vida real, fora desta ficção, Jasmine conta apenas parte da própria história. E exagera outras partes. O suficiente para convencer Dwight que ela também é um bom partido. E no fim das contas, quantas relações não surgem e são mantidas através de um cálculo impreciso de troca de benefícios?

Woody Allen sustenta Blue Jasmine com a mesma lógica de tantos outros de seus filmes. Ele tem ótimos acertos em algumas cenas, enquanto na maior parte do tempo procura transportar para a telona o supra-sumo de uma realidade que ele já encontrou na vida. E com a qual nos deparamos também, uma hora ou outra, se formos um pouco atentos.

Como manda a regra de um roteiro de Allen, há algumas sequências verdadeiramente impagáveis. A minha preferida é quando a “tia” Jasmine desabava com os sobrinhos Matthew (Daniel Jenks) e Johnny (Max Rutherford) em uma lanchonete. A cara de constrangidos dos dois, que todos nós já tivemos frente a alguma confissão de um parente “cheio da cachaça”, é impagável. Assim como a interpretação de Blanchett.

Possivelmente, o ponto forte do filme, junto com a “reviravolta” no roteiro perto do final. Para o meu gosto, que vejo Woody Allen um tanto supervalorizado na maior parte do tempo – ainda que devo admitir que ele mantém uma coerência rara para um diretor de Hollywood em sua filmografia -, a nota abaixo se justifica especialmente pela “sacada” do roteiro a partir do reencontro de Jasmine com o enteado Danny (Chalie Tahan quando criança, Alden Ehrenreich quando adulto). Porque, naquele momento, o espectador tem a resposta sobre a “inocência” de Jasmine. Como diz aquela lenda, nada pior do que a vingança de uma mulher traída.

Finalizando, Blue Jasmine é um filme típico de Allen, com algumas sequências muito bem construídas, uma ótima escolha de elenco – Sally Hawkins como Ginger, para mim, é a surpresa positiva da produção -, um roteiro que sabe focar uma parte específica da sociedade com humor e a duração exata. Mais que uma hora e meia de filme seria pedir demais. Mas Blue Jasmine funciona bem em seu tempo de duração, ainda que não seja nenhuma produção verdadeiramente marcante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há uma lenda de que Woody Allen sempre faz filmes para as “atrizes da vez” brilharem. Sabendo que tais atrizes são aquelas que ele escolhe a dedo. Francamente, acho que Cate Blanchett está bem neste filme, mas não vejo que ela faça o trabalho da vida dela aqui. Como já vi acontecer recentemente com outras atrizes que passam pelas “mãos” de Woody Allen. Ainda assim, e isso é fato, ele sabe dirigir bem os atores que participam de suas produções.

Neste filme, além de Cate Blanchett, que literalmente vive a personagem que faz os demais orbitarem ao seu redor, gostei muito da entrega de Sally Hawkins. De uma maneira muito discreta, nada espalhafatosa, Hawkins encarna bem o papel da irmã que se sente sempre eclipsada. Além das duas, que se destacam na produção, acho que Alec Baldwin segura bem no papel de Hal, assim como Andrew Dice Clay está bem como Augie – especialmente na sequência em que ele fala algumas verdades para Jasmine quando ela está para comprar o anel de noivado.

Outros que merecem ser mencionados pelo bom trabalho: Bobby Cannavale como Chili, o novo namorado de Ginger que está louco para Jasmine sair da casa para que ele possa viver com a namorada; e Louis C.K. como Al, o homem que Ginger conhece em uma festa e que, francamente, está na cara que é casado. Também está bem, ainda que apareça pouco, o trabalho de Max Casella como Eddie, o amigo de Chili que é “escalado” para um encontro com Jasmine, e o “eterno esquisitão” Michael Stuhlbarg como o Dr. Flicker, o dentista com quem a protagonista vai trabalhar.

A marca de Woody Allen se manifesta logo nos primeiros minutos do filme. Aquela crônica de uma conversa desconcertante no avião é típica do diretor. Quem nunca teve que “aguentar” uma pessoa que gosta de falar a vida inteira para um desconhecido? Algo constrangedor, mas bastante realista. Ainda mais nos tempos atuais, em que a tecnologia ajuda as pessoas a “desabafarem”. Para mim, um sintoma importante da falta de contato, de afeto e de intimidade que as pessoas tem umas com as outras em muitos momentos – e daí, como “válvula de escape”, fica mais “fácil” (bem entre aspas) falar com desconhecidos sobre coisas muito pessoais. O que é quase o mesmo que falar sozinho – como Blue Jasmine bem argumenta.

Grande apreciador de jazz, Woody Allen nos entrega, mais uma vez, uma trilha sonora embalada pelo gênero. Algo que sempre funciona, assim como os créditos iniciais e finais de seus filmes. Eles resgatam os créditos dos anos 1950 e 1960, principalmente.

Agora, um adendo aos comentários anteriores sobre o filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Blue Jasmine). Ainda que Jasmine faça o perfil de mulher “interesseira”, ou seja, daquela mulher que prefere se anular para não passar trabalho de correr atrás do próprio dinheiro e ser mantida por um homem, chega a incomodar o machismo que a circula. Não apenas em comentários maldosos de Chili, que não alivia em momento algum em “jogar verdades” na cara de Jasmine, mas também na forma com que homens como o Dr. Flicker a trata. Até parece que todos no filme esperam que o futuro inevitável da mulher – e não apenas de Jasmine – seja se entregar e depender de um homem. Triste e limitante cenário.

Da parte técnica do filme, sem dúvida destaco a trilha sonora, a edição de Alisa Lepselter e os figurinos de Suzy Benzinger. Outros nomes que podem interessar: Javier Aguirresarobe como diretor de fotografia; Santo Loquasto assinando o design da produção; Michael E. Goldman e Doug Huszti na direção de arte; Kris Boxell e Regina Graves na decoração de set; e a maquiagem da equipe comandada por Karen Bradley e Linda Kaufman.

Blue Jasmine estreou em Los Angeles e em Nova York no dia 26 de julho de 2013. Depois, o filme participaria do Traverse City Film Festival no dia 30 de julho. A produção passou ainda por outros seis festivais e recebeu, até o momento, 21 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo três Oscar’s. Entre os que recebeu, destaque para o Golden Globe de Melhor Atriz – Drama para Cate Blanchett, para o Screen Actors Guild de Melhor Atriz também para Blanchett e para outros 18 prêmios que a atriz recebeu pelo papel como Jasmine.

Esta última produção de Woody Allen teria custado US$ 18 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 33,2 milhões. No restante dos mercados aonde o filme já estreou, ele faturou cerca de US$ 61,6 milhões. Um bom desempenho, e que garante mais um sucesso para a filmografia de Allen.

Blue Jasmine foi rodado em Nova York, em San Francisco e em diferentes cidades da Califórnia.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: a figurinista Suzy Benzinger tinha um orçamento de apenas US$ 35 mil. Apenas a bolsa Hermès que Jasmine carrega valia mais do que isso. Desta forma, Benzinger precisou conseguir emprestada não apenas a bolsa, mas a maioria das roupas de grife que aparece na produção.

As atrizes Cate Blanchett e Sally Hawkins foram as únicas do elenco a terem o script completo durante as filmagens. Os demais atores tiveram que improvisar bastante.

Inicialmente, o ator Bradley Cooper tinha sido sondado para fazer um papel no filme, mas por conflitos de agenda ele acabou ficando de fora do projeto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Blue Jasmine. Uma boa avaliação, mas abaixo de vários concorrentes do filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: A mulher elegante que fala sozinha e que conta, para quem quiser ouvir, detalhes da própria vida, ganhou um filme em sua homenagem. Blue Jasmine persegue os passos desta mulher quando ela não tem mais o que tinha. Um filme bem contado, com a duração exata, e com algumas cenas impagáveis. Bem ao estilo de Woody Allen. E ainda que a consagrada Cate Blanchett brilhe em seu papel, fica complicada a comparação. Digo isso não apenas porque ela concorre com nomes incríveis no próximo Oscar, mas também porque as entregas das atrizes que estão disputando o prêmio mais vistoso de Hollywood são muito diferentes. Mas falarei sobre isso logo mais, no tópico abaixo.

Sobre o filme… é uma história interessante, que foca uma parte menos “visível” da mentirosa classe alta e que vive de golpes. A mulher frágil não é idiota, ainda que seja feita de muita complexidade. Allen, como em outros filmes, vai esmiuçando a alma da protagonista e, através desta lente apurada, percebemos as suas relações, conhecemos os seus desejos e limites. Mais um filme humano, demasiado humano, e que trata dos efeitos irreversíveis que uma vida de escolhas equivocadas pode provocar. O inferno não são os outros, segundo Blue Jasmine. Bem escrito, envolvente, só não tem a potência para ser inesquecível. Há filmes melhores de Blanchett e Allen – separados – no mercado.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Impressionante como Cate Blanchett “papou tudo” por causa de seu desempenho em Blue Jasmine. A atriz, uma das melhores de seu geração, para o meu gosto, ganhou os principais prêmios da temporada por seu trabalho como Jasmine. Ela merece toda esta badalação? Sem dúvida, Blanchett está perfeita neste filme. E também merece qualquer prêmio pelo conjunto da obra. Mas e as outras concorrentes no Oscar?

Antes de falarmos delas, vamos relembrar para quais estatuetas Blue Jasmine foi indicado: Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz para Cate Blanchett e Melhor Atriz Coadjuvante para Sally Hawkins. Destas indicações, a única que pode dar um Oscar para o filme é mesmo a indicação de Blanchett. Acompanhei as últimas premiações e reparei em como ela ganhou todos os prêmios – do Globo de Ouro até o Screen Actors Guild, os dois principais na corrida pré-Oscar.

Talvez por saber disto e por acompanhar a carreira de Blanchett, eu esperava mais dela em Blue Jasmine. Certo, alguém pode dizer que eu estou cometendo uma heresia. Mas não me entendam mal. Não quero dizer que ela não esteja muito bem no papel. O filme é dela – e foi feito desta forma, como tantos outros filmes de Allen que são planejados para a atriz protagonista brilhar (e as demais atrizes da produção também).

Mas é que com tantos prêmios recebidos, eu estava esperando uma interpretação acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita. E não foi isso que eu vi. Ainda preciso assistir ao trabalho de outras duas feras para concluir definitivamente sobre a categoria Melhor Atriz: Meryl Streep e Judi Dench. Mas apenas comparando o trabalho de Blanchett, de Amy Adams (American Hustle, comentado aqui no blog) e de Sandra Bullock (Gravity), acho que a Academia deveria premiar a… Bullock.

Sim, nem eu acredito que escrevi isso. Em qualquer situação eu acho Blanchett melhor que a Bullock. Mas desta vez, mesmo achando o roteiro de Gravity fraco, vejo uma entrega muito maior de Bullock que de Blanchett em seus respectivos filmes. Blue Jasmine não é o papel da vida de Blanchett. Mas talvez seja o filme em que Bullock mais se esforçou. De qualquer forma, acho que seria uma zebra Blanchett perder esta. E não será injusto, por tudo que ela já fez no cinema – e, até agora, ela nunca recebeu um Oscar como Melhor Atriz, apenas como Melhor Atriz Coadjuvante. Está na hora dela ganhar, é claro.

Dito isso, não estarei torcendo por ela na noite do Oscar. Mas também não acharei nada injusto se a Academia lhe fizer justiça. Nas outras categorias em que o filme está concorrendo, não vejo chances em Melhor Atriz Coadjuvante – onde a estatueta está sendo disputada a tapas por Lupita Nyong’o (de 12 Years a Slave, que eu comentei neste texto) e por Jennifer Lawrence (de American Hustle) – e nem em Melhor Roteiro Original.

Neste último, francamente, acho que o prêmio deveria ir para Her (comentado por aqui) ou para Dallas Buyers Club (para o qual você encontra uma crítica aqui). Ainda que American Hustle – que jamais seria o meu voto – possa surpreender. Mas Blue Jasmine… ainda que tenha um texto muito bom, corre por fora. No dia 2 de março nossas dúvidas serão respondidas.

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The Wolf of Wall Street – O Lobo de Wall Street

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Todos os tipos de drogas, bebidas, sexo, orgias e exageros que o dinheiro pode comprar. Imagine tudo isso, potencialize por 10 e terás pela frente o inesquecível The Wolf of Wall Street. Martin Scorsese, um dos maiores gênios que o cinema ainda tem o prazer de ver trabalhar, fez o filme definitivo sobre os homens sem limites que um dia fizeram a fama da rua que simboliza a riqueza efêmera da bolsa de valores e do mercado financeiro dos Estados Unidos – e, por consequência, uma alegoria de tudo o que há de similar no mundo. Destes raros filmes em que três horas não passam devagar.

A HISTÓRIA: Um leão ruge na propaganda da Stratton Oakmont, Inc. Em seguida, a identificação da Wall Street, com um narrador argumentando que o mundo é um grande negócio e uma selva. Porque há perigo em toda a parte é que teria sido criada a Stratton Oakmont, composta por vendedores privados preparados para serem os melhores do mercado. Termina a propaganda, e aqueles homens respeitáveis estão jogando com um anão. O líder da trupe, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), oferece US$ 25 mil para quem jogar o anão e acertar o alvo. Ele próprio tenta a sorte. E começa a se apresentar. Jordan Belfort é um ex-integrante da classe média criado por dois contadores no Queens. Aos 26 anos, ele já era o chefe de sua própria empresa de investimentos. Neste filme, mergulhamos em sua trajetória até tornar-se um homem milionário e encrencado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wolf of Wall Street): Ouvi alguns dizendo que Scorsese tinha “enlouquecido” por entregar uma produção destas. Que ela era uma loucura, e por aí vai. E para quem conhece a filmografia de Scorsese, pensar em uma produção dele que pudesse ser considerada exagerada dentro deste histórico, exigia muita imaginação. Além disso, eu sabia que o filme tinha três horas… mas apesar destas informações, que não favoreciam o filme antes de assisti-lo, me joguei na experiência. E que experiência!

Scorsese entrega para o público um de seus filmes mais contundentes. Exagerado em quase todos os sentidos mas, por isso mesmo, bastante corajoso. Para contar a história de Jordan Belfort, não dava para fazer de outra maneira, com o risco de estragar o material original. Fazer um filme definitivo sobre um assunto não é algo nada simples. Mas Scorsese conseguiu, mais uma vez – como havia feito, antes, com os filmes sobre gângster.

Mesmo afirmado isto, não custa dar um conselho: esta produção não é indicada para quem não gosta de ver a decadência humana, corpos nus e exageros por todas as partes. Porque é deste material que é feito The Wolf of Wall Street. E então, qual é a moral da história? Que alguns dos homens mais admirados do coração financeiro dos EUA e que encarnavam, de maneira exagerada, o “sonho americano”, eram os piores escroques de que já tivemos notícia.

Agora, antes de falar da moral do filme, acho que vale voltar um pouco a fita. Lembro bem da polêmica que Jordan Belfort levantou quando lançou o livro de “memórias” e começou a dar entrevistas como esta para o The Telegraph em 2008. O que muitos desconfiavam sobre a rotina dos corretores de Wall Street se confirmou com a obra de Jordan. Eles viviam ganhando e gastando milhões de dólares, esbanjando dinheiro em carros, iates, mansões, ternos caros e, principalmente, com gastos diários (ou quase) com prostitutas e os mais diversos tipos de drogas – sendo a rainha de todas elas, a cocaína.

A máscara daquele estilo de vida cobiçado de Wall Street tinha começado a cair. Inclusive antes do livro de Jordan aparecer (falarei disto logo abaixo, após a crítica do filme). Ainda assim, ele conseguiu fazer barulho. Afinal, contava o que outros sabiam “por dentro”, como uma das figuras que fez tudo aquilo – e, possivelmente, muito mais. Então, meus caros leitores, como contar aquela história?

Outros filmes sobre Wall Street já tinham sido feitos. O próprio Jordan, que aparenta ter uma ironia sem limites, comenta na entrevista dada para o The Telegraph em 2008 que ele se “inspirou” no personagem de Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, no clássico de 1987 dirigido por Oliver Stone Wall Street. Outra figura em quem Jordan teria se inspirado: o personagem de Edward Lewis, vivido por Richard Gere em outro clássico, Pretty Woman. Mas esta última referência, convenhamos, é muito “bonitinha” para os padrões de Jordan.

Quando foi escrever as próprias memórias, já preso, Jordan disse que se inspirou em uma cópia do livro que inspirou o filme The Bonfire of the Vanities – também, vocês devem lembrar, ambientado em Wall Street. Mas nenhum dos personagens destes e de outros filmes baseados na meca do dinheiro nos EUA pode superar os exageros de Jordan. E isso fica muito evidente naquela entrevista que ele deu quando estava lançando a própria história – porque agora, com o sucesso do filme, há quem questione o trabalho de Scorsese. Cá entre nós, o trabalho deste grande diretor poucas vezes foi tão realista.

E corajoso, como eu disse antes e vou repetir depois. Afinal, logo nos primeiros minutos de The Wolf of Wall Street, o roteiro de Terence Winter baseado no livro de Jordan nos lança nos ingredientes principais do personagem e do filme: dinheiro, muito dinheiro, drogas, belas mulheres, e tudo o mais que milhões de dólares podem proporcionar para um homem ganancioso, exibicionista e sem limites.

A lógica do trabalho de Winter é a de muitos outros filmes: o roteiro primeiro apresenta o personagem em seu “melhor” momento. No auge. Depois, volta no tempo para contar como ele chegou aí. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E no final, revela como ele caiu em “desgraça”. Ainda que para um sujeito como Jordan, cheio de malícia e com nenhuma ética, nunca existe o fundo do poço. Quando se vê encurralado e sem saída pelo agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), ele não pensa duas vezes em delatar os “amigos” e parceiros de golpe para conseguir uma importante redução de pena.

A história de Jordan é a clássica sobre a corrupção humana. Quase impossível acreditar que o mesmo sujeito que paga para uma funcionária raspar o cabelo na frente dos demais funcionário de sua empresa em troca de US$ 5 mil é o mesmo que chegou para trabalhar em Wall Street aos 22 anos, recém-casado, sem beber álcool no almoço ou mesmo “dar um tapa” em um pouco de cocaína.

A diferença de The Wolf of Wall Street para outras produções que seguem a linha de começar com o auge do personagem e depois retomar o passado para contar como ele chegou lá é o tipo de “herói” que o roteiro foca. Não estamos vendo a nenhum herói de guerra, ou cidadão que deixou a miséria para trás para erguer um grande império. Acompanhamos a evolução de um sujeito que “gasta os tubos” com orgias, drogas e tudo o mais que o dinheiro pode comprar e que, para conseguir este dinheiro, se diverte muito enganando “os trouxas”. Sabendo-se que estes trouxas são, muitas vezes, pessoas ricas, despreocupadas, e outras vezes sujeitos comuns que apenas acreditam que podem ganhar dinheiro com ações.

O que eu achei mais bacana neste filme é que o roteiro de Winter e a direção “avant-garde industrial” (inovadora, mas que também faz parte do mainstream) de Scorsese não aliviam e nem cedem em momento algum ao “politicamente correto”. É para fazer um filme sobre o descontrole do homem “pós-moderno” fascinado pelas promessas do dinheiro fácil de Wall Street? Então vamos fazer isso da maneira mais fiel e livre possível. Parece que esta foi a ordem no projeto comandado por Scorsese que, há tempos, devia para o seu público um filme “tresloucado” (no bom sentido) como este.

Daí que mergulhamos na história de Jordan em uma tresloucada narrativa em primeira pessoa – afinal, o material original no qual o filme se baseia é uma autobiografia. Nada melhor que explorar o ego do personagem principal também na forma com que ele conta a própria história. Desde o início, Scorsese apresenta uma direção ágil, que percorre os locais explorando os ícones da riqueza até se deparar com uma cena dantesca. E há várias delas. Seja no sexo com prostitutas ou no uso de drogas, o diretor parece desacelerar o tempo para formar quadros de decadência para o espectador.

O texto de Belfort é outro ponto forte da produção. Além dos comentários de Jordan sobre a própria vida, temos diálogos afiados, cheios de linguagem coloquial e de palavrões, em uma verborragia que lembra o melhor de Tarantino em algumas ocasiões. Ajuda muito na produção a excelente edição de Thelma Schoonmaker e a ótima e envolvente trilha sonora da equipe de Jennifer L. Dunnington.

Pensando de forma fria, Belfort acerta na mosca em optar pelo velho “chamariz” de mostrar o auge de Jordan antes de contar a história dele. Afinal, que homem não gostaria de ter aquela Ferrari branca, aquela mansão e a estonteante Naomi Lapaglia (a revelação Margot Robbie) como mulher, além dos outras “propriedades” que Jordan elenca no início da produção? Então você primeiro “fisga” o imaginário do público para, depois, revelar como tudo aconteceu. Sempre funciona, especialmente quando o “tudo” tem tanta ação e loucura.

Para funcionar da forma com que funciona, além de um diretor convicto de que deve explorar ao máximo aquele contexto sem fronteiras dos ricos de Wall Street, o filme precisa de um elenco afiado. E é isso que Scorsese consegue ao tirar o melhor de cada ator envolvido – com especial destaque para Leonardo DiCaprio que tem, neste filme, provavelmente o melhor desempenho de sua vida até o momento. Mas ele não está sozinho no bom trabalho.

Após o espectador ser fisgado por aquela figura sem moral chamada Jordan Belfort, voltamos no tempo e acompanhamos ele desde a chegada em Wall Street. Tentando conhecer de perto o trabalho de corretor para um dia tornar-se um deles, Jordan entra em uma empresa como tantas outras daquela rua e começa a ganhar dinheiro para fazer ligações para o corretor da mesa ao lado.

Logo no primeiro dia de trabalho ele é chamado para o almoço com Mark Hanna (o sempre ótimo Matthew McConaughey em um papel que dura apenas o primeiro trecho do filme). Rapidamente Hanna ensina o bê-à-bá daquela vida para Jordan. E assistimos, junto com o ainda inocente Jordan, o início de um comportamento de loucura que será visto depois em muitos dos personagens do filme.

Os acontecimentos vão se desenrolando no tempo certo e com agilidade. Rapidamente conhecemos os personagens secundários do filme e acompanhamos a lógica de Jordan em tirar o maior proveito possível das situações. Como explica este e outros textos sobre os homens de Wall Street, eles não se importam com o dinheiro de seus clientes. O importante, para eles, era retirar dinheiro de clientes ricos e embolsá-lo. Isso vale tanto para casas de investimento quanto para os grandes bancos.

Como informa o texto indicado no parágrafo anterior e publicado no The New York Times, muitos se escandalizaram com os bônus de até US$ 60 milhões que muitos executivos receberam naquele ano, final de 2006. Mas afinal, como Jordan e seus comparsas ganhavam tanto dinheiro. Como aquele texto do The Telegraph explica, Jordan e seu grupo – que, de fato, recebeu um texto com um passo-a-passo de como convencer as pessoas a investir em ações feito por Jordan para seguir – convenciam os investidores a desembolsar boas quantias em dinheiro.

Depois que eles tinham feito isso, os papéis se valorizavam e Jordan e seus sócios vendiam a grande quantidade de ações daquele papel que eles tinham. Com esta venda, Jordan e Cia. ganhavam grande quantidade de dinheiro, enquanto os clientes que eles tinham atendido perdiam os recursos na mesma proporção – já que, ao vender os papéis que tinham, Jordan e Cia. faziam com que aquela ação tivesse queda acentuada de valor.

Grande “vendedor”, Jordan chegou a ganhar US$ 50 milhões por ano. E como o filme mostra bem, ele teve a oportunidade de saltar do barco antes dele afundar, mas não quis fazer isso para continuar se sentindo importante na empresa que ele tinha criado. Fica evidente o gosto do protagonista não apenas pelo dinheiro e pelo poder que ele traz, mas principalmente pela admiração que as outras pessoas passaram a dedicar por ele.

Algo que me surpreendeu neste filme, além de um roteiro e de uma direção impecáveis, foi o humor que The Wolf of Wall Street acaba destilando. Em meio a tanto exagero, há cenas verdadeiramente dantescas. A que me fez rir sem parar, para a minha surpresa, foi aquela em que DiCaprio é abatido pela droga Lemmon-714, comprada por Donnie Azoff (Jonah Hill) em uma farmácia perto de casa e que estava esperando para ser vendida há 15 anos. A sequência faz lembrar a filmes menores, como Hangover, mas de forma muito mais exagerada e divertida. A melhor parte, para mim, vai do colapso de Jordan até a saída dele com o carro. Inacreditável!

Mas afinal, qual é a razão para o filme ser tão bom? Além do roteiro envolvente e da direção de Scorsese que consegue tirar o melhor de cada sequência e de cada ator, gostei muito do “espírito” da história de The Wolf of Wall Street. Sem “papas na língua”, os realizadores deste filme nos mostram o cotidiano de uma daquelas figuras “míticas” de Wall Street. Um dos “rapazes jovens de terno” ambiciosos que serviram de “inspiração” para mais de uma geração de norte-americanos.

Quantos não queriam ser um Jordan Belfort? Quantos não fora como ele ou ainda piores? Esse personagem, assim tão sem limites e ambicioso, acaba sendo o ídolo torto de um sistema cruel e interessado apenas nas cifras bancárias. O extremo do capitalismo, onde se vende e se compra apenas o valor estimado e muitas vezes equivocado de coisas reais, palpáveis.

The Wolf of Wall Street, desta forma, é uma importante crítica sobre a sociedade que criamos e ajudamos a manter. Onde a lógica do dinheiro fala mais alta e ignora todos os outros valores – especialmente os mais importantes, como a ética, a compaixão e a solidariedade. Na selva plasmada por este filme, sobrevive quem sabe enganar mais e melhor.

O herói é um escroque, um lixo – como lhe dizem no início da carreira -, mas também um símbolo de ascensão social que é vendido no “sonho americano”. Não por acaso, ele é tão aplaudido, paparicado e admirado no meio de Wall Street. E em todos os meios que derivam a partir dali. Contar a história de Jordan e das pessoas que o cercaram sem aliviar a dose é uma forma de bater no estômago deste sistema e de chacoalhar quem segue admirando aquela realidade. Ou deveria ser, pelo menos. Grande filme! Scorsese em sua melhor fase.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei interessante, e por isso não me canso de citar, aquela matéria do The Telegraph. Especialmente porque o texto de Tom Leonard foi escrito quando Jordan estava lançando a própria autobiografia – antes de qualquer polêmica ou crítica negativa derivada do filme de Scorsese. O texto não apenas comprova que grande parte de The Wolf of Wall Street é legítima e fiel às memórias de Jordan como também traz informações sobre ele após a saída da prisão.

De acordo com o texto de Leonard, publicado em 2008, Jordan, na época com 45 anos, vivia em uma casa “modesta” de três quartos em Manhattan Beach e tinha que repassar metade do que ganhava por mês para pagar as dívidas que contraiu com os investidores que ele tinha fraudado. Em cinco anos, Jordan havia pago US$ 14 milhões dos US$ 110 milhões que ele devia. Uau!

Procurando mais sobre esta figura tresloucada que inspirou o filme de Scorsese, encontrei a página oficial de Jordan. Como o filme sugere, ele segue ganhando dinheiro ensinando as pessoas os seus “segredos de persuasão”. Até porque, segundo o site, através desta persuasão qualquer pessoa pode se tornar o “número 1 em vendas”, ganhando muito dinheiro. Certo, certo. Desta forma, Jordan oferece 10 módulos de seus “valiosos” segredos pelo valor de US$ 1.997.

Agora, talvez você esteja se perguntando o que o verdadeiro Jordan achou do filme que retrata parte da vida dele… Pois bem, este texto do Huffington Post ajuda a nos responder esta pergunta. Jordan considera Leonardo DiCaprio brilhante, assim como Martin Scorsese. Ao mesmo tempo que ele afirma que o filme não o está ajudando – será que é porque ele não continuou pagando a dívida citada acima? Os advogados de Jordan dizem que a obrigação dele de repassar metade do que ganha terminou em 2010, quando ele saiu em liberdade condicional. Mas há quem questione o dinheiro que ele está ganhando com os livros e com o filme que narram de que forma ele cometeu diferentes crimes.

Da parte técnica do filme, tiro o meu chapéu para a direção impecável de Scorsese. Que bom ver a este gênio do cinema voltando a fazer um filme da maneira que ele acha mais legítima, sem pensar no sucesso que a produção possa ter. Afinal, com tantos exageros, The Wolf of Wall Street poderia ter se saído apenas razoável nas bilheterias. Mas Scorsese não se importou com isso e nos entregou um dos melhores filmes que levam a sua assinatura em muuuuuuito tempo.

Também é ótimo o texto de Terence Winter, um dos roteiristas de The Sopranos e criador da série Boardwalk Empire. Além dos outros aspectos técnicos já destacados na crítica, importante destacar o excelente trabalho do diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto, que ajuda a manter a qualidade da imagem em cada tomada da produção; assim como o bom trabalho da direção de arte de Chris Shriver, do design de produção de Bob Shaw e da decoração de set de Ellen Christiansen.

Todos os atores envolvidos no projeto estão bem. Ninguém destoa do conjunto da obra. Mas o grande destaque, sem dúvida, é Leonardo DiCaprio. Além de estrelar esta produção e prender o interesse do público do início até o final, o astro de Hollywood é um dos produtores do filme – junto com Scorsese e outros nomes. Depois dele, me impressionou o trabalho de Margot Robbie, que se destaca como a mulher “perfeita” de Jordan. Para mim, ela é a revelação do filme.

Além deles, me impressionou a entrega de Matthew McConaughey, que está em grande fase, e a coerência do desempenho de Kyle Chandler. Jonah Hill que, me perdoem os fãs, sempre achei medíocre, está um pouco acima da média que ele costuma entregar. Ainda assim, agora posso dizer: foi um exagero da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter indicado Hill ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este filme. Ele supera a mediocridade que está acostumado a apresentar, mas ainda assim… não merecia concorrer ao Oscar.

Outras figuras importantes aparecem em papéis secundários nesta produção. Entre outros, destaque para o diretor Rob Reiner como Max Belfort, pai de Jordan; Jon Bernthal, que ficou conhecido pelo papel de Shane na série The Walkind Dead, como Brad, um dos “funcionários” de Jordan – e peça fundamental para o protagonista levar vários milhões de dólares para fora dos Estados Unidos; o ganhador do Oscar Jean Dujardin como Jean Jacques Saurel, o francês que aceita o dinheiro fraudulento de Jordan em Genebra; Joanna Lumley interpreta a tia de Naomi, Emma, peça interessante da trama; Cristin Milioti está bem como Teresa Petrillo, a primeira esposa de Jordan; P.J. Byrne encarna Nicky Koskoff, conhecido também pelo apelido de Rugrat, um dos “fundadores” da empresa de Jordan e que era um dos mais malucos do grupo.

Os outros “fundadores” da empresa do protagonista que começou em uma garagem de uma antiga oficina foram Sea Otter, interpretado por Henry Zebrowski; Chester Ming, que ganha vida no trabalho do ótimo Kenneth Choi; e Robbie Feinberg, conhecido pelo apelido de Pinhead, interpretado por Brian Sacca. Hilários, todos. Eles ajudam DiCaprio na missão de carregar o filme de forma convincente.

The Wolf of Wall Street estrou no dia 25 de dezembro nos cinemas dos Estados Unidos, do Canadá e da França. Depois, pouco a pouco, ele foi entrando nos outros mercados. Segundo o site Box Office Mojo, até agora o filme conseguiu pouco mais de US$ 92,4 milhões apenas nos EUA, e outros US$ 77,1 milhões nos outros mercados em que está em cartaz. Detalhe: o filme teria custado aproximadamente US$ 100 milhões. Ou seja, deve ter algum lucro, mas ainda lhe falta um bom caminho para poder ser considerado um sucesso de bilheteria.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Wolf of Wall Street foi filmado, principalmente, em Nova York, mas teve cenas ainda em New Jersey e nas Bahamas.

Até o momento, The Wolf of Wall Street ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 49. Entre os que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Leonardo DiCaprio; e para dois prêmios como Melhor Roteiro Adaptado para Terence Winter, incluindo o respeitado National Board of Review. Além deles, The Wolf of Wall Street foi indicado a cinco Oscar’s.

E para quem ficou interessado sobre o tema dos “desmandos” e exageros de Wall Street, encontrei alguns textos interessantes. Para começar, esta entrevista bacana com Jonathan Alpert, psicoterapeuta dos “malucos” de Wall Street e que foi publicada pela Alfa em 2011. Depois, este texto sobre o carioca Murilo dos Santos, um dos atores descobertos pelo filme Cidade de Deus e que acabou sendo engraxate dos executivos de Wall Street – no link com o texto publicado na IstoÉ Dinheiro em 2007 há informações sobre o que ele encontrou por lá e que contou em um livro. E para finalizar, este novo texto sobre o “real” Jordan Belfort, publicado em janeiro deste ano, após o lançamento de The Wolf of Wall Street, pela The Telegraph.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para o filme. Uma bela avaliação, levando em conta os concorrentes diretos do filme no Oscar e o próprio padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais “comedidos”: eles dedicaram 171 críticas positivas e 50 negativas para The Wolf of Wall Street, o que garante 77% de aprovação para o filme e uma nota média de 7,7.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na minha lista de críticas que satisfazem uma das três votações aqui no blog.

Ah sim, e agora vou adicionar alguns comentários que eu não pude fazer antes, pela correria de publicar este texto. Francamente, a interpretação de Matthew McConaughey merecia mais uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante do que Jonah Hill. Mesmo McCounaughey tendo um papel bem menor que o do outro. Mas o importante é que ele arrasa em The Wolf of Wall Street – aliás, McConaughey está em grande fase. Ele faz por The Wolf of Wall Street o que Viola Davis fez por Doubt. Em poucos minutos, McConaughey é tão importante para o filme quanto os primeiros minutos de Jennifer Lawrence em American Hustle – ou seja, os dois roubam a cena.

CONCLUSÃO: Eu já tinha lido algo sobre os exageros de todas as espécies cometidos pelos homens engravatados que fizeram Wall Street ser a meca do dinheiro volátil no mundo. Mas por mais que eu tivesse lido algo a respeito, The Wolf of Wall Street me surpreendeu. E olha que eu vinha com certa expectativa para ver o filme. O que geralmente é ruim. Mas Scorsese conseguiu mais uma vez. Ele entrega, aqui, um filme ousado, exagerado, mas que precisava ser assim para respeitar o material original. The Wolf of Wall Street mergulha fundo na ambição e na falta de controle dos homens cheios de dinheiro e sem nenhuma moral de Wall Street.

Para a minha surpresa, as três horas passaram leves, porque o roteiro é envolvente e a condução de Scorsese, soberba. Leonardo DiCaprio tem a interpretação de sua vida, e é bem acompanhado pelo elenco de apoio. No final das contas, Scorsese mais uma vez debate a sociedade da qual ele faz parte, com o admirado Jordan Belfort sendo um símbolo da ambição que ajuda a explicar o “sonho americano”. Enquanto houver gente faminta por riqueza, existirão lobos para enganar os pastores e comer o rebanho. Mas um aviso: esta produção não é indicada para quem tem problemas em ouvir palavrões, ver gente sem moral e muitas, infindáveis cenas de sexo e drogas. Se você não tiver problema com isso, terás pela frente uma obra que faz pensar, além de um grande entretenimento. E para não deixar dúvidas: The Wolf of Wall Street deixa American Hustle no chinelo!

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Se há um filme com capacidade para surpreender na entrega das estatuetas douradas de Hollywood no próximo dia 2 de março, este filme se chama The Wolf of Wall Street. Porque apesar do favoritismo moral de 12 Years a Slave (comentado aqui no blog) e do favoritismo técnico de Gravity (com crítica aqui), The Wolf of Wall Street se revela um filme com muitas qualidades para deixar de ser o “azarão” da categoria de Melhor Filme e levar a estatueta.

Francamente, acho difícil a zebra ganhar. Mas se há uma zebra este ano, esta é o filme de Martin Scorsese. Indicado em cinco categorias (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator – Leonardo DiCaprio, Melhor Ator Coadjuvante – Jonah Hill, Melhor Roteiro Adaptado), The Wolf of Wall Street tem menos chances de estatuetas que seis de seus concorrentes principais.

As chances do filme são extremas. Ou ele surpreende e leva estatuetas que ninguém espera, ou sai de mãos vazias. Para mim, não seria surpreendente a segunda opção. Mas como o Oscar tem as suas surpresas… The Wolf of Wall Street tem menos chances que 12 Years a Slave e Gravity como Melhor Filme. Outros favoritos: Alfonso Cuarón como Melhor Diretor; Matthew McCounaughey (ou Chiwetel Ejiofor) como Melhor Ator; 12 Years a Slave ou Before a Midnight como Melhor Roteiro Adaptado; e Jared Leto como Melhor Ator Coadjuvante. Para ganhar alguma estatueta, The Wolf of Wall Street terá que derrotar estes nomes e produções. Difícil, mas não impossível.

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Her – Ela

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Tudo o que você precisa é do amor. Frase clássica em música dos The Beatles e mantra que é repetido geração após geração – conhecendo as pessoas ou não a tal música. O problema é que a afirmação de tão verdadeira, se torna muitas vezes fonte de sofrimento. Muito sofrimento. A condição humana de busca pelo amor e seus descaminhos rendeu e ainda vai render muitas histórias. E chega a assustar quando uma obra como Her aparece. Porque apesar de ser uma ficção, ela torna de forma muito exata muito do que acontece e do que vai acontecer na vida real. Mais uma obra-prima de uma das mentes mais criativas das últimas décadas, o diretor e roteirista Spike Jonze.

A HISTÓRIA: O rosto de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) ocupa toda a tela. Ele lê um texto que parece fazer parte de uma carta dirigida à Chris. O texto fala sobre lembranças do relacionamento que, agora, está completando 50 anos. Ao lado da carta, que está sendo redigida com a letra de Loretta, fotos do casal com os nomes “Chris” e “Loretta” identificados no computador de Theodore. Acima das fotos, algumas “linhas gerais” da correspondência, como “amor da minha vida” e “parabéns pelo aniversário de 50 anos”. Após terminar de declamar o texto, Theodore pede para que a carta seja redigida. Em seguida, ele começa a criar outra carta. A câmera se afasta, e vemos vários cubículos com pessoas fazendo o mesmo que Theodore. Solitário, em breve ele terá uma oportunidade de viver uma relação que esboça os sentimentos que ele quis imprimir naquela correspondência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Her): Quando terminei de assistir a este filme, fiquei em dúvida sobre como começar este texto e mesmo sobre a nota que deveria dar para a produção – um problema recorrente quando eu gosto muito do que assisto. Afinal, não queria ser injusta com uma obra tão madura, instigante e que segue a linha que eu gosto de cinema: de filmes que são, ao mesmo tempo, surpreendentes e humanos, filosóficos. Que falem da gente, de nossas inquietudes, possibilidades e limitações.

Sou fã de Spike Jonze desde que ele dirigiu Being John Malkovich, uma das viagens da mente criativa do roteirista Charlie Kaufman. Depois ainda viria Adaptation., outra parceria de Jonze com Kaufman. Perdi Where the Wild Things Are porque, admito, a ideia do filme não me atraiu muito. Mas agora, de olho nas produções cotadas para o Oscar, tive o prazer de “reencontrar” Jonze.

Tentei saber pouco sobre Her antes de assistir ao filme. Ouvi apenas que a história se passava em um futuro não muito distante. De fato, isso é verdade. E por este futuro estar tão próximo, é possível identificar vários elementos do presente no roteiro brilhante de Jonze. Para começar, Theodore utiliza um dispositivo que se assemelha muito às últimas gerações de smartphones – especialmente o iPhone da Apple, que já utiliza o reconhecimento de voz. Pois bem, o “leitor de e-mails e de notícias” ao qual Theodore sempre recorre é uma pequena evolução do que temos hoje.

Mas o essencial de Her surge na relação que o protagonista e várias pessoas como ele desenvolvem com a última novidade entre os conectados com as tecnologias mais modernas, o OS1, o primeiro “Sistema Operativo de Inteligência Artificial” do mercado. Várias experiências envolvendo inteligência artificial estão sendo desenvolvidas nas últimas décadas e o investimento nesta área só tende a aumentar. Então é assustadoramente viável o que vemos no roteiro de Jonze.

Só que antes de falarmos da relação entre Theodore e Samantha (com voz de Scarlett Johansson), vale voltar um pouco mais na história e fazer um perfil do protagonista desta produção. Theodore é um sujeito que vive da casa para o trabalho, quase não tem relações pessoais e luta para enfrentar a realidade de que o casamento com Catherine (Rooney Mara) terminou. Entre o trabalho e a casa, ele pega transporte público e utiliza a última geração de smartphone para se atualizar sobre as notícias. Chegando em casa, se distrai com uma versão um pouco mais moderna que as atuais de videogame. Quantas pessoas assim existem, atualmente, no mundo? E quantas vão existir dentro de algumas décadas?

Na fase atual, Theodore pode ser considerado um sujeito solitário. As únicas interações com humanos que ele tem, cara-a-cara, são com o chefe direto dele na agência que produz cartas pessoais, Paul (Chris Pratt), e com a amiga do tempo da faculdade, Amy (Amy Adams) e o marido, Charles (Matt Letscher), que vivem no mesmo prédio que ele. Mas ainda que ele tenha estas relações, nenhuma delas parece profunda. E Theodore não parecer ser uma exceção. Neste contexto em que os indivíduos tem relações superficiais, apesar de seguirem carentes de afeto, de carinho e de amor, é que surge a inovação do OS1.

Como se você escolhesse um avatar em um jogo qualquer, Theodore prefere que o sistema que ele comprou tenha uma voz feminina. E é assim que surge na vida dele Samantha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco a inteligência artificial vai evoluindo e aprendendo, não apenas com e sobre Theodore, mas muito além dele ao conectar-se com outras personalidades como ela na rede. Daí que se desenvolve a genialidade de Her. Theodore encontra em Samantha a “solução” para quase todos os seus problemas. Afinal, ela nunca vai lhe dizer não, ou desaparecer… estará, virtualmente, sempre disponível e amorosa, compreensiva, uma voz “amiga” para aconselhar aquele homem cheio de dúvidas, aspirações e talento.

Pouco a pouco, além de amiga, Samantha se torna “amante” e desenvolve uma ligação que chega a ser considerada uma relação amorosa por Theodore. Achei interessante como a sociedade de Her está “desenvolvida” ao ponto de que Theodore não fica com medo de assumir que está se relacionando com um “sistema operativo”, ou seja, com uma máquina em última instância. Quando ele diz para os outros que Samantha é um OS1, pessoas como Paul reagem bem à novidade. Apenas Catherine, conhecendo bem o quase-ex-marido, reage de forma negativa, jogando na cara de Theodore que ele não sabe lidar com emoções reais. E bingo!

Este é um dos pontos mais fortes do filme. Como uma espécie de crítica para o nosso futuro imediato, mas que guarda grande relação com o presente, Her questiona o tipo de relações que queremos, que necessitamos para evoluir. Theodore viver tendo Samantha como sua “alma-gêmea” é algo possível, mas que o torna muito limitado. Afinal, amar quem só concorda com a gente, ou que nos “serve”, é fácil. Mas as relações humanas existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Há cenas verdadeiramente “chocantes” em Her. Como aquela em que Theodore fica descontrolado com o “sumiço” de Samantha. Jonze aproveita a ocasião para mostrar com muito mais força algo que já tinha revelado de forma rápida anteriormente: todas as pessoas caminhando para os seus compromissos ou para casa conectadas em seus aparelhos e, aparentemente, à sua própria OS.

Como agora, quando vemos várias pessoas em uma mesa de bar com os seus smartphones e sem conversar entre si, na sociedade de Her os indivíduos de carne e osso não interagem, muitas vezes se quer se olham. Todos estão muito ocupados com a tecnologia e com os seus “parceiros perfeitos” criados através de inteligência artificial. Mas a pergunta que Her levanta e que deixa para espectador responder é: estas relações são reais?

Quero voltar um pouco mais na análise, outra vez, para destacar algo que achei brilhante na escolha de Jonze: fazer de Theodore um escritor de cartas pessoais que reproduzem, entre outros elementos, inclusive a caligrafia do remetente. Desta forma, o diretor e roteirista conseguiu algo genial: uniu uma das práticas mais antigas, possível desde a invenção do alfabeto e do papiro, com o que há de mais moderno na tecnologia. Mas Theodore não é um “escrevinhador de cartas” (para usar uma lembrança do genial Central do Brasil) porque as pessoas do futuro visto em Her não sabem escrever.

Não. Ele é um escrevinhador porque ninguém mais tem tempo de parar e mandar uma carta para quem se ama. Isto aconteceu como efeito imediato do surgimento do e-mail, e parece estar a cada ano pior. Ao mesmo tempo, vemos a alguns movimentos “retrôs”, que gostam de resgatar hábitos, objetos e produtos do passado. Theodore consegue, sozinho, fazer tudo isso. Achei brilhante.

Como um romancista, o protagonista de Her cria breves peças de ficção utilizando poucos elementos que lhe são passados pelas pessoas que contratam o serviço do envio de cartas personalizadas. Dito isso, acho propício voltar para aquela pergunta fundamenta: a relação de uma pessoa com o OS que ela comprou pode ser considerada uma relação real? Vivendo uma fase complicada, de insegurança e solidão, Theodore não valoriza o próprio trabalho. Mas Samantha percebe que ele tem potencial e acaba agindo para que o escrevinhador de cartas tenha o trabalho valorizado por uma editora – curioso que, como as cartas, os livros seguem firmes e fortes.

Então Samantha tem uma influência direta na vida de Theodore. O mesmo acontece na resolução do divórcio dele. Além disso, e esse eu acho o ponto mais importante, Theodore vive emoções reais na interação com Samantha. Há cenas verdadeiramente incríveis dos dois “passeando por aí” – com a sacada dela compondo músicas para marcar os momentos como alguns dos pontos fortes do filme. Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não são reais? E se os sentimentos são reais, a relação também não é? Eis o ponto-chave do filme.

Cada um vai responder a estas perguntas da sua maneira. Mas para mim, não há uma relação real com uma máquina, ou com a virtualidade – do contrário, teríamos “relações reais” com um videogame. Você pode sentir diferentes emoções, mergulhar em realidades criadas, mas nunca será uma relação verdadeira como a com um humano, que é complexo e, muitas vezes, imprevisível. Pelo simples fato que a inteligência artificial é fruto de uma sequências de parâmetros e processos criados pelo homem e que tem uma resposta previsível – e mesmo que ela “avance” sozinha, como acontece em Her e em outros filmes do gênero, não dá para dizer que ela fuja das regras iniciais impostas. Uma exceção talvez seja o computador HAL de 2001: A Space Odyssey.

Agora, e o que dizer sobre as nossas próprias reações? Em certo momento, fica no ar a pergunta de quanto o que nós fazemos, pensamos e como sentimos também não é programado? Seja por nossos instintos, influências de criação familiar ou histórico de vida, ou mesmo pela evolução da nossa espécie. Mas especialmente os neurologistas vivem explicando como reagimos de certas maneiras ao prazer e ao perigo por uma herança ancestral. Visto deste ângulo, quanto de fato não agimos de forma programada como Samantha e os demais OS’s?

Por minha parte, acho sim que muito do que fazemos é programado. Mas há sempre o elemento-surpresa, a reação diferenciada que podemos ter não apenas pela nossa capacidade de aprender com os próprios erros, mas também com a nossa vontade de fazer além do que está previsto que façamos. Temos a rara e magnífica possibilidade de escolher. Só que aí, no final de Her, estas mesmas qualidades que são típicas do ser humano também acabam marcando uma certa atitude das OS’s… e agora, cara-pálida? O que acaba nos tornando únicos? E de fato, somos únicos?

Além destas questões filosóficas, para mim Her tocou fundo nas questões que eu citei lá no começo deste texto: de como todos nós procuramos o amor, e como esta busca nos trás alegrias e também sofrimento. Não importa onde ou como você encontra o amor, ou quantas vezes ele possa acontecer em sua vida, mas somos movidos pela busca por ele. O personagem de Theodore é complexo porque está lidando com a perda, mas também se anima com as novas possibilidades de amar. Sem saber que, no fundo, a busca dele por amor acaba sendo de autodescoberta.

A personagem de Catherine aparece pouco, mas tem uma presença devastadora. E esta é a potência de quem nos conhece bem. Mesmo demorando para entender que nunca terá mais o mesmo que teve um dia com Catherine, Theodore aprende na reflexão sobre o que eles tiveram um pouco mais sobre as suas próprias capacidades e limitações. E esta é uma das belezas do amor. Nos ensinar tanto.

No final de Her, Theodore está muito mais preparado para viver uma história real do que estava no início. Por incrível que possa parecer, mas foi um sistema operacional que o ajudou no processo – ao invés de um psicólogo ou psiquiatra. Os recursos para a ajuda mudam, e são adaptados para cada pessoa e o seu tempo. Mas o importante é que, no final, há sempre um horizonte que pode ser compartilhado. Her trata de tudo isso, e de uma maneira criativa, atraente e inteligente. Alguém precisa de algo mais?

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme quase de “um homem só”. Joaquin Phoenix fica grande parte da produção sozinho. Ou melhor, interagindo com a voz de Scarlett Johansson. A interpretação da atriz, que não aparece em momento algum, aliás, lhe rendeu tantos elogios que há quem a coloque na lista de possíveis indicadas a um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Com esta temporada competitiva como está, acho difícil. Ainda assim, é preciso admitir que ela faz um grande trabalho. Assim como Phoenix que, mais uma vez, demonstra porque é um dos grandes nomes de sua geração – e ele está brilhante em Her.

Ainda que apareçam pouco, se comparado com o espaço que Phoenix e Johansson ganham na história, as atrizes Rooney Mara e Amy Adams tem relevância na história. Especialmente a primeira, que faz toda a diferença quando aparece. Admito que eu não achava Mara tão empolgante em outras produções, mas aqui eu vi a atriz agir no tom exato, imprimindo força na personagem que vive nas lembranças do protagonista. A história precisava de alguém assim, e ela consegue deixar a sua marca mesmo aparecendo pouco. A personagem de Adams, por outro lado, é muito menos incisiva. Ainda assim, a atriz não faz feio.

Alguém pode me perguntar sobre o que afinal de contas aconteceu no final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Her). Acho que propositalmente Jonze não fecha a questão sobre o “sumiço” definitivo de Samantha e dos demais OS’s. Mas ele deixa algumas pistas pouco antes. Os sistemas operativos tiveram um avanço rápido de aprendizado. E fizeram algo que HAL também havia feito anteriormente… surpreenderam os próprios programadores ao tomarem decisões inesperadas.

Um exemplo: as inteligências artificiais começaram a se juntar em “redes” e a criar seus próprios debates, independentes de seus “donos”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Consumindo imensas quantidades de textos, os OS’s começam a filosofar sobre a sua própria condição, assim como a dos humanos. Chegam a “recriar” a personalidade do filósofo morto Alan Watts. Com um avanço tão rápido, acredito que eles concluíram que não estavam, exatamente, sendo benéficos para os próprios donos. Então eles decidiram se “autodestruir”, desaparecendo para dar lugar à volta das relações reais entre as pessoas. Uma atitude genial, eu diria.

E que apenas nos leva a outro questionamento recorrente em filmes sobre inteligência artificial: seria possível ela resistir à autodestruição quando é baseada em parâmetros humanos? Afinal, se levarmos a lógica até o último patamar, provavelmente não acreditaríamos no futuro da espécie. Então como seria possível uma inteligência baseada nos nossos parâmetros perdurar?

Falando em Alan Watts, achei importante trazer algumas informações sobre este filósofo. Afinal, ele não é citado por acaso em Her. Para entender o final, é preciso saber um pouco sobre a linha de pensamento dele – e que parece ter influenciado à Samantha e aos seus pares. Deixo por aqui o endereço da página dedicada a Watts, assim como esta entrevista dada por ele em abril de 1973. Naquela época, Watts era considerado um dos “líderes intelectuais da juventude” nos Estados Unidos, conhecido por tentar unir o pensamento ocidental ao oriental.

Destaco um trecho de uma das respostas de Watts que eu acho que ilustra bem o propósito de Her: “Em vez de civilizar o mundo, estamos simplesmente pervertendo-o tecnicamente”. Também achei bastante provocativo outro trecho: “O que podemos esperar das máquinas senão que elas trabalhem em nosso lugar e ganhem nosso dinheiro enquanto ficamos tomando sol, fumando e bebendo? Mas se a comunidade não distribuir as riquezas ao homem que descansa enquanto a máquina trabalha por ele, o produtor não poderá dar a vazão a seus produtos. As máquinas são os escravos de todos, elas não sentem nada e não se queixam de nada”. Interessante este último pensamento se olharmos para ele sob a perspectiva de Samantha, não? 🙂

Her se destaca pela direção e pelo roteiro de Spike Jonze. Primeiro, como diretor, ele revela e “esconde” a realidade conforme a necessidade da história. Assim, na maior parte do tempo, foca na interpretação de Phoenix e na discussão dele com a “voz interior” que se materializa quase que totalmente em Samantha. Pelo menos o ideal de relação que ele busca está ali. Mas quando necessário, Jonze revela um quadro mais amplo, da cidade e de seus habitantes, em um mundo que parece mais “gelado” do que o normal. Tudo é significativo.

E sobre o roteiro… pouco a dizer além de que ele é genial. Criativo, surpreendente, crítico e equilibrado nos momentos de leveza, romance e “leve desespero”. Por estas características, o filme tem uma fluência perfeita, prendendo a atenção do espectador do início e até o final. Um deleite. Há tempos eu não via um futuro tão convincente quanto o apresentado por Her. Ele mostra uma evolução do que temos agora, mas sem grandes revoluções que possam tornar o que vemos difícil de acreditar. Interessante.

Mérito, além do roteiro e da imaginação de Jonze, do trabalho de profissionais como K.K. Barrett, responsável pelo design da produção; de Gene Serdena, que assina a decoração de set; e do departamento de arte com 23 profissionais. Da parte técnica do filme, vale destacar ainda o excelente trabalho do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, que sabe explorar cada técnica de filmagem no tempo exato; dos editores Jeff Buchanan e Eric Zumbrunnen, fundamentais para manter o ritmo do filme ajustado; e da trilha sonora de Owen Pallett, com algumas composições perfeitas.

Vários “clássicos” sobre os relacionamentos vieram à minha mente quando eu assisti a Her. Ao ouvir o embate entre Theodore e Catherine e a clássica acusação dela de que ele não sabia lidar com sentimentos reais, lembrei de um erro bastante comum em um relacionamento amoroso: uma das pessoas fazendo um esforço bem grande para que a outra encaixe em seu “mapa mental” de como o(a) parceiro(a) deve agir. Mas como as pessoas são diferentes, surgem os conflitos. Ou a aceitação. Por isso mesmo é tão mais simples lidar com uma máquina, especialmente se ela for programada para “sempre dizer sim”. 🙂

Também me lembrei daquela ideia de que a pessoa, muitas vezes, não ama a outra, e sim a própria “ideia do amor”. Esse me pareceu o caso do Theodore. Por não saber lidar com pessoas reais e toda a complexidade que vem com elas, muitas vezes ele alimentava uma ideia romântica dos relacionamentos. Amava o conceito de amar e não necessariamente a pessoa com quem ele estava se relacionando. Acho que esse erro ainda é bem comum fora e dentro da ficção.

Os atores principais do filme já foram citados. Mas vale comentar o trabalho secundário, quase uma ponta de Olivia Wilde como a mulher que Theodore encontra, meio que em um “compromisso às cegas”, em uma tentativa dele de se relacionar com uma mulher real após o rompimento com Catherine. Laura Kai Chen também recebe alguma atenção como Tatiana, a nova namorada de Paul, chefe de Theodore; assim como Portia Doubleday como Isabella, a garota sem relacionamentos reais que se dedica a tornar “mais real” o contato entre OS’s e seus proprietários humanos – uma personagem assustadora, na minha avaliação, mas que eu tenho certeza que existiria (ou existirá?) em um contexto daquele.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: uma figura que acaba rendendo alguma risada é o alien do game que Theodore joga sempre que chega em casa. O garoto é desaforado, e leva a voz do diretor Spike Jonze.

E algo surpreendente: no início, a voz de Samantha era dublada por Samantha Morton. A atriz chegou a marcar presença no set de filmagens e conviveu com Joaquin Phoenix todos os dias. Mas quando o diretor Spike Jonze começou a editar o filme, ele não gostou do resultado. Após conversar com Morton, ele decidiu reformular o papel e chamar Scarlett Johansson para dar a voz a Samantha.

Para incentivar a proximidade entre os atores Joaquin Phoenix e Amy Adams, o diretor cuidava para “trancá-los” em uma sala todos os dias por uma ou duas horas. A ideia era que eles interagissem mais, conhecendo um ao outro e, desta forma, demonstrassem a sintonia necessária para os respectivos papéis no filme.

O diretor Steven Soderbergh teve uma participação importante para o resultado final do filme. Ele ajudou o amigo Jonze a reduzir a versão inicial de duas horas e meia de duração para 90 minutos. Depois, Jonze estendeu um pouco o conteúdo até chegar na versão de quase duas horas – que é a duração perfeita.

A ideia original era que a personagem de Catherine fosse interpreta por Carey Mulligan. Mas por causa de um conflito de agendas a atriz foi substituída por Rooney Mara. Ainda que eu goste de Mulligan, acho que a substituição favoreceu o filme – Mara realmente está perfeita no papel. O ator Chris Cooper chegou a gravar algumas cenas, mas o papel dele acabou totalmente cortado na edição final de Her.

Her estreou em outubro do ano passado no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros três festivais: o de Hamptons, o de Roma e o de Belgrado. Desde que estreou, o filme ganhou 36 prêmios e foi indicado a outros 53. Números que impressionam. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro; para o prêmio de Melhor Filme e Melhor Diretor dados pelo National Board of Review; para o de Melhor Atriz para Scarlett Johansson no Festival de Roma; e para outros 11 prêmios de Melhor Roteiro dado por diferentes associações de críticos e festivais pelo mundo.

O filme de Jonze foi rodado em Shanghai, na China – cenas externas – e em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Não há informações sobre o custo de Her. Mas o site Box Office Mojo traz informações atualizadas sobre a bilheteria que o filme conseguiu até agora. Her estreou no circuito de cinemas dos EUA em 18 de dezembro e, até o último dia 14, teria conseguido pouco mais de US$ 9,9 milhões nas bilheterias. Um desempenho relativamente fraco, que poderá crescer caso o filme consiga um bom destaque no Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para Her. Uma excelente avaliação levando em conta o padrão do site e a avaliação que os concorrentes que são esperados para o filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 154 textos positivos e apenas 11 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6 – a nota, em especial, chama a atenção. Bastante alta para os padrões de quem é relacionado no site.

Her é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela se junta a uma outra série de filmes daquele país comentados aqui após uma votação no blog.

E para finalizar estas notas, uma curiosidade muito particular: diferente de 99,9% das produções de Hollywood, Her tem apenas um cartaz. Sim. Enquanto outros filmes produzem diversas possibilidades de cartaz para divulgação – alguns, inclusive, para “lançar” a produção muito antes da estreia, uma forma de “alimentar” a curiosidade do público – Her apresenta apenas um tipo de cartaz. Algo raro nestes dias de alta publicidade.

CONCLUSÃO: É sempre assim. O espectador que acompanha a carreira de Spike Jonze sempre se surpreende com o que ele apresenta. E isso é tão bom! E tão raro, ao mesmo tempo! Mas para a nossa sorte, essa figura rara existe e continua fazendo filmes. Her é uma pequena obra-prima. Um filme que destoa de outros concorrentes do Oscar, porque não se trata de um roteiro “baseado em uma história real”, mas que assusta pelo realismo do que vemos. Este é o típico filme que alimenta o meu infindável gosto pelo cinema. Porque ele trata de sentimentos humanos e filosofa sobre eles.

Para nosso deleite, coloca o dedo na ferida sobre a busca que todos temos feito sobre a virtualidade das relações. E mais que isso, sobre esta nossa incapacidade de lidar com sentimentos reais, para nos expressarmos e nos entendermos. No fundo, Her se debruça nas escolhas que fazemos, porque a fazemos e, em especial, sobre a nossa necessidade de amar e de sermos amados. Somos seres sociais, mas vivemos bastante tempo sozinhos – e muitas vezes gostamos disso. Parece que o equilíbrio destas duas realidades é quase impossível, mas insistimos em continuar buscando uma resposta, assim como o protagonista de Her. Grande filme, com temas universais e que trata de um futuro que já está batendo às nossas portas.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Her está para o Oscar deste ano como Black Swan (que comentei neste texto) esteve para o Oscar 2011. Por que digo isso? Porque os dois filmes estão fora da curva. São as típicas produções “estranhas”, que fogem do padrão e que, por todas as qualidades que cada um destes filmes apresenta, viraram os meus favoritos na disputa de cada um destes anos.

Com isso não quero dizer que não achei bacana The King’s Speech (comentado aqui no blog) ter ganho o Oscar de Melhor Filme em 2011. Acho o filme dirigido por Tom Hooper muito bacana. Mas Black Swan era ainda melhor. O mesmo acontece este ano. 12 Years a Slave (com texto no blog aqui) deve ganhar o Oscar de Melhor Filme, o que não será injusto. Mas Her… é uma produção muito mais surpreendente e que fala do nosso tempo e das aspirações humanas de forma tão mais contundente! Esse tipo de filme me fascina.

Dito isso, vamos comentar sobre as reais chances de Her no Oscar. Nas previsões mais otimistas, o filme poderia ser indicado em nove categorias. Mas para isso acontecer, Her teria que deixar para trás produções com cotações maiores. Difícil. Meu palpite é que, na melhor das hipóteses, Her seja indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Fotografia.

Destas categorias, se ele conseguir chegar tão longe, vejo chances do filme levar a estatueta de Melhor Roteiro Original. Isso se ele conseguir desbancar o lobby de American Hustle (comentado aqui no blog). Da minha parte, não tenho dúvidas que Her é superior ao filme que virou sensação em Hollywood dirigido por David O. Russell. Mas a verdade é que não seria uma total surpresa se Her saísse de mãos vazias do Oscar. Uma pena. Mas realidade que só comprova que mais que olhar para os vencedores, o Oscar é um bom termômetro sobre os indicados de cada ano. Nem sempre o melhor vence.

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American Hustle – Trapaça

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Hollywood gosta de um certo tipo de filme. Aquele que retoma as músicas, as roupas e todo o estilo marcante dos anos 1970 e início dos anos 1980. Várias produções recentes focam naquele período, e American Hustle aparece para aumentar esta lista. Quando encarei esta produção, tinha visto como críticos e público dos Estados Unidos tinham se animado com o filme. Também não consegui ignorar as indicações de American Hustle para o Golden Globes e a presença do filme em várias bolsas de aposta para o Oscar. E daí que após assisti-lo, posso dizer: é bom, mas parece muito com tudo que eu já vi antes.

A HISTÓRIA: Uma mensagem avisa que parte do que veremos, de fato, aconteceu. No dia 28 de abril de 1978, no Hotel Plaza, em Nova York, um sujeito com uma boa barriga saliente veste uma camisa, gasta bastante tempo arrumando o cabelo – não é fácil transformar uma careca em cabeleira -, coloca o óculos escuro e se prepara para o que virá em seguida. Na sequência, ele entra em um quarto em que homens monitoram câmeras e gravações que estão registrando tudo o que acontece na suíte próxima.

Quando se vira, este homem, Irving Rosenfeld (Christian Bale) vê a parceira, Sydney Prosser (Amy Adams) entrar no local em um belo vestido. Eles se olham, mas não falam nada. Em seguida, entra no local Richie DiMaso (Bradley Cooper), que confronta Irving. Richie quer saber porque ele anda falando dele “pelas costas”, afirmando que Richie está ameaçando a operação. Irving reclama de como tudo está caminhando. Em seguida, eles se encontram com o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que não gosta nada quando Richie lhe repassa uma maleta. Irving acaba tendo que correr atrás de Carmine e tenta, mais uma vez, fazer de tudo para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Hustle): Esta é uma destas produções que se revela rapidamente. Não há dúvidas sobre os elementos que vão interessar até o final da história. A caracterização dos personagens, incluindo um figurino de tirar o chapéu (desculpem o trocadilho), e o envolvimento dos atores com a história são artigos preciosos e valorizados desde o primeiro minuto. Em seguida, surge a trilha sonora, que vai revelar-se o ponto mais forte de American Hustle.

Desta vez, vou direto ao ponto nesta crítica: American Hustle começa muito bem. Tem ritmo, tem o encantamento de uma produção feita com esmero e preocupação nos detalhes. Sem contar que interessa pelo grande elenco. Mas depois de 30 minutos de filme, a impressão que eu tive – e que perdurou até o final – foi: “acho que já vi esta história antes”. Não igualzinha, evidentemente. Sempre há novos elementos em roteiros inéditos. Mas a essência da história já era conhecida. E nada pior, em uma “corrida” de expectativas pelo Oscar, do que ver a um filme quase “requentado”.

Por um lado, American Hustle lembra a várias produções recentes que recuperam o visual e a “alma” dos anos 1970/1980. Para ficar apenas em alguns exemplos, Boogie Nights, Lovelace, Almost Famous e Jobs. Depois, que já virou um clássico os filmes sobre golpistas que, nesta produção, ganha um novo “atrativo” com o acréscimo de outro lugar-comum: o último “golpe” que vira uma exigência antes da tão almejada liberdade. Ou, em outras palavras, a pressão para que os criminosos pratiquem um último crime para retomar a vida e não serem condenados e/ou mortos.

No fim das contas, esta é a história de American Hustle. Uma duplas de golpistas – ou de “trapaceiros”, com o título no mercado brasileiro sugere – deve ajudar um agente do FBI para que eles sigam em liberdade. Quem já assistiu a alguns filmes do gênero pode presumir onde isso vai parar, correto? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Normalmente, com este cenário posto, só resta duas alternativas: ou a dupla de bandidos se dá mal e morre (o que é difícil de acontecer aqui porque eles são apenas golpistas e não estão habituados a “matar ou morrer”), ou eles dão a “reviravolta” no golpe. Por saber disso, não foi nada surpreendente o final.

Para quem gosta de filmes sobre golpes, há produções relativamente recentes comentadas aqui no blog e que podem interessar, como Flawless e The Prestige. Mas voltemos a American Hustle. Para mim, o filme teve um grande interesse até o momento em que Richie DiMaso entrega o cheque de US$ 5 mil, a comissão dos golpistas, para Edith Greensley (identidade falsa que Sydney assume ao fazer parceria com Irving). A partir dali, ele só foi perdendo a graça.

Quer dizer, impossível American Hustle perder totalmente a graça com aquele desfile de figurinos maravilhosos e com aquele trilha sonora digna de compra em uma loja virtual. Sem dúvida alguma estes são os pontos fortes do filme que, junto com a atuação do elenco estelar, ajudam a fazer a gente engolir a história, um bocado previsível e que fica arrastada do meio para o final. Porque sem dúvida o roteiro de Eric Singer e do diretor David O. Russell não é o que alimentará os pensamentos do espectador depois que o filme terminar.

American Hustle é destas produções que vai agradar pela roupagem, pelo visual. O estilo do filme, incluída aí a direção competente e firme de Russell, fazem a diferença. E os atores também mostram porque estão entre os mais badalados e interessantes da atualidade. Todos estão muito bem. Christian Bale convence no papel do patético, mas inteligente e confiante Irving; Bradley Cooper transpira autoconfiança e uma certa arrogância como o policial pronto para fazer as prisões de sua carreira; Amy Adams está sensual e frágil na medida certa como a mulher com “pés no chão” que sabe seduzir para sobreviver; e Jennifer Lawrence… ah, Jennifer Lawrence!

Parece incrível dizer isso, tendo os outros três astros em cena, mas sempre que Jennifer Lawrence aparece em American Hustle ela rouba toda e qualquer atenção. Dá um show. Mesmo com Amy Adams sendo competente, não há espaço para lembrarmos dela quando Jennifer Lawrence aparece. E nem me refiro à beleza. Falo de talento mesmo. Fiquei impressionada logo nos primeiros minutos da atriz em cena pela forma com que ela assumiu o personagem da mulher que sabe impor a própria vontade sobre tudo e todos. Ponto forte do filme entre as atuações.

Além do elenco principal, American Hustle se dá ao luxo de ter nomes fortes em papéis “menores”. Para começar, Jeremy Renner em um papel diferente do que estamos habituados em vê-lo. Depois, temos Louis C.K. como Stoddard Thorsen, o chefe imediato de Richie; Michael Peña em quase uma ponta como o agente Paco Hernández/Sheik Abdullah; Alessandro Nivola como o superior de Stoddard, Anthony Amado; e Elisabeth Röhm como Dolly Polito, mulher do prefeito enredado na cilada dos protagonistas. Isso apenas para citar os nomes mais conhecidos.

Mas há espaço para a defesa do filme. Alguém pode dizer que ele se revela interessante porque toca na fragilidade de algumas investigações do FBI e da ânsia de alguns de seus agentes para pegar poderosos – cometendo deslizes éticos no caminho. Há também quem possa ver na história uma interessante narrativa sobre a corrupção que parece assolar todas as esferas públicas de governo. Mas a verdade é que eu não vi grande novidade por estes lados também.

Afinal, em termos de denúncia de corrupções e afins, The Departed e Public Enemies, por exemplo, me parecem ser mais enfáticos e criativos que American Hustle. Ainda que eu ache que o grande objetivo não era nem esse. Me parece que joga um papel mais importante na história os diversos interesses que podem dividir um homem – no caso, o protagonista Irving Rosenfeld. Tudo gira ao redor dele. Há o núcleo da família de Irving, com a genial mulher dele, Rosalyn, e o filho Danny (interpretado pelos gêmeos Danny e Sonny Corbo), representando a típica classe média da época; há a sagaz e sensual Sydney/Edith, uma sobrevivente que se identifica com o jogo de cintura do protagonista e se envolve verdadeiramente com ele; e há todo o restante dos personagens secundários que giram em torno deles – como políticos, empresários e a equipe do FBI.

Irving está dividido entre a forte ligação e o modelo familiar que ele desenvolveu com Rosalyn e a exigência cada vez maior de comprometimento de sua “alma gêmea” Sydney. Tudo vai bem até que os golpistas são pressionados pelo investigador Richie. A partir daí, tanto a vida profissional quanto a particular de Irving são afetadas e ele deve assumir uma posição.

Esta história particular acaba tendo um protagonismo muito maior do que todo o enredo sobre o envolvimento da máfia dos cassinos (e das drogas, jogos e etc) com políticos, a entrada de fortunas nos EUA com a chegada de estrangeiros atrás de favores para facilitar o acesso a um dos países mais prósperos do mundo, ou mesmo a preocupação de algumas figuras do FBI em conseguir uma operação que possa lhes dar fama e espaço nos holofotes. Tudo isso acaba sendo quase secundário frente ao triângulo amoroso de Irving, Rosalyn e Sydney – que ganha um elemento de “competição” (bem entre aspas) com a entrada de Richie na história.

Agora, acho importante comentar sobre alguns pontos que podem parecer confusos. Digo isso porque, para mim, ao menos, eles quase foram motivo de confusão. Afinal, qual era a “trapaça” dos protagonistas? Irving tinha uma rede de lavanderias, mas a principal fonte de recursos dele era a venda de obras de arte roubados ou falsificadas e, principalmente, o golpe com empréstimos falsos.

Ele garantia ter ótimo contatos e que poderia conseguir empréstimos para pessoas que tinham o crédito recusado nos bancos mas, no fim das contas, ele não tinha contato algum e nem conseguia os prometidos empréstimos. Independente de conseguir ou não quantias como US$ 30 mil ou US$ 50 mil para pessoas desesperadas, ele sempre cobrava a “taxa de administração” de US$ 5 mil – recurso não reembolsável, independente do resultado da “intermediação” dele. Na prática, como Sydney vai entender rapidamente, ele nem ao menos tentava ajudar aquelas pessoas – apenas tirava o dinheiro delas.

Richie vê a oportunidade de usar Irving e Edith/Sydney quando percebe que eles são golpistas. Em troca de deixá-los em liberdade, ele pede que eles utilizem a rede de contatos que tem para que ele, através do FBI, possa combater o “crime do colarinho branco”. Em outras palavras, chegar a gente poderosa e desmantelar a lógica do suborno. O prefeito Carmine, que é o típico político cheio de boas intenções e que abre mão de agir dentro da lei para conseguir o que considera bom para a cidade, entra no conto falso de que há um Sheik árabe com muito dinheiro querendo investir pesado na cidade.

Intermediando alguns contatos, que vão desde a máfia até congressistas e um senador, Carmine pensar estar garantindo um investimento que irá reformar Atlantic City. Ele não ganha dinheiro em momento algum. Inclusive fica ofendido quando lhe sugerem o recebimento de uma pasta suspeita. Há muitos políticos como ele, que acreditam que os “fins justificam os meios”. No Brasil mesmo… temos muitos. Vide o Mensalão. Mas no fim das contas, não importa quais são os fins se você se sujar inteiro para conseguir, passando por cima de leis e ajudando pessoas sem escrúpulos no caminho, não é mesmo? Irving tem um olhar de compreensão para Carmine mas, ainda assim, ele segue com os planos.

Essa ideia de trapaça ou golpe pode ser entendida também para a ação do FBI. Afinal, eles engendram todo um esquema mentiroso para pegar os políticos corruptos e desmascarar parte do problema. Mas como Irving mesmo diz, em certo momento, questionando Richie, afinal de contas que “peixe grande” ele pegou neste processo? Muitas vezes são pegos os corruptos, mas o que é feito com os corruptores? Na maioria das vezes – ou sempre -, nada. E isso acontece aqui, porque a história toda era falsa.

E daí que, no fim das contas, você fica fascinado com a trilha sonora, com os figurinos e com os atores, mas não dá grande importância para a história. Para mim, que acho o roteiro um elemento fundamental para um filme ser excelente ou não, ficou faltando qualidade no texto. Isso até não incomodaria tanto se não estivéssemos falando de um dos grandes concorrentes ao Oscar, em uma disputa para escolher o melhor filme lançado nos EUA em 2013. Francamente, comparado a outras produções desta safra e à expectativa que eu tinha com o burburinho a seu respeito, American Hustle deixou a desejar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre “a história por trás desta história”. Já que no início do filme ficou sugerido que American Hustle tinha um quê de realidade… E daí que achei este texto elucidativo do The Washington Post. De acordo com o jornalista Richard Leiby, a produção dirigida por David O. Russell é inspirada na megaoperação anticorrupção do FBI chamada Abscam. Ela veio à tona em 1980 e envolvia, de fato, “sheiks árabes falsos, mafiosos reais, políticos locais corruptos, congressistas dos EUA”. E com um detalhe: tudo filmado.

Ainda conforme o texto do The Washington Post, o ex-supervisor do FBI John Boa foi quem supervisionou Abscam entre 1978 e 1980, tempo de duração da operação que terminou com a prisão de seis congressistas e um senador por suborno e conspiração. Na época em que as prisões aconteceram e o caso veio à público, Abscam foi considerado “o maior escândalo de corrupção política na história do FBI”. Isso porque o trabalho teria envolvido mais de 100 agentes.

Além destes agentes do FBI, a operação teria contado com a participação fundamental do vigarista Melvin Weinberg, informante dos agentes federais que recebia US$ 3 mil por mês, além de bônus, para ajudar em Abscam. Achei engraçada a declaração que o verdadeiro Irving Rosenfeld (na realidade, Melvin Weinberg) deu para o escritor Robert W. Greene: “Eu sou um trapaceiro. Há apenas uma diferença entre mim e os congressistas que conheci em Abscam. O povo lhes paga um salário para roubar”. E não é isso o que todos nós fazemos com tantos políticos? 🙂

Achei interessante que além de resgatar informações históricas sobre Abscam, o texto do The Washington Post comenta sobre o quanto de American Hustle se parece com a história real. De acordo com Leiby, “os momentos em American Hustle que possuem maior verossimilhança são aquelas recriações de vídeos de baixa resolução em preto e branco obtidos com câmeras escondidas”. Ou seja, quase nada do filme é fiel com Abscam.

Há vários elementos técnicos que funcionam bem nesta produção – como pede um grande projeto de Hollywood. Ainda que o figuro seja digno de muitos elogios e deslumbre a qualquer espectador, não tenho dúvidas que a trilha sonora é o que mais me marcou. Achei impecável, uma das melhores que eu ouvi em filme nos últimos tempos. Daí que fiquei pensando que ela deveria ser indicada ao Oscar. Mas não.

Vale lembrar que apenas trilhas sonoras originais concorrem a uma estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Em original eles querem dizer produzida exclusivamente e especificamente para um filme. E como American Hustle tem uma seleção impecável de músicas mas, ainda assim, apenas uma seleção e não uma composição específica, o filme não vai ser indicado nesta categoria para o Oscar. Mas garanto para vocês que a trilha merece ser procurada.

Falando nos figurinos do filme, achei este texto interessante do New York Post que fala, especificamente, sobre a dificuldade de trabalhar com o vestuário dos anos 1970 em produções que retratam esta época. Gostei do material de Faran Krentcil especialmente porque ali encontramos um apanhado geral de outras produções que buscaram estas referências. Vale a leitura.

Da parte técnica do filme, destaco, além da trilha sonora de Danny Elfman e do figurino de Michael Wilkinson, o bom trabalho do diretor David O. Russell. Ele é um sujeito que sabe dar estilo e dinâmica para os seus filmes, com algumas sequências arrebatadoras – aquela em que Rosalyn detona o marido para o filho é a melhor da produção para mim – em American Hustle. Muitas vezes, Russell deixa a trilha sonora tomar conta da produção, valorizando os astros que tem em suas mãos, assim como o restante do trabalho da equipe técnica. Decisões inteligentes. Ainda assim, do meio para o final, o filme perde em ritmo e fica um pouco cansativo. Mas esses são problemas do roteiro que, algumas vezes, pela verborragia, lembra o estilo Tarantino – mas sem a qualidade dele.

Outros elementos que valem ser mencionados: a direção de fotografia de Linus Sandgren; a edição do trio Alan Baumgarten, Jay Cassidy e Crispin Struthers; e principalmente o design de produção de Judy Becker; a direção de arte de Jesse Rosenthal e a decoração de set de Heather Loeffler – estes últimos três ajudam a nos ambientar no tempo da história com a mesma eficácia que o figurino e a trilha sonora.

American Hustle teria custado aproximadamente US$ 40 milhões. Uma pequena fortuna, e suficiente para fazer oito Dallas Buyers Club (filme comentado aqui no blog), por exemplo. Segundo o site Box Office Mojo, até hoje, dia 12 de janeiro, American Hustle teria conseguido quase US$ 101,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e mais US$ 17 milhões nos outros mercados em que já estreou. Ou seja: vai conseguir se pagar e obter algum lucro.

Esta produção estreou no dia 12 de dezembro na Austrália e, no dia seguinte, de forma limitada, nos Estados Unidos, onde estrou para valer uma semana depois. No dia 14 de dezembro American Hustle participou do único festival no qual marcou presença até agora, o Festival Internacional de Cinema de Dubai.

Até o momento American Hustle ganhou 32 prêmios e foi indicado a outros 76. Entre as indicações, estão sete no Golden Globes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o AFI Awards como Filme do Ano; para seis prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence, assim como cinco para o grupo de atores como Melhor Elenco. Além de ser indicado a sete Golden Globes, American Hustle foi indicado a nove prêmios BAFTA. ATUALIZAÇÃO (13/01/2013): O Golden Globes acaba de ser entregue. American Hustle ganhou como o Melhor Filme – Comédia ou Musical, além dos prêmios de Melhor Atriz para Amy Adams e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence. A primeira, para mim, foi surpreendente. Lawrence sim, mereceu! Ela arrasa toda vez que aparece. Adams está em mais um bom trabalho, mas nada que saia da curva esperada. Foi muito bem no prêmio.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: a cena da briga entre Christian Bale e Jennifer Lawrence no quarto foi improvisada. Ela não estava prevista no roteiro, mas como os atores estavam com um pouco de dificuldade de se conectarem com aquelas falas, o diretor resolveu deixar eles fazerem “do seu jeito”.

E eu ia quase terminando este post sem comentar a ponta mais luxuosa da produção: Robert De Niro faz um mafioso (claro!) chamado Victor Tellegio, que sempre está preocupado em uma rota de fuga e que gosta de parecer um “fantasma”, destes que ninguém vê.

Voltando para as curiosidades sobre a produção… Inicialmente a produção teria o título de American Bullshit. Ela figurava em oitavo lugar na Black List de Hollywood em 2010. Essa lista traz os títulos de roteiros que não conseguem ser produzidos.

Os personagens de Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K. e Robert De Niro foram escritos por David O. Russell pensando especificamente em cada um destes atores.

No início dos anos 1980 o diretor Louis Malle adaptou a história de Abscam em um roteiro, prevendo ter Dan Aykroyd e John Belushi como um agente do FBI e um vigarista, respectivamente. Mas a morte de Belushi em 1982 fez com que o projeto fosse abandonado.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Teria sido ideia de Amy Adams que Jennifer Lawrence lhe tascasse um beijo no banheiro.

A seleção musical é impressionante. Entre outras, canções de Duke Ellington (especialmente “homenageado” pelo filme), Jack Jones, Frank Sinatra (que tinha que fazer parte de uma produção sobre mafiosos), Ella Fitzgerald, Donna Summer, Tom Jones, Elton John, The Temptations, Santana, The Bee Gees e David Bowie. E para embalar a melhor sequência do filme, Live and Let Die, escrita por Paul McCartney e Linda McCartney e interpreta pelos Wings.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para American Hustle. Achei ela bastante justa. Eu também pensei em dar um 7,8, por aí, mas pelo conjunto da obra deste filme decidi ser um pouco “generosa”. Apesar do roteiro fraquinho. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 215 textos positivos e apenas 17 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

American Hustle é uma produção 100% dos EUA – o que engrossa a lista de filmes comentados por aqui e que satisfaz a uma votação feita no blog.

CONCLUSÃO: Gosto muito de ver a grandes atores em cena. E este filme… bem, uma das principais qualidades de American Hustle é o elenco estelar escalado para a produção. Mas o problema do filme é que ele surge em uma história recente de filmes feitos em Hollywood que resgatam a “alma” das décadas de 1970/80. Isso não seria um problema se a história fosse surpreendente. Mas nem o roteiro, que começa tão bem, consegue segurar o interesse até o final.

E daí que elementos como o elenco, a trilha sonora e o figurino acabam se destacando ainda mais – já que a história, por si só, não se revela tão instigante assim. American Hustle é destes filmes bem produzidos e que sempre será destacado nas premiações, mas que no final das contas não traz nenhuma grande história ou mesmo surpreende o espectador. Pelo contrário. Passatempo interessante, especialmente pela trilha sonora. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Dentro de poucos dias vamos saber com quantas indicações American Hustle vai chegar no Oscar. No dia 16 sai a lista dos filmes com chances de ganhar estatuetas. Acompanhando as bolsas de apostas e os comentários dos especialistas dos Estados Unidos, percebi pouco a pouco como esta produção foi crescendo. Ela pode – e deve – ser indicada em várias categorias. Mas duvido muito que ganhe a maioria delas.

Na aposta dos críticos, o filme pode ter entre 10 e 12 indicações ao Oscar. Incluindo as categorias principais e as de caráter mais técnico. Francamente, acho mesmo que ele pode chegar a esse número – sendo otimista e também um pouco realista, já que a produção tem crescido nos últimos tempos.

Não será difícil para American Hustle ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo. Mas nestas categorias e nas demais em que pode chegar, o filme terá que disputar a quarta ou quinta vaga com outras produções em pé de igualdade – com exceção de Melhor Filme, onde podem ser indicados até 10 títulos.

Em outras categorias, como Melhor Ator e Melhor Atriz, o caminho de American Hustle é mais difícil… mas tudo vai depender do lobby e da força que o filme conquistou nos últimos tempos para colocá-lo em lugares que não eram tão previstos assim. Mas acho que seria uma grande surpresa se o filme conseguisse várias estatuetas. Meu palpite é que ele tem reais chances em Melhor Atriz Coadjuvante, para Jennifer Lawrence, e Melhor Figurino.

Talvez ele possa surpreender em Melhor Ator Coadjuvante, para Bradley Cooper, mas acho complicado – porque ele terá pela frente Michael Fassbender (12 Years a Slave, comentado aqui no blog) e Jared Leto (Dallas Buyers Club), que estão melhores em seus papéis, entre outros concorrentes. E até mesmo Jennifer Lawrence tem uma tarefa inglória, porque ela compete com Lupita Nyong’o (fantástica em 12 Years a Slave) e outros nomes fortes de filmes que eu ainda não assisti. Tarefa complicada para American Hustle ganhar alguma estatueta este ano! Logo veremos…

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Dallas Buyers Club – Clube de Compras Dallas

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Faltam heróis no nosso tempo. E talvez essa constatação seja tão verdadeira porque as pessoas acham que para ser herói é preciso ter um bocado de santidade ou mesmo uma capacidade rara entre os mortais. Algum “superpoder” quem sabe? E a verdade é que para ser um herói basta agir como tal ao menos uma vez na vida. Mas a história do indivíduo, até ali, pode ter sido recheada de tropeços e de atos covardes – por que não? Dallas Buyers Club nos conta uma destas histórias surpreendentes. Porque a redenção pode ser conquistada por caminhos bem tortos.

A HISTÓRIA: Um cavaleiro de rodeio desfila com a bandeira dos Estados Unidos. Assistindo a mais uma competição de rodeio, Ron Woodroof (Matthew McConaughey) se diverte com duas mulheres. Enquanto ele “manda ver” forte em uma delas, presencia simultaneamente a queda de um cavaleiro, que é acertado pelo boi. Ron para, e parece ouvir um zunido forte. Corta. Sobre um jornal que nos informa a data, 25 de julho de 1985, Ron organiza mais uma roda de apostas. Enquanto arrecada US$ 20 de cada homem interessado em ganhar dinheiro, ele critica o ator Rock Hudson, que está em um hospital de Paris com Aids segundo os jornais. Para Ron, todas as pessoas que tem a doença são uns “chupadores de pau” que merecem se ferrar. Ele fica com o dinheiro, US$ 640, e pede para o amigo T.J. (Kevin Rankin) segurar os oito segundos necessários sobre a montaria. Ele não consegue, e Ron tenta fugir. Mal sabe ele que em breve as tentativas de fuga vão terminar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Dallas Buyers Club): Estou certa que muita gente vai achar o “fim da picada” o texto que inicia este post. Afinal, como eu posso considerar um herói um sujeito como Ron Woodroof? Oras, meus caros, temos que nos desfazer daquela ideia de que para ser herói é preciso ser quase perfeito. Ou ter algum superpoder. Para fazer diferença de verdade e salvar, inclusive, a vida de uma ou mais pessoas, basta ter a oportunidade e agarrá-la com unhas e dentes.

O protagonista deste filme é um escroque. Um sujeito que deve despertar desprezo, no início. Afinal, ele é preconceituoso – especialmente a respeito de homossexuais – e, aparentemente, leva uma vida de exageros e sem nenhum propósito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Até que ele tem o choque de descobrir que tem o HIV. Inicialmente, ele fica enfurecido. Afinal, como o médico Dr. Sevard (Denis O’Hare) pode estar dizendo uma barbaridade destas? Para Ron, só tem HIV e desenvolve a Aids quem é homossexual. E ele é muito “macho”, como todos os homens que circulam em rodeios e vivem desprezando quem não coça o saco e cospe no chão. E junto com o diagnóstico “absurdo” da Aids, ele recebe o prognóstico de que deve viver apenas mais 30 dias.

Não demora muito para ele despertar da própria ignorância. Ron primeiro mergulha na rotina que ele conhece bem: muita bebida e cocaína. Acompanhado de T.J., ele também se diverte com duas mulheres – mas sem transar desta vez. Na sequência, ele pesquisa tudo o que pode na biblioteca de Dallas, uma das maiores cidades do Texas – repleta de caras como ele. Descobre, assim, que o HIV é transmitido de diversas maneiras – além do sexo, por drogas injetáveis, por exemplo. Ao ver que uma das principais formas de contágio é o sexo sem proteção, ele lembra de uma garota com quem transou sem qualquer proteção há algum tempo. E ela tinha, no braço, diversas “picadas” de drogas injetáveis.

Bingo! Sozinho ele se dá conta que o Dr. Sevard não estava falando besteira. Daí ele decide procurar ajuda. Volta para o hospital e, ao não encontrar o Dr. Sevard, cede em falar com a Dra. Eve Saks (Jennifer Garner). Mesmo que ela acompanhou o caso dele desde o princípio, Ron claramente tem dificuldades em confiar em uma médica. Machista por excelência. Quando a encontra, diz que quer o AZT. Ron pesquisou a respeito e viu que esta droga tinha começado a ser testada pela companhia Avinex para o tratamento de doentes da Aids.

Como qualquer pessoa desesperada – ou você faria diferente se não tivesse o remédio à venda nas farmácias ou com distribuição gratuita nos hospitais/postos de saúde? -, Ron diz que tem dinheiro e que pode pagar pelo AZT. Daí começamos a mergulhar, junto com o protagonista de Dallas Buyers Club, na lógica angustiante que cerca a indústria farmacêutica e da saúde. Acredito que a maioria sabe que os novos remédios são testados por um longo tempo antes de começarem a serem vendidos e/ou distribuídos. Agora, uma coisa é saber disso, outra bem diferente é ver a angústia de quem precisa de um tratamento e nem é encaixado nos grupos de testes. E mesmo que for encaixado, sabe que pode estar recebendo o placebo (sem efeito prático) e não o medicamente propriamente dito.

Matthew McConaughey dá um show desde o princípio. Ele convence como poucos quando recebe o diagnóstico dos doutores, mas vai mantendo aquela postura e fascinando o espectador conforme a história se desenrola. Não é apenas possível acreditar na interpretação dele. Algumas vezes, ele parece ser o próprio personagem. Incrível. E há quem vá lembrar de Tom Hanks no clássico sobre a Aids Philadelphia. De fato, os dois atores emagreceram muito e surpreenderam a todos pela magreza e entrega aos respectivos papéis. Só que as comparações terminam por aí.

Antes de seguir falando do filme, quero comentar mais sobre McConaughey. O papel dele em Dallas Buyers Club é muito, mas muito mais complicado que o de Hanks em Philadelphia. Para começar, porque o Andrew Beckett de Hanks era um sujeito sensível, “boa gente”, advogado gay que acaba sendo injustiçado porque tem uma doença contagiosa e sem cura, enquanto Ron Woodroof é um sujeito grotesco, preconceituoso, machista, que vive entre o trabalho como eletricista e a gandaia de mulheres, bebidas, cocaína, sexo e rodeios. Beckett era o modelo de personagem que emociona pela delicadeza e cria unanimidade por ser uma vítima. Woodroof começa como anti-herói, avança como oportunista e nos dá algumas boas lições sem ser uma aposta óbvia de “boa gente”.

Enquanto o personagem de Philadelphia começava e terminava a trajetória como exemplo, o protagonista de Dallas Buyers Club talvez termine de contar a própria luta dividindo opiniões. Da minha parte, prefiro o realismo e a complexidade do personagem de McCounaughey – ainda que as duas histórias tenham sido baseadas em fatos reais. Mas voltemos ao filme…

Evidentemente que Ron não consegue comprar AZT. Medicamento de uso controlado e que estava sendo testado, ele tinha uma chegada restrita às pessoas – entrava no grupo de tratamento apenas os pacientes que não estivessem com grandes chances de morrer em pouco tempo, como aparentemente era o caso de Ron. Só que a partir daí que Dallas Buyers Club começa a ficar interessante – e o que diferencia esta produção de outras sobre o tema da Aids.

Pensamos que apenas no Brasil existe o famoso “jeitinho” para quase tudo. Que somos os reis do suborno, da corrupção, e por aí vai. Mas não são poucos os filmes feitos nos Estados Unidos que mostram que existe “jeitinho” para quase tudo em praticamente todas as partes. Nesta produção que começa em meados dos anos 1980, fala mais alto quem tem dinheiro. E é desta forma que ele consegue o AZT com um enfermeiro do hospital que aprecia muito o dinheiro “por baixo dos panos”. Sem qualquer orientação, Ron toma o medicamento sem mudar a rotina – ou seja, em superdoses engolidas entre uma carreira e outra de cocaína e muitas bebidas.

Até o dia em que o hospital começa a trancar o medicamento e Ron fica sem a compra ilegal. A saída dada pelo enfermeiro é o nome de um médico que tem o AZT no México. Depois de passar mal – e ele esta prestes a completar um mês do diagnóstico – ele é atendido no hospital e conhece a Rayon (Jared Leto em um dos melhores desempenhos de sua carreira). Ron só dá patadas nele. Mas pouco a pouco ele também começa a sofrer preconceito – afinal, os “amigos” e conhecidos dele ficam sabendo que Ron está doente e, como ele, pensam que isso aconteceu porque ele é um “maldito gay”. A ignorância impera.

Chegando no México – por puro milagre -, Ron encontra o Dr. Vass (Griffin Dunne), que lhe dá dicas valiosas de como sobreviver. Para começar, ele deve mudar radicalmente os hábitos de vida. Obcecado por continuar vivo – e quem não estaria? -, Ron abraça a causa. E ao mesmo tempo que procura viver o máximo possível, ele vê naquelas restrições aos medicamentos para tratar a Aids nos EUA como uma grande oportunidade de fazer dinheiro. Eis mais um ponto fundamental para o roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack ser tão interessante.

Afinal, os elementos fundamentais nesta produção – e parece que em praticamente todos os lugares – são a vida e o dinheiro. Muitas pessoas que se descobriram estarem condenadas pela Aids não tinham acesso a tratamento. E sempre que algo é restrito, surge um mercado ilegal para tentar suprir aquela demanda. Foi assim com o álcool, quando foi instituída a Lei Seca nos EUA, e será assim sempre que a lógica da demanda não for atendida – este assunto renderia um longo debate.

Dr. Vass explica como a cocaína e o AZT estavam deixando Ron mais suscetível às doenças. Ou seja, ao invés de ajudá-lo, o AZT estava complicando ainda mais a situação do protagonista. E isto, evidentemente, não acontecia apenas com ele. Com efeitos colaterais devastadores, o AZT no início – e mesmo depois – acabava com muitas pessoas que estavam tentando um tratamento para a Aids. Segundo o Dr. Vass, o AZT só era bom para quem estava vendendo o medicamento – e aí entra outra parte importante do filme, a indústria farmacêutica e a FDA (US Food and Drug Administration), responsável por aprovar alimentos e medicamentos para a comercialização nos EUA.

Dallas Buyers Club ganha muitos pontos em discutir as relações discutíveis entre a poderosa indústria farmacêutica e os braços governamentais que definem o que pode ou não ser utilizado pelo povo para combater doenças. O poder e os interesses da indústria farmacêutica já tinham sido explorados pelo ótimo The Constant Gardener. Mas aqui entra em cena outro elemento que é a “caça às bruxas” que o FDA faz não apenas contra Ron, mas contra qualquer indivíduo que tentasse distribuir medicamentos não aprovados no país.

O argumento deles pode parecer óbvio: não é possível permitir a venda de medicamentos por pessoas não autorizadas, especialmente se estes remédios não tiverem a sua eficácia comprovada. Certo. Mas e como outros países permitem outros medicamentos, para os mesmos fins, afirmando que eles são eficazes? A verdade é que a Medicina está em permanente evolução e o que é válido hoje, para alguns, pode ser visto como prejudicial pelos mesmos tempos depois. Na época, e o filme sugere isso, as Indústrias Avinex pareciam bem próximas da FDA – e quem não nos garante que não houvesse suborno para deixar apenas aquele medicamento como permitido?

Quando encontra o médico Vass, Ron descobre que no lugar do AZT será muito mais eficaz a adoção de um coquetel de vitaminas, do zinco mineral, de aloe e ácidos graxos essenciais (chamados popularmente de ômegas) para fortalecer o sistema imunológico. Junto com esta receita, ele recebe o DDC, um antiviral ao estilo do AZT, mas muito menos tóxico. Quando procura a Dra. Eve no hospital, o próprio Ron tinha perguntado sobre o DDC, que estava sendo usado na França. Mais um exemplo que nem sempre o departamento responsável por nos dizer o que é mais saudável e permitido – no caso o FDA – está jogando a nosso favor. E isso ficará comprovado depois.

A partir daí que Ron começa a virar um homem de negócios. Ele passa a importar para os EUA medicamentos similares ao AZT, mas melhores que ele, e se inicia uma batalha no melhor estilo do jogo “gato-e-rato” com a FDA. Sem dúvida estes bastidores do início do tratamento da Aids nos EUA e em outros países é uma das melhores sacadas do roteiro de Dallas Buyers Club. Eu desconhecia completamente esta saga e seus desdobramento e, por isso, o filme me surpreendeu positivamente.

Além disso, claro, há todo o lado humano da produção. Algo que os roteiristas não esqueceram. Não existe um milagre para Ron. Homem inteligente, apesar de escroto, ele percebe que pode ser favorecido pelos contatos de Rayon. Os dois se aproximam e começam quase uma sociedade – ainda que a parte de Rayon nunca tenha passado dos 20%. Proibido de vender os medicamentos nos EUA, Ron forma um dos vários clubes para o tratamento da Aids que surgiram naqueles tempos. A ideia é genial.

Vejamos: se eu não posso vender um remédio para você, vou criar um clube no qual você me paga uma mensalidade. Por participar deste grupo, entre outras coisas, você recebe o medicamento para tratar a Aids – o que não configura uma venda direta. Ainda assim, a FDA persegue Ron porque ele está importante medicamentos proibidos. Evidente. E daí chegamos na solução derradeira para a história – e o que transformou Ron em um herói porque ele, como outros, abriu o precedente para quem quisesse buscar outro tipo de tratamento menos tóxico.

Daí que volto para a questão humana do filme. Ron não vira um herói clássico, daqueles que se sacrifica por alguém ou por uma causa. Pelo menos não de forma clara e/ou despretensiosa. Não. Inicialmente, ele está pensando apenas em sobreviver. Depois, em ganhar dinheiro – vendo que poderia faturar alto com aqueles medicamentos menos tóxicos e proibidos. Só que pouco a pouco ele vai convivendo com diferentes tipos de pessoa e percebe algo que apenas a vida é capaz de ensinar, com o tempo: de que somos todos iguais.

Não importa a cor da pele, com quem você se deita – ou se você não faz isso, suas preferências, crenças ou formato do corpo. No fim das contas, somos feitos de pele, osso, células e mortalidade. Aos poucos Ron vai percebendo isso e consegue ver além do dinheiro. Ele se preocupa para valer com Rayon. E através dele, com muitas outras pessoas com quem ele nem mesmo convive. Para chegar neste ponto, ele não precisou trilhar uma vida de quase santidade. Tudo que ele precisou foi romper os próprios preconceitos e repensar o que ele acreditava saber. Transformou-se em uma pessoa menos presa às coisas materiais e se ligou muito mais ao semelhante dele – seja esta pessoa o Rayon ou a Dra. Eve.

Se isto não é uma redenção de arrepiar e uma história de um herói comum que, quando pôde, soube fazer a diferença, não sei o que pode ser. Para mim, que esperava muito menos deste filme, Dallas Buyers Club foi uma produção de encher os olhos e para inspirar. Fiquei muito na dúvida se deveria dar a nota máxima para este filme… inicialmente, daria. Mas como ainda tenho outras produções para ver para o Oscar, e acho que algo mais pode me parecer superior a este filme, darei a nota abaixo. Mas, dependendo, ela pode ser revista – para baixo ou para cima. De qualquer forma, recomendo Dallas Buyers Club. Grande história, ótimos atores e belo “conjunto da obra”.

NOTA: 9,9 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quem acompanha o blog com alguma frequência deve ter estranhado eu não ter falado da direção de Jean-Marc Vallée antes. Normalmente eu comento o trabalho do diretor logo no início. Desta vez, contudo, não fiz isso por uma razão muito simples: Vallée faz um bom trabalho, mas nada que seja marcante para o filme. Em outras palavras, o trabalho do diretor acaba um pouco eclipsado pelo ótimo roteiro da dupla Borten e Wallack e pelo trabalho do elenco.

Só que já era hora de falar de Vallée, que persegue um estilo “naturalista”, semi-documental para contar esta história. No mesmo estilo de Wendy and Lucy, Frozen River, Winter’s Bone e tantos outros filmes recentes que foram feitos nos EUA. Para o filme ser bom como ele é, Vallée executa bem o próprio trabalho. Mas diferente de outros diretores, ele não imprime a própria marca. Por isso não destaquei o trabalho dele antes.

O ator Matthew McCounaughey teve os melhores anos de sua carreira em 2012 e 2013. Nunca o vi tão bem quanto nos lançamentos destes dois anos, quando ele resolveu dar uma guinada na carreira e assumiu papéis com desafios bem maiores do que o que estávamos acostumados a ver ele fazendo. Assisti e comentei aqui no blog The Paperboy, Mud e Magic Mike, todos lançados em 2012. Agora, além de Dallas Buyers Club, falta assistir ao desempenho dele em The Wolf of Wall Street. De qualquer forma, agora ficou muito mais interessante de assisti-lo em cena. Na minha avaliação, ele está simplesmente soberbo em Dallas Buyers Club.

Evidente que um dos esforços que chamou a atenção neste filme foi o quanto Matthew McConaughey emagreceu para interpretar a Ron Woodroof. Segundo as notas de produção, o ator perdeu “47 pounds”, o equivalente a pouco mais de 21 quilos. Para comparar, quando fez o papel principal de Philadelphia, Tom Hanks teria emagrecido “26 pounds” (algo perto de 12 quilos). Outro que se dedicou muito em Dallas Buyers Club foi Jared Leto. O ator teria perdido “30 pounds” (pouco mais de 13,5 quilos) para fazer o papel de Rayon.

Aliás, como eu comentei antes, talvez este seja o papel da carreira de Leto até aqui. O ator está ótimo, ao ponto de eu demorar um bocado de tempo para reconhecê-lo. A impressão que tanto ele quanto McConaughey nos passa é que eles mergulharam com afinco na história e vivência dos personagens, a ponto de “desaparecerem” por trás das próprias interpretações. Os dois estão ótimos, mas com um destaque especial para McConaughey.

Falando nos atores, até Jennifer Garner, que normalmente acho meio “sem graça” nos filmes, está bem em Dallas Buyers Club. Mais um indicativo de que o diretor soube envolver bem a equipe que deu a cara para bater com esta produção. Agora, só achei que eles poderiam ter escolhidos atores um pouco mais diferentes para os papéis de T.J., amigo de Ron, e Tucker, policial e amigo também do protagonista. Digo isso porque cheguei a confundir algumas vezes Kevin Rankin e Steve Zahn com aqueles bigodes… 🙂

Quase todos os nomes relevantes para a história já foram citados. Mas vale comentar ainda o bom trabalho de Dallas Roberts como o advogado David Wayne, que é quem está sempre representando Ron contra a FDA; e Deneen Tyler como Denise, que muitas vezes vira o braço direito do protagonista na administração do clube.

Da parte técnica do filme, merece destaque a competente edição de Martin Pensa e Jean-Marc Vallée; o design de produção de John Paino; a decoração de set de Robert Covelman e a direção de arte de Javiera Varas. Estes três últimos elementos foram fundamentais para transportar o espectador para os anos 1980, ajudando a ambientar a história. Também gostei da maquiagem da equipe com sete profissionais liderados por Robin Mathews. Também gostei da muito pontual trilha sonora – quase uma intervenção sonora, hehehehehe – de Alexandra Stréliski.

De acordo com as notas da produção, Dallas Buyers Club sofreu com o baixo orçamento. O filme, rodado em 25 dias, não contou com iluminação especial e foi todo feito com uma câmera de mão que fazia takes com até 15 minutos de duração. Uau! Mais um motivo, ao saber disso, para admirar o trabalho de Jean-Marc Vallée. É preciso ser bom para conseguir fazer o que ele fez com tão pouco dinheiro.

Para cortar ainda mais os custos e reduzir o tempo de filmagens, o diretor abriu mão dos ensaios e trabalhou apenas com o material rodado naqueles 25 dias – os atores não tiveram que refazer qualquer cena ou gravar novos áudios na pós-produção.

Dallas Buyers Club passou por um longo processo para ser filmado. E só conseguiu sair do papel porque o ator Matthew McConaughey entrou como um dos produtores. Antes, outros nomes tentaram tirar o projeto da gaveta. Entre eles, a dupla Brad Pitt e Marc Forster e também Ryan Gosling e Craig Gillespie. Nos anos 1980, Dennis Hopper quis dirigir o filme, tendo Woody Harrelson como protagonista, mas eles não conseguiram a verba necessária para colocar o projeto de pé.

Agora, uma curiosidade interessante sobre a produção. Jared Leto quis levar tão a sério o personagem que no período de filmagens – naqueles 25 dias citados -, ele não saiu da “pele” de Rayon. Exemplo: certa vez ele chegou a sair para fazer compras caracterizado como o personagem – e não com a roupa que Rayon vai “visitar” o pai, com certeza.

Apesar da história toda ser desenvolvida, basicamente, em Dallas, esta produção foi totalmente rodada em Nova Orleans.

Falando no baixo orçamento da produção, Dallas Buyers Club teria custado cerca de US$ 5,5 milhões. Uma miséria para os padrões de Hollywood. Nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 16,4 milhões até ontem, dia 9 de janeiro.

Dallas Buyers Club estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme passaria por outros três festivais – incluindo o de San Sebastián. Até o momento, o filme conseguiu a admirável marca de 34 prêmios e de outras 28 indicações. Entre os prêmios que está buscando estão dois Globos de Ouro: o de Melhor Ator para Matthew McConaughey e o de Melhor Ator Coadjuvante para Jared Leto. Quem leva vantagem nos prêmios, até o momento, é o ator Jared Leto: ele recebeu 15 prêmios pelo trabalho como Rayon. Pouco atrás vem Matthew McCounaughey, que recebeu oito prêmios pelo trabalho como Ron Woodroof.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Dallas Buyers Club. Uma boa avaliação – apenas para comparar, o “mega” sucesso Gravity tem apenas três décimos a mais. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 160 textos positivos (!!) e apenas 13 negativos para Dallas Buyers Club, o que garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,7 para o filme.

Por ser uma produção 100% dos Estados Unidos, este filme entra na lista de produções avaliadas aqui no blog e que satisfazem uma votação feita aqui no blog – que escolheu os EUA como um dos países para render uma série de textos por aqui.

CONCLUSÃO: Vários filmes de Hollywood e de outras latitudes já trataram sobre o tema da Aids. E agora, que estamos cada vez mais próximos de uma cura definitiva para a doença, alguns podem achar que não é mais tempo de falar do assunto. Pois Dallas Buyers Club surpreende com uma história que ainda não foi contada. Revela, com um roteiro de tirar o chapéu, como funciona a máfia da poderosa indústria farmacêutica no mundo. E de como pessoas comuns tiveram que driblar diversos interesses e restrições para tentar um tratamento melhor do que inicialmente lhes prometiam. Mais que isso, Dallas Buyers Club nos ensina como a redenção pode ser buscada por qualquer um, e que não é preciso ser um santo para tomar atitudes heroicas.

Este filme consolida uma guinada na carreira importante do ator Matthew McConaughey. Ele está brilhante nesta produção – a ponto de poder ser comparado com Tom Hanks quando ele ganhou um Oscar por Philadelphia. Mas diferente de Hanks, McConaughey encara um papel controverso, de um sujeito que era um escroque e que acabou dando uma guinada corajosa na própria vida. Para mim, este filme foi uma surpresa. Uma produção bem redonda, com uma história pouco contada e belas interpretações. Não é um conto de fadas, mas tem muito a ver com a vida real das pessoas. Fascinante e uma das boas surpresas desta temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Tenho acompanhado a alguns dos melhores nomes da crítica nos EUA para saber sobre as bolsas de apostas para a maior premiação do cinema daquele país – e mundial – neste ano. E na lista de dois destes nomes, Anne Thompson e Peter Knegt, Dallas Buyers Club sempre aparece em várias categorias.

Francamente, acredito que o filme possa ser indicado a cinco prêmios: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição. Sendo otimista – até porque estou na torcida para que ele fique bem na disputa. Mas pessoas como Thompson e Knegt tem menos confiança em Dallas Buyers Club. Normalmente o filme aparece com chances reais de aparecer apenas nas listas de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante. Ele até está nos palpites para Melhor Filme, mas bem depois de outros candidatos. Logo veremos.

Dos filmes que vi até agora – e tenho muitos para ver ainda, inclusive alguns dos cotados mais fortes -, Dallas Buyers Club foi o que mais me surpreendeu (provavelmente junto com Captain Phillips). A história me pareceu mais interessante que outros favoritos como 12 Years a Slave e Gravity. Acho, desta forma, que ele deveria estar entre os 10 indicados como Melhor Filme no Oscar. E que Matthew McConaughey e Jared Leto devem ser indicados, ainda que este ano esteja muito disputado para atores – especialmente na categoria principal.

Também vejo como bastante justa a indicação do roteiro – ainda que esta categoria seja mais complicada de fazer um prognóstico porque são apenas cinco que chegam a ser indicados e ainda preciso assistir a vários outros com Roteiro Original. Edição seria um “plus” na lista de indicações. Reais chances de ganhar? Talvez em Melhor Ator Coadjuvante, já que McConaughey tem uma tarefa complicada ao concorrer com Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave) e Tom Hanks (Captain Phillips). Saberemos quem de fato chegará a uma indicação em menos de uma semana, no próximo dia 16.